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papo de arara: hermes Veras


Hermes Veras. Foto: Thayanne Tavares

Hermes Veras é antropólogo, poeta e membro do selo literário Tubo e do Escambanautas, também outro grupo de escritores e escritoras que troca experiências, promove cursos e viabiliza publicações. Hermes já publicou a não-ficção O sacerdote e o aprendiz: antropologia de um terreiro amazônico pela editora Letramento agora no ao de 2021 e está neste momento com uma campanha de financiamento coletivo de seu livro de poemas Formas Veladas. Cearense radicado no Pará e com doutorado no Rio Grande do Sul, Hermes bateu um papo gostoso com a redação da Arara sobre antropologia, vida, arte e, claro, poesia e literatura.


1. Hermes, primeiramente explica: como foi que você percebeu que era poeta?

Convive em mim um velho. Desde o finalzinho da infância, no início do adolescer, sentia aquela vontade de fazer poesia e outros tipos de expressões artística com as palavras. Só que essa vontade ia e voltava, geralmente passava logo! E me concentrava em coisas boas-divertidas, como brincar, ouvir música, jogar RPG. Com o passar do tempo e convivendo com meus professores de literatura no ensino médio, principalmente um professor que perdi o contato e a professora Nádya Gurgel, com quem falo até hoje, aprendi alguma coisa sobre a poesia e as escolas literárias. Meus primeiros poemas eram emulação do estilo simbolista e árcade, hahaha. E eu falando assim sei que parece coisa de gente besta, mas juro, não sou não. Eu tinha acesso a isso com o meu livro didático de literatura e também aperreando os professores. Bom, mas isso não me convenceu a ser poeta, nem de que eu poderia ser um. Já no final do ensino médio e o início de meu tempo de cientista social aprendiz, andava com um caderninho vagabundo, daqueles de capa mole e estampa de surfe, escrevendo uns poemas alucinatórios, sobre a filosofia das coisas cotidianas, da percepção de se perceber gente, disso de percorrer com consciência o tempo e o espaço. Das coisas que só podemos fazer quando estamos mergulhados no tempo da juventude e escolar, sem outras preocupações. Nesse período escrevi um livro todo manuscrito de poesia, tem um pouco mais de 40 poemas. Nunca publiquei e pretendo que fique assim. Mas lá tem poemas que gosto até hoje. Com isso ganhei o apelido de poeta entre amigas e amigos, claro que com um tom pejorativo, às vezes contemplativo ou digno de pena. Nessa época já participava do Grupo Eufonia de Literatura, também em Fortaleza (2007-2012). E éramos amigos que nos reuníamos para falar de literatura, de nossas leituras nae do que a gente escrevia na época. Foi um momento fundamental para que eu me sentisse parte de algo e esboçasse a vida de escritor. De qualquer forma, depois disso vieram os contatos com a Fazia Poesia, encabeçada pelo poeta Alex Zani, que é um portal literário de poetas contemporâneos, a participação do Festival da Poesia de Fortaleza (2020), com a curadoria do escritor Talles Azigon e por aí vai.


2. E como você se descobriu e se tornou antropólogo?

Olha no Brasil geralmente é antropólogo quem tem o bacharelado em Antropologia (são cursos recentes) ou formação de pós-graduação em Ci na área. Entrei em contato com a antropologia só na graduação em Ciências Sociais na UECE (2009-2012). Sempre gostei da antropologia por conta de achar os textos mais bem escritos do que os das outras áreas das ciências sociais. Isso falando de maneira bem geral, há muitas exceções e diferenças. Mas o espírito da antropologia me pegou de jeito por ser uma maneira de se estar no mundo pensando e vivendo a diversidade-diferença e a potência disso para as relações sociais. É bem utópico, sabemos do passado colonial da disciplina, mas acredito que há muitas formas de praticar antropologia, quando estou escrevendo, seja o que for, estou fazendo uma delas, mas com outros registros e artefatos. Então, formalmente, fiz a graduação em ciências sociais. Passei a me achar perto de ser um antropólogo no mestrado em antropologia, que fiz na UFPA (2013-2015), em Belém do Pará. Mas isso é gradativo. Acho que me tornei antropólogo quando aprendi a ouvir o outro e extrair um aprendizado disso. O meu livro O sacerdote e o aprendiz: antropologia de um terreiro amazônico (2021) é uma materialização disso, por isso sou sempre muito grato ao Terreiro de Mina Deus Esteja Contigo e ao Pai Álvaro, local e com quem construí minha pesquisa para a dissertação-livro. Atualmente concluo o doutorado em Antropologia Social pela UFRGS, mas a minha pesquisa é em São João de Pirabas, também sou bastante grato aos terreiros que me receberam por lá, aos pais e mães de santo com quem convivi e muitas pessoas de religião afro. Não se acerta sempre, mas acho que a antropologia tem que ter esse espírito de aprendizagem, interlocução e movimento.


