• Rafael Torres

Rachmaninoff - Concerto Nº 1 - Análise

Já falamos do Segundo, do Terceiro e do Quarto concertos para piano e orquestra de Sergei Rachmaninoff. É a vez, por algum motivo, do .


História


Composto aos 18 anos, em 1891, foi a peça de formatura de Rachmaninoff do Conservatório de Moscou. Dois anos antes, o aspirante a compositor tinha tentado um concerto que ele abandonaria e nunca mais tocaria no assunto. O primeiro concerto de fato é esse, em Fá Sustenido menor, Op. 1. Isso mesmo, Opus 1. Foi a primeira obra com que ele se deu por satisfeito.


A melhor forma de se aprender a compor é analisando e copiando obras de grandes compositores. É mesmo. Quando eu estudava, me pediam para, por exemplo, orquestrar uma peça de Villa-Lobos. Dessa forma, você estuda a obra como se a dissecasse e aprende os procedimentos que o compositor usou. Então, no caso de Rachmaninoff, seu professor Alexander Siloti pediu um concerto para piano nos moldes do Concerto em Lá menor de Edvard Grieg. A escolha foi perfeita, porque a peça tem um caráter juvenil, é melodiosa e a estrutura é bastante óbvia.


A obra foi estreada em 17 de março de 1892, no Conservatório de Moscou, com Rachmaninoff ao piano e Vassily Safanov regendo a orquestra. O curioso é que ele só tocou o 1º movimento. Os concertos, especialmente os de conservatórios, eram repletos de obras diversas, pois tinha-se que dar espaço aos outros alunos.


Sergei Vassilyevich Rachmaninoff Jovem
Sergei Vassilyevich Rachmaninoff

Muito depois, em 1917, Rachmaninoff revisou a obra, especialmente (mas não só) na orquestração. O que antes eram espaços vazios ele preencheu com bastante categoria, melhorando substancialmente a peça. Mudou também algo da música, mas relativamente pouco. Essa versão é a que conhecemos hoje, com a primeira, de 1891, tendo sido gravada pela primeira vez apenas recentemente, em 2001, pelo pianista Alexander Ghindin e a Orquestra Filarmônica de Helsinque, regida pelo especialista em Rachmaninoff, Vladimir Ashkenazy. É da versão de 1917 que falaremos aqui.


Abaixo, o pianista moscovita Nikolai Lugansky com a Orquestra de Paris, regida por Stanislav Kochanovsky. Tem horas que você acha que a performance vai por água abaixo, mas dá tudo certo.

O Concerto


1º Movimento - Vivace


A peça começa com um chamado de trombones que leva a uma série de oitavas descendentes do piano (o de Grieg começa com um rufar de tímpanos seguida de uma série de oitavas descendentes do piano). O piano faz um acorde de dominante (40s) e some, para que a orquestra assuma e faça a exposição do 1º tema, que é belíssimo (45s). A 1m13s o piano repete esse tema, terminando em uma passagem virtuosística (1m45s) que vai levar ao piano tocando mais uma vez o acorde de dominante para desembocar no 2º tema (2m57s), em diálogo entre o piano e a orquestra. Aos 3m49s eles apresentam uma ponte que leva ao desenvolvimento. Quero que perceba como ele brinca com os dois temas, tocando ora um, ora outro, destacando-os, juntando-os (4m28s), começando em um e acabando em outro. Até que os trombones mudam o caráter do movimento. Aos 5m43 a trompa apresenta o 1º tema, o piano respondendo imediatamente com o (5m50s), ainda estamos no desenvolvimento. Aos 6m25s temos mais uma ponte, que vai crescendo, até que aos 7m03s o fagote anuncia o começo da recapitulação. Aos 7m09s o piano reapresenta o 1º tema como o conhecemos, com os belos contracantos das violas e dos violoncelos. Nova ponte aos 7m45s e aos 8m50s temos a recapitulação do 2º tema. Aos 9m26s a orquestra faz novamente a ponte para dar lugar à cadência do piano (9m40s). Essa cadência começa ecoando o chamado de trombones e a série de oitavas descendentes. Ele ameça entrar com o 1º tema (10m22s), mas de fato toca o (10m53s). A cadência vai ficando cada vez mais expressiva, ganhando força até que, aos 11m47s, cai no 1º tema, de modo trágico, extremamente romântico. Rachmaninoff viria a usar esse mesmo modelo de cadência na cadência Ossia do Terceiro Concerto. Aos 12m16s a orquestra entra para fazer o coda e encerrar o movimento.


