• Rafael Torres

Preconceito contra música clássica


Maestro Leopold Stokowski.

É muito presente na nossa cultura a imagem do apreciador de música clássica ranzinza, arrogante, que se julga superior etc. Recentemente vi uma esquete no YouTube em que o ator interpretava dois personagens: um sujeito que tocava casualmente um jazz no piano; e um passante que o reprovava. Com fala pomposa e sotaque britânico, ele falava coisas como "academicamente incorreto"...


Nos comentários, eu postei que quem gosta de música clássica mais sofria preconceito do que o praticava.


Outro canal de YouTube que contribui para essa imagem, embora sob o pretexto de difundir a música clássica, é o do Lord Vinheteiro. Ele faz crítica feroz e, a meu ver, deselegante, da música pop, do funk etc. A nós, os divulgadores de música clássica, não cabe discorrer sobre os defeitos de outras músicas, mas mostrar e ajudar a apreciar os encantos da erudita.


A imagem do playboyzinho, com blusa polo e casaco de lã em torno do pescoço, está mais próxima da de um jogador de golfe do que da de um músico. (E agora, eu mesmo fui preconceituoso.)


O apreciador de música erudita é uma pessoa comum que, na infância foi apresentada a essa música e apaixonou. Ela é irresistível, porque é mágica, cria os efeitos mais impossíveis e nunca acaba. Você não esgota o repertório. Não, mesmo: para dar conta, você tem que se especializar - no meu caso, gosto principalmente de música orquestral e para piano dos séculos XIX e XX. Gosto também de música barroca e não curto muito ópera.


Eu lembro que, na adolescência, eu praticamente precisava pedir perdão quando revelava gostar da coisa. Porque me lançavam um olhar de estranheza, misturado com respeito, misturado com falta de respeito, despeito...


E, vejam, apesar disso, meu trabalho é com a música popular. A chamada MPB. Componho sambas, xotes, cantigas, baiões, valsas... E, como gosto de música erudita, meu interesse sempre foi deixar as minhas músicas mais instigantes. Mas não digo que esse seja o jeito correto de se fazer música.


Vou deixar bem claro: eu considero a música erudita, em alguns quesitos, melhor que as outras (mas não há uma competição para saber qual música é "melhor" que a outra, e isso não é importante). O que eu não acho é que eu sou superior às outras pessoas por gostar dela.


De fato, acredito que grandes seres humanos podem curtir a música mais pobre possível.


Os metaleiros se orgulham muito da sua escolha musical e eu já vi alguns esculhambarem os "forrozeiros". Sem saber que a música que escutam pode ser tão simples quanto a outra. E não há nada de errado em uma ou na outra.


Até a música erudita pode ser simples. E digo "pode" no sentido de "ter direito de", também. Não se peca por simplicidade.


Agora, se você já soltou que música clássica é "elitista", vá lavar sua língua com sabão - eu aguardo. Amigo, já entrei em concertos da OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), em São Paulo, por 30 reais. E tem dia de ensaio, quando a entrada é gratuita. Um abadá pro Fortal, festival de trios elétricos de música baiana aqui em Fortaleza, quando eu era pequeno, custava 1.000 reais, varrendo o resto da multidão pra "pipoca". Quer segregação maior?


A verdade é que a desculpa do "elitismo" não cola. Seja qual for a música que você queira escutar, inclusive erudita, sempre vai poder. Tem concertos completos de virtualmente todo o repertório ocidental no YouTube. Mais democrático não se pode.


No meu mundo ideal, as pessoas gostam do que quiserem, mas são, eventualmente, expostas à música clássica, com cuidado e sem preconceito.


Sim, vou falar sobre o cuidado. Há quem diga que para ouvir música erudita, basta escutar. Não concordo. Precisa (ou ao menos melhora depois) de algum esforço, leitura sobre o assunto e interesse. Este último, se você tem certeza que não tem, melhor ficar no seu estilo, mesmo. É um gosto legítimo.


O que não devemos é categorizar seres humanos com base em suas preferências musicais.

Os músicos e amantes da música erudita são pessoas geralmente simples e amigáveis.


Não tenha desrespeito por quem prefere uma música que exige certa dedicação. Seu medo de que essa pessoa lhe julgue fará com que você se torne o julgador.

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