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- Argonautas: Jangada Azul - Faixa a Faixa
O quarteto Argonautas lançou em 2018 seu segundo álbum oficial, Jangada Azul, 9 anos após seu primeiro disco oficial Interiores. Criado na segunda metade dos anos 1990, o grupo é composto pelos amigos de colégio Rafael Torres, Raphael Gadelha e Ayrton Pessoa. Todos com uma formação em diversos instrumentos e um horizonte musical que passeava bastante pela música erudita, jazz, rock dos anos 60, tango e, sobretudo, música brasileira tradicional e popular. Ao conhecer o poeta Alan Mendonça, Ayrton (o Bob) compôs sua primeira canção. Então eles passaram a tentar usar os conhecimentos de harmonia erudita na composição de músicas em ritmos brasileiros e daí muita coisa aconteceu. Ganharam um prêmio pela composição Guerra dos Brincantes, de Raphael Gadelha (baixo, violão, flauta) e Alan Mendonça. O mesmo Raphael mudou de cidade, algumas formações vieram e se foram. Gravaram um CD demo caseiro e, em 2009, lançaram Interiores, um disco sério e simples em parceria com Ronaldo Lage (percussões e bateria) e Germano Lima (baixo). Atualmente com Igor Ribeiro (bateria e percussões) e Ednar Pinho (contrabaixo acústico). O epicentro de composições ainda fica concentrado na dupla de multi-instrumentistas e vocalistas Rafael Torres (clarinete, flauta, acordeão, piano, viola caipira, violão, guitarra) e Ayrton (piano, acordeão, violão, bandolim, viola caipira, sintetizador, guitarra), que agora, com novas parcerias e um universo musical expandido, nos trazem um álbum leve e vigoroso com novas composições, novas parcerias e músicas do início da banda que nunca foram gravadas. A despeito de já ter dois anos de idade, eu continuo achando que o álbum não teve a devida atenção, o que justifica, na minha cabeça, uma análise faixa a faixa. Vamos a ela! Faixa a Faixa do Jangada Azul 1. Mareia De Rafael Torres, uma canção com arranjos vocais e uma letra cheia de aliterações, trata-se de uma súplica sertaneja com uma elegante linha de baixo e uma sanfona preenchendo a música. Apesar de letra triste, porém esperançosa no momento em que vira uma oração a Iemanjá, é uma música em Lá maior, alegre, com belos acordes abertos realmente evocando a luz e o calor de que fala a letra. 2. Ilação Uma cantiga/toada a três vozes tendo como instrumentos principais apenas violão, metalofone e alguns “instrumentos flutuantes”, como um piano, e com uma letra que mais parece uma brincadeira de criança. A mais singela do disco e uma das mais antigas do grupo, só registrada agora e que remete a alguns dos melhores momentos da música mineira dos anos 60 e 70. 3. Fortaleza Um sarcástico bolero-ode ao ato de fazer música e arte na cidade de Fortaleza. Parece uma canção que deveria ter entrado em Interiores. Apesar de não ser uma bossa nova, percebe-se a influência de Tom Jobim nos arranjos. 4. Aqui Nesta Ilha Música de Ayrton sobre um texto de Joyce Nunes. Com uma harmonia de poucos acordes (algo também que não é lá muito comum no grupo), a música se estrutura num ciclo de crescimento começando tímida e misteriosa, com muitos silêncios se tecendo num fundo harmônico sendo feito pelo acordeão. 5. Choro de Mandacaru Outra música trovadoresca de inspiração sertaneja. Um duo de violões e vozes traz singeleza e delicadeza a esta canção de clima rural. 6. Outros Americanos Composição de Ayrton Pessoa. Também começa discreta, ao piano, e cresce até a entrada de um sutil e poderoso arranjo de bateria de Igor Ribeiro. Aqui também temos a utilização de um instrumento inédito no grupo, que sempre prefere instrumentos acústicos, um sintetizador, e também de uma guitarra tocada por Rafael Torres. 7. Cantiga do Sertão Uma letra poderosa que remete a João Cabral de Melo Neto em seu Morte e Vida Severina. Apenas o violão de Nonato Luís em participação especial, voz e nada mais. 8. Plantaria Primeira composição de Ayrton com Letra de Alan Mendonça. Uma espécie de Refazenda contemporânea com um ritmo bem marcado ao violão e à bateria de Igor, graves bem colocados e um belo arranjo de flauta, fazendo contraponto a uma melodia simples e bonita, que além da canção de Gilberto Gil remete também à pernambucana Banda de Pau e Corda, com seu arranjo vocal. Uma das melhores faixas para perceber o entrosamento instrumental do quarteto. 9. De Volta ao Começo Uma canção extremamente jobiniana, que tem a essência de músicas como Retrato em Branco e Preto. 10. Flores de Maio Novamente uma das primeiras composições do grupo só agora registrada. Um samba ao mesmo tempo discreto e com presença. Letra de Alan Mendonça e música de Rafael Torres. Fosse nos anos 70, poderia facilmente ter sido uma das canções de João Bosco e Aldir Blanc interpretada por Elis Regina. A linha de baixo de Ednar que permeia a harmonia brincando com alguns graves merece atenção. 11. Miudilha do Beijo Uma faixa instrumental de amor e dor baseada em violão e sanfona que evoca as sensações de Valsinha de Chico Buarque de Hollanda e Vinícius de Moraes. 12. Choro Dela Um chorinho feito para Bia, filha de Rafael Torres sobre os desafios e descobertas da paternidade. O acompanhamento com violão, pandeiro e flauta dão a sonoridade clássica de nosso querido chorinho. Ainda que seja um excelente disco (e bem diferente do anterior), que mostra tudo que a banda é e o que ela ainda pode ser, vale a pena conferir as apresentações ao vivo, sempre com arranjos diferentes e com um pequeno e engraçado rodízio de instrumentos entre eles. Serviço Jangada Azul Independente, 12 faixas R$ 30,00
- Luzia, A Mulher que Morreu duas vezes (ou Do nosso suicídio coletivo)
