• Rafael Torres

Os Milagres de Mozart - Concerto para Flauta e Harpa - Análise

As circunstâncias para que justamente Wolfgang Amadeus Mozart compusesse um Concerto para Flauta, Harpa e Orquestra tinham que ser as que foram. Decidido mais uma vez a tentar a vida fora de sua Salzburgo natal, onde seu pai insistia que ficasse, o jovem de 21 anos vai com a sua mãe a Paris. Lá ele se aloja na casa do Duque De Guines, que lhe encomendara aulas de composição para sua filha, Marie-Louise-Philippine.

No começo, Wolfgang ficou encantado, a menina era talentosa, o duque tocava flauta muito bem, segundo o próprio Mozart, e encomendou esse concerto para suas próprias habilidades, bem como as da filha na harpa. Mozart compôs essa obra absolutamente maravilhosa, que até hoje está no repertório de qualquer flautista ou harpista.


Acontece que a viagem a Paris não foi muito boa. Primeiro porque o duque, ao final das aulas, não quis pagar o que devia a Mozart. Ofereceu metade (que louco!), que o compositor recusou. Pra piorar, a mãe dele acabou morrendo de uma doença que nunca ficou esclarecida. Mozart estava em dívidas, tinha que penhorar objetos constantemente, e a demora em chamar um médico possivelmente foi por causa da falta de dinheiro.


Uma coisa que surpreende algumas pessoas às vezes é como, em períodos de penúria, ele compunha peças tão leves e angelicais. Temos que lembrar que a morte prematura e a doença eram muito comuns naquela época. Ele mesmo era um filho que tinha vingado junto com a irmã, de um total de sete que nasceram. Resignava-se e se seguia a vida. Isso e o fato de que ele era um músico realmente prodigioso. Veja aqui um exemplo.


Enfim. Ele compôs rapidinho, como costumava, e tudo leva a crer que a peça foi executada pelos três. E nunca mais ele tocou no assunto. A peça está pronta, e muito bem acabada, mas ele não escreveu as cadências, de modo que hoje, praticamente toda gravação tem uma versão diferente das cadências - ele obviamente escreveu pausas e a palavra cadenza para indicar onde as queria.


O Concerto


Em Dó Maior, esta obra singela e juvenil é o K. 299 de Mozart. Koechel, ou K. é a catalogação mais aceita para as obras dele. Equivale ao Opus. Ele compôs até o K. 626, quando, aos 35 anos, faleceu.


Nos concertos até essa altura (antes do século XIX), quando os solistas eram mais de um, chamava-se a eles de concertino e à orquestra, de ripieno.


A orquestra do Concerto para Flauta e Harpa é pequena, constituindo-se das cordas, dois oboés, duas trompas e os solistas.


Abaixo, o flautista Mathieu Dufour, a harpista Marion Ravot, com a Orquestra da Academia Karajan da Filarmônica de Berlim, sob a regência de Ton Koopman.


1º Movimento - Allegro


A obra abre luminosa (30s), com um acorde que leva a uma série de arpejos ascendentes e descendentes. Já é o Tema 1. Note que essa parte é da orquestra, mas era prática comum o concertino se juntar ao ripieno, especialmente no começo da Exposição. Hoje em dia nem sempre se faz isso. 1m09s temos o Tema 2, bem mais calmo e cantante. Com 1m52 começa a exposição dos solistas. Eles praticamente repetem o que fez a orquestra, mas com pequenos arabescos (2m05s), já desenvolvendo o material temático. Aos 2m40s temos esse novo Tema, que é apresentado pela flauta. Aos 3m começa um belo jogo entre as cordas e a flauta e que vai ser explorado posteriormente. Aos 3m22s o Tema 2 volta.


E aos 4m48s entra o Desenvolvimento, em que eles trabalham todo o material apresentado. Aos 6m01s vem a Reexposição (ou Recapitulação). Aqui eles vão apresentar os temas 1 (6m01s) e 2 (6m21s) e 3 (6m40s) novamente e abrir espaço para a cadência. Antes, repare nesse momento (7m30s), como a articulação da flauta e dos violinos é perfeita. Aliás, o fraseado inteiro é perfeitamente sincronizado.


