• Rafael Torres

7 Discos Fora da Caixinha MPB

Você quer entender a MPB sem falar em Chico, Caetano, Djavan, Belchior, Elis e afins? Pois eu vou te ajudar. Ou melhor, dar minha contribuição. Não vou seguir nenhuma ordem, seja cronológica ou de qualidade. É o que eu for me lembrando. E também não é a única. Sabem que eu gosto de listas. Posso fazer umas 40 com discos fora da caixinha.

 

Raphael Rabello - Todos os Tons


Com arranjos magistrais, ora para violão solo, ora para violão e banda, esse disco é um fenômeno. Raphael Rabello era um fenômeno. Chamava a atenção de todos que ouviam seu dedilhar nas 6 ou 7 cordas. Paco De Lucia (que participa do disco) dizia que era o maior violonista que ouvira em anos. Os violões que ele usa são especificados no encarte do disco, porque são instrumentos perfeitos (incluem um Ramirez 1969, que ele ganhou do Paulo, filho do Tom Jobim, e um Mario Passos 7 Cordas). A proposta aqui era captar as obras de Tom Jobim em vários tons, de fato. Por exemplo, Luiza usa apenas um violão e tem um tom bem intimista; já Garota de Ipanema é mais apoteótica.

 


Elomar - Elomar em Concerto


Esse disco sensacional mostra o grande cantador Elomar em um dos seus melhores shows. Elomar toca violão pra caramba. Arranjado pelo compositor e por Jaques Morelembaum, o disco conta com o clarinetista Paulo Sérgio Santos (do Quinteto Villa-Lobos), o flautista e saxofonista Marcelo Bernardes (que hoje toca com o Chico Buarque), o quarteto de cordas Bessler-Reis e um coro do maestro Muri Costa.


Foi gravado na Sala Cecília Meireles, uma sala de concertos de música erudita no Rio de Janeiro. E, de fato, tem música de concerto, como Loa e Gratidão, fragmentos da Antiphonaria Sertani. Tem também as comoventes Gabriela e Inselença Pro Amor Ritirante. Com seu linguajar fascinante, com palavras para as quais às vezes precisamos recorrer a um dicionário, ele canta como um verdadeiro caboclo sertanejo. É um disco impecável, e eu o incluiria em qualquer seleção dos melhores da música brasileira.

 

Quinteto Armorial - Do Romance ao Galope Nordestino


Um disco com fragmentos da verdadeira alma nordestina, música moura e digna, que se sabe dona de uma tradição secular. Idealizado por Ariano Suassuna para representar a parte musical do Movimento Armorial, o grupo esteve ativo entre 1970 e 1980, lançando 4 discos. De 1974, este é o primeiro. Antônio Nóbrega, ainda jovem, ponteia a rabeca. O grande Antônio Madureira (viola caipira) liderava o grupo, que fazia a ponte entre a música popular do nordeste e a música de câmara erudita. O resultado é muito interessante e, por vezes, comovente.

 

Renato Braz e Maogani - Canela


Renato Braz é uma das mais belas vozes da MPB contemporânea. Ele e o quarteto de violões Maogani fizeram uma seleção de canções da américa latina, em espanhol, e gravaram lindamente. Pra mim, o ponto alto é a dolorosamente bela canção argentina Oración del Remanso, de Jorge Fandermole. Essa música sempre me comove. Não se engane, ao mesmo tempo esse disco transforma o estrangeiro em Brasileiro e faz o Brasil abraçar nossos países irmãos. É Brasileiro, também.

 

Nonato Luiz toca Milton Nascimento - Fé Cega


Nonato Luiz, violonista cearense, tem seu próprio sotaque no violão, e é forte. Reconhece-se imediatamente que quem está tocando é ele. Ele tem um som limpo e seus arranjos são maravilhosos, cheios de alegria e doçura. Tocando as obras de Milton Nascimento, você jura que são peças pra violão, e não canções. Nonato é também um excelente compositor. Aliás, nesse disco ele está quase como compositor, pois os arranjos são rapsódias e variações sobre canções como Fé Cega, Faca Amolada; Maria, Maria e Ponta de Areia. A arte do violão brasileiro está bem representada nesse disco ainda pouco conhecido.

 

Radamés Gnatalli - Radamés Interpreta Radamés


Considerado um mestre por Tom Jobim, Radamés Gnatalli foi um pianista, arranjador, compositor e regente muito respeitado no Brasil nos anos 50. Pra você entender o que é o Jazz brasileiro (cruzado com o chorinho) você tem que ouvir as belas peças desse disco instrumental, obras como Puxa-Puxa, Pé-de-Moleque e Seu Ataúlfo. Grande pianista, também.

 

Egberto Gismonti - Casa das Andorinhas


Esse disco de 1992, de Egberto Gismonti, já valeria só pelo Amor Proibido, um lindo dueto de violão com violoncelo (escutando agora, vejo que é um trio: são 2 violoncelos). Egberto compõe, toca piano, teclado, violão, arranja e rege todo o disco, que é instrumental. Mesmo com uma sonoridade datada em algumas peças, trata-se de um álbum magistral. Eu podia indicar outros discos dele, mas esse foge um pouco do óbvio. Gismonti é um daqueles músicos a quem os outros músicos, mesmo de fora do país, olham e dizem: é um gênio!

 
 

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