3. E como que você encara esse cenário atual da arte e, um pouco mais especificamente, da literatura independente brasileira? Em que estágio estamos tanto no sentido de organização, financiamento, mas sobretudo também de difusão das obras? Porque você faz parte de um selo literário independente, não é?


Sabe, não sou a melhor pessoa para responder sobre mercado literário, mesmo o independente. Sim, o meu livro está saindo por uma editora independente, a Escaleras, de Salvador/João Pessoa, que é encabeçado pela escritora e editora Débora Gil Pantaleão. Convivo com várias outras pessoas escritoras que se aventuram no campo independente da literatura contemporânea. Acho que está difícil, pois sempre esteve. Mas está pior por conta da pandemia e de se ter um governo genocida, fascista e contra tudo que é bom na humanidade, ou seja, odeia a arte. Mas o pessoal está resistindo, criando, fazendo arte de birra, por ser contra, por precisar fazer isso. Sendo tinhoso, botando boneco. Mas aí cansa. Artista precisa comer, precisa pagar contas, precisa viver. No caso da literatura acho que há espaço para tudo e todas as pessoas. Sabe, acompanho de perto a revista Escambanáutica, que paga seus autores. Um de seus editores é o Moacir Fio, que também escreveu um microposfácio em Formas Veladas. A revista foca em literatura fantástica e especulativa. Tem também a newsletter de lá, a Pulpa Mágica, que também paga. Há algumas revistas que conseguem pagar seus profissionais por conta de financiamento coletivo. Esse é uns dos caminhos. Mas também pode nos esgotar. Enfim, o importante é tentar, brigar por nossos direitos e fazer o que estiver ao nosso alcance para construir um público leitor (devo ter umas 20 pessoas, mas estou caminhando rs) e nós mesmos tentarmos distribuirmos nossas obras. No geral nem as grandes editoras fazem isso, apenas com alguns gatos pingados. As independentes estão limitadas por questão humana: quase sempre é uma pessoa que toma conta de tudo, abrangendo para mais duas ou três. E tem a questão financeira, do financiamento da obra de fato. Muitas editoras independentes dependem do catarse, ou outras plataformas, para lançar os seus livros. A pré-venda por esses projetos de financiamento coletivo é essencial para que a editora não tenha maiores prejuízos e consiga produzir a obra. É um caminho que precisamos percorrer, mas também estarmos atentos a outras possibilidades. Uma hora a fonte seca... Enfim, acho que me perdi na resposta. De fato não sou o melhor para responder sobre isso, apesar de estar atento ao movimento.

4. É possível ser um artista sem ter internet hoje?


Sim. É possível ser tudo. Não vai ser fácil. Assim como não é fácil ser artista e estar na internet ao mesmo tempo. Mas vou falar por mim, e sobre uma parte do meio literário que conheço. Não consigo me imaginar construindo um público leitor (que apesar de ser mínimo, tem sido formado a duras penas, com cada pessoa sendo conquistada na arte da palavra, sedução e lorota rs) sem os recursos das redes sociais. Além disso, estabeleci vínculos com várias pessoas da literatura por conta de oficinas que cursei, grupos de discussão, enfim, por conta dessas redes que vamos estabelecendo. Olha, hoje eu publico microcontos no instagram, na página @viu.eitanem . Tento ter um instagram relativamente ativo, no meu perfil pessoal também. Uso o twitter, facebook, linkedin... Escrevo uma newsletter de crônicas, um mensageiro, no link https://tinyletter.com/hermesveras. Enfim. Uso a internet a meu favor. De quebra ganho ansiedade e outros problemas. Nada é fácil... Sei que aprendi muito com a escritora e professora de escrita Vanessa Passos (que assina a quarta capa de Formas Veladas). Ela já era minha amiga por ser casada com o Paulo Henrique Passos, que participou do eufonia comigo junto com o CA Ribeiro Neto (que assina um microposfácio no Formas Veladas), o Pedro Gurgel e muitos outros amigos e amigas. Mas enfim, a Vanessa me incentiva a estar na internet, divulgando o meu trabalho como escritor e a colocar a cara no mundo. Também aprendo muito com a minha companheira, a Thay Petit, que é antropóloga e artista visual. A maioria dos aspectos visuais e audiovisuais que estão nas minhas redes são feitos por ela, ou tem muito da mão dela. Ela me convenceu de que eu preciso dar um jeito no visual das coisas que apresento. Antes eu batia o pé: sou escritor, vão ler o que escrevo. Sim, vão ler (esperança), mas preciso apresentar ao menos um negócio bonitinho, né.

