• Rafael Torres

Outro Top + 10 Obras sinfônicas Extra categoria

A terceira lista de uma categoria que realmente não tem fim. Em extra categoria se encaixam peças orquestrais que não são sinfonia, concerto e abertura. Daí entram prelúdios, poemas sinfônicos, balés, suítes e peças realmente não categorizadas.


A recomendação, como sempre, é que, caso não conheça, leia a lista toda, escolha a que mais lhe interessar e insista nela. Até entrar na sua cabeça. Sobre cada uma delas ainda vou escrever mais detalhadamente em posts individuais.


 

Richard Strauss (1864-1949) - Morte e Transfiguração (1889) (Poema Sinfônico)



Uma das peças mais contundentes de um compositor contundente. Alemão de Munique, Richard Strauss é um pouco menos conhecido que Johann Strauss e Johann Strauss II, que escreviam valsas e com quem não tinha parentesco. Mas é muito mais respeitado. É uma daquelas figuras complexas: era um regente formidável, a tal ponto que ajudou a moldar o que seria a regência de orquestra no futuro. Sua orquestração é de cair o queixo - muitas audições para músicos entrarem em orquestras usam peças suas como parâmetro, por exemplo, se um violinista se sair bem na primeira página de Don Juan, tá feito. Foi conivente com os nazistas, embora sua nora diga que ele queria protegê-la, já que era judia. De qualquer forma, foi inocentado nos tribunais de "desnazificação".


Como compositor, tem duas fases: a primeira, em que escrevia poemas sinfônicos de grande porte (esse aqui tem 23 minutos) e a segunda, quando os abandonou e passou a escrever ópera. Existem gravações dele regendo e, cá entre nós, me parece espetacular. Só que é aquele som cheio de ruído, típico de gravações antigas.


Escolhi Morte e Transfiguração porque é uma peça transcendental. Ela descreve um artista, à beira da morte, contemplando as proezas e situações da sua vida. É por isso que não é uma música triste, nem fúnebre. As lembranças do artista são doces. Ao final, temos a transfiguração, uma sublime passagem em que ele vê cada vez mais os "confins infinitos do paraíso".


No final da própria vida ele disse que o poema estava certo: era exatamente assim que ele via a vida.


Gravação recomendada: Sinfônica da Rádio Bávara (Bavarian Radio Orchestra), regente: Mariss Jansons


 

Maurice Ravel (1875-1937) - Daphnis et Cloé, Suíte Nº 2 (1912) (suíte de balé)



Veja o que escrevi sobre essa extraordinária suíte aqui. Foi originalmente um balé escrito para os Ballets Russes, de Sergei Diaghilev. Desse balé, Ravel extraiu duas suítes de concerto. Uma suíte é uma peça composta por partes de um balé que são destinadas a ser tocadas em concerto, sem a encenação.


Essa, a segunda, é, de longe, mais tocada que a primeira. O balé todo é uma obra prima, mas essa suíte é especial. A descrição impressionista de uma alvorada, depois um jogo de sedução com a flauta e a dança geral, cada vez mais frenética. É a orquestração mais genial que eu conheço.


Gravação recomendada: Orquestra de Paris (Orchestre de Paris), regente: Daniel Barenboim


Cenário de Léon Bakst para o balé Daphnis et Chloé
Cenário de Léon Bakst para o balé.
 

Sergei Rachmaninoff (1873-1943) - A Ilha dos Mortos (1908) (poema sinfônico)



Inspirado em uma série de pinturas praticamente idênticas de Arnold Böklin, mais especificamente em uma em preto e branco, Rachmaninoff escreveu esse sedutor poema sinfônico. Primeiro olhe para a tela e pense em que música você imagina. Aí ouça o que ele fez: uma música com uma séria carga romântica, com momentos absolutamente arrepiantes. É em compasso 5/4, que ele usa para criar um tema que simula o remar, e utiliza várias modulações de terça cromática, além da orquestração cuidadosamente pensada. É espetacular. Ao final ele usa o Dies Irae, um tema medieval que evoca morte.


