• Nílbio Thé

papo de arara: Entrevista com verônica oliveira


Texto: Nílbio Thé

Colaboração: Hannah Moreira


Verônica Oliveira. No meu celular, o contato dela está salvo como "Verônica Faxineira Hipster": Nome, profissão (ou ex-profissão, já que ela está em fase de transição) e adjetivo. No mar cibernético de influenciadores de falsidades, pessoas que fingem que a vida é maravilhosa como uma propaganda de margarina (que todos sabemos, só faz mal pra saúde, tanto a margarina como a propaganda), Verônica consegue brilhar justamente por sua autenticidade e por mostrar que não é perfeita. Parafraseando Vinícius de Moraes, se todo digital influencer fosse como ela, existiria verdade no mundo, verdade que ninguém vê.


Por e-mail e mensagens de áudio no WhatsApp, Verônica nos respondeu no meio do corre que é sua vida (como a de muitas pessoas, sobretudo mulheres trabalhadoras e mães solo) e com o aditivo de estar mais famosa a cada dia (o que faz com que talvez você já tenha ouvido falar dela) pelas suas aparições em inúmeros programas de TV. A última que vi, logo depois dela nos conceder a entrevista, foi um vídeo no qual ela desabafa sobre como as pessoas pressupõem que ela não é inteligente pelo fato dela ser faxineira e se surpreendem ao saber que é bilíngue, e também tenta rebater "acusações" de que ela "glamorizava o serviço doméstico" (certamente gente que não tem o que fazer além de encher o saco das pessoas). Daí a gente se falou e ela estava assustada e, em meio a gargalhadas, comentou comigo algo como "Nílbio, desculpa, mas tem duas mil mensagens diretas para mim no meu Instagram". Dois dias depois perguntei se ela ainda estava preocupada com isso de tentar responder mensagens e ela disse "Agora não, porque tem cinco mil!" e mais gargalhadas. Atualmente, no Instagram, ela tem por volta de 300 mil seguidores. Vamos à entrevista.


Arara: Qual foi o lampejo que te motivou a iniciar no ramo da faxina e onde você já trabalhou (ou tentou trabalhar) antes? Verônica: Sempre trabalhei como operadora de telemarketing, mas na última empresa onde trabalhei meu salário era baixo demais, um salário mínimo, e eu tenho filhos, não era viável. Depois de uma crise depressiva motivada pela dificuldade financeira e depois de limpar a casa de uma amiga e ver o quanto ela se sentiu satisfeita, decidi que a faxina seria uma forma de recomeçar.

Como surgiu o perfil @faxinaboa? Conta um pouco sobre sua trajetória profissional, o que te trouxe até aqui?

Para conseguir clientes, decidi fazer um post no meu Facebook pessoal e esse post viralizou. Era uma propaganda inspirada em referências de cultura pop, que é algo que me define demais, e as pessoas queriam me adicionar no perfil pessoal e não curti a ideia hahaha então criei uma página para separar um pouco as coisas, mas não tinha planejado me tornar uma criadora de conteúdo. Quando você percebeu que o Faxina Boa deu certo (ou que está dando certo)?

No dia em que uma seguidora disse que passou a se valorizar enquanto trabalhadora doméstica após ler os meus conteúdos, entendi que tinha um grande sentido naquilo que eu estava fazendo, que vai para além dos números e da grana.

Como você lida com discriminação e elitismo na sua vida?

Muitas vezes eu rebato e discuto ali no momento, mas é cansativo e não é em todo momento que estou a fim de educar e explicar coisas, e acabo relevando, apesar de saber que não é o ideal.

Mas tem alguma história engraçada decorrente de um bom relacionamento com clientes? Por exemplo, um dia cheguei em casa, era adolescente, e minha mãe estava varrendo a casa loucamente. Eu perguntei por que ela estava fazendo isso, já que a nossa faxineira, a Celiene, ia no dia seguinte. Ela disse que é porque a casa estava tão bagunçada que estava com vergonha da nossa faxineira.

Hahahaha Mas tem... tem muita gente que tem vergonha e limpa a casa antes e a pessoa fala assim “eu tenho vergonha da faxineira pensar que eu sou porca!”. Porra, véio! Em compensação, quando a pessoa pede desculpa e fala “ai, meu Deus, desculpa, a casa tá uma zona”, e quando eu chegava a casa nunca tava tão ruim. Mas quando a pessoa não fala nada... Aí é o caos! Hahahahaha

De tudo o que aconteceu com você, o que você pode nos contar sobre o que mais te marcou de bom e ruim?

Com certeza de bom foi, ao saber que eu nunca tinha viajado de avião e era um grande sonho, uma cliente me chamar para fazer faxina no RJ e pagar a viagem, foi um momento marcante pra mim! De ruim, creio que as situações onde as pessoas acreditam que sejam melhores que eu apenas pela função que eu estava exercendo.

