• Rafael Torres

Filarmônica de Berlim - As Melhores Orquestras do Mundo 1

Vou falar um pouco sobre cada orquestra dessa lista. E outras. Conhecer uma orquestra é como conhecer um sotaque. Seu som é tão próprio que, às vezes, dá pra identificar. Os especialistas identificam qual orquestra está tocando em poucos segundos. Eu não vou tão longe: identifico se é inglesa, russa, americana, germânica... Mas não foi planejado. Foi consequência de escutar muita música.


E tem certas orquestras que dá mesmo pra destacar várias características e, a partir destas, ir afunilando as possibilidades até que você tenha certeza de qual está tocando. É o caso da primeira dessa série, a Orquestra Filarmônica de Berlim.

Filarmônica de Berlim
Filarmônica de Berlim

A Alemanha tem tantas orquestras fantásticas (só em Berlim, eu lembro de 4) que é uma proeza uma delas ser considerada a maior. A BPO (Berliner Philharmoniker) consegue ser a orquestra mais famosa e, em muitos aspectos, a melhor do mundo.


Começa com o orçamento: um músico dela ganha, em média 9 mil euros por mês só de salário. Ganham ainda comissões por gravação e por seus trabalhos como cameristas - a orquestra incentiva que seus músicos façam música de câmara. Isso faz com que cada vaga seja disputadíssima e que cada músico contratado seja de absoluta competência.


Músicos de destaque


Veja o exemplo de três solistas.


Daishin Kaishimoto, um jovem violinista japonês, que é simplesmente o spalla (principal violino) da orquestra, já gravou como solista (em concertos para violino, existe um violinista principal, que fica em pé, além dos pra lá de 20 violinos normais da orquestra). Ou seja, quando não está sendo o spalla da maior orquestra do mundo, está sendo solista. Gravou o concerto de Brahms com Myunh-Whun Chung e a Staatskapelle de Dresden (outra orquestra fenomenal) e tem um contrato com a Sony.


Emmanuel Pahud, flautista suíço que faz sucesso desde os anos 90, é uma das estrelas da BPO. Chegou a abandoná-la nos anos 2000, mas voltou e é o primeiro flautista do conjunto. Pahud tem uma relação muito boa com a Orquestra Sinfônica Estadual de São Paulo, tendo sido artista residente na década que graças a deus se passou. Além de ter vários discos gravados e ser um dos flautistas vivos de maior reputação.


Andreas Ottensamer, este muito jovem (31), é o primeiro clarinetista da orquestra. É uma das estrelas da vez. Seu pai, Ernst, teve o mesmo cargo na Filarmônica de Viena, que hoje é ocupado por seu irmão Daniel. Tem gravado profusamente, lançando discos com Yuja Wang e como solista na própria BPO.


Maestros


Os maestros são um capítulo. Entre 1882 e 1922, seus regentes principais foram Ludwig von Brenner (1882–1887), Hans von Bülow (1887–1893), Richard Strauss (o compositor) (1894–1895) e Arthur Nikisch (1895-1922). Um começo extraordinário, com ênfase em Nikisch, que trabalhou com ela por mais de 2 décadas e era considerado o maior regente de então.


Mas eis que assume Wilhelm Furtwängler (1922-1945). Ele dirigiu a orquestra no começo da era das gravações e nos deixou várias, que são consideradas um tesouro. Furtwängler era um maestro altamente idiossincrático, falava pouco nos ensaios, regia lento e sem precisão, tomava várias liberdades com a partitura, especialmente no que diz respeito aos andamentos; mas tirava um som único. É do tipo que ou você ama ou detesta. Logo depois dele, Sergiu Celibidache regeu a orquestra por 7 anos até que Furtwängler voltou por mais duas temporadas, terminando em 1954.


Agora vejam, de 1954 até 1989, a orquestra só teve um regente. Ninguém menos que Herbert von Karajan. Ele assumiu a orquestra jovem e só saiu porque morreu. A Era Karajan é marcada pelas seguintes características. A sonoridade, a afinação, o equilíbrio (entre sopros e cordas) eram perfeitos. Perfeitos como nunca um regente havia feito. Isso tinha um custo. Alguns críticos acusavam (e eu, mesmo fã de Karajan, concordo) a orquestra de só ter um som. Pouca variedade, pouco colorido. Sonoridade engessada. Essa sonoridade funcionava muito bem, na minha opinião, em Beethoven e Brahms. Nos românticos em geral. Quando chegava no impressionismo, realmente faltava um pouco de fluidez. Mas isso é ínfimo, não quer dizer que eles tocavam mal Debussy. Apenas eram mais adequados à produção de um som mais duro.


Eles gravaram, no tempo de Karajan, praticamente tudo que se tinha pra gravar. Gravavam, por exemplo, as sinfonias de Beethoven nos anos 60, daí nos anos 70 a tecnologia mudava e eles gravavam de novo. E de novo nos anos 80 para CD. Ele era famoso como um pop star. E vendia como um. Outra sacada de mestre foi o VHS. Eles eram a orquestra mais filmada, sem dúvida. E lançavam as fitas, e depois, DVDs. Aí a gente ia se familiarizando com os músicos e com o maestro. Depois mudariam de estratégia, mas eu falo disso mais pra frente.


