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  • abajur #02

    Quadrinhos autorais por Brida. Brida ''Abajur'' Vive e trabalha em Brasília. Procura observar o trânsito embolado dos pensamentos e explorar tragicomédias diárias através de tirinhas, animações, pintura e escultura.

  • do que você realmente precisa?

    Notebook, smartphone, tablet. Realidade virtual, inteligência artificial, big data, metadados e eu ainda não sei o que vou preparar para o almoço. Preparar é modo de dizer, porque o que eu faço mesmo é tirar uma marmota congelada do freezer e jogar dentro do microondas. Marmota é como chamo as marmitas low carb que comecei a consumir durante a pandemia. Ajusto o relógio para cinco minutos porque, como minha mãe, gosto da comida bem quente. O meu microondas é gigante e tem um monte de botões que eu nem sei para que servem. Minutos depois e a mágica acontece: já estou com o prato pelando na mão a caminho da sala. Aproveito a hora do almoço para ver Bordertown, na Netflix. Mulher, loira, entre 22 e 25 anos está em cima da mesa de inox. Três detetives estão ao redor dela, além do legista. Ele olha para telas de led full HD conectadas a computadores de última geração e, em questão de segundos, descobre não apenas o nome da moça, mas onde ela morava, a placa do carro e a última vez em que foi ao ginecologista. Dou uma pausa na série. Meu pai está ligando no celular. Ele é a única pessoa que me liga, se não levarmos em conta os robôs de telemarketing e das agências de cobrança. A primeira vez que mexi em uma máquina de escrever foi no escritório da empresa onde meu pai trabalhava. Lembro bem da mesa de reunião enorme, onde eu ficava teclando em uma Olivetti Lexikon 80, enquanto o Seu Oliveria vendia, por telefone, uma coisa chamada gelatina industrial que os cartórios usavam muito para copiar documentos em livros fiscais. A ligação foi rápida. Ele só queria saber se eu estava bem e se tinha colocado água no radiador do carro. Meu pai tem essa nóia desde que comecei a dirigir. A real é que são quase duas da tarde e eu tenho um "caos" às duas e quinze. Caos é como eu chamo os milhares de calls e afins que passei a fazer depois que entrei em home office. Funciona, mas o vídeo trava, o áudio buga e me pego imaginando que, daqui há alguns anos, alguém (provavelmente seu filho ou sua filha) vai te zoar forte, "como vocês conseguiam se comunicar com essa merda?" Temos essa mania de descartar o que aparentemente não nos serve mais, a comparar tecnologias de épocas diferentes sem atentar às suas funcionalidades. A pergunta é: do que você realmente precisa? Existe alguma outra coisa que substitua a simplicidade perfeita de um clipe de papel? Antes que você pense que estou aqui como arauto de uma contrarrevolução analógica, pode tirar seu iPad da chuva. Acredito que o analógio e o digital podem conviver juntos. Passado, presente, futuro só existem no nosso entendimento limitado do tempo. Quem viu Dark sabe do que estou falando. Uso um Macbook Pro e as minhas máquinas de escrever, tudo ao mesmo tempo agora e tá tudo bem. A primeira coisa que a minha sobrinha de 7 anos disse quando usou uma type pela primeira vez foi: "Tio, a gente digita é ela já imprime na hora, muito legal!" Verdade, Jujuba, que outro gadget faz isso, né? Jujuba é como eu chamo a Júlia, minha sobrinha. Sérgio Type Redator e escritor, apaixonado por macs, livros, discos, toys, pizzas e máquinas de escrever. Todos os meses estarei aqui para falar sobre comportamento, cultura pop e tudo o que envolve esse crossover mais que necessário entre o universo digital e a experiência analógica.

  • Nunca houve silêncio

    No inicio era o silêncio….e a música só existia ao vivo: longe de casa, nas tabernas, music halls e quando muito, vinda de algum filho ou parente que se aventurava a cantar ou tocar algum instrumento. E então veio o fonógrafo de Thomas Edison, um aparelho que podia reproduzir nas casas, 2 minutos de música pré gravada. Reza a lenda que Edison quase infartou quando finalmente o invento deu certo e pela primeira vez ouviu a própria voz recitando “Mary Had a Little Lamb”. Ele já vinha desde 1877 trabalhando no protótipo do fonógrafo: primeiro num papel com parafina e logo depois com os cilindros de cêra. O sistema funcionava com uma membrana que captava o deslocamento de ar que a voz produzia, vibrando uma agulha, que por sua vez riscava sulcos na cêra. A patente é de 24 de dezembro de 1877 e ali começava a história da indústria fonográfica. Após muitos anos de sucesso, os cilindros foram trocados pelo formato de disco, patenteados por Emile Berliner. Os discos eram mais fáceis de guardar do que os cilindros de cêra e a indústria imediatamente adotou a novidade. Estes discos eram também gravados originalmente em cêra, diretamente de dentro do estúdio com a orquestra tocando em tempo real. Depois o disco de cera era pulverizado com grafite e passava por um banho de galvanoplastia, que gerava a matriz positiva em zinco. A partir desta era possível prensar muitas unidades em goma laca….o famoso shellac 78rpm. Avance um pouquinho pro fim da segunda guerra mundial e o capitão do exército americano Jack Mullin, traz pros Estados Unidos uma máquina descoberta num bunker alemão que gravava magneticamente em um carretel de metal. Ficou claro então, como Hitler conseguia fazer seus pronunciamentos em rádios pela Alemanha nazista sem nunca ter conseguido ser rastreado pelos aliados. A qualidade de gravação era muito superior aos discos de cêra, e diferentes destes, numa transmissão de radio a voz gravada era indistinguível da voz real. De volta aos Estados Unidos, Mullin fez uma apresentação da máquina e imediatamente conseguiu financiamento do cantor Bing Crosby, que viu ali a possibilidade de espalhar seus programas de radio pelo país. Nascia a Ampex. Na chegada dos anos 50, o guitar extraordinaire Les Paul em parceria com a mesma Ampex, inventou o overdubbing, técnica que permitia sobrepor faixas de gravação em camadas, mudando todo o jogo. Do outro lado do Atlântico e uma década depois os Beatles levaram esse formato ao extremo nos estúdios da EMI. Os inventos de Edison e Berliner, a visão de Mullin e Crosby, o pioneirismo de Les Paul e a experimentação dos Beatles, nos permitiram um século de registros incríveis na música. Os grandes discos do jazz, os crooners, o blues rural, a descoberta do samba, a bossa nova, o nascimento do rock, as gravações remotas de Jack Lomax, os concertos por todo o mundo entre tantos outros….. milhares e milhares de quilômetros de sulcos com os maiores gênios da música do século 20, que tiveram suas performances registradas no auge da maestria. A incansável tecnologia analógica esteve por muitas tempo a serviço da música. Foram muitas décadas de aprendizado e aperfeiçoamento e muita manobra pra driblar as limitações que no fim virariam material afetivo: o pop do vinil, o hiss da fita, o wow and flutter, o pequeno número de faixas, a estreita faixa de frequências e etc. Depois da segunda metade dos anos 80, a tecnologia analógica virou obsoleta e foi aos poucos sendo abandonada pelas gravadoras. O CD chegou como a nova grande promessa e foi abraçado pelas multinacionais com sofreguidão. Os velhos tornos de corte de acetato Neumann e Scully eram jogados em alto mar pra que não virassem ferramentas na mãos dos piratas e os estúdios e estações de rádio apressadamente jogaram os velhos gravadores Ampex e Studer nos depósitos e nas caçambas de lixo. Todos queriam surfar na novíssima onda digital! Logo chegariam a MP3 e as Digital Audio Workstation e as próprias gravadoras seriam enfim jogadas ao mar. A partir do início dos anos 2000, todo quarto de músico adolescente tinha um computador com algum software de gravação pirata e todo mundo teve que se ajustar a esta nova realidade. O estúdio de gravação, antes um espaço exclusivo de gravadoras e grandes conglomerados, era agora acessível a todos. Discos e mais discos foram gravados, mixados, masterizados, distribuídos, sampleados e baixados. Muitas pérolas, artistas de talento, outrora ignorados ou oprimidos, eram enfim descobertos. Mas por outro lado, muito lixo digital era produzido e nós os porcos, inchávamos numa velocidade assustadora! Mas havia uma conta que não fechava: havia algo frio e esterelizado no som daqueles discos do começo da era digital e os ouvintes ainda continuavam se conectando mais intensamente com os discos antigos. Com os recursos de edição inesgotáveis e uma relação sinal-ruído nunca antes vista, os novos discos eram limpos e polidos quase a perfeição. E hoje, ainda em meio a esta revolução digital, com plataformas de streaming, distribuição mundial instantânea, albums gravados nos quartos e sistemas de gravação acessíveis, existe ainda um busca intensa pelo elemento mágico daqueles discos da era analógica. Os softwares de gravação tentam emular equipamentos antigos, novos equipamentos são fabricados a partir de projetos obsoletos e peças de época são disputadas a tapa e a peso de ouro. Na ultima década vivenciamos a retomada do disco de vinil, da fita magnética, uma explosão de novos estúdios de gravação analógicos pelo mundo e artistas jovens mergulhando na estética vintage, nos wurlitzers, hammonds, ampexes, válvulas e polaroides. E tudo  pouco a pouco vai se embolando num fetiche interminável em meio a distopia orweliana que vivemos. O analógico vai se tornando de novo tão presente e genérico quanto o artesanal, passando de high tech a obsoleto a objeto de desejo em menos de duas décadas. Gourmetizamos até isso! Assim seguimos…. Algo obviamente se perdeu aí. A mágica não está nas máquinas…..a mágica está nas pessoas: em limitar o campo de ação, em restringir as ferramentas, em lidar com o tempo, com a urgência, com o espírito criativo, com trabalho em equipe, com o planejamento, com a imperfeição e com o silêncio. Mas eu aposto com você a minha cópia 180g do Kind of Blue-Miles Davis que a esta altura, Thomas Edison deve se revirar na tumba dizendo que na verdade nunca houve e nunca haverá silêncio. “…Minha liberdade consiste, portanto, em me mover dentro da estreita moldura que me atribuí para cada um de meus empreendimentos. Irei ainda mais longe: minha liberdade será tanto maior e mais significativa quanto mais eu limitar meu campo de ação e quanto mais me cercar de obstáculos. O que quer que diminua a restrição, diminui a força. Quanto mais restrições se impõe, mais se liberta das correntes que prendem o espírito.”   Igor Stravinsky Anderson Guerra Mineiro com sangue italo-baiano, Anderson Guerra é guitarrista desde quando bandas ainda eram chamadas de conjuntos. Moldou seu cérebro na efervescência da guitarrada baiana dos anos 80 e ambiciona ainda possuir uma cópia em LP do “Melô do Corrupto”. Já se aventurou em videos, filmes, peças de teatro, instalações, shows de tudo quanto há e gravou mais discos que consegue se lembrar.  Em 2008 montou o Bunker Analog, um estúdio de gravação sem computador. Desde então garimpa pelo mundo equipamentos de gravação obsoletos e dedica a maior parte do seu tempo à entende los e restaura los. A idéia deu tão certo que o estúdio hoje já possui um computador próprio e consegue gravar CD’s. Adora dormir depois do almoço e no fundo queria mesmo é criar cabras e galinhas.

  • Wiki-índio: O jeito preguiçoso e abusivo de se envolver nas pautas indígenas

    Diante dos crescentes ataques aos direitos das populações indígenas no Brasil, tanto em questões territoriais, culturais e de afirmação, também é crescente a militância de indígenas em diferentes frentes de atuação e as redes sociais se tornaram uma ferramenta crucial de visibilidade, denúncias de injustiças e, principalmente, de fortalecimento da identidade étnica que resiste nos tempos atuais. As redes sociais podem ser um ótimo expoente das questões indígenas, mas também abrem portas de diálogos muitas vezes exaustivos e sem propósitos baseados numa curiosidade sem respeito e empatia. Existem diversos perfis de pessoas físicas e de comunidades indígenas nas redes sociais onde, na sua maioria, servem como um canal de comunicação e fortalecimento em rede, buscando trocar e levar informação dos mais diversos campos - saúde e educação, arte e cultura - e produção de conteúdo específico sobre nossas vivências e realidades, na tentativa de levarmos de fato o nosso lugar de fala a quem queira conhecer a história pela narrativa de quem a vive. Hoje levantamos vários debates para além de demarcação e violação de direitos, levantamos a importância do bem viver e o respeito às diferenças, que são muitas, entre os povos e suas culturas, coisa que para pessoas não indígenas chega a ser uma surpresa: se deparar com as variedades e as complexidades dos mais de 305 povos que ainda resistem em solo brasileiro. Diante de tanta diversidade e tanto assunto “novo” sendo amplamente divulgado e fomentado nas redes sociais, o interesse de não indígenas por perfis indígenas crescem de uma forma bastante expressiva. Para além do interesse nas questões ambientais e climáticas, nossas culturas, costumes e tradições também são de interesse de simpatizantes da causa indígena, o que, para nós, é um grande avanço, exceto quando esse interesse vem acompanhado por pensamentos e posturas colonizadoras, onde não indígenas se sentem à vontade para abordarem esses perfis como forma de descolonização instantânea e imediata, como se seguir perfis indígenas fosse o suficiente para somar de verdade com as pautas levantadas por nós. Claro que acompanhar nossas narrativas é um grande passo em busca de fortalecer nossas populações, mas o problema não está em acompanhar, está em fazer de um perfil na rede social sua principal fonte de informação e de aprendizagem, usando o direct, caixa de mensagem e privado como se o indígena que está do outro lado fosse obrigado a dar uma aula particular sobre questões indigenistas a qualquer hora do dia e qualquer dia da semana. Eu, por exemplo, administro o Instagram Povo Pankararu, no qual levanto questões sobre meu povo, desde a exaltação e valorização de nossa cultura e tradição até nossas lutas pela garantia e afirmação dos nossos direitos e denúncias de ataques como os incêndios criminosos ocorridos em outubro de 2018, logo após o segundo turno da eleições presidenciais. Iniciei o perfil principalmente como meio de denunciar os constantes ataques que meu povo vinha sofrendo por posseiros e as violências racistas na região até os desmontes estruturais governamentais que atormentam todos os povo indígenas dos país, assuntos pesados e de muita dor para serem levantados constantemente. É notável como a tragédia sensibiliza muito mais que a beleza existente nos povos, então comecei a publicar nossos rituais, danças e contar um pouco mais sobre nossas crenças, religiosidade e hábitos numa tentativa de valorizar também o que é belo. Percebi que parentes de outros povos se inspiraram no perfil e começaram a criar perfis de seus povos e exaltarem suas tradições, assim como crescia nossa representatividade nas redes sociais, também crescia o interesse de não indígenas em querer aprender mais sobre, mas de uma forma muitas vezes abusiva. São constantes as mensagens na minha caixa de entrada de pesquisadores, repórteres, estudantes, professores e curiosos para tratar dos mais diferentes temas e as mais diversas demandas, desde “ajudar” em criações de teses acadêmicas até perguntas desnecessárias do tipo “em que estado fica o território”, “vocês são índios de verdade? Não sabia que tinha índio no Nordeste, só na Amazônia.”. Esse tipo de abordagem parece inocente pra quem escreve, mas é uma agressão para quem recebe. A forma como nos dirigimos a pessoas que vivem uma realidade e uma cultura diferente da nossa deve ser feita com o mínimo de respeito. Pesquisadores que usam nossos conhecimentos ancestrais para desenvolver teses acadêmicas que nunca chegam de fato ao conhecimento geral dessa população não fazem nada mais do que se apropriar de forma injusta em benefício próprio, ou seja, colonizadora. Repórteres que procuram perfis indígenas para desenvolver matérias, que nos procuram com tom de urgência pela notícia, com tom de estar nos fazendo um favor em colocar essa história em seus jornais e sites, que não respeitam ao pé da letra a forma que colocamos nossas histórias e sempre colocam suas opiniões e conclusões pessoais sobre um assunto que não é do seu domínio, estão usando uma abordagem colonizadora. Muitas vezes fico sabendo por terceiros sobre matérias e reportagens produzidas sobre o meu povo nas quais o repórter não se dá nem ao trabalho de nos enviar a matéria concluída. Essa postura de achar que estamos nas redes sociais à disposição para saciar as necessidades de quem quer trabalhar o tema, é o que costumamos chamar de wiki-índio, que nada mais é que fazer uma pesquisa com um ou mais administradores desses perfis como se fôssemos uma caixa de busca de informação. São muitos estudantes, desde o ensino médio ao ensino superior, que nos acionam como fonte para seus trabalhos e chegam até nós sem ter feito o mínimo, como pesquisar onde estamos localizados geograficamente. Propostas de projetos e pesquisas são constantes, mas quando digo que somos um território no sertão de Pernambuco, a desistência... “Não sabia que era tão longe... Mas você pode indicar mais alguém?”. Quando não, pessoas de São Paulo, Rio de Janeiro, dos mais diversos estados que procuram páginas de indígenas que estejam em destaque, mas não conseguem olhar para as questões indígenas que estão ali, do lado, na sua cidade, no seu estado. É muito mais eficaz procurar somar forças com as populações que estão mais próximas de seus campos de atuação do que traçar uma cruzada pelo país por uma população mais distante. Parece até que quanto mais difícil, maior a satisfação em se trabalhar o tema. Existe uma síndrome de bem feitor que é perpetuada no imaginário coletivo, onde não indígenas em nome do “quero poder ajudar” acaba sugando tempo, conhecimento e energia de indígenas que estão em constante batalha e, no fim, essa “ajuda” não passou de um alimento pro ego e pra curiosidade alheia. Não quero dizer com isso que não queremos pessoas não indígenas entrando em contato com nossos perfis, pelo contrário, queremos cada vez mais fortalecer nossas redes e somar mais parcerias em nome do bem viver de nossas populações. O que quero levantar é como, de fato, podemos nos ajudar de forma objetiva, clara, concreta, sincera e real. Abordar um perfil pra uma mensagem de apoio, de fortalecimento e encorajar nossas lutas é muito importante, abordar nossos perfis pra matar uma curiosidade que seria resolvida com uma busca no Google, não. Buscar parcerias, propor matérias, lives, pesquisas pela rede social sem antes fazer um pequeno dever de casa, sem antes olhar ao redor e tentar enxergar realidades mais próximas, é perpetuar uma postura de invisibilidade a quem está perto, pesquisar um pouco antes é um exercício real de otimizar nossas forças, tanto a força de quem se propõe a ajudar as causas indígenas quanto a força daquele indígena que, muito provavelmente, já tem suas próprias demandas e projetos fora das redes e, por último e não menos importante, sempre que possível remunerar o conhecimento de quem está lhe fornecendo, afinal, visibilidade não paga boleto e nosso tempo não tem preço, mas pode ser sim valorizado como um trabalho. Antes de abordar um perfil indígena, é importante ter a consciência que a rede social é uma ferramenta de luta e visibilidade, onde, por trás de cada perfil, existem homens e mulheres, mães, pais, profissionais, que não vivem de redes sociais, não são militantes de internet e não estão à disposição a qualquer momento, para além da internet. Estamos em constante militância pelo simples fato de existirmos e resistirmos há 520 anos de invasão, violências e violações de direitos primários. Estamos em estado de luta e esperamos de verdade que cada vez mais os não indígenas somem forças conosco, mas somar forças de forma respeitosa, não absorver um conhecimento que não levará a nenhuma mudança real. BIA PANKARARU atualmente é técnica em enfermagem de saúde indígena no Polo Base Pankararu, além de produtora cultural e militante LGBT indígena.