10.000 a.C. A vida era difícil. A selva, a chegada das preguiças gigantescas. Feras. Encontrar comida não era fácil. Perder-se de seus convivas... O azar de ter se distanciado muito de sua tribo. A descoberta de frutos e plantas novas não fora o suficiente para segurar sua expulsão da aldeia por desrespeitar as forças dos deuses. A gruta que lhe serviu de morada era boa, não era quente demais de dia, nem fria de mais à noite. O lagarto que encontrara para seu jantar não estava bom como o da semana passada. Estava com um gosto forte. Mas era o que tinha, juntamente com alguma mandioca e outras raízes. A noite foi ainda pior que a caçada do dia. Dores fortes no estômago a deixaram em estado de agonia por dias até que ela não sentia mais dor... ela estava, sim, em seu corpo, mas não chegava à sua mente que pôde viajar e abraçar os espíritos encantados da natureza que a rodeavam e a tudo comandavam. Ela encontrou a paz. 1975 d.C. Escavações encontram o crânio de uma mulher em Minas Gerais, Lagoa Santa. Muitos ossos antigos foram encontrados ali. 1998 d.C. Demorou pouco mais de vinte anos para que descobrissem que aquele crânio tinha doze mil anos de idade, revolucionando tudo o que se supunha sobre a ocupação do nosso continente. A partir daí, Luzia ganha fama, mais até que sua descobridora, a arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, e seus posteriores pesquisadores, o biólogo brasileiro Walter Alves Neves e o bioantropólogo argentino Hector Pucciarelli, que descobriram a idade de Luzia em uma análise laboratorial feita na Europa. A partir daí, Luzia ganha o estrelato. 2018 d.C. No ano de 2018, Luzia tem outra morte. Uma morte simbólica, mas que beira o real. Consumida em chamas juntamente com diversos outros documentos importantes para a história brasileira, como a Lei Áurea, e história mundial, como sarcófagos, tronos de reis africanos, coleções de desenhos botânicos etc. Nas redes sociais, cada um com suas ilusões partidárias aponta o dedo para o partido político alheio em busca de culpados. Muito fácil não olhar para si nessa hora. Quando visitamos um museu pela última vez em nossa própria cidade? Não existe praticamente nada de original que possa ser dito sobre essa tragédia. Tudo é muito óbvio. Todos somos culpados. Culpados por nossas ilusões, nossa falta de ação, nosso excesso de utopias e falta de pragmatismo. O último presidente a entrar no museu foi Juscelino Kubitschek. O último. Sofremos da síndrome de adoração de defuntos aqui no Brasil. A pessoa morre e vira um santo. Foi assim com Tancredo Neves, Mário Covas e tantos outros que se repetem no anúncio da “reconstrução” do museu. O mesmo ocorre com um museu que muitos sequer sabiam da existência. Se pudessem, eles ressuscitariam até Dom Sebastião. Mas essa tragédia ainda renderá muito. As políticas culturais brasileiras são incipientes. Culpa do estado? Claro. Culpa da iniciativa privada? Também. Muitas postagens sobre a “polêmica” lei Rouanet foram feitas. Quem determina o que será patrocinado pela lei Rouanet, que usa dinheiro de renúncia fiscal, ou seja, dinheiro estatal, é a iniciativa privada. Se ela resolve patrocinar um show de forró ao invés de ópera ou museus é vida que segue. Temos apenas que aprender a conviver com quem acha que um palácio mereceu ser destruído por ser um símbolo da monarquia escravagista ou quem acha que quem vive de passado é museu. O passado está em nós. Precisamos apenas parar de ignorá-lo. Ou de inventá-lo. Precisamos encará-lo de frente pois ele se repete a todo instante. Antes que vejamos fogo em nós mesmos por combustão espontânea para coroar o lento suicídio ao qual estamos nos aplicando há anos. Mas talvez exista uma chance de um revés. A notícia de que o crânio de Luzia foi encontrado entre os escombros é, como disse minha esposa Marise, uma inspiração de que a resistência faz parte das brasileiras desde sempre.
- A arte do banal
Em um cenário de grandes produções no universo das artes, alguns criadores preferem apostar na valorização do banal como forma de ampliar o diálogo com o público. Uma vez, um sobrinho veio empolgado dizendo que queria fazer um videogame junto com um amigo. Deviam ter uns 14 anos. Quis estimulá-los, mas pouco tempo depois desistiram porque seria “muito complicado”. Perguntei sobre qual jogo eles gostariam de fazer. A resposta estava na ponta da língua: “igual ao GTA”, franquia de jogo de gângsters contemporâneos do estúdio Rockstar. Jogos como GTA são chamados de AAA (ou triple A), o equivalente a um filme blockbuster caro, com anos de desenvolvimento e muita gente trabalhando. Para meu sobrinho, o universo de jogos indie era desconhecido. Fiquei pensando nisso e, por acaso, lembrei de uma matéria que havia lido sobre os “artistas plásticos do momento”. A matéria perguntava se as artes plásticas contemporâneas eram reféns da super produção. Artistas como Matthew Barney e Damien Hirst tinham obras incrivelmente complexas, caras, difíceis de serem executadas, obras AAA, para usar o mesmo termo da indústria de jogos. Os pequenos artistas teriam vez em um mercado cada vez mais milionário e extravagante? Hirst ficou famoso por realizar o que seria a obra de arte mais cara do mundo: For the Love of God, com valor estimado de 14 milhões de dólares. Trata-se de uma caveira banhada em platina e cravejada de diamantes. Mas a questão é: ela é cara por sua ideia, sua técnica, sua aura, seu impacto estético ou apenas pelo material usado? Os Girassóis de Van Gogh, por exemplo, foi feito apenas com tinta e tela, e sua cotação no mercado de arte gira em torno de 200 milhões de dólares. O que valorizou mais? Hirst não é meu artista predileto, mas sua obra é interessante. A despeito disso, objeto aqui chamar a atenção para a outra face da moeda de For the Love of God: a arte das insignificantes coisas do cotidiano. A arte exagerada ou espalhafatosa sempre existiu. Alguns períodos históricos registram mais casos que outros, claro, mas Mahler, por exemplo, em pleno século XIX compunha para orquestras três vezes maiores que as de Beethoven, o que torna o esquema “um banquinho, um violão” de João Gilberto uma verdadeira revolução. A arte de hoje mistura-se cada vez mais à nossa vida. Seja no grafitti, numa intervenção urbana, nos músicos de rua de várias cidades no mundo ou numa performance. Sim, a performance é a arte do cotidiano por excelência. Renato Cohen, em seu livro Perfomance como Linguagem, comenta justamente que a linguagem da performance é uma estetização de algo não estético. Um mictório num museu, ou alguém escovando os dentes num lugar não usual, ou quem sabe um jogo sobre seus pesadelos de infância (The Binding of Isaac). Existem exemplos ainda mais “banais” nos quadrinhos. Angeli, que se fez protagonista na série de tirinhas "Angeli em crise"; Laerte, que ganhou novo público para suas tirinhas quando passou a abordar temas ligados ao universo trans; Harvey Pekar, que falava de seu dia a dia em suas graphic novels... Se antes o banal tinha presença apenas nas crônicas de escritores, como Stanislaw Ponte Preta ou Luís Fernando Veríssimo, hoje é o combustível de gente como o premiado cineasta sul-coreano Hong Sang-Soo. Sem querer parecer minimalista, repetindo que “menos é mais”, exercer a criatividade com o pouco que se tem à mão é a forma mais contemporânea de se chegar ao sucesso.
- Saudações, terráqueo. Não me leve ao seu lÍder.