Mas eis que ele morre e fica aquele grande mistério: quem os músicos vão escolher para ser seu próximo regente? Daniel Barenboim, o famosão, era cotado. Assim como Ricardo Muti, o galã. Parecia a espera do anúncio do papa. E eles acabaram elegendo o discreto Claudio Abbado, com uma certa surpresa geral.


Abbado tinha feito importantes gravações sinfônicas, tinha trabalhado com a Sinfônica de Chicago, a Sinfônica de Londres, a Filarmônica de Viena. Tinha afinidade com um repertório vastíssimo, que ia desde a música barroca até a contemporânea. Então foi ele, nos anos 90, que se encarregou de mudar no que Karajan tinha falhado, mas mantendo o que ele conquistara - era a orquestra mais famosa do mundo não por acaso. E ele trouxe muita música nova, como a de seu amigo, compositor Luigi Nono.


Claudio Abbado deixou a orquestra no fim do seu contrato, em 2002. Lutava à época com um câncer. Em 2004 voltou a regê-la como convidado. Morreria em 2014. Pois o seu titular pelos anos 2000-2010 seria, surpreendentemente, o inglês Simon Rattle.


Rattle é mais um acontecimento do que um regente. Não que ele não seja musicalmente bom. É competente. Mas onde ele chega, ele muda as coisas. Tinha trabalhado antes na Sinfônica de Birmingham e transformado-a em uma orquestra de alto nível, construindo uma sala de concerto de respeito.


Em Berlim ele fez performances dramáticas de oratórios de Bach (dramáticas, mesmo, com atores), trazia música moderna, levou a orquestra em uma turnê asiática. E nessa época eles resolveram fazer um app. Sei que você releu, mas é um app, mesmo. Falo mais abaixo.


Pois bem. Em 2019 eles anunciaram que começariam a trabalhar com um novo regente. O eleito foi Kirill Petrenko. Um regente ainda jovem, com uma discografia pequena. Com a pandemia, ainda não dá pra avaliar nada de como a orquestra se comporta com ele. Mas, sem dúvida, é um talento.


Digital Concert Hall


Em 2008, eles lançam o Digital Concert Hall, que basicamente é a Netflix da BPO. Você assina, baixa o app e pode assistir a milhares de concertos e documentários. E pode assistir aos concertos que estão acontecendo, ao vivo (que, depois, são adicionados à biblioteca). Além disso, eles disponibilizam os famosos vídeos da orquestra da época de Karajan e de Abbado. Já notou como é difícil ver vídeos de obras completas da orquestra no YouTube? Estão todos no app.


A Philharmonie

Philharmonie
Philharmonie

Toda orquestra de peso tem uma casa de concertos à altura. A Philharmonie, inaugurada em 1963, tem 2 salas: a maior, onde a orquestra se apresenta, acolhe 2.440 pessoas; a menor, dedicada à música de câmara, 1.180. Anteriormente a Filarmônica tocava na velha Philharmonie, que foi destruída na guerra.


E aí está o perfil da "Maior Orquestra do Mundo". Pra ficar claro: a BPO, a Filarmônica de Viena e a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã costumam alternar, ano a ano, as três primeiras posições nesse quesito. Comente o que achou. Já experimentou o aplicativo?


 

Gravações Importantes


- Ludwig van Beethoven - Sinfonia Nº 6 "Pastoral" /Carl Maria von Weber - Abertura Der Freischutz / Maurice Ravel - Suíte Nº 2 de Daphnis et Chloé - regente: Wilhelm Furtwängler - uma gravação de um concerto de 1944, simplesmente sublime. Dapnhis et Chloé elétrica, Pastoral plácida e Freischutsz preciso. Lembre-se que as gravações ao vivo de Furtwängler na guerra, em Berlim, eram super carregadas. As pessoas choravam e se emocionavam muito.


- Ludwig van Beethoven - As Sinfonias e Aberturas - regente: André Cluytens - atenção às aberturas. Também à 5ª Sinfonia, da qual ele tira muita energia e à , que parece outra orquestra.


- Ludwig van Beethoven - As Sinfonias - regente: Herbert von Karajan (anos 80, que tem um som melhor que as gravações das décadas anteriores e igual valor artístico) - atenção às sinfonias Nº 3 e 5.


- Gustav Mahler - Sinfonia Nº 7 - regente: Claudio Abbado - das gravações de Abbado, pelo menos com a BPO, esta é a que mais me cativa, mesmo não gostando muito de Mahler. Mas é difícil escolher, ele me agrada em tudo.


- Franz Liszt - Concertos para Piano Nos. 1 e 2 / Sergei Rachmaninoff - Concerto para Piano Nº 2 - regente: Leopold Ludwig, pianista: Andor Foldes - três gravações maravilhosas desse pianista que precisa ser mais apreciado.


- Pyotr Tchaikovsky - Sinfonia Nº 6 "Pathétique" - regente: Kirill Petrenko - belamente tocado e regido como quem ainda está tateando sua nova orquestra, o disco mostra uma das melhores gravações de Tchaikovsky por um regente russo. A Filarmônica está surpreendente.

 

0 comentário