• Rafael Torres

Mozart - Réquiem - A Obra que Matou o Compositor?

Talvez essa seja a peça mais representativa da história da música. Especialmente da músia sacra, ao lado da Paixão Segundo São Mateus e da Missa em Si Menor, de Johann Sebastian Bach (1685-1750). O Réquiem em Ré Menor, K. 626, para Coro, Orquestra e 4 Solistas é a obra mais madura de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791).

Os debates, ou a existência deles, não diminuem a sua grandeza. O que Mozart compôs está perfeito, e o que foi completado por seu amigo Franz Xavier Süssmayr foi digno de uma composição de tal porte - embora musicólocos apontem "erros" na escrita deste último.


Franz Xavier Süssmayr
Franz Xavier Süssmayr

O fato é que Mozart compôs dez movimentos, falecendo antes de completar a Lacrimosa - e tendo composto apenas oito compassos desta. Suspeita-se que ele tenha deixado insrtuções para seu colega completar a obra, já que a inventividade dos movimentos atribuídos a Süssmayr é importante - ele não era considerado um compositor muito competente (ou experiente). Logo, a única explicação para a qualidade da sua contribuição é que Mozart tenha, de fato, deixado instuções. Isso é apenas uma hipótese, no entanto. Estudiosos já apontam há séculos para os perigos da linha de pensamento: "se é bom e está bem escrito, é Mozart; do contrário, é Süssmayr".


O próprio Süssmayr garantiu ter composto do zero três movimentos: Sanctus, Benedictus e Angus Dei. O Agnus Dei tem uma construção mutio própria de Mozart. Benedictus e, principalmente Sanctus, são movimentos menos ambiciosos, mas são condizentes com outros Sanctus e Beneditus de Mozart, como os da Grande Missa em Dó Menor, que são peças de extrema simplicidade cercadas por música da mais alta categoria. Eu sou partidário de deixar o Réquem como está, sem essa preocupação com as instabilidades dos movimentos atribuídos a Süssmayr. Afinal, Constanze Mozart, a viúva do compositor o procurou para finalizar a obra - é vedade que ela tentou outro dois compositores, antes.


Enfim, quanto ao que "é" de fato Mozartiano, nunca teremos certeza. A não ser nos trechos em que temos manuscritos autografados pelo compositor. Quanto ao resto, teremos, no máximo, plapites. E os meus dizem que ele foi responsável por dar diretrizes ao seu colega - durante anos pensou-se que Süssmayr era um dicípulo de Mozart, mas a verdade é que ele era um copista, ajudando justamente na completação de partituras em que Mozart dava apenas indicações um tanto vagas sobe a orquestração.


Não seria nenhuma forçação (caramba, uma palavra com duas cedilhas) de barra. Mozart estava moribundo, sua morte era certa. E era importantísssimo para ele entregar o Réquiem completo ao seu misterioso encomendador, pois isso garantiria dinheiro bastante para o sustento de Constanze e de seus dois filhos: Karl Thomas Mozart e Franz Xavier Wolfgang Mozart, que ainda era um bebêzinho. É bem fácil pensar que ele passou, sim, instruções ao seu copista mais próximo.


Mas vamos aos fatos


Manuscrito do Réquiem, em Ré Menor, de W A Mozart.
Manuscrito do Réquiem, em Ré Menor, de W A Mozart.

- No final de 1791 Mozart foi procurado por um servo que não quis ideitificar seu patrão. O patrão queria que Mozart compusesse um Réquiem (missa dos mortos) para a sua esposa.


- Havia um porém, porém. Mozart não deveria revelar-se o compositor da obra, deixando que o encomendador tomasse a glória para si, por pelo menos, alguns anos.


- Tratava-se do Conde de Walsegg, um aristocrata e músico amador de 28 anos que pretendia apresentar o Réquiem como peça sua, em homenagem ao primeiro aniversário do falecimento de sua jovem esposa - ela tinha 20 anos quando morreu, e o conde jamais casou novamente. Mas Mozart jamais soube disso.


- Os Mozart estavam realmente preocupados com a conclusão da missa. Isso porque a Mozart foi paga uma boa quantia de adiantamento, com a promessa de mais, quando a obra estivesse terminada.