  • Strange days: a enigmática capa do the doors.

    Em 02 de Outubro de 1967, apenas oito meses e meio após o lançamento de seu primeiro álbum, veio ao mundo pela Elektra Records a segunda obra do The Doors, Strange Days, e sua capa peculiar. Ela foi fotografada em Sniffen Court, que é um dos menores distritos históricos da cidade de Nova Iorque, originalmente projetado como estábulos para serem abrigos para carruagens, construídos por John Sniffen, entre os anos de 1863 e 1864. Com o passar do tempo e a redução da necessidade de construções com essa finalidade, os estábulos de Sniffen Court passaram a ser modificados para se tornarem habitações e escritórios. Capturada por Joel Brodsky, a imagem foi inspirada no filme circense “La Strada”, de Frederico Fellini (que no Brasil recebeu o título A Estrada da Vida) lançado em 1954 , após Jim Morrison se recusar a fotografar para ela. Então Joel reuniu alguns artistas de rua de uma região próxima a East 36th Street, em Manhattan, local onde fica Sniffen Court. E o que temos é a bela capa de Strange Days. Uma curiosidade é que se não prestarmos a atenção, pode passar despercebido que o nome da banda e do álbum estão ali, abaixo do braço do homem em primeiro plano, e que também a mesma imagem se repete na contra-capa. Também é curioso que a fotografia que ilustra o nome da banda, onde estão os quatro integrantes, é a mesma da contra capa do primeiro álbum dos Doors. Abaixo deixamos o trailer da versão restaurada do filme de Fellini. E, claro, o clipe oficial de Strange Days. Gostou desse texto? Então que tal olhar o texto de estréia do Leandro com umas curiosidades altamente peculiares sobre Chopin . Seu interesse é rock? Quer ver o que mais tem sobre isso aqui na arara? Então... Será que você já viu esse sequência de TOP 10 de rock que começa aqui ? Leandro Krindges Técnico Químico de profissão, licenciado em Biologia por paixão, fã de Foo Fighters à Belchior e de tirinhas, especialmente Peanuts. Sempre teve curiosidade em saber o que se passava por trás das músicas, e essa busca se tornou um hobby. Tecladista da Banda Villa Rock, arranha também um violão e guitarra. Aprendeu a gostar de ler depois do Kindle.

  • Papo De arara: Yandra Lobo

    Colaboração: Adriano Caetano Yandra e Neto eu conheci na escola. Não na minha escola onde podemos dar a sorte de fazer amizades para toda a vida. Mas na escola dos meus filhos, porque é também a escola dos filhos deles. Na escola em questão, o "Uniforme" é apenas uma discreta camisa que é vendida em várias cores com o nome da instituição bordado. No mais quase tudo pode. Menos roupa com personagens midiáticos. Ou seja, roupa com um "tema" como diz a pequena coleguinha ou ainda, roupa de "episódio" como diz o meu caçula. Numa dessas ele veio me reclamar que Raul sempre ia de episódio, de personagem. E percebi que Raul sempre ia com uns vestidos coloridos e muito lindos e tive que explicar numa linguagem infantil que aquele "personagem" não era midiático, mas completamente autoral. Teve pai que reclamou e tirou a filha da escola. Mas Raul seguia impávido (ou impávida) com seus vestidos e combinações ousadas. E cada vez mais lindo. Conversei com Neto e ele disse que era perfeitamente possível fazer uma entrevista com ele e com Yandra. Mas como ele acabou ficando isolado da família num quarto separado por ter contraído Covid-19, Yandra assumiu sozinha a tarefa de responder às nossas perguntas por questões de praticidade mesmo. Muitas pessoas falam sobre questões transgêneras na mídia, mas bem poucas com conhecimento teórico da causa e menos ainda com uma vivência prática intensa da questão. Então, nessa conversa a gente vai mostrar um pouco da rotina dessa família incrível a partir da história de Raul e de sua mãe e de seu pai. 1) A partir de quantos anos vocês perceberam que tinham uma criança trans?! Para responder a esta pergunta considero necessário deixar claro o que vamos tomar por TRANSGÊNERO. Depois de muito estudar e escutar, compreendemos que o termo transgênero é, como dizem, um "guarda-chuva" que engloba formas de existência distintas da chamada cisgeneridade (quando há conformidade entre o gênero atribuído no nascimento e o sentimento da pessoa sobre si mesma). Enxergamos os primeiros sinais de transgeneridade em Raul mais fortemente quando chegar à escola e tirar a própria roupa para trocar pela saia da sala passou a ser um hábito. Foi quando atentamos para a recorrente escolha dele em "atuar" em suas brincadeiras como "princesa, bailarina"... Usualmente elegendo papéis associados socialmente ao feminino. Sempre tivemos disponíveis em casa os ditos "brinquedos de menina": bonecas, etc... Nosso mais velho sempre brincou numa boa. Talvez por isso não nos chamou atenção a preferência de Raul. Ele tinha 4 anos quando tudo isso veio meio que junto, com a sua fala mais articulada e inteligível. Frases como "Eu quero ser menina" e "Eu posso ser menina" passaram a ser uma constante. 2) Como Raul gosta de ser chamado? Algum pronome ou gênero preferido? Quando tudo isso começou, tinhamos muito forte dentro de nós o modelo binário (homem-mulher) como referência. Pensamos que, se ele se sentia menina, ele não era menino, e teríamos uma longa viagem pela frente. Atravessar um pólo pra chegar até o outro... Isso nos gerou muitas dúvidas, muito sofrimento, muita angústia. Associamos a ideia de ser trans a dor, medo, sofrimento e desrespeito. Isso é automático. Vemos isso nos olhos de nossos familiares, de nossos amigos. Entretanto, depois de reparar com cautela e lançar mão de leituras e consultas com profissionais excelentes, fomos percebendo que Raul poderia EXPERIMENTAR ser menina. Ressalto essa palavra aqui pois ela é fundamental em nossa trajetória. Por eleger essa narrativa para que nossa família e nosso filho se compreendesse, optamos por usar uma linguagem mista: Utilizamos preponderantemente os pronomes masculinos por termos nos acostumado assim desde que Raul nasceu. Mas temos uma atenção para sempre que possível usar uma linguagem sem marcadores de gênero. Importante: SEMPRE que Raul fala de si no feminino nós acompanhamos... Eventualmente já falamos no feminino de cara... Quando sente necessidade ele nos corrige. Ano passado, surgiu o nome MALU. Um dia ele pediu pra ser esse o nome dele. Respondemos dizendo que por enquanto o nome dele continuaria sendo Raul ainda mas que Malu seria um lindo apelido. Sendo assim, Raul hoje muitas vezes se apresenta como RAUL MALU. Nossa intenção é a de que Raul compreenda as inúmeras possibilidades para além de "ser homem ou ser mulher" em sentido estrito. Por isso optamos por seguir misturando nomes e pronomes. EXPERIMENTANDO. 3) A escola é um espaço de formação que muitas vezes reproduz homofobia e transfobia. Como foi o diálogo de vcs com a escola? Vcs acham que Raul se sente acolhido? Eu reescreveria esta frase assim: "A escola é um espaço de formação que SEMPRE reproduz homofobia e transfobia". É necessário partir dessa ideia para pensar e construir espaços mais saudáveis para as crianças e adolescentes LGBT. Nosso mundo se organiza em torno de um mundo homofóbico e transfóbico estruturalmente e a escola desempenha o papel de reprodutora desse mesmo modelo. Tomar consciência disso não nos exime de reproduzir também (inclusive nós, mães e pais engajados) práticas que alimentam esse modo de viver. Vou dar um exemplo: Quando supomos, ao pegar uma criança no colo, que, por possuir um pênis, ela será MENINO, - e aqui pegue o combo completo do "ser menino": gostar de brinquedos assim, comportar-se assado, namorar no futuro pessoas do gênero tal, etc, etc... - o fazemos sem pensar... é automático. É urgente, portanto, fomentar o costume de estranhar "o que todo mundo aceita", "o que é normal". Eis o papel da escola! Uma pena saber que instituição alguma implementa efetivamente isso que seria, de fato, revolucionário: questionar a heteronormatividade de dentro... Contar pra esses meninos e meninas o tanto de possibilidade que existe de ser e existir nesse mundo... VOLTANDO À PERGUNTA: Nossos filhos estudam em uma escola de pedagogia "alternativa". Tivemos sorte de ter como professora uma mulher incrível, disposta a olhar para Raul por cima do muro das respostas fáceis. Ela foi fundamental desde o momento em que virou pra gente e disse "Cês tão vendo que só cresce, né!?". Com ela, construímos dentro da sala uma verdadeira comunidade. Decidimos, Neto e eu, não fingir que nada estava acontecendo nem "enfiar goela abaixo" das pessoas. Nos empenhamos em conversas recorrentes com todas as famílias para explicar nosso filho, explicar esse "mundo" desconhecido por todos nós (habituados ao feijão com arroz da vida heteronormativa). Num momento seguinte, ao perceber que isso era um assunto desconhecido e tabu em qualquer escola, mesmo na nossa, decidimos solicitar uma reunião com o Conselho Pedagógico. Lá fizemos uma apresentação sobre as bases para um mínimo entendimento sobre as diferenças de terminologias e "classificações"... Nossa postura é, repetidamente, a de negar véus e armários. Raul ainda está na Educação Infantil e sabemos do longo caminho que temos pela frente. Eu diria que Raul não se sente acolhido. Pois, para isso, ele teria que ter se sentido mal em algum momento na escola. Ouso dizer que isso não ocorreu. Conseguimos, com a amizade e generosidade de muitas pessoas, construir uma bolha de segurança e amor para Raul. Ser menina é uma característica de Raul semelhante à cor de seus cabelos para as crianças que convivem com ele. E isso é massa demais de ser visto. ATENÇÃO: há, claro, episódios pontuais de "você tem pinto", "você não é menina de verdade". CLARO! Mas a habitualidade da normalidade enxergada nele é muito maior... era isso que eu queria contar. 4) Gostaria de fazer uma pergunta, de certo modo complementar à anterior citando o filósofo trans espanhol Paul B. Preciado “Para acabar com a escola assassina, é necessário estabelecer novos protocolos de prevenção da exclusão e da violência de gênero e sexual em todos os institutos e escolas.” Esta frase é do livro um Apartamento em Urano, Crônicas da Travessia. Mais especificamente do capítulo chamado Uma escola para Alan onde ele narra a morte de um adolescente espanhol um dia após o natal. Alan, foi o primeiro a ganhar o direito a mudar de nome socialmente, mas isso não impediu que a escola tivesse um papel nocivo e determinante em sua morte e, a partir daí, Preciado faz toda uma análise das estruturas sexistas tradicionais das escolas. Na perspectiva de vocês esses “novos protocolos” mencionados por Preciado estão sendo criados? Quais seriam eles? Nós elegemos um modelo do ser humano perfeito: homem-cis-hétero-branco-capaz fisica e intelectualmente. Tudo que destoa disso é, explicitamente ou implicitamente, menosprezado nas escolas. Minha resposta parte da observação das escolas que conheço particularmente: Não vejo novos protocolos sendo criados organicamente nos espaços escolares... me refiro a construções nascidas de intenções pedagógicas próprias, sabe!? De reuniões específicas, partindo de observações francas. Acontece que falar disso toca em armários internos nossos. Bell Hooks fala disso num texto em que discute educação sexual. Ela fala que esbarramos na nossa vergonha e medo de falar de nós mesmos, adultos, educadores. Concordo com ela. Em termos jurídicos, há algum avanço pontualmente: legislações que obrigam as escolas a respeitar e usar o nome social... essas coisas... Vejo como muito importante falarmos dos banheiros. A divisão sexista que a arquitetura faz nos espaços escolares (e mais que eles) ofende e constrange muito. 4) Em algum momento vocês procuraram ajuda de uma psicóloga? Ou de um grupo de apoio, por exemplo, o movimento "mães pela diversidade"? Tivemos consultas pontuais em psicológa e psiquiatra incríveis. Elas nos ajudaram em momentos tensos e angustiantes. Foi fundamental na conquista de confiança e conhecimento da gente. Já o Mães pela diversidade, é um capítulo à parte: a força do encontro, a potência do estar junto e se mostrar... ouvir histórias distintas, sentimentos distintos, opiniões distintas... e permanecer junto por um propósito: expandir os horizontes de nossos filhos. A força de ouvir sobre os outros e falar sobre si é muito menosprezada, infelizmente. Deveríamos sempre buscar quem vive algo parecido com a gente... é uma troca de pura generosidade: você colhe ao mesmo tempo que oferta. 5) O que vocês passaram a estudar e a fazer para encontrarem a melhor forma de acolher e compreender Raul? Neto nasceu pra ser pai de Raul. Veio pronto! Nunca se desesperou e sempre me disse que ia ficar tudo bem. É impressionante a sabedoria e sensibilidade que ele tem intuitivamente. Já eu, medrosa e ignorante, tive que comer muito pirão pra chegar num ponto que me fez mais forte: saber que Raul não está fadado ao sofrimento. Que a sua vida é e pode continuar a ser maravilhosa. A primeira leitura que lampejou isso dentro da gente foi o capítulo sobre transgêneros do livro Longe da árvore, de Andrew Solomon. A introdução do mesmo livro também. As leituras de experiências transgênero foram importantes para compreender as variações de entendimentos e sentimentos, bem como a diversidade dentro mesmo da categoria trans. Livros como Vidas trans e Se eu fosse pura (ambos livros de Amara Moira). Leituras clássicas a respeito do tema sexualidade foram fundamentais para questionarmos em definitivo o padrão binário e considerar a fluidez como algo intrínseco à infância. O que fazemos, ao silenciosamente ensinar a heteronormatividade, é negar possibilidades às crianças. 6) Algumas obras de arte como o romance Orlando, de Virgínia Wolf (com uma adaptação cinematográfica excelente de Sally Porter estrelada por Tilda Swinton) ou o filme Tomboy, de Céline Sciamma, de 2011 retratam personagens que transitam entre os gêneros. Outra obra muito interessante e divertida é a série animada infantil SheZow que conta a história de um garoto que vira super-heroína por acaso num momento de disputa com a irmã e acaba gostando e adotando a identidade superpoderosa. Existem também, ainda poucos, mas cada vez mais numerosos, jogos de videogame no estilo RPG que falam de temáticas específicas do universo LGBT... Não sei se vocês conhecem essas obras, mas a pergunta em especial é: alguma obra de arte específica ajudou vocês (ou ainda ajuda) nesse processo? Ou ajuda Raul com a questão da representatividade? Lamentamos demais a ausência de uma produção voltada ao público infantil que tenha personagens fugindo da lógica binária. Sentimos muita falta disso, na verdade. Existe aqui (Fortaleza), entretanto, um coletivo chamado As travestidas. Raul é encantado pela Mulher Barbada e pela Giselle Almodóvar (que é também Silvero Pereira). Com elas, conseguimos mostrar pra Raul (e pra Bernardo, nosso mais velho) que tem muitos jeitos de ser.... e que experimentar é o melhor jeito de saber se gosta... 7) Como vocês protegem Raul da discriminação? Com quais recursos vocês contam? Por enquanto, nossa maior proteção é saber que ele tem apenas 6 anos e tá debaixo de nossa vista a todo momento. Nossos filhos não têm acesso livre a telas e conteúdos digitais, sendo assim, ainda sabemos o que eles vêem e ouvem na maioria das vezes. Sobre o convívio no mundo, vivemos algo super louco: ao mesmo tempo que construímos esse lugar seguro para eles, sempre aparecerá alguém novo... já percebemos que isso intimida um pouco Raul (a mim também, preciso confessar) mas estamos sempre por perto... ou tem sempre alguem em quem confiamos muito por perto. Este ano entrou um menino novo na sala. Ele dizia que Raul não era menina de verdade... ele ficou bem triste e nos contou. Respondi que ele é sim uma menina de verdade e que não é o fulaninho quem decide isso. Nessas horas, enfatizo que tem gente que vai dizer muita besteira e que dói mesmo... mas que ele precisa nessa hora lembrar de todo mundo que o ama. Lembrar que ficamos tristes com coisas que os outros fazem é uma das coisas que dizemos... Vai ter muita merda ainda, a gente sabe... A gente quer proteger ao máximo enquanto podemos, sabe!? Mas damos as pistas do que vem por aí. Vai ter muita belezura também! 8) Qual o recado vcs deixam para os país que estão passando o mesmo que vcs?! A VIDA DE SEU FILHO NÃO PRECISA SER UMA TRAGÉDIA COMO REPETEM!!! PROCUREM PESSOAS QUE VIVEM SITUAÇÕES COMO A SUA!!!! Procurem o Mães pela diversidade e coletivos/ongs semelhantes que existirem por aí. Abaixo deixamos dois vídeos que Raul ganhou de aniversário das artistas/personas que admira bastante: Mulher Barbada e Gisele Almodóvar de Silvero Pereira. Mais uma vez agradecemos Yandra por ter cedido seu precioso tempo para conversar com a Arara Neon e agradecemos também a você, que leu tudo isso até aqui! Até a próxima!

