• Rafael Torres

+ Top 10 Obras Orquestrais extra categoria

A segunda lista de uma série sobre peças sinfônicas que não se enquadram nas categorias de Sinfonia, Abertura ou Concerto. É parte de um Top 30 ou até Top + de 30. A outra lista está aqui. Acredite, você vai gostar de cada uma dessas peças. Se puder, leia um pouco sobre as obras - se bem que é pra isso que eu faço a lista.

Deixo, como sempre, uma ou mais recomendações de gravação para cada peça.

Não estão em nenhuma ordem de preferência ou de qualidade.


 

Gustav Holst (1874 - 1934) - Os Planetas (The Planets) (Suíte Orquestral) (1916) (Suíte Sinfônica)


Gustav Holst foi um compositor inglês dos mais importantes do século XX. E a sua obra mais conhecida é a suíte Os Planetas, de 1916. Eram 8, na época, mas ele excluiu a Terra, de forma que a suíte tem 7 movimentos. Depois que descobriram o nono, alguns compositores tentaram incluir seu próprio Plutão como um epílogo. Muito depois da morte do compositor, vem Neil DeGrasse Tyson e rebaixa Plutão a planeta anão. Ou seja, a suíte volta a ficar certinha.


Os movimentos têm o nome de um planeta e um subtítulo que remete à sua personalidade astrológica (mas de acordo com Holst). São eles:

  1. Marte, O Mensageiro da Guerra - movimento bem bélico e viril (óbvio), em tempo 5/4. Esse planeta, mais que os outros, serviu de inspiração para, por exemplo, a trilha sonora de Star Wars (assista a esse vídeo elucidativo do Max Valarezo sobre as influências de compositores eruditos na música de John Williams). A orquestração é magistral, ainda que dada ao espetaculoso. É furioso e acaba de maneira muito eloquente.

  2. Vênus, O Mensageiro da Paz (7m16s) - música muito contemplativa e bela. Simples e certeira.

  3. Mercúrio, O Mensageiro Alado (15m10s) - o Scherzo do grupo. Movimento ligeiro e brincalhão, com belas combinações de instrumentos.

  4. Júpiter, O Mensageiro da Alegria (18m59s) - Júpiter é o mais conhecido deles. É música que para mim remete mais triunfo do que alegria.

  5. Saturno, O Mensageiro da Velhice (26m45s) - movimento sombrio, Holst sabe criar um clima.

  6. Urano, O Mágico (35m33s) - começa ameaçador, com uma pequena frase nos metais que é muito conhecida. É vagamente ameaçador e tenso, mas logo se torna mais aliviado.

  7. Netuno, O Místico (41m23s) - geralmente os finales são músicas mais pra cima, pra tudo acabar bem. Mas Holst resolve acabar soturno, carrancudo, místico. Nesse movimento ele emprega um coro feminino, que dá um ar ainda mais etéreo. As últimas notas vão morrendo até o silêncio.

Holst não tinha uma personalidade dada a escrever música de efeito, ele gostava mesmo de escrever para bandas militares. Mas a suíte Os Planetas mostra que ele sabia ser bem inglês e criar música empolgante.


Gravação recomendada: Orquestra Filarmônica de Bergen (Bergen Philharmonic Orchestra), regente: Andrew Litton


 

Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959) - Bachianas Brasileiras Nº 3 (1938)



As Bachianas Brasileiras são 9 peças para as mais diversas formações compostas ao longo de muito tempo por Heitor Villa-Lobos. Nelas, Villa emprega um tipo de criação melódica e de estruturação harmônica que lembram muito a música de Johann Sebastian Bach. Dessa mesma veia é a música de Frédéric Chopin, de Ernesto Nazareth e dos chorões dos anos 20 no Brasil. Podemos encontrar essas características, ainda, na própria música folclórica brasileira ("Se Essa Rua Fosse Minha", "Terezinha"...)


Heitor Villa-Lobos

As 9 Bachianas não foram feitas para ser tocadas juntas. Até porque algumas empregam uma orquestra inteira, outras apenas 2 instrumentos etc. Tenho várias favoritas, como a , a , a . Mas as de que gosto mais, portanto posso falar com mais propriedade, são a e a . E, nessa lista, falo da terceira, a mais mais favorita.