- Uma Missa de Réquiem é a transformação em música de vários trechos bíblicos, em homenagem aos mortos. Alguns copositores podem variar, escolhendo certos trechos e omitindo outros. Originalmente, muito tempo antes de Mozart, a música era destinada a ser cantada durante uma missa, por cantores (homens) sem acompanhamento instrumental. Aos poucos, foi ganhando importância e complexidade, de modo que, no século XIX, era uma peça a ser executada em uma sala de concertos. A orquestra foi adicionada por volta do ano 1600. Ele tinha trechos canônicos, ou seja, trechos bíblicos que eram praxe ser musicados: Introit (Requiem Aeternam); Kyrie Eleyson (o único trecho em Grego, em oposição aos outros, todos em latim); Gradual (um salmo); Tract; Sequência (contendo o Dies Irae, o Tuba Mirum, Rex Tremendae, Recordare, Confutatis e Lacrimosa); o Offertorium (que também tinha suas partes); Sanctus; Agnus Dei; Lux Aeterna; Pie Jesu; Libera Me e In Paradisum.


- Tendo composto alguns movimentos e mais alguns trechos, o compositor não tinha um Réquiem completo. Deveria adicionar ainda os trechos: Offertorium (Domine Jesu e Hostias); Sanctus; Benedictus; Agnus Dei e Communio (Lux Aeterna e Cum Sanctis Tuis).


- Para o Communio, que continha a Lux Aeterna e o Cum Sanctis Tuis, Mozart pretendia simplesmente repetir os dois primeiros movimentos, Requiem Aeternam e Kyrie, adaptando apenas a letra. Assim foi feito e, até hoje, o Réquiem é tocado assim. Portanto, esses dois movimentos são de Mozart.


- Segundo relatos de Constanze, Mozart frequentemente chorava copiosamente enquanto compunha a música, certo de que compunha um Réquiem para si mesmo - o compositor andava adoentado desde agosto de 1791 e jamais se recuperou.


- Segundo a narrativa tradicional, Mozart teria dito à esposa que tinha certeza de que estava sendo envenenado.


- Ele recebeu a encomenda do Réquiem por carta em meados de julho.


- A composição foi interrompida por outra encomenda: a ópera La Clemenza di Tito, pelo Teatro Nacional de Praga. Mozart completa a ópera no dia 5 de setembro já em Praga. Ele rege a estreia no dia seguinte, 6, com grande aclamação na Boêmia, atualmente, República Tcheca.


- Ao retornar a Viena, empreende a conclusão da ópera A Flauta Mágica (que já tinha começado), uma de suas mais queridas e populares, completando-a em 28 de setembro e estreando em 30 do mesmo mês, para uma plateia lotada e com grande aclamação.


- Em 8 de outubro, o compositor volta a trabalhar no Réquiem.


- Mozart sente-se muito doente desde que chegara a Praga. Certo dia, em um passeio com Constanze, ele chora e diz que tem certeza que o Réquiem que está compondo é para ele mesmo. "Eu sindo definitivamente que não durarei muito mais. Tenho certeza de que fui envenenado. Não consigo me livrar dessa ideia."


- Constanze tenta dissuadí-lo de continuar o Réquiem, insistindo, no lugar, que ele terminasse a Freimaurerkantate (seu K. 623). De fato ele a termina e estréia em 18 de novembro, obtendo, mais uma vez, grande sucesso.


- Ele teria dito: "Sim, vejo que estava doende por ter uma ideia tão absurda de estar me enenenando. Me entregue de volta o Réquiem e ou vou terminá-lo." Foi uma péssima ideia.


- Os sintomas da doença voltam. No dia 20 de novembro, Mozart é acamado, com inchaço, dores e vômito.


Manuscrito do Lacrymosa, as últimas notas que Mozart compôs.
Manuscrito do Lacrimosa, as últimas notas que Mozart compôs.