  • O home office

    A ideia era trabalhar na rede. Sim, tem a rede de computadores envolvida, claro, mas na rede mesmo, herança dos nossos ameríndios que se preocuparam em ensinar os portugueses a fazer uma rede antes do genocídio começar, enfim. Mas uma rede é apropriada ao trabalho? Pensemos, a gente gosta de inovar. Uma rede, mas SEM o travesseiro. Ela fica desconfortável na medida certa, porque não fica confortável o suficiente para dormir, mas não fica tão incômoda a ponto de não se conseguir usar o computador e ver todas as planilhas novas. Então a rede, nessas condições, deixa a gente num estado mínimo de alerta. E mais uma vantagem: se levantar da rede é mais trabalhoso que levantar da cadeira. Então a gente pensa duas vezes antes de levantar da rede, ainda mais quando é necessário, concomitantemente ao movimento de levantar que exige o corpo todo em ação síncrona (porque a bunda da gente tá afundada na rede) com o movimento de levantar o computador das pernas. Se é mais difícil levantar a dispersão é menor, porque a gente não pode se dar ao luxo de ir fazer xixi toda hora, de ir beber água ou fazer a pausa do café a todo instante. A gente tem que sentar para ficar, uma relação séria, a gente e as planilhas. Sim. A rede na verdade, uma e meia da tarde era um troféu. Ficar frente a frente com as planilhas era um troféu. Troféu porque foi com muito custo que conseguiu o emprego novo e agora as planilhas estavam ali. No home office da quarentena. Tinha que mostrar serviço, mas existe o serviço básico que uma casa exige para continuar funcionando enquanto casa, enquanto lar. O metabolismo basal doméstico, digamos. Depois de passar boa parte da manhã ajudando meu filho mais velho com a tarefa doméstica, varrendo a casa e passando o esfregão, vamos ali fazer o almoço. A gente concentra, pensa, vai fazer o quê? Melhor lavar a louça antes. Lavamos. Olha o tempo, a esposa vem almoçar meio deia e quinze. Ela tem que entrar sentindo o cheiro da comida. Mas e as planilhas do emprego novo? Calma, vai dar certo. Vamos picar os legumes. Refogar o alho, fazer o almoço completo. Fez tudo? Ótimo. As crianças reclamaram que tinha cebola. A louça foi lavada. Não, não foi, quer dizer, foi, mas não tudo, só o mínimo necessário. Sabe aquele filme da bolha assassina? Um monstro alienígena que não para de crescer. Então. Era isso. Mas com louça. A louça assassina. Não esquenta, respira. Vive o momento presente e agradece a Xangô, Buda e até a Ganesha de quem a gente não é adepto, mas não custa nada, o fato de não ter roupa para estender. Não é à toa que uma parte da pauta política de muitas mulheres é o reconhecimento do trabalho doméstico não reconhecido e não remunerado. Claro que a gente sabe que tem muito mais coisa envolvida, mas se fosse só o trabalho doméstico, ainda assim já era motivo de sobra para a fogueira de sutiãs. A vontade que a gente tem é de queimar a cueca. Mas a gente fez ou tentou fazer tudo e está ali com o troféu da gente: as PLANILHAS DO EXCELL! O primeiro enigma é porque 6 arquivos para a gente extrair todas as informações? Aparentemente é o tipo de coisa que a gente sempre pensa que é informatizado, mas não é. É que nem o trabalho daquela amiga da gente que consiste em separar os cheques sem fundo no banco. Você já parou para pensar como sabe que o cheque é sem fundo? O computador analisa os fundos e devolve? NÃO! São pessoas. “Vocês não acreditam em quem eu vi hoje! Sim, a fulaninha passou um cheque sem fundo hoje...” , pois é... E uma dessas pessoas que analisa os fundos dos cheques é essa amiga da gente. Mas foca então, concentra que as planilhas estão ali, e mais três relatórios que vão fazer você criar mais um relatório e mais uma planilha, mas essas, sim, serão definitivas como o retorno do cheque sem fundo ao emissor (ou emissora) para que os fundos sejam restituídos. Calma, concentra. A questão toda é a conjuntura. Ah!, a conjuntura de um lugar que é mais home do que office. E a consequência disso é que você nem consegue ser um bom pai, nem um bom dono de casa nem um bom mexedor de planilhas. Ao menos sem perder a sanidade mental. Porque isso tudo junto ao mesmo tempo agora cansa. E muito. Mas você se concentra. Concentra muito. E finalmente as planilhas ocupam lugar de destaque no seu cérebro. E justamente quando linhas e colunas começam a fazer sentido a porta abre. Era a hora da pipoca. O que pode ser mais importante que uma pipoca? Como os filhos da gente tinham ficado sem pipoca um dia antes a gente fica com peso na consciência e vai fazer a pipoca. Respira. Olha como é zen isso de fazer pipoca, o caos, os milhos, a transformação. Zás! A iluminação. Pipocas brancas, salgadas e que logo se amarelam ao contato com a manteiga derretida. Voltamos ao escritório e entramos novamente na rede. As linhas, as colunas, os números dentro das linhas e colunas. Estamos entendendo tudo. A porta se abre. Está na hora do nescau. O que pode ser mais importante que um nescau? Gostou da crônica? Tem outra do mesmo autor sobre essa mesma quartentena aqui.

