• Rafael Torres

Brahms - Sinfonia Nº 4 - Análise


A quarta e última sinfonia de Johannes Brahms (1833-1897) é de 1885. É seu Op. 98, em Mi menor. Foi estreada em Meinigen, em 25 de outubro de 1885 com o próprio compositor regendo. É uma obra prima em todos os seus detalhes. Acumula beleza, grandeza, criatividade e uma dignidade única.

Brahms, um compositor artificialmente colorido

É a penúltima obra orquestral do compositor, a última sendo o Concerto Duplo para Violino e Violoncelo, de 1887. É uma obra um tanto atormentada, ainda que segura. Apresenta momentos de beleza, de fúria e até de doçura. Uma sinfonia romântica, certamente uma das maiores.


Brahms era uma pessoa reticente, antissocial, alguns diriam até rude. É famosa a anedota de que ele, ao sair de uma festa, olhou novamente pra sala e disse: "Se tem alguém que eu não ofendi hoje, peço desculpas." Eu sou assim num dia simpático.


Mas sua música conquistou a Europa. Em termos de música instrumental, foi o compositor mais bem sucedido da segunda metade do século XIX, sendo reverenciado como o sucessor de Beethoven. Seu grande antagonista foi Richard Wagner, que escrevia óperas e defendia que o futuro da música era se tornar cada vez mais descritiva e programática. A música de Brahms não tem nada de programática, em vez disso, é apegada às velhas formas: sonata, rondó etc. É o que se chamava de música pura, pois não tinha um enredo por trás de si.


Apesar disso, não era inimigo de Wagner, os dois até que se davam bem. Só que cada um tinha uma facção que odiava a do outro.


A é uma sinfonia em que a forma, mais que os temas, segura a narrativa. Ou seja, o fato de que ele repetiu isso aqui ou omitiu ali é, por vezes, mais importante que a melodia em si. Mas isso não significa que ela seja pobre de beleza musical. Muito pelo contrário. É pungente, com cada movimento tendo uma força extraordinária.


É centrada no último movimento, que é uma passacaglia de extrema engenhosidade e beleza.


A orquestra tem:

Violinos I

Violinos II

Violas

Violoncelos

Contrabaixos

2 Flautas (1 virando flautim)

2 Oboés

2 Clarinetes

3 Fagotes (1 virando contrafagote)

4 Trompas

2 Trompetes

3 Trombones

Tímpanos

Triângulo


Abaixo, o regente Andrés Orozco-Estrada com a Sinfônica da Rádio de Frankfurt.

1º Movimento - Allegro non troppo


Brahms - Sinfonia 4 - 1º Tema - 1º Movimento
1º Tema

Repare: duas notas descendentes nos violinos (24s) (ecoadas pelas madeiras); duas notas ascendentes (ecoadas novamente). Com esses pequenos grupos de duas notas monta-se já o primeiro tema, que já dá uma ideia de luta, de cá e lá. Aos 56s isso é repetido com ornamentos. Temos então (1m53s) uma chamada dos oboés, clarinetes e fagotes, que não é um tema em si, mas que será trabalhado no movimento. Esta figura antecipa o tema 2 (1m59s) nos violoncelos. É uma melodia de notas longas, cantantes, imediatamente repetida e elaborada pelos violinos. 2m23s. Aos 2m33s eles fazem um jogo com pizzicattos e madeiras. Repare com isso se assemelha ao primeiro tema. Aos 2m57s, as flautas, depois os oboés, fazem soar o tema 3. A trompa dá continuidade antes que a orquestra caia em um acorde tenebroso. Aos 3m24s ouvimos ecos da chamada. Até que aos 3m38s ela é tocada integralmente. Aos 4m07s eles se preparam para o desenvolvimento.


