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Rachmaninoff - Rapsódia Paganini - Análise

Entre 1802 e 1817 o compositor e violinista italiano Nicolò Paganini escreveu sua peça mais representativa, os 24 Caprichos para Violino Solo. Um deles, o 24º Capricho, contém um tema que serviria de inspiração para grupos de Tema com Variações ou as mais diversas obras para vários compositores - em especial, Liszt, Chopin, Lutosławski, Brahms e Rachmaninoff.


Villa Senar, de Segei Rachmaninoff, Suiça
Villa Senar, Suíça.

Em 1934, o compositor russo Sergei Rachmaninoff (1873 - 1943) descansava na sua Villa Senar, na Suíça - ele morava nos EUA - quando compôs sua última obra concertante, depois do Concerto Nº 1, do Concerto Nº 2, do Concerto Nº 3 e do Concerto Nº 4, todos para Piano e Orquestra. Era a Rapsódia sobre um Tema de Paganini, seu Op. 43.


Essa Rapsódia é uma espécie de Tema com Variações, só que mais livre. Ou seja, quando o compositor quer devanear, ou se desviar da função de escrever uma variação estrita para o tema, ele o faz.


Sergei Rachmaninoff
Sergei Rachmaninoff.

Rapsódia sobre um Tema de Paganini, Op. 43 (1934)


Estreada em 7 de novembro de 1934, com Sergei Rachmaninoff ao piano e a Orquestra de Filadélfia, sob a regência de Leopold Stokowski. Essa mesma formação fez a primeira gravação da peça, em dezembro do mesmo ano.


Duração: cerca de 24 minutos.


Orquestra

Madeiras:

2 Flautas; 1 Flautim; 2 Oboés; 1 Corne Inglês; 2 Clarinetes; 2 Fagotes


Metais:

4 Trompas; 2 Trompetes; 3 Trombones; 1 Tuba


Percussão:

Tímpanos; Caixa Clara; Triângulo; Pratos; Bombo Sinfônico; Glockenspiel


Cordas:

Primeiros Violinos; Segundos Violinos; Violas; Violoncelos; Contrabaixos; Harpa


A obra contém uma introdução, um tema e 24 variações. Pode ser dividida em 3 seções, o que a aproxima ainda mais de um concerto para piano.


A estrutura Tema com Variações, como sugere, consiste na apresentação de um tema (que não precisa ser do compositor das variações), seguida de uma série de variações, ou seja, pequenas ou grandes modificações desse tema, mas sempre de modo que percebamos sua presença, ou ao menos de características dele: seu formato, sua harmonia, seu desenho, seu ritmo etc.


O que acontece é que o compositor pode se valer de técnicas musicais que acabam disfarçando o tema, como o espelhamento, a inversão, a mudança de harmonia. Mas em cada variação, por mais distorcido que o tema esteja, ele está presente.


Na famosa Variação 18, fica difícil perceber o tema, a não ser que se atente para o fato de que se trata de uma inversão da melodia. A mesma melodia, mas tocada de modo que, quando no original, se sobe uma nota, agora se desce.



 

O tema


O Capricho de Paganini que contém o tema é, ele mesmo, um jogo de Tema com Variações, como você pode conferir no vídeo abaixo da excepcional violinista norte-americana Hilary Hahn. O tema em si, que atiçou tantos compositores, segue até os 32 segundos. É bem simples, mas ótimo para variações. (O resto do Capricho é dificílimo.)


 

Análise


No vídeo abaixo, temos o pianista russo Nikolai Lugansky com a Orquestra Nacional Russa, regida por Alexander Vedernikov.



Introdução: Allegro vivace (10s)


A introdução não propõe ainda o tema, ela só nos dá o tom da música. Literalmente: lá menor.


Variação 1: Precedente (17s)


Uma variação precedente. É por isso que ele não chamou a peça de Variações sobre um Tema de Paganini. Chamá-la de Rapsódia traz muito mais liberdade com relação à forma. Especialmente a não necessidade de trazer primeiro o tema certinho e seguir com as variações estritas.


Essa variação em si apenas delineia a harmonia da música, de maneira muito sutil, como se estivesse ainda tramando o que fazer.


Tema: L'istesso tempo (37s)


O tema é apresentado pelos violinos, assim como na música original é um violino que o toca. O piano toca apenas algumas notas, para fazer uma reentrada também sutil.


