• Rafael Torres

TOP 10 concertos para piano que você tem que conhecer

O Concerto para piano é, depois da sinfonia, o tipo de composição mais frequente nas salas de concertos. Não se trada de uma obra só para piano, mas para piano e orquestra. Uma apresentação típica é mais ou menos assim: Começa com uma peça que utilize a orquestra e um solista (e muito frequentemente é aqui que entra o concerto para piano); intervalo; segunda parte com obras só para orquestra.


Com raríssimas exceções, os compositores do passado tocavam ou conheciam muito bem o piano. O instrumento surgiu no começo do século XVIII, mas só se tornou popular na segunda metade deste mesmo século. Ele herdou o repertório do cravo e ainda deu novas possibilidades aos compositores. Veja, o cravo tinha uma limitação grave: não importava a força com que você tocasse a tecla, o resultado era o mesmo. Enfim, não tinha forte nem fraco (piano em italiano é fraco).


Surge então esse instrumento que é capaz de tocar forte e piano. Chamou-se, a princípio fortepiano. E ele abria possibilidades de interpretação que os teclados não haviam tido até então. E desde o começo percebeu-se a facilidade com que ele dialogava com a orquestra.


Vai aqui mais uma lista (gosto delas) dos meus concertos favoritos. Não quero simplesmente dizer que são os concertos de que mais gosto. Quero, sobretudo, recomendá-los. Fazer com que você se sinta tentado a conhecê-los.


Esta lista é mais que um "top 10". É parte de um "top 20" ou "top 30" que vou fazendo. Além do mais, a ordem é cronológica, indicando, portanto, que não existe hierarquia na colocação das obras. Não vou fazer as menções honrosas justamente porque teremos essas outras listas.


 

Wolfgang Amadeus Mozart - Concerto para Piano Nº 27



Wolfgang Amadeus Mozart compôs alguns dos mais importantes concertos para piano. Como não quis colocar mais de um do mesmo compositor, escolhi o 27º e último. É uma obra de 1791, o 35º e último ano da vida de do compositor austríaco. Cheia de plenitude, paz, mas não sem um pouco de melancolia, a obra não é considerada muito virtuosística. O piano está sempre discreto, doce. Como se o compositor já tivesse provado que sabe muito bem escrever concertos e agora quisesse escrever apenas música.


Gravação sugerida - Orquestra Filarmônica de Viena - Regente: Böhm, pianista: Gilels


 

Ludwig van Beethoven - Concerto para Piano Nº 5 "Imperador"



De 1811, é o derradeiro concerto para piano de Ludwig van Beethoven. E o mais conhecido. Fora os 5, ele escreveu um para violino e um triplo, violino, violoncelo e piano: sempre com orquestra, não se esqueçam que Concertos são obras em que um instrumento solista dialoga com a orquestra.


O “Imperador” tem esse nome acredito que só pela sua natureza grandiosa. Não foi dado por Beethoven, mas pelo seu editor.


É frequentemente executado e gravado. O primeiro CD que eu tive dele, com a Orquestra de Cleveland regida por George Szell e com Leon Fleisher ao piano, tem vários pontos em que se pode enxergar o outro lado: de tanto que eu escutei, furou.


Gravação sugerida - Orquestra do Gewandhaus de Leipzig - Regente: Chailly, pianista: Freire


 

Frédéric Chopin - Concerto para Piano Nº 2



Em 1829, antes de completar 20 anos, Frédéric Chopin nos presenteou com essa maravilha. O pianista brasileiro Nelson Freire diz que é o mais belo e mais difícil, sendo seu favorito. O favoritismo explica ele dizer que é o concerto para piano mais difícil. Não é. Mas é uma obra brilhante, cheia dos lampejos de criatividade típicos do compositor polonês.


Chopin escreveu 2 concertos, surpreendentemente, o primeiro antes do segundo. Explico: o que conhecemos como Concerto Nº 2 foi escrito primeiro, mas publicado depois do que conhecemos como Concerto Nº 1.


Por falar no 1º, é mais conhecido que este aqui. E mais difícil (Nelson Freire que me corrija). Mas o 2º é tão belo que eu optei por ele.


Gravação sugerida - Orquestra Gürzenich de Colônia - Regente: Bringuier, pianista: Freire


 

Franz Liszt - Concerto para Piano Nº 2



Franz Liszt, em 1840, compôs este que é um dos mais belos concertos para piano da literatura. É simplesmente bonito de doer. Não é tão difícil e virtuosístico quanto o , nem mesmo tão gravado quanto. Isso porque é uma obra construída não para o solista se exibir, mas para comover o ouvinte. É a minha peça favorita do compositor húngaro.


Sua versão final é de 1861, porque Liszt revisava as obras como eu reviso posts. Quanto à forma, Liszt o fez em um único movimento, sem pausas. Claro que há mudanças de andamento e de humor que correspondem a movimentos diferentes, mas a audição num fluxo contínuo faz total sentido. Trata-se de uma narrativa que não permite interrupções.


Gravação sugerida - Orquestra da Rádio Bávara - Regente: Carvalho, pianista: Freire


 

Robert Schumann - Concerto para Piano em Lá menor



Em 1845, Robert Schumann completou seu único concerto para piano e orquestra. Entrou para o rol dos concertos mais tocados de todos os tempos. Ele já tinha apresentado o primeiro movimento como uma Fantasia em Lá menor, mas os editores a rejeitaram. Sua esposa, Clara, uma pianista de renome mundial, sugeriu então que ele o transformasse em um concerto.