- Segundo Benediky Schack, um amigo próximo do compositor, para quem o papel de Tamino na Flauta Mágica foi escrito, Mozart convidou um grupo de amigos para uma leitura dos manuscritos do Réquiem. Isso teria acontecido na tarde anterior à morte do compositor. Mozart cantou a parte do Contralto. Quando começaram a Lacrimosa, Mozart começou a chorar, deitou a partitura de lado e interrompeu o ensaio.


- Poucas horas depois, Wolfgang Amadeus Mozart morreu, na madrugada de 5 de novembro de 1791, em Viena, sem completar o Réquiem.


- O que aconteceu depois foi uma série de tentativas por parte de Constanze Mozart de completar a música. Ela precisava recolher o restante do pagamento. Teve que esconder do conde o fato de que a obra estava incompleta e teve que correr atrás de compositores que se dispusessem a terminá-la. Depois de algumas tentativas, aceitou que Süssmayr fizesse o trabalho.


- Uma vez que o conde estreou a peça e saciou seu desejo egoísta de fingir que a peça era sua, ela tinha que providenciar para promover discretamente o trabalho a fim de receber os royalties da composição e da execução. Tinha, ainda, que garantir que o público pensasse que a obra fora completada por seu marido, pois uma peça completada por ele valia muito mais do que uma incompleta.


- Essa série de cuidados que a moça foi obrigada a tomar, levou a uma série de erros na colocação histórica do Réquiem.


- Um dos mitos mais fortes, que surgiu algumas décadas depois da morte de Mozart, é que Antonio Salieri, antigo compositor da corte de Habsburgo, em Viena - e presumivelmente inimigo de Mozart, pois havia uma rivalidade entre os compositores de ópera italianos e os germânicos - havia, ele sim, forçado para que Mozart completasse o Réquiem, mesmo sabendo que isto acabaria por matá-lo. Não ajuda em nada para ele o fato de que, em 1824, muitos anos depois, Salieri, em um sanatório, gritasse a plenos pulmões "Eu matei Mozart".


- Em 1979, o dramaturgo Peter Shaffer escreveu uma peça com base nesse boato, atribuindo a Salieri uma inveja mortal dos talentos de Mozart e planejando, por fim, matá-lo.


- Em 1984, o diretor Miloš Forman dirigiu uma adaptação cinematográfica da peça, com Tom Hulce no papel de Mozart e F. Murray Abraham no papel de Salieri. Os dois concorreram ao Oscar de melhor ator, que no final ficou com Abraham. O filme é uma obra de arte, embora historicamente fantasiosa. Contém atuações fabulosas e momentos em que Salieri simplesmente descreve a obra de Mozart com tanta invejosa paixão, que é impossível não se comover. Observe o trecho abaixo (não encontrei em português):

- A verdade é que Salieri, se não era amigo de Mozart, tinha boas relações com ele. Mozart, é claro, tinha algumas reclamações, como pelo fato de achar que os italianos estavam atravancando sua carreira em Viena. Mas, musicalmente, se respeitavam. O verdadeiro Salieri, rico mesmo depois da Revolução Francesa, dava aulas de graça a estudantes que tinham talento e não tinham dinheiro para pagar. Foi professor de compositores inportantíssimos, como Ludwig van Beethoven, Franz Liszt, e Franz Schubert. Morreu em 1825, velho e demente.


A obra


O Réquiem em Ré Menor, K. 626 foi a última obra de Mozart, e até hoje se discute o que se deve atribuir (especialmente no final da obra) a ele. Inclusive, houve várias outras tentativas de se completar o que se achava que não era dele. Existem livros, jogos (!) e incontáveis gravações da obra:


Tomemos como guia a versão abaixo, da Orquestra Nacional da França, sob a regência de James Gaffigan. Você perceberá que a obra é extraordinária em todas as suas partes. O Réquiem tem 50 minutos de duração, de modo que eu recomendo que você vá escutando aos poucos. A filmagem começa com uma previsão da Lacrimosa, não ligue. A música começa depois.


I. Introitus - Requiem Aeternam (1m19s)


A introdução nas palhetas (fagotes, clarinetes e basset horns) já nos dá a impressão de que não se trata mais de uma obra do Classicismo, mas uma que já prevê o Romantismo - que começaria, de fato, mais de dez anos depois, com Beethoven. A 1m54s os trombones explodem, indicando o fim da itrodução.


