• Rafael Torres

César Franck - O Aluno dos seus Alunos

Consta que o belga César Franck (1822-1890) tinha um talento especial, e, ainda assim, um interesse pequeno em disseminar esse talento. Seu pai, o bancário Nicolas-Joseph Franck, o estimulava a escrever operetas, canções de cunho popular e música de ocasião. Como ele demosntrava talento musical desde cedo, seu pai queria transformá-lo num fenômeno à la Franz Liszt. Ele o colocou no conservatório de Liège bem cedo e, em 1835, mudaram-se para a França, estudar com professores do Paris Conservatoire. No conservatório em si, eles (César e seu irmão Joseph) só puderam ingressar em 1837, quando adquiriram cidadania francesa. E o pai ia colocando os meninos para tocar em público.


Quando entrou no conservatório, já no primeiro ano, consagrou-se com o primeiro lugar na sala de piano. Em contraponto, terceiro lugar. Ele começou a estudar órgão com François Benoist em 1840. Apaixonou-se pelo instrumento.


César Franck
César Franck

Mas em 1842, César pede dispensa do conservatório. Acontece que seu pai, muito interessado no dinheiro e na fama que o jovem podia trazer, o fazia dar concertos com frequência e ainda ensinar. César não aguentou fazer tudo isso e ainda estudar teoria seriamente no conservatório. O projeto do pai e sua insistência em marcar concertos dos irmãos Franck com composições de César-Auguste acabou desgastando sua relação com a crítica de música parisiense, que, embora o considerasse um bom pianista, achava que, como compositor, ele deixava a desejar.


O resultado é que tiveram que voltar para a Bélgica em 1842. Mas encontraram um ambiente musical pobre, não tinham concertos regularmente e a crítica era indiferente. Não satisfeito, o pai os faz voltar a uma rotina de concertos e estudos exaustiva em Paris.


Mas foi esse período que viu surgirem as primeiras composições maduras de César. Um grupo de Trios com Piano (piano, violino e violoncelo, até hoje muito tocados e gravados). O próprio Liszt, após vê-los, encorajou a carreira do rapaz e até se entusiasmou em tocá-los alguns anos depois.


Primeiro movimento do seu Trio com Piano Nº 1, em Fá sustenido menor, Op. 1/1.

Sua próxima obra, o oratório Ruth, foi um fracasso de público e crítica, resultando praticamente em demover Franck da ideia de ser compositor. Passou a ser professor particular e acompanhador (de violinistas etc.). Seu pai não ficou feliz. O próprio César ainda estava em dúvidas sobre qual era seu verdadeiro talento. Um competente pianista podia ser respeitado, mas haviam milhares na França. Um compositor de sucesso, isso sim, era uma carreira que poderia levar à imortalidade.


Mas aí aconteceram algumas coisas. Franck se apaixonou por uma de suas alunas, Eugénie-Félicité-Caroline Saillot (1824–1918), cujos pais eram da Comédia Francesa e cujo nome de palco era família Desmousseaux. Seu pai (o dele) não aprovou. Quem leu a história até aqui, deve ter sentido que a vida de César só iria mudar quando ele se livrasse do pai. Pois aí está, aconteceu. César mudou-se para a casa dos Desmousseaux e quase rompeu com seu pai. Casou-se com Eugénie em 1848.


Enquanto isso, Franck se consolidava como organista, obtendo cargos na Catedral de Notre-Dame-de-Lorrette, na Saint-Jean-Saint-François-au-Marais e outras. Ele desenvolveu uma capacidade ímpar para improviso no instrumento que usa as duas mãos (são três a cinco teclados, um em cima do outro) e os pés (mais um teclado).


Ele viveria feliz como organista por anos, compondo pouco e ganhando respeito em Paris pelo manejo do instrumento. Mas em 1872, François Benoist se aposentou do conservatório como professor de órgão, e o substituto foi César Franck. Lá ele era chamado de Père Franck, Pai Franck, e era muito querido pelos alunos. E foram eles que o estimularam a voltar a compor seriamente. Por isso, e também porque tinha mais tempo livre, compôs o Poema Sinfônico Les Éolides (1876). Mais pra frente, em 1879, o Quinteto com Piano. São peças tocadas até hoje, e de uma rara propensão para a melodia e para a complexidade de estrutura. Estava-se descobrindo o César Franck compositor.

César Franck ao órgão.
César Franck ao órgão.

Nos loucos anos 80 ele comporia Le Chasseur Maudit, poema sinfônico; Les Djinns, para piano e orquestra; Prelúdio, Coral e Fuga, para piano; Variações Sinfônicas, para piano e orquestra; e a ópera Hulda. Tudo com a insistência e encorajamento de seus alunos, dentre os quais Vincent D'Indy, Ernest Chausson e Henri Duparc.


Em 1886 ele compôs para o violinista belga Eugene Yasÿe a sua celebérrima Sonata para Violino e Piano.

Além de uma beleza etérea, a sonata é em forma cíclica, o que significa que temas dos seus movimentos são recorrentes por toda a obra. Ela se tornou um sucesso, e Ysaÿe a tocaria até os anos 20.


A única Sinfonia, em Ré menor, de 1888 foi mal recebida de início, o público queria até se revoltar. Mas é hoje uma das mais importantes sinfonias do repertório.


Em 1890 ele envolveu-se em um acidente de automóvel. Ele sobreviveria algum tempo aos ferimentos, mas pararia de tocar e, eventualmente, até de andar. Morreu em 8 de novembro daquele ano, sem saber que seria imortalizado por essas obras de que falei.


Franck é um compositor de poucas, mas interessantíssimas obras. Saint-Saëns, por exemplo, escreveu 5 sinfonias e nenhuma delas emplacou como a única de Franck. Escreveu também 5 concertos para piano, e nenhum chega perto da popularidade das Variações Sinfônicas de Franck. Quando se fala em forma cíclica, é o compositor que primeiro vem à mente. É hoje celebrado e tocado como um dos maiores compositores franceses (franco-belgas) de sua época.


Gravações importantes


- Sinfonia em Ré menor - Com Pierre Monteux regendo a Orquestra Sinfônica de Chicago - Desde o ano em que saiu, 1961, é considerada a gravação padrão da sinfonia, com sua clareza de estrutura e suas passagens fortes bem trabalhadas.


- Sonata Para Violino e Piano em Lá menor - Com Arthur Grumiaux ao violino e István Hajdu ao piano - Trata-se de uma gravação cheia de energia e brilho, revelando e aproveitando as belas melodias e variações de humor da sonata. É de 1969.


- Quinteto com Piano - Com Marc-André Hamelin (piano), Joshua Bell e Pamela Frank (violinos), Nobuko Imai (viola) e Steven Isserlis (violoncelo) - Uma gravação recente (2020) no Festival Verbier que contém este formidável quinteto, evidenciando toda a eloquência e poder da música.


- Prelúdio, Coral e Fuga; Prelúdio, Ária e Final e Variações Sinfônicas - Com Jorge Bolet ao piano e a Orquestra do Concertgebouw regida por Riccardo Chailly - Bolet foi um dos pianistas que melhor defenderam a obra de Franck. Neste disco de 1989 ele toca versões definitivas das três obras.


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