Quadro que inspirou A Ilha dos Mortos, de Rachmaninoff
Die Toteninsel
Quadro em preto e branco de Arnold Böklin que inspirou A Ilha dos Mortos de Sergei Rachmaninoff
Versão em preto e branco

Gravação recomendada: Orquestra Filarmônica da BBC (BBC Philharmonic), regente: Gianandrea Noseda


 

Ralph Vaughan Williams (1872-1958) - The Lark Ascending (1914) (romance para violino e orquestra)


A obra de Vaughan Williams é um pouco complicada. O que estou dizendo? O problema dela é justamente não ter nada de complicado. É simples, quase não acontece nada. Um crítico maldoso disse que ouvir Vaughan Williams era como ficar olhando para uma vaca olhando uma porteira. Maldade. Mas não espere nada muito denso aqui. Espere, no entanto, beleza. Ele parece ter descoberto que, fixando-se na escala pentatônica e numa orquestração sólida, sua obra estava garantida.

De fato, o comentário acima quase levou sua reputação embora, mas a partir dos anos 70 o público começou a descobrir sua obra. The Lark Ascending (O Voo da Cotovia) é um poema de George Meredith de que Williams gostava muito. E escreveu essa lírica peça para orquestra e seu instrumento favorito, o violino. Foi estreada em 1921 e nunca saiu do repertório.


Gravação recomendada: Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony), regente: Colin Davis, violino: Hilary Hahn

 

Heitor Villa-Lobos (1887-1959) - Bachianas Brasileiras Nº 4 (1942)


As Bachianas Nº 4 são as de que mais gosto, depois das Nº 3. Ele compôs nove Bachianas, cada uma com mais de um movimento. Essa aqui tem 4. Existe em versões para piano e para orquestra.


1. Prelúdio (Introdução) - uma das peças mais reconhecíveis de Villa. Uma linha arpejante (baseada no Thema Regium da Oferenda Musical de J. S. Bach) se desenvolve nos violinos enquanto que outra, uma contra melodia aparece nos violoncelos. Esse movimento só usa as cordas. É a cara do Villa, simplesmente lindo de morrer.


2. Coral (Canto do Sertão) (9m27s) - essa é mais escorregadia, mais maliciosa. Não muito, porém. Porque tem uma nobreza sem fim, e a lendária exuberância que Villa-Lobos atribuía ao Brasil. Um si bemol insistente remete ao canto da araponga.


3. Ária (Cantiga) (14m20s) - a cantiga é a famosa "Oh, mana, deixa eu ir para o sertão do Caicó". Essa canção é lindíssima. Ele tece pequenas variações sobre essa melodia. Maravilhosa.


4. Danza (Miudinho) (19m50s) - Villa-Lobos costumava terminar com uma dança. É uma peça repleta da riqueza rítmica dele e do Brasil.


A peça toda tem cerca de 20 minutos (sobe pra 24 quando se repete o prelúdio, como no vídeo). Vou deixar uma recomendação da versão orquestral e outra da versão para piano. Vale à pena escutar as duas, porque tem coisa que funciona melhor numa ou noutra.


Gravações recomendadas: Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), regente: Roberto Minczuc / Piano: Cristina Ortiz


 

Igor Stravinsky (1882-1971) - O Pássaro de Fogo (1910) (Balé)


A peça que alçou Stravinsky à fama. Embora ainda deva muito a Rimsky-Korsakov, de quem foi aluno, já se percebe o excelente orquestrador e o criador quase indomável de ideias que ele seria. Depois desse balé ele escreveria Petrushka e, então, A Sagração da Primavera, que o imortalizaria.


O pássaro de fogo é um conto popular russo. Sobre um pássaro que traz bênçãos e maldições para seu dono. Foi encomendada, como os outros dois e como Daphnis et Chloé, de Ravel, pelo empresário Sergei Diaghilev, para a sua companhia, os Ballets Russes.