O coro vai entrando de maneira fugada, primeiro os baixos (2m), depois os tenores (2m03s), então as contraltos (2m06s) e as sopranos (2m10s). Repare como a melodia que eles cantam evoca a melodia da introdução.


A música cai em Fá Maior para o "Et lux perpetua", que faz um diálogo entre as cordas e as vozes (2m38s). Em Si Bemol Maior, a soprano entra para fazer o "Te decet hymnus". Repare que, como se trata de música sacra, e não de ópera, os cantores solistas são mais comedidos, cantando de maneira bem mais agradável.


Aos 3m40s, o coro canta o "Exaudi". Aos 4m10s temos uma nova interferência instrumental, que serve para fazer a modulação de volta para Ré Menor, recomeçando o trecho "Requiem Aeternam" (4m21s). Aos 5m08s começa o coda, com "Et lux perpetua", e a música termina calmamente no acorde da dominante.


II. Kyrie (5m46s)


O Kyrie é atacado sem pausa (attacca), e é uma dupla fuga de alta complexidade textural. As palavras repetidas são simples: "Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison" (Senhor, tende piedade de nós, Cristo, tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós). Depois de uma pausa, a peça termina em um acorde sem terça, o que nos deixa sem uma resolução em Ré maior (otimista) e nem Ré menor (pessimista).


III. Sequentia

III-1. Dies Irae (8m13s)


Os dias de ira são sempre movimentos agitados e amedrontadores. O de Mozart é assim, com o coro e a orquestra tocando forte (f). A música parece perder força na segunda aparição dos versos "Quanto tremor est futurus" (8m58s), mas aos 9m27s ganha nova vitalidade. Aos 9m35 temos o coda. A peça termina em uma simples nota ré no contratempo.


III-2. Tuba Mirum (10m09s)


Um movimento melodiosamente generoso, o diálogo entre o trombone e o baixo é encantador. A entrada do tenor (11m03s) traz drama ao movimento, que é mantido com a entrada da contralto (11m47s). Apenas a entrada da soprano (12m04s) é mais plácida, isto porque é em tom maior. O clima esfria um pouco até o fim, com belos corais do quarteto. Repare como Mozart mescla as intervenções da orquestra com as do quarteto.


III-3. Rex Tremendae (13m29s)


O Rex Tremendae é uma das peças mais interessantes do Réquiem. Começa com uma introduçao assertiva. O coro grita "rex" (13m40s) ainda na introdução. Os versos "Rex tremedae majestatis qui salvando salvas gratis salve me fons pietatis" (Rei de majestade tremenda, que salva e salva gratuitamente, salva-me, fonte de piedade) são distribuídos pelo coro de maneira engenhosa e comovente. O Salva me (14m48s) provoca uma ruptura na dinâmica da música, tornando-a singela e angelical. Esse espírito permanecerá até o fim da obra.


III-4. Recordare (15m31s)


Outro movimento comovente, o Recordare é com o quarteto de solistas. Assim como o Rex Tremendae, ele usa o Cânon, um recurso em que um cantor começa a cantar uma frase e é logo seguido por outro. Observe a entrada da contralto (15m59s), seguida imediatamente pelo baixo (16m01s). Logo depois, soprano (16m12s) e tenor (16m14s) repetem o gesto. É um daqueles movimentos que só Mozart. Plácido, não parece que foi composto por alguém atormentado pela doença. É uma das mais belas páginas do repertório sacro.


III-5. Confutatis (29m27s)


O famoso Confutatis foi dissecado no filme Amadeus, numa cena em que Salieri ajuda Mozart a compor.

A cena deixa bem claro o uso de texturas pelo compositor. As vozes, em cânon, os trompetes e tímpanos marcando o rítmo e as cordas em uníssono fazendo um movimento ligeiro e atormentado. Já o "Voca me" é novamente surpreendente, cortando a música e nos atingindo com a melodia mais angelical no coro feminino (20m48s). O Confutatis retorna, no coro masculino (20m59s), meio de cabeça pra baixo. Mais uma vez o "Voca me" retorna nas vozes femininas (21m21s), trazendo paz.