O desenvolvimento se inicia com o tema 1 (4m22s), muito parecido com o início da música. As madeiras* conduzem, em terças, essa parte (4m42s), que deriva do tema 1, lembrando uma melodia fragmentada. Aos 5m os violinos repetem a ideia, com as cordas graves respondendo. Aos 5m26s atingimos um ponto de suspensão, com alusões ao microtema da chamada. Depois temos um episódio mais acalmado (6m22s), em que os clarinetes trabalham, também em terças, sobre um ponteado de golpes do tema 1. As madeiras todas trabalham nessa parte. É então que 4 notas do final do tema 1 (o último compasso da partitura acima) abre uma espécie de discussão. Os instrumentos parecem debater sobre a tonalidade até que caem na recapitulação.


A recapitulação começa meio hesitante, como se ainda estivéssemos no desenvolvimento. Mais uma vez as madeiras assumem (7m12s). Tocam as duas notas descendentes e, então as duas ascendentes. Segue-se um novo momento de suspense, então novamente entram as notas do tema 1. É como se o tema estivesse tateando o caminho pra saber se pode pisar, para então derramar-se (7m38s) sem medo, é lindo. O tema 2 entra aos 8m42s nos violoncelos. A chamada acontece várias vezes. Aos 9m47 entra o tema 3, na trompa e no oboé.


A coda é longa e solene, além de muito bem construída.


* flautas, oboés, clarinetes e fagotes


2º Movimento - Andante moderato


Aos 13m05s tem início o calmo e sereno 2º movimento. A trompa anuncia o tema, que é logo capturado pelas madeiras, sob pizzicatos das cordas. A orquestra faz uma bela transição (15m50s) que nos leva adiante.


O segundo tema aparece nos violoncelos (16m50s), com nobreza e seriedade. Cheio de contracantos, que adicionam riqueza musical à passagem, é um tema longo e cantábile. E então temos uma nova transição para a recapitulação. E a trompa volta aos 19m40s. É uma mistura de recapitulação e desenvolvimento. O movimento não é em forma sonata estrita. Aos 21m03s o segundo tema reaparece, numa escrita mais coral e ainda mais solene. Aos 21m59 ele e repetido com quebras de oitava. Um compositor menor insistiria em repetir o coral, mas Brahms não abre mão da originalidade.


Novo momento de suspensão aos 22m45s, uma pausa e a volta da melodia, dessa vez com tristeza no clarinete (23m16s). Aos 23m35s começa o dramático coda, que encerra esse belo movimento.


3º Movimento - Allegro giocoso


Iniciando aos 24m40s, esse movimento, análogo a um Scherzo, é muito alegre. Deve ser uma das músicas mais alegres do repertório de Brahms. Mas sem ser frenético. É bem agradável. Esse tema aparece de cara, mas repare como ele aparece de cabeça para baixo logo em seguida (25m14s). Nesse movimento aparecem o triângulo, assim como o flautim e o contrafagote.


Por volta dos 27 minutos inicia-se uma passagem mais lenta, contrastante. Brahms mostra habilidade ao prolongar notas, dobrar ritmos e inverter acordes. Até que, de chofre, aos 28m10s, a música volta a ficar agitada.


De escrita brilhante, especialmente na orquestração, esse movimento adiciona leveza à sinfonia.


4º Movimento - Allegro energico e passionato


Esse é o movimento mais importante da obra. Um dos movimentos mais importantes da escrita sinfônica do romantismo. Trata-se de uma passacaglia, ou seja, ele lida com variações. Não que ele toque um tema e faça variações a partir desse tema. Ele toca uma sequência de acordes e varia a partir dela. Fica repetindo sempre os mesmos acordes e inventando coisas novas sobre eles. A sequência é tocada logo de cara:


Am - F#º - Em - F#/E - Em/G - F7(b5) - E


Ele fez essa sequência inspirado em uma cantata de J S Bach ("Nach dir, Herr, verlanget mich").


A música começa (31m) com os acordes chapados (que vão nos servir de tema 1), tocados por toda a orquestra menos as cordas. A seguir (31m18s) já temos a 1ª variação, com os tímpanos, metais o as codas em pizzicato. Aos 31m31s as madeiras assumem a 3ª variação, que é um tanto misteriosa. A 4ª variação é um pouco jocosa, alternando pequenos stacattos das madeiras e dos metais. Aos 31m59 as cordas assumem a 4ª variação, em registro grave com uma frase longa, que traz um caráter de urgência.