Bem-vindos à Arara Neon, um lugar onde você encontra abobrinhas e contradições. Nós vamos falar majoritariamente sobre arte. Se tivermos que ser específicos: música clássica, cinema, estética, literatura etc. (De onde eu tirei que etc. especifica alguma coisa?). No meu caso, Rafael Torres, também vou falar sobre os Argonautas, meu grupo de MPB, que vai indo. Vou contar como é tentar viver de uma música que já morreu e, na verdade, já está ressuscitando. E tem também a parte criativa. Minhas músicas, contos, o que der na telha. Mas sempre respeitando o leitor, que vai ser tratado como um membro da família: os textos são escritos pra você, não pra mim. Sinto que seria uma boa destinar meu tempo a disseminar a música clássica. Sabe quando você lê um livro maravilhoso e fica pensando: "eu tenho que contar pra todo mundo! Como é que eles não sabem disso?"? É a minha relação com música clássica. Eu devo passar mais da metade do meu dia escutando streaming, CDs e vinis. E, embora já anestesiado pelo hábito, ainda me arrepio com músicas que escutei mais de um bilhão de vezes. E quero explicar pras pessoas (as que querem saber disso) como apreciar essa arte. Vou tentar não falar de política (mentira), a não ser para ressaltar ou realçar algum argumento. Estética, impressões sobre eventos (crítica de arte é uma coisa muito pesada e muito vaidosa), divagações e o que mais couber nessas páginas. Esteja convidadíssimo! Aqui assume o outro autor. Bem-vindos à Arara Neon, um espaço de coisas sérias e contradições. Nós vamos falar (muito) sobre arte. No meu caso, Nílbio Thé, vou bater muitas vezes no mesmo prego e na mesma tecla, até a tecla e o prego não existirem mais. Vou falar sobre cinema, literatura, um pouco sobre música também e arte no sentido mais amplo que a coisa pode ter. Provavelmente publicarei crônicas. Ou não. Quem sabe contos. Ou não, também. Quadrinhos, charges, eventualmente poemas que ando começando a escrever. Como creio que a arte é um modo de oração e, se a gente ficar só no mundo físico sem viajar pro mundo das ideias de vez em quando, a gente explode, tentaremos (estou incluindo o outro autor nisso agora) disseminar o que achamos que vale a pena ser conhecido ou, no caso de coisas com fama excessiva, discutido. Será impossível para mim não falar de política. Não estou dizendo que vou fazer vários escritos sobre política, porque eu não faço ideia nem do que eu vou fazer amanhã. Então não prometo nada. Inclusive porque tenho uma pilha de desenhos, estudos e pinturas não terminados e talvez meia dúzia de roteiros não filmados de modo que realmente eu não prometo coisas. Mas eu penso em política todo dia, não nessa moribunda política partidária, mas na política como forma de pensar (e sobretudo resistir a) o mundo. Críticas, resenhas, impressões sobre eventos e tragédias e catástrofes (sim, não estou esperançoso e já risquei a palavra utopia da minha vida), divagações e o que mais couber nessas páginas. Entre e pegue uma água. A casa é sua. Aqui assume quem tá lendo!
- Uma foto que fala mais do que parece
Observe a foto abaixo. Uma foto relativamente competente de um banco de imagens (nesse caso, o Pexels). Uma imagem tem que ser muito boa pra gente ter o que falar dela por mais de dois minutos. Sobre essa, eu tenho umas coisinhas. Olha pra essa menina. Fofa, ok. O que te chama a atenção? Os olhos? Certamente são expressivos, assim como as sobrancelhas. Mas a atitude dessa menina não está nos seus olhos. Está na boca. Olhe bem. O que diz a boca? Diz que, como diria minha filha quando pequenininha, ela "fez donação". É aquele sorriso que diz "aprontei, mas não conte a ninguém". Agora junte essa informação com o que temos mais na foto, os olhos. Eles dão uma informação mais. Pense. Só ela sabe a traquinagem que fez? Aí está! Não. Você também sabe. Ela está te olhando com cumplicidade a respeito de algo muito específico que você sabe o que é, mesmo não sabendo. Essa menina fez duas "artes": a danação que gerou a beleza da imagem e a de transformar uma foto que seria apenas mais uma num banco de imagens em uma conversa. O que torna essa foto tão extraordinária não é o fotógrafo, através da iluminação, da composição, do foco, das cores. A estrela é a própria menina, o assunto da fotografia. A nossa cúmplice.
- A Revolta das Roupas
A gente não sai de casa nessa quarentena, mas as roupas saíram do canto como? Dia desses fui procurar uma meia e não lembrava mais onde ficavam as meias aqui em casa. Um cinto, eu passei dez minutos para achar. Passar meses só de cueca, quando não pelado, deve ter desligado algumas sinapses que passei anos para construir. Então não é a roupa que se mexe, é a memória de onde a gente guarda as roupas que muda, mexe, desaparece. Uma espécie de revolta. Talvez façam isso justamente para a gente não ter como sair de casa. Sim, vamos analisar.... Comecemos pelas meias. Ninguém gosta de ganhar meias de natal, por exemplo (experiência própria, estou plenamente no meu lugar de fala aqui). Sobretudo quando você ganha meias de presente de natal em mais de um natal na sua vida. Ou mais de dois natais na sua vida. Mas ainda assim, a meia é um acessório que não se pode ignorar se você não gosta de ter chulé ou se você está num dia frio. E elas não gostam de ser ignoradas. E por isso somem. Já imagino um especial de jornalismo investigativo com a voz do Sérgio Chapelen: “Meias, aonde vão, quando voltam, porque se desreproduzem?” “Espera, para tudo um instante: você escreveu ‘desreproduzem’, mesmo?” Sim, escrevi, um neologismo crônico, isso aqui, e pensa comigo que quando um ser se reproduz ele gera ao pelo menos um outro ser semelhante, ele duplica. Não é? pois ao invés de duplicar como toda boa reprodução minimamente exige elas se perdem dos pares então somente o Saci Pererê conseguiria usar esses “pares” de meias fisicamente limitados em 50%. E ainda existe, para aqueles que se preocupam (ou precisam se preocupar) com o visual, a necessidade de se harmonizar (seja por semelhança ou por contraste) as roupas com o acessório obrigatório da temporada: A máscara. Mas de nada adianta sair de casa com uma máscara se você não acha um cinto, pois se suas calças caírem no meio da rua, ainda que de máscara você passará por situações vexatórias. E eu falei do cinto porque passei 10 minutos para achar o meu. Mas eu falei da máscara, né? Então... Máscara usa quando sai de casa, você não sai de casa e.... A máscara vai parar junto com as meias, ou seja: num buraco de minhoca interdimensional. Contudo, as coisas sempre podem piorar, tipo... E quando a máscara some e some junto com a carteira? E quando você precisa usar uma cueca e ela some? Eu nem vou contabilizar as mulheres que geralmente têm o dobro de roupa íntima por causa do sutiã, e nem vou falar do misterioso caso das mulheres que têm que usar calcinha e sutiã combinando, limitando ainda mais a esperança de achar simplesmente algo que possa ser vestido de qualquer jeito. Eu fico imaginando se eu precisasse de sutiã, eu mal consigo combinar meias, imagina combinar a roupa de baixo! Eu tenho (ou tinha, essa quarentena, como disse, tá bem misteriosa em relação ao vestuário doméstico) um par de meias soquetes que usava pra caminhar e malhar, sobretudo. Descobri que uma era da Nike e a outra não tinha marca. E pra mim uma era o par da outra, imagina então se eu ia usar uma calcinha e um sutiã da mesma cor? Eu digo isso porque tenho uma amiga que só pendura uma roupa amarela no varal com um prendedor de roupa igualmente amarelo, se não for da mesma cor ela não consegue colocar no varal. Eu pressuponho que se ela tem esse cuidado no varal deve usar calcinha e sutiã combinando também. Mas por falar em varal... E o ferro de passar? Nem ferro de passar tá passando em nada. Eu estou tentando não enlouquecer, vou me preocupar com o ferro? Nem sei onde tá. Alias, não sei onde está muita coisa, cancelei foi o meu cartão do banco digitando a senha errada porque os números não estavam no canto certo da minha cabeça, decerto! Mas as roupas... Ah!, se pudéssemos ser todos naturistas. Mas, claro, tem coisas que não dá pra fazer pelado, como cozinhar (que é o que aparentemente a maioria das pessoas tem feito). Eu conheço a triste história de um cara, do pinto dele e de uma jarra de café que só não é mais trágica e triste porque envolve o poético orvalho da manhã o que torna tudo mais suave numa narrativa. Até uma queimadura no pinto (acho, porque agora eu não estou no meu lugar de fala, já que nunca queimei o meu). E outra: ainda existem os casos em que encontramos a roupa, mas ela mudou de tamanho, ficou apertada e não nos serve mais. Por que será? Duvido que eu tenha engordado. Mas, ainda assim, é raro, porque, ao que parece, o fato é esse... A roupa não somente desconhece o isolamento dentro da gaveta como, ao que parece, também está roupando as sinapses da gente e desenvolvendo sua própria inteligência artificial. Em breve, mais um conto apocalíptico de 2020: A revolução das roupas! E talvez eu descubra que pior que ganhar meias de presente talvez seja ser enforcado por elas como exemplo para todos os outros seres humanos pararem de deixa-las cheirando a mofo e naftalina.
