• Nílbio Thé

Ela foi e ele continua. Um ensaio sobre Rubem Valentim e Regina Duarte



Meses atrás, Regina Duarte assumiu a Secretaria Especial de Cultura (que era um MINISTÉRIO) de forma extremamente rápida, talvez até batendo um recorde de menor tempo de permanência na atual gestão de nosso país. Rápida, breve, fugaz, mas não sem bastante estardalhaço, sobretudo ao conceder entrevista à rede CNN Brasil. E é sobre isso que escrevi e que adapto agora para a nossa Arara Neon. Vamos lá!

Do lado da vida tem a morte. Algo assim que a Regina Duarte falou. E ela está certa. Afinal isso é biologia básica. Mas também é a base de muitas coisas além da biologia. Falei disso pros meus filhos, sobre a vida e a morte, quando enterramos nosso cãozinho embaixo de um ipê que eu plantei uns quinze anos atrás. E pra enfatizar a vida que vem da morte, ainda fizemos um jardim em cima da cova do nosso pequeno guardião canino em sua homenagem. Pois é. A Regina está certa nisso. Mas sua precisão parou aí.


Não, espera! Ela também está certa ao falar – aparentemente a única coisa útil em termos de política pública para arte, mas ainda assim com muitas ressalvas – que ligou para prefeituras pedindo que ajudassem os circos, parados por causa da pandemia. O circo é a linguagem artística mais acessada pela população brasileira que mora, na maioria das vezes, em cidades sem cinema, teatro ou biblioteca. É o circo o responsável por levar arte, sonho e alegria para a maioria das cidades, muitas vezes inacessíveis. E também para a periferia e, com suas portas fechadas, sem poder realizar espetáculos, não geram receita e seus artistas passam necessidade. Contudo a fala dela – e ressalto que mais importante do que o que se diz é COMO se diz – dá à ação de socorro ao circo um ar de caridade, não de política, ainda mais quando repassa a responsabilidade dessas ações de distribuição de cestas básicas para as prefeituras. Ou seja, até onde existe uma brecha de boa intenção existe o erro (e o inferno, vocês sabem, está cheio de boas intenções).


Quando vamos analisar um texto, é necessário estarmos atentos para duas coisas: primeiro é o texto em si, claro, ou seja, é necessário atentar para o que é dito; mas também é de suma importância entender o CONtexto que é justamente tudo aquilo que NÃO é dito, mas que está ao redor do texto e o permeia muitas vezes de forma quase explícita.


Tendo dito isso, chamo a atenção para a obra de Rubem Valentim que estava entre Regina e o repórter da CNN no momento da entrevista. A obra, uma gravura, mais especificamente uma serigrafia, sem título, datada de 1989, de autoria de Rubem Valentim, que foi doada ao Ministério da Cultura (atualmente inexistente, como já disse) na época da gestão de Gilberto Gil.

Rubem Valentim

Mas quem foi Rubem Valentim? Bom, poderia dizer que ele foi um dos mais importantes artistas brasileiros. Se eu deixar essa frase um pouco mais específica, com alguns adjetivos para a palavra artista, sua importância aumenta ainda mais, de modo que se disser que Valentim foi um dos mais importantes artistas plásticos, ou um dos mais importantes artistas plásticos baianos ou negros, um dos mais importantes artistas construtivistas do século XX... Bom, aí ele vira um gigante da arte. Mas é isso justamente o que ele é: gigante.


A serigrafia de Valentim é a rainha do contexto em que se passa a entrevista (o texto) e ela é a vida que brilha e pulsa ao lado da morte, parafraseando a própria Regina em uma das poucas frases corretas que disse, entrecortadas por chiliques, imprecisões e uma miríade de comportamentos alienados, imaturos e estúpidos. Valentim ansiava por criar uma linguagem própria e universal e, para isso, o artista baiano pesquisava sua ancestralidade africana e indígena. Três orixás estão entre suas principais inspirações: Xangô, o orixá da Justiça, cujo machado de duas pontas foi base iconográfica para várias obras de Valentim; Oxóssi, orixá da caça, das matas e dos trabalhadores, que emprestou seu arco muitas vezes para os desenhos de Valentim; e Ossaim, outro orixá das matas, que conhece as curas para todas as doenças a partir das ervas e folhas. Claro, Valentim procurava e pesquisava de tudo, sem preconceitos, mas sua iconografia aponta para a recorrência e elementos desses três. Justiça, trabalho, matas... Três coisas constantemente desrespeitadas no atual governo. Na obra em questão, de 89 aliás, fica mais que evidente tanto referências a Oxóssi quanto a Xangô.


Valentim também foi um militante. Não um militante político tradicional, mas um militante estético, o que não deixa também de ter cunho político, sobretudo na época da ditadura militar brasileira. Escreveu “Manifesto ainda que tardio” em 1976 (e qualquer pessoa que escreva qualquer texto com “manifesto” no título nos anos 70 é, no mínimo, corajosa), no qual deixa clara a sua fonte de pesquisa estética baiana e afrocentrada.


Regina Duarte é um caso (espero que raro) da junção de três coisas: a incompetência, a falta de conhecimento sobre a área em que atua (ou se dispõe a atuar) e a necessidade doentia de querer ser feliz (e leve) o tempo inteiro para não ser um “obituário”, como ela mesma diz. A junção dessas três coisas que potencializam umas às outras a torna uma figura infantil no pior sentido que o termo pode vir a ter.


É preciso falar também do manifesto de Valentim contra a subalternidade. Toda arte é política. Vide o exemplo de Malevich na União Soviética, considerado subversivo. Penso, aproveitando o exemplo, que a arte de Valentim é tão política quanto a de Malevich, ou talvez ainda mais. E por mais que discorde veementemente de que obra e artista são a mesma coisa (claro que existem exceções, da ópera ao videogame – mas isso é assunto para outro momento), toda arte tem uma mensagem sobre o seu tempo para o presente e para o futuro. Às vezes principalmente para o futuro.


Ver o chilique de uma mulher que ocupa lugar de destaque no imaginário popular midiático do povo brasileiro me fazia me concentrar cada vez mais, a cada grito, a cada mexida na cadeira, na obra plácida e elegante de Valentim. A obra observava Regina com toda a sabedoria ancestral que os Orixás carregam. Isso aumentava ainda mais o vexame de Regina.


Ou seja, a obra de Valentim, exposta ali, pode ser um lembrete do destino, da vida para a morte, avisando que eles passam – os fascistas, os idiotas, os cretinos, passam todos. A sabedoria ancestral fica. Enquanto Regina gritava e se contorcia na cadeira a obra de Valentim, no alto de sua elegância, sussurrava: “Você passa. Nós ficamos, pois nós estamos aqui há muito, muito mais tempo que vocês”. Sim, Valentim fica, Regina, você roda. No caso, Valentim ainda está lá. E Regina rodou, há meses.


Estou achando graça porque quando rascunhei esse texto, um dia depois do fato, e o li no meu Instagram em um vídeo, o título do texto era "Ela vai e ele fica". Parece que acertei. Eu só não imaginei que fosse tão rápido! Abaixo um pequeno e modesto mosaico com trabalhos de Valentim só para seu deleite.



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