• Rafael Torres

Brahms - Sinfonia Nº 2 - Análise


Uma vez que tinha vencido o enorme desafio de compor sua Primeira Sinfonia, finalizada em 1876, e tirado um gigantesco peso das costas, Johannes Brahms se sentia leve e, principalmente seguro. Sua próxima sinfonia não precisava ser mais tão estudada nos mínimos detalhes para causar o tipo de impacto de que ele precisara. Em outras palavras, ele agora podia ser espontâneo, saberia que, da sua segunda sinfonia, se esperaria uma obra genial, mas não precisava ser um trovão. Em vez disso ele compôs uma sinfonia quase pastoral, que fala de sossego e felicidade. (Embora Brahms tenha famosamente dito que era a peça mais triste que ele já tinha composto, isso porque era nostálgica, e nostalgia pode agradar ou pode doer.)


Pörtschach am Wörthersee nos dias de hoje.
Pörtschach am Wörthersee nos dias de hoje.

No verão de 1877, em uma visita a Pörtschach am Wörthersee, um recanto pra lá de belo na Áustria, ele compôs a Segunda. Nessa idade ele tinha estabelecido um ritual de trabalho. Faria concertos no inverno e, no verão, se tocaria para algum balneário para ficar perto da natureza e compor. Sobre este resort em particular ele dizia que "as melodias eram tão abundantes que se tinha que tomar cuidado para não pisá-las". Ele ficaria lá até 1879 e comporia seu importantíssimo Concerto para Violino, Op. 77 e muitas outras coisas.


A Sinfonia


A Segunda Sinfonia, em Ré Maior, Op. 73 é composta para:

2 Flautas

2 Oboés

2 Clarinetes

2 Fagotes

4 Trompas

2 Trompetes

3 Trombones

1 Tuba

Tímpanos

Violinos I

Violinos II

Violas

Violoncelos

Contrabaixos


É a típica orquestra proto-romântica, ainda que um tanto conservadora. Ela tem 4 movimentos e dura cerca de 40 a 50 minutos, sendo uma obra longa.


Abaixo, temos a nossa habitual e sempre impecável hr-Sinfonieorchester (Sinfônica da Rádio de Frankfurt), regida pelo colombiano Andrés Orozco-Estrada.


1º Movimento - Allegro non troppo (21s)


O primeiro movimento já começa apresentando o Tema A, primeiro nos violoncelos, continuando nas trompas e, logo, nas flautas. Aos 2m33s o Tema B aparece, em terças, nas violas e violoncelos. É o chamado tema Lullaby, ou canção de ninar. Aos 4m01s aparece uma transição que ele vai usar muito no movimento. Aos 4m30s aparece o Tema B nas cordas e, sobre ele, arabescos da flauta. Por volta dos 5m a orquestra se prepara para a repetição, que começa aos 5m20s. Tudo é repetido, como era de praxe.


O desenvolvimento começa aos 6m17s, com a trompa já trabalhando o Tema A e ele já sendo desenvolvido pelo oboé. Repare na escrita contrapontística para cordas (10m50s) sobre a segunda frase do Tema A. Aos 11m18s temos uma insinuação dos trombones que também vai ter consequências. É um caso que prova a habilidade de Brahms em orquestrar, pois a escrita coral dos trombones é perfeita. O ponto culinante do movimento é aos 13m.


Aos 13m17s temos a recapitulação. O Tema A é exposto nos oboés, e depois nas cordas agudas. Ele parece se perder (14m20s), mas o chamado dos trombones faz a orquestra cair no Tema B (14m38s). Tudo é orquestrado com um misto de brilho e discrição. Na verdade, vai depender do maestro, isso soar brilhante ou comedido. Aos 16m35s vemos o Tema B em tom maior nas flautas e oboés.


O coda começa depois de uma divagação na trompa (17m28s) e de lembranças do Tema A nas cordas. Começa exatamente com as madeiras, aos 18m57s, com as cordas em pizzicato. Aos 19m19s temos um momento maravilhoso em que as madeiras se alternam fazendo as três primeiras notas do tema para concluir o movimento. Os trompetes entram com a resposta (19m24s) e tudo vai se concluindo com calma.


2º Movimento - Adagio non troppo (20m19s)


O segundo movimento todo é quase tomado por essa linda cantilena dos violoncelos, em que consiste o Tema A. Ele é repetido pelos violinos e flautas (21m25s). A trompa anuncia o Tema B (21m51s). Ele é repetido nos oboés, nas flautas e nos contrabaixos. E se transforma, mais uma vez nas mãos das cordas (22m38s), numa bela melodia.