- top 7 de curiosidades do início dos quadrinhos: as tirinhas.
O formato que popularizou as Histórias em Quadrinhos no mundo foi o formato Tira de Jornal. Seu fácil acesso, seu alto poder de síntese e facilidade de compreensão granjearam a atenção, simpatia e afeto de leitores de todas as idades e de todas as classes sociais. Dito isto, listamos a seguir algumas curiosidades a respeito das tiras e seus personagens mais antigos que mostram como a influência dos quadrinhos são intensas na sociedade desde suas origens até os dias de hoje. 7 - O POLÊMICO MARCO ZERO DA HQS (e Tiras): Antes de mais nada é importante dizer que sempre que falamos em marco zero de algo, quase sempre estamos falando de algo polêmico. E com quadrinhos não é diferente. Existe muita discussão sobre se Richard Outcault foi ou não o marco zero (via de regra os brasileiros concordam que tenha sido Angelo Agostini), mas é inegável que de todos os elementos constitutivos das histórias em quadrinhos "modernas", Outcault é quem mais condensa eles (nao todos, mas a maioria). E é por isso que ele entrou para a história dos quadrinhos com o lançamento de seu personagem Yellow Kid, em 1895, no jornal New York World. Este fato é usado como um marco zero para o estudo acadêmico das histórias em quadrinhos, embora seja sabido que existem manifestações bem anteriores que poderiam cumprir igualmente esta função. O Yellow Kid recebeu este nome por que vestia um camisão amarelo — a cor mais fácil de ser impressa naquela época. Eram fins do século XIX e os jornais New York Journal e New York World disputavam mercado, um dos elementos que atraía vendas era justamente as tiras e o criador de Yellow Kid protagonizou a disputa com ambos os lados oferecendo cada vez mais dinheiro pela sua colaboração. Tantas intrigas foram geradas em paralelo a isto que o termo "Yellow Jornalism"; virou sinônimo de Jornalismo sem escrúpulos. No Brasil, em 1959, o jornalista Alberto Dines (jornalista brasileiro conhecido por apresentar o programa de TV Observatório da Imprensa) elaborava a seguinte manchete: "Imprensa amarela leva cineasta ao suicídio", quando o editor sugeriu trocar amarelo por marrom, devido o amarelo ser uma cor muito amena. Assim, no Brasil o termo Jornalismo Amarelo, ou Imprensa Amarela ganhou outra coloração. 6 - O PRIMEIRO PERSONAGEM DOS QUADRINHOS COM PRODUTOS LICENCIADOS : No ano de 1902, trabalhando para o jornal New York Herald, Outcault (o mesmo criador do Yellow Kid) lançou Buster Brown, um pequeno garoto travesso sempre acompanhado de seu cãozinho Tige. Em 1904, aproveitando a popularidade da tira, negociou o direito de uso de seu personagem para várias empresas, entre elas a Brown Shoe Company que tratou de lançar uma linha de sapatos devidamente nomeada Buster Brown, com isso configurando uma das primeiras práticas de licenciamento de personagens de quadrinhos. 5 - A PRIMEIRA HISTÓRIA EM QUADRINHOS DO BRASIL: O jornalista e ilustrador Angelo Agostini publicou na revista carioca Vida Fluminense: As aventuras de Nhô Quim, em 30 de janeiro 1869. A trama narrava as desventuras de um caipira tentando sobreviver na cidade grande. No seu aniversário de publicação (30 de janeiro) foi instituído pela Associação dos Cartunistas do Brasil o Dia do Quadrinho Nacional. Faça a fineza de não confundir com Dia Nacional dos Quadrinhos, o Dia do Quadrinho Nacional é uma celebração do Quadrinho Brasileiro, a grosso modo: quadrinhos produzidos e publicados no Brasil. Agostini também foi responsável, juntamente com Luiz Gama, pela fundação da revista Diabo Coxo, com conteúdo humorístico ácido e abolicionista. 4 – A PRIMEIRA HEROÍNA DOS QUADRINHOS: Em 1833 nas Aventuras de Zé Caipora, Angelo Agostini apresenta INAIÁ, uma indígena de muita personalidade e de grande força física. A personagem é apontada por alguns historiadores como a primeira heroína de aventura das Histórias em Quadrinhos precedendo Sheena e Mulher-Maravilha em cerca de 100 anos. A tira de Zé Caipora também é considerada precursora do gênero aventura nas histórias em quadrinhos. A estreia de Tarzan nas tiras foi em 1928. As aventuras de Tintin, de Hergè, estrearam em 1929. Claro, claro, que tem a polêmica com Yellow Kid. Mas se levarmos em consideração que a primeira história em quadrinhos do mundo nasce no Brasil com Angelo Agostini, nossa Inaiá fica numa liderança cronológica ainda mais evidente com seu pioneirismo! 3 – O PRIMEIRO SINDICATE DO BRASIL: A primeira agencia a distribuir Tiras e Quadrinhos no Brasil foi a agencia RECORD, fundada em 1940 por Alfredo Machado e Décio de Abreu, nos anos 60 a agencia mudaria o foco de trabalho para tornar-se a Editora Record. Em 1946 surgiria a Agencia Periodista Latino-Americana (APLA), em 1979 mudou o nome para Inca Press e funcionou até 1993. Nos anos 60 surge a CETPA (Cooperativa e Editora de Trabalho de Porto Alegre) que distribuia trabalhos de artistas brasileiros, entre eles: Júlio Shimamoto, Getúlio Delphin e João Mottoni. Ainda nos anos 60, Maurício de Sousa criou seu próprio Syndicate e distribuiu tiras de vários autores, incluindo Shimamoto e Flávio Colin. Até os anos de 1980, 80% das tiras publicadas no Brasil eram estrangeiras. Com a intervenção da Agência Funarte (Fundação Nacional de Artes) sob coordenação de Ziraldo os quadrinhos nacionais ganharam mais espaço. Nos anos 90, o Presidente Collor de Mello decretou o fechamento da agência , que se tornou um empreendimento particular gerido por Ziraldo sob o nome de Agência Pacatatu, o que garantiu 50% dos espaços de tiras com material nacional. 2 – O PRIMEIRO PERSONAGEMDOS QUADRINHOS A SER HOMENAGEADO NUMA ESTÁTUA: O Marinheiro Popeye estreou em 17 de janeiro de 1929 na tira Thimble Theatre. O personagem ganhou tanta popularidade, que o consumo de Espinafre (vegetal que ele ingeria para conferir força sobre-humana) aumentou 33% entre 1931 e 1936. Uma pesquisa de 2010 mostrou que crianças passavam a comer mais espinafre depois de ver desenhos animados do Popeye. Em Cristal City (Texas) a comunidade de cultivadores de espinafre ergueu uma estátua na praça central da cidade em reconhecimento aos serviços prestados por Popeye para a indústria do espinafre. Em Chester (Illinois), cidade natal do criador de Popeye, Elzie Crisler Seagar (E.C. Siagar), há uma outra estátua do personagem. E, na capital mundial do espinafre, Alma (Arkansas), há mais uma estátua no Popeye Park, o local onde ocorre a Feira Anual do Espinafre. 