• Rafael Torres

Berlioz - A Sinfonia Fantástica - O delírio em forma de música


A Sinfonia Fantástica, Op. 14 (Symphonie Fantastique), que apareceu nesta lista, foi composta em 1830 pelo francês Hector Berlioz. Ao que me consta, é sua obra mais conhecida e uma das sinfonias mais importantes de todo o repertório.


O nome "Fantástica" não é no sentido de "olha que sinfonia fantástica", mas no sentido de que é uma grande fantasia. É uma obra programática, isto é, conta uma história. Observem.


São momentos na vida de um jovem artista, que, a certa altura, aparentemente rejeitado por sua amada, resolve se matar com uma dose monumental de ópio. Acontece que ele não morre, mas entra numa alucinação profunda. Os movimentos, que vão contando a história, são:


1. Rêveries - Passions (Devaneios - Paixões) - O artista vê uma moça e imediatamente se apaixona. Ela surge na forma de um tema que irá se repetir por toda a obra: a ideia fixa. O movimento é composto por alternâncias entre esse amor desesperado e outros estados de espírito, como alegria, exaltação, raiva, ciúme.

2. Un Bal (Um Baile) - Ele se vê em vários momentos da sua vida: num baile confuso, contemplando a natureza etc. Mas, qualquer que seja a situação, aparece o pensamento intrusivo da mulher, que o atormenta. Esse movimento é uma valsa superagradável. Algumas gravações da sinfonia incluem uma seção com solo de corneta, que Berlioz acrescentou posteriormente.

3. Scène aux Champs (Cena no Campo) - Ele está numa noite no campo e algo lhe chama a atenção: dois pastores (no bom sentido) tocam o Ranz des Vaches, uma melodia tocada numa espécie de trompa para tanger o gado. Um toca aqui, o outro responde à distância. Esse dueto o faz ter o palpite de que ele também não andará mais só. Mas então vem a pergunta: e se ela for infiel? Essa dúvida vira uma tormenta. O movimento termina com o Ranz des Vaches novamente, mas, desta vez, só um toca, o outro não mais responde. Um grande professor que eu tive, Germán, me fez perceber a orquestração desse movimento. Para ele, no aspecto de orquestração, o romantismo se consolidou aqui. Isso porque as madeiras (flautas, oboés, cornes-ingleses, clarinetes, fagotes) têm importância maior que as cordas aqui. De fato, até então as cordas dominavam, os sopros servindo apenas para lhes dar suporte ou para fazer frases curtas. Nesse movimento, o toque dos pastores é feito no corne-inglês e no oboé. E a ideia fixa aparece no oboé e na flauta.

4. Marche au Supplice (Marcha ao Suplício) - É aqui que ele, achando que ela não o queria, resolve tomar ópio em dose mortal. Mas ele não morre, caindo, em vez disso, num sono cheio de visões e premonições. É um sonho terrível: possuído pelo ciúme, ele mata a amada e é condenado à morte. Ele assiste à própria execução. No delírio, seu último pensamento é nela, representada, como sempre, pela ideia fixa, que aparece tocada no clarinete.

5. Songe d'une Nuit du Sabbat (Sonho de uma Noite de Sabá) - Ele sonha que seu funeral é um sabá (encontro diabólico de feiticeiras), ao qual comparecem monstros e demônios. Em meio a risadas grotescas, grunhidos e gritos, ele ouve, uma vez mais, a ideia fixa, mas agora ela está destituída de qualquer charme, transformada em uma "música de dança vulgar". Nesse movimento, ouvimos o Dies Irae, um cantochão medieval ameaçador que costuma ser evocado por compositores quando estes querem falar de morte.


Obra extremamente madura para um compositor de 27 anos, ela inaugura a escrita sinfônica francesa de forma brilhante (Berlioz era um exímio orquestrador). A estrutura cíclica da peça, em que cada movimento tem relação com os outros, é realizada de maneira impecável.


Eu indico as seguintes gravações: Sinfônica de Chicago (London Symphony), regente: Claudio Abbado - Sinfônica de Londres (London Symphony), regente: Colin Davis - Sinfônica de Boston (Boston Symphony), regente: Seiji Ozawa - Les Siècles, regente: François-Xavier Roth.


A enorme orquestra que ele pede (e ele é bem específico), compõe-se por:

2 Flautas (uma delas alternando para Flautim)

2 Oboés (um deles alternando para Corne-inglês)

2 Clarinetes (um deles alternando para Clarinete em Mi Bemol, mais agudo)

4 Fagotes

4 Trompas

2 Cornetas

2 Trompetes

3 Trombones

2 Oficleides (hoje geralmente substituídos por Tubas)

2 Tímpanos

Percussão: Pratos, Caixa-clara, Bombo Sinfônico, Sinos em Dó e Sol

2 Harpas

15 Primeiros Violinos

15 Segundos Violinos

10 Violas

11 Violoncelos

9 Contrabaixos

Curiosidades:

- Acredita-se que Berlioz tenha escrito a peça, ele mesmo, sob influência de ópio;

- O regente americano Leonard Bernstein dizia que é a primeira música psicodélica, mais de 130 anos antes dos Beatles;

- Liszt escreveu um arranjo para piano em 1833;

- A sinfonia é inspirada na obsessão de Berlioz pela atriz irlandeza Harriet Smithson, mesmo ele estando comprometido com outra;

- Ela não é sujeita a interpretações, visto que o próprio Berlioz providenciou uma espécie de libreto com a descrição exata dos movimentos;

- Seu nome oficial é Episódio da Vida de um Artista, Sinfonia Fantástica em Cinco Partes;

- Berlioz revisou durante 15 anos a obra, de modo que o que conhecemos hoje é a versão de 1845;

- A sinfonia colocou Berlioz no mapa;

- A orquestra que ele pede é composta de 90 músicos, ou mais;

- A certa altura, o primeiro oboé se retira de cena e toca na coxia, quando um dos pastores toca à distância;

- Foi dedicada ao Imperador de Todas as Rússias, Czar Nicolau I.

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