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- O país está queimando
O bioma Pantanal é considerado uma das maiores extensões úmidas contínuas do planeta. Este bioma continental é considerado o de menor extensão territorial no Brasil, entretanto, este dado em nada desmerece a exuberante riqueza que abriga. Apesar de sua beleza natural e diversidade abundante de espécies (entre elas, o lobo-guará, criticamente ameaçado de extinção, e a onça-pintada, espécie alvo de planos de conservação), este bioma sofre constantemente com a atividade agropecuária, principal responsável pelos incêndios criminosos que, em 2020, tomaram proporções catastróficas. Sem planos de combate e fiscalização, nos colocamos diante de uma das maiores tragédias ecológicas do planeta. No ano de 2019, foram queimados 3,2 milhões de hectares entre Bolívia, Paraguai e Brasil nos meses de agosto e setembro. O céu de parte desses países ficou coberto de fumaça por semanas. Nas previsões climáticas para o período mais crítico de 2020, era evidente que a falta de chuvas e o tempo seco seriam acentuados, quadro que deveria ter levado à preparação de um plano específico para cada estado (MS e MT) e um outro conjunto entre os dois, considerando prefeituras, Ibama, Marinha e outros. Com a ausência de investimento, bem como da organização de comitês específicos responsáveis pela contenção dos focos de incêndio, que deveria ser prioridade, rapidamente essa região tão rica do nosso país vem sendo dizimada. Segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), foram mais de 67 mil focos registrados até junho, sendo 70,3% no Mato Grosso do Sul. Na agenda, deveria estar a proteção de Unidades de Conservação (UCs), que correspondem a apenas 4,6% do Pantanal, dos quais 2,9% correspondem a UCs de proteção integral e 1,7% a UCs de uso sustentável (Ministério do Meio Ambiente, 2020). No momento, somam-se 3 milhões de hectares perdidos por conta de queimadas, o que equivale a 10% do bioma. Obviamente, precisamos também citar a impunidade acerca dos autores desse crime ambiental e o clima de baixa umidade, que é um fator que naturalmente colabora com a propagação do fogo com uma maior velocidade. Outro fator marcante, é que muitos incêndios se iniciam a partir das estradas que adentram o Pantanal, não existindo ações especiais preventivas com foco nessas rodovias. Dito isso, observando todos os aspectos naturais da região, que propicia esse tipo de incidente, o que incomoda é precisamente a falta de fiscalização, planos de contenção e, principalmente, a falta de punição aos causadores de todo esse caos. Não existe a possibilidade de debater tal assunto, sem mencionar a falta de compromisso e coerência por parte do principal órgão responsável (Ministério do Meio Ambiente), bem como a falta de interesse em relação à conservação de biomas brasileiros em geral, que já se encontram prejudicados em muitos quesitos de forma irreversível. No dia 10 de setembro de 2020, um vídeo produzido pela Associação de Criadores do Pará (AcriPará), que reúne pecuaristas do Estado, circulava nas redes sociais, inclusive compartilhado pelo atual ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e do vice-presidente da República Hamilton Mourão. Como uma ação de "contrapropaganda", seria uma resposta a grupos que criticam a política ambiental do governo do presidente Jair Bolsonaro. Esse vídeo trouxe informações de ascendência duvidosa, sendo utilizado para rebater os dados de ONGs de conservação em relação às queimadas. Segundo os pecuaristas, as ONGs estariam “difamando a imagem dos agropecuaristas da região amazônica”. A justificativa de Mourão para o misterioso aparecimento de um mico-leão-dourado no vídeo, tendo este sua ocorrência exclusiva no bioma Mata Atlântica, foi a de que “os agropecuaristas do Pará conseguiram fazer uma integração Amazônia-Mata Atlântica” e que “o Brasil é o país que mais preserva suas florestas no mundo”. Enquanto isso, o presidente do AcriPará informou que o uso do mico-leão-dourado foi uma “gafe” cometida pelos produtores do vídeo e “o que importa é a mensagem”. Em entrevista à CNN, o secretário do Meio Ambiente de MS, Jaime Verruck, alertou: "Ouvi uma matéria em que o vice-presidente diz que nem todas as queimadas são ilegais. No Mato Grosso do Sul, todas as queimadas são ilegais, porque elas estão proibidas desde o mês de julho, a gente veda qualquer tipo de queima controlada". E, segundo matéria do site Clima Info, a Polícia Federal cumpriu 10 mandados de busca e apreensão no Mato Grosso do Sul, em endereços de cinco fazendeiros que teriam se organizado para atear fogo intencionalmente na vegetação de suas fazendas em áreas remotas do Pantanal. No ano de 2019, mais precisamente no dia 28 de agosto, foi publicada uma matéria no site do G1 que apontava três fazendeiros como autores também de crime ambiental no sudeste do estado do Pará, responsáveis pela queimada de uma área de mais de 5 mil hectares de floresta em local de reserva ambiental. O que dá a entender é que esses criminosos se aproveitam da época que propiciam as “queimadas naturais” para cometerem esses atos, que são chamados de “dia do fogo”, que, na maioria das vezes, fogem ao controle. Ano passado, houve intervenção de vários órgãos ambientais, bem como do Exército Brasileiro, no combate às chamas, diferente deste ano, que, sem verba governamental, os órgãos responsáveis precisam contar com a ajuda de voluntários e doações para a interrupção das queimadas. E sim, o título está com o verbo no tempo certo. Está queimando. Continua queimando e parece não ter data para acabar. O que se espera, no mínimo, é uma resposta do governo federal a respeito de quais ações serão adotadas para resolver esse problema que já se instalou, e de punição aos aparentes culpados por iniciarem essa situação que está destruindo o que resta de mais precioso em nosso país. Em tempo: O Buzzfeed fez uma matéria sobre como ajudar e se informar sobre a situação que pode ser lida no link abaixo: https://www.buzzfeed.com/br/gaiapassarelli/fogo-no-pantanal-como-ajudar-e-se-informar Fontes acessadas: Ecoa: www.ecoa.org.br G1: www.g1.com.br Ministério do Meio Ambiente: www.mma.gov.br Matéria G1 2019: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2019/08/29/policia-identifica-fazendeiros-suspeitos-de-provocar-queimadas-no-sudeste-do-para.ghtml UOL: https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2020/09/19/todas-as-queimadas-no-pantanal-do-ms-sao-ilegais-diz-secretario-do-estado.htm DANIELA "Chimp" DIAS é professora de Biologia e Ciências, e amante de etologia e evolução, principalmente de primatas. É mestra em Avaliação de Impactos Ambientais (Manejo e Conservação da Biodiversidade). Se amarra em tudo relacionado ao terror/horror e serial killers. Curte uns metal e sua banda favorita é o Pantera.