1 – COMO SURGIU O MAIS TRADICIONAL FORMATO DAS HQS: O famoso formato Comicbook, das revista norte-americanas, surgiu à partir de uma experiência do representante de vendas Maxwell Gaines. Ao ver que muitas pessoas adquiriam os jornais apenas para ler as tiras —muitos imigrantes aprenderam a ler e escrever com as tiras por conta do apoio visual e do contexto das cenas— Gaines dobrou os encartes, formato tablóide, e após colocar um adesivo de 10 cents, distribuiu apenas os encartes em algumas bancas. Após verificar a venda espantosa adotou o formato e começou a publicar revistas cujo conteúdo eram os personagens e tiras famosos de jornais. Assim nasceu o formato americano e as primeiras revistas norte-americanas de quadrinhos. JJ Marreiro JJ Marreiro é cartunista, ilustrador, arte-educador, colecionador e pesquisador de quadrinhos. Seu trabalho transita entre o estilo da era de ouro dos quadrinhos, o mangá , o acadêmico e o cartum. Trabalha com humor, quadrinhos institucionais e educacionais e metalinguagem. É fã de Star Trek e criador do blog LaboratórioEspacial.
- Surtos de Sustos
Eu estava aqui vendo um anúncio do excelente filme Parasita, de Bong Joon Ho, que, como todos nós sabemos, assustou todo mundo, no melhor sentido da coisa (sim, porque arte também é feita para assustar mesmo) e pensei como já tem alguns anos - talvez quase uma década - que estamos vivendo um surto de cinema sul-coreano e penso como isso é horrível. Não que o cinema sul-coreano seja ruim, muito pelo contrário, posso fazer listas e listas dos Topping Topers of The Top de vários filmes da Coreia do Sul, um país que, como bem sabemos, tem muita história para contar! O que é ruim é justamente o surto. Explico... Quando eu ia numa locadora de filmes antigamente, sempre via uma seção “filmes de arte estrangeiros” e, óbvio, os americanos não estavam lá. Porque, via de regra, só conhecemos filmes estadunidenses e anglófonos de um modo geral. Mas existem os surtos. E essa prática se repete nos catálogos de streaming. De repente, por algum motivo, somos "gentilmente" inundados por uma série de filmes, discos, livros, quadrinhos de algum país ou região do globo que dificilmente chegavam até nós. Eles vêm. E depois vão. Claro que se você é estudante de cinema (ou já trabalha com isso), você tem um acesso mais fácil (ou menos difícil) a cinematografias “não óbvias”. Mas imaginemos a pessoa leiga, que é refém daquilo que é oferecido a ela, que não pesquisa sobre cinema até porque não sabe onde ou como fazê-lo. Vamos pensar num serviço de streaming. Vou dar um exemplo de uma série: a vertiginosa La Casa de Papel. Foi só essa série furar o bloqueio majoritariamente estadunidense que um monte de série espanhola apareceu nos catálogos de streaming. E não somente séries novas como As Telefonistas (que em nada se relaciona com La Casa de Papel além de ser falada em espanhol), mas também séries que já tinham sido lançadas ganharam uma atenção extra, como Vis a Vis ou Merlí (que também pouco tem em comum com as séries citadas além de ser espanhola ou, mais especificamente, catalã). Mas existem outros exemplos. No começo dos anos 2000, o surto foi o do cinema argentino (sobretudo os estrelados por Ricardo Darín, mas não se limitando a eles, como Garagem Olimpo, de 1999, e Prata Queimada, de 2000). Acho que o surto começou oficialmente com o eletrizante e divertidíssimo Nove Rainhas, de Fabián Bielinsky, passou por uma espécie de redescoberta de alguns filmes fabulosos (e de certo modo clássicos) do principal diretor argentino, Fernando Solanas, compreendeu um dos maiores sucessos de Lucrécia Martel (O Pântano, de 2001) e culminou com O Segredo de Seus Olhos, de 2009. E pronto. Alguns filmes, como Relatos Selvagens, de 2014, ainda rompem o fim desse “surto” e chegam aqui. É triste pensar que aqui no Brasil conhecemos tão pouco do nosso principal vizinho, mas ao mesmo tempo é interessante perceber que esse “boom” argentino facilitou também os lançamentos de filmes mexicanos, como Amores Brutos (que “revelou” o ator Gael García Bernal e o diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu), O Crime do Padre Amaro, de 2005 (também com Bernal), E Sua Mãe Também de Alfonso Cuarón (outro com Bernal e também com Diego Luna) e pelo menos um filme uruguaio: o Banheiro do Papa, de 2007, dirigido por César Charlone. Outro exemplo: se você se interessar por cinema e estiver, pelo menos, na faixa dos 40, vou fazer um convite a viajar um pouco mais pra trás, porque você deve lembrar que nos anos 90 tivemos, ao menos aqui no Brasil, um surto semelhante: o do cinema iraniano. Era impossível ser uma pessoa descolada sem, no meio de uma roda "cult bacaninha" de conversa, falar sobre Samira Makhmalbaf, Abbas Kiarostami, Jafar Panahi. E embora muitos desses realizadores estivessem de certo modo no seu auge nos anos 90, esse surto permitiu que obras dos anos 70 e 80 de Abbas Kiarostami, por exemplo, fossem revisitadas. Quanto mais "cult bacaninha" se era, mais filmes iranianos você tinha em casa, em VHS. Esse surto foi relativamente bom até para quem não era do Irã, mas estava ali “nas adjacências”, como o diretor tajique Bakhtyar Khudojnazarov, que lançou seu excelente Luna Papa em 1999 (pra mim, simplesmente o filme mais fofo do mundo), e se beneficiou suavemente dessa onda, já que seu filme, uma coprodução internacional inteiramente rodada no Tajiquistão, em muito lembrou os filmes iranianos (sobretudo Gabbeh, de Mohsen Makhmalbaf, pai de Samira Makhmalbaf, lançado em 1995, dado seu realismo fantástico) e era comercializado (junto com alguns filmes afegãos) como sendo iraniano. Sim, porque "iraniano" acabou virando "gênero cinematográfico". Aliás, o filme é do Tajiquistão, mas na capa da cópia que eu tinha havia escrito bem grande: "Cazaquistão". Hoje em dia, se você for conversar com um jovem cinéfilo sobre cinema iraniano, existe uma possibilidade relativamente alta dele não conhecer nenhum filme (claro que existem exceções). Talvez a pessoa conheça Garota Sombria que Caminha na Noite, não exatamente por ser iraniano, mas por fazer parte de um outro surto: filmes independentes de terror. Mas certamente conhecerá muito da cinematografia da Coreia do Sul, que vive seu surto aqui no Brasil e no mundo desde o estopim de Old Boy, de 2003, adaptando uma sanguinária e original história em quadrinhos pro cinema (se encaixando