Escrita para piano e orquestra, ela tem 4 movimentos. Não é um piano incorporado à orquestra: é um piano solista, que fica na frente da orquestra, o que faz da obra quase que um concerto para piano. Os movimentos são:

  1. Prelúdio (Ponteio) - um movimento típico de Villa-Lobos, exuberante, de orquestração grandiosa, ainda que, às vezes, confusa.

  2. Fantasia (Devaneio) (7m10s) - um belíssimo movimento. Nele, Villa evoca a natureza, mais precisamente, a Amazônia, tão amada por ele. Temos, no clarinete (8m35s), uma melodia que é de um motivo que vai simplesmente caindo, bem ao estilo Bach. Depois de uma explosão da orquestra (10m33s), temos um trio (11m2s) com corne inglês, clarone e violino que me dá arrepios. O trio é repetido (11m41s) nos violoncelos, trompa e fagote. Depois disso temos o devaneio propriamente dito (12m22s), com os pássaros e as danças indígenas.

  3. Ária (Modinha) (13m35s) - A ária é igualmente bachiana. Um motivo é repetido, sempre caindo, no corne inglês, depois entra, no clarinete (14m8s), uma melodia que, se não é de uma fuga de Bach, é porque este esqueceu de compor. Agora (14m49s), o piano faz um motivo ascendente que leva a um belo gesto da orquestra com o piano (15m8s). Arrepiante! Às vezes eu acho que Villa-Lobos só não é ainda mais tocado no exterior porque ele resolveu falar diretamente pro brasileiro. Não tem como um estrangeiro entender a grandeza, a beleza e a magia da sua obra. Eles só entendem metade. E já é suficiente para que Villa seja altamente reconhecido lá fora.

  4. Toccata (Pica-Pau) (21m6s) - O pica-pau é super divertido. Claro que vamos ter simulações de martelados e um final absolutamente brilhante.

O que a difere de um concerto para piano propriamente dito é, acho, basicamente, o fato de não ser difícil para o solista. Villa-Lobos, não se enganem, sabia compor para piano, mas nunca usava artifícios só pra peça ser mais desafiadora pro pianista.


Gravação recomendada: New Philharmonia Orchestra, regente: Vladimir Ashkenazy, piano: Cristina Ortiz


 

Claude Debussy (1862-1918) - La Mer (1905) (Três Esboços Sinfônicos)



Obra sem muitos precedentes (é quase uma sinfonia, quase uma suíte), La Mer (O Mar) é uma das três composições sinfônicas de Claude Debussy em três partes. As outras são os Nocturnes (Noturnos) e as Images (Imagens). Eu poderia estar falando de qualquer uma porque as amo. Das outras, falo depois.


Capa da 1ª edição de La Mer

Aqui, Debussy consolida sua orquestração caracteristicamente esparsa e meio vaga, como que vindo em ondas, de modo que o tema é muito adequado ao estilo de composição do francês. Vamos aos movimentos:

  1. "De l'aube à midi sur la mer" (Da alvorada ao meio-dia no mar) - onírico como o Prelúdio para a Tarde de um Fauno, mencionado nesta lista, é a típica mágica música de Debussy.

  2. "Jeux de vagues" (8m43s) (Jogo de ondas) - um pouco mais agitado que o anterior, é também mais colorido.

  3. "Dialogue du vent et de la mer" (15m24s) (Diálogo entre o vento e o mar) - esse é ainda mais turbulento, claramente descritivo da situação sugerida no título.

Debussy faz uso da escala hexatônica, ou escala de tons inteiros, que nos deixa um pouco desorientados com relação à tonalidade. Essa obra foi muito influente desde sua estreia. Até um bocado da música de cinema deve a ela. Perceba o entusiasmo do público ao final, no vídeo acima.


Gravação recomendada: Orquestra Filarmônica de Berlim, regente: Herbert von Karajan


 

Maurice Ravel (1873-1937) - La Valse (1920) (Poema Coreográfico para Orquestra)



Esta peça simplesmente maravilhosa do francês Maurice Ravel é uma das mais gravadas do século XX. Junto com Debussy, Ravel era chamado, a contragosto, de impressionista. Isso porque a música deles tem clara relação com o estilo de pintura de Claude Monet. Pequenas pinceladas formam uma figura maior, que pode ou não ser nítida.