2º Movimento - Andante cantabile


O belo movimento lento (12m47s) começa fazendo modulações. Ele precisa passar de Fá sustenido menor para Ré maior. E o faz de modo magistral, usando modulações de terça cromática, sua especialidade. O seu longo tema (13m58s) é apresentado pelo piano. Aos 15m20s temos um breve diálogo do fagote com o piano, ao qual, depois, se juntam as violas. Temos aos 15m57s uma alusão às modulações, com a trompa. O fagote anuncia a volta ao grande tema (17m07s), agora de toda a orquestra com um belo acompanhamento do piano. As madeiras fazem umas carreirinhas maravilhosas (ele adicionou isso em 1917). O movimento encerra como o de Grieg, com cadências plagais (iv-I).


3º Movimento - Allegro scherzando


Começa aos 18m55s. Esse movimento também bebe do finale do concerto de Grieg. É um movimento extremamente agitado, que bem no meio, sofre uma intervenção do trombone (20m48s), lembrando o começo do primeiro movimento e muda de caráter. Faz uma suave cantilena (20m59s), como Grieg, mas melodicamente típica de Rachmaninoff. Aos 23m38s volta repentinamente a parte agitada. A escrita para piano é bem virtuosística. Ele faz uma subida muito parecida com a do 2º Concerto (25m05s) que leva ao breve coda.


Para ser obra de um compositor de 18 anos, é muito atraente. Tem muita gente que gosta dele, embora seja ofuscado pelo Segundo e pelo Terceiro. Eu particularmente adoro, especialmente os dois temas do 1º movimento, a cadência e a bela melodia do Andante. Vou listar algumas gravações pra você conhecer.


Gravações Importantes


- Sergei Rachmaninoff, com a Orquestra de Filadélfia, regida por Eugene Ormandy - O compositor gravou, nos anos 30 e 40 (ele morreu em 1943), seus concertos. Ele, obviamente, registrou a versão revisada. Aliás, todas as gravações aqui, exceto quando mencionado, são da versão de 1917. Sua gravação mostra um pianista em completo domínio do instrumento, tocando com facilidade as passagens mais complicadas. É um registro histórico e artístico importantíssimo.


- Krystian Zimerman, com a Sinfônica de Boston, regida por Seiji Ozawa - O pianista polonês simplesmente arrebenta nessa obra. Assim como no 2º Concerto, ele deixa seu sentimentalismo de lado e faz uma versão que é perfeita. Repare a cadência do 1º movimento. Ninguém toca como ele. Ozawa dá o acompanhamento dos sonhos de qualquer pianista, assertivo quando precisa, discreto quando devido e sempre preciso.


- Valentina Lisitsa, com a Sinfônica de Londres, regida por Michael Francis - É uma versão empolgante, extremamente bem gravada e tocada. Valentina tem o dom de tocar com extrema clareza passagens que outros pianistas borram. Eu não sei se é verdade, mas ouvi que ela era apenas mais uma pianista ucraniana, quando resolveu juntar dinheiro e gravar esses concertos com a Sinfônica de Londres. Deu certo. Hoje é famosíssima. Seu toque é, como disse, bem claro, mas não tem nada de leve.


- Byron Janis, com a Sinfônica de Chicago, regida por Fritz Reiner - Essa gravação é considerada um clássico. Tem tudo: bom gosto, técnica e profundidade.


- Vladimir Ashkenazy, com a Sinfônica de Londres, sob a regência de André Previn - Foi a versão com que conheci a obra. Eles fizeram todo o ciclo (os 4 concertos), e deles, o 1º me parece que saiu melhor. Tem também a versão de Ashkenazy com a Concertgebouw e Bernard Haitink, que é boa. Mas essa me parece impactante.


- Alexander Ghindin, com a Filarmônica de Helsinque, regida por, Vladimir Ashkenazy - Aqui é a gravação do original, de 1891. É substancialmente diferente, o que não significa que seja irreconhecível. Na revisão ele mais acrescentou coisas do que retirou. É como se esse fosse o esqueleto da obra. É muito interessante de ouvir, mas não chega aos pés da versão final.

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