O que se segue (21m51s) é "Oro supplex et acclinis, cor contritum quasi cinis, gere curam mei finis" (Eu me ajoelho com um coração submisso, minha contrção é como cinzas, ajuda-me na mina condição final), que é absolutamente assustador. A música parece vir da voz de uma angústia perfeita, inquieta, e assim segue até o fim. Para terminar, um acorde de lá com sétima (22m45s) nos prepara para o mais belo movimento da obra.


III-6. Lacrimosa (22m49s)


Começando com um encadeamento harmônico da orquestra, a obra parece se abrir ao céu quando o coro entra com as palavras "Lacrimosa dies illa, qua resurget ex favilla judicandus homo reus" (Aquele dia de lágrimas, quando das cinzas surgirá julgando toda a humanidade). Até a palavra reus, temos certeza de que foi Mozart que escreveu. Está anotado no seu papel, com a sua letra. E para, subitamente. Aqui começa a confusão.

Os últimos compassos de Lacrimosa escritos por Mozart
Os últimos compassos de Lacrimosa escritos por Mozart.

Harmonicamente, a música é complicada, repleta de micromodulações. O que me indica que Süssmayr fez um belo trabalho ao completá-la. Se você é o cidadão que completou a Lacrimosa, e completou com dignidade e fidelidade, você está de parabéns.


Ele terminou a música com um Amem simples, uma cadência plagal. Mas há indícios de que Mozart previa uma fuga para esse amem. Isso, uma fuga só com a palavra amem. Um fragmento dela foi descoberto nos anos 60 e tem a letra de Mozart e foi escrtita definitivamente em 1791. Por sinal, a versão de Christopher Hogwood, que eu indico abaixo, faz uso desse fragmento, completado por Robert Levin.


IV. Offertorium

IV-1. Domine Jesu (25m52s)


O Domine Jesu volta a ser composto por Mozart, pelo menos parcialmente. Ele escreveu o esqueleto, digamos assim, da peça. Tudo que Süssmayr tinha a fazer era completar a orquestração. Além disso, Mozart deixa, nesse movimento, melodias que Süsmayr poderá aproveitar depois. É o caso de "Libera eas de ore leonis" (Liberta-os da boca do leão) (26m29s), cantada pelo coro feminino. "Sed signifer santos Michael" (Deixe que o porta-estandarte, São Miguel) (27m13s), cantada pela soprano em cânon com os outros solistas, é exatamente a mesma melodia, mas em tom menor.


Outra melodia que será aproveitada posteriormente é "Quam olim Abrahae promisisti" (Conforme prometeste a Abraão) (27m42s), no coro masculino.


IV-2 Hostias (29m29s)


O Hostias ainda é um produto da imaginação de Mozart. Ele escreveu as partes do coral e uma espécie de baixo contínuo, que situa a harmonia. Süssmayr também teve que orquestrar essa, e o fez com siplicidade, sem correr riscos. A música é repleta de modulações (mudanças de tom) e tem uma escrita coral perfeita.


Aos 31m02s temos a retomada do "Quam olim Abrahae promisisti", de chofre. Ele encerra o movimento.


V. Sanctus (32m52s)


Aqui começa o que Süssmayr garantiu que compôs do zero. Esse movimento e os dois seguintes. Devo lembrar, mais uma vez, a similaridade desse Sanctus com o Sanctus de Mozart para a Grande Missa em Dó Menor. Não acho que seja coincidência. Süssmayr novamente se recusa a tomar riscos (e acho que isso é o que se era esperado dele).

A escrita é modesta, mas eficaz. Aliás, um bom regente faz toda a diferença aqui: mal conduzido, pode ser um movimento barulhento e cansativo. Ele termina com uma pequena fuga sobre "Osanna in excelsis" (Hosana nas alturas) (33m39s).


VI. Benedictus (34m30s)


É o movimento mais ousado de Süssmayr, com três partes distintas, coros elaborados e uma suave melodia Mozartiana desde o começo. Mas é também o que mais entrega a ausência do gênio austríaco. Há vários momentos de encheção de linguíça que jamais veríamos em um movimento de Mozart, além do ritmo estrutural da música ser pouco pensado. No geral, porém, vale à pena. É uma bela contribuição.