Variação 2: L'istesso tempo (56s)


Agora o piano assume, fazendo a melodia com umas apogiaturas, que são as pequenas notas que ele dá antes das notas importantes. A adição dessas apogiaturas já faz dessa seção uma variação. Na segunda seção tem início o piano de Rachmaninoff, que pode ser pesado ou leve (o compositor tocava passagens rápidas com muita leveza), mas sempre exige técnica.


Variação 3: L'istesso tempo (1m16s)


Aqui não temos o tema, apenas temos a ideia de que ele está presente por causa da harmonia. Isso vale para todas as próximas variações.


Variação 4: Più vivo (1m41s)


Essa interessante variação faz um encurtamento da melodia. Em 1m53s o corne inglês assume, enquanto o piano começa a exercer seu papel concertante.


Variação 5: Tempo precedente (2m11s)


Uma variação como uma Tocata. Tocata, atualmente, resume algo ligeiro, que não pode ser cantado. A criatividade de Rachmaninoff é espantosa.


Variação 6: L'istesso tempo (2m40s)


Essa variação é repleta de ritenutos. Quando se escreve a palavra ritenuto em sobre a partitura, deve-se desacelerar a música. Isso ocorre geralmente nos finais de frase.


Repare que ele joga trechos do tema, especialmente no clarinete (3m09s). No final da variação isso vai se tornando mais frequênte, com a flauta e o corne inglês.


Variação 7: Meno mosso, a tempo moderato (Dies Irae) (3m42s)


Os fagotes e violoncelos tocam pequenos incisos do tema, enquanto o piano canta uma melodia coral que insere na música um novo tema: o Dies Irae, um cantochão (Canto Gregoriano) medieval, que Rachmaninoff sempre usava quando queria tratar de morte ou assuntos funestos. No piano, mal dá para perceber, pois ele não usa a harmonia subentendida do Dies Irae, mas a melodia é a seguinte:



O Dies Irae é um poema medieval que se costuma musicar em um Réquiem, a missa dos mortos (além de passagens bíblicas). Mozart compôs um particularmente interessante no seu Réquiem em Ré menor, sua última obra.


Obs. Existe a Sequência Dies Irae, que comporta: Dies Irae, Tuba Mirum, Rex Tremendae, Recordare, Lacrimosa e Pie Iesu; e existe o Dies Irae em si, a primeira parte dessa sequência. Quase todo Réquiem inclui a sequência inteira ou parte dela.


Este Dies Irae em particular é de autor e data desconhecidos, podendo ter sido composto entre o século XI e o XIII. Ele não faz parte de um Réquiem, pois estes começaram a aparecer na Renascença (século XV).


Variação 8: Tempo I (4m54s)


A variação 8 conta novamente com um encurtamento do tema, no piano. E uma escrita mais virtuosística, dialogando mais com as madeiras (5m14s) e com as cordas (5m20s).


Variação 9: L'istesso tempo (5m29s)


Baseado em quiálteras de colcheia, que dá esse acompanhamento martelado, ouvimos o col legno, que é quando as cordas usam a parte da madeira do arco, em vez da crina de cavalo, para dar pequenas pancadas nas cordas. Ouvimos também a percussão.


Variação 10: Poco marcato (6m01s)


Na variação 10 ouvimos de forma plena o Dies Irae, tocado nas cordas graves do piano. Aos 6m14s temos uma evolução dessa melodia. Mas Rachmaninoff faz isso sem sair da proposta harmônica que havia inserido anteriormente, que é derivada daquela do tema. Essa parte tem um final bem definido, fazendo uma pausa para a chegada da próxima.


Variação 11: Moderato (6m51s)


Aqui é como se começássemos o 2º movimento. O movimento lento. É nesse movimento que teremos modulações, com as sessões aparecendo em tonalidades que não o lá menor. Com um clima mais onírico, os violinos e violas, em trêmolo, vão abrindo um facho de luz, que acaba desembocando numa plácida declaração do tema (fragmentos dele) pelo piano. Aos 7m45s temos pequenas cadências do piano.


Variação 12: Tempo di minuetto (8m12s)


Essa é minha variação favorita. É em ré menor. Veja que beleza. Ela começa com as cordas em pizzicato, e o piano tece comentários em terças. Essas terças vão evoluindo e constroem um dos contracantos mais bonitos da obra (8m50s). Ele escreveu Tempo de Minueto, que é 3/4, assim como a valsa.


Variação 13: Allegro (9m35s)


Também em ré menor, na variação 13 o tema aparece, mesmo que um pouco desfigurado, nas cordas, logo no início, sobre uma harmonia pedal (o baixo dos acordes é sempre o mesmo, nesse caso, uma nota grave que o piano fica repetindo no contatempo).