  • + Top 10 Obras Orquestrais extra categoria

    A segunda lista de uma série sobre peças sinfônicas que não se enquadram nas categorias de Sinfonia, Abertura ou Concerto. É parte de um Top 30 ou até Top + de 30. A outra lista está aqui. Acredite, você vai gostar de cada uma dessas peças. Se puder, leia um pouco sobre as obras - se bem que é pra isso que eu faço a lista. Deixo, como sempre, uma ou mais recomendações de gravação para cada peça. Não estão em nenhuma ordem de preferência ou de qualidade. Gustav Holst (1874 - 1934) - Os Planetas (The Planets) (Suíte Orquestral) (1916) (Suíte Sinfônica) Gustav Holst foi um compositor inglês dos mais importantes do século XX. E a sua obra mais conhecida é a suíte Os Planetas, de 1916. Eram 8, na época, mas ele excluiu a Terra, de forma que a suíte tem 7 movimentos. Depois que descobriram o nono, alguns compositores tentaram incluir seu próprio Plutão como um epílogo. Muito depois da morte do compositor, vem Neil DeGrasse Tyson e rebaixa Plutão a planeta anão. Ou seja, a suíte volta a ficar certinha. Os movimentos têm o nome de um planeta e um subtítulo que remete à sua personalidade astrológica (mas de acordo com Holst). São eles: Marte, O Mensageiro da Guerra - movimento bem bélico e viril (óbvio), em tempo 5/4. Esse planeta, mais que os outros, serviu de inspiração para, por exemplo, a trilha sonora de Star Wars (assista a esse vídeo elucidativo do Max Valarezo sobre as influências de compositores eruditos na música de John Williams). A orquestração é magistral, ainda que dada ao espetaculoso. É furioso e acaba de maneira muito eloquente. Vênus, O Mensageiro da Paz (7m16s) - música muito contemplativa e bela. Simples e certeira. Mercúrio, O Mensageiro Alado (15m10s) - o Scherzo do grupo. Movimento ligeiro e brincalhão, com belas combinações de instrumentos. Júpiter, O Mensageiro da Alegria (18m59s) - Júpiter é o mais conhecido deles. É música que para mim remete mais triunfo do que alegria. Saturno, O Mensageiro da Velhice (26m45s) - movimento sombrio, Holst sabe criar um clima. Urano, O Mágico (35m33s) - começa ameaçador, com uma pequena frase nos metais que é muito conhecida. É vagamente ameaçador e tenso, mas logo se torna mais aliviado. Netuno, O Místico (41m23s) - geralmente os finales são músicas mais pra cima, pra tudo acabar bem. Mas Holst resolve acabar soturno, carrancudo, místico. Nesse movimento ele emprega um coro feminino, que dá um ar ainda mais etéreo. As últimas notas vão morrendo até o silêncio. Holst não tinha uma personalidade dada a escrever música de efeito, ele gostava mesmo de escrever para bandas militares. Mas a suíte Os Planetas mostra que ele sabia ser bem inglês e criar música empolgante. Gravação recomendada: Orquestra Filarmônica de Bergen (Bergen Philharmonic Orchestra), regente: Andrew Litton Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959) - Bachianas Brasileiras Nº 3 (1938) As Bachianas Brasileiras são 9 peças para as mais diversas formações compostas ao longo de muito tempo por Heitor Villa-Lobos. Nelas, Villa emprega um tipo de criação melódica e de estruturação harmônica que lembram muito a música de Johann Sebastian Bach. Dessa mesma veia é a música de Frédéric Chopin, de Ernesto Nazareth e dos chorões dos anos 20 no Brasil. Podemos encontrar essas características, ainda, na própria música folclórica brasileira ("Se Essa Rua Fosse Minha", "Terezinha"...) As 9 Bachianas não foram feitas para ser tocadas juntas. Até porque algumas empregam uma orquestra inteira, outras apenas 2 instrumentos etc. Tenho várias favoritas, como a 1ª, a 2ª, a 6ª. Mas as de que gosto mais, portanto posso falar com mais propriedade, são a 3ª e a 4ª. E, nessa lista, falo da terceira, a mais mais favorita. Escrita para piano e orquestra, ela tem 4 movimentos. Não é um piano incorporado à orquestra: é um piano solista, que fica na frente da orquestra, o que faz da obra quase que um concerto para piano. Os movimentos são: Prelúdio (Ponteio) - um movimento típico de Villa-Lobos, exuberante, de orquestração grandiosa, ainda que, às vezes, confusa. Fantasia (Devaneio) (7m10s) - um belíssimo movimento. Nele, Villa evoca a natureza, mais precisamente, a Amazônia, tão amada por ele. Temos, no clarinete (8m35s), uma melodia que é de um motivo que vai simplesmente caindo, bem ao estilo Bach. Depois de uma explosão da orquestra (10m33s), temos um trio (11m2s) com corne inglês, clarone e violino que me dá arrepios. O trio é repetido (11m41s) nos violoncelos, trompa e fagote. Depois disso temos o devaneio propriamente dito (12m22s), com os pássaros e as danças indígenas. Ária (Modinha) (13m35s) - A ária é igualmente bachiana. Um motivo é repetido, sempre caindo, no corne inglês, depois entra, no clarinete (14m8s), uma melodia que, se não é de uma fuga de Bach, é porque este esqueceu de compor. Agora (14m49s), o piano faz um motivo ascendente que leva a um belo gesto da orquestra com o piano (15m8s). Arrepiante! Às vezes eu acho que Villa-Lobos só não é ainda mais tocado no exterior porque ele resolveu falar diretamente pro brasileiro. Não tem como um estrangeiro entender a grandeza, a beleza e a magia da sua obra. Eles só entendem metade. E já é suficiente para que Villa seja altamente reconhecido lá fora. Toccata (Pica-Pau) (21m6s) - O pica-pau é super divertido. Claro que vamos ter simulações de martelados e um final absolutamente brilhante. O que a difere de um concerto para piano propriamente dito é, acho, basicamente, o fato de não ser difícil para o solista. Villa-Lobos, não se enganem, sabia compor para piano, mas nunca usava artifícios só pra peça ser mais desafiadora pro pianista. Gravação recomendada: New Philharmonia Orchestra, regente: Vladimir Ashkenazy, piano: Cristina Ortiz Claude Debussy (1862-1918) - La Mer (1905) (Três Esboços Sinfônicos) Obra sem muitos precedentes (é quase uma sinfonia, quase uma suíte), La Mer (O Mar) é uma das três composições sinfônicas de Claude Debussy em três partes. As outras são os Nocturnes (Noturnos) e as Images (Imagens). Eu poderia estar falando de qualquer uma porque as amo. Das outras, falo depois. Aqui, Debussy consolida sua orquestração caracteristicamente esparsa e meio vaga, como que vindo em ondas, de modo que o tema é muito adequado ao estilo de composição do francês. Vamos aos movimentos: "De l'aube à midi sur la mer" (Da alvorada ao meio-dia no mar) - onírico como o Prelúdio para a Tarde de um Fauno, mencionado nesta lista, é a típica mágica música de Debussy. "Jeux de vagues" (8m43s) (Jogo de ondas) - um pouco mais agitado que o anterior, é também mais colorido. "Dialogue du vent et de la mer" (15m24s) (Diálogo entre o vento e o mar) - esse é ainda mais turbulento, claramente descritivo da situação sugerida no título. Debussy faz uso da escala hexatônica, ou escala de tons inteiros, que nos deixa um pouco desorientados com relação à tonalidade. Essa obra foi muito influente desde sua estreia. Até um bocado da música de cinema deve a ela. Perceba o entusiasmo do público ao final, no vídeo acima. Gravação recomendada: Orquestra Filarmônica de Berlim, regente: Herbert von Karajan Maurice Ravel (1873-1937) - La Valse (1920) (Poema Coreográfico para Orquestra) Esta peça simplesmente maravilhosa do francês Maurice Ravel é uma das mais gravadas do século XX. Junto com Debussy, Ravel era chamado, a contragosto, de impressionista. Isso porque a música deles tem clara relação com o estilo de pintura de Claude Monet. Pequenas pinceladas formam uma figura maior, que pode ou não ser nítida. La Valse é vista por alguns como um belo tributo à valsa vienense. Outros veem traços mais apocalípticos nela. É uma obra descritiva: num cenário meio enevoado, gradualmente vão se discernindo pequenos fragmentos de melodias, e gradualmente vão se percebendo casais dançando uma valsa, que tem realmente seus momentos turbulentos: não é uma valsa alegre de Strauss, mas uma espécie de caricatura moderna e absolutamente genial. Tem cerca de 12 minutos de duração. Gravação recomendada: Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony Orchestra), regente: Claudio Abbado Pyotr Tchaikovsky (1840-1893) - Variações Rococó (1877) Outra peça que poderia ser um concerto, as Variações Rococó, de Pyotr Tchaikovsky, apresentam um violoncelo solista. É uma peça difícil para o instrumento, tendo sido adotada por violoncelistas como peça de exibição. Tendo Mozart como modelo, Tchaikovsky fez esse tema à moda rococó (estilo que sucedeu o barroco e antecedeu o clássico, ou seja, mais de 100 anos anterior ao compositor russo), e 8 variações. É uma música leve e luminosa, que dura pouco mais de 20 minutos. Tema com variações é uma das formas mais adoradas pelos compositores, porque eles têm um parâmetro, que é o tema, e a liberdade de mostrar todo o seu talento nas variações. E talento é o que Tchaikovsky mostra nessa peça extremamente cativante. Gravação recomendada: Northern Sinfonia Orchestra, regente: Yan Pascal Tortelier, violoncelo: Paul Tortelier Igor Stravinsky (1882-1971) - Petrushka (1911) (Balé) O segundo dos balés de Igor Stravinsky encomendados por Sergei Diaghilev (antes teve O Pássaro de Fogo e, depois, A Sagração da Primavera), Petrushka (Pedrinho) foi também muito revolucionário. Como a Sagração é muito famosa, tende-se a considerar os dois balés anteriores como ensaios para esta. E eles são. Mas não sem méritos próprios. O Pássaro de Fogo lembra o compositor Rimsky-Korsakov, romântico. Já Petrushka e A Sagração são bem modernos. Diaghilev tinha uma companhia de dança chamada Ballets Russes, em Paris. Sua estrela era o lendário bailarino polonês Vaslav Nijinsky, que foi o personagem Petrushka nesse balé. A coreografia foi de Michel Fokine. Conta a história de três marionetes que ganham vida pelas mãos do Mago: Pedrinho, o Mouro e a Bailarina. Pedrinho gosta da Bailarina, mas esta gosta do Mouro. Pedrinho o desafia e ele o mata. Surge o fantasma de Pedrinho, que desafia seu criador, o Mago, e acaba morrendo pela segunda vez. Petrushka é um personagem do folclore russo, mas está presente na Itália, como Pulcinella, na França, como Polichinelle e na Inglaterra como Punch. A música de Stravinsky é tão audaciosa quanto a da Sagração da Primavera, que nasceria dois anos depois. Contém polirritmia, escalas exóticas, instrumentação ousada. Além do famoso Acorde de Petrushka. Um dó maior sobreposto a um fá sustenido maior na 2ª inversão. Dó e Fá# são acordes separados por um trítono. Sobre o trítono, falo depois. O acorde é tocado, às vezes inteiro, mas sua aparição mais marcante é na forma de um arpejo duplo, altamente dissonante, como aparece nos clarinetes aos 10min (isso mesmo, essa subidinha que eles fazem bem fraquinho virou quase que uma escola). Acho os três balés fantásticos, têm tantos elementos que a gente pode ouvir a vida inteira, que não cansa. Gravação recomendada: Orquestra do Teatro Mariinsky (Mariinsky Orchestra), regente: Valery Gergiev Alexander Scriabin (1872-1915) - O Poema do Êxtase (1908) Se Stravinsky tinha o Acorde de Petrushka pra chamar de seu, Alexander Scriabin tinha um também. E ainda mais existencial: o Acorde Místico. Esse acorde é baseado na escala hexatônica, em que nenhuma nota é mais importante que outra. O resultado são várias páginas de suspensão, uma coisa que soa realmente mística. Na partitura do Poema do Êxtase, o próprio Scriabin escreveu versos e mais versos sobre um espírito que vai ganhando consciência aos poucos e se tornando vida. Ele era adepto da Teosofia, uma mistura de religião com filosofia. E era aparentemente uma figura proeminente dessa corrente, ao menos na época em que escreveu o Poema do Êxtase. É uma música que, como Debussy, soa vaga, distante. Mas absolutamente encantadora. Gravação recomendada: Orquestra Sinfônica de Chicago (Chicago Symphony), regente: Neeme Järvi Richard Wagner (1813-1883) - Tristão e Isolda - Prelúdio e Morte de Amor (1859) (Trechos de ópera) Na hora de descrever o amor ideal, impossível, romântico ao extremo, nenhum compositor faz como Richard Wagner. Não há música mais apaixonada. Mas não é paixão serena, tranquila. É o amor com barreiras. O que Shakespeare fez na literatura, Wagner fez na ópera. Tristão e Isolda é baseada em um romance do século XII de Gottfried von Strasbourgh, chamado Tristan. As óperas sempre têm aberturas ou prelúdios que não são cantados, são só orquestrais. E nesses prelúdios temos um resumo musical da ópera, ou, ao menos, daquele ato (Tristão e Isolda tem 3 atos). Muitos discos pegam apenas esses trechos sinfônicos e fazem uma compilação. É desses CDs que eu gosto. Se bem que acho que, no dia em que tiver paciência para ouvir uma ópera, vou gostar das de Mozart e das de Wagner. Essa ópera é considerada um marco, porque ela, embora ainda esteja longe de ser atonal, tem o famoso "Acorde de Tristão" (52s), um acorde meio diminuto que não se resolve, como deveria. Ou seja, em vez de gerar tensão e ser seguido de um acorde de relaxamento, ele gera a tensão, mas nunca relaxa. Isso foi considerado o limiar entre o tonalismo e o atonalismo, a esticada na corda que a deixou prestes a arrebentar. Mas, independente dessa parte teórica, é uma música extremamente linda. Wagner extraiu esses trechos especificamente para ser tocados em concerto, e datam de antes da ópera ter sua premiére. Existem duas versões para o Morte de Amor (11m55s) (com soprano e apenas orquestral - vou indicar uma versão de cada). Gravações recomendadas: Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony Orchestra), regente: Colin Davis, soprano: Jessye Norman - Orquestra Philharmonia (Philharmonia Orchestra), regente: Otto Klemperer Emmanuel Chabrier (1841-1894) - España (1883) (Rapsódia para Orquestra) "Claramente a peça mais bem orquestrada no mundo inteiro", disse o regente Thomas Beecham antes de executá-la em um bis. España é uma peça pequena, a mais conhecida de Emmanuel Chabrier. Foi escrita numa viagem do compositor à Espanha, e é cheia de elementos da música daquele país, como alusões ao ritmo da castanhola, ao toque do violão e às escalas com um tom mais árabe. É uma peça feliz e, de fato, extremamente bem orquestrada, empregando percussões em profusão. Gravação recomendada: Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony), regente: Ataúlfo Argenta César Franck (1822-1890) - Variações Sinfônicas (1885) Obra prima de César Franck, as Variações Sinfônicas mostram seu desconcertante domínio da forma "Tema com Variações". Têm a mesma abordagem de sua sinfonia, que é a forma cíclica, um artifício que pode ser usado para querer que uma obra soe mais complexa do que é, mas que quando bem utilizado, é genial. Gravações recomendadas: Orquestra Filarmônica de Berlim (Berliner Philharmoniker), regente: Herbert von Karajan, piano: Alexis Weissenberg - Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã (Concertgebouworkest), regente: Riccardo Chailly, piano: Jorge Bolet Espero que esta lista te tenha feito descobrir música nova, ou redescobrir música que já estava no seu radar. Como disse, continuarei fazendo essas listas porque gosto muito. As listas são uma forma de organizar o pensamento. Gostou do post? Comente! Leia também Top 10 Sinfonias, vol. 1 Top 10 Sinfonias, vol. 2 Top 10 Concertos para Piano, vol. 1

  • Cantora gospel Amy Grant se prepara para celebrar os 35 anos de "Unguarded".

    Anunciado através das redes sociais da artista em julho , "Unguarded", disco concebido estrategicamente para atrair um público mais secular e torná-la tão pop quanto Madonna e Cyndi Lauper em 1985, vai receber uma edição especial comemorativa para alegria dos fãs. Conforme prometido na publicação, o disco será reeditado pela Capitol Records em vinil duplo incluindo faixas ao vivo e depoimentos de Amy comentando sobre o processo de gravação. O retorno do consumo do vinil, crescente a cada ano no mercado fonográfico, tem propiciado o relançamento de álbuns importantes da história da música internacional recheados de mimos para colecionadores mais ardorosos. No caso de Amy, a reedição de Unguarded, que recebeu um Grammy em 1986 na categoria "Melhor Performance Feminina, Gospel", visa relembrar ao grande público o caminho percorrido por ela para criar um filão que seria mais tarde conhecido por "música contemporânea cristã", isto é, uma sonoridade mais pop/rock, diluindo a pregação bíblica para um diálogo mais cotidiano e simplório da sua geração. A mudança foi considerada radical e inapropriada para a comunidade cristã, que intencionava manter a artista restrita ao seu próprio público e que a ambiguidade das letras só atendia interesses comerciais. Porém, conforme o número de vendas de discos crescia, mais a gravadora sentia que Amy tinha apelo para abrangê-los. A visibilidade veio com Find a way, primeira música a ser lançada para promover o disco. Com solos de guitarra e synths tocados por Robbie Buchanan (que já tinha passagem por álbuns de Sergio Mendes, Dionne Warwick, Chaka Khan e Barbra Streisand), que muito se assemelham ao som de bandas como Duran Duran ou A-ha, entrou fácil para o Top 10 da Billboard e os certificados de ouro e platina vieram na sequência. Passados 30 anos, Unguarded ainda tem frescor, pois abriu portas para que artistas antes dedicados ao gospel ficassem à vontade para trilhar um caminho paralelo com a música secular, servindo de inspiração inclusive para cantoras evangélicas do Brasil que muito versionaram suas músicas para português, a exemplo de Cristina Mel, Aline Barros, Marina de Oliveira e Cristiane Carvalho. Gostou do texto? tem mais do Ivisson aqui também! Ivisson Cardoso ( @meucarovinho): Baiano de Salvador, iniciou suas atividades no ramo da música ainda quando estudante de Letras na UCSAL pelas redes sociais. Trocou residência por São Paulo em 2010 e passou a atuar como DJ na cidade. Já foi capa da revista Starwax Magazine na França e foi convidado pelo programa "Manos e Minas" da TV Cultura a apresentar a sua coleção de LP's no quadro "Discoteca Básica". Recentemente participou da série de TV "Rota do Vinil" em exibição pelo canal Music Box Brasil.