- Lições que aprendemos com a covid 19
Escrevo esse texto como um cientista, um cientista privilegiado. Tive o privilégio de estudar com pessoas que hoje trabalham na linha de frente das pesquisas sobre a covid-19. Esse texto nada mais é do que um apanhado de informações coletadas em conversas com especialistas da área de virologia, inflamação e imunidade. O tema mais recorrente nessas conversas são os aprendizados que tivemos desde o começo da pandemia. Entre eles, temos uma lista dos nossos preferidos. Antes de mais nada, é preciso lembrar que essa doença simplesmente não existia um ano atrás. Em termos de ciência, nossos avanços, ainda que pequenos, são incrivelmente rápidos como nunca antes se viu na história. Fruto de um esforço de pesquisa conjunto a nível mundial. Uma dessas descobertas importantes foi o período de latência de até duas semanas, assim como no HIV, o período assintomático é uma vantagem para o vírus. Foi por essa característica que a contenção do vírus falhou sistematicamente, já que não se consegue medir o espalhamento do vírus pela manifestação dos sintomas. O problema é que os rastros de aparecimento dos sintomas não refletem a presença atual do vírus, apenas aonde ele chegou há duas semanas. Dessa forma, separar os que já estão doentes não elimina a contaminação por completo, apenas atrasa um pouco. Por isso a aposta defendida pela OMS era de atrasar a propagação. Ganhar tempo, deixar que a ciência trabalhe. Outra lição aprendida é quanto à natureza da própria doença. Não é apenas uma doença pulmonar, trata-se de uma infecção sistêmica que apresenta outros sintomas e outros tipos de manifestações além das que foram apresentadas inicialmente. Descobrimos que não é simplesmente uma doença terrível para idosos e pessoas com outras doenças (mais uma vez sou obrigado a traçar um paralelo com os grupos de risco da AIDS). Hoje o número de mortos ainda é maior entre pessoas acima dos 60 anos, mas o número de internações de casos graves cresceu muito na faixa etária entre 30 e 40 anos. Esse detalhe fica ainda mais importante quando pensamos em outro fator diversas vezes ignorado, as limitações logísticas. Você deve ter ouvido falar na "guerra contra a covid-19"(sic). Pois bem, do ponto de vista logístico estávamos terrivelmente despreparados para essa guerra. O mundo todo correu para comprar máscaras e respiradores, sedativos para os pacientes que seriam entubados, novos leitos de UTI. Mas as prateleiras do mundo esvaziaram muito rápido, e diante do cenário de escassez assistimos uma disputa desigual dos recursos. Isso basicamente significa que se não há recursos para atender todos os casos graves, pessoas que poderiam sobreviver com tratamento adequado acabam morrendo. Mais uma vez a ideia de achatar a curva parece uma boa maneira de salvar vidas, afinal se o número de casos graves por semana estiver dentro da capacidade de atendimento dos hospitais, o número de mortos seria minimizado não é mesmo? Claro existe um peso econômico nisso, mas estamos falando de prioridades aqui, ou deveria ser. O fato é que a experiência do confinamento pela metade feito no Brasil cobrou um preço muito caro, até o momento que escrevo mais de 119 mil mortos*. Mas afinal valeu a pena confinar as pessoas e esperar pela ciência? Bom hoje já temos estudos com vacinas em estágios avançados de desenvolvimento. Lembrando que a vacina em si não seria uma solução definitiva. É que assim como a gripe o corona vírus é um vírus de RNA ou seja ele possui uma capacidade de mudar tão rápido que vacinas se tornam ineficazes em pouco tempo. Uma campanha de vacinação anual é um desdobramento muito mais realista do que uma injeção que dure para a vida toda. Mas além da vacina outros avanços foram feitos. Um que me orgulho muito em citar é o projeto do soro anti-covid-19. Me orgulho por ser um trabalho da ciência brasileira e me orgulho demais por ser o trabalho de um grupo no qual trabalham algumas pessoas que conheço. A ideia é produzir anticorpos em cavalos para tratar pacientes humanos assim como já fazíamos (e ainda fazemos) para picada de cobra o que remete ao fato de que pode até existir muita gente no movimento antivacina, mas ainda não existe um movimento contra o soro antiofídico. Os resultados iniciais mostram que os anticorpos produzidos por cavalos são 100 vezes mais eficientes do que anticorpos humanos. Essa pesquisa não tem a pretensão de criar sozinha um mundo onde a covid-19 não seja um problema, mas pode fazer uma enorme diferença quando aplicada a pacientes em estado grave. Inclusive está aí outro aprendizado. Descobrimos que o tratamento precoce com corticóide nos casos mais leves não é recomendado, mas pode salvar muitas vidas quando administrado nos casos mais graves. Se você leu até aqui e está se perguntando onde foi parar a cloroquina nesse texto, saiba que em relação a isso e a todas as medidas anticientíficas tomadas até aqui pelo nosso governo, tudo o que tenho para dizer é que acho espantoso descobrir como as frases de Caetano Veloso escritas há tanto tempo continuam atuais. Deixo elas aqui para que reflitam: “ou então cada paisano e cada capataz, com sua burrice fará jorrar sangue demais nos pantanais nas cidades caatingas e nos Gerais?” Não é à toa que todos ou quase todos os filmes de tragédias naturais que você já assistiu começavam com cientistas emitindo alertas que eram ignorados. Tomar decisões que vão contra o conhecimento cientifico é uma atitude irresponsável e essa talvez seja a maior lição cientifica dessa pandemia. A lição que já deveríamos ter aprendido a muito tempo, mais antiga que os versos de Caetano. Ciência não se rebate com opinião, ciência não se ignora, aqueles que o fazem estão condenados ao fracasso. André Pinheiro: Nascido no Ceará e radicado no Rio de Janeiro, cursando doutorado em biofísica pela UFRJ atualmente pesquisando na área de toxicologia ambiental sobre a bioacumulação de microplástico. Nerd assumido e aventureiro da cozinha nas horas vagas. *no dia que este texto foi ao ar o número de mortes ocasionadas pela pandemia de Covid-19 estava em 144.680. Fonte: encurtador.com.br/vELVX
- A ARARA QUE BRILHA: SEMELHANÇAS E DISTANCIMANENTOS ENTRE A PANDEMIA DA COVID-19 E A EPIDEMIA DE AIDS
Devido aos meus anos de experiência na luta contra a AIDS, sei que respostas para epidemias como essa causada pela COVID-19 são construídas em conjunto por ativistas, pesquisadores e profissionais de saúde. Sendo assim, tenho olhado muito para a história da epidemia de Aids em busca de lições. Estou certo de que há nesse passado recente pistas importantes sobre como sobreviver a esses dias cinzas marcados por mortes maciças, histeria e medo. Todas as vezes em que eu trago a comparação entre HIV e COVID-19, pelo menos alguém se apressa em me dizer: a pandemia não está afetando exclusivamente a população gay e trans como no caso da HIV. Se eu não o interrrompo, o ser humano segue e me informa orgulhoso que o COVID-19 não é um vírus fortemente associado a um grupo estigmatizado ou um conjunto de grupos estigmatizados, como era o caso do HIV no começo da epidemia. Relembro ao meu interlocutor que atualmente quem ainda é diagnosticado e morre de AIDS são negros, gays e as pessoas trans não brancas. Não é coincidência que seja essa a mesma população que está sendo mais afetada por COVID-19. Tenho insistido que precisamos entender que muito da nossa resposta a qualquer vírus vem do medo. Um vírus expõe nossa mortalidade. E se o COVID-19 tem relembrado disso, a epidemia de AIDS não só fez a população gay e trans entender isso, como deixou um traço que persiste na cabeça de muitos de nós: a qualquer momento a nossa sexualidade poderia nos fazer ficar doentes e morrer. Atualmente, tenho visto muita gente na internet expondo as pessoas que saem na rua, aqueles que têm encontrado seus entes queridos. Como um homem gay, vejo muitos homens gays julgando uns aos outros não somente por querer sair pra transar, mas também por estarem no Grindr. Deixe-me ser bem claro: nenhuma dessas práticas é boa do ponto de vista da saúde pessoal ou coletiva. Eu desencorajaria qualquer um a sair por uma razão não essencial e recomendaria as pessoas a acharem formas para explorar uma sexualidade saudável durante esse tempo: sexo por telefone, por vídeo, masturbação. A escolha aqui é do freguês. Tenho visto muito material jornalístico discutindo sobre o que significará ter intimidade com alguém, e manter a nossa sanidade em um momento em que estamos sendo instruídos a manter distância uns dos outros. As pessoas têm escrito sobre festas sexuais digitais, como ter intimidade em tempos de distância, e como se masturbar quando você não tem o privilégio de uma porta fechada. Cada um de nós, especialmente as pessoas trans, pessoas não brancas e aqueles, como eu, na interseção, têm uma relação intensa e pessoal com a epidemia de AIDS. Cada um dos nossos traumas ligados a isso é singular, como nossas impressões digitais. No Brasil, para além das questões de estigma e discriminação que afeta diretamente a população gay, trans e pessoas que vivem com HIV/Aids, também estamos enfrentando o desmonte do Sistema Único de Saúde (SUS), isso como uma forma sofisticada de executar a política de morte das populações negra, pobre e LGBTI+, através da total desassistência à saúde. Juntemos a isso os adoecimentos provocados pela falta de saneamento básico e os bolsões de pobreza cada vez mais frequentes devido ao aumento da desigualdade social. Estamos todos reaprendendo como se manter vivos e não permitir que a arara perca seu brilho neon, aqui quero trazer minha amiga e colega de luta, Dediane Souza, travesti, negra e nordestina: Hoje em dia e para algumas pessoas os espaços de socialibilidade LGBT foram vistos apenas como “guetos” de exclusão, mas, embora sejam resultado direto da LGBTfobia, são também espaços de acolhimento, de construção de relações de afinidade, solidariedade e organização de redes. Não se trata, aqui, de um coro à ideia homogeneizante de comunidade, mas de entendermos que as mudanças políticas necessárias, naquele tempo (final dos anos 80 e início dos anos 90) e hoje (final da primeira década do séc. 21), para este tempo demandarão olharmos de um modo diferente para o principal propulsor das lutas pelo fim do preconceito e da discriminação, a saber, as pessoas e suas aspirações por felicidade. Adriano Caetano: filósofo de formação, mestre em sociologia e doutor em saúde coletiva, quase uma puta teórica! Ativista LGBTQI+ e da luta contra Aids, noia das lives, leitor voraz da literatura contemporânea, mais especificamente, escrita por mulheres porque os homens que lutem(!)
