• Rafael Torres

As Variações Enigma, de Elgar: mistério eterno


Edward Elgar. Um homem, um bigode, um enigma...

Compostas em 1899 por Edward Elgar, as Variações Sobre um Tema Original, apelidadas pelo próprio compositor de Variações Enigma constituem uma obra de cerca de 35 minutos para orquestra. Possuem um tema e 14 variações. Cada variação corresponde a um amigo ou parente de Elgar. Nelas ele faz um retrato em 2 camadas dessas pessoas ou de situações e até cacoetes relacionados a elas. Eu me apaixonei por essa música recentemente, agora, em 2020. E espero que vocês também gostem, porque é encantadora. Os movimentos são:

(00:00) Tema (Enigma: Andante) - o tema em si, nobre e bonito, em forma ABA;

(02:18) Variação I (L'istesso tempo) "C.A.E." - Caroline Alice Elgar era a esposa do compositor, e recebeu a variação mais terna. Mal chega a ser uma variação, na verdade, é mais uma elaboração do tema principal, o que não deixa de ser um gesto romântico;

(04:12) Variação II (Allegro) "H.D.S-P." - "Hew David Steuart-Powell foi um conhecido pianista amador e um grande músico de câmara. Esteve associado a B.G.N. (violoncelo) e ao compositor (violino) por muitos anos", escreveu Elgar. Hew tinha o hábito de tocar uma escala cromática antes da música, daí a variação ser uma Tocata cromática;

(05:04) Variação III (Allegretto) "R.B.T." - Richard Baxter Townshend, um escritor;

(06:30) Variação IV (Allegro di molto) "W.M.B." - William Meath Baker, amigo do compositor;

(07:14) Variação V (Moderato) "R.P.A." - Richard Penrose, também pianista amador;

(09:55) Variação VI (Andantino) "Ysobel" - Isabel Fitton, uma aluna de viola de Elgar;

(11:24) Variação VII (Presto) "Troyte" - Arthur Troyte Griffith era um dos melhores amigos do compositor. A variação se refere a um episódio em que eles foram pegos de surpresa em uma tempestade, e se abrigaram na casa de Winifred Norbury, personagem da próxima variação;

(12:37) Variação VIII (Allegretto) "W.N." - Winifred era uma secretária da Sociedade Filarmônica de Worcester, e sua característica risada é mostrada aqui;

(14:46) Variação IX (Adagio) "Nimrod" - a variação mais famosa. Dedicada a Augustus Jaeger, um editor musical. A história diz que certa ocasião Elgar estava deprimido e sem confiança para compor. Jaeger o visitou e o encorajou, cantando trechos do segundo movimento da Sonata "Patética", de Beethoven, a que essa variação faz referência;

(19:36) Variação X (Intermezzo: Allegretto) "Dorabella" - Dora Penny, uma amiga cuja gagueira é parodiada aqui;

(22:02) Variação XI (Allegro di molto) "G.R.S." - George Robertson Sinclair, um respeitado organista. Refere-se a uma ocasião em que viram um cão cair e ser arrastado pela correnteza de um riacho. O latido fez George virar-se para elgar e dizer: ponha isso em música. E ele o fez aqui;

(23:09) Variação XII (Andante) "B.G.N." - Basil George Nevinson, o violoncelista que tocava com Elgar;

(26:47) Variação XIII (Romanza: Moderato) " * * * " - "os asteriscos tomam o lugar do nome de uma dama" que estava, à época, numa viagem de navio, possivelmente Lady Mary Lygon. A música faz referência à obra de Mendelssohn "Mar Calmo e Viagem Próspera". É possível que Elgar não tenha colocado suas iniciais devido à superstição dela com o número 13 - também é possível que essa variação (uma Romanza) seja secretamete dedicada a Helen Weaver, ex-noiva do compositor, que terminou o relacionamento e zarpou para a Nova Zelândia;

(30:19) Variação XIV (Finale: Allegro) "E.D.U." - Edu era o apelido que sua esposa Alice dera a ele. Originalmente essa música era mais curta, mas Jaeger o pediu que fizesse mais longa.


Em 19 de junho de 1899 o maestro Hans Richter, um dos grandes regentes da história, talvez o maior de sua época, conduziu a estreia das Variações Enigma. A crítica foi unânime em elogiar a estrutura e a orquestração da peça.


O enigma diz respeito provavelmente a uma melodia que estaria escondida na música. Elgar fala das peças de teatro modernas, em que o personagem principal nunca aparece no palco. Ele chama o tema principal de enigma, de modo que os estudiosos têm quase certeza que a charada seria uma melodia que poderia fazer contraponto com esse tema. Ou seja, é ambíguo, podendo ser o próprio tema o enigma, ou esse contraponto invisível.


O compositor foi pro túmulo sem revelar, dando apenas algumas pistas. Por exemplo, a melodia que faz contraponto com o tema seria muito conhecida. Além disso, um tema secreto maior percorre todas as variações. Elgar ficou surpreso de não terem descoberto o enigma desde a estréia.


Algumas candidatas a contraponto são:

- A melodia de Brilha, Brilha, Estrelinha;

- Um tema da 4ª Sinfonia de Brahms;

- Uma ária da ópera Così Fan Tutte, de Mozart;

- A Sonata Patética, de Beethoven.


Eu tenho minha própria teoria. Não se trata de um contraponto, mas de uma referência a uma obra musical muito maior. O Réquiem de Mozart. Em várias passagens eu posso ver paralelos entre as duas obras. Não é aquela coisa certinha, em que tudo se encaixa. Na verdade, eu acho até mais provável que não seja uma citação estrita, em que você vai escutando e tudo vai se encaixando. Pelo contrário, são momentos, às vezes detalhes, às vezes estados de espírito de uma música que são aludidos na outra.


Também é possível que o enigma não exista. Que ele tenha envolvido a obra em misticismo tamanho que não conseguiu escapar dele. Essa atmosfera que ele criou foi um golpe de gênio. Porque a música, além de ser extremamente bonita (me comove de verdade), tem uma aura de mistério que é irresistível. Mas, como eu disse, ela é, acima de tudo, genial. Bela, de orquestração impressionante (e de muito bom gosto) e mostra um domínio da forma Tema com Variações absoluto.


Gravação recomendada: Orquestra Filarmônica de Bergen (Bergen Philharmonic), regente: Andrew Litton


Leia mais sobre a obra aqui, onde eu a coloquei numa lista de 10 grandes peças orquestrais. Veja também essas 10 grandes sinfonias e as 20 melhores orquestras do mundo.

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