• Marcelo Bonavides de Castro

CARMEN MIRANDA E SUA CARREIRA NO BRASIL


Carmen Miranda - Revista Fon Fon (1938)

Há 65 anos o Brasil chorava a morte de Carmen Miranda. Morando nos Estados Unidos desde 1939, a artista havia sofrido um fulminante ataque cardíaco na madrugada de 05 de agosto de 1955, em sua casa na Califórnia.


Muitas homenagens foram feitas à nossa Pequena Notável desde então, tendo ela continuado a influenciar a moda e a cultura mundial com sua imagem icônica de baiana estilizada. Mas o que muitas pessoas desconhecem, mundo afora e até no Brasil, é a fase artística de Carmen Miranda aqui em nosso país, que durou de 1929 até 1939, quando ela foi a cantora de mais destaque nos meios de comunicação e uma sambista de primeira grandeza.


Nascida em Marco de Canaveses, distrito da cidade do Porto, em Portugal, no dia 09 de fevereiro de 1909, veio ao Brasil, com mais ou menos um ano de idade, acompanhada da mãe, Maria Emília, e da irmã mais velha, Olinda. As três vinham encontrar José Maria, esposo de Maria Emília e pai das meninas, que já estava estabelecido em nosso país.


Carmen Miranda - Arquivo Nirez

Já adolescente, Carmen Miranda passou a trabalhar em lojas de moda e buscar oportunidades no meio artístico, fazendo ponta em um filme por volta de 1926. Mas somente em 1928, ao conhecer o violonista e compositor baiano Josué de Barros, é que sua carreira artística teria início. Josué, vendo o talento da jovem, apostou em sua carreira como cantora, levando-a a se apresentar em 28 de agosto de 1928 em um espetáculo beneficente no Instituto Nacional de Música, em benefício ao Orfanato do Sagrado Coração de Jesus. Meses depois, em 07 de janeiro de 1929, ela voltaria ao Instituto Nacional de Música em um evento em homenagem ao compositor Ernesto Nazareth. Por muito tempo, pensou-se que essa fora a primeira aparição em público de Carmen Miranda como cantora.


O ano de 1929 foi bastante promissor para a jovem cantora iniciante. No primeiro semestre, participou de alguns programas em rádios, como a Rádio Educadora do Brasil, Rádio Sociedade e Rádio Mayrink Veiga. No segundo semestre, Josué de Barros levou Carmen para que ela gravasse seu primeiro disco, pela gravadora Brunswick. Carmen Miranda gravou duas músicas de Josué de Barros, "Se o Samba é moda", choro, e "Não Vá Simbora", samba. Como o disco demoraria a ser lançado, o compositor levou sua afilhada artística para um teste em outra gravadora, a Victor.


Na Victor, Carmen Miranda foi logo aprovada pelo diretor artístico, o compositor e violonista Rogério Guimarães. Em 04 de dezembro de 1929, ela gravava o segundo disco de sua carreira e o primeiro na nova gravadora, com as músicas de Josué de Barros, "Triste Jandaya", canção toada, e "Dona Balbina", samba. A forma como Carmen interpretava as músicas, coloquial, sem arroubos líricos, inserindo “cacos” ao final dos versos, chamou a atenção da crítica e do público, que gostou bastante dessa nova forma de cantar. Para a crítica especializada em música, a jovem tinha It na voz, ou seja, um carisma, um diferencial, que a tornava especial.


Em seu terceiro disco na Victor, Carmen Miranda lançou uma marcha-canção que a tornaria conhecida nacionalmente, sendo uma música lembrada até hoje. Trata-se de "Pra Você Gostar de Mim", do médico e compositor Joubert de Carvalho, que escreveu especialmente para ela. A marcha ficou conhecida como Taí, devido a seus versos: “Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim/ Oh, meu bem não faz assim comigo, não/ Você tem, você tem/ Que me dar seu coração”. Gravada em 27 de janeiro de 1930, às pressas para o carnaval deste ano, a música faria sucesso ao longo dos carnavais seguintes.


