Nunca houve silĂȘncio
- Anderson Guerra
- 13 de out. de 2020
- 5 min de leitura
No inicio era o silĂȘncioâŠ.e a mĂșsica sĂł existia ao vivo: longe de casa, nas tabernas, music halls e quando muito, vinda de algum filho ou parente que se aventurava a cantar ou tocar algum instrumento. E entĂŁo veio o fonĂłgrafo de Thomas Edison, um aparelho que podia reproduzir nas casas, 2 minutos de mĂșsica prĂ© gravada. Reza a lenda que Edison quase infartou quando finalmente o invento deu certo e pela primeira vez ouviu a prĂłpria voz recitando âMary Had a Little Lambâ. Ele jĂĄ vinha desde 1877 trabalhando no protĂłtipo do fonĂłgrafo: primeiro num papel com parafina e logo depois com os cilindros de cĂȘra. O sistema funcionava com uma membrana que captava o deslocamento de ar que a voz produzia, vibrando uma agulha, que por sua vez riscava sulcos na cĂȘra. A patente Ă© de 24 de dezembro de 1877 e ali começava a histĂłria da indĂșstria fonogrĂĄfica.

ApĂłs muitos anos de sucesso, os cilindros foram trocados pelo formato de disco, patenteados por Emile Berliner. Os discos eram mais fĂĄceis de guardar do que os cilindros de cĂȘra e a indĂșstria imediatamente adotou a novidade. Estes discos eram tambĂ©m gravados originalmente em cĂȘra, diretamente de dentro do estĂșdio com a orquestra tocando em tempo real. Depois o disco de cera era pulverizado com grafite e passava por um banho de galvanoplastia, que gerava a matriz positiva em zinco. A partir desta era possĂvel prensar muitas unidades em goma lacaâŠ.o famoso shellac 78rpm.

Avance um pouquinho pro fim da segunda guerra mundial e o capitĂŁo do exĂ©rcito americano Jack Mullin, traz pros Estados Unidos uma mĂĄquina descoberta num bunker alemĂŁo que gravava magneticamente em um carretel de metal. Ficou claro entĂŁo, como Hitler conseguia fazer seus pronunciamentos em rĂĄdios pela Alemanha nazista sem nunca ter conseguido ser rastreado pelos aliados. A qualidade de gravação era muito superior aos discos de cĂȘra, e diferentes destes, numa transmissĂŁo de radio a voz gravada era indistinguĂvel da voz real. De volta aos Estados Unidos, Mullin fez uma apresentação da mĂĄquina e imediatamente conseguiu financiamento do cantor Bing Crosby, que viu ali a possibilidade de espalhar seus programas de radio pelo paĂs. Nascia a Ampex. Na chegada dos anos 50, o guitar extraordinaire Les Paul em parceria com a mesma Ampex, inventou o overdubbing, tĂ©cnica que permitia sobrepor faixas de gravação em camadas, mudando todo o jogo. Do outro lado do AtlĂąntico e uma dĂ©cada depois os Beatles levaram esse formato ao extremo nos estĂșdios da EMI.

