• Rafael Torres

Brahms - O 1º Concerto para Piano - Análise

Tem uma besteira na música clássica - tem muita besteira - que agrupa Johann Sebastian Bach (1685-1750), Ludwig van Beethoven (1770-1827) e Johannes Brahms (1833-1894) como os "3 B's". Se Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) fosse Bozart, teríamos o "Quarteto B" com os compositores mais importantes da história. Diz-se, por exemplo, que um determinado regente vai se dar bem porque ele é bom nos 3 B's. Pra mim isso é BS, se é que me entendem.


Daguerreótipo de Johannes Brahms na juventude.
Daguerreótipo de Johannes Brahms na juventude.

Mas nos dá uma noção da relevância de Brahms. Ele foi o compositor sinfônico mais importante de sua época - Richard Wagner (1813-1883) era o maior compositor de ópera. Ambos protagonizaram uma imensa briga (que se dava, na verdade, entre seus admiradores, pois os dois se davam bem) na segunda metade do século XIX - música instrumental vs. ópera; música pura vs. música descritiva; as velhas formas vs. a amorfidade do novo. Ainda falo sobre isso. Mas entenderam, né? O maior compositor "não de ópera" do romantismo depois de Beethoven foi Brahms.


Pois para compositores sinfônicos, as obras mais importantes eram sinfonias e concertos, formas que ele dominava à perfeição. Escreveu 4 Sinfonias e 4 Concertos. Era muito perfeccionista, às vezes, já nas páginas finais de uma obra, a rasgava ou jogava na lareira. Daí o número relativamente pequeno. Os concertos são: 2 para piano, um para violino e um duplo, para violino e violoncelo. Lembrem-se que concertos são obras que combinam ou até antagonizam um instrumento solista com a orquestra. Sempre tem orquestra.


O 1º Concerto para Piano


Enfim, o mais antigo dos 4 é o 1º Concerto para Piano, em Ré Menor, completado em 1858. É seu Opus 15. Foi estreado em 1859, em Hanover, com Brahms ao piano e seu amigo, o violinista Joseph Joachim, regendo a orquestra. Foi sucesso imediato, alçando o compositor à categoria "promessa". Lembrando que ele também era um ótimo compositor para de música para piano e para música de câmara, e nesses cenários ele já despontava. Mas foi sua primeira obra orquestral a ser tocada em público e receber aprovação.


E não foi à toa. É uma obra confiante, com uma escrita orquestral e pianística majestosa, com algumas melodias que grudam na cabeça. O primeiro movimento tem 22 minutos. O segundo, 14 e o terceiro, 11. De fato, o movimento de abertura é um dos mais longos do repertório concertístico, mas, graças à habilidade de Brahms em manipular o material que tem, a escuta não é nem um pouco maçante.


Estrutura


O compositor trabalha, no primeiro movimento, com um material temático relativamente limitado. Há o tema principal, que contém os trinados; o primeiro tema do piano, em terças; e um tema coral que surge no piano, mas que é nas cordas que revela sua beleza. Com esses três temas, dissecando-os, combinando-os e os modulando, ele cria um movimento impactante, que deixou ótimas impressões no público da época.


O segundo movimento é muito mais contido e esparso. Longas linhas melódicas se desenvolvem nos fagotes em contraponto com os violinos, são depois repetidas pelo piano. Esse movimento tem um dos momentos mais belos pra mim (de tudo). É uma melodia em terças primeiro nos clarinetes - sob acordes descendentes do piano -, depois nas flautas, aí, um pouco à frente, nos oboés e então nos clarinetes, só que agora em maior. É lá pelos 5-6 minutos.


O terceiro movimento é um rondó com três temas principais. Depois do segundo movimento carregado, esse é leve, como uma dança. É uma peça difícil para o piano e para a orquestra, finalizando o concerto com brilho.


O concerto todo, a meu ver, não é muito virtuosístico, isto é, o pianista não se exibe muito. Mas é difícil achar o tom certo, bem como o equilíbrio entre o material temático.


Gravações Importantes


- Leon Fleisher, com George Szell regendo a Orquestra de Cleveland - Uma gravação clássica e excepcional. Como qualquer outra dessa lista, ela basta pra que você conheça o concerto. A parceria entre Fleisher, Szell e Cleveland deu muitos frutos nos anos 50-60.


- Nelson Freire, com Riccardo Chailly regendo a Orquestra do Gewandhaus de Leipzig - Considerada a gravação definitiva por muitos. Uma das colaborações mais felizes da história do disco. Nelson toca com um som gigantesco, e Chailly fornece mais que um acompanhamento. Regente, pianista e orquestra encontraram o equilíbrio perfeito. E a sonoridade...


- Hélène Grimaud, com Andris Nelsons conduzindo a Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara - Hélène foi uma das primeiras mulheres a gravar os concertos de Brahms, isso recentemente. E o fez com sua costumeira elegância e bom gosto. Escolheu (ou foi escolhida por) um dos regentes mais talentosos da atualidade e uma das orquestras mais suntuosas de todas. O som dessa gravação ao vivo é excepcional.


- Ivan Moravec, com Jiří Bělohlávek e a Orquestra Filarmônica Tcheca - Moravec foi um pianista especial, dotado de um misto de colorido com técnica. Foi um dos melhores pianistas da sua geração, morrendo em 2015, em Praga, na sua República Tcheca. A Filarmônica Tcheca é sempre um privilégio ouvir, com Bělohlávek tendo sido um dos seus grandes regentes.


- Emil Gilels, com Eugen Jochum e a Orquestra Filarmônica de Berlim - Maravilhosa, simplesmente. Eu ia dizer encantadora, mas não é. É titânica. Gilels podia tirar o som mais forte do piano antes de quebrar as cordas. E, nas passagens líricas, nos deixar boquiabertos. Jochum é o regente perfeito de Brahms.


- Clifford Curzon, com George Szell regendo a Orquestra Sinfônica de Londres - Szell, desta vez regendo Curzon, prova que foi um dos maiores acompanhantes que já existiram. Essa, junto com a de Gilels, era considerada a grande gravação da obra, antes de Freire/Chailly.

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