em uma trilogia sobre vingança dirigida por Park Chan-Wook) e talvez um pouco devido a O Hospedeiro, de 2006 (um dos primeiros filmes de Bong Joon Ho). E, claro, não podemos nos esquecer da maciça difusão aqui dos doramas e do k-pop (que não é o “pop normal” anglófono) que contribuíram para esse “surto” de bens simbólicos da cultura pop coreana. Resta saber quando será o próximo susto de surto. Ou surto de sustos. E isso pra mim ficou muito evidente quando me convidaram para participar de uma mesa redonda com um tema altamente vago e altamente amplo: "Cinema Asiático". Num dado momento, depois de um tempo falando sobre o cinema iraniano, fui interpelado com a seguinte pergunta: "mas esses filmes são bons?". É claro que eu disse que eram bons, na verdade, que eram excelentes. Mas fiquei me perguntando a razão daquela pergunta e percebi que estávamos no começo do surto cinematográfico da Coreia do Sul, então, se fosse para falar de cinema "não estadunidense", só tinha espaço para o sul-coreano. Claro que, no momento, não me dei conta disso, mas essa lembrança ficou envolta nesse pequeno incômodo, que somente agora estou processando nesse pequeno texto. O que me lembra, aliás, de uma espécie de “quase surto” de interesse que presenciei em alguns lugares acerca do cinema finlandês dos anos 90, sobretudo os do diretor e roteirista Aki Kaurismäki (suspeito que isso se deu pela semelhança de alguns filmes dele com o cinema dinamarquês da época do Dogma 95, também uma espécie de surto em vários aspectos) e também de um microssurto: o do cinema alemão jovem (veja bem, na época era jovem). Filmes como Corra Lola, Corra!, de 1998 (de Tom Tykwer, que revelou não somente o próprio Tykwer, como a protagonista Franka Potente, cujo sobrenome soava para nós, lusófonos, ainda mais que perfeito para o filme, e Moritz Bleibtreu que, por coincidência, também estrela Luna Papa); Adeus, Lênin! de Wolfgang Becker, primeiro filme de sucesso internacional de Daniel Brühl (que, como todo bom alemão, hoje faz papel de europeu “genérico” e também de vilão em filmes estadunidenses) e que também conta com Chulpan Khamatova (a principal estrela de Luna Papa, que também é uma das minhas atrizes russas prediletas); Edukators (outro com Daniel Brühl); e o Grupo Baader Meinhof, de 2008, que meio que encerra o surto. Bom, mas nem só de cinema vivem os surtos. Eu poderia falar (e vou, mas não agora), por exemplo, sobre o surto de arte japonesa na Holanda e na França da Belle Époque, ou da descoberta das máscaras tribais africanas nos anos 20 por artistas europeus que estavam diante de uma verdadeira novidade da antiguidade. Mas vou citar coisas mais recentes... Se você acompanha a música pop independente, vai lembrar também do surto de bandas escocesas como Travis, Belle & Sebastian ou Franz Ferdinand, que veio na ressaca da enxurrada de bandas de britpop, como Oasis e Blur (percebam mais uma vez como é específico, existe o pop e o BRITpop da década de 90 - e isso porque estou citando os surtos mais "recentes", de 30 anos para cá), ou da onda de música pop experimental e pós-rock da Islândia da metade dos anos 90 até o comecinho da década seguinte (Björk e Sigur Rós), que gerou até o livro de Fabio Massari chamado Rumo à Estação Islândia, lançado em 2001 (cujo título é um trocadilho elegante e óbvio com a edição brasileira de To the Finland Station: A Study in the Writing and Acting of History de Edmund Wilson, lançado aqui como Rumo à Estação Finlândia), um misto de diário de viagem com catálogo fonográfico do país. É claro que existem casos famosos de pessoas que pararam de ouvir Belle & Sebastian porque ela virou uma banda conhecida e, portanto, perdeu a graça e o charme de ser “diferentona”. Mas a questão é que depois que o surto passa, voltamos a consumir mais do mesmo. Como se aquele país só tivesse feito filmes naquele período, como se o Irã não fizesse filmes desde 1921 e a Coreia do Sul desde 1930. Como se determinado país só tivesse lançado bandas naquele período, ou seja, tivesse toda sua produção cultural circunscrita a um punhado de anos ao passo que a indústria cultural anglófona não necessita de surtos, já que tem um fluxo constante. E é essa a tristeza: aparentemente, para conhecermos algo fora do nosso radar, é preciso que alguma obra fure a bolha para que outras peguem carona nela. E quem determina isso? Óbvio que é a obsessão por lucros de produtoras e distribuidoras que pegam carona nas mais diversas ondas que o mercado de bens simbólicos proporciona. Mas depender disso para abrir nossa mente é complicado. Tive alunos do curso de cinema que se restringiam ao que era exibido em salas de cinema (não havia ainda a febre do "streaming") e deixaram de conhecer diversos filmes que adorariam conhecer se pesquisassem mais, se enfiassem o nariz onde não “deveriam” e foi quando comecei a emprestar muitos "DVDs" do meu próprio acervo didático (e a perdê-los na sequência), o que incluía, a propósito, os primeiros filmes do próprio Bong Joon Ho e outros diretores e diretoras sul-coreanas. Mas pensemos agora na condição de um desafio: de quantos surtos precisaremos para descobrir, por exemplo, o rock da Turquia? As histórias em quadrinhos da Malásia? Os artistas plásticos da África do Sul? A nostálgica e linda Tezeta da Etiópia? A dança cênica do Congo? E as comidas? Quantos surtos de restaurantes de comidas típicas internacionais vem e vão e não ficam? E o que acontece depois do surto? As coisas deixam de existir ou deixam apenas de serem exibidas? É aí que entra a reflexão sobre quem ou o quê (no caso de ser um algoritmo) está escolhendo o que oferecer para você consumir. A "curadoria" (bem entre aspas mesmo, pois não quero me referir ao sentido curatorial mais erudito, conceitual ou estético que usamos normalmente no meio artístico e acadêmico, mas sim algo mais simplório, mais "bruto") de coisas e listas de coisas que valem a pena conhecer. Claro que cada lista é estritamente pessoal, mas aqui, na condição de um dos editores desta paradoxalmente humilde e pretensiosa revista - almanaque em forma de site, convidamos você para que entre e se esbalde, pois mostrar coisas legais para pessoas ainda mais legais é uma de nossas missões, uma de nossas funções e que abraçamos com alegria. E se a troca for interessante, é provável que um dia você esteja fazendo suas próprias listas para a gente da Arara Neon. Boas (re)descobertas!