Você também começou a palestrar. Como deu início a essa carreira de palestrante e o que você tinha em mente quando começou?

O convite para a primeira palestra me pareceu muito surreal, eu não fazia ideia de como era e logo de cara foi um evento na sede do Twitter Brasil e o line-up do evento estava repleto de gente bacana e eu achei que não ia conseguir hahahahahaha mas no final foi muito bom e hoje já fiz dezenas de palestras pelo país e sou muito feliz em poder contar minha trajetória pras pessoas.

Se você pudesse dar um conselho para as meninas que estão passando por uma situação difícil na profissão, qual seria?


Não desistir, não abaixar a cabeça e, principalmente, se esforçar em estar sempre atualizada, fazendo o seu trabalho da melhor forma possível.

Os seus maiores desafios atualmente, quais são? Como está sua agenda, sua rotina de trabalho atualmente? Como você está administrando o Faxina Boa?

Hoje em dia eu lido com a exposição, meu maior desafio. Tenho feito trabalhos com marcas: consultorias, publicidade e não faço mais o agenciamento de faxineiras: não é minha pegada ser empresária, fazer pagamentos e trabalhos burocráticos.

Você dá dicas de limpeza e faxina em suas redes sociais, qual a maior dificuldade? Qual a principal dúvida das pessoas?

A minha dificuldade é sempre a cozinha, azulejo engordurado é de matar hahahahaha mas as pessoas pedem muita ajuda com a limpeza do banheiro: vidro do box, mancha no vaso sanitário, etc.

O mundo da faxina mudou de que forma durante a pandemia?

Só de lembrar que a primeira morte por Covid-19 no país foi de uma trabalhadora doméstica, já mostra como a categoria foi afetada: ou as profissionais foram dispensadas e perderam sua fonte de renda ou foram coagidas a continuar trabalhando mesmo durante a quarentena sob ameaça de perder o emprego.*


Verônica, pra você, qual o segredo de uma boa faxina?


Fazer as tarefas com calma e separadamente: não adianta sair fazendo um monte de coisa de uma vez. Dar atenção aos detalhes e FAZER ALONGAMENTO ANTES hahahahahaha

Como você se define profissionalmente hoje, sua profissão (ou profissões)?

Hoje sou criadora de conteúdo para redes sociais e palestrante. Odeio o termo “influencer” porque, pra mim, isso não é profissão, a influência é consequência da relevância do seu trabalho e eu prefiro usar a expressão que eu inventei “inspiradora digital”.

Você começou a entrar em contato e trocar experiências com faxineiras em vários países do mundo através da internet. Sobre isso a gente queria saber:


1: Como você teve essa ideia? Eu fiz uma viagem internacional e trouxe produto de limpeza hahahaha podia ter trazido mil coisas, mas a prioridade foi um limpador pro vidro do box!!! Pensei em mostrar ao meu público e abrir espaço para conversas sobre novas perspectivas da limpeza.


2: O que mais te chamou a atenção nessa troca? Os produtos estrangeiros são muito mais eficazes que os nossos, tornando o trabalho mais fácil, e em parte acredito que aqui isso nem é tão levado em consideração, pois quem faz o trabalho são as domésticas e nem sempre os empregadores estão preocupados com a otimização do tempo dessa profissional.


3: Como você acha que está o prestígio dos profissionais da faxina atualmente no Brasil e em outros países? Por conta da pandemia, vejo as pessoas dando mais valor a partir do momento que elas fazem o trabalho em suas próprias casas, espero que essa percepção se transforme em reconhecimento do valor (moral e material) desse trabalho.

Quais são os seus planos para o futuro? Definitivamente eu quero trabalhar com comunicação, falar para as pessoas, ser um agente de transformação e reflexão. Em breve sairá minha biografia, tenho planos de criar conteúdo em vídeos para redes sociais, coisa que ainda não faço, e continuar estudando, sempre!


A Arara agradece à Verônica pela gentileza da entrevista e ao leitor pela leitura. Sinta-se à vontade para comentar!

 

* Verônica se refere ao conjunto de notícias sobre a morte no dia 16 de março de uma trabalhadora doméstica cujo nome a família pediu sigilo e que contraiu a covid-19 da patroa no Leblon (também um dos primeiros casos registrados e que sobreviveu à doença) no Rio de Janeiro, o que, de fato, é muito emblemático, conforme pode ser confirmado abaixo.


https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/03/19/primeira-vitima-do-rj-era-domestica-e-pegou-coronavirus-da-patroa.htm


No entanto, alguns meses depois descobriu-se que a primeira vítima fatal no Brasil ocorreu quatro dias antes, em 12 de março. Muito pouca gente sabe dessa informação (a gente, por exemplo, não sabia!), como podemos verificar na reportagem abaixo.


https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/06/27/primeira-morte-por-coronavirus-no-brasil-aconteceu-em-12-de-marco-diz-ministerio-da-saude.ghtml


Instagram da Verônica

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