Muitos anos antes, ao escrever críticas artísticas, Schumann havia criado os personagens Florestan e Eusebius, um, tempestivo e apaixonado, e o outro, contemplativo e calmo. Eles eram duas personalidades do compositor, e ele assinava as criticas como um ou outro. E ele usou muito eles dois para compor. Às vezes você escuta uma peça de Schumann e percebe claramente que ele estava sendo Eusebius ou então Florestan. O compositor tinha depressão e possível bipolaridade, e eu penso que esses personagens são a manifestação disso tudo.


Voltando ao concerto, especialmente no primeiro movimento, nota-se uma luta entre Eusebius e Florestan. O resultado é espetacular. O movimento culmina em uma cadência maravilhosa, que assusta pianistas até hoje.


Gravação sugerida - Orquestra do Gewandhaus de Leipzig - Regente: Chailly, pianista: Argerich


 

Edward Grieg - Concerto para Piano em Lá menor



De 1868, este concerto é a peça mais conhecida do compositor norueguês Edvard Grieg. Mesmo não sendo a coisa mais profunda, é irresistível. Um primeiro movimento heroico, um segundo movimento sensível e um finale genial. Não precisa mais que isso pra estar na minha lista e, se pesquisarem por aí, qualquer outra que apareça pela internet. Sem contar com a cadência, que foi entrando no imaginário popular até fazer florir as épicas cadências dos concertos 1 e 3 de Rachmaninoff.


Em alguma altura dos anos 50 ou 60, algum produtor percebeu que ficava ótimo colocar ele num lado do disco e, do outro, o de Schumann. O resultado é que esses dois concertos, de compositores que nada têm a ver um com o outro e que só compartilham da mesma tonalidade, ficaram sendo gravados lado a lado. Mas confesso que gosto. Schumann, grave, Grieg, leve.


Gravação sugerida - Orquestra Filarmônica de Berlim - Regente: Karajan, pianista: Zimerman


 

Pyotr Tchaikovsky - Concerto para Piano Nº 1



Se o primeiro e mais bem sucedido concerto para piano de Pyotr Tchaikovsky fosse confrontado com outro, só perderia em popularidade para o 2º de Rachmaninoff. Tão difícil, ele exige até mesmo preparo físico do solista. No gigante primeiro movimento, temos corridas ascendentes e descendentes com ambas mãos, oitavas duplas em cromatismo e uma cadência eloquente (embora eu sempre tenha achado que faltava "bactéria" a essa cadência).


O segundo movimento é um encantador andantino (andamento um tanto lento). E o último, cumpre seu papel: continuo a não gostar de finales.


Gravação sugerida - Orquestra Filarmônica de Berlim - Regente: Abbado, pianista: Argerich


 

Johannes Brahms - Concerto para Piano Nº 2



Obra da maturidade de Johannes Brahms, estreada em 1881, em Budapeste, com o compositor ao piano, sucede o primeiro concerto em 22 anos. Também é dificílimo e tem uma característica estranha: poucas mulheres o tocam/gravam.


Confesso que é o meu favorito. Primeiro movimento alterna entre o pastoral e o agitado, mas o clima geral é de paz. O segundo é um scherzo divertido e sardônico que contém uma das passagens mais difíceis da literatura, pelo que me consta. O terceiro é um lindo andante (meio lento) em que, como no concerto Nº 2 de Liszt, o piano desenvolve um fabuloso diálogo com o violoncelo. E o finale está dentre os poucos que me agradam.


Gravação sugerida - Orquestra do Gewandhaus de Leipzig - Regente: Chailly, pianista: Freire


 

Sergei Rachmaninoff - Concerto para Piano Nº 2



A história é famosa: em 1887 o jovem compositor Sergei Rachmaninoff apresenta em São Petersburgo sua 1ª sinfonia. É um fracasso absoluto. Vários fatores contribuíram para isso: a orquestra estava mal ensaiada, Glazunov, o regente, estaria bêbado e, cá pra nós, a sinfonia carece de atrativos (não que seja ruim). Mas o que importa é a rejeição. Rachmaninoff teve um colapso e passou a ter bloqueio criativo.


Foi preciso recorrer à psicanálise e passaram-se três anos até que ele conseguisse escrever outra obra. Justamente o Segundo Concerto. Conta-se que, nas sessões, eles trabalhavam com a sugestão, repetindo tenazmente "eu vou compor um concerto"...


É hoje o concerto mais executado e gravado de todos. Virtuosístico, mas sem abrir mão da musicalidade, é peça ideal para o pianista demonstrar todas as suas qualidades.


Tem tudo. Beleza arrebatadora desde o começo, escrita brilhante para piano e, sobretudo, uma maravilhosa integração entre o solista e a orquestra.


Gravação sugerida - Orquestra Sinfônica de Boston - Regente: Ozawa, pianista: Zimerman


 

Sergei Prokofiev - Concerto para Piano Nº 3



De 1921, este brilhante concerto representa perfeitamente o modernismo. Dissonante, interessante e nobre. Difícil, também. Já falei que Sergei Prokofiev era um exímio pianista. Não de carreira, mas chegou a gravar algumas coisas.


E é preciso entender muito do idioma do piano pra criar uma obra tão fantástica, tão sofisticada. Na verdade, mais sofisticado é o 2º concerto. Diz-se que apenas o 2º de Bartók e o 3º de Rachmaninoff se equiparam a esse em dificuldade. Mas é de linguagem difícil, de modo que não foi muito popular. Prokofiev então resolveu fazer do 3º uma obra mais leve, menos ambiciosa. E de fato se tornou o concerto mais conhecido dos seus 5.


Gravação sugerida - Orquestra Filarmônica de Londres - Regente: Abbado, pianista: Argerich



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