• Rafael Torres

Orquestra do Concertgebouw - As Melhores Orquestras do Mundo 2

Do jeito que eu estou escrevendo os títulos parece que é em ordem decrescente de qualidade. Não. Vou fazer uma postagem para cada orquestra sinfônica lendária ou excepcional. A maioria entrou nessa lista. Pois bem, como falei no post anterior, sobre a Filarmônica de Berlim, aquela, a Filarmônica de Viena e a do Concertgebouw de Amsterdã costumam se alternar nas 3 primeiras posições. Tem a ver com qualidade, claro, mas também com tradição. São 3 orquestras do século XIX, que estrearam peças dos mais absurdamente famosos compositores e que vêm trabalhando continuamente desde sua fundação.

A Orquestra


A Concergebouw, ou Orquestra Real do Concertgebouw de Amsterdã (Concertgebouw significa sala de concerto) foi eleita, na referida lista, como a melhor do mundo. O fato é que ela pode não ser a orquestra mais empolgante (sabe ser, quando precisa), mas é uma das mais refinadas.


O que isto quer dizer? Seus músicos, individualmente, são virtuoses, cada um deles lapidado para a excelência. E como conjunto, eles sabem soar completamente equilibrados, com um som redondo, em que nenhum instrumento perfura a malha orquestral. Quatro trompas vão soar como um instrumento só, nenhuma delas tocando mais forte que o necessário. As orquestras profissionais de qualidade fazem isso, mas nessa a homogeneidade é especial.


Como o nome diz, é a orquestra municipal de Amsterdã, na Holanda e a orquestra oficial do país. Foi fundada em 1888. Em 1988 a rainha Beatriz acrescentou o título "Real". Existem muitos grupos de câmara derivados dela. Um deles é a Orquestra de Câmara do Concertgebouw (não tô gostando de escrever esse nome o tempo todo). Pois bem, seu som é escuro como vinho tinto. São famosas suas madeiras (flautas, oboés, clarinetes e fagotes). De novo, tanto individualmente quanto como conjunto. Nesse momento estou ouvindo e acabei de escutar um acorde arrepiante, numa peça orquestral de Wagner. Uma orquestra normal, quando toca forte demais, especialmente os sopros, desafina. Concertgebouw não tem isso, não.


A RCO (Royal Concertgebouw Orchestra, no seu nome internacional) gravou mais de mil discos. Desde a época dos discos de cera até hoje. Isso é muito, mesmo considerando o tempo decorrido.


Maestros


Na época de sua fundação, era um tal de Willem Kes (1888-1895). Acho que ele não nos deixou gravações. Mas logo depois assume o lendário Willem Mengelberg (1895-1945). Dele temos várias gravações. Trabalhou, como vêem, 50 anos com a orquestra. Durante o seu mandato, grandes regentes eram convidados, como Gustav Mahler, Pierre Monteux, Bruno Walter e Eugen Jochum. Lembro de ter lido que Sergei Rachmaninoff regeu a orquestra.


Depois da guerra (1945-1959) o titular era Eduard van Beinum, outro regente espetacular com quem gravaram de tudo. Aí assume o primeiro regente realmente moderno deles: Bernard Haitink, um prodígio holandês que tem hoje 91 anos. Ele ficou até 1988. Com Haitink a orquestra conquistou a fama que tem hoje, realizando inúmeras gravações e se sagrando como uma excelente orquestra de Bruckner e Mahler.


Depois de quase 30 anos com Haitink, eles elegem Riccardo Chailly, que fica com a orquestra até 2004, sendo o 1º maestro não holandês a assumir o cargo (é italiano). Chailly era considerado o maior regente vivo por algumas revistas, e até hoje é um dos mais importantes do mundo. Gravou música moderna, fazendo a orquestra sair um pouco do romantismo.

Depois dele, assume o letão (leia direito, é letão) Mariss Jansons (2004-2015), um dos meus regentes favoritos pra qualquer repertório. Chailly também é. Jansons morreu em 2019, aos 76 anos e ainda na ativa. Falar nisso, regentes não costumam se aposentar. O Haitink gravou há um ou dois anos com a Filarmônica de Berlim.


Desde então, o cargo passou pelas mãos do italiano Daniele Gatti, mas outras coisas passaram pelas mãos dele e ele foi afastado. Mulherengo, possivelmente machista e assediador. O cargo ficou vago desde 2018, quando a orquestra anunciou Iván Fischer para começar em 2021. Esse é um gênio húngaro. Ô terra pra ter músico excepcional!


O Concertgebouw



A sala de concertos é magnífica. A acústica é considerada uma das melhores do mundo. Foi inaugurada em abril de 1888, sendo levemente mais antiga que a própria orquestra, que estrearia em novembro. O salão principal, esse da foto, abriga 1.974 cidadãos e tem um suntuoso órgão - não são todas as salas de concerto que têm, mas as que têm podem incluir no seu repertório obras como a 3º Sinfonia de Saint-Saëns, Taras Bulba, de Janáček, música sacra, sinfonias de Bruckner e muito mais.


A Sala de Recital abriga 437 e é mais adequada a música de câmara e, claro, recitais de piano.

 

Gravações Importantes


- Johannes Brahms - Concerto para Piano Nº 1, Concerto para Violino/Robert Schumann - Quarteto com Piano em Mi Bemol - regente: Bernard Haitink, pianista: Emanuel Ax, violinista: Franz Peter Zimmermann - uma versão enérgica dos concertos, que lhes cai muito bem, especialmente ao Nº 1 para Piano (prepare-se para o frenesi). O famoso quarteto de Schumann, que eu não sei o que faz nesse CD, está lindo.


- Sergei Rachmaninoff - Sinfonia Nº 2 - regente: Mariss Jansons - uma das sinfonias mais lindas já escritas numa interpretação calorosa, bem diferente da que veremos abaixo.


- Sergei Rachmaninoff - Sinfonia Nº 2 - regente: Vladimir Ashkenazy - Ashkenazy nos traz uma 2ª Sinfonia de gelo. Sem imperfeições, sem afetações e sem frescura. Mas mantendo a expressividade.


- Hector Berlioz - Sinfonia Fantástica, Abertura "Carnaval Romano" e La Damnation de Faust - regente: Eduard van Beinum - uma das gravações mais importantes do século XX, registra o final da carreira de um dos grandes regentes do nosso tempo. Van Beinum morreria em 1959 regendo a RCO num ensaio da 1ª Sinfonia de Brahms. Repare no 2º movimento da Sinfonia Fantástica, como é impecável o fraseado das cordas.


0 comentário