• Rafael Torres

Dvorák - Sinfonia Nº 9 "Do Novo Mundo" - Análise

Antonín Leopold Dvořák (1841-1904) foi um compositor tcheco dos mais bem sucedidos no final do romantismo. Ele escreveu 9 Sinfonias, 3 Concertos e um monte de música de câmara. Além de ópera e música sacra. Violinista e violista de formação, ganhou notoriedade ganhando o Concurso Austríaco de Composição por três vezes (1874, 1876 e 1877). Entre os jurados estava Johannes Brahms, que ficou muito impressionado e que se tornaria seu amigo até o fim da vida.

Sucessor de Bedřich Smetana, Dvořák foi um nacionalista, até certo ponto, incorporando na sua música, ritmos e melodias da sua Boêmia (hoje, parte da República Tcheca). Sua fama internacional veio com as Danças Eslavas, que existem em versão orquestral e para piano a 4 mãos. Até hoje são muito tocadas.


Convidado a tomar parte de um projeto de Nova Iorque de criação de um grande conservatório nos EUA, Dvořák muito relutou, até que a oferta se tornou irrecusável ($$). Ele foi, em 1892, e lá compôs obras famosas, como o Concerto para Violoncelo e o Quarteto de Cordas Nº 12 - chamado de "Quarteto Americano". A sinfonia "Do Novo Mundo", a que muito se tentou atribuir uma influência americana, seria mais como uma sinfonia de saudade de casa. Tanto que ele voltou para a Tchéquia em 1895.


Dvořák faleceu em praga em 1904, vítima de influenza. Teve uma carreira altamente bem sucedida, sendo celebrado em seu país - no seu aniversário de 60 anos fizeram-se executar várias de suas obras - e no mundo.


Nas décadas que se sucederam à sua morte, foi rebaixado a "apenas" um bom compositor de melodias. Mais recentemente, graças ao esforço de músicos e musicólogos, sua reputação como um dos grandes cameristas e sinfonistas do século XIX tem sido reestabelecida.

Dvorak Sinfonia Nº 9 Do Novo Mundo
Sinfonia "Do Novo Mundo", descrita como Nº 8

A Sinfonia "Do Novo Mundo"


Interessante notar que Dvořák achava que essa era a sua sinfonia, pois a sua primeira, ele tinha mandado a um concurso e, não só não venceu como nunca devolveram os manuscritos. Ele achava que estava perdida. Já seu editor, começou a contar da 6ª, que foi a primeira a ser publicada na Alemanha, e desconsiderava as 4 primeiras, que não foram publicadas, de forma que, até os anos 50, a "Do Novo Mundo" era a 5ª. Ou seja, ela já foi , e . Vamos ver se agora estabiliza.


Essa informação é útil, porque se você gosta de discos de vinil, pode ser que encontre ela mumerada como 5ª, em doscos mais antigos. A maneira de identificar é que ela sempre vai vir com o apelido "Do Novo Mundo".


Nome completo:


Sinfonia Nº 9 - "Do Novo Mundo", em Mi menor, Op. 95


Orquestra


2 Flautas (1 alternando para Flautim)

2 Oboés (1 alternando para Corne Inglês)

2 Clarinetes

2 Fagotes

4 Trompas

3 Trompetes

3 Trombones (1 Alto, um Tenor e 1 Baixo)

Tuba

Tímpanos (1 tocador)

Triângulos e pratos (1 tocador)

As Cordas: 1os Violinos, 2os Violinos, Violas, Violoncelos e Contrabaixos


As cordas se distribuem mais ou menos assim: 16 Violinos I - 14 Violinos II - 12 Violas - 10 Violoncelos - 6 a 8 Contrabaixos; podendo ser um par a menos ou a mais de cada.


A Obra


Em 4 movimentos, ela é na clássica forma sonata. Na verdade, ela é o ápice da forma sonata, que diz que o primeiro movimento (e às vezes o último) deve conter:


Introdução - geralmente um trecho curto e lento, que estabelece um clima;

Exposição - com Tema 1 e Tema 2 (e às vezes, como aqui, Tema 3)

Desenvolvimento - em que ele elabora os temas;

Recapitulação - a exposição tocada novamente (com algumas alterações pequenas);

Coda - a finalização.


Observemos.


Abaixo, a Sinfônica da Rádio de Frankfurt, sob a regência de Andrés Orozco-Estrada.

1º Movimento - Adagio - Allegro molto


Começa com uma lenta e bela introdução (23s) nas cordas graves. Um anúncio da trompa (43s) é seguido da mesma melodia da introdução (51s), transposta (em outro tom), nas madeiras. Os golpes orquestrais que se seguem (1m13s), ainda pertencem à introdução. A 1m30s os baixos fazem uma elaboração até que as madeiras assumem (1m37s). E a 1m40s ouve-se pela primeira vez uma ameaça do que será o tema nos violoncelos. Novos golpes da orquestra (1m51s). Aos 2m02s eles fazem dois acordes, seguidos por uma nota violenta dos violinos (2m06s) que prepara para a exposição.


