• Rafael Torres

Trenodia para as vítimas de hiroshima: um grito congelado no clarão da bomba


Em 1960, o compositor polonês Krzisztof Penderecki assombrou a todos com uma composição especial. A Trenodia para as Vítimas de Hiroshima (Threnody for/to the Victims of Hiroshima). A peça, assombrosa, não é nada convencional, mesmo para a época, quando a música se tornava cada vez mais experimental. Ela o alçou à fama mundial.

Tenho um amigo muito querido, o Alencar, que conta que, quando trabalhava na Rádio Universitária, deparou-se com um disco com essa obra. Na capa do LP, tinha escrito "disco com defeito". O disco estava perfeito!


Em vez de tentar descrever toda a ação que vitimou milhares, ele foca num momento e o dilata. Todos os japoneses gritam ao mesmo tempo. Na peça, esse momento é congelado, e esticado a ponto de ser perturbador. Sabemos que depois que a bomba de Hiroshima explodiu, entre o clarão e o momento em que os cidadãos foram atingidos, não se passaram os 8 minutos, como na obra: foi uma fração de segundo. É como se o compositor desse um zoom nesse momento e nos fizesse ouvi-lo ampliado e arrastado, com toda a sua confusão e desespero.


Penderecki usa uma técnica polonesa chamada Sonorismo, que explora novas sonoridades nos instrumentos (no caso, 52 cordas), bem como novas formas de articulação, timbre, dinâmica e movimento. Faz uso também de clusters, acordes compostos por notas bem próximas, vizinhas. Tudo isso cria uma textura bizarra e altamente expressiva.


Claro que a obra não fala só da explosão: tem corpos caindo, motores passando, sirenes soando... Até que vai morrendo.


Trenodia, ou Elegia, é uma peça composta para celebrar a morte de uma ou, no caso, várias pessoas. A peça chocou o mundo, com sua visão crua e seca da tragédia. Vejam bem, ele podia escrever uma peça como o Adagio para Cordas, de Samuel Barber. Uma música sentimental e bonita, que parece falar do trágico, também. Mas ele opta pelo grotesco. E acaba tendo um efeito devastador na nossa psiquê. Eu comparo o efeito a uma situação em que a fotografia fala mais que um filme. O momento congelado, mais que uma narrativa linear.


Krzisztof Penderecki faleceu em 20 de março desse 2020, aos 86 anos, em Cracóvia. Foi um compositor extremamente bem sucedido, tendo, nos anos 70, dado uma guinada de estilo: largou a vanguarda e veio fazer música tonal pós-romântica.

A Trenodia foi usada como parte da trilha sonora de filmes como: Filhos da Esperança, de Alfonso Cuarón; As Criaturas Atrás das Paredes, de Wes Craven; e Odisseia para Além do Sol, de Robert Parrish. O compositor ganhou 4 Prêmios Grammy.


Krzisztof Penderecki

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