Variação 14: L'istesso tempo (10m06s)


É na relativa de ré menor, fá maior. Essa ligeira variação é meio elétrica, com as madeiras tocando o motivo principal.


Variação 15: Più vivo scherzando (10m52s)


Fá maior, também. Scherzando, como vimos em outras análises, significa brincando. A harmonia ainda é perceptível, mas vem com acréscimos.


Variação 16: Allegretto (11m58s)


É em si bemol menor, que é a vi (sexta menor) de ré. O Allegretto tem uma atmosfera difusa. Aos 12m42s ouvimos um violino solo trazer uma lembrança do tema. Repare no oboé, aos 13m26s.


Variação 17: (Allegretto) (13m36s)


Também em si bemol menor. Essa variação pode ser vista como uma preparação para a grande melodia da obra. O piano toca arpejos graves e as madeiras vão tocando suas notas. Tudo parece mesmo um preparo.


Variação 18: Andante cantabile (15m32s)


Em ré bemol maior.


Nessa variação de puro encanto, o piano faz, como mencionado anteriormente, o espelhamento da melodia. Sua cantilena, às vezes acompanhada pela orquestra, segue inabalável por uns bons 2 minutos, sendo a mais longa variação. Tempo suficiente para você ser transportado para outra relalidade. Aqui acaba o 2º movimento, ou 2ª seção.


Essa variação ficou tão famosa, aparecendo em coletâneas de música clássica, muitas vezes separada do resto da música, que Rachmaninoff disse: "Essa é para o meu empresário".



Tempo vivace (18m32s)


A terceira seção se parece mais com um finale. Inclusive, não começa com uma variação, mas uma curta introdução, em pizzicato nas cordas. Em tempo vivo, que é bem rápido.


Variação 19: L'istesso tempo (18m41s)


L´istesso tempo significa o mesmo andamento, isto é, continua rápido. Temos uma que até parece com uma das variações originais de Paganini. Pizzicatos nas cordas e o piano volta ao seu estilo tocata. Ela faz menção à variação que você ouve aos 3m07s do vídeo da Hilary - uma das mais difíceis.


Variação 20: Un poco più vivo (19m05s)


Aqui, notas ligeiras das cordas, enquanto o piano faz uma melodia entrecortada.


Variação 21: Un poco più vivo (19m41s)


Trabalha com um ostinato do piano (um pequeno trecho repetido várias vezes). E as cordas, vez por outra, tocam um inciso do tema, embora seja difícil discernir.


Variação 22: Un poco più vivo (Alla breve) (20m07s)


Aqui temos a uma variação longa. Os incisos, tocados pelas cordas, tornam-se mais perceptíveis. O movimento faz um crescendo, com a ajuda das percussões, passa pelo Dies Irae e desemboca em uma passagem das cordas e do piano tocando escalas hipnóticas.


Variação 23: L'istesso tempo (21m32s)


Agora, o piano revê o tema, de maneira rápida. Quando a orquestra entra, toca o mesmo tema, mas modulado, em outro tom. Temos um caráter de coda já nessa variação, mas o coda em si é a próxima.


Variação 24: A tempo un poco meno mosso (22m23s)


Concentrada no piano, essa variação vai dar fim à música, de maneira brilhante. É, sem dúvida, a variação mais difícil para o piano, e que torna a música virtuosística. A parte do piano contém glissandi e saltos de mão. A orquestra toca o Dies Irae (23m07s) e depois temos o final.


 

Considerações finais


Conhecemos uma das mais adoradas e queridas peças de Sergei Rachmaninoff. Alguns a consideram seu Concerto para Piano Nº 5. De escrita exemplar e com um plot twist no final - a bela melodia da variação 18 - é uma obra arrojada e elegante. O uso do Dies Irae, que pode incomodar alguns (porque Rachmaninoff sempre usa) é bem dosado e discreto.


Na estréia, em novembro de 1934, na Lyric Opera House, em Baltimore, EUA, com a Orquestra de Filadélfia, regida por Leopold Stokowski, conta-se que o compositor, que tinha medo de palco, estava com uma ansiedade enorme. Por conselho de seu amigo, o grande pianista Benno Moiseiwitsch, ele bebeu um pouco de álcool antes de entrar. A performance foi um sucesso estrondoso. Ele nunca mais entrou em um palco sem beber um pouquinho.