A (32m13s) e a (32m26s) variações parecem ser uma continuação desta, nas madeiras e, depois, com texturas de toda a orquestra. Aos 32m39s entra a variação, e aos 32m53s, a , que vai acalmando a orquestra. A segue a mesma tendência. Aos 33m08s, a 10ª variação ameaça um agito, mas a variação 11 (33m23s) é bem plácida, assim como a 12ª (33m38s).


O conjunto já se prepara para o belíssimo solo de flauta que é a variação 13 (33m56s). É uma passagem gélida e sutil, de extrema delicadeza. O tempo chega a dobrar. A 14ª variação (25m19s) também é de beleza impressionante, nos metais e fagotes. As madeiras repetem isso (35m54s), mas com uma harmonia diferenciada. Aos 36m33s temos uma repetição dos acordes chapados da abertura. E mais variações vão se acumulando, mostrando o exímio compositor que era Brahms. Ele alterna estados de espírito às vezes de uma hora para outra, sem preparo. E quando prepara é da maneira mais apropriada possível. Tudo com bom gosto e técnica invejável no domínio da orquestra e da forma sonata.


Considerações finais


A sinfonia foi estreada em 1885 em Meinigen, Alemanha, com Brahms regendo. Algum tempo antes, Brahms deu um recital privado em que tocou, com um amigo, uma versão para dois pianos. Um critico musical muito respeitado da época, Eduard Hanslick calhou de estar virando as páginas para um deles. Ele teria dito: "Parecia que eu estava sendo espancado por duas pessoas incrivelmente inteligentes". Naquela era de romantismo apaixonado e febril, Brahms era considerado ultrapassado e até estoico. Digamos, pouco empolgante.


Mesmo assim, era considerado o sucessor de Beethoven e o maior sinfonista de sua época.


Gravações recomendadas


- Eugen Jochum regendo a Filarmônica de Berlim - Jochum talvez fosse o maior intérprete de Brahms da sua época. Talvez de todos os tempos. Em 1954 pegou a Filarmônica ainda não inteiramente adocicada pelo som de Karajan e fez essa gravação certeira.


- Carlos Kleiber, com a Filarmônica de Viena - De 1981, ano em que eu nasci, essa é considerada uma das gravações mais importantes não só dessa sinfonia, mas de qualquer. Carlos, filho do também regente Erich Kleiber, era especialista em ópera e extremamente hesitante em gravar. Todos os seus discos são considerados clássicos.


- Rafael Kubelik regendo a Sinfônica da Rádio Bávara - De 1983, essa gravação me impressionou muito recentemente. Saiu em uma caixa - The Munich Symphonic Recordings - cheia de maravilhas. A presença do lendário Kubelik na orquestra Bávara, nos anos 60 e 70, contribuiu imensamente para o posicionamento desta entre as 5 melhores do planeta. Essa gravação, especialmente o último movimento, é um absurdo de expressividade. A flauta parece Romeu declamando seu último monólogo.


- Carlo Maria Giulini, com a Filarmônica de Viena - Essa foi a peça que Carlo Maria Giulini mais regeu em sua carreira, cerca de 180 vezes. Essa gravação, de 1990, é, como tudo que Giulini regia: lenta, lerda, mas sem ser pesada. O que lhe falta em agilidade e articulação dos fraseados, sobra em clareza de ideias e bom gosto, além de um elegante toque trágico.


- Herbert von Karajan, regendo a Filarmônica de Berlim - É de 1988, um ano antes de sua morte. A orquestra estava começando a se desprender de Karajan, mas ainda tinha seu som - cheio e pleno de legato, com ênfase nas cordas. Ele gravou várias vezes o ciclo (as 4 sinfonias de Brahms), e eu não ouso dizer que este é o melhor. Mas me soa excelente, com uma concepção sempre centrada da peça.


- Manfred Honeck, regendo a Sinfônica de Pittsburgh - Tive que editar para colocar essa novíssima gravação de Honeck. Está simplesmente fantástica! É a mais bonita que já ouvi. Clássica e Romântica na dose ideal. É de 2021.


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