5. E sobre o seu livro, como foi o processo de escrita do livro?

Escrevi a maior parte dos poemas em 2020. Mas há poemas de 2019. Como te contei, escrevo poemas com certa frequência desde o final do ensino médio. Escrevi alguns livros de poesia que ficam na minha gaveta. Participo da Fazia Poesia. E por conta desses contatos, acabei fazendo algumas oficinas com a poeta Anna Clara de Vitto (ela escreveu a orelha de Formas Veladas). As oficinas dela foram empurrões para que eu criasse vergonha na cara e escrevesse mais um livro de poesia, mas um que dessa vez viesse ao mundo e fosse publicado. Então impulsionado pela oficina, ainda no início da pandemia, escrevi boa parte dos poemas. Reuni alguns de 2019 e editei para que tudo isso tivesse cara de livro.

6. Depois de escrito, qual foi a trajetória dele para chegar até a editora?

Depois de tudo isso o livro recebeu a leitura sensível e crítica do CA Ribeiro Neto, ele me ajudou a pensar mais na unidade de Formas Veladas como um livro. Submeti para o concurso da Biblioteca Pública do Paraná. Aguardei o resultado, vi que não tinha rolado. Então editei o livro um pouco mais. Até que apareceu a chamada de originais da Editora Escaleras. Eu já tinha feito umas oficinas com a Débora Gil Pantaleão, a responsável pela editora. Sem contar que sou leitor mesmo de seu catálogo, acho que tem muita gente incrível, que não cito com medo de perder algum nome. Mas o catálogo de contos, poesias e agora romance, é impecável mesmo. Leiam Escaleras! Enfim. Enviei o meu original e ele foi aprovado. A Débora fez uma leitura também sensível, sugeriu umas alterações e fizemos. Agora o livro está em seus últimos dias de campanha no catarse, depois vai para a casa de quem comprar!

7. Você também é antropólogo, né? Lembro que o Paulo Leminski, que era faixa preta de judô, sempre dizia que - ao menos no caso dele - não dava para separar o atleta-artista marcial do poeta. Então eu te pergunto: é possível separar o antropólogo do poeta? Como esses dois campos se misturam e se conciliam em ti? Você separa ou junta uma da outra?

Antes eu pensava que separava. Mas aí vi que não fazia muito sentido. Na verdade a pós-graduação acabou aniquilando um pouco do meu tesão pela literatura. Continuava lendo, mas escrevia pouco. Atualmente consigo conciliar um pouco melhor isso, mas continuo um caos. Não separo o antropólogo do poeta, nem o poeta do cronista, contista. Quando passo um café, sou eu que estou ali, passando o café. Eu que vou tomar o café, provavelmente. Então por que diabos não seria o antropólogo, poeta, contista, cronista, diabo a quatro, que estaria passando e tomando este café? Demorei para perceber isso, aí você pode perceber o quanto sou confuso e lento.

8. Hermes, você é nordestino, especificamente cearense. Mora no norte, especificamente o Pará, há muitos anos e atualmente estuda doutorado no Sul do país, na federal do Rio Grande do Sul. Partindo desse contexto queríamos te perguntar basicamente duas ou três coisas: Você tem a sensação de que muitos brasileiros desconhecem o próprio país? Ou em outro sentido, você percebe o privilégio que é ter essa vivência em várias regiões e realidades diferentes? Acho que é ainda mais privilégio ter essa vivência juntamente com esse conhecimento todo que você tem de antropologia onde a vivência prática e a reflexão teórica podem se misturar. E por fim, como você acha que isso contribui para sua poesia? A pergunta parece enorme, no entanto, no fundo, no fundo, o que queremos perguntar basicamente é uma pergunta-chave para outro antropólogo, Stuart Hall: Você consegue responder com facilidade àquela famosa pergunta: de onde você é?


