10 Sonatas que vocĂȘ tem que conhecer
- Rafael Torres
- 17 de out. de 2020
- 7 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2020
Por que 10? Pra depois eu ficar me queixando que nĂŁo deu pra colocar todas que eu queria aqui.
A forma sonata foi o molde que deu origem à sonata, à sinfonia e ao concerto. Não confundir forma sonata, que é um formato, com a sonata, que é uma categoria de composição. A sinfonia é uma obra para orquestra, enquanto a sonata é para piano (ocasionalmente piano e violino, piano e violoncelo, piano e flauta...).
Ambas tĂȘm 3 ou 4 movimentos, sendo o primeiro o que eu considero o mais importante, que Ă© a declaração de propĂłsito da obra; o segundo Ă© um minueto-scherzo (geralmente pra descontrair); o terceiro Ă© o movimento lento, geralmente focado mais na beleza que os outros; e o Ășltimo, chamado finale, Ă© aquele em que o compositor tenta fazer um resumo e, literalmente, dar um fim Ă obra. Por algum motivo, quase sempre o finale Ă© o movimento de que menos gosto. Os compositores sempre tentam mostrar que o triunfo e a alegria vĂȘm depois da tempestade e o resultado Ă© um movimento agitado, barulhento, espalhafatoso e, por vezes, incĂŽmodo (ao menos pra mim, mas quem sou eu, nĂ©?).
EntĂŁo vamos Ă lista, em ordem mais ou menos cronolĂłgica, de sonatas exclusivamente para piano solo que eu escolhi para vocĂȘs.
J. Haydn - Sonata NÂș 62 em Mi bemol, Hob. XVI-52
Os compositores nomeiam suas sonatas mais ou menos como a Sony nomeia seus fones de ouvido (Wh 1000Xm4???). Algumas tĂȘm apelidos, mas no geral a gente chama de: a 20 de Beethoven, a 10 de Mozart etc.
Essa, a 62 de Joseph Haydn, composta em 1794, Ă© uma das peças de que eu mais gosto do austrĂaco. Super ligeirinha, ela Ă© leve sem ser vĂŁ. NĂŁo Ă© a coisa mais profunda do mundo, porque a mĂșsica ainda estava decidindo que seria profunda (do final da vida de Mozart pro começo da carreira de Beethoven).
Ă um Ăłtimo veĂculo para os pianistas mostrarem seu toque clĂĄssico, geralmente mais delicado e sem sentimentalismos que o romĂąntico.
Gravação sugerida: Alexis Weissenberg (é uma versão mais dura do que a de Brendel, por exemplo, mas de nitidez e precisão impressionantes).
W. A. Mozart - Sonata NÂș 12 em FĂĄ, K. 332
Tive dificuldade em selecionar uma das 18, e acabei optando pela 12ÂȘ sonata de Wolfgang Amadeus Mozart. Porque Ă© linda, criativa e, embora despretensiosa, cativante. Coloquei depois de Haydn porque este era bem mais velho que Mozart, mas essa sonata Ă© de 1783, enquanto que a outra, de 1794.
AtĂ© hoje Ă© uma das sonatas mais adoradas pelo pĂșblico. O senso comum (e o incomum) dizem que, em termos de sonata, Mozart nĂŁo chegou aonde Beethoven chegou. Mas o fato Ă© que ninguĂ©m chegou aonde Beethoven chegou. Isso nĂŁo Ă© demĂ©rito para o Wolfgang. Como eu jĂĄ disse, ele prĂłprio seria um dos responsĂĄveis, anos mais tarde, por começar a inserir a noção de profundidade Ă mĂșsica.
Gravação sugerida: Alfred Brendel ou Nelson Freire
L. van Beethoven - Sonata NÂș 3 em DĂł, Op. 2 - NÂș 3
Ă a primeira sonata de Ludwig van Beethoven a me impressionar. Ele jĂĄ mostra, embora ainda esteja na sua fase clĂĄssica, toda a sua veia romĂąnitca. Ela Ă© simplesmente poderosa.
Quando foi escrita, em 1795, a 3ÂȘ Sonata foi considerada a peça mais difĂcil para piano (ou qualquer instrumento de teclado) jĂĄ composta. O segundo movimento Ă© de uma dimensĂŁo que eu acho que nenhuma obra musical tinha atingido antes. Prenunciando a "Sonata ao Luar", que Ă© a 14ÂȘ, vocĂȘ tem uma mĂŁo direita repetitiva, tocando a harmonia em arpejos enquanto que a esquerda assertivamente muda, uma nota por vez, o contexto harmĂŽnico, forçando a outra a se adaptar. Ă pungente. Parece que vocĂȘ estĂĄ assombrado e, ao mesmo tempo, encantado.