- Nem tudo o que parece é
Como sabemos, a biologia não é uma ciência exata. É uma área onde a verdade absoluta não existe e a aleatoriedade é quem manda. Agora partindo desse princípio: e se eu te disser que, nos seres humanos, biologicamente, o sexo do bebê não é determinado somente pelos cromossomos sexuais tão conhecidos (X e Y)? E se eu te disser também que isso é tão real, que existem indivíduos fenotipicamente (características externas) masculinos, porém, com genótipo (características genéticas) feminino e vice-versa? Chega mais então, que eu vou te contar sobre a intersexualidade, mas antes, aqui vai uma revisão básica sobre os cromossomos. Segundo a definição tradicional, cromossomos sexuais são um tipo de cromossomo encontrados em células da maioria dos organismos, que determina o sexo dos indivíduos. Nos seres humanos então, são determinados os pares XY para os indivíduos machos e XX para os indivíduos fêmeas. Os seres humanos possuem no total 46 cromossomos, 23 herdados da mãe e 23 herdados do pai, sendo um par então dos chamados cromossomos sexuais. Na esfera médica, em 1917, o termo "intersexualidade" foi utilizado provavelmente pela primeira vez no sentido de fazer referência "a uma gama de ambiguidades sexuais, incluindo o que antes era conhecido como hermafroditismo". Nos anos de 1990, essa denominação foi apropriada também pelos ativistas políticos intersex engajados na luta pelo fim das precoces cirurgias "corretoras" de genitais ditos "ambíguos". Entretanto, é preciso salientar que médicos e movimentos políticos não definem "intersexualidade" de maneira idêntica. Os grupos de ativismo intersex normalmente oferecem outras definições para o termo, por meio das quais buscam contestar a ideia de patologização da intersexualidade, assim como aumentar as possibilidades do que é possível de ser incluído no termo para além das definições médicas. Segundo especialistas, entre 0,05% e 1,7% da população mundial é intersexo. A maior taxa de estimativa é semelhante ao número de pessoas naturalmente ruivas. Calcula-se que a cada 1500 nascimentos, 1 seja de indivíduo intersexo com características nos genitais tipicamente femininas, e a cada 2000 nascimentos, 1 individuo nasça com características genitais tipicamente masculinas. Tal como as pessoas não-intersexo, a identidade de gênero, expressão de gênero e orientação sexual de uma pessoa intersexo possui variantes de indivíduo para indivíduo. Dito isso, gostaria de atentar aqui a duas “síndromes” relacionadas a esse tipo de diferenciação sexual: Síndrome De la Chapelle ou Síndrome do Homem XX e a Síndrome da Insensibilidade Androgênica ou Síndrome de Morris. Na síndrome De la Chapelle, o indivíduo possui cariótipo (conjunto de cromossomos) XX, porém basicamente, desenvolve características tipicamente masculinas. Afeta entre 4 a 5 indivíduos em cada 100.000 recém-nascidos. Entre os aproximadamente 210 milhões de brasileiros, pode-se estimar de 8 a 10 mil pessoas com a Síndrome De la Chapelle. A maioria das pessoas com De la Chapelle não apresenta ambiguidade genital, de modo que o diagnóstico só pode ser feito na idade adulta para descobrir a causa da infertilidade ou na época da puberdade quando estas desenvolvem mamas (conhecido como ginecomastia, cerca de 33% de indivíduos intersexo De la Chapelle apresentam essa condição). O diagnóstico geralmente é feito por estudo genético do cariótipo. Já a Síndrome de Morris (a forma completa da síndrome, chamada de "CAIS" ocorre estatisticamente em 1 a cada 20.000 nascidos), é uma condição intersexo caracterizada pela incapacidade parcial ou total da célula para responder aos andrógenos como a testosterona. Esta falta de resposta da célula prejudica ou impede o desenvolvimento do pênis no feto, bem como o desenvolvimento de características sexuais secundárias em indivíduos geneticamente XY na puberdade, mas não prejudica o desenvolvimento de características sexuais femininas. A maioria das pessoas com esta condição não são diagnosticadas até que não conseguem menstruar ou quando têm dificuldades para engravidar e descobrem que são estéreis. Ou seja, se uma pessoa não pretende ter filhos, ela pode nunca saber. Existem relatos de que a “determinação sexual fenotípica” é, na maioria das vezes, decidida pelos próprios pais no nascimento. Cirurgias de redesignação sexual à escolha dos progenitores, em combinação com os médicos, são bem comuns. Por isso, muitas vezes o indivíduo nem sabe que é portador do que eu gosto de chamar de “diferenciação cromossômica”. O que quero levantar com tudo isso é o seguinte: tenho visto, pelas redes sociais, muitos comentários ("haters", melhor dizendo) em posts de pessoas trans (identidade de gênero) criticando a escolha desse indivíduo ao optar por redesignação sexual, seja hormonal ou através de cirurgias, usando o fato de não poderem mudar os cromossomos (uma vez homem ou mulher cis, sempre cis*). Veja bem, não pretendo de forma alguma misturar intersexualidade com identidade de gênero, mas esse tipo de pensamento nos faz refletir sobre o quanto as pessoas são desinformadas e na maioria das vezes, utilizam dados biológicos equivocados como bengala para justificar seus preconceitos. Qualquer ser humano pode ser intersexo e nunca saber disso. A diversidade existe, seja ela cromossômica, de gênero ou sexual. A partir dessas informações, devemos refletir sobre como a natureza é incrível e que há espaço para todos viverem de maneira digna, sem interferências de outrem. *cisgeneridade: em estudos de gênero, é a condição da pessoa cuja identidade de gênero corresponde ao gênero que lhe foi atribuído no nascimento. Daniela "Chimp" Dias: é professora de biologia e ciências, amante de etologia e evolução, principalmente de primatas. É mestra em Avaliação de Impactos Ambientais (Manejo e Conservação da Biodiversidade). Se amarra em tudo relacionado ao terror/horror e serial killers. Curte uns metal e sua banda favorita é o Pantera. Fontes: Richard Goldschmidt, M.D. (Berl.), INTERSEXUALITY AND THE ENDOCRINE ASPECT OF SEX, Endocrinology, Volume 1, Issue 4, 1 October 1917, Pages 433–456, https://doi.org/10.1210/endo-1-4-433https://isna.org/ Schilt K, Westbrook L. Doing Gender, Doing Heteronormativity: “Gender Normals,” Transgender People, and the Social Maintenance of Heterosexuality. Gender & Society. 2009;23(4):440-464.doi:10.1177/0891243209340034 https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S1521690X0600087X Charmian A. Quigley, Alessandra de Bellis, Keith B. Marschke, Mostafa K. El- Awady, Elizabeth M. Wilson, Frank S. French, Androgen Receptor Defects: Historical, Clinical, and Molecular Perspectives, Endocrine Reviews, Volume 16, Issue 3, 1 June 1995, Pages 271–321, https://doi.org/10.1210/edrv-16-3- 271 Hawkins JR, Koopman P, Berta P. Testis-determining factor and Y-linked sex reversal. Current Opinion in Genetics & Development. 1991 Jun;1(1):30-33. DOI: 10.1016/0959-437x(91)80037-m. Intersex Society of North America https://isna.org/ Free & Equal https://www.unfe.org/wp-content/uploads/2017/05/UNFE- Intersex.pdf Fausto-Sterling, Anne (2000). Sexing the Body: Gender Politics and the Construction of Sexuality. New York: Basic Books. ISBN 0-465-07713-7. SANTOS, Moara de Medeiros Rocha; ARAUJO, Tereza Cristina Cavalcanti Ferreira de. Desenvolvimento da identidade de gênero em casos de intersexualidade: contribuições da Psicologia. 2006. 246 f. Tese de doutorado em psicologia. Universidade de Brasília, Brasília, 2006.https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/6315/1/2006_Moara%20de%20Medeiros%20Rocha%20Santos.pdf
- Sobre leituras e controvérsias: escritoras argentinas