  • Papo de Arara: Entrevista com Leonardo Drummond, da Kuba Áudio

    Leonardo Drummond é um designer e empreendedor carioca que criou, em 2014, a startup Kuba, uma desenvolvedora e fabricante de fones de ouvido de alta performance. O Kuba Disco, seu produto mais importante até agora, foi o primeiro fone, digamos, audiófilo (eu e ele não somos muito fãs dessa palavra), 100% brasileiro. Em 2011 ele criou o blog Mind the Headphone: www.mindtheheadphone.com.br, que, em 2017 se tornou um canal de YouTube: https://www.youtube.com/channel/UC7fN3sq7h2BDFtBrzXWo4Zg. Mais abaixo eu explico algumas coisas sobre o mundo dos fones. Veja a entrevista que ele gentilmente cedeu à gente. Léo, o que define um entusiasta do som hoje? Gosto muito dessa expressão porque me identifico muito mais com ela do que com “audiófilo”. Para mim, é simplesmente uma pessoa que se importa com qualidade de som e a enxerga como algo que pode melhorar sua relação com a música. Quando você percebeu que tinha capacidade de distinguir e avaliar diferentes sonoridades de fones de ouvido? A minha relação com a música veio de berço, porque sempre foi muito incentivada pelo meu pai. E, desde que me conheço por gente, me importo com qualidade de som. Algo que sempre conto é que, quando tinha por volta de 6, 7 anos, ouvia música com um Discman mas pegava o fone da minha mãe, porque era melhor que o meu. Então, sempre liguei para isso e sempre estive em busca de qualidade de som, mesmo que de forma mais leiga. Tudo começou a mudar quando comprei meu primeiro fone mais sofisticado – na época, sempre que viajava comprava fones mais simples, mas nunca ficava satisfeito. Assim, vi que, para conseguir a qualidade que queria, provavelmente teria que fazer investimentos maiores. Então, em meu aniversário de 18 anos, pedi de presente um Shure SE530, e me apaixonei. Não muito tempo depois, acabei adquirindo um outro, o Sennheiser IE8, que tinha uma sonoridade muito diferente. E a grande questão é que, para comprar esses fones, lia reviews incessantemente. E, quando em uma discussão em uma comunidade do antigo Orkut mencionaram esses dois fones que tinha, dei minha opinião – e aí me pediram para fazer um review sobre eles. Este foi meu primeiro review. Uma das maiores máximas da audiofilia é que se você tem um bom fone por um preço X, ao comprar um novo fone de preço 10X você certamente não terá 10X mais performance. Isso, até onde eu entendo, vale para muitas coisas na vida. Mas existe algo que você considera extravagância? Essa é uma pergunta difícil... até porque, a minha definição de onde se cruza a linha do razoável é apenas a minha opinião, e não dá para julgar o que outras pessoas consideram um bom investimento – mesmo se o que elas estiverem buscando for luxo ou status, que são atributos importantes pra várias pessoas. Eu, pessoalmente, não considero comprar fones de mais de 1.000, 1.500 dólares (existem modelos muito mais caros) – mas sei que, pra muita gente, isso já seria considerado uma enorme extravagância. O fator psicológico tem muita influência na percepção de um som? Ou seja, posso gostar mais de um fone pela circunstância (ou até pelo estado de humor) em que experimento ele? Com toda certeza. Acho que, nesse hobby, as pessoas superestimam demais os sentidos e não percebem a enorme quantidade de fatores envolvidos em nossa percepção sobre alguma experiência sensorial – como a audição de um fone de ouvido. Você já deve ter ouvido que o hobby (audiofilia) é “elitista”. O que responde? Depende do ponto de vista. Acho sim que existe uma “ala” audiófila esnobe, elitista e preconceituosa. E essa ala, infelizmente, não é pequena... Por outro lado, cada vez mais existem equipamentos baratos que oferecem muita qualidade de som. Então, se você sair um pouco da neurose de querer sempre o melhor e mais novo, e focar mais no que está faltando do que naquilo que você tem, vai ver que nunca houve momento melhor para gostar de áudio. Você já me falou que gosta de música clássica, como Scriabin, Tchaikovsky. Isso é um outro tipo de interesse, não necessariamente relacionado ao mundo da apreciação de fones e equipamentos de som. Como você desenvolveu esse interesse? Tem alguma formação musical? Meu pai sempre gostou de música, mas não tem formação. E ele é especialmente apaixonado por música erudita. Então fui apresentado ao “estilo” ainda criança, mas nunca tinha sido algo que me encantasse. Mas, quando fui fazer o ensino médio na Inglaterra, uma das matérias que tinha era música (eu já tocava baixo, mas ali eram aulas sobre história da música e teoria musical), e um dia ouvi a 9ª Sinfonia do Dvořák, e fiquei maravilhado. Mas essa acabou sendo apenas uma porta de entrada – depois, conheci melhor Sibelius, Tchaikovsky, Scriabin e outros, e foi aí que me apaixonei de verdade. Eu fico muito curioso com relação ao fone Sennheiser HE-1, que custa o mesmo que um apartamento. Você pode descrever o que ouviu? É uma experiência sublime, muito difícil de explicar. É como se você enxergasse tudo... como se tudo fosse palpável e verdadeiro. Orgânico e realista. Nesse mesmo dia, havia um Sennheiser HD800S para audição também. Ao lado do HE-1, parecia um fone de brinquedo. Fale um pouco sobre sua marca de fones, a Kuba? Sobre o Disco, o Mali e o Pro. A Kuba é minha startup – uma marca que criei, junto a 3 outros sócios (hoje só eu e mais uma), porque acreditamos que é possível criar produtos diferentes. O mercado de fones no Brasil nos parece muito comoditizado – com marcas que não estão tão interessadas assim no mercado brasileiro. Os produtos sofrem de obsolescência programada, não têm peças de reposição, a assistência técnica é difícil, a experiência de compra não é das melhores... Queremos fazer diferente. Então, com o Disco, queremos trazer um design diferente de tudo o que existe no mercado nacional; qualidade de som de fones muito mais caros; e todas as peças substituíveis. Já com o Mali, o objetivo é entregar a experiência sonora que consagrou o Disco em um pacote muito conveniente – também a um preço inferior ao dos concorrentes. Já a linha Kuba Pro vem da nossa vontade de entrar no mercado profissional, entregando produtos de altíssimo desempenho, para uso em palco, com toda a segurança de comprar de uma empresa nacional, com suporte técnico fácil e acessível. E projetos futuros para a Kuba? Temos muitas ideias – algumas delas são novas variações do Kuba Disco, como versões bluetooth, Pro e gamer, um headphone de entrada, mais barato e, em algum momento, um headphone aberto também. Vocês empregam quantas pessoas? Quantas trabalham diretamente na construção dos fones? Hoje, somos 8 pessoas, incluindo eu e minha sócia, Eduarda. Oficialmente, duas pessoas são responsáveis pela montagem – porém, em épocas com muitos pedidos, todos nós acabamos participando da montagem, exceto pela Isabela e a Livia, que trabalham no atendimento, em home-office. Seu canal no YouTube, o Mind the Headphone, surgido a partir do seu blog homônimo, é muito apreciado (lembro que a primeira coisa que comentei foi sobre o seu português ser muito bom!). Há uma equipe ali? Ou é só você? Obrigado, Rafael! Por enquanto, sou apenas eu mesmo. Mas adoraria contratar um editor de vídeos. Posso te pedir um top 10 dos fones que já ouviu? Difícil... vou dizer os que me vêm à cabeça, mas alguns deles não é tanto pelo desempenho final, e sim pelo conjunto – e aí o preço também conta: - Sennheiser HE-1 - Sennheier HE-90 - Stax SR-007 - Sennheiser HD600 - ZMF Verité - Grado HP1000 - Grado RS1i - AudioDream AD8 - Hifiman Edition X V2 - Sennheiser HD800 A Arara agradece muitíssimo ao Léo pela entrevista. Eu posso dizer que sou dono de um Kuba Disco e que, basicamente, só o tiro da cabeça para o banho. Sonoridade espetacular, graves limpos e com impacto, sonoridade bem linear. Agora, o que eu não sei, e que o Léo sabe, é descrever um fone em 30 parágrafos. Se soubesse, o Disco teria só elogios. Mas a Arara vai explicar alguns pontos. Os tipos de fone mais comuns: - Headphones Abertos - geralmente têm maior fidelidade ao som gravado, por isso, são muito usados por engenheiros de som para mixar e masterizar. A desvantagem dos fones abertos é que eles vazam muito som, ou seja, tanto você vai ouvir muito do ambiente, quanto a pessoa que está ao seu lado vai ouvir sua música; - Headphones Fechados - existe uma barreira física que não permite que o som que você ouve saia pela parte de trás das conchas. Geralmente agradam mais ao público sem muito treinamento no ouvido, pois os graves costumam ser bem definidos; - Headphones Semi-abertos - fica entre os dois aí de cima, tendo parte das vantagens de cada um e parte das desvantagens; - Headphones Bluetooth com Noise Cancelling - eles, obviamente, não têm fios, o que, de certa forma, lhes dá uma desvantagem: o som carregado pelo bluetooth ainda não tem a qualidade de um bom fone cabeado. A tecnologia Noise Cancelling, ou Cancelamento de Ruído, capta o som ao seu redor e envia uma série de frequências de resposta que, literalmente, anulam o som exterior. Você pode estar num avião: só vai ouvir um leve ruído de fundo, e só quando a música pausar. A desvantagem é que quando a sua esposa (experiência pessoal, snif, snif) quer falar com você, nem adianta gritar. Eu fico olhando pra ela de vez em quando pra saber, mas ela só resolve falar comigo naquele momento preciso em que eu fecho os olhos. - In-ears - são os intra-auriculares, aqueles que vêm com o celular. Vão desde um som porcaria até algumas das sonoridades mais refinadas e fieis do mercado; - True wireless - são intra-auriculares que operam por bluetooth. Como aqueles AirPods. Eu tive quando a tecnologia ainda estava no começo, então, não sou bom pra avaliar. - Além isso, os headphones, que são os que ficam sobre as orelhas, empregam diferentes tecnologias: tem os dinâmicos, os eletrostáticos, os planar-magnéticos etc. Os dinâmicos formam a maioria. Fatos: - Alguns dos melhores fones são abertos. Sennheiser HD 600, Hifiman HE-560, Beyerdynamic DT 990 e os utópicos Sennheiser HE-1, Focal Utopia e Meze Empyrean. - Alguns fechados excepcionais: Kuba Disco, Sennheiser HD 569, Sennheiser HD 820, Byerdynamic DT 770. - A engenharia necessária para se fazer um fone é muito precisa. Além do que, o engenheiro tem que fazer diversas escolhas. Por exemplo, graves muito fortes podem ser interessantes, mas geralmente vão inundar os médios, isto é, tirar a clareza deles. Achar a medida ideal das coisas é difícil. - Existem fones "quentes", isto é, geralmente mais agradáveis de ouvir, com um pouquinho de cremosidade nas frequências certas; e existem os "analíticos", que mostram o som mais fiel possível ao que foi gravado. Os "audiófilos" preferem os últimos, pela pureza. O público em geral prefere os mais quentes, que, inclusive, redimem gravações ruins. - Há uma espécie de Terraplanismo no mundo dos fones de ouvido. A crença no burn in. Que é expor o fone a 200-300 horas de ruído rosa (um barulho que contém todas as frequências audíveis, semelhante à estática de TV) para, digamos, amaciar e revelar o som final dele. Alguns audiófilos mais puristas creem 100% nisso. Mas a maioria diz que é balela. Até a ciência diz que isso é mito. A minha tendência é não acreditar, mas eu posso jurar que o meu Kuba Disco alternava entre soar bem e mal até a segunda semana, ou seja, depois de um pouco "gasto". Confira o canal do Léo. Gostou do post? Então vai gostar da entrevista com Verônica Oliveira. E também desse top 10 sinfonias imprescindíveis (para a vida) e desse sobre os 10 melhores faixas de rock dos anos 2010.

  • Riga, a cidade mística

    Uma história curiosa sobre vozes (e um típico texto de blog): um dia, muito tempo atrás, eu estava jantando e o nome “Riga” me veio à cabeça. Eu nunca tinha pronunciado esse nome, não sabia sequer onde o tinha escutado. Mas de algum modo sabia que era uma cidade e que era linda. Pois foi na Wikipedia que eu descobri que Riga era a capital de um país báltico: a Letônia. Fiquei obcecado por ela, vi fotos da cidade, desejei conhecê-la como nunca havia desejado conhecer uma (e ainda desejo, os bons ventos não me carregaram pra lá até agora). Algum tempo se passou. Estava eu na Desafinado (uma loja de discos) quando vi o CD do violinista Gidon Kremer. O disco se chamava “From My Home: Music From the Baltic Countries” e a capa era uma bicicleta em uma praia báltica. A praia era desolada e, com a bicicleta, triste. Como tristeza é comigo mesmo, comprei o disco, num ato de bravura não inédito (era caríssimo). Desde então “Báltico” pra mim é uma palavra mágica. Pois bem, nesse disco, uma das obras que mais me chamaram a atenção foi “Fratres” de um sujeito estoniano chamado Arvo Pärt. Tempos depois. Eu estava em São Paulo e no auge do meu entusiasmo por Riga. Como passava o dia fazendo coisa nenhuma, ficava no computador baixando música no Lime Wire (antigamente baixava-se música assim). Foi quando a mesma vozinha (de voz, não de vó!) que me fez comprar o disco anos antes e que me sussurrou o nome “Riga” em um jantar começou a murmurar “Arvo Pärt”... No Lime Wire descobri dezenas de obras do cara. Ele segue uma corrente que alguns chamam de “minimalismo sacro”, com referências profundamente religiosas. Trata-se de uma obra altamente acessível, fácil de gostar, mas isso não a torna banal, há uma profundidade ali com que os outros minimalistas nem sonham. Esse disco está no Spotify. A primeira faixa, é uma desolada "Elegia" de Dvarionas. Muito bonita, pra ficar só nos méritos estéticos. A segunda é "Fratres", música mais comumente gravada em sua versão para violino e piano, mas aqui, violino e orquestra. Aliás, você jura que vai ser um monólogo do violino até que entra a orquestra, com muito charme. Depois temos, sim, uma "Partita para Violino Solo", de Barkauskas. O disco gravita entre duas obras: "Fratres" e a belíssima "Nevertheless", de Pelēcis. Tudo é muito sombrio e soturno, dando um clima mágico ao CD. A maravilhosa "Conversio", de Tüür encerra o disco. Hoje, no maravilhoso ano de 2020 (cof, cof), continuo fascinado por aquele mar, aquela bicicleta e aquela música. É dos países bálticos um dos meus regentes favoritos, Mariss Jansons (falecido em 2019). Além do clã de maestros Järvi. Não sei de ligações místicas. Só sei de uma coisa: eu ainda irei a Riga. Em sentido horário: o violinista Gidon Kremer, o regente Paavo Järvi, o regente Mariss Jansons e o compositor Arvo Pärt.

  • A redescoberta da cozinha

    Colaboração: Marise Rocha Lima Thé Nós seres humanos somos muito diferentes uns dos outros. Mas é importante a gente pensar que, apesar de todas as diferenças que temos, carregamos ainda mais coisas em comum do que pensamos. Inclusive com outros seres vivos, como por exemplo o fato de que precisamos nos alimentar. É algo fisiológico. Agora, como preparamos esse alimento, aí vêm uma série de questões culturais que envolvem, sobretudo, o lugar e a época em que estamos. Atualmente, com o isolamento social (que também é algo totalmente relacionado com o nosso lugar e a nossa época) ao qual estamos submetidos, aparentemente muita gente descobriu e redescobriu a culinária. Cozinhar é algo que nos beneficia de inúmeras formas, afeando tanto nossa saúde mental, como física. De acordo com uma pesquisa feita pela consultoria em alimentação fora do lar Galunion, em parceria com o Instituto Qualibest (e que pode ser consultada nesta matéria aqui), mais de 90% dos brasileiros estão cozinhando suas próprias refeiçõs durante o isolamento social decorrente da pandemia de Covid-19. Ainda também de acordo com outra pesquisa realizada em 13 cidades brasileiras e comentada pela famosa escritora e apresentadora de culinária Rita Lobo (que pode ser conferida neste outro link ), 61% dos entrevistados aprendeu a cozinhar (ou aperfeiçoou suas técnicas culinárias) durante o período. Ainda de acordo com a pesquisa, cerca de 90% dos entrevistados pretende continuar fazendo refeições em casa. Do ponto de vista psicológico, cozinhar enquanto se está trancafiado em casa é uma forma de matar o tempo, aprender, experimentar e ainda ser produtivo sem perceber que está sendo produtivo, ou seja: é um ótimo hobby. Aliás, esse foi um dos pontos comentados por Rita, porque cozinhar exige concentração, afinal estamos lidando com fogo e objetos cortantes. Então você acaba esquecendo um pouco do caos provocado pela pandemia dentro do microcosmos da cozinha. Em termos de saúde física, o ato de cozinhar promove um distanciamento dos alimentos prontos ou semi-prontos, enlatados e ultra-processados e faz com que a gente, naturalmente, desenvolva uma atenção maior ao que estamos colocando dentro de nosso corpo. É claro que ela também pode ser estressante, sobretudo quando temos que cozinhar para outras pessoas (que muitas vezes têm gostos diferentes dos nossos, como as crianças) e quando não dispomos de oportunidade de planejamento de nosso tempo de atividade na cozinha. Então, alguns fatores podem ajudar se levados em consideração e que podem ajudar a cozinhar tanto para si como para uma família: 1. Ordem: A gente acha que não pode ter tempo de planejamento. Mas tem. Justamente porque quando planejamos, aparece tempo pra um monte de coisa. Então, planejar na cozinha pode ser pensar antecipadamente um cardápio pra semana, que seja funcional (alimente), gostoso e prático. Por exemplo, designar o dia de cozinhar as bases da semana toda, como o arroz e o feijão; planejar antecipadamente quais serão as proteínas e já as deixar temperadas. Folhas, verduras e legumes já devidamente lavados. Deste modo deixamos para preparar no dia por completo somente as saladas, as folhas, e etc. 2. Utensílios corretos: Outra coisa importante também é ter os utensílios corretos, por exemplo: boas panelas e do tamanho adequado, depósitos de armazenamento com boa vedação, além de geladeira e freezer condizentes com o tamanho da casa. 3. Entender as bases da cozinha: Conhecer os alimentos importanes (pra isso, é legal consultar o Guia Alimentar para a População Brasileira que, aliás, está sob ataque); saber como cozinhar grãos e proteínas (e para quem não sabe ou não conhece o guia, não se preocupe porque a gente vai falar detalhadamente sobre ele em breve aqui nessa mesma coluna. Mas enquanto isso, você pode baixar aqui). 4. Entender os gostos da familia, mas procurar um denominador comum, ou seja, desencucar de querer fazer a comida que cada um gosta. Seria conscientizar as pessoas ao seu redor de como é importante conciliar o momento da refeição, inclusive, pra passar a comer com variedade. 5. Participação: Por ultimo, talvez, é envolver os membros da familia no preparo das refeições e na manutenção da limpeza da cozinha. E por fim lembramos que dicas são dicas, não regras inflexíveis ou imposições ortodoxas fortes, o essencial é fazer apenas o que conseguir e dar sempre o seu melhor. É tentar tomar consciência do que e como estamos comendo, valorizar o esforço necesário para que o alimento chegue ao nosso prato e sermos dignos dele, comendo sem avidez e, claro, aproveitando ao máximo os momentos ao redor da mesa como fonte de bem-estar e felicidade, porque como diria o grande poeta Odair José em sua emblemática canção A Noite mais Linda do Mundo: a "Felicidade não existe. O que existe na vida são momentos felizes", boa alimentação! Kerla Alencar Puro charme. Padeira, jornalista, cozinheira e mulher. Seu maior sonho é a paz mundial, mas só depois de matar os fascistas de raiva. Nílbio Thé Editor do site.