Gravação sugerida: Alfred Brendel ou Wilhelm Kempff
L. van Beethoven - Sonata NÂș 8 em DĂł menor, Op. 13
"Patética"
Se tem uma coisa idiota que eu não vou fazer é listar só uma sonata de Beethoven. Alguém disse que, se "O Cravo Bem-Temperado" de Bach é o Velho Testamento do piano, as 32 sonatas de Beethoven são o Novo.
A "PatĂ©tica" inaugura o romantismo. Agora, a mĂșsica se distanciava de objetivos angelicais e ficava mais humana. Falava sobre tormentas, dĂșvidas, certezas. Essa sonata, a oitava, Ă©, depois de "Ao Luar", provavelmente a mais famosa de Beethoven.
Quando a gente vai navegar por 32 sonatas, Ă© fĂĄcil ficar perdido. EntĂŁo a gente tem algumas "Ăąncoras". No caso de Beethoven, tem as sonatas "com nome". "Waldstein", "Tempestade", "Appassionata"... Tem outras coisas que facilitam essa navegação, por exemplo: as trĂȘs primeiras sĂŁo um grupo; a sĂ©tima e a oitava quebraram paradigmas e iniciam o romantismo; a 19 e a 20 sĂŁo cafĂ© com leite (anacrĂŽnicas, foram compostas antes das outras, mas sĂł publicadas depois da 18); e aĂ quebra-se tudo de novo lĂĄ pela 27, quando começa o fim da vida do compositor. Isso tudo ajuda a gente a se situar num acervo com 32 obras.
Musicalmente a "PatĂ©tica" Ă© sĂł novidade. O primeiro movimento Ă© impactante; o segundo, belĂssimo e delicado; e o terceiro, arrebatador. Ludwig nĂŁo estava tentando impressionar (a peça nem Ă© tĂŁo difĂcil assim), mas estava impressionando. AtĂ© pros padrĂ”es dele, jĂĄ na Ă©poca considerado o maior compositor vivo.
Gravação sugerida: Stephen Kovacevich
L. van Beethoven - Sonata NÂș 29 em Si bemol, Op. 106 "Hammerklavier"
Em 1818, jĂĄ completamente surdo e incapaz de tocar piano, Beethoven empreende a proposta de fazer uma sonata que "daqui a 50 anos ainda estarĂŁo trabalhando nela". JĂĄ se vĂŁo 200 anos e ela Ă© cada vez mais estudada e tocada.
De fato, passaram-se 18 anos até que um virtuose, o jovem Franz Liszt, fizesse a estréia, 9 anos depois da morte do compositor. Liszt chegou a escrever uma carta dizendo algo como "consegui achar um jeito de tocar a Hammerklavier".
Ă uma obra que nĂŁo Ă© sĂł difĂcil de colocar os dedos. Tem que ter a abordagem certa. Sentimentalmente ela Ă© quase surreal. Na verdade, diz-se que Beethoven inaugurou o romantismo e, em muitas formas, o pĂłs-modernismo (que de verdade sĂł começaria muitos anos depois de sua morte). Porque os seus contemporĂąneos tinham dificuldade em saber o que ele queria dizer nas suas obras maduras. Era como se ele falasse outra lĂngua.
Gravação sugerida: Maurizio Pollini
F. Chopin - Sonata NÂș 3 em Si menor, Op. 58
Mais um fenĂŽmeno que sĂł parece ter composto pĂ©rolas e morreu muito jovem (estou comparando a Mozart), o polonĂȘs FrĂ©dĂ©ric Chopin foi um virtuose a quem sĂł Liszt se comparava. A escrita para piano evoluiu muito com os dois. Ă quase impossĂvel imitar. Mas alĂ©m da escrita idiomaticamente perfeita para o instrumento, a pura musicalidade e originalidade de suas peças era notĂĄvel.
Ă possĂvel que vocĂȘ conheça uma boa dĂșzia de melodias dele. Uma delas, posso apostar, pertence Ă 2ÂȘ Sonata: trata-se da "Marcha FĂșnebre".
Mas a terceira e Ășltima sonata, esta de que falo aqui, Ă© a mais bem acabada, na minha opiniĂŁo. Apaixonante, ela parece nunca se esgotar. Justamente porque nĂŁo tem um carĂĄter Ășnico. VocĂȘ a cada audição parece enxergar algo novo. Ă uma das obras para piano mais sofisticadas.