VII. Agnus Dei (38m52s)


Das contribuições de Süssmayr, essa é a mais bem-sucedida. Embora a maneira como ele estrutura as frases longas da melodia não sejam condizentes com o estilo de Mozart, a instrumentação é convincente. Ele usa várias técnicas de Mozart, como modulações, quebras de andamento, cadências e mais.


VIII. Communio (41m44s)


Obedecendo ao desejo de Mozart, Süssmayr faz a música terminar exatamente como começou (a partir do solo de soprano). Apenas as palavras são diferentes. A fuga do Kyrie também é repetida, e também tem outras palavras. E também acaba sem nos dar a satisfação de ouvir um acorde maior ou um menor. É um ré com quinta aberta.


Considerações finais


O Réquiem de Mozart é, sem dúvida, a música inacabada a levantar mais debates entre estudiosos e executantes. Se olharmos cuidadosamente, veremos que Süssmayr, na melhor das suas possibilidades, nos deu um complemento digno e que, por vezes, realça a composição, além de uma orquestração que, se não tem nada de especial, também não tem grandes pecados. Eu sou a favor de que o Réquiem fique como está, outras tentativas de completá-lo só fazem piorar a música. Até mesmo o Amem que encerraria a Lacrimosa, tenho que admitir que prefiro sem. Mesmo sendo uma música comprovadamente de Mozart. Acho o Réquiem perfeito como está, e é uma das músicas mais assombrosamente geniais que já se compôs.


Gravações recomendadas


Fuja das versões Nutella de Böhm, Bernstein, Solti, Celibidache e outros. Especialmente a de Böhm, que é considerada um clássico, mas que é uma bomba.


- Carlo Maria Giulini, regendo a Orquestra e Coro Philharmonia e solistas - Foi a gravação com que conheci a obra. Passava horas escutando numa rede, no meu Discman. Simon Estes é o baixo perfeito para a obra. A gravação é de 1989.


- Christopher Hogwood, regendo o Coro e a Orquestra da Academia de Música Antiga, o Coro de Meninos de Westminster e solistas - Quando ouvi essa gravação, de 1984, fiquei impactado. A começar com o coro. Em vez de usar vozes femininas, ele usa vozes de crianças, como era praxe na época de Mozart (mulheres não podiam cantar na igreja). Esse produto do machismo religioso acaba por nos dar uma versão arrepiante. Outra novidade é que Hogwood usa o Amem completado por Robert Levin para encerrar a Lacrimosa. E outra coisa, essa versão tem a cantora de voz mais bonita que eu conheço, a soprano Emma Kirkby.


- Peter Schreier, regendo a Orquestra do Staatskapelle de Dresden, o Coro MDR da Rádio de Leipzig e solistas - Um belo dia um amigo (o Nílbio, co-editor do blog) me emprestou um vinil com esta interpretação. Eu não botava muita fé, pois nunca tinha ouvido falar no regente. Mas quando coloquei para escutar foi uma surpresa. A gravação é extremamente discreta, equilibrada, beirando a perfeição. É de 1983.


- Nikolaus Harnoncourt, com o Concentis Musicus de Viena, o Coro Arnold Schoemberg e solitas - Essa é a segunda gravação de Harnoncourt, a primeira tendo sido de 1982. Para esta, de 2003, ele foi mais moderado em suas visões de "interpretação historicamente informada", com os contrastes entre fraco e forte ainda bem destacados, mas menos deselegantes que na versão anterior.


- Herbert von Karajan, com a Filarmônica de Viena, o Wienner Singverein e solistas - Karajan, em suas últimas gravações, regia com uma segurança e soberania que poucos conquistaram. Conterrâneo de Mozart, tinha a música nos ossos, como dizem. É a gravação de 1986.


- Riccardo Muti, com a Filarmônica de Berlim e o Coro de Câmera de Estocolmo - Essa gravação é uma aglutinação de virtudes, evidenciando a verve operística de Muti, mas sem cair no exagero.


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