• Rafael Torres

Compreendendo o maestro parte 2 - Pra que serve?

O que faz um maestro? Se você já se perguntou isso, venha descobrir com a Arara. Ele fica mexendo as mãos na frente da orquestra, certo. E os músicos parecem entrar na hora em que ele baixa as mãos. Parecem também parar quando ele faz um gesto. Então fica aparente que o maestro é, como diz a famosa analogia, um guarda de trânsito musical.


Valery Gergiev, regente russo

Ocorre que isso é parte do trabalho dele, sim. Parte! O regente, que é o nome técnico da profissão, dá a entrada da orquestra, e todas as entradas de instrumentos que ocorram naquela música. Digamos que você é um flautista. Você entra bem no começo da música, então fica atento ao levare (que é uma espécie de gesto preparatório) e começa a tocar quando a mão cai. Se você estiver tocando devagar demais, o maestro tem um gesto pra te dizer pra correr um pouquinho. Daí você para de tocar e a partitura diz que você vai passar 93 compassos em silêncio. Você conta os 93 e entra no 94? Ou você não conta nada e entra quando o regente apontar pra você? Na verdade, é uma mistura dos dois. O maestro tem que indicar a sua entrada, mas você também tem que saber a hora de entrar (mesmo porque se você não souber isso, não está sabendo muito a música), até pro caso de ele esquecer (o regente tem que lembrar de 1 bilhão de coisas, pode esquecer alguma). O mesmo acontece se você estiver tocando fraco demais. Ele, com um movimento, vai te pedir pra crescer. Ou decrescer, caso esteja forte demais.


A maneira e efetividade com que o maestro faz isso tudo se chama, simplesmente, técnica. Ou técnica de mão. Essa técnica vai permitir que ele dê equilibrio ao conjunto de forma rápida e eficiente. Uma das coisas mais difíceis de fazer é desacelerar a orquestra inteira sincronicamente, como se fosse um músico só reduzindo a velocidade e, depois, retomando. Isso porque o compositor pediu na partitura, escrevendo sobre as notas a palavra: ritardando.


Agora, você imagina, uma partitura de 120 páginas (digamos, 30 minutos de música): tem milhares de observações e instruções, e o maestro tem que, não só saber como fazer, mas lembrar que estão lá. E aí vem outra questão: pra quê tantas instruções? O que o compositor quer com isso?


Mariss Jansons, letão, morto em 2019

Ele quer construir a narrativa da sua obra. Vamos pegar uma música de Richard Strauss (o Strauss profundo, sem parentesco com o valsista Johann Strauss II). A peça se chama Morte e Transfiguração. Começa com um ritmo fraco e pulsante. O que é? O coração de um homem à beira da morte? E por que a música tem passagens felizes? Estaria ele lembrando momentos alegres de sua vida? E daí se vai construindo uma interpretação lógica, baseada não só no que está na partitura, mas no que se sabe do compositor. Imagino que um regente leia muito. Principalmente biografias.


Aí o regente pega todas as suas referências, todas as informações e indicações da partitura e monta a sua interpretação. E, nos ensaios, faz o seu melhor para que a orquestra compreenda essa visão. Por isso, não é incomum ouvirmos, num ensaio de orquestra, coisas como: "mais quente!", ou "mais assertivo", ou ainda "sem esperança!" etc...


Mas não pense que toda música tem uma narrativa linear, uma historinha. Às vezes sim, mas como a música pode ser muito abrstrata, às vezes o regente tem que usar palavras mais alusivas, para que os músicos entendam onde ele quer chegar.


Acha que terminou, o trabalho do regente? Non! Os músicos perguntam o tempo todo coisas como: que baqueta usar (numa percussão); qual o movimento certo dos arcos dos violinos; onde o oboé deve respirar etc. Tudo antes do ensaio, existe um acordo tácito de que os músicos devem falar o mínimo do mínimo nos ensaios, porque se cada um resolver tirar suas dúvidas ali, nunca mais vai terminar. E o regente tem que ter absoluta convicção e confiança no que diz. Se a orquestra perceber alguma insegurança nele, ela própria ficará insegura.


Além disso, o maestro tem que ter boa relação com os músicos; autoridade; controle e calma. Cabe a ele, também, sempre aprimorar a orquestra, ensaiando sobretudo as fraquezas do conjunto. E ele participa do processo de seleção dos músicos. Os testes são feitos por trás de uma cortina, para que não sejam favorecidos homens sobre mulheres ou aconteça qualquer outro tipo de discriminação.


Observe:


Perceba a quantidade de informações que essa página da Sagração da Primavera, de Stravinsky, contém. Crescendo, glissando, sempre forte, uníssono, campanas no ar; flatterzunge. Além dos trinados, legatos, acentos, crescendos... Isso em três compassos: a obra tem quase 160 páginas. Não é exatamente o dever do regente saber cada coisinha de cor, mas ele tem que estudar a partitura o suficiente para ser fluente e, se precisar, apenas bater o olho na partitura para se situar.


Arranhamos a superfície do que é o trabalho de um regente. No próximo post vou falar algumas curiosidades e, mais pra frente, claro, farei meus Top + que 10.


Se ainda não leu, leia aqui a parte 1, um resumíssimo da história da regência. E aqui, a parte 3.


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