A exposição começa já com o Tema 1 (2m09s) sendo apresentado pelas trompas, com respostas dos clarinetes e fagotes. E é repetido pelos oboés (2m16s), desta vez as flautas, os fagotes e os próprios oboés respondendo. Perceba que ele agora (2m23s) começa a elaborar o tema, mesmo ainda não estando no desenvolvimento. A orquestra, em tutti, faz o tema novamente, ameaçador (2m41s). A resposta, desta vez (2m45) já vai acalmando os ânimos para o 2º Tema, nas flautas e oboés (3m11s), que é imediatamente repetido pelos segundos violinos. E já prepara para a entrada do 3º Tema (4m14), na flauta, o mais melódico e calmo. Os três terão importância no movimento. Ele é lindamente repetido pelas cordas. Aos 4m54 temos dois acordes da orquestra que preparam para a repetição da exposição, ou seja, esse parágrafo aqui todo vai ser repetido. Nem sempre os regentes fazem isso, tem gente que gosta, tem quem não goste. No caso dessa sinfonia, como a exposição é curta, eu não vejo problema em fazê-lo. Tema 1 (4m57s), Tema 2 (6m01s) e Tema 3 (7m03s). Repare que no Tema 3 ele faz uma desaceleração. E na repetição também. Um dos momentos em que o regente e a orquestra mostram seu virtuosismo é quando fazem duas desacelerações perfeitas, uma igual à outra. Como aqui.


Quando chega a hora em que ele repetiu, dessa vez ele passa adiante, com um acorde aumentado (7m44s). É o começo do desenvolvimento. E o primeiro tema que ele pega é o 3 (7m56s), na trompa e depois no flautim. Perceba que os violoncelos ficam fazendo um pequeno ostinato com as primeiras notas desse tema, só que em modo menor (8m12). Trompetes (8m16s), trombones respondem com o Tema 1 (8m20s). Trompas (8m24s) e trombones (8m29s). Tema 1 (8m40s). O movimento vai ganhando tensão até que suspende, quando o oboé toca o Tema 1 (09m03s), depois a flauta, o clarinete e então volta tudo.


É a recapitulação. Com o Tema 1 (09m18s). A orquestração é muito parecida com a da exposição. As trompas tocam o tema, os clarinetes e fagotes respondem. Depois, os oboés fazem o tema, as flautas respondem. A passagem para o Tema 2 é diferente, porque agora ele vai entrar em outro tom (sol sustenido menor) (9m56s). Isso tudo para que ele possa cair em lá bemol maior (que sonoramente é o mesmo que sol sustenido maior) no Tema 3 (11m05s), na segunda flauta.


Aos 11m39s as trompas fazem surgir o coda, bastante agitado, em que se ouvem todos os temas, e que acaba de maneira brilhante e assertiva o movimento, com um último (12m21) tocar do Tema 1.


2º Movimento - Largo


Como terminamos em mi menor, ele se dá o luxo de começar o segundo movimento em mi maior. Só pra modular lindamente para ré bemol, com uma linda e potencialmente arrepiante transição dos metais (13m). E aí o corne inglês pode fazer sua comovente e comprida Melodia (13m42s), talvez a mais famosa da obra. Esse tema era erroneamente percebido como uma homenagem de Dvořák à paródia de spiritual Goin' Home. De fato, foi este último que se apropriou da melodia da sinfonia - ele veio depois. Aos 15m30s volta a transição do começo, mas dessa vez mais nas madeiras, seguida de um acorde fortíssimo (15m56s). As cordas elaboram um pouco sobre a ideia do Tema (16m03s) até que volta o corne inglês (17m04s). A Parte B do movimento é um pouco mais tumultuada, começando no oboé e na flauta (18m18s), depois nas cordas com surdina (19m39s). A música muda repentinamente para tom maior (21m39s) para o oboé tocar uma melodia meio alegre (21m42s) que anuncia a volta do Tema (22m33s). Dessa vez ele volta fragmentado, especialmente no final. E parece como se a orquestra estivesse realmente indo pra casa, abandonando os instrumentos (23m03s) e também a melodia (23m20s). Aos 23m56s temos um pequeno crescendo (23m56s) até que a música acaba apenas nos contrabaixos.


3º Movimento - Molto vivace


Aos 26m24s temos o Scherzo da sinfonia. É um movimento ligeiro e ágil. É reminiscente do Scherzo da 9ª Sinfonia de Beethoven. Não é uma relação distante, na verdade, Dvořák esperava que o público fizesse essa relação, não sei se por ser a 9ª dele também - embora ele a considerasse a (perdera uma), ele sabia que a estava escondida em algum lugar. Tem relação temática também com os outros movimentos (29m14s). Como a maior partes dos Scherzi, tem um Trio contrastante (29m30s), que é leve. Aos 32m21s volta o Scherzo, terminando furiosamente, ainda com referências ao 1º movimento.