Hoje, é uma das peças mais gravadas do compositor. Segundo a revista Gramophone, existem 400 gravações da peça, que é um número absurdo, comparável ao de uma Sinfonia de Beethoven.


É uma jóia do Romantismo Tardio, numa época que já havia visto a "Sagração da Primavera", os Concertos de Bartók, a Música Dodecafônica e tanta coisa dissonante. Rachmaninoff era o compositor que o mundo permitia ainda ser romântico para nos mostrar as belas músicas que sua alma criava.


 

Gravações recomendadas


- Sergei Rachmaninoff ao piano, com a Orquestra de Filadélfia, regida por Leopold Stokowski - Gravada no natal de 1934, mostra a facilidade com que as mãos gigantes do gigante russo enfrentavam até as mais ligeiras passagens. É uma gravação de valor altíssimo, em que podemos ouvir as verdadeiras intenções do compositor, os rubatos, as intensidades e os andamentos. Mais que isso, para a época, é uma gravação excelente, quase sem chiado. Quando eu tinha 10 anos, descobri que um primo tinha uma caixa com todas as gravações de Rachmaninoff e aperreei meu pai para comprar dele. Não podia deixar de ouvir Rachmaninoff interpretando Rachmaninoff. Ele foi considerado o maior pianista do século XX por outros pianistas.


- Earl Wild, com a Royal Philharmonic Orchestra, regida por Jascha Horenstein - O som dessa gravação incomoda um pouco. É um tanto artificial. Mas o pianista americano Earl Wild tem na obra concertante de Rachmaninoff um dos pontos altos de sua discografia. É uma versão diabólica, sem leveza, mas muito interessante, de 1965.


- Yuja Wang, com a Orquestra de Câmara Mahler, regida por Claudio Abbado - Uma das versões mais modernas, com a excepcional pianista chinesa Yuja Wang. O som é impecável, dá pra ouvir cada inflexão, cada instrumento. Recomendadíssima. É de 2011.


- Daniil Trifonov, com a Orquestra de Filadélfia, regida por Yannick Nézet-Séguin - O jovem pianista russo Daniil Trifonov gravou seu ciclo (os 4 Concertos e a Rapsódia) com a mesma orquestra com que o compositor gravou. O resultado é admirável. Mais uma vez temos um som excepcional, da gravação, um solista que é um dos maiores da atualidade e, agora, uma orquestra lendária, com seu jovem e talentoso líder. De 2015.


- Arthur Rubinstein, com a Sinfônica de Chicago, regida por Fritz Reiner - Essa foi considerada por muito tempo a gravação modelo da obra. De fato, é sensacional, Rubinstein toca com tranquilidade. É de 1956.


- Vladimir Ashkenazy, com a Orquestra do Concertgebouw, de Amsterdã, regida por Bernard Haitink - Ashkenazy gravou antes, nos anos 70, com a Sinfônica de Londres, regida por André Previn. Mas essa aqui, de 1985, é claramente melhor. O som, a orquestra, o regente, tudo para criar a versão perfeita da Rapsódia. Tudo bem, o som é excelente, mas não é perfeito. Às vezes os instrumentos se misturam. Mas é apenas uma pequena incoveniência. Trata-se da gravação com mais impacto e peso, além de lirismo e pura beleza.



 

E, como sempre, o encorajamos a comentar. Nosso dever é difundir a música clássica, e não sabemos exatamente se estamos conseguindo. Às vezes parecemos rádio-amadores, transmitindo para as galáxias (possivelmente) solitárias. Seu comentário faria muita diferença. Pode ser de pirraça, de elogio, de desabafo, de conversa. O que for. Agradecemos. Algumas postagens importantes.


Uma opção para o dilema de tocar ou não Música Russa nos concertos hoje em dia.



Aqui, 10 Livros Sobre Música Clássica


Veja aqui:



As Melhores Orquestras do Mundo:



Perfil da pianista portuguesa Maria João Pires, postagem da nossa correspondente prodígio lusitana Mariana Rosas, do Blog Pianíssimo (www.pianissimo.ovar.info).


Perfil da violinista francesa Ginette Neveu, falecida aos 30 anos em um acidente de avião, em 1949.


Perfil do pianista brasileiro Nelson Freire, considerado um dos maiores dos tempos modernos e falecido em 2021.


Veja também:




E veja nossas famosas listas:



Música Popular Brasileira:



E análises de obras



Compreendendo o Maestro:



Saiba, aqui, tudo sobre os Argonautas, um quarteto de MPB Clássica e Contemporânea Autoral Cearense.


Papo de Arara (Entrevistas)


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