  • CARMEN MIRANDA E SUA CARREIRA NO BRASIL

    Há 65 anos o Brasil chorava a morte de Carmen Miranda. Morando nos Estados Unidos desde 1939, a artista havia sofrido um fulminante ataque cardíaco na madrugada de 05 de agosto de 1955, em sua casa na Califórnia. Muitas homenagens foram feitas à nossa Pequena Notável desde então, tendo ela continuado a influenciar a moda e a cultura mundial com sua imagem icônica de baiana estilizada. Mas o que muitas pessoas desconhecem, mundo afora e até no Brasil, é a fase artística de Carmen Miranda aqui em nosso país, que durou de 1929 até 1939, quando ela foi a cantora de mais destaque nos meios de comunicação e uma sambista de primeira grandeza. Nascida em Marco de Canaveses, distrito da cidade do Porto, em Portugal, no dia 09 de fevereiro de 1909, veio ao Brasil, com mais ou menos um ano de idade, acompanhada da mãe, Maria Emília, e da irmã mais velha, Olinda. As três vinham encontrar José Maria, esposo de Maria Emília e pai das meninas, que já estava estabelecido em nosso país. Já adolescente, Carmen Miranda passou a trabalhar em lojas de moda e buscar oportunidades no meio artístico, fazendo ponta em um filme por volta de 1926. Mas somente em 1928, ao conhecer o violonista e compositor baiano Josué de Barros, é que sua carreira artística teria início. Josué, vendo o talento da jovem, apostou em sua carreira como cantora, levando-a a se apresentar em 28 de agosto de 1928 em um espetáculo beneficente no Instituto Nacional de Música, em benefício ao Orfanato do Sagrado Coração de Jesus. Meses depois, em 07 de janeiro de 1929, ela voltaria ao Instituto Nacional de Música em um evento em homenagem ao compositor Ernesto Nazareth. Por muito tempo, pensou-se que essa fora a primeira aparição em público de Carmen Miranda como cantora. O ano de 1929 foi bastante promissor para a jovem cantora iniciante. No primeiro semestre, participou de alguns programas em rádios, como a Rádio Educadora do Brasil, Rádio Sociedade e Rádio Mayrink Veiga. No segundo semestre, Josué de Barros levou Carmen para que ela gravasse seu primeiro disco, pela gravadora Brunswick. Carmen Miranda gravou duas músicas de Josué de Barros, "Se o Samba é moda", choro, e "Não Vá Simbora", samba. Como o disco demoraria a ser lançado, o compositor levou sua afilhada artística para um teste em outra gravadora, a Victor. Na Victor, Carmen Miranda foi logo aprovada pelo diretor artístico, o compositor e violonista Rogério Guimarães. Em 04 de dezembro de 1929, ela gravava o segundo disco de sua carreira e o primeiro na nova gravadora, com as músicas de Josué de Barros, "Triste Jandaya", canção toada, e "Dona Balbina", samba. A forma como Carmen interpretava as músicas, coloquial, sem arroubos líricos, inserindo “cacos” ao final dos versos, chamou a atenção da crítica e do público, que gostou bastante dessa nova forma de cantar. Para a crítica especializada em música, a jovem tinha It na voz, ou seja, um carisma, um diferencial, que a tornava especial. Em seu terceiro disco na Victor, Carmen Miranda lançou uma marcha-canção que a tornaria conhecida nacionalmente, sendo uma música lembrada até hoje. Trata-se de "Pra Você Gostar de Mim", do médico e compositor Joubert de Carvalho, que escreveu especialmente para ela. A marcha ficou conhecida como Taí, devido a seus versos: “Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim/ Oh, meu bem não faz assim comigo, não/ Você tem, você tem/ Que me dar seu coração”. Gravada em 27 de janeiro de 1930, às pressas para o carnaval deste ano, a música faria sucesso ao longo dos carnavais seguintes. A partir de então, cantora nacionalmente conhecida, gravando discos com frequência, Carmen Miranda passou a investir em sua carreira, escolhendo as músicas que gravaria, quais compositores interpretaria, assinando contratos com publicidade e, em poucos anos, firmando um contrato de alto valor com a Rádio Mayrink Veiga, como cantora exclusiva. Por volta de 1931, começou a excursionar, indo para uma temporada em Buenos Aires e, em 1932, percorrendo várias cidades do Nordeste brasileiro, em apresentações antológicas em Pernambuco e na Bahia. Antes da metade da década de 1930, Carmen Miranda já era a cantora mais popular do Brasil e a mais bem paga, recebendo salários maiores que de muitos homens em uma época em que às mulheres era reservado o espaço do lar, para cuidar da família. Carmen não escapou do preconceito por ser uma mulher que se exibia publicamente, por ser financeiramente independente e por cantar sambas. Alguns críticos achavam absurdo uma sambista ganhar mais e ter mais projeção do que uma cantora lírica, por exemplo. Porém, Carmen Miranda seguia sua carreira, entre esses rumores, conquistando mais espaço no meio artístico, prestígio, fãs e altos contratos. Sua forma de cantar, tão especial, influenciaria outras garotas que tentavam a sorte no rádio e no disco no começo da década de 1930. Muitas imitavam seu estilo e até sua voz. Algumas tinham carreira efêmera, outras conseguiam encontrar estilo próprio e seguiam em carreiras bem sucedidas. Uma cantora que nunca imitou Carmen Miranda e fez muito sucesso na década de 1930 foi sua irmã Aurora Miranda. Possuidora de uma extensão vocal maior que a de Carmen, com talento e estilo próprios, Aurora foi a segunda cantora que mais gravou discos durante os anos 30 do século XX. A cantora que mais gravou? Carmen Miranda... Em 1935, Carmen deixa a Victor e passa a gravar na Odeon. Surge uma nova fase em sua carreira, na qual ela passaria a contar com novos instrumentistas, músicos e maestros. Seu repertório, graças ao seu talento, continuou com uma qualidade excepcional, tal qual na Victor, tendo ela lançado, igualmente na Odeon, dezenas de clássicos do nosso cancioneiro popular. Carmen Miranda não parava. Atuava em discos, no rádio, fazia shows nas excursões e em cassinos, aparecia em reportagens nas revistas e ainda fazia cinema. Ao todo, Carmen atuou em cinco filmes no Brasil, só chegando aos nossos dias Alô, Alô Carnaval, dirigido por Adhemar Gonzaga, em uma produção de 1936 da Cinédia. Nesse filme, ela canta a marcha "Querido Adão", de Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago, e "Cantores de Rádio", marcha cantada ao lado de sua irmã Aurora Miranda, de autoria de João de Barro, Alberto Ribeiro e Lamartine Babo. Seria em Banana da Terra, de 1939, dirigido por Ruy Costa, que Carmen Miranda novamente daria início a uma nova fase em sua carreira. Nesse filme, pela primeira vez, ela aparecia vestida de baiana. Embora há 50 anos as atrizes já usassem essa fantasia, seria a partir de Carmen Miranda que o mundo conheceria um dos símbolos culturais (mesmo que estereotipado) do Brasil. Com a fantasia de baiana estilizada, Carmen Miranda seguiria para os EUA em 1939, com o Bando da Lua, tendo entrado para a história de nosso país, até então, como sua mais bem sucedida cantora popular. Abaixo, gravações de domínio público extraídas diretamente de discos de cera de 78 rotações do Arquivo Nirez de algumas das canções citadas. MARCELO BONAVIDES DE CASTRO é historiador, pesquisador musical, jornalista e ator. Desde 1988 pesquisa a MPB e a vida das atrizes-cantoras e artistas do teatro musical, rádio e disco no Brasil, durante o período de 1859 a 1940. Autor do blog Arquivo Marcelo Bonavides (marcelobonavides.com).

  • Disco: Bolling - Suíte para Flauta e Jazz Piano Trio - Rampal

    Não sou muito do mundo do jazz (não sei mesmo se sou de algum), mas quando se trata de música com pouco improviso, como a do francês Claude Bolling, especialmente as suas suítes, estou dentro. Ele inventou essa série que são discos com Suítes para instrumento solista e Piano Trio. A ideia deu super certo. Ele sempre chamava um músico erudito: Jean-Pierre Rampal para a flauta; Yo-Yo Ma para o violoncelo; Pinchas Zukerman para o violino; Alexandre Lagoya para o violão. Tinha também uma suíte para Orquestra de Câmara e Piano Trio. A música de Bolling tem um forte: a criatividade. É inventiva, faz com que você pense: como ninguém compôs isso antes? A primeira suíte foi justamente essa para Flauta e Piano Trio. Foi um sucesso absurdo, tanto na Europa, quanto nos Estados Unidos e no Brasil. Não há flautista que nunca tenha tocado. Nós mesmo, os Argonautas, tocávamos algumas. Os movimentos são: Baroque and Blue - a mais conhecida. Evoca música barroca nos seus cânones entre piano e flauta. Sentimentale - a mais bonita e minha favorita. Quando a gente ensaiava, muito tempo atrás, sempre o meu avô vinha até a sala de música só pra dizer que a música era linda. O final é transcendental. Javanaise - é em compasso 5/4 (5 tempos por compasso). Isso é o mais ousado que Bolling vai. Mas é muito charmosa. Fugace - é fugada, ou seja, tem características de fuga, mas não é uma. Irlandaise - outra belíssima. Lenta como a Sentimentale. Versatile - nessa, ele usa a flauta baixo, que Rampal toca divinamente, com aquele sonzão cheio dele. Veloce - o finale da suíte. Tinha que ser uma peça bem empolgante e para cima. Os amantes mais raiz de jazz consideram Bolling uma distração descompromissada. Isso porque sua música é muito tradicional, até antiquada, nunca passando de técnicas dos anos 40. Sendo que ele fez sucesso a partir dos anos 60. Eu sempre achei bobagem essa de ter que ser moderno, avant garde. Alguns dos meus compositores favoritos, como Mozart, Bach, Rachmaninoff e Brahms, nada tinham de revolucionários. Alguns, aliás, eram criticados por serem retrógrados. O fato é que o conteúdo, pelo menos pra mim, não sei pra você, é mais importante que a estética. A música de Stravinsky sempre foi moderna, mas sempre foi boa, também. Hoje ela não é mais moderna e continua sendo boa. Mas sim, Claude Bolling pode ser um tanto superficial. Sua música não tem intenção senão de divertir. Mas escute que beleza!

  • Desenho Coisinhas #2

    Por Lele Reis Lele Reis Meu nome é Lele, eu desenho coisinhas e não tenho interesse suficiente em mim mesma ou no meu trabalho pra dizer qualquer coisa além disso! :-D Curadoria de quadrinhos Nílbio Thé e Isabelle Prado.