Tradução de Rafaela Lobato Nestes dois últimos anos, minhas leituras, por interesse ou capricho, não sei, foram reduzidas a escritoras argentinas. Algumas delas fazem parte do circuito editorial de mercado, com reconhecimento em outros países, como Samanta Schweblin ou Agustina Bazterrica, e até mesmo que habitam espaços culturais oficiais como Mariana Enriquez, atual diretora da área de Letras do Fundo Nacional de Artes. As três são escritoras de mérito, ao meu gosto, com propostas de renovação de gênero. Bazterrica com Cadáver Exquisito, romance distópico de ficção científica sobre canibalismo, tocou o ponto exato da problemática da indústria da carne, do veganismo e, em última instância, as novas formas de conceber o humano e a reprodução, além de questionar a visão antropocêntrica diante de um crescente interesse pelo direito animal. O interessante do romance, além de sua qualidade literária, é de renovação da curiosidade sobre o gênero (também havia “mérito” de mercado nisso, também não vamos mentir) e despertou paixão/ fanatismo? em muitos leitorxs, muito interessadxs nos fenômenos que tematiza. Por sua vez, Enriquez se aventura na renovação do gênero do terror com dois volumes de contos: Las cosas que perdimos en el fuego e Los peligros de fumar en la cama (As coisas que perdemos no fogo e Os perigos de fumar na cama em tradução livre), trabalhando com uma marca registrada: finais abertos, histórias aparentemente inacabadas. Com este elemento narrativo desencadeou-se uma controvérsia incômoda entre os contadores de histórias herdeiros do terror clássico, ao Poe, com seus finais fechados e a busca do efeito para quem as histórias de Enriquez são defeituosas, "mal escritas"; e aqueles que entendem os finais abertos de Enriquez como um forte compromisso com a continuidade do efeito aterrorizante na busca perturbadora (e inútil) por respostas do leitor, onde o final aberto se funde com a realidade da existência. Samanta Schweblin também renova a narrativa, mas a partir da linha cortazária do fantástico cotidiano. Ela constrói mundos perturbadores onde a realidade se torna familiar e ameaçadora, às vezes apenas com a escolha particular de um ponto de vista narrativo, ou com um forçamento dos fatos em lugares inexplicáveis do comportamento humano. Tanto em seus três livros de contos El núcleo del disturbio (O núcleo da perturbação em tradução livre), Pássaros na boca e Sete casas vazias, como em seus dois romances, Distância de Resgate e Kentukis, ela trabalha meticulosamente com a linguagem e as imagens que desencadeiam níveis complementares de leitura entre o estranho e o fantástico, admitindo o alegórico ao encerrar suas histórias; precisamente a mais interessante, eu acho, de sua literatura. Porém muitos outros nomes interessantes, além dos ressonantes, circulam alegremente. Resgato, por exemplo, os romances de Laura Alcoba, La casa de los conejos (A casa dos coelhos em tradução livre), El azul de las abejas e La danza de la araña (O azul das abelhas e A dança da aranha em tradução livre), é uma trilogia sobre a memória dos crimes ocorridos durante a Ditadura Civil Militar de '76 na Argentina. Os três romances trabalham o relato histórico a partir da autobiografia, com uma prosa muito emocional. Também a coletânea de poemas La esposa de Sandro (A esposa de Sandro em tradução livre) e o romance Las Malas (As malvadas em tradução livre), de Camila Sosa Villada, duas obras intensas, de grande beleza poética, e ao mesmo tempo comoventes, cruas, que retratam o mundo emocional e a hostilidade em que a comunidade travesti vive. E por falar em ressonar, abro um parêntese particular para Gabriela Cabezón Cámara, com seu romance As Aventuras da China Iron, em que ela reescreve El Martín Fierro, a obra fundadora da Literatura Argentina, a partir de uma perspectiva de gênero extremamente interessante e disruptiva da "tradição nacional". Apenas algumas semanas atrás, esta escritora se pronunciou sobre a questão dos direitos autorais e regalias da abertura de uma biblioteca virtual que compartilhava materiais protegidos por direitos autorais em formato digital sem a autorização de todxs. Cabezón Cámara pediu "pensar no outro" antes de compartilhar materiais sem permissão, e acendeu um estopim interessante para pensar sobre um tema duro que precisa, sem dúvida, estar no centro da discussão atual sobre edição, abuso e exploração do mercado editorial nestes tempos (ou desde sempre?), a democratização dos conteúdos e o acesso à cultura. Essa polêmica dividiu as águas entre colegas e trabalhadorxs da cultura, baixou os polegares, agrupou bandeiras e não deixou ninguém indiferente vinculado ao mundo literário e cultural. Selva Almada, por exemplo, autora de uma excelente não ficção intitulada Chicas Muertas, e do romance Ladrilleros, duas obras que recomendo vivamente, saiu em defesa daqueles escritores que se sentiram prejudicados pela situação, expressando a sua solidariedade com eles, e sua raiva com aqueles que, sendo colegas, compartilham as obras de outrxs sem a menor objeção. Parece que algumas coisas estão começando a ressoar e se mover dentro dos espaços de poder em que a cultura está organizada. Não apenas Cabezón Cámara abriu a polêmica, Mariana Enriquez também estava no centro da tempestade meses atrás devido a uma decisão surpresa dentro do mundo literário. O Concurso de Letras do FNA, cobiçado e esperado a cada ano por milhares de escritorxs, costumava incluir todos os gêneros, mas neste ano ele se restringiu aos gêneros de ficção científica, terror e fantasia, formas preferidas de Enriquez. Esta decisão gerou uma longa lista de denúncias contra ela, contra a Instituição e as políticas públicas de promoção e divulgação da cultura. Por fim, gostaria de mencionar, e além da polêmica, uma escritora fascinante e não tão ressonante quanto os nomes anteriores. Alejandra Kamiya é autora de dois belos livros de contos: As árvores caídas também são a floresta e O sol move a sombra das coisas (títulos em tradução livre). Nesse período de leitura que dediquei arbitrariamente às escritoras, os contos de Kamiya foram uma porta estranha que me conduziu ao poético por meio da narrativa. As histórias nesses livros são profundas e humanas. Contam com a delicadeza com que seguramos um pássaro nas mãos. Algumas são histórias muito tristes, outras muito simples na aparência, mas que se conectam com uma visão filosófica da existência. As imagens que ela constrói são belas, pura poesia. Até os silêncios são lidos. E encontrar dois desses livros de contos nestes tempos de ansiedade garantida e gritaria é um oásis de leitura. Portanto, aqui estão minhas modestas recomendações de leitura sobre escritoras argentinas, incluindo polêmicas que valem a pena ler e acompanhar nas redes sociais, para todxs vocês. * Infelizmente de todas essas autoras e livros resenhados, apenas Mariana Enriquez foi editada no Brasil (As Coisas que perdemos no fogo pela editora Intrínseca). Para ler este artigo na versão original clique aqui. Para leer este artículo en su versión original, haga clic aquí. Gostou? Quer ler mais sobre mulheres na literatura contemporânea? Aqui tem a resenha do um livro incrível de uma autora da Coréia do Sul. Mariana Cerrillo Mariana Cerrillo vive. É suficiente. Ela estudou Literatura, mas esqueceu algumas coisas. Gosta de conversar muito com alunos, amigxs e pessoas que a convidam a pensar e rir. Escreve e pesquisa. Às vezes, desenha. Nunca fica entediada. Rafaela Lobato Cyber poeta. Camaleoa que muda de cor de cabelo do neon ao branco. É da noite e do dia, leva o skate debaixo do braço por onde vai e não dispensa uma boa música brasileira. Tradutora de inglês, espanhol e italiano.
