• Rafael Torres

Ravel - Concerto para Piano em Sol - Análise

Finalizado em 1931, o Concerto para Piano e Orquestra em Sol maior do compositor francês Maurice Ravel (1875-1937) é uma obra prima. Começa com uma chibatada, um som imitando um chicote. É uma peça leve e iluminada, bem diferente do Concerto para a Mão Esquerda, do mesmo período.


A intenção era que ele mesmo tocasse, mas a doença que o levaria à morte alguns anos depois (uma doença cerebral, agravada por um acidente de taxi em que bateu a cabeça) já o impediu. Foi estreado em 1932 em Paris, por Marguerite Long, a quem foi dedicado, com a Orquestra Lamoureux regida por Ravel. Foi um sucesso imediato.


Em uma turnê pelos EUA, em 1928, o compositor tinha ficado encantado com o Jazz, de que o concerto tem elementos (ainda que vagos) e com a qualidade das orquestras. Ao compor o concerto, ele incorporou ideias de um concerto sobre temas bascos que planejava escrever desde 1906; alguma languidez no toque, proveniente do Jazz; e sua magistral orquestração. Seus modelos para a composição foram Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) e Camille Saint-Saëns (1835-1921). Isto se reflete na leveza da peça, quase uma ingenuidade. Ravel disse que não procurou muita profundidade aqui, mas simplesmente uma escrita para piano e orquestra brilhante.


Abaixo, a interpretação de Martha Argerich (que é especialista nesse concerto), com a Symphoniker Hamburg, regida por Sylvain Cambreling.


A obra


A orquestra, um tanto pequena para os padrões de Ravel é a seguinte:

1 Flautim

1 Flauta

1 Oboé

1 Corne Inglês

2 Clarinetes (sendo um em Mi bemol, conhecido como Requinta)

2 Fagotes

2 Trompas

1 Trompete

1 Trombone

Percussão (Bombo Sinfônico, Woodblock, Gongo, Tímpanos, Caixa Clara, Chicote, Pratos, Triângulo)

Harpa

8 Violinos 1 (ele especificou o número de cordas)

8 Violinos 2

6 Violas

6 Violoncelos

4 Contrabaixos


1º Movimento - Allegramente

Jundo com a chibatada, o piano já entra no primeiro movimento fazendo arabescos. O Tema A aparece no flautim. Aos 31s ele é repetido, dessa vez pelo trompete. Aos 53s, o piano faz um arpejo que lembra um violão, influência da música espanhola, que Ravel tanto amava. Uma breve Ideia A (1m07s), que vai ser importante para o movimento, aparece no clarinete, imediatamente repetido pelo trompete. Imediatamente, o piano faz o Tema B (1m12s). A Ideia A volta no flautim, clarinete em mi bemol e trompete com surdina (1m25s). O piano então volta ao seu tema. Depois (1m50s), ele introduz a Ideia 2, ascendente, que também terá importância. Ela será repetida aos 2m28s pelo fagote, em registro agudo.


Vem o breve desenvolvimento. Aos 3m03s ele começa a trabalhar sobre o Tema A, com a Ideia A respondendo.


Após uma escala do piano, temos a recapitulação (3m58s). A harpa faz o Tema B (4m48s) até que a orquestra tem um rompante com a Ideia A (5m32s). Aos 5m42s a trompa toca em registro agudo o Tema B. Aos 6m13s aparece a Ideia 2 no piano, lembrando uma cadência. As cordas repetem a Ideia 2 (7m12s).


Aos 7m40s tem início o coda, de escrita brilhante e virtuosística.


O movimento é atmosférico, cheio de climas, com muita sensualidade e beleza.


2º Movimento - Adagio Assai (8m57s)

O piano inicia o segundo movimento com um acompanhamento de acordes e a belíssima melodia (Tema A) (que Ravel disse ter trabalhado compasso por compasso incansavelmente), fazendo tudo sozinho nesse começo. A Martha toca isso como ninguém. Esse movimento é em forma A-B-A. É de uma pureza e beleza sem fim. Aos 11m50s a flauta apresenta o Tema B, seguida pelo oboé e pelo clarinete. Repare na subida da flauta aos 12m27s, que beleza. A partir daí temos uma passagem meditativa no piano, cheia de modulações. Repare também no acorde aos 15m, com baixo na sétima maior! O Tema A volta aos 15m12s no corne inglês, com um acompanhamento lindo do piano. É uma passagem belíssima. A orquestração é sutil, mas extremamente bem calculada. Termina em um trinado, tocado com perfeição pela Martha.


3º Movimento - Presto (19m)

O terceiro movimento, o mais curto, serve para terminar a obra de maneira otimista. Quase frenético, com ideias temáticas em profusão. Ele começa da mesma maneira com que acaba, com os mesmos acordes.


Considerações finais


Embora o Concerto para a Mão Esquerda seja considerado mais profundo, mais sério, o Concerto em Sol é bem mais famoso e tocado. É uma peça que está no repertório da maioria dos pianistas desde que foi estreada.


Gravações recomendadas


- Martha Argerich, com a Filarmônica de Berlim, regida por Claudio Abbado - Essa gravação, de 1967, nunca deixou de ser uma das mais elogiadas e adoradas. É praticamente perfeita, e o som é muito bom.

https://open.spotify.com/album/6J1hCTGDIUwP4kSQVCQWxu?si=5Z6mP-p1QvSWIi95SCGHVg


- Arturo Benedetti Michelangeli, com a Orquestra Philharmonia, regida por Ettore Gracis - Essa é de 1957, e ajudou o concerto a se tornar ainda mais popular, pois Michelangeli era o pianista mais perfeccionista que se pode imaginar, e mostrou como a peça era cheia de possibilidades. É uma versão lirica e poética, um pouco menos romântica que a de Argerich/Abbado.

https://open.spotify.com/album/021fHMPCigfwXLcKXRAFME?si=1jHqbxfMTuqurfFywQr2iw


- Samson François, com a Orquestra do Conservatório de Paris, sob a regência de André Cluytens - De 1960, é uma gravação extremamente sensível e musical, por dois dos maiores intérpretes de Ravel do século XX.

https://open.spotify.com/album/2yeXqUORZVhrX8Nqb6sK4n?si=WZXLn1WfTLKmaaPjCaCSlw (faixas 38-40)


- Yuja Wang, com a Orquestra do Tonhalle de Zurique, regida por Lionel Bringuier - Uma versão moderna, de 2015, tocada com muita sensibilidade por Yuja e pelos músicos suíços.

https://open.spotify.com/album/23a6FjJmbXs8bfhPS4K0Cr?si=d9I92Us3Qm2IJ4Ntv4HKtA


- Krystian Zimerman, com a Orquestra de Cleveland, dirigida por Pierre Boulez - Essa gravação, de 1998, logo se tornou um clássico. Zimerman tem uma técnica impecável, e a Orquestra de Cleveland sob Boulez soa incrível.

https://open.spotify.com/album/0uMPPy2lbRhzn0PPonpyaT?si=rzP6tk06SYKf6mO2MrqytA


- Zoltán Kocsis, com a Orquestra Festival de Budapeste, regida por Iván Fischer - De 1998, essa gravação também é muito importante. Mais brilhante do que lírica, contém alguns efeitos que você não acha em outras gravações.

https://open.spotify.com/album/4Yrh8dgkOcYoCDVxlYOASM?si=XD-XQfWrQXKRZVFa9DtyVg


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