A cadência se inicia aos 8m43s e vai até 9m52s, quando a orquestra retoma só pra finalizar.


2º Movimento - Andantino


O segundo movimento (10m42s) é o milagre de Mozart. Ele apenas apresenta um Tema longo e vai variando - tática que Beethoven aproveitaria, por exemplo, no 2º movimento do seu Concerto para Violino. Começa com as três notinhas em staccato (10m42s) seguidas pela bela frase que as complementa (10m57s). Poucas são as gravações que expõem com nitidez a característica harmônica desse trecho. Especialmente as violas e os segundos violinos, fazem notas dissonantes maravilhosas. Dá pra perceber bem na versão de Hogwood (veja abaixo). Aos 11m26 o concertino repete o longo Tema, e aos 11m56s eles o desenvolvem brevemente. Aos 14m14s repete-se mais uma vez com consequências diferentes. E agora leva a uma cadência (17m09s). Aos 19m07s a orquestra faz seu retorno pra encerrar o movimento.


3º Movimento - Rondeau - Allegro


Aos 20m10s tem início o Rondó, que originalmente era uma dança, mas que evoluiu para uma forma. É mais uma forma do que qualquer coisa. O Tema 1 é sucedido da parte 2. Aí volta o Tema 1, dessa vez seguido da parte 3. Enfim, A-B-A-C-A-D-A-E-A... Se assemelha a uma brincadeira. Repare, por exemplo, quando a harpa entrega uma ideia (21m21s) e a flauta devolve (21m31s) um pouco diferente. Faz parecer que os músicos estão improvisando. Volta o Tema 1 (23m55s).Depois, Tema 1 no modo menor (25m14s) e cadência (27m40s). Até que a orquestra volta novamente (28m36s) para encerrar.


Considerações Finais


É um lindo concerto da juventude de Mozart. Ele obviamente não tocava harpa, mas a escrita não é ruim. Ainda era um instrumento com pouca notoriedade, mais um brinquedo de moças da alta sociedade europeia. Na harpa não se usa o dedo mindinho, de modo que alguns padrões de 5 notas ou 10 são identificáveis como tendo sido compostos para o teclado e depois transpostos para ela. Ademais, nos dois primeiros movimentos é praticamente um concerto para flauta com orquestra e harpa acompanhantes. A harpa só se manifesta mais no terceiro movimento.


Gravações Recomendadas


- Lisa Beznosiuk (flauta) e Francis Kelly (harpa), com a Academy of Ancient Music, regida por Christopher Hogwood - Christopher Hogwood, grande maestro inglês, e sua orquestra, AAM, são especialistas em repertório pré século XIX. Isto é, tocam com instrumentos do século XVIII (ou cópias fieis) e com técnicas dessa época. Veja mais sobre isso aqui. Essa gravação, de 1987, é impecável. Todas as articulações, os andamentos e as dinâmicas são decisões acertadas.


- Karlheinz Zoeller (flauta) e Nicanor Zabaleta (harpa), com a Filarmônica de Berlim, regida por Ernst Märzendorfer - Uma versão bem conhecida. Zabaleta era o harpista do século XX. O som é meio problemático. A harpa parece ter uma microfonação mais distante, mas parecem querer compensar isso deixado o volume mais alto. Mas eles tocam impecavelmente. É uma interpretação romântica da obra, ou seja, usam uma orquestra grande (mais cordas) e fraseados modernos. É de 1962.


- Jacques Zoon (flauta) e Letizia Belmondo (harpa), com a Orquestra Mozart, regida por Claudio Abbado - Essa é a ideal pra quem fica indeciso entre uma abordagem (a "de época") e a outra, romântica. Essa aqui, de 2011, é mais como se faz hoje, isto é, com uma orquestra moderna, mas sem exageros, nem de tamanho nem de arroubos sentimentais. Mas também não tem muitas "regras" como têm as "autenticas".


 

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