Quero te agradecer por essa pergunta. Sabe, eu gosto mesmo é do movimento. Mas nós nos movimentamos dentro de nós mesmos. Podemos viajar sem sair do lugar. De qualquer forma, me mover, simultaneamente, tanto de mim, quanto em espaço, caminhar por outras geografias, me é muito prazeroso. Sou um privilegiado por ter me deslocado para estudar. Na época estávamos nos governos do PT, todo aquele clima de que estudar vale a pena, que não eram mais só os ricos que poderiam estudar e até mesmo seguir carreira acadêmica. Viajei para vários estados do Brasil para apresentar meus trabalhos de antropologia, indo até mesmo para Santiago, no Chile e Posadas, Argentina. Tudo sendo financiado pelas universidades e instituições de fomento. Antes de entrar na faculdade, eu nunca tinha saído do Ceará praticamente. Só uma vez que fui de ônibus para Recife. Mas quem me fez sair de casa mesmo foi o ensino público e a ciência! Então sou um privilegiado por ter conseguido uma bolsa no mestrado, mesmo que tenha passado seis meses sem recursos, e por ter tido bolsa no doutorado. Sou privilegiado por ter estudado em universidades públicas, gratuitas e de qualidade, como a Universidade Estadual do Ceará, Universidade Federal do Pará, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E eu quero que cada vez mais pessoas possam passar por isso! Não podemos aceitar que o governo do nosso país seja contra a educação e a ciência. Que afirme que só os ricos podem acessar a universidade. Esses caras não podem vencer. Nem vão. Verdade é que meu movimento se deu junto com os bons ares da política pública universitária, junto com a minha vontade de conhecer mais do Brasil. Não é fácil aceitar esse tipo de vida movente. Agora tô com anseio de me fixar, conseguir me manter financeiramente, ajudar minha família de maneira mais efetiva. Mas não me arrependo. E bom. Eu posso dizer com exatidão de onde eu sou, nasci em Fortaleza e vivi nesta cidade até os meus 22 anos. Agora não sou só isso. A minha experiência em Belém e Ananindeua, no Pará, me marcou profundamente. Fui muito bem recebido aqui. Já a experiência no Sul, em Porto Alegre, foi mais de alteridade radical. Foi uma experiência bem interessante, mas não é a mesma de ter morado no Norte. No Norte acho que me misturei. Eu como as coisas daqui, falo expressões daqui. Isso sem deixar de ser cearense. Mas em Porto Alegre a história foi outra. Questão de afinidade espiritual, se podemos dizer assim. E também morei por menos tempo e sabia que era a experiência de cursar um doutorado. Quanto ao fato das pessoas não conhecerem o próprio país, acho que isso acontece mais por conta de nossa dimensão, da falta de incentivo e investimento em estudos básicos em geografia e a própria antropologia. Sem contar que o poder sudestino tende a ler o Brasil a partir do próprio umbigo, espalhando as suas mídias e atos como se fossem eles mesmas a expressão única e máxima do que se é Brasil. Mas nós no Norte e Nordeste sempre resistimos a tudo isso e não deixamos de contar nossas histórias e nos expressarmos desde a nossa experiência, mas sem dever nada a ninguém!


9. Quais suas principais influências na literatura, na antropologia e na vida?


Isso de influência é difícil, pois me sinto influenciado por muita gente e seres. Não só no bom sentido. Portanto vou elencar nomes aleatórios e embaralhados: Manuel Bandeira, Gilka Machado, Hilda Hilst, Olga Savary, Cruz e Sousa, Kadu Carneiro, Lívio Barreto, Adélia Prado, Edson Carneiro, Bruno Menezes, Belchior, Luizinho Calixto, Zila Mamede e daí por diante. De contemporâneo a lista é mais infinita, leio muito meus amigos de editoras independentes. Mas vou citar os poetas do coletivo Fazia Poesia, muita gente me influencia ali, junto com o pessoal do Eufonia, atual Nós por Nós e o pessoal Escambanautas.


Quem quiser apoiar o livro do Hermes no Catarse é só clicar aqui que enquanto a campanha estiver no ar o linque estará disponível!


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