- Darren W. Chamberlain - o pianista que não é
Quando você escreve partituras no computador, você usa um programa feito pra isso. Esse programa (por exemplo, Finale ou Sibelius) toca a sua partitura, com um som sampleado, ou seja, pre-gravado. Ele já vem com os sons de alguns instrumentos, mas você pode comprar outros sons que lhe agradem mais. Um verdadeiro expert, com uma biblioteca de sons profissional, pode fazer uma orquestra sampleada soar quase como uma real. Mas ainda não chegamos no ponto em que esses samples substituam músicos de carne e osso. Na verdade, estamos bem longe. Estava eu pesquisando a discografia da Cristina Ortiz e tinha um álbum em que ela participava, mas não tocava todo. Na obra em questão, o Segundo Concerto para Piano e Orquestra de Rachmaninoff, quem tocava era um tal de Darren W. Chamberlain. Só que não. Era claramente sampleado. Era o Finale ou o Sibelius. Depois fui ouvir mais do cara. Ele tem vários discos lançados. Os Prelúdios de Debussy, todos sampleados. Mr. Chamberlain, o que você está escondendo? Fui pesquisar no Google e encontrei pouquíssima informação sobre o cara. Mas tem uma biografia que diz que ele é de Birmingham, Inglaterra. Essa bio o trata como se fosse assunto sério. Mas ouça aí em baixo. Se alguém souber do que se trata, por favor escreva aí. Pode ser um experimento, ver se o público engole essas gravações como reais. Mas acho difícil, são muito mal feitas. Pode ser também que seja a carreira dele, lançar essas obras sampleadas. Eu tô sem saber.
- Disco: Yo-Yo Ma - Obrigado, Brazil
Nos anos 90 houve a onda de grandes músicos eruditos gravarem álbuns em que tocavam Piazzolla. O resultado, lembro de alguns, foi bom, no final das contas. Gidon Kremer, violinista letão, Daniel Barenboim, pianista (e regente) argentino e o violoncelista Yo-Yo Ma deixaram enormes contribuições. No final dos anos 90 pra começo do século XXI, o "crossover" da vez foi com a música brasileira. É sobre um desses álbuns que venho falar hoje. Do mesmo Yo-Yo Ma. Em seu disco Obrigado, Brazil, de 2003, a seleção que ele fez foi interessante. Evitou algumas escolhas óbvias, como Garota de Ipanema e Tico-Tico no Fubá, e optou por músicas que um músico brasileiro certamente escolheria. Começa com Cristal, um belo e leve choro de César Camargo Mariano, que o acompanha ao piano. Um tema que dá vontade de cantarolar. Depois vem Chega de Saudade, de Tom e Vinícius, cheia de charme na voz (e no violão) de Rosa Passos. A percussão é muito apropriada. Na passagem em que caberia uma improvisação, Yo-Yo faz uma linda melodia, que capta bem o espírito melódico brasileiro. Em A Lenda do Caboclo, obra para piano de Heitor Villa-Lobos, temos um arranjo para violões e violoncelo. É uma das minhas favoritas, essa música nasceu pro violão. Eles, no arranjo de Sérgio Assad, até arriscam um contracanto bacana que não está na música original. Então vem Doce de Coco, de Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho, em arranjo para o violoncelo, clarinete e violão. Um choro-canção de cair o queixo. A Dansa Brasileira (com S, mesmo), de Camargo Guarnieri, é originalmente para piano, e depois foi transcrita para orquestra pelo próprio compositor. O arranjo aqui é para violoncelo e piano. Apelo, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, recebe saudade e derrama nostalgia. Tão parecida com Insensatez, de Tom e Vinícius, tem a beleza melódica que era o dom do Baden. Temos a famosa Dansa Negra, de Camargo Guarnieri, que tem a mesma função nacionalista da Dansa Brasileira, e recebe o mesmo tratamento: violoncelo e piano. Pixinguinha não falta, com 1X0 e Carinhoso, lindamente tocadas, com um senso de melodia e ritmo perfeitos. Menino, de Sérgio Assad, que, junto com seu irmão Odair, tem o duo de violões mais importante da atualidade. A música é sublime, com o duo acompanhando Yo-Yo. Daí vem Samambaia, do César Camargo Mariano. Este compositor e pianista já foi mais conhecido, ele foi casado com a Elis Regina. Mas também, a música popular instrumental já foi mais... bem... popular... A Alma Brasileira, um choro que não é choro, para piano, de Villa-Lobos, recebe um arranjo perfeitamente digno. Se me pedissem pra encaixar um violoncelo aí, não sei se faria melhor. Se tem uma música que cumpre sua gigantesca proposta de representar a alma brasileira, é essa daqui. Volta Rosa Passos para mais Tom Jobim e Vinícius de Moraes. O Amor em Paz traz novamente aquela percussão tropical, mas não caricata, que tanto me agrada no disco. Bodas de Prata & Quatro Cantos, de Geraldo Carneiro e Egberto Gismonti, é uma peça mágica. Com 9 minutos, é a mais longa do disco. Egberto e Yo-Yo Ma tocam em sintonia perfeita. O momento esbalde do disco é Brasileirinho, que tem cara de que vai encerrar o álbum, mas aí vem a experimental Salvador, de Egberto Gismonti, que às vezes se transforma numa bela lôa à cidade baiana. E, só aqui, o disco tem fim. Mais deles deveriam fazer discos sobre música brasileira. Barenboim fez o Brazilian Rhapsody e a violinista Victoria Mullova fez Stradivarius in Rio. Muito bons, sobre eles falarei ainda. Deixo o link para o Spotify. https://open.spotify.com/album/1jRhf7CNFyquOJtJYiUSEy?si=N3K7eY7hROCkm8h2EOhApA
- 10 Sonatas que você tem que conhecer
Por que 10? Pra depois eu ficar me queixando que não deu pra colocar todas que eu queria aqui. A forma sonata foi o molde que deu origem à sonata , à sinfonia e ao concerto . Não confundir forma sonata , que é um formato, com a sonata , que é uma categoria de composição. A sinfonia é uma obra para orquestra , enquanto a sonata é para piano (ocasionalmente piano e violino, piano e violoncelo, piano e flauta...). Ambas têm 3 ou 4 movimentos, sendo o primeiro o que eu considero o mais importante, que é a declaração de propósito da obra; o segundo é um minueto-scherzo (geralmente pra descontrair); o terceiro é o movimento lento , geralmente focado mais na beleza que os outros; e o último, chamado finale , é aquele em que o compositor tenta fazer um resumo e, literalmente, dar um fim à obra. Por algum motivo, quase sempre o finale é o movimento de que menos gosto. Os compositores sempre tentam mostrar que o triunfo e a alegria vêm depois da tempestade e o resultado é um movimento agitado, barulhento, espalhafatoso e, por vezes, incômodo (ao menos pra mim, mas quem sou eu, né?). Então vamos à lista, em ordem mais ou menos cronológica, de sonatas exclusivamente para piano solo que eu escolhi para vocês. J. Haydn - Sonata Nº 62 em Mi bemol, Hob. XVI-52 Os compositores nomeiam suas sonatas mais ou menos como a Sony nomeia seus fones de ouvido (Wh 1000Xm4???). Algumas têm apelidos, mas no geral a gente chama de: a 20 de Beethoven, a 10 de Mozart etc. Essa, a 62 de Joseph Haydn , composta em 1794, é uma das peças de que eu mais gosto do austríaco. Super ligeirinha, ela é leve sem