4º Movimento - Allegro con fuoco


Eu falei que o segundo movimento fosse talvez o mais conhecido. Por causa desse aqui, que talvez seja ainda mais. Ele começa ameaçando (34m05s) até que explode, aos 34m21s, no Tema 1 (o dele, não o do 1º movimento). É um tema bélico, másculo, nos metais, mas gruda mesmo na cabeça. Aos 35m53s, o prato e uma subida dos fagotes anunciam o Tema 2 (35m57s), no clarinete, muito mais lírico, pontuado pelos violoncelos. No desenvolvimento ele trabalha o Tema (38m43s) do segundo movimento, o Tema 1 (39m42s) do 1º movimento e seus próprios temas. Isso caracteriza a obra como cíclica, uma coisa que sempre impressiona os musicólogos, mas que na verdade, é fácil de fazer.


A reexposição é inesperada. Ela vem aos 39m55s, com o Tema 1 nos metais e fica bem calma (40m25s). Aos 41m16s aparece o Tema 2 nos violinos. Aos 43m23s começa o longo coda, que ameaça terminar a peça com vários golpes da orquestra mas termina mesmo com um acorde mais adocicado que se esvai nos sopros (46m01s).


Considerações finais


Foi estreada em 15 de dezembro de 1893, no Carnegie Hall de Nova Iorque, regida por Anton Seidl. A orquestra foi a da Sociedade Filarmônica de Nova Iorque, que daria origem à Filarmônica de Nova Iorque. Ao final de cada movimento o público aplaudia freneticamente, obrigando Dvořák a se levantar e se curvar no camarote.


É uma sinfonia muito impactante, sendo, ao lado das de Brahms e Beethoven, uma das mais gravadas. Neil Armstrong pôs pra tocar logo antes de pisar na lua. É a minha obra musical favorita - que é um fato muito mais importante que essa história de lua.


A orquestração é exemplar, a forma é bastante clara e, claro, as melodias são muito reconhecíveis, o que, inclusive, ajuda nessa clareza.


A interpretação do vídeo acima é espetacular. Fico sem palavras. É como se eles estivessem num dia bom à beça. Pior que não, essa orquestra é boa o tempo todo. Orozco-Estrada, regente colombiano, é um grande talento dos nossos tempos. Quase tudo que o vi reger, foi com um toque a mais de sensibilidade, de sabedoria em construir o som da orquestra e expressão na dose certa. Mesmo nessa obra, que praticamente toca sozinha. Ainda assim, vou passar minhas gravações favoritas.


Gravações recomendadas


- Sinfônica de Londres, regida por Eugene Ormandy - Qualquer listagem de gravações mais monumentais dessa sinfonia vai incluir essa aqui. Foi uma das poucas, se não a única, que Ormandy, regente húngaro, fez com uma orquestra que não fosse a de Filadélfia, em 1966. Cresci com ela, que ganhei em CD. A precisão é de níveis enlouquecedores. Os crescendos, definitivos. Ninguém faz o crescendo no final do 2º movimento como eles. E poucos tocam o comecinho igual: eles começam p (fraco, mas nem tanto), em vez de ppp, como a maioria. É a minha favorita, embora não necessariamente a que mais indico.


- Filarmônica de Berlim, sob a regência de Rafael Kubelik - Essa, de 1972, é ainda mais consenso. Numa das melhores gravações da Filarmônica de Berlim na era Karajan, sem Karajan, os músicos parecem estar à vontade. Os andamentos são muito bons.


- Filarmônica de Viena, sob Karl Böhm - Böhm me surpreendeu nessa gravação. Ele é um regente excepcional, mas não é conhecido por sutilezas. É meio duro. O que o torna ótimo para Brahms e Mozart. Dvořák exige maleabilidade, mas ele se sai muito bem aqui. Além disso, a gravação é curiosa. Ele usa uns fraseados que só ele. 1978. Muito bom.


- Orquestra de Cleveland, regida por Christoph von Dohnányi - Outra gravação com a qual eu cresci. É de 1987. Mais moderna que as anteriores, tem também um melhor som, acho. Mas o som das outras já é bom. Dohnányi pegou uma orquestra mágica, tida como "o instrumento mais afiado dos Estados Unidos" e gravou uma das peças que mais se adequam a seu som.


- Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara, com Andris Nelsons - A gravação moderna mais bem tocada, de 2013, quando tudo ainda era tão bonito... A orquestra é um fenômeno e Nelsons, assim como Orozco-Estrada, sempre me encanta.



E então? Gostou do texto? Deixe seu comentário, por favor. Escute alguma dessas gravações, que essa sinfonia não tem erro. Não tem como não gostar. E comente. Já comentou?


Ah, e olha aqui nossas famosas análises.


Tchaikovsky - A Sinfonia Nº 6 "Pathétique"

Rachmaninoff - Concertos Nº 1, Nº 2, Nº3 e Nº 4

Debussy - Os Prelúdios para piano: Livro 1 e Livro 2

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