Gravação sugerida: Nelson Freire ou Martha Argerich
F. Liszt - Sonata em Si menor
Conta-se que Franz Liszt foi, criança, a um concerto do violinista virtuose NicolĂČ Paganini. Dizia-se que Paganini tinha um pacto com o diabo, tĂŁo bem que tocava. Liszt ficou tĂŁo impressionado que disse "eu vou fazer o mesmo pelo piano". E fez. AtĂ© hoje, mesmo nĂŁo existindo gravaçÔes dele tocando, muitos juram que ele foi o maior pianista de todos os tempos.
Outra anedota que se conta, aliĂĄs, o prĂłprio Liszt Ă© quem conta, Ă© que, ainda jovem, ele foi conhecer Beethoven. O mestre pediu para que ele tocasse algum PrelĂșdio e Fuga do "Cravo Bem-Temperado" de Bach. Ouviu atento e, ao fim, perguntou se o menino poderia tocar aquela peça em outra tonalidade. Liszt o fez, arrancando elogios e premoniçÔes de Beethoven. SĂ©rio, tocar um PrelĂșdio e Fuga (ou qualquer peça, na verdade) em outra tonalidade, ainda de lambuja, vocĂȘ nĂŁo imagina o quanto Ă© impressionante.
Liszt escreveu muita coisa. Parecia nĂŁo ter fim, sua criatividade. Quando nĂŁo estava a fim de criar algo novo, pegava uma obra de Schubert ou Wagner e transpunha, por exemplo, de orquestra para piano.
Essa dificĂlima sonata Ă© bem mais conhecida que sua outra, chamada Dante Sonata. E bem mais original. Ela nĂŁo tem movimentos separados, sendo, portanto, um Ășnico fluxo de discurso musical. Foi dedicada a Robert Schumann, pouco antes da morte deste. Clara, esposa de Schumann, uma pianista altamente respeitada, nunca tocou. Considerava-a um "barulho cego". Ah, Clara...
Gravação sugerida: Claudio Arrau ou Martha Argerich
S. Rachmaninoff - Sonata NÂș 2, Op. 36
Sergei Rachmaninoff nos deixou gravaçÔes. Eu tenho uma caixa com todas elas, são 10 CDs. Mas ele não gravou essa sonata, de 1913, que foi tomada pelo pianista ucraniano Vladimir Horowitz. Ele fez uma versão autorizada pelo autor com algumas alteraçÔes.
à a versão de Horowitz que costuma ser mais executada. A sonata, em 3 movimentos, começa com uma escala descendente extremamente veloz. A gente não sabe ainda, mas aquela escala é o tema principal, porque o compositor vai dilatar, domar e acalmar até ela virar uma melodia coerente.
O segundo movimento Ă© de beleza Ămpar, e o terceiro, dificĂlimo.
Gravação sugerida: Vladimir Horowitz
A. Scriabin - Sonata NÂș 9 "Missa Negra", Op. 68
Alexander Scriabin foi um compositor russo bastante peculiar. Fazia mĂșsica atonal (quando a maioria ainda escrevia mĂșsica tonal), mas sem ser maçante. TĂnha um acorde prĂłprio, o "Acorde MĂstico". Sobre esse acorde escrevia suas elocubraçÔes. Ele mesmo era um tanto mĂstico.
Era um pianista fenomenal, pelo que consta. Rachmaninoff chegou a dizer que estudava horas por dia para soar como Scriabin, que tinha uma sonoridade notavelmente colorida.
O conjunto de sonatas de Scriabin Ă© um dos mais importantes da histĂłria da mĂșsica. Esta Ă©, possivelmente, a mais tocada. De 1913, Ă© a minha favorita dele.
NĂŁo Ă© mĂșsica pra vocĂȘ pegar a partitura e analisar, pelo menos nĂŁo a princĂpio. Basta escutar com calma e se deixar levar pelas sensaçÔes.
Gravação sugerida: Vladimir Ashkenazy ou Roberto Szidon
S. Prokofiev - Sonata NÂș 7 em Si bemol, Op. 83
Sergei Prokofiev escreveu 9 sonatas. Esta sĂ©tima, de 1942 e a seguinte sĂŁo as mais conhecidas. Altamente dissonante, um bocado difĂcil de ouvir e mais ainda de tocar, representa um desafio para qualquer pianista. Prokofiev era um pianista excelente, numa Ă©poca em que o compositor jĂĄ estava tĂŁo especializado que dificilmente conseguia se dedicar a outra coisa que nĂŁo escrever.
JĂĄ ouvi uma gravação dele tocando Rachmaninoff, que deve ter por aĂ.
Gravação sugerida: Maurizio Pollini ou Sviatoslav Richter (que estreou a peça)