Revista Fon Fon, Biblioteca Nacional

A partir de então, cantora nacionalmente conhecida, gravando discos com frequência, Carmen Miranda passou a investir em sua carreira, escolhendo as músicas que gravaria, quais compositores interpretaria, assinando contratos com publicidade e, em poucos anos, firmando um contrato de alto valor com a Rádio Mayrink Veiga, como cantora exclusiva. Por volta de 1931, começou a excursionar, indo para uma temporada em Buenos Aires e, em 1932, percorrendo várias cidades do Nordeste brasileiro, em apresentações antológicas em Pernambuco e na Bahia.


Antes da metade da década de 1930, Carmen Miranda já era a cantora mais popular do Brasil e a mais bem paga, recebendo salários maiores que de muitos homens em uma época em que às mulheres era reservado o espaço do lar, para cuidar da família. Carmen não escapou do preconceito por ser uma mulher que se exibia publicamente, por ser financeiramente independente e por cantar sambas. Alguns críticos achavam absurdo uma sambista ganhar mais e ter mais projeção do que uma cantora lírica, por exemplo. Porém, Carmen Miranda seguia sua carreira, entre esses rumores, conquistando mais espaço no meio artístico, prestígio, fãs e altos contratos.


Sua forma de cantar, tão especial, influenciaria outras garotas que tentavam a sorte no rádio e no disco no começo da década de 1930. Muitas imitavam seu estilo e até sua voz. Algumas tinham carreira efêmera, outras conseguiam encontrar estilo próprio e seguiam em carreiras bem sucedidas. Uma cantora que nunca imitou Carmen Miranda e fez muito sucesso na década de 1930 foi sua irmã Aurora Miranda. Possuidora de uma extensão vocal maior que a de Carmen, com talento e estilo próprios, Aurora foi a segunda cantora que mais gravou discos durante os anos 30 do século XX. A cantora que mais gravou? Carmen Miranda...


Em 1935, Carmen deixa a Victor e passa a gravar na Odeon. Surge uma nova fase em sua carreira, na qual ela passaria a contar com novos instrumentistas, músicos e maestros. Seu repertório, graças ao seu talento, continuou com uma qualidade excepcional, tal qual na Victor, tendo ela lançado, igualmente na Odeon, dezenas de clássicos do nosso cancioneiro popular. Carmen Miranda não parava. Atuava em discos, no rádio, fazia shows nas excursões e em cassinos, aparecia em reportagens nas revistas e ainda fazia cinema.


Ao todo, Carmen atuou em cinco filmes no Brasil, só chegando aos nossos dias Alô, Alô Carnaval, dirigido por Adhemar Gonzaga, em uma produção de 1936 da Cinédia. Nesse filme, ela canta a marcha "Querido Adão", de Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago, e "Cantores de Rádio", marcha cantada ao lado de sua irmã Aurora Miranda, de autoria de João de Barro, Alberto Ribeiro e Lamartine Babo.


Seria em Banana da Terra, de 1939, dirigido por Ruy Costa, que Carmen Miranda novamente daria início a uma nova fase em sua carreira. Nesse filme, pela primeira vez, ela aparecia vestida de baiana. Embora há 50 anos as atrizes já usassem essa fantasia, seria a partir de Carmen Miranda que o mundo conheceria um dos símbolos culturais (mesmo que estereotipado) do Brasil. Com a fantasia de baiana estilizada, Carmen Miranda seguiria para os EUA em 1939, com o Bando da Lua, tendo entrado para a história de nosso país, até então, como sua mais bem sucedida cantora popular.


Carmen Miranda - Arquivo Nirez

Abaixo, gravações de domínio público extraídas diretamente de discos de cera de 78 rotações do Arquivo Nirez de algumas das canções citadas.


Canções
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MARCELO BONAVIDES DE CASTRO é historiador, pesquisador musical, jornalista e ator. Desde 1988 pesquisa a MPB e a vida das atrizes-cantoras e artistas do teatro musical, rádio e disco no Brasil, durante o período de 1859 a 1940. Autor do blog Arquivo Marcelo Bonavides (marcelobonavides.com).

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