ser vã. Não é a coisa mais profunda do mundo, porque a música ainda estava decidindo que seria profunda (do final da vida de Mozart pro começo da carreira de Beethoven). É um ótimo veículo para os pianistas mostrarem seu toque clássico, geralmente mais delicado e sem sentimentalismos que o romântico. Gravação sugerida : Alexis Weissenberg (é uma versão mais dura do que a de Brendel, por exemplo, mas de nitidez e precisão impressionantes). W. A. Mozart - Sonata Nº 12 em Fá, K. 332 Tive dificuldade em selecionar uma das 18, e acabei optando pela 12ª sonata de Wolfgang Amadeus Mozart . Porque é linda, criativa e, embora despretensiosa, cativante. Coloquei depois de Haydn porque este era bem mais velho que Mozart, mas essa sonata é de 1783, enquanto que a outra, de 1794. Até hoje é uma das sonatas mais adoradas pelo público. O senso comum (e o incomum) dizem que, em termos de sonata, Mozart não chegou aonde Beethoven chegou. Mas o fato é que ninguém chegou aonde Beethoven chegou. Isso não é demérito para o Wolfgang. Como eu já disse, ele próprio seria um dos responsáveis, anos mais tarde, por começar a inserir a noção de profundidade à música. Gravação sugerida : Alfred Brendel ou Nelson Freire L. van Beethoven - Sonata Nº 3 em Dó, Op. 2 - Nº 3 É a primeira sonata de Ludwig van Beethoven a me impressionar. Ele já mostra, embora ainda esteja na sua fase clássica, toda a sua veia românitca. Ela é simplesmente poderosa . Quando foi escrita, em 1795, a 3ª Sonata foi considerada a peça mais difícil para piano (ou qualquer instrumento de teclado) já composta. O segundo movimento é de uma dimensão que eu acho que nenhuma obra musical tinha atingido antes. Prenunciando a " Sonata ao Luar ", que é a 14ª, você tem uma mão direita repetitiva, tocando a harmonia em arpejos enquanto que a esquerda assertivamente muda, uma nota por vez, o contexto harmônico, forçando a outra a se adaptar. É pungente. Parece que você está assombrado e, ao mesmo tempo, encantado. Gravação sugerida : Alfred Brendel ou Wilhelm Kempff L. van Beethoven - Sonata Nº 8 em Dó menor, Op. 13 " Patética " Se tem uma coisa idiota que eu não vou fazer é listar só uma sonata de Beethoven . Alguém disse que, se " O Cravo Bem-Temperado " de Bach é o Velho Testamento do piano, as 32 sonatas de Beethoven são o Novo . A " Patética " inaugura o romantismo. Agora, a música se distanciava de objetivos angelicais e ficava mais humana. Falava sobre tormentas, dúvidas, certezas. Essa sonata, a oitava, é, depois de " Ao Luar ", provavelmente a mais famosa de Beethoven. Quando a gente vai navegar por 32 sonatas, é fácil ficar perdido. Então a gente tem algumas "âncoras". No caso de Beethoven, tem as sonatas "com nome". " Waldstein ", " Tempestade ", " Appassionata "... Tem outras coisas que facilitam essa navegação, por exemplo: as três primeiras são um grupo; a sétima e a oitava quebraram paradigmas e iniciam o romantismo; a 19 e a 20 são café com leite (anacrônicas, foram compostas antes das outras, mas só publicadas depois da 18); e aí quebra-se tudo de novo lá pela 27, quando começa o fim da vida do compositor. Isso tudo ajuda a gente a se situar num acervo com 32 obras. Musicalmente a "Patética" é só novidade. O primeiro movimento é impactante; o segundo, belíssimo e delicado; e o terceiro, arrebatador. Ludwig não estava tentando impressionar (a peça nem é tão difícil assim), mas estava impressionando . Até pros padrões dele, já na época considerado o maior compositor vivo. Gravação sugerida : Stephen Kovacevich L. van Beethoven - Sonata Nº 29 em Si bemol, Op. 106 " Hammerklavier " Em 1818, já completamente surdo e incapaz de tocar piano, Beethoven empreende a proposta de fazer uma sonata que "daqui a 50 anos ainda estarão trabalhando nela". Já se vão 200 anos e ela é cada vez mais estudada e tocada. De fato, passaram-se 18 anos até que um virtuose, o jovem Franz Liszt , fizesse a estréia, 9 anos depois da morte do compositor. Liszt chegou a escrever uma carta dizendo algo como " consegui achar um jeito de tocar a Hammerklavier ". É uma obra que não é só difícil de colocar os dedos. Tem que ter a abordagem certa. Sentimentalmente ela é quase surreal. Na verdade, diz-se que Beethoven inaugurou o romantismo e, em muitas formas, o pós-modernismo (que de verdade só começaria muitos anos depois de sua morte). Porque os seus contemporâneos tinham dificuldade em saber o que ele queria dizer nas suas obras maduras. Era como se ele falasse outra língua. Gravação sugerida : Maurizio Pollini F. Chopin - Sonata Nº 3 em Si menor, Op. 58 Mais um fenômeno que só parece ter composto pérolas e morreu muito jovem (estou comparando a Mozart), o polonês Frédéric Chopin foi um virtuose a quem só Liszt se comparava. A escrita para piano evoluiu muito com os dois. É quase impossível imitar. Mas além da escrita idiomaticamente perfeita para o instrumento, a pura musicalidade e originalidade de suas peças era notável. É possível que você conheça uma boa dúzia de melodias dele. Uma delas, posso apostar, pertence à 2ª Sonata: trata-se da " Marcha Fúnebre ". Mas a terceira e última sonata, esta de que falo aqui, é a mais bem acabada, na minha opinião. Apaixonante, ela parece nunca se esgotar. Justamente porque não tem um caráter único. Você a cada audição parece enxergar algo novo. É uma das obras para piano mais sofisticadas. Gravação sugerida : Nelson Freire ou Martha Argerich F. Liszt - Sonata em Si menor Conta-se que Franz Liszt foi, criança, a um concerto do violinista virtuose Nicolò Paganini . Dizia-se que Paganini tinha um pacto com o diabo, tão bem que tocava. Liszt ficou tão impressionado que disse "eu vou fazer o mesmo pelo piano". E fez. Até hoje, mesmo não existindo gravações dele tocando, muitos juram que ele foi o maior pianista de todos os tempos. Outra anedota que se conta, aliás, o próprio Liszt é quem conta, é que, ainda jovem, ele foi conhecer Beethoven. O mestre pediu para que ele tocasse algum Prelúdio e Fuga do " Cravo Bem-Temperado " de Bach. Ouviu atento e, ao fim, perguntou se o menino poderia tocar aquela peça em outra tonalidade. Liszt o fez, arrancando elogios e premonições de Beethoven. Sério, tocar um Prelúdio e Fuga (ou qualquer peça, na verdade) em outra tonalidade, ainda de lambuja, você não imagina o quanto é impressionante. Liszt escreveu muita coisa. Parecia não ter fim, sua criatividade. Quando não estava a fim de criar algo novo, pegava uma obra de Schubert ou Wagner e transpunha, por exemplo, de orquestra para piano. Essa dificílima sonata é bem mais conhecida que sua outra, chamada Dante Sonata . E bem mais original. Ela não tem movimentos separados, sendo, portanto, um único fluxo de discurso musical. Foi dedicada a Robert Schumann , pouco antes da morte deste. Clara, esposa de Schumann, uma pianista altamente respeitada, nunca tocou. Considerava-a um "barulho