Os inventos de Edison e Berliner, a visĂŁo de Mullin e Crosby, o pioneirismo de Les Paul e a experimentação dos Beatles, nos permitiram um sĂ©culo de registros incrĂveis na mĂșsica. Os grandes discos do jazz, os crooners, o blues rural, a descoberta do samba, a bossa nova, o nascimento do rock, as gravaçÔes remotas de Jack Lomax, os concertos por todo o mundo entre tantos outrosâŠ.. milhares e milhares de quilĂŽmetros de sulcos com os maiores gĂȘnios da mĂșsica do sĂ©culo 20, que tiveram suas performances registradas no auge da maestria.
A incansĂĄvel tecnologia analĂłgica esteve por muitas tempo a serviço da mĂșsica. Foram muitas dĂ©cadas de aprendizado e aperfeiçoamento e muita manobra pra driblar as limitaçÔes que no fim virariam material afetivo: o pop do vinil, o hiss da fita, o wow and flutter, o pequeno nĂșmero de faixas, a estreita faixa de frequĂȘncias e etc. Depois da segunda metade dos anos 80, a tecnologia analĂłgica virou obsoleta e foi aos poucos sendo abandonada pelas gravadoras. O CD chegou como a nova grande promessa e foi abraçado pelas multinacionais com sofreguidĂŁo. Os velhos tornos de corte de acetato Neumann e Scully eram jogados em alto mar pra que nĂŁo virassem ferramentas na mĂŁos dos piratas e os estĂșdios e estaçÔes de rĂĄdio apressadamente jogaram os velhos gravadores Ampex e Studer nos depĂłsitos e nas caçambas de lixo. Todos queriam surfar na novĂssima onda digital!
Logo chegariam a MP3 e as Digital Audio Workstation e as prĂłprias gravadoras seriam enfim jogadas ao mar. A partir do inĂcio dos anos 2000, todo quarto de mĂșsico adolescente tinha um computador com algum software de gravação pirata e todo mundo teve que se ajustar a esta nova realidade. O estĂșdio de gravação, antes um espaço exclusivo de gravadoras e grandes conglomerados, era agora acessĂvel a todos. Discos e mais discos foram gravados, mixados, masterizados, distribuĂdos, sampleados e baixados. Muitas pĂ©rolas, artistas de talento, outrora ignorados ou oprimidos, eram enfim descobertos. Mas por outro lado, muito lixo digital era produzido e nĂłs os porcos, inchĂĄvamos numa velocidade assustadora! Mas havia uma conta que nĂŁo fechava: havia algo frio e esterelizado no som daqueles discos do começo da era digital e os ouvintes ainda continuavam se conectando mais intensamente com os discos antigos. Com os recursos de edição inesgotĂĄveis e uma relação sinal-ruĂdo nunca antes vista, os novos discos eram limpos e polidos quase a perfeição.
E hoje, ainda em meio a esta revolução digital, com plataformas de streaming, distribuição mundial instantĂąnea, albums gravados nos quartos e sistemas de gravação acessĂveis, existe ainda um busca intensa pelo elemento mĂĄgico daqueles discos da era analĂłgica. Os softwares de gravação tentam emular equipamentos antigos, novos equipamentos sĂŁo fabricados a partir de projetos obsoletos e peças de Ă©poca sĂŁo disputadas a tapa e a peso de ouro. Na ultima dĂ©cada vivenciamos a retomada do disco de vinil, da fita magnĂ©tica, uma explosĂŁo de novos estĂșdios de gravação analĂłgicos pelo mundo e artistas jovens mergulhando na estĂ©tica vintage, nos wurlitzers, hammonds, ampexes, vĂĄlvulas e polaroides. E tudo pouco a pouco vai se embolando num fetiche interminĂĄvel em meio a distopia orweliana que vivemos. O analĂłgico vai se tornando de novo tĂŁo presente e genĂ©rico quanto o artesanal, passando de high tech a obsoleto a objeto de desejo em menos de duas dĂ©cadas. Gourmetizamos atĂ© isso! Assim seguimosâŠ.
Algo obviamente se perdeu aĂ. A mĂĄgica nĂŁo estĂĄ nas mĂĄquinasâŠ..a mĂĄgica estĂĄ nas pessoas: em limitar o campo de ação, em restringir as ferramentas, em lidar com o tempo, com a urgĂȘncia, com o espĂrito criativo, com trabalho em equipe, com o planejamento, com a imperfeição e com o silĂȘncio.
Mas eu aposto com vocĂȘ a minha cĂłpia 180g do Kind of Blue-Miles Davis que a esta altura, Thomas Edison deve se revirar na tumba dizendo que na verdade nunca houve e nunca haverĂĄ silĂȘncio.
ââŠMinha liberdade consiste, portanto, em me mover dentro da estreita moldura que me atribuĂ para cada um de meus empreendimentos. Irei ainda mais longe: minha liberdade serĂĄ tanto maior e mais significativa quanto mais eu limitar meu campo de ação e quanto mais me cercar de obstĂĄculos. O que quer que diminua a restrição, diminui a força. Quanto mais restriçÔes se impĂ”e, mais se liberta das correntes que prendem o espĂrito.â  Igor Stravinsky

Anderson Guerra
Mineiro com sangue italo-baiano, Anderson Guerra Ă© guitarrista desde quando bandas ainda eram chamadas de conjuntos. Moldou seu cĂ©rebro na efervescĂȘncia da guitarrada baiana dos anos 80 e ambiciona ainda possuir uma cĂłpia em LP do âMelĂŽ do Corruptoâ.
JĂĄ se aventurou em videos, filmes, peças de teatro, instalaçÔes, shows de tudo quanto hĂĄ e gravou mais discos que consegue se lembrar. Em 2008 montou o Bunker Analog, um estĂșdio de gravação sem computador. Desde entĂŁo garimpa pelo mundo equipamentos de gravação obsoletos e dedica a maior parte do seu tempo Ă entende los e restaura los. A idĂ©ia deu tĂŁo certo que o estĂșdio hoje jĂĄ possui um computador prĂłprio e consegue gravar CDâs. Adora dormir depois do almoço e no fundo queria mesmo Ă© criar cabras e galinhas.