La Valse é vista por alguns como um belo tributo à valsa vienense. Outros veem traços mais apocalípticos nela.


É uma obra descritiva: num cenário meio enevoado, gradualmente vão se discernindo pequenos fragmentos de melodias, e gradualmente vão se percebendo casais dançando uma valsa, que tem realmente seus momentos turbulentos: não é uma valsa alegre de Strauss, mas uma espécie de caricatura moderna e absolutamente genial. Tem cerca de 12 minutos de duração.


Gravação recomendada: Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony Orchestra), regente: Claudio Abbado


 

Pyotr Tchaikovsky (1840-1893) - Variações Rococó (1877)



Outra peça que poderia ser um concerto, as Variações Rococó, de Pyotr Tchaikovsky, apresentam um violoncelo solista. É uma peça difícil para o instrumento, tendo sido adotada por violoncelistas como peça de exibição. Tendo Mozart como modelo, Tchaikovsky fez esse tema à moda rococó (estilo que sucedeu o barroco e antecedeu o clássico, ou seja, mais de 100 anos anterior ao compositor russo), e 8 variações.


É uma música leve e luminosa, que dura pouco mais de 20 minutos. Tema com variações é uma das formas mais adoradas pelos compositores, porque eles têm um parâmetro, que é o tema, e a liberdade de mostrar todo o seu talento nas variações. E talento é o que Tchaikovsky mostra nessa peça extremamente cativante.


Gravação recomendada: Northern Sinfonia Orchestra, regente: Yan Pascal Tortelier, violoncelo: Paul Tortelier


 

Igor Stravinsky (1882-1971) - Petrushka (1911) (Balé)


O segundo dos balés de Igor Stravinsky encomendados por Sergei Diaghilev (antes teve O Pássaro de Fogo e, depois, A Sagração da Primavera), Petrushka (Pedrinho) foi também muito revolucionário. Como a Sagração é muito famosa, tende-se a considerar os dois balés anteriores como ensaios para esta. E eles são. Mas não sem méritos próprios. O Pássaro de Fogo lembra o compositor Rimsky-Korsakov, romântico. Já Petrushka e A Sagração são bem modernos.


Nijinsky como Petrushka.

Diaghilev tinha uma companhia de dança chamada Ballets Russes, em Paris. Sua estrela era o lendário bailarino polonês Vaslav Nijinsky, que foi o personagem Petrushka nesse balé. A coreografia foi de Michel Fokine.


Conta a história de três marionetes que ganham vida pelas mãos do Mago: Pedrinho, o Mouro e a Bailarina. Pedrinho gosta da Bailarina, mas esta gosta do Mouro. Pedrinho o desafia e ele o mata. Surge o fantasma de Pedrinho, que desafia seu criador, o Mago, e acaba morrendo pela segunda vez.


Petrushka é um personagem do folclore russo, mas está presente na Itália, como Pulcinella, na França, como Polichinelle e na Inglaterra como Punch.


A música de Stravinsky é tão audaciosa quanto a da Sagração da Primavera, que nasceria dois anos depois. Contém polirritmia, escalas exóticas, instrumentação ousada. Além do famoso Acorde de Petrushka. Um dó maior sobreposto a um fá sustenido maior na 2ª inversão. Dó e Fá# são acordes separados por um trítono. Sobre o trítono, falo depois. O acorde é tocado, às vezes inteiro, mas sua aparição mais marcante é na forma de um arpejo duplo, altamente dissonante, como aparece nos clarinetes aos 10min (isso mesmo, essa subidinha que eles fazem bem fraquinho virou quase que uma escola).


Acho os três balés fantásticos, têm tantos elementos que a gente pode ouvir a vida inteira, que não cansa.


Gravação recomendada: Orquestra do Teatro Mariinsky (Mariinsky Orchestra), regente: Valery Gergiev


 

Alexander Scriabin (1872-1915) - O Poema do Êxtase (1908)



Se Stravinsky tinha o Acorde de Petrushka pra chamar de seu, Alexander Scriabin tinha um também. E ainda mais existencial: o Acorde Místico. Esse acorde é baseado na escala hexatônica, em que nenhuma nota é mais importante que outra. O resultado são várias páginas de suspensão, uma coisa que soa realmente mística.


