• Rafael Torres

Brahms - Sinfonia Nº 1 - Análise

A primeira sinfonia de Johannes Brahms (1833-1897) é uma das mais impactantes obras sinfônicas do repertório. Sucessora das 9 de Beethoven, mostra um compositor maduro e seguro. Outros compositores podem ter o dom da melodia, ou um senso de tragédia, de novelização do discurso, mas poucos têm o que Brahms tem. A grandeza absoluta que reina em cada compasso.


Escrita ao longo de bem 20 anos e finalizada em 1876, a Sinfonia Nº 1 em Dó Menor, Op. 68 é uma obra ambiciosa. Se bem que isso dá a entender que ela "tentou". Ela, de fato, conseguiu.


Johannes Brahms
Johannes Brahms

Ludwig van Beethoven escreveu sua última sinfonia em 1824, e quando ele morreu, em 1827, deixou o mundo germânico meio inquieto. Procurava-se o "sucessor" dele, aquele que carregasse a tocha da sabedoria sinfônica - e o domínio da forma sonata conduzida por uma orquestra - por tudo quanto é canto. Robert Schumann, por mais que nos tenha deixado 4 sinfonias, estas (com todas as suas qualidades, sobre as quais ainda falarei) não eram dignas de tamanho legado.


Então sempre coube a Brahms, nascido alguns anos após a morte de Beethoven, a tarefa de seguir fazendo música alemã que fosse simplesmente bíblica (no bom sentido).


E ele atrasou. A responsabilidade era muita. Para se ter uma ideia, ele entregou antes duas Serenatas monumentais para orquestra. Serviram como exercício e como sondas, tateando o caminho com o público. E um concerto para piano e orquestra (o 1º Concerto para Piano, em ré menor) igualmente grandioso. Todos são tocados com frequência ainda hoje. Até que, aos 43 anos, lançou sua formidável obra prima. A primeira de suas 4 sinfonias.


Só não foi uma unanimidade porque toda unanimidade é burra (parece haver unanimidade sobre esse dizer). Sim, Brahms tinha seus detratores. Fanáticos pela música de Richard Wagner que acreditavam que a música não deveria ser "pura", isto é, desprovida de ideias extramusicais. Ou seja, achavam que música tinha que necessariamente estar atrelada a um programa, a uma historinha, que seja. Por isso viam na ópera - o teatro em música - a forma mais fundamental da arte. As velhas formas, sonata, sinfonia, concerto, estavam ultrapassadas. Aqui é só um parágrafo, mas na Europa do romantismo foi uma guerra.


Só que não dava para ignorar a sinfonia. Era um rompante de tamanha violência, uma explosão que até hoje se ouve em todos os cantos do mundo.


A orquestra tem:

Violinos I

Violinos II

Violas

Violoncelos

Contrabaixos

2 Flautas

2 Oboés

2 Clarinetes

2 Fagotes

1 Contrafagote

4 Trompas

2 Trompetes

3 Trombones

Tímpanos


Abaixo, a gravação ao vivo da Orquestra Sinfônica da Rádio de Frankfurt (hr-Sinfonieorchester), sob a regência de Stanisław Skrowaczewski. Está funcionando, sim.


1º Movimento - Un poco sostenuto - Allegro - Meno allegro


A peça começa com uma explosão (25s), um momento em que a orquestra extravasa seu viés trágico. É uma introdução (e vale lembrar que Brahms a acrescentou posteriormente). Duas linhas principais: uma ascendente nos violinos e uma descendente nas madeiras, ambas em síncope. Leonard Bernstein descreveu como uma revelação, uma auto-revelação. "Duas agonizantes linhas melódicas rasgando uma à outra em movimento contrário, inflando-nos com a paixão e desespero de Brahms". "... para declarar a dualidade de sua própria natureza...". É um momento de libertação.


Ele tinha que começar sua primeira sinfonia (que seria chamada de a 10ª de Beethoven) sinalizando que não tinha medo de ser o sucessor do mestre que ele nunca conheceu. Uma vez feito isso, que comece a música. A introdução é repetida (2m25s) até que um oboé (2m47s) e, por fim, os violoncelos (3m08s), elaboram uma ideia melódica que conduz ao fim dela.


Um toque do tímpano (3m31s) marca o começo da exposição. Em vez de nos inundar com abundância de temas, ele prefere fazer com que cada tema tenha mais de um elemento, o que confere riqueza à obra, sem que precisemos ter que decorar várias melodias. O 1º tema é exposto primeiro pela flauta. Ele tem 3 partes: (3m32s) uma escala cromática ascendente, seguida por notinhas rápidas descendentes; (3m37s) uma melodia em intervalos bem espaçados, exposta pelos violinos; e (3m47s) um ritmo pontuado com intervalos descendentes, tocados nos violinos. Este trecho, voltado ao 1º tema, é agitado, inquieto. Ele define bem a sinfonia em cores escuras. Um momento nas madeiras (5m04s) é a transição (transição é a ponte entre o e o 2º tema). Aparece o 2º tema no oboé logo em seguida (5m36s). É uma melodia lírica que nos dá espaço para respirar. Subitamente a agitação volta a tomar conta, com três notinhas pausadas (staccato) que vão se multiplicando (6m22s). Isso fecha a exposição. Aos 7m, um toque com o tímpano leva à repetição dessa parte. Então esse parágrafo aqui é repetido, ok? Nessa interpretação do vídeo e em muitas outras. Mas alguns regentes optam por não repetir.