  • Ela foi e ele continua. Um ensaio sobre Rubem Valentim e Regina Duarte

    Meses atrás, Regina Duarte assumiu a Secretaria Especial de Cultura (que era um MINISTÉRIO) de forma extremamente rápida, talvez até batendo um recorde de menor tempo de permanência na atual gestão de nosso país. Rápida, breve, fugaz, mas não sem bastante estardalhaço, sobretudo ao conceder entrevista à rede CNN Brasil. E é sobre isso que escrevi e que adapto agora para a nossa Arara Neon. Vamos lá! Do lado da vida tem a morte. Algo assim que a Regina Duarte falou. E ela está certa. Afinal isso é biologia básica. Mas também é a base de muitas coisas além da biologia. Falei disso pros meus filhos, sobre a vida e a morte, quando enterramos nosso cãozinho embaixo de um ipê que eu plantei uns quinze anos atrás. E pra enfatizar a vida que vem da morte, ainda fizemos um jardim em cima da cova do nosso pequeno guardião canino em sua homenagem. Pois é. A Regina está certa nisso. Mas sua precisão parou aí. Não, espera! Ela também está certa ao falar – aparentemente a única coisa útil em termos de política pública para arte, mas ainda assim com muitas ressalvas – que ligou para prefeituras pedindo que ajudassem os circos, parados por causa da pandemia. O circo é a linguagem artística mais acessada pela população brasileira que mora, na maioria das vezes, em cidades sem cinema, teatro ou biblioteca. É o circo o responsável por levar arte, sonho e alegria para a maioria das cidades, muitas vezes inacessíveis. E também para a periferia e, com suas portas fechadas, sem poder realizar espetáculos, não geram receita e seus artistas passam necessidade. Contudo a fala dela – e ressalto que mais importante do que o que se diz é COMO se diz – dá à ação de socorro ao circo um ar de caridade, não de política, ainda mais quando repassa a responsabilidade dessas ações de distribuição de cestas básicas para as prefeituras. Ou seja, até onde existe uma brecha de boa intenção existe o erro (e o inferno, vocês sabem, está cheio de boas intenções). Quando vamos analisar um texto, é necessário estarmos atentos para duas coisas: primeiro é o texto em si, claro, ou seja, é necessário atentar para o que é dito; mas também é de suma importância entender o CONtexto que é justamente tudo aquilo que NÃO é dito, mas que está ao redor do texto e o permeia muitas vezes de forma quase explícita. Tendo dito isso, chamo a atenção para a obra de Rubem Valentim que estava entre Regina e o repórter da CNN no momento da entrevista. A obra, uma gravura, mais especificamente uma serigrafia, sem título, datada de 1989, de autoria de Rubem Valentim, que foi doada ao Ministério da Cultura (atualmente inexistente, como já disse) na época da gestão de Gilberto Gil. Mas quem foi Rubem Valentim? Bom, poderia dizer que ele foi um dos mais importantes artistas brasileiros. Se eu deixar essa frase um pouco mais específica, com alguns adjetivos para a palavra artista, sua importância aumenta ainda mais, de modo que se disser que Valentim foi um dos mais importantes artistas plásticos, ou um dos mais importantes artistas plásticos baianos ou negros, um dos mais importantes artistas construtivistas do século XX... Bom, aí ele vira um gigante da arte. Mas é isso justamente o que ele é: gigante. A serigrafia de Valentim é a rainha do contexto em que se passa a entrevista (o texto) e ela é a vida que brilha e pulsa ao lado da morte, parafraseando a própria Regina em uma das poucas frases corretas que disse, entrecortadas por chiliques, imprecisões e uma miríade de comportamentos alienados, imaturos e estúpidos. Valentim ansiava por criar uma linguagem própria e universal e, para isso, o artista baiano pesquisava sua ancestralidade africana e indígena. Três orixás estão entre suas principais inspirações: Xangô, o orixá da Justiça, cujo machado de duas pontas foi base iconográfica para várias obras de Valentim; Oxóssi, orixá da caça, das matas e dos trabalhadores, que emprestou seu arco muitas vezes para os desenhos de Valentim; e Ossaim, outro orixá das matas, que conhece as curas para todas as doenças a partir das ervas e folhas. Claro, Valentim procurava e pesquisava de tudo, sem preconceitos, mas sua iconografia aponta para a recorrência e elementos desses três. Justiça, trabalho, matas... Três coisas constantemente desrespeitadas no atual governo. Na obra em questão, de 89 aliás, fica mais que evidente tanto referências a Oxóssi quanto a Xangô. Valentim também foi um militante. Não um militante político tradicional, mas um militante estético, o que não deixa também de ter cunho político, sobretudo na época da ditadura militar brasileira. Escreveu “Manifesto ainda que tardio” em 1976 (e qualquer pessoa que escreva qualquer texto com “manifesto” no título nos anos 70 é, no mínimo, corajosa), no qual deixa clara a sua fonte de pesquisa estética baiana e afrocentrada. Regina Duarte é um caso (espero que raro) da junção de três coisas: a incompetência, a falta de conhecimento sobre a área em que atua (ou se dispõe a atuar) e a necessidade doentia de querer ser feliz (e leve) o tempo inteiro para não ser um “obituário”, como ela mesma diz. A junção dessas três coisas que potencializam umas às outras a torna uma figura infantil no pior sentido que o termo pode vir a ter. É preciso falar também do manifesto de Valentim contra a subalternidade. Toda arte é política. Vide o exemplo de Malevich na União Soviética, considerado subversivo. Penso, aproveitando o exemplo, que a arte de Valentim é tão política quanto a de Malevich, ou talvez ainda mais. E por mais que discorde veementemente de que obra e artista são a mesma coisa (claro que existem exceções, da ópera ao videogame – mas isso é assunto para outro momento), toda arte tem uma mensagem sobre o seu tempo para o presente e para o futuro. Às vezes principalmente para o futuro. Ver o chilique de uma mulher que ocupa lugar de destaque no imaginário popular midiático do povo brasileiro me fazia me concentrar cada vez mais, a cada grito, a cada mexida na cadeira, na obra plácida e elegante de Valentim. A obra observava Regina com toda a sabedoria ancestral que os Orixás carregam. Isso aumentava ainda mais o vexame de Regina. Ou seja, a obra de Valentim, exposta ali, pode ser um lembrete do destino, da vida para a morte, avisando que eles passam – os fascistas, os idiotas, os cretinos, passam todos. A sabedoria ancestral fica. Enquanto Regina gritava e se contorcia na cadeira a obra de Valentim, no alto de sua elegância, sussurrava: “Você passa. Nós ficamos, pois nós estamos aqui há muito, muito mais tempo que vocês”. Sim, Valentim fica, Regina, você roda. No caso, Valentim ainda está lá. E Regina rodou, há meses. Estou achando graça porque quando rascunhei esse texto, um dia depois do fato, e o li no meu Instagram em um vídeo, o título do texto era "Ela vai e ele fica". Parece que acertei. Eu só não imaginei que fosse tão rápido! Abaixo um pequeno e modesto mosaico com trabalhos de Valentim só para seu deleite.

  • Interiores, 1º disco dos Argonautas

    A alvorada e o movimento da manhã. A vida desperta sem pressa. As rotineiras e sinceras saudações entre comadres e compadres. O cheiro de café. As festas, as quermesses, as rezas, os santos. As missas. Os ciganos. O céu estrelado. O leve e solitário badalho do chocalho. O canto da coruja. O apagar da lamparina. Nos sonhos, os bons sentimentos de compartilhar, de respeitar e amar leve e imensamente (a vida). ​ Interiores vem de uma sensação que todos parecemos compartilhar: a de que quando as cidades cresceram, quando o progresso veio, alguma coisa se perdeu, uma inocência e uma poesia que quase não existem mais. ​ Esta poesia que existiu no passado nos causa uma nostalgia que não conseguimos explicar, a saudade de algo que muitos de nós nem sequer chegamos a conhecer. ​ Mergulhado nesse sentimento, o disco passeia pelos interiores do Brasil e pelos interiores de todos nós. Angelita Ribeiro e Rafael Torres Queria falar aqui sobre o nosso primeiro disco. Estávamos (os Argonautas) parados há algum tempo quando eu chamei o Bob (Ayrton Pessoa, membro fundador) para dar cabimento a uma ideia que tive. Na época estávamos tocando com Germano Lima (baixo) e Ronaldo Lage (bateria, piano e percussão). A ideia era fazermos um disco e um show com uma temática. Faríamos alusão a saudade, nostalgia, um sentimento de não ter vivido uma época muito especial da história. Cidadezinhas com praças, coreto, auto-falante, crianças, crianças de bicicleta, casarões mal assombrados. Interiores. Interiores do Brasil e de nós mesmos. O show ficou fantástico, com figurino e cenário de Yuri Yamamoto. Participação do quarteto de flautas doces Ad Libitum, coordenado pela minha mãe, Angelita Ribeiro. Quase todas as músicas eram nossas, exceto João e Maria, de Sivuca e Chico Buarque, e Qui Nem Jiló, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. (Parênteses aqui. Quando fui negociar os direitos autorais da editora de Qui Nem Jiló, por e-mail, perguntei: - Mas é Jiló ou Giló? - é que você encontra dos dois jeitos. - Tudo bem o sr. lançar a música, mas não podemos mudar a grafia do nome. - Eu entendi. Só quero saber se é Jiló com J ou Giló com G. - Sr., nós realmente não podemos mudar a grafia do nome. A pessoa realmente fez questão de não entender minha pergunta.) Tinha duas instrumentais do Bob, Arlequim e Quintal; e o resto era com letra. Fiz até duas especialmente para o disco: Interiores e Interiores nº 2 (esta, com letra do Alan Mendonça, nosso velho parceiro). O Alan aparecia ainda nas letras de Cataventos, Déjà Vú, Canção para João de Despedida e O Amor de Margarida Flor. Carolina (Ayrton Pessoa, Rafael Torres e Raphael Haluli) e Alameda (minha) completavam o repertório. Depois vou encomendar um faixa a faixa totalmente imparcial do Nílbio. Ética jornalística. Ele fez esse aqui, do Jangada Azul, nosso segundo disco. Carolina Ayrton Pessoa, Rafael Torres e Raphael Haluli ​ Carolina vem cantar Comigo essa canção Olha que o sol já raio Já raiou a ilusão De uma história de amor Me diz se o beija-flor Te contou do meu sofrer E te disse que a paixão É maior que o bem querer ​ Teu perfume, Carolina, Tem um cheiro de saudade Tua boca de menina me diz Já passou o carnaval Mas os teus olhos Não mentem pra mim Prometem noites e Noites e noites e noites Sem fim Rafael Torres - arranjo, flauta e voz Ayrton Pessoa - violão e voz Leonardo Torres - piano e voz Sergio Araújo - oboé e clarinete Francisco Sousa - fagote Germano Lima - baixo Ronaldo Lage - percussão Gostou do post? Comente e saiba mais sobre os Argonautas nesse post.

  • Um disco que você precisa conhecer (Rachmaninoff - Concertos 1 e 2 - OS Boston, Ozawa, Zimerman)

    Rachmaninoff - Concertos para Piano Nos. 1 e 2 - Sinfônica de Boston, Ozawa, Zimerman. O pianista polonês Krystian Zimerman, um dos gigantes do teclado, até 1999 não tinha gravado concertos de Sergei Rachmaninoff. Mas quando o fez, os registros entraram para a história: um deles, o Segundo Concerto, é o concerto para piano mais popular de todos os tempos, e é a versão de Zimerman e Ozawa que é considerada a melhor dentre as modernas (no passado temos as 2 gravações de Rachmaninoff com Leopold Stokowski e a Orquestra de Filadélfia). Mas vamos pelo começo. O primeiro concerto, obra da juventude de Rachmaninoff, foi escrito para a sua formatura no conservatório, e teve relativo sucesso. Aliás, até hoje seu sucesso é relativo. Não sei por quê! É uma obra de grande envergadura, que explora as possibilidades do piano até mais do que, por exemplo, o Concerto em Lá Menor de Grieg (no qual é baseado), os dois temas do primeiro movimento são arrojados (observe a beleza do primeiro tema, aos 34s, e o contraste com o segundo, em 2m38s), revelando o grande melodista que era Sergei; tem uma cadência (9m20s) (a parte em que o piano se "exibe", a orquestra até para de tocar) empolgante (e extremamente bem construída); o segundo movimento (12m17s) é de uma beleza impecável; e o terceiro (18m57s), um digno finale. Esse concerto foi inspirado no de Grieg. Quando estudamos composição, muitas vezes o professor pede que façamos uma peça nos moldes de uma existente. Dá pra notar as linhas gerais do norueguês nos três movimentos do do russo. Mas Rachmaninoff o supera em quase todos os níveis. O Segundo Concerto é a peça mais popular do repertório para piano solista com orquestra. E, possivelmente, a mais gravada. Pianistas como Arthur Rubinstein, Sviatoslav Richter, Géza Anda, Evgeny Kissin, Byron Janis, John Ogdon, Yuja Wang, Lang Lang, Vladimir Ashkenazy, Daniil Trifonov, o próprio Rachmaninoff (Horowitz acredito que não tenha gravado, por alguma razão) e muitos outros, fizeram, às vezes, mais de um registro. Até a música pop (All By Myself) aproveitou linhas deste concerto. Foi até protagonista de um episódio de um seriado! Começa com uma referência recorrente na obra de Rachmaninoff: a sinos. Apenas no piano, como uma introdução. Logo entra a orquestra com o primeiro tema (43s). O segundo tema é dado ao piano (2m30s), uma melodia linda. Não tenho como descrever como essa música é impactante. Não à toa é o concerto mais executado. O segundo movimento, um belíssimo adagio, começa em 11m48s e tem belos duetos do piano com a flauta (12m35s) e com o clarinete (12m55s). O terceiro movimento (24m) é o mais popular, devido ao seu exótico tema principal, típico de Rachmaninoff, ouvido nas cordas aos 25m50s, logo seguido pelo piano; depois novamente aos 30m19s; e, finalmente no triunfante final, aos 34m08s. Zimerman se junta ao regente japonês Seiji Ozawa e à então sua, orquestra Sinfônica de Boston para criar uma gravação que tem vigor, frescor, juventude, carisma, potência, romantismo, agilidade e, ao mesmo tempo, peso. É um resultado impressionante. O mundo das gravações de grandes obras não é uma competição pra ver quem toca melhor, mais rápido ou com mais sentimento. Mas, vez por outra, uma gravação se supera e supera claramente todas as outras. Gostou do post? Comente! E leia mais sobre esse concerto aqui.

  • Das kino na arara: Por que Enola Holmes é um filme fundamental para garotas?

    Na minha infância e adolescência, faltava-me, no geral, referências cinematográficas com representações femininas que fugiam da estereotipação. Preciso ser justa com alguns bons exemplos que marcaram toda minha geração, como o filme Matilda, ou a personagem Hermione, do universo de Harry Potter. Felizmente, essa realidade vem se alterando. Enola Holmes, que entrou recentemente para o catálogo da Netflix, é um caso análogo. O ano é 1884, e Enola tem a missão de encontrar sua mãe, fugir dos seus irmãos (que insistem em transformá-la em uma dama), e viver sua vida à sua maneira. Certa altura do filme, a própria mãe da personagem lhe diz: “Existem dois caminhos que você pode seguir. O seu ou o caminho que os outros escolheram para você”. Nem é preciso dizer qual caminho Enola escolheu. Criada por sua mãe para ser independente, ela rejeita qualquer tentativa de condicionamento do seu espírito ao ambiente doméstico. Ela é sedenta por aventuras. O que esperar, afinal, de uma jovem que sabe atirar com arco e flecha, lutar jiu-jitsu, jogar tênis, subir em árvores, que já leu toda uma biblioteca e tem sensibilidade artística? Ainda que seja irmã mais nova do famoso detetive Sherlock Holmes, por quem sente admiração, Enola percebe, entretanto, que não pode contar com ele para muita coisa. Baseado na primeira de seis obras literárias da série Os Mistérios de Enola Holmes de Nancy Springer, a obra audiovisual ganha fôlego pela espontânea e divertida atuação de Millie Bobby Brown (a Eleven, de Stranger Things), que esbanja talento em cada cena. A chance de o filme virar uma franquia é altíssima. A recepção tem sido positiva, e a crítica especializada tem elogiado. Penso que a obra não tem grandes deslizes: ainda que seja um pouco longa e o peso dado à narração em primeira pessoa seja demasiado, é divertida, leve, tem um ótimo ritmo, foi pensada para ser assistida em família, e cumpre bem com a função de engajar o seu público. Sabemos como representação importa, como procurei exemplificar no início da coluna. Enola Holmes, além de apresentar, indiretamente, questões referentes ao movimento pelo sufrágio feminino na Inglaterra, fala de amadurecimento e autodescoberta, de ligações familiares e do risco que se corre em querer mudar o mundo. Recomendo, especialmente, para as meninas e adolescentes. Jéssica Frazão é produtora audiovisual e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). É integrante do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema (Elviras) e colunista cinematográfica no jornal O Município Blumenau, com "Das Kino - Um olhar crítico sobre o cinema"

  • abajur #01

    Quadrinhos autorais por Brida. Brida ''Abajur'': Vive e trabalha em Brasília. Procura observar o trânsito embolado dos pensamentos e explorar tragicomédias diárias através de tirinhas, animações, pintura e escultura. Curadoria de quadrinhos Nílbio Thé e Isabelle Prado.