cego". Ah, Clara... Gravação sugerida : Claudio Arrau ou Martha Argerich S. Rachmaninoff - Sonata Nº 2, Op. 36 Sergei Rachmaninoff nos deixou gravações. Eu tenho uma caixa com todas elas, são 10 CDs. Mas ele não gravou essa sonata, de 1913, que foi tomada pelo pianista ucraniano Vladimir Horowitz . Ele fez uma versão autorizada pelo autor com algumas alterações. É a versão de Horowitz que costuma ser mais executada. A sonata, em 3 movimentos, começa com uma escala descendente extremamente veloz. A gente não sabe ainda, mas aquela escala é o tema principal, porque o compositor vai dilatar, domar e acalmar até ela virar uma melodia coerente. O segundo movimento é de beleza ímpar, e o terceiro, dificílimo. Gravação sugerida : Vladimir Horowitz A. Scriabin - Sonata Nº 9 "Missa Negra", Op. 68 Alexander Scriabin foi um compositor russo bastante peculiar. Fazia música atonal (quando a maioria ainda escrevia música tonal), mas sem ser maçante. Tínha um acorde próprio, o "Acorde Místico". Sobre esse acorde escrevia suas elocubrações. Ele mesmo era um tanto místico. Era um pianista fenomenal, pelo que consta. Rachmaninoff chegou a dizer que estudava horas por dia para soar como Scriabin, que tinha uma sonoridade notavelmente colorida. O conjunto de sonatas de Scriabin é um dos mais importantes da história da música. Esta é, possivelmente, a mais tocada. De 1913, é a minha favorita dele. Não é música pra você pegar a partitura e analisar, pelo menos não a princípio. Basta escutar com calma e se deixar levar pelas sensações. Gravação sugerida : Vladimir Ashkenazy ou Roberto Szidon S. Prokofiev - Sonata Nº 7 em Si bemol, Op. 83 Sergei Prokofiev escreveu 9 sonatas. Esta sétima , de 1942 e a seguinte são as mais conhecidas. Altamente dissonante, um bocado difícil de ouvir e mais ainda de tocar, representa um desafio para qualquer pianista. Prokofiev era um pianista excelente, numa época em que o compositor já estava tão especializado que dificilmente conseguia se dedicar a outra coisa que não escrever. Já ouvi uma gravação dele tocando Rachmaninoff, que deve ter por aí. Gravação sugerida : Maurizio Pollini ou Sviatoslav Richter (que estreou a peça)
- 7 Discos Fora da Caixinha MPB
Você quer entender a MPB sem falar em Chico, Caetano, Djavan, Belchior, Elis e afins? Pois eu vou te ajudar. Ou melhor, dar minha contribuição. Não vou seguir nenhuma ordem, seja cronológica ou de qualidade. É o que eu for me lembrando. E também não é a única. Sabem que eu gosto de listas. Posso fazer umas 40 com discos fora da caixinha. Raphael Rabello - Todos os Tons Com arranjos magistrais, ora para violão solo, ora para violão e banda, esse disco é um fenômeno. Raphael Rabello era um fenômeno. Chamava a atenção de todos que ouviam seu dedilhar nas 6 ou 7 cordas. Paco De Lucia (que participa do disco) dizia que era o maior violonista que ouvira em anos. Os violões que ele usa são especificados no encarte do disco, porque são instrumentos perfeitos (incluem um Ramirez 1969, que ele ganhou do Paulo, filho do Tom Jobim, e um Mario Passos 7 Cordas). A proposta aqui era captar as obras de Tom Jobim em vários tons, de fato. Por exemplo, Luiza usa apenas um violão e tem um tom bem intimista; já Garota de Ipanema é mais apoteótica. Elomar - Elomar em Concerto Esse disco sensacional mostra o grande cantador Elomar em um dos seus melhores shows. Elomar toca violão pra caramba. Arranjado pelo compositor e por Jaques Morelembaum, o disco conta com o clarinetista Paulo Sérgio Santos (do Quinteto Villa-Lobos), o flautista e saxofonista Marcelo Bernardes (que hoje toca com o Chico Buarque), o quarteto de cordas Bessler-Reis e um coro do maestro Muri Costa. Foi gravado na Sala Cecília Meireles, uma sala de concertos de música erudita no Rio de Janeiro. E, de fato, tem música de concerto, como Loa e Gratidão, fragmentos da Antiphonaria Sertani. Tem também as comoventes Gabriela e Inselença Pro Amor Ritirante. Com seu linguajar fascinante, com palavras para as quais às vezes precisamos recorrer a um dicionário, ele canta como um verdadeiro caboclo sertanejo. É um disco impecável, e eu o incluiria em qualquer seleção dos melhores da música brasileira. Quinteto Armorial - Do Romance ao Galope Nordestino Um disco com fragmentos da verdadeira alma nordestina, música moura e digna, que se sabe dona de uma tradição secular. Idealizado por Ariano Suassuna para representar a parte musical do Movimento Armorial, o grupo esteve ativo entre 1970 e 1980, lançando 4 discos. De 1974, este é o primeiro. Antônio Nóbrega, ainda jovem, ponteia a rabeca. O grande Antônio Madureira (viola caipira) liderava o grupo, que fazia a ponte entre a música popular do nordeste e a música de câmara erudita. O resultado é muito interessante e, por vezes, comovente. Renato Braz e Maogani - Canela Renato Braz é uma das mais belas vozes da MPB contemporânea. Ele e o quarteto de violões Maogani fizeram uma seleção de canções da américa latina, em espanhol, e gravaram lindamente. Pra mim, o ponto alto é a dolorosamente bela canção argentina Oración del Remanso, de Jorge Fandermole. Essa música sempre me comove. Não se engane, ao mesmo tempo esse disco transforma o estrangeiro em Brasileiro e faz o Brasil abraçar nossos países irmãos. É Brasileiro, também. Nonato Luiz toca Milton Nascimento - Fé Cega Nonato Luiz, violonista cearense, tem seu próprio sotaque no violão, e é forte. Reconhece-se imediatamente que quem está tocando é ele. Ele tem um som limpo e seus arranjos são maravilhosos, cheios de alegria e doçura. Tocando as obras de Milton Nascimento, você jura que são peças pra violão, e não canções. Nonato é também um excelente compositor. Aliás, nesse disco ele está quase como compositor, pois os arranjos são rapsódias e variações sobre canções como Fé Cega, Faca Amolada; Maria, Maria e Ponta de Areia. A arte do violão brasileiro está bem representada nesse disco ainda pouco conhecido. Radamés Gnatalli - Radamés Interpreta Radamés Considerado um mestre por Tom Jobim, Radamés Gnatalli foi um pianista, arranjador, compositor e regente muito respeitado no Brasil nos anos 50. Pra você entender o que é o Jazz brasileiro (cruzado com o chorinho) você tem que ouvir as belas peças desse disco instrumental, obras como Puxa-Puxa, Pé-de-Moleque e Seu Ataúlfo. Grande pianista, também. Egberto Gismonti - Casa das Andorinhas Esse disco de 1992, de Egberto Gismonti, já valeria só pelo Amor Proibido, um lindo dueto de violão com violoncelo (escutando agora, vejo que é um trio: são 2 violoncelos). Egberto compõe, toca piano, teclado, violão, arranja e rege todo o disco, que é instrumental. Mesmo com uma sonoridade datada em algumas peças, trata-se de um álbum magistral. Eu podia indicar outros discos dele, mas esse foge um pouco do óbvio. Gismonti é um daqueles músicos a quem os outros músicos, mesmo de fora do país, olham e dizem: é um gênio!
