• Rafael Torres

A Ilha dos Mortos - Rachmaninoff - Análise

Em 1907, o compositor russo Sergei Rachmaninoff (1883-1943) vê em Paris uma reprodução da obra Die Toteninsel, A Ilha dos Mortos, do pintor suíço Arnold Böcklin. O quadro era, obviamente, colorido, mas o que Rachmaninoff viu foi uma foto em preto e branco da pintura. Em 1908, em Dresden ele compôs seu poema sinfônico de mesmo nome.

Anos depois, ao se deparar com a pintura em cores, ele ficou desapontado, dizendo que se não tivesse visto em preto e branco, não teria composto seu Die Toteninsel. Tem a ver com primeiras impressões. Se você tem um impacto com uma obra de uma forma, dificilmente terá aquele mesmo impacto de outra.

A obra

Começa com uma representação musical de um remar. Sendo a música em compasso de 5 tempos (5/8), são 3 tempos para o remo na água e 2 fora da água. Essa métrica também é muito usada para representar a respiração ou as batidas do coração. Todas essas alusões cabem aqui, pois todas estão relacionadas à vida e à morte (o remar refere-se à barca que carrega as almas dos mortos na mitologia grega).


Os cromatismos são particularmente notáveis na obra, assim como a referência ao cantochão Dies Irae (Dias de Ira). Esse Canto Gregoriano, em especial, era muito usado pelos compositores para se referir à morte.


Mas é um poema sinfônico sem roteiro. Em vez disso, a música tem um metabolismo, uma força motora. E conta com diversos episódios que eu acho que nem adianta a gente ficar tentando elucidar. São atmosferas encadeadas brilhantemente pelo compositor, mostrando sua presença avassaladora na harmonia, nas melodias, contracantos e na orquestração.


A orquestra é composta por:


As cordas (violinos 1, violinos 2, violas, violoncelos e contrabaixos); 4 flautas (1 mudando para flautim); 2 oboés; 1 corne inglês; 2 clarinete; 1 clarinete baixo; 6 trompas; 3 trompetes; 3 trombones; tuba; tímpanos e harpa.


Gravações Importantes


- Mikhail Pletnev, com a Orquestra Nacional Russa - De 1999. Pletnev e sua orquestra estelar é a mesma combinação do vídeo que você vê acima. Eles tocam rápido, de forma que, com 18m40s, é uma das gravações mais curtas a entrar nessa lista. Mas o clima é fantástico. Os instrumentos solistas estão muito seguros.


- Andrew Litton, com a Filarmônica de Bergen - O regente americano Andrew Litton é fenomenal. E o trabalho que está fazendo com essa orquestra norueguesa é magistral. Está rapidamente se tornando um dos melhores conjuntos da Europa. Ele está no extremo oposto, em termos de andamento. É lento, fazendo com que a música bata os 22 minutos. É de 2012, o ano em que o mundo não acabou, mas devia.


- Vladimir Ashkenazy, com a Orquestra do Concertgebouw, de Amsterdã - De 1984, essa gravação é aquela que vão te indicar sempre. Todo mundo. É porque é com a melhor orquestra do mundo, com o melhor intérprete de Rachmaninoff do mundo e com engenheiros de som por aí, também. Expressividade no máximo.


- Vassily Petrenko, com a Filarmônica Real de Liverpool - Outra gravação bem moderna de um maestro que vem trazendo sua orquestra aos refletores. É de 2010. Petrenko fez gravações espantosas das sinfonias, concertos e poemas sinfonicos. Tudo com muito bom gosto, refinamento e uma sonoridade impressionante.


- Edo de Waart, com a Filarmônica de Roterdã - Uma das primeiras gravações que eu conheci. De Waart é um grande intérprete de Rachmaninoff. E essa orquestra só é superada na Holanda pela Concertgebouw. Gravação de 1979.


- Sergei Rachmaninoff, com a Orquestra de Filadélfia - Sergei era um regente fabuloso. Antes de se destacar como compositor ou mesmo como pianista, chamou atenção como um regente sensível e musical. Regendo a sua própria obra (essa peça, a 3ª sinfonia e a Vocalise) é imperdível. O som é bem velhinho, mas o chiado faz é contribuir para a atmosfera sinistra da música. É de 1929.




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