  • Graphic Novel noir queimada no papel

    Eventualmente no mundo das artes surgem obras que revolucionam a linguagem. Seja por criarem novos paradigmas, novas técnicas, destruindo ou ressignificando as antigas, ou por explorarem ao máximo todas as possibilidades daquela linguagem. Nos quadrinhos, exemplos não faltam, mas, para ficar em apenas dois, cito: Asterius Pollyp, de Dave Mazzucheli, em que tudo é usado como instrumento narrativo, desde o formato dos balões até as cores das fontes das falas de cada personagem; e os quadrinhos jornalísticos criados por Joe Sacco. Pois bem, Cidade de Sangue também entra nesta categoria, o que só confirma o nível de qualidade que os artistas independentes têm conseguido ultimamente. Financiado através de edital do Fundo de Arte e Cultura de Goiás, da Secretaria de Educação, Cultura e Esporte, e editado numa luxuosa brochura com sobrecapa e marcador de tecido pela MMarte editora, temos uma obra que se distancia dos estereótipos normalmente vistos em trabalhos realizados com dinheiro estatal: uma história policial, noir e violenta. Logo no prólogo somos transportados para 1995, em Goiânia. O assassinato brutal de uma família. Cerca de vinte anos depois, a cidade parece um balneário de sangue e é isto que dá sustento ao jornalista policial Carlão, cujo editor Palhares (um sobrenome clássico para uma história dessas!) tem prazer em extrair manchetes do sangue e da violência da cidade. Carlão não aguenta mais uma rotina de tragédia, morte e violência, inclusive isso começa a atrapalhar seu próprio casamento. Tudo começa a mudar com a chegada de Paulinha, repórter fotográfica que acaba de voltar de uma temporada de estudos na Europa para trabalhar no jornal, justamente na editoria de polícia. Argumento da animadora Márcia Deretti que foi transformado em roteiro por seu esposo, Márcio da Paixão Júnior, e ilustrado por ninguém menos que Júlio Shimamoto. A história de estrutura noir tem um tratamento neoexpressionista com os desenhos feitos com uma técnica criada por Shimamoto, que utiliza uma caneta de madeira cuja ponta é feita de resistência elétrica e desenha sobre papel térmico (do mesmo tipo que se usava nas antigas impressoras de fax). O resultado dessa junção de uma história tão naturalista e noir é um trabalho de um preciosismo que pode ser comparado somente com a revolução que Rubem Fonseca fez na literatura policial brasileira. Os quadrinhos brasileiros acabam de sofrer uma pequena revolução numa história cheia de reviravoltas e de visual magnífico. Agora é torcer por uma distribuição boa (outro grande gargalo dos artistas independentes de todas as linguagens) para todo o país. O livro foi publicado pela editora MMarte, contudo encontra-se esgotado. Publico essa resenha aqui como forma de pressão para que ele volte a ser editado. Esperança em tempos como esses é luxo, mas ao mesmo tempo não custa nada!

  • O movimento HIP

    As chamadas "Performances Historicamente Informadas" (HIP, em inglês) viraram uma realidade no mundo nos anos 60. Nunca houve consenso sobre como denominá-las. Performances autênticas, gravações de época... Por fim, surgiu o nome "Historicamente Informado". Esse é problemático, e você vai saber por quê. Mas, primeiro, o que é isso, certo? É um tipo de abordagem na interpretação de música mais antiga que busca se parecer mais com o jeito de tocar da época em questão. Sabe-se que a orquestra sinfônica moderna é muito diferente daquela do período barroco (séculos XVII-XVIII), do clássico (século XVIII) e até mesmo do romântico (século XIX). A partir de Beethoven, os compositores começaram a pedir mais instrumentos: 4 clarinetes, 4 flautas, flautim, contrafagote, clarone, tuba, percussões. E pra acompanhar isso tudo, as cordas foram ficando mais numerosas. Hoje, a orquestra "base" tem 16 primeiros violinos, 14 segundos violinos, 12 violas, 10 violoncelos, 8 contrabaixos, 4 flautas (uma podendo ser flautim, ou piccolo), 3 oboés, um corne inglês, 4 clarinetes (um podendo ser clarone ou um clarinete em mi bemol), 4 fagotes (podendo um ser contrafagote), 4 trompas, 4 trompetes, 4 trombones, tuba, tímpanos e percussão. Isso tudo foi se desenvolvendo num fluxo natural (nos anos 50, tocava-se uma obra barroca, originalmente composta para uma orquestra de 20 músicos, com 60 instrumentistas, que, por sua vez, tocavam em instrumentos modernos muito diferentes dos barrocos), e ninguém se preocupava com o fato de uma orquestra em 1950 soar, especialmente ao tocar música barroca, totalmente diferente do que os compositores imaginaram. Quer dizer, nos anos 60, algumas pessoas começaram a ter essa percepção. Foram atrás de tratados sobre como se tocava violino na época (por exemplo, no barroco) e viram que era muito diferente: segurava-se o arco menos na ponta, vibrava-se menos e, sobre cada frase, ou até cada nota, faziam um desenho em forma de arco. A nota começava fraca, aumentava, diminuía e morria fraca de novo. Por falar em nota, uma curiosidade: até cerca de 1850 os instrumentos soavam mais graves que os de hoje. Um dó deles, por exemplo, para nós soaria hoje como um si. E talvez, dependendo da região da Europa, ainda mais grave. Isso porque o sistema de afinação por frequência ainda não estava bem estabelecido. O diapasão, que pra nós toca a nota lá, antigamente podia tocar um lá bemol ou até um sol bemol. E nas HIP eles mantiveram essa tradição, até porque os instrumentos de madeira (sopros: flauta, oboé, fagote), sendo fisicamente projetados para ser mais graves, não tem o que mexer pra eles ficarem mais agudos. As cordas podem ser afinadas, mas os sopros não - até podem, mas só um pouco. Então começaram a surgir conjuntos que tocavam com base em estudos não só da sonoridade, como da dialética barroca. Ao empregar flautas, por exemplo, tinham instrumentos da época, ainda de madeira, ou instrumentos novos feitos com a arquitetura exata dos de então. O mesmo com os oboés. O violoncelo não tinha o espigão para apoiar no chão. Em vez disso, repousava graciosamente entre as pernas do instrumentista. Conjuntos inteiros tinham, às vezes, 8 membros. O maestro regia sentado ao cravo (instrumento que então voltou a ser protagonista, tendo sumido com a invenção do mais sofisticado piano). Podemos voltar ainda mais. Um grupo como o Early Music Consort, da Inglaterra, 1967, tocava música profana medieval. Isso mesmo. Eles têm fantásticos discos, como "Os Triunfos de Maximiliano", "Música das Cruzadas", "Música da Era Gótica", "Instrumentos da Idade Média e da Renascença". O grupo acabou em 1976, com a morte do seu fundador David Munrow, mas o outro fundador, Christopher Hogwood, criou uma orquestra destinada a tocar música barroca, clássica e protorromântica, chamada Academy of Ancient Music. Gravaram as sinfonias e concertos de Mozart, os de Beethoven, além de música de Haydn, Purcell e muitos outros. Mas talvez o grande nome desse movimento seja o maestro alemão Nikolaus Harnoncourt, fundador da orquestra Concentus Musicus de Viena. Ele tem, não só uma enorme discografia, como alguns livros tidos como importantíssimos. Os dois mais famosos são "O Discurso dos Sons" e "O Diálogo Musical", interessantes até pra quem não é músico. Outros regentes e conjuntos que podemos destacar: John Eliot Gardiner, fundador do Monteverdi Choir, da Orchestre Révolucionnaire et Romantique e do English Baroque Soloists; Roger Norrington, do London Classical Players; Jos van Immerseel, do Anima Eterna; e Reinhard Goebel, do Musica Antiqua Köln. O movimento segue firme e forte, se esticando cada vez mais longe pra trás, mas também pra frente: já vi performances historicamente informadas da "Sagração da Primavera", peça de 1913. É a orquestra Les Siècles, com o regente François-Xavier Roth, que se propõe a tocar com os instrumentos apropriados para a época da composição, mesmo que seja só de um século atrás (o resultado do que pode parecer um exagero, é, na verdade, muito legal). Do HIP, só não me agrada o nome, naturalmente. Porque basicamente dá a entender que maestros e instrumentistas que não aderiram a ele (que são maioria), são historicamente desinformados. Nenhum nome é bom pra esse tipo de movimento, de fato. Se eles chamarem suas gravações de autênticas, os outros hão de ficar bravos com razão. Não o são? Por fim, tem "performance de época". Só que não é de época, ela tenta emular a performance da época. Eu sou definitivamente contra você ficar corrigindo os outros: não diga assim, diga assim. Portanto, fale como quiser. Eu? Prefiro "gravação com instrumentos de época". É mais ajeitadinho e eu fico sem peso na consciência.

  • território marginal #02

    O Lado Triste da vida. Um quadrinho de Vitor Batista. Vitor Batista: é cartunista, designer e arquiteto, nasceu em Barbalha (CE) em meados de 1981, acredita nas três partes da filosofia universal e fica puto quando confundem ele com um gringo. Curadoria de Quadrinhos: Nílbio Thé e Isabelle Prado

  • Elitismo na música clássica? Sério?

    Já parou pra pensar no quanto é incoerente pensar que a música clássica é inerentemente elitista e classista? Provavelmente não, não parou pra pensar. No meu feed de notícias, recentemente apareceu uma reportagem de uma revista chamada Vox, intitulada "How Beethoven’s 5th Symphony put the classism in classical music" (Como a 5ª Sinfonia de Beethoven colocou o classismo na música clássica). O autor defende, certamente querendo parecer antenado e defensor das nobres causas, que a música clássica é uma coisa de brancos, héteros, anti-LGBTQIA+, que tomaram a tal sinfonia, talvez a mais famosa e emblemática obra musical erudita, como um símbolo da sua superioridade. Besteira da peste... Ele continua, garantindo que a etiqueta das salas de concertos está impregnada desse elitismo: não se pode tossir, não se pode aplaudir entre os movimentos etc. Tem espaço para uma "linda" frase de um crítico musical: "Quando você perpetua a ideia de que os gigantes da música todos se parecem, isso leva os outros a crer que não há lugar para eles naquela música". Como? Vejam, eu não nego que haja preconceito dentro da música clássica. Só afirmo que há preconceito em todas as outras áreas do conhecimento. E que a música clássica sofre esse bullying por ser associada à elegância (portanto, à elite). A música clássica tem muito mais do que elegância. Como vocês vão ver na Arara Neon, ela pode beirar a insanidade, de fato. Tem gente que vai ao concerto só pra aparecer na coluna social? Tem. Mas esses não são os verdadeiros amantes da arte. Esses merecem repúdio. Existir uma coluna social merece repúdio. Se pessoas negras não eram permitidas nas salas de concerto de alguns países até depois da segunda guerra, isso diz mais sobre a sociedade em que vivemos do que sobre música clássica. Vamos a alguns pontos, argumentos soltos, que é como eu me organizo melhor. São só algumas coisas que me vêm à cabeça e me fazem ver que a música clássica não é melhor que as outras, nem pior. Vejam: - Em 1965 os Beatles tiveram que ameaçar não tocar num show nos Estados Unidos porque naquele estado havia segregação. Quantos shows de rock devem ter acontecido antes disso com os negros separados? - Alguns círculos de jazz eram excludentes de brancos. Muitos tinham que lutar para ganhar seu espaço. Sei que é uma falsa equivalência: negros excluíam brancos por motivos diferentes destes excluírem negros. Era uma reação à sociedade totalmente injusta em que viviam. Mas acabavam fazendo um tipo de segregação, também. Aliás, o que falar da mulher no jazz? Tinha um espaço mínimo. Como cantora, geralmente. - Uma orquestra de Fortaleza teve, durante anos, uma violinista trans, que foi recebida naturalmente, sem alarde, e sempre foi tão bem tratada quanto os outros. - Não se deve aplaudir entre os movimentos por vários motivos: o silêncio serve pra orquestra e o regente "entrarem no clima" do movimento seguinte. É que eles estão acostumados com a transição, ensaiam muito como o andamento do movimento anterior deve reger o do seguinte. Aplausos tiram a concentração. E o silêncio mostra que o público está concentrado (e que respeita esse pequeno requinte). - Mas até o começo do século XX era comum aplaudirem entre movimentos, às vezes até tocar de novo aquele movimento. A performance ainda não tinha chegado ao nível de perfeição milimétrica a que chegou hoje. - É verdade que a música clássica já foi música de branco. Isso porque surgiu na Europa. Música de homem. Isso porque surgiu na Igreja (não vejo tanta gente acusando a igreja de machismo, embora seja, totalmente). - Hoje em dia a proporção de mulheres x homens, na maioria das orquestras é 50/50, em média. - A grande maioria das orquestras escolhe seus instrumentistas em testes cegos, a comissão eleitora não sabe se é homem, mulher, jovem, velho, conhecido ou nada. Já existe até quem defenda que isso acabe, para que se privilegiem pessoas com características da sua comunidade. - O pianista vivo mais celebrado no mundo é uma argentina, sul-americana, mulher, a Martha Argerich. No piano existem tantas mulheres de êxito quanto homens. - Você tem todo o direito de não gostar de música clássica: pode gostar de música pra dançar, pra ouvir correndo e te dar adrenalina, pra cozinhar batatas... Ou simplesmente escutar músicas que falam mais a você. Só acho que é mais honesto você dizer que não gosta, simplesmente, do que tentar inventar pretextos sociais. - O envelhecimento das salas de concerto existe, mas não é porque o público está envelhecendo, e sim porque é com a idade e a aposentadoria que se tem tempo e mais paciência para apreciar música erudita. - A música, a música em si, precisa, para ser apreciada, de um pouco de pesquisa e dedicação. Posso dizer o mesmo da literatura. - Os ingressos são caros, mas muito menos do que um ingresso pra um festival de rock ou pra uma micareta. Então? Está convencido de que o preconceito é universal? Temos que vencer esse preconceito no dia a dia, no mundo inteiro. Inclusive o preconceito contra música clássica. Na matéria aí em cima tem um ponto, ele quer mostrar esse aspecto da música, tudo bem. Além do mais, é uma parte de uma série de reportagens sobre a 5ª de Beethoven, nas quais eles devem desenvolver melhor sobre outros aspectos da música. Mas peca por fazer esse desserviço a quem quer divulgar a música clássica e por perpetuar a ideia de que a música é contra alguma coisa. Quem é contra são os homens. Martha Argerich e a Orquestra NEOJIBA regida por Ricardo Castro.

  • Amigo, estou aqui

    Você. Você mesmo. Já se perguntou se o mundo não era uma simulação? Se todos os que você conhece só existem pra fazer parte, mesmo que minimamente, da sua vida? E até os que não conhece? Talvez seja um programa de TV, ou algo assim? Ou um experimento científico? Aquele australiano que faz um programa sobre crocodilos só existe na hora em que você o vê? Como um jogo de videogame, que vai renderizando o próximo andar enquanto você está no elevador? Pois bem, pare de pensar besteira, porque você está certo. Você está sendo observado em cada momento. Nós estamos de olho. Eu mesmo me dou o luxo de escrever esse texto só porque sei que você não vai mesmo acreditar. Ou, melhor, querer acreditar. Já reparou que a gente não acredita no que acredita, mas no que quer acreditar? Pois bem, o fato é que criamos essa simulação que é sua vida. Pra gente, ela é linda. Nós cuidamos bem dela, todo dia, o tempo todo. Os seus amigos são gerados no momento em que interagem com você. Eu sei quem é você e tudo que eu digo aqui é calculado. Eu sei que você às vezes acha que está vivendo num grande Big Brother. E escrevi esse texto para que você, no exato momento da sua vida em que o lesse, começasse a duvidar de tudo. Nós demos até pistas. Lançamos anteontem (e você pensa que faz tanto tempo) o Toy Story, com todos aqueles bonequinhos que sabem da sua vida sem que você os perceba. “Amigo, estou aqui” (essa sacada foi do Antena). Nem vou começar a falar de Matrix, foi um erro e a gente evita falar no assunto. Os Beatles hahaha como você acreditou nos Beatles? A religião (sacada de gênio do Osmar, a religião, não temos nada parecido aqui)? Um jumento (e é um jumento mesmo, mas isso fica pra outra hora) liderando o país? Pois é, meu caro. Se você é o único simulado? Não, mas é o da vez. E até você morrer, vamos nos divertir com a sua reação a cada pistazinha colocada estrategicamente no seu caminho. Se der desespero, pense que você é uma campanha de marketing. Um recorte de uma letra de música. E não se esqueça que ouviu de mim: amigo, estou aqui.

A Arara Neon é um blog sobre artes, ideias, música clássica e muito mais. De Fortaleza, Ceará, Brasil.

2024

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