- Qui Nem Jiló
É a minha música favorita do Luiz Gonzaga e do Humberto Teixeira. Quando fomos gravar o nosso primeiro disco, "Interiores", que tinha toda uma temática de falar do interior (do país e da gente - depois vou escrever sobre os discos dos Argonautas), só me ocorreu reinterpretar ela e "João e Maria", de Sivuca e Chico. Fiz esse arranjo para violão, acordeão, baixo, percussão, voz e 4 flautas, pois o disco foi feito com uma maravilhosa ajuda do quarteto "Ad Libitum", coordenado pela minha mãe. Gosto muito dessa gravação.
- É possível a poesia após o colapso?
Theodor Adorno, filósofo, sociólogo e esteta judeu, em 1949, nos afronta com a pergunta: “É possível a poesia após Auschwitz?”. Para ele, escrever poesia após o horror do mais famoso campo de concentração nazista da II Guerra Mundial era um ato bárbaro. O Nazismo promoveu, como todos nós sabemos, um dos maiores genocídios (senão o maior) de nossa história, matando principalmente judeus, mas nem de longe limitando-se a eles. Ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová e quem mais desse um mínimo de "motivo" era enviado aos diversos campos de concentração do país. Famílias foram destroçadas, dignidades massacradas... Crianças sofreram o que sequer deveriam sonhar. Poucos foram os que saíram de lá com vida. Auschwitz está ali como um trauma na nossa memória coletiva. Não pode ser apagado. Isso porque falo do trauma mais famoso, mas na própria II Guerra sobram exemplos. O holocausto sino-coreano promovido pelos japoneses, pouco citado entre nós, é igualmente pavoroso, bastando mencionar seu pior massacre, “O Estupro de Nanquim”, em que todas as mulheres e meninas da cidade de Nanquim sofreram torturas sexuais enquanto os homens eram decapitados. Como ser arrebatado em uma poesia sabendo que o poeta é um demônio em potencial? Como baixar a guarda para obras de arte adentrarem em nosso espírito nos tornando vulneráveis? Richard Wagner, por ser o fundo musical preferido dos campos de concentração alemães, até hoje muito dificilmente é executado por orquestras em Israel. O trauma pelo rompimento de laços éticos suplanta os valores estéticos e transformadores de uma obra. Mas, ainda assim, quantos poetas viveram e morreram após Auschwitz e quantos ainda não estão por vir? Ana Mae Barbosa, principal arteducadora de nosso país, diz que, se a arte não fosse importante, ela simplesmente não existiria desde os tempos das cavernas, sobrevivendo a toda e qualquer forma de menosprezo. A arte sempre existirá, a despeito da clareza acerca de sua função. Mas a pergunta é: que tipo de arte necessitamos hoje? Arte é linguagem e nós somos frutos de nossa linguagem, nosso meio fala através de nós (e não o contrário), de modo que os assuntos de nossa arte são os assuntos de nosso universo. E então atualizo a pergunta de Adorno: é possível ainda fazer arte após esse universo se tornar o mais visível colapso de nossa civilização, apresentando, diariamente, holocaustos diversos ao redor do mundo? É possível a pintura depois da guerra na Síria, do esfacelamento humano da Iugoslávia ou do massacre de Hutus por Tutsis em Ruanda? É possível a arte depois de um garoto de cinco anos prantear o assassinato do pai diante de si? É possível a dança depois das chacinas de nossa cidade, do assassinato de Marielle, de Chico Mendes e da irmã Dorothy? Depois da escravidão de nossos negros, da falência diária de nossos direitos humanos que nos chacina, estupra, molesta, assedia ou nos assalta todos os dias? É possível a música enquanto o machismo permanece ferindo mulheres, crianças, homossexuais, transgêneros, homens fora da curva? É possível a escultura durante nossa corrupção? É possível o cinema diante do nariz quebrado de professores a mando de políticos que nos agridem todos os dias? O teatro durante os assassinatos de profissionais de saúde que trabalham em áreas de risco? A resposta é sim, é possível e necessário. E até mais que isso, pois arrisco dizer que, mesmo durante grandes tragédias, existem breves momentos de alívio proporcionados pela arte. Tanto que Picasso transformou a tragédia do bombardeio à cidade de Guernica, completamente destruída em 1937 durante a Guerra Civil Espanhola, naquilo que talvez seja sua pintura mais famosa, a obra homônima à cidade. Há quem conte que um oficial alemão da SS nazista, ao ver o quadro no momento da vernissage perguntou a Picasso “o senhor fez isso?” ao que ele respondeu “não, foi o senhor”. A ideia não é modificar a arte, mas nos modificarmos para perceber aquilo que está à nossa volta. Nossa arte pode ser descompromissada (diretamente), mas nós não. Uma arte engajada, mas não engajada em partidos, como manda o senso comum - até porque o Partido Nazista tinha sua arte engajada -, pois isso é irrelevante, inútil e violento. Precisamos do engajamento com nossas coragens, com nossas dignidades que tínhamos antes do nosso colapso. Não creio que a arte vá salvar nosso país, acho que já estamos todos condenados. Mas, mesmo diante da morte, a escrita ainda é possível. Ainda que, a exemplo desta coluna, ela se finde com poucas certezas, muito silêncio, nenhuma esperança ou conclusão além dessa: A arte após Auschwitz é uma barbaridade. Sejamos bárbaros. A civilidade não nos pertence mais.