Figurino de Léon Bakst para O Pássaro de Fogo, de Igor Stravinsky
Figurino de Léon Bakst
Tamara Karsavina como o Pássaro de Fogo Firebird e Michel Fokine como o Príncipe Ivan
Karsavina como o Pássaro e Fokine as Príncipe Ivan
 

Claude Debussy (1862-1918) - Nocturnes (Noturnos) (1899)



Os três Noturnos de Debussy são uma inestimável amostra da arte impressionista francesa. Estão entre as três obras em três movimentos que ele escreveu para orquestra. Bem, o terceiro movimento emprega um coro feminino. Vagamente menos tocados que La Mer, compõem um tríptico baseado em poemas de Henri de Régnier. O primeiro, Nuages (Nuvens) reafirma as aspirações sempre oníricas do compositor. É um movimento esparso, com um corne inglês proeminente e simulações de nuvens mais ameaçadoras através de trêmulos das cordas.


O segundo movimento, bem mais agitado e chamado Fêtes (Festas), é cheio de fragmentos melódicos muito passageiros, retratando de forma apropriada as sensações de quando estamos envoltos em festividades. Mas, no meio do movimento começa um ritmo um tanto obsessivo e crescente, ornado por corais de metais e de madeiras, aos quais, eventualmente se junta a caixa clara. Quando os sopros acalmam tudo, o movimento termina tranquilo.


O terceiro é Sirènes (Sereias), em que ele emprega o coro feminino. A orquestração é bem sensual e o movimento tem ares paradisíacos. Os infinitos ritmos do oceano e o canto das sereias são a inspiração para esse movimento.


Debussy também usou como inspiração quadros de James A. M. Whistler, que era um dos seus pintores favoritos.


Harmony in blue and silver: Trouville, de James Abbot McNeil Whistler, inspiração para os Noturnos de Debussy
Harmony in blue and silver: Trouville, de Whistler, inspiração para os Noturnos

Gravação recomendada: Filarmônica de Berlim (Berliner Philharmoniker), regente: Claudio Abbado


 

Béla Bartók (1881-1945) - Música para Cordas, Percussão e Celesta (1936)


Música altamente dissonante e densa - o oposto da de Vaughan Williams - é uma das peças mais conhecidas de Bartók, o mais famoso compositor húngaro do modernismo. O primeiro movimento é uma lenta e complexa fuga, que gira em torno da nota (Bartók tinha isso de gravitar em torno de uma determinada nota). No ponto culminante do movimento, ele já gravita em torno do mi bemol, que é distante por um trítono do lá.


O segundo movimento é mais percussivo, com seus pizzicati, mas novamente contém texturas intrincadas. No terceiro, conhecido como "noturno", ele começa com um xilofone tocando a mesma nota num ritmo derivado da sequência de Fibonacci (um número é a soma dos dois anteriores): 1-1-2-3-5-8-5-3-2-1-1. Vários efeitos das cordas com o piano e o glissando no tímpano. A obra termina com um quarto movimento bem agitado. Seria uma dança folclórica frenética.


A peça é mais conhecida do que gravada, não sei bem por que. Talvez por causa do grande impacto causado pelas gravações de Ferenc Fricsay, Antal Dorati, Herbert von Karajan e Georg Solti.


Gravação recomendada: Filarmônica de Los Angeles (LA Philharmonic), regente: Esa-Pekka Salonen


 

Antonin Dvořák (1841-1904) - The Noon Witch (1896) (poema sinfônico)


A Bruxa do Meio-Dia, do tcheco Antonin Dvořák é um poema sinfônico programático, ou seja, tem uma história: uma mãe avisa seu filho que se ele não se comportar a bruxa vai pegá-lo. Claro que ele não se comporta e a feiticeira vem exatamente ao meio-dia. Ela persegue o filho e a mãe, que acaba desmaiando e deixando-o à mercê da bruxa. Horas depois o pai chega e vê o menino morto nos braços da mãe. Ela, com medo da bruxa, tinha acidentalmente sufocado o filho.


É uma história de assombração para os pais: contar histórias de bruxas para seus filhos pode ser um mau negócio. Percebam que a chegada do meio-dia é anunciada na música com doze badaladas do sino. Dvořák era exímio orquestrador, como todos nessa lista, e utiliza os recursos da orquestra para ilustrar bem fielmente a história.


Gravação recomendada: Filarmônica de Berlim (Berliner Philharmoniker), regente: Claudio Abbado


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