• Rafael Torres

Música Clássica é Elitista?

Tudo bem. Vamos lá. Existem várias maneiras de observar e de responder essa pergunta. E não há resposta simples. Primeiro, quero que imagine que é um compositor em Viena, em 1820. Especialista em Música de Câmera e música para piano. Você é Schubert. Você acha que, quando compõe uma nova sonata, você pensa: "vou escrever isso aqui de modo que só quem é rico possa desfrutar"? Digo isso porque só tem 2 maneiras de alguém ouvir a música: paga um ingresso e assiste àquilo em um teatro (imagino que devia ser caro); ou compra a partitura e toca ou pede para alguém tocar no piano (que também era caro).

Eu sinceramente acho que essa questão não passava pela cabeça do compositor. Ele tinha que ganhar a vida, logo, tinha que cobrar ingresso (Schubert foi um mal exemplo que dei, porque ele mal ganhava a vida com composição, mas vamos lá). O piano era o instrumento mais sofisticado, que permitia ao compositor perfilar sua gama de conhecimentos e de estados sentimentais. Era só isso. Todo mundo que ele conhecia tinha um piano. Existiam pessoas pobres na cidade, que mal tinham dinheiro para comprar um pão. Mas, mesmo as pessoas mais pobres, davam um jeito de, uma vez na vida, ver um concerto. As músicas mais populares, geralmente de ópera, eram assoviadas nas vielas da cidade por gente de toda sorte.


O pobre era mal-tratado, isso ele era, é e, provavelmente, sempre será. O mundo não é pra ele. Mas vamos lembrar aqui de um exemplo não clássico e mais recente. O Fortal. Para entrar nas cordinhas que cercavam o trio elétrico, lembro bem, nos anos 90, você desembolsava 1.000 reais. Na época equivalia a umas duas ou três mensalidades da escola. Os pobres eram relegados à "pipoca", um grupo que cercava as cordas e era vigiado com dedicação por seguranças armados. Tem coisa mais elitista que isso?


Você acha que é mais barato, em São Paulo, por exemplo, ir a um concerto da Sinfônica Estadual ou do Iron Maiden? Respondo: é do Iron Maiden. E eles são elitistas? Meu caro, a sociedade é elitista. A música clássica é reflexo da sociedade. Aliás, pior ainda, é reflexo de uma sociedade de dois, três séculos atrás.


Para ser bem claro: se estivermos pensando naquele cidadão que mal tem o que comer, tudo, inclusive a música clássica, a "popular", as roupas, o ar-condicionado, o vocabulário e o bom português lhe são negados. Os livros, a internet.


A dependência da música erudita de um piano pode ser encarada como uma pista de que ela se serve ao deleite dos mais abastados. Mas deixa eu contar uma historinha: levei 25 anos para conseguir comprar uma flauta descente. 5 mil reais. Piano, aqui em casa tem quatro: um de armário, um de 1/4 de cauda, e dois digitais. Se eu quiser mais um e souber procurar (que seja usado, mas que ainda esteja bom para tocar), vou acaba achando um por R$ 1.500. Sabe quanto custa uma sanfona? R$ 20.000, uma boa. A mais barata que eu consegui comprar, era R$ 1.500, usada, e isso foi 20 anos atrás. Quando ela foi roubada e eu fui atrás de outra, encontrei o mesmo modelo, usado também, pelo dobro do preço, no mesmo fornecedor.


Instrumento "popular" é o violão, não é isso? Verdade, os mais baratos custam até 300 reais. Instrumentos ruins, sem som, sem projeção. Mas que dá pra começar. Mas digo quase o mesmo do piano. E para aprender? Fora aqueles raros casos de músicos autodidatas - que são muito esquisitos, porque o músico que tem um professor às vezes passa tanto tempo estudando sozinho do quanto o autodidata passa em rodas de músicas com seus companheiros, aprendendo e aprendendo - a educação formal é cara. Mas, mais uma vez, não é uma prova de ela ser elitista. Já vi alunos pagando caro para aprender escalas pentatônicas na guitarra! E já vi alunos terem aula de graça de violino e violoncelo. Se você vir um professor entrando numa favela para dar aula de música voluntariamente, provavelmente ele vai ensinar música clássica.

Então, esse assunto, considero encerrado. As coisas se equivalem, ira a um show do Roberto Carlos pode ser bem mais caro do que ira para um concerto. Comprar um violoncelo pode ser mais barato que comprar uma sanfona. O mundo não quer que os pobres tenham direito a nada. Ora, se nem à dignidade? Nem entrar numa loja mal vestido você pode... O pobre é tratado como um cachorro, passamos por ele, ele balbucia algo sobre fome e desespero e crianças para criar e você vira a cara. Vira a cara na esperança de que, um dia, o mundo, a esquerda, a direita ou o centrão (tá, não o centrão) vá livrar o mundo daqueles miseráveis. Dar oportunidade a todos ou qualquer coisa assim. Você voluntariamente ignora o fato de que hoje a população rica é muito mais rica que outrora e a pobre, muito mais abundante que no passado. E que, no futuro, eles serão ainda mais.


Se você tem preguiça de assistir a um concerto, diga isso. Se gosta mesmo é de um funk sobre vaginas encaixando em pênis (sem espaço para interpretação), não vejo problema. Agora, culpar a música? Dizer: "desta coisa elitista não participarei, porque exclui meus amiguinhos pobres", ao se deparar com a música erudita, meu caro, você está fazendo errado. Tudo errado. Comece sabendo que toda orquestra tem séries gratuitas de concertos. Acha que o Safadão separa umas datinhas na agenda dele para fazer shows gratuitos? Acha?


Voltaremos ao assunto. Vou tratar da quase ausência de negros nas orquestras. E vou logo admitindo. Isso é um problema da música clássica, sim. Isso, sim, é elitismo. É uma cultura que vem de séculos e que demora para mudar. Mas, como eu disse, outra hora.

 

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