Na partitura do Poema do Êxtase, o próprio Scriabin escreveu versos e mais versos sobre um espírito que vai ganhando consciência aos poucos e se tornando vida. Ele era adepto da Teosofia, uma mistura de religião com filosofia. E era aparentemente uma figura proeminente dessa corrente, ao menos na época em que escreveu o Poema do Êxtase.


É uma música que, como Debussy, soa vaga, distante. Mas absolutamente encantadora.


Gravação recomendada: Orquestra Sinfônica de Chicago (Chicago Symphony), regente: Neeme Järvi

 

Richard Wagner (1813-1883) - Tristão e Isolda - Prelúdio e Morte de Amor (1859) (Trechos de ópera)



Na hora de descrever o amor ideal, impossível, romântico ao extremo, nenhum compositor faz como Richard Wagner. Não há música mais apaixonada. Mas não é paixão serena, tranquila. É o amor com barreiras. O que Shakespeare fez na literatura, Wagner fez na ópera.


Tristão e Isolda é baseada em um romance do século XII de Gottfried von Strasbourgh, chamado Tristan. As óperas sempre têm aberturas ou prelúdios que não são cantados, são só orquestrais. E nesses prelúdios temos um resumo musical da ópera, ou, ao menos, daquele ato (Tristão e Isolda tem 3 atos). Muitos discos pegam apenas esses trechos sinfônicos e fazem uma compilação. É desses CDs que eu gosto. Se bem que acho que, no dia em que tiver paciência para ouvir uma ópera, vou gostar das de Mozart e das de Wagner.


Essa ópera é considerada um marco, porque ela, embora ainda esteja longe de ser atonal, tem o famoso "Acorde de Tristão" (52s), um acorde meio diminuto que não se resolve, como deveria. Ou seja, em vez de gerar tensão e ser seguido de um acorde de relaxamento, ele gera a tensão, mas nunca relaxa. Isso foi considerado o limiar entre o tonalismo e o atonalismo, a esticada na corda que a deixou prestes a arrebentar.


Mas, independente dessa parte teórica, é uma música extremamente linda. Wagner extraiu esses trechos especificamente para ser tocados em concerto, e datam de antes da ópera ter sua premiére. Existem duas versões para o Morte de Amor (11m55s) (com soprano e apenas orquestral - vou indicar uma versão de cada).


Gravações recomendadas: Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony Orchestra), regente: Colin Davis, soprano: Jessye Norman - Orquestra Philharmonia (Philharmonia Orchestra), regente: Otto Klemperer

 

Emmanuel Chabrier (1841-1894) - España (1883) (Rapsódia para Orquestra)



"Claramente a peça mais bem orquestrada no mundo inteiro", disse o regente Thomas Beecham antes de executá-la em um bis. España é uma peça pequena, a mais conhecida de Emmanuel Chabrier. Foi escrita numa viagem do compositor à Espanha, e é cheia de elementos da música daquele país, como alusões ao ritmo da castanhola, ao toque do violão e às escalas com um tom mais árabe.


É uma peça feliz e, de fato, extremamente bem orquestrada, empregando percussões em profusão.


Gravação recomendada: Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony), regente: Ataúlfo Argenta


 

César Franck (1822-1890) - Variações Sinfônicas (1885)



Obra prima de César Franck, as Variações Sinfônicas mostram seu desconcertante domínio da forma "Tema com Variações". Têm a mesma abordagem de sua sinfonia, que é a forma cíclica, um artifício que pode ser usado para querer que uma obra soe mais complexa do que é, mas que quando bem utilizado, é genial.


Gravações recomendadas: Orquestra Filarmônica de Berlim (Berliner Philharmoniker), regente: Herbert von Karajan, piano: Alexis Weissenberg - Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã (Concertgebouworkest), regente: Riccardo Chailly, piano: Jorge Bolet


 

Espero que esta lista te tenha feito descobrir música nova, ou redescobrir música que já estava no seu radar. Como disse, continuarei fazendo essas listas porque gosto muito. As listas são uma forma de organizar o pensamento.


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