• Rafael Torres

Compreendendo o Maestro Parte 1 - História

Vamos tentar começar a entender o trabalho de um regente de orquestra. Quero que você me acompanhe, porque vou falar o essencial e tudo que vou falar é essencial.


No barroco, na música de câmara, o regente era o cravista. Na música coral surgiu aquele cidadão, o kapellmeister, que indicava aos cantores a sua entrada, a hora de respirar, quando cantar mais forte e que vozes deveriam se destacar das outras em determinada passagem (mas ele também era o compositor e arranjador daquela corte ou daquela igreja). E eles aplicaram isso também à orquestra, que começava a crescer e precisar de um indivíduo dedicado para aquela função. Ainda mais em ópera.


Jean-Baptiste Lully

No começo eles regiam com um bastão, batendo o ritmo no chão. O compositor Jean-Baptiste Lully acabou sofrendo um grave acidente ao reger, ferindo o pé com esse bastão. Ferimento que acabou gangrenando e o levando à morte. No classicismo, muitas vezes o próprio compositor regia sentado ao cravo. Ou o primeiro violinista fazia o que ainda hoje o lider de um quarteto de cordas faz: levanta a mão um tempo antes da entrada, descendo e tocando a corda no tempo certo. E com a respiração ele também dava a deixa. Se você for escutar um quarteto de cordas, vai ouvir uma profusão de sons de respiração.


Já no século XIX, a orquestra cresceu um monte, e então passaram a precisar de uma pessoa só indicando todas as entradas, crescendos, rubatos e muito mais. Não dava mais pra ele ser um instrumentista. Porque na música a partir de Beethoven, havia muitas pausas abruptas, entradas em tempos diferentes, silêncios... E os rubatos (fazer rubato é dar uma leve acelerada ou retardada, pra depois retomar o andamento) foram ficando mais sofisticados.


Arthur Nikisch

Por volta de 1830 o jovem Felix Mendelssohn começou a reger e a usar a batuta, que facilita a visão do gesto para os músicos. Mendelssohn, o mesmo compositor, é considerado um dos pais da regência. Então vieram muitos compositores-regentes, como Richard Wagner, Hector Berlioz, Richard Strauss e Gustav Mahler. Mas o primeiro músico que ficou famoso por ser maestro e que realmente vivia disso, com muito sucesso, foi Hans von Bülow. Respeitado por toda a Europa, ele tinha um estilo próprio e era capaz de fazer a orquestra ter um som próprio. Depois dele vieram os dois grandes regentes que influenciariam todos os outros. Estou falando de Arthur Nikisch e Hans Richter. Nikisch foi um dos mais influentes maestros de toda a história. Ele chegou a gravar, e, embora as orquestras na época ainda não tivessem atingido o nível de perfeição de hoje, ele certamente as ajudou a atingir. Dizia-se que ele regia mais com os olhos que com as mãos.

Arturo Toscanini

No final do século XIX e começo do XX surgiram os os dois que finalmente formariam as duas correntes de pensamento do século (na verdade, até hoje). Arturo Toscanini e Wilhelm Furtwängler. O primeiro, italiano, temperamental, gritava horrores com seus músicos e exigia perfeição. Ele era partidário da intepretação mais fiel possível à partitura. Já Furtwängler, alemão, era o oposto de tudo isso que eu falei. Tomava liberdades enormes com a partitura, era gentil e falava pouco nos ensaios. Ouvi entrevistas de músicos que diziam algo como: "assim que eu entrei na orquestra o primeiro clarinetista veio me dizer que quando a batuta atingisse o segundo botão da sua camisa, esse era o tempo 1". Sua regência era lânguida e tendia para o lento. A do Toscanini era viril e tendia para o rápido.

Wilhelm Furtwängler

Temos gravações históricas de um e de outro. Aliás, gravações históricas não nos faltam. Nikisch regendo a 5ª de Beethoven; Toscanini com seu genro Vladimir Horowitz tocando o 1º Concerto de Tchaikovsky e o 2º de Brahms; Furtängler regendo a 3ª Sinfonia de Beethoven; Bruno Walter regendo a 9ª Sinfonia de Mahler (Bruno havia trabalhado com Mahler); Pierre Monteux regendo A Sagração da Primavera, de Stravinsky e o balé Daphnis et Chloé, de Ravel (Monteux regera as estreias das duas obras); Stravinsky regendo Stravinsky, Rachmaninoff regendo sua obra; Lutosławski regendo a sua; Penderecki; Boulez...


De alguns dos regentes mais importantes da nossa história falarei em uma série de Top 10 que planejo fazer. No próximo post explico qual a função de um regente. A verdadeira necessidade de um.


Veja aqui a parte 2 e aqui a parte 3.

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