- Como são lindos os Gulags (Caravanas, de Chico Buarque)
A humanidade sempre olhou para o futuro com um desses dois sentimentos: inveja das inovações que haveriam de vir ou desprezo pelas promessas da juventude. É de encruzilhadas que a história da humanidade é composta. E estamos diante de mais uma. É como se estivéssemos prestes a levar um tombo. Um grande vacilo universal. Pênalti! Lembro das primeiras aulas do colégio, o destino da Terra era certo: a água do mundo vai acabar, o mico-leão-dourado vai ser extinto, as calotas polares vão derreter... Ainda não aconteceu, mas a ameaça persiste. Estamos prestes a... a quê? Falando assim parece que eu vou começar um ensaio antropológico. Não. Vou falar de uma coisa bem simples, mas que também nos remete à questão “aonde estamos indo?”. Chico Buarque. Poeta ou farsante? Vai pra Cuba ou pra Paris? O velho Francisco ou o coroa antenado? Esquerda ou direita? A grande encruzilhada passa pela identidade de cada povo. E a cultura é a manifestação maior dessa identidade. Gostar ou não do Chico deixou de ser uma questão de avaliação artística. Virou um posicionamento moral. A simples menção de seu nome pode gerar um franzir de testa ou um sorriso amistoso. Época peculiar. Não vou defender o posicionamento político dele. Tampouco criticar. Mas vou defender seus admiradores. Digo, primeiramente, que quem gosta do Chico, da sua poesia e até das suas ideias não é - necessariamente - um comunista genocida. Você acha mesmo que quem tem uma inclinação política de esquerda achou lindos os gulags e os paredóns? E que os de direita são todos sádicos, que acham que o pobre deve permanecer pobre? Que um cristão concorda, servil, com a inquisição? Tão ridículo quanto pensar isso é desmerecer a obra de um artista pelas suas convicções pessoais. Na verdade, se formos analisar a importância histórica de algumas figuras, seu próprio caráter é por vezes irrelevante. O fato de Wagner ter sido antissemita ou de von Karajan ter se filiado ao partido nazista pouco diz sobre seus legados artísticos. Picasso, ah o Picasso! Duas de suas mulheres enlouqueceram e duas se mataram. Devia ser um “ser humaninho” difícil. E nós, se acharmos a Guernica fascinante, automaticamente aprovamos o abuso familiar? Tudo bem que, no caso do Chico, ele está vivo e coloca nas letras suas ideias de mundo. Mas pare para ver como é lindo o mundo do Chico. Não tem paredóns nem gulags. Nem fogueiras. Tem um deus que arrancou as próprias tripas pra fazer a primeira lira e criar música. Seu mais recente disco, “Caravanas”, é magistral, em uma análise técnica. Tem só 9 canções, sendo 2 regravações, mas ele conseguiu, com 7 inéditas, dizer que se renova a cada álbum. Nesse sentido, é mais novo, atual e antenado que muitos de nós. A primeira faixa, “Tua Cantiga”, parceria com Cristóvão Bastos, tem um eu-lírico que, se não é machista, como muitos tentaram apontar, também não é um grande pai de família. Tá: o que um artista escreve reflete um pouco o que ele é. Tudo bem. Então Chico é como esse canalha, que larga mulher e filhos pra seguir a musa? Aí é que está a questão. A letra não fala sobre o Chico. A letra é o Chico. Um compositor que tem coragem de, no mundo do politicamente correto, colocar como protagonista da sua música de trabalho um vilão. Correndo o risco de ser confundido com ele! E aí ele diz “paratodos”: eu sou o passado, mas ainda posso apontar o futuro. Pois há de chegar o dia em que o Brasil vai entender que o poeta é livre. Deve ser julgado pela qualidade do seu trabalho. Lembram de quando um compositor passava horas escolhendo o melhor acorde? A melhor modulação? A melhor palavra? Isso ainda existe, ainda é possível. Foi o Chico que me contou. Não creio, porém, que a gente deva tomar esse disco como um manifesto ou como uma revanche pessoal de Chico. Esse disco não é contra ninguém. É a favor de várias coisas. Dentre elas, e principalmente, pra mim, a música brasileira. E isso não é pouco.
- Trenodia para as vítimas de hiroshima: um grito congelado no clarão da bomba
Em 1960, o compositor polonês Krzisztof Penderecki assombrou a todos com uma composição especial. A Trenodia para as Vítimas de Hiroshima (Threnody for/to the Victims of Hiroshima). A peça, assombrosa, não é nada convencional, mesmo para a época, quando a música se tornava cada vez mais experimental. Ela o alçou à fama mundial. Tenho um amigo muito querido, o Alencar, que conta que, quando trabalhava na Rádio Universitária, deparou-se com um disco com essa obra. Na capa do LP, tinha escrito "disco com defeito". O disco estava perfeito! Em vez de tentar descrever toda a ação que vitimou milhares, ele foca num momento e o dilata. Todos os japoneses gritam ao mesmo tempo. Na peça, esse momento é congelado, e esticado a ponto de ser perturbador. Sabemos que depois que a bomba de Hiroshima explodiu, entre o clarão e o momento em que os cidadãos foram atingidos, não se passaram os 8 minutos, como na obra: foi uma fração de segundo. É como se o compositor desse um zoom nesse momento e nos fizesse ouvi-lo ampliado e arrastado, com toda a sua confusão e desespero. Penderecki usa uma técnica polonesa chamada Sonorismo, que explora novas sonoridades nos instrumentos (no caso, 52 cordas), bem como novas formas de articulação, timbre, dinâmica e movimento. Faz uso também de clusters, acordes compostos por notas bem próximas, vizinhas. Tudo isso cria uma textura bizarra e altamente expressiva. Claro que a obra não fala só da explosão: tem corpos caindo, motores passando, sirenes soando... Até que vai morrendo. Trenodia, ou Elegia, é uma peça composta para celebrar a morte de uma ou, no caso, várias pessoas. A peça chocou o mundo, com sua visão crua e seca da tragédia. Vejam bem, ele podia escrever uma peça como o Adagio para Cordas, de Samuel Barber. Uma música sentimental e bonita, que parece falar do trágico, também. Mas ele opta pelo grotesco. E acaba tendo um efeito devastador na nossa psiquê. Eu comparo o efeito a uma situação em que a fotografia fala mais que um filme. O momento congelado, mais que uma narrativa linear. Krzisztof Penderecki faleceu em 20 de março desse 2020, aos 86 anos, em Cracóvia. Foi um compositor extremamente bem sucedido, tendo, nos anos 70, dado uma guinada de estilo: largou a vanguarda e veio fazer música tonal pós-romântica. A Trenodia foi usada como parte da trilha sonora de filmes como: Filhos da Esperança, de Alfonso Cuarón; As Criaturas Atrás das Paredes, de Wes Craven; e Odisseia para Além do Sol, de Robert Parrish. O compositor ganhou 4 Prêmios Grammy. Krzisztof Penderecki