Após um breve desenvolvimento, o Tema A começa a dar as caras (25m23s). Ameaça de novo aos 25m53s, no oboé. Até que volta aos 26m29s, mas não plenamente, e sim com a contra melodia dos fagotes. As cordas fazem uma espécie de variação. Repare na bela modulação aos 26m59s. Jogada de mestre. Depois temos ainda alguns conflitos e a música resolve em paz.


3º Movimento - Andante grazioso (quasi andantino) (30m20s)


O terceiro movimento é um minueto. Jocoso e inocente, é o mais curto da obra. Já abre com o Tema A no oboé. Repete aos 31m04s. Tem algumas explosões da orquestra, mas no geral é bem tranquilo e bonito.


4º Movimento - Allegro con spirito (35m14s)


O quarto movimento começa quase sem interrupção com as cordas em piano (sotto voce). Aos 35m41s a orquestra explode. Trata-se de uma das músicas mais festivas de Brahms. Confesso que não me atrai como o resto da obra. Mas tem vários momentos de charme. É em forma sonata.


Considerações finais

Manuscrito da primeira página da Sinfonia Nº 2 de Johannes Brahms
Manuscrito da primeira página.

A sinfonia foi estreada em 30 de dezembro de 1877, com a Filarmônica de Viena regida por Hans Richter. Foi um sucesso retumbante. De todas as 4 Sinfonias que viria a compor, esta é sua favorita. Também é a de que eu gosto mais, mas talvez por motivos nostálgicos. Eu, adolescente, tinha planos de escutá-la sozinho em alguma alta colina em Machu Picchu, numa fria noite, que deve ser uma experiência transcendente.


Gravações importantes


- Cláudio Abbado, com a Filarmônica de Berlim - Trata-se de uma gravação não muito conhecida de Abbado, muito tempo antes de ser titular da orquestra. Quando se tornou o regente da Filarmônica ele regravou tudo e são essas versões que escutamos até hoje. Mas essa aqui, de 1971, é especial. Nem sei se é especial só porque é a que está gravada na minha memória, mas nunca achei outra que se comparasse a ela em lirismo. Mas você infelizmente não a encontra no Spotify.


- Eugen Jochum, com a Filarmônica de Londres - Jochum gravou as sinfonias 2 vezes: com a Filarmônica de Berlim e com a Filarmônica de Londres. As duas são de tirar o fôlego. Mas eu escolho o remake londrino, de 1977, porque o som estéreo é bem melhor. Você vai encontrar no segundo disco da coletânea abaixo:

https://open.spotify.com/album/2mv6PrblJaI2FfdYUFWyFX?si=12nrHj-eT-GftDj_afvZ3g


- Daniel Barenboim, regendo a Staatskapelle de Berlim - Essa gravação é recente, e a orquestra está ótima. Baremboim a faz tocar com uma tranquilidade que é comovente. As curvas não são tão sinuosas (isto é, ela nunca passa do piano (fraco) para o forte de uma vez), e, por isso mesmo, tem uma unidade, um som próprio. Muito agradável. É de 2018.


- Marin Alsop, regendo a Filarmônica de Londres - A americana Alsop, que foi regente da OSESP, gravou as 4 sinfonias com a Filarmônica de Londres. São gravações excepcionais. Alsop é uma das primeiras mulheres a se destacar no pódio, foi a primeira a ocupar o cargo de regente titular de uma orquestra grande americana, abrindo espaço para outras como Nathalie Stutzmann e Susanna Mälkki. Essa gravação, de 2005, é completamente acertada, nos mínimos detalhes, e a orquestra está perfeita.


- David Zinman, regendo a Tonhalle Orchestra, de Zurique - Zinman usa uma orquestra reduzida (menos instrumentos de cordas do que a maioria das gravações que vemos aqui, o que se aproxima mais do que Brahms deve ter ouvido em sua época) e algumas técnicas de interpretação histórica, como vibratos comedidos e dinâmicas conservadoras. Por isso mesmo, é uma gravação ímpar, limpíssima e agradável. É de 2012.


- Mariss Jansons, regendo a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã - Outra gravação de 2005. Jansons tira um som incrível das madeiras, metais e cordas da Concertgebouw. Uma das gravações mais expressivas.




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