O desenvolvimento começa aos 10m26s. Nele vão se alternar alusões, citações e declarações das três partes do tema 1 e do tema 2. Repare que constantemente ele nos faz ouvir um motivo de 4 notas (tã tã tã taaaam), geralmente nos tímpanos ou nos instrumentos graves. Esse motivo é oriundo da famosa 5ª Sinfonia de Beethoven, e não é a última citação a este compositor que veremos aqui. Ouça aos 11m37s nos trompetes, por exemplo. Ele começa a dominar a peça. É um vírus. Ouça o murmúrio dos contrabaixos com respostas das madeiras (12m41s). Até que o vírus domina completamente (13m19s), os outros temas tentando se safar. A partir daí a música decresce, mas sem perder ímpeto.


Com uma modulação aos 13m33s começa a recapitulação. Ela reapresenta tema 1 e tema 2. Aqui ele faz várias modulações. Novamente o único momento plácido é o do tema 2 (15m13s), até a intervenção do clarinete e da trompa (15m41s). Aos 16m a inquietação volta a crescer nas violas, levando-nos ao coda.


Aos 16m51s tem início o coda, parte final do primeiro movimento, com o pizzicato das cordas. Ele é relativamente calmo, depois de um movimento tão turbulento, e acaba em acorde maior.


2º Movimento - Andante sostenuto


O lírico Andante começa aos 18m42s. É lírico e algo majestoso. É dito que nesse movimento Brahms fez sua "única concessão romântica" - um violino solo faz a frase de fechamento, lá pelas tantas. Totalmente contrastante ao 1º movimento, este aqui faz a mesma orquestra soar serena. Ele usa os instrumentos de madeira (flauta, oboé, clarinete e fagote) como solistas em várias ocasiões. Ele tem forma A (18m42) - B (20m43s) - A (23m23s) e um coda (25m50s).


3º Movimento - Un poco allegretto e grazioso


Aos 28m29s o clarinete anuncia o tema principal do poco allegretto. Mais agitado que um minueto, mas menos que um scherzo, ele tem a estrutura de um (scherzo), com parte a - trio - parte A'. Belamente escrito e orquestrado, serve de escape para toda a imersão profunda que estávamos tendo. Um relaxante antes do monumental finale. Os temas são: tema 1 (28m29s), tema 2 (28m44s), tema do trio (30m16s). O tema 1 volta aos 32m02s, e o tema 2, aos 32m21s. Enfim, é um movimento sutil e gracioso, além de colorido.


4º Movimento - Adagio — Più andante — Allegro non troppo, ma con brio — Più allegro


O 4º movimento é o que confere o peso real da sinfonia. Dura quase 25 minutos e é bem episódico, mas costurado por uma habilidade única de Brahms de conduzir a narrativa sem nunca dizer algo que não seja estritamente necessário. Uma longa introdução, colorida como uma pintura (aliás, em chiaroscuro) deságua num longo momento da trompa (36m33s), como um raiar de sol, a anunciar o início propriamente do movimento.


Aos 39m entra o tema 1, o principal nas cordas. Seu desenho é parecido com o do finale da 9ª Sinfonia de Beethoven. "Claro que eu percebo", disse Brahms, "qualquer idiota percebe." Então tá. É glorioso, grandioso e eloquente. A partir daqui a música ganha júbilo, se despedindo quase que completamente de seus momentos mais trágicos. E o faz com força, como poucas sinfonias antes o fizeram. Termina em retumbante triunfo.


Considerações finais


O sucesso foi arrebatador. O público já aguardava há décadas por uma sinfonia germânica de proporções avantajadas e de ambição igual. Os críticos foram quase unânimes em festejá-la. Se fosse a única de Brahms, já teria seu lugar em toda sala de concerto (e sala de estar). Mas foi sucedida por outras 3 igualmente excepcionais, formando um conjunto que é um patrimônio da música não só da Alemanha, mas da humanidade. Ao lado de Beethoven, Bruckner, Mahler, Sibelius, Dvořák, Schubert e outros poucos, ele cravou seu nome para sempre.


Gravações recomendadas


- Eugen Jochum regendo a Filarmônica de Berlim - Jochum conseguiu se tornar o maior intérprete de Brahms de sua época. E olha que isso era concorridíssimo. Nessa gravação de 1954, em excelente som mono, ele parece extrair da Filarmônica de Berlim a última gota de disciplina, com uma atmosfera elétrica.


- Herbert von Karajan, com a Filarmônica de Viena - De 1960, e também em mono, esta versão é a mais impressionante que já ouvi e aquela à qual sempre retorno. A energia é de arrepiar, já no primeiro ataque vê-se que o som da orquestra é de outro mundo.


- Daniel Barenboim regendo a Staatskapelle Berlin - Uma versão moderna, lançada em 2018. A orquestra, a da ópera de Berlim, está incrível, e Barenboim se sai incrivelmente bem.


- Bernard Haitink, com a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã - A sonoridade quente, grave e absolutamente polida da orquestra, sob a regência do grande Haitink, faz um verdadeiro milagre, uma invasão acústica, nessa gravação de 1973.


Confira aqui a análise da 4ª Sinfonia de Brahms. E, em breve, teremos a 2ª e a 3ª.

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