- Outro Top + 10 Obras sinfônicas Extra categoria
A terceira lista de uma categoria que realmente não tem fim. Em extra categoria se encaixam peças orquestrais que não são sinfonia, concerto e abertura. Daí entram prelúdios, poemas sinfônicos, balés, suítes e peças realmente não categorizadas. A recomendação, como sempre, é que, caso não conheça, leia a lista toda, escolha a que mais lhe interessar e insista nela. Até entrar na sua cabeça. Sobre cada uma delas ainda vou escrever mais detalhadamente em posts individuais. Richard Strauss (1864-1949) - Morte e Transfiguração (1889) (Poema Sinfônico) Uma das peças mais contundentes de um compositor contundente. Alemão de Munique, Richard Strauss é um pouco menos conhecido que Johann Strauss e Johann Strauss II, que escreviam valsas e com quem não tinha parentesco. Mas é muito mais respeitado. É uma daquelas figuras complexas: era um regente formidável, a tal ponto que ajudou a moldar o que seria a regência de orquestra no futuro. Sua orquestração é de cair o queixo - muitas audições para músicos entrarem em orquestras usam peças suas como parâmetro, por exemplo, se um violinista se sair bem na primeira página de Don Juan, tá feito. Foi conivente com os nazistas, embora sua nora diga que ele queria protegê-la, já que era judia. De qualquer forma, foi inocentado nos tribunais de "desnazificação". Como compositor, tem duas fases: a primeira, em que escrevia poemas sinfônicos de grande porte (esse aqui tem 23 minutos) e a segunda, quando os abandonou e passou a escrever ópera. Existem gravações dele regendo e, cá entre nós, me parece espetacular. Só que é aquele som cheio de ruído, típico de gravações antigas. Escolhi Morte e Transfiguração porque é uma peça transcendental. Ela descreve um artista, à beira da morte, contemplando as proezas e situações da sua vida. É por isso que não é uma música triste, nem fúnebre. As lembranças do artista são doces. Ao final, temos a transfiguração, uma sublime passagem em que ele vê cada vez mais os "confins infinitos do paraíso". No final da própria vida ele disse que o poema estava certo: era exatamente assim que ele via a vida. Gravação recomendada: Sinfônica da Rádio Bávara (Bavarian Radio Orchestra), regente: Mariss Jansons Maurice Ravel (1875-1937) - Daphnis et Cloé, Suíte Nº 2 (1912) (suíte de balé) Veja o que escrevi sobre essa extraordinária suíte aqui. Foi originalmente um balé escrito para os Ballets Russes, de Sergei Diaghilev. Desse balé, Ravel extraiu duas suítes de concerto. Uma suíte é uma peça composta por partes de um balé que são destinadas a ser tocadas em concerto, sem a encenação. Essa, a segunda, é, de longe, mais tocada que a primeira. O balé todo é uma obra prima, mas essa suíte é especial. A descrição impressionista de uma alvorada, depois um jogo de sedução com a flauta e a dança geral, cada vez mais frenética. É a orquestração mais genial que eu conheço. Gravação recomendada: Orquestra de Paris (Orchestre de Paris), regente: Daniel Barenboim Sergei Rachmaninoff (1873-1943) - A Ilha dos Mortos (1908) (poema sinfônico) Inspirado em uma série de pinturas praticamente idênticas de Arnold Böklin, mais especificamente em uma em preto e branco, Rachmaninoff escreveu esse sedutor poema sinfônico. Primeiro olhe para a tela e pense em que música você imagina. Aí ouça o que ele fez: uma música com uma séria carga romântica, com momentos absolutamente arrepiantes. É em compasso 5/4, que ele usa para criar um tema que simula o remar, e utiliza várias modulações de terça cromática, além da orquestração cuidadosamente pensada. É espetacular. Ao final ele usa o Dies Irae, um tema medieval que evoca morte. Gravação recomendada: Orquestra Filarmônica da BBC (BBC Philharmonic), regente: Gianandrea Noseda Ralph Vaughan Williams (1872-1958) - The Lark Ascending (1914) (romance para violino e orquestra) A obra de Vaughan Williams é um pouco complicada. O que estou dizendo? O problema dela é justamente não ter nada de complicado. É simples, quase não acontece nada. Um crítico maldoso disse que ouvir Vaughan Williams era como ficar olhando para uma vaca olhando uma porteira. Maldade. Mas não espere nada muito denso aqui. Espere, no entanto, beleza. Ele parece ter descoberto que, fixando-se na escala pentatônica e numa orquestração sólida, sua obra estava garantida. De fato, o comentário acima quase levou sua reputação embora, mas a partir dos anos 70 o público começou a descobrir sua obra. The Lark Ascending (O Voo da Cotovia) é um poema de George Meredith de que Williams gostava muito. E escreveu essa lírica peça para orquestra e seu instrumento favorito, o violino. Foi estreada em 1921 e nunca saiu do repertório. Gravação recomendada: Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony), regente: Colin Davis, violino: Hilary Hahn Heitor Villa-Lobos (1887-1959) - Bachianas Brasileiras Nº 4 (1942) As Bachianas Nº 4 são as de que mais gosto, depois das Nº 3. Ele compôs nove Bachianas, cada uma com mais de um movimento. Essa aqui tem 4. Existe em versões para piano e para orquestra. 1. Prelúdio (Introdução) - uma das peças mais reconhecíveis de Villa. Uma linha arpejante (baseada no Thema Regium da Oferenda Musical de J. S. Bach) se desenvolve nos violinos enquanto que outra, uma contra melodia aparece nos violoncelos. Esse movimento só usa as cordas. É a cara do Villa, simplesmente lindo de morrer. 2. Coral (Canto do Sertão) (9m27s) - essa é mais escorregadia, mais maliciosa. Não muito, porém. Porque tem uma nobreza sem fim, e a lendária exuberância que Villa-Lobos atribuía ao Brasil. Um si bemol insistente remete ao canto da araponga. 3. Ária (Cantiga) (14m20s) - a cantiga é a famosa "Oh, mana, deixa eu ir para o sertão do Caicó". Essa canção é lindíssima. Ele tece pequenas variações sobre essa melodia. Maravilhosa. 4. Danza (Miudinho) (19m50s) - Villa-Lobos costumava terminar com uma dança. É uma peça repleta da riqueza rítmica dele e do Brasil. A peça toda tem cerca de 20 minutos (sobe pra 24 quando se repete o prelúdio, como no vídeo). Vou deixar uma recomendação da versão orquestral e outra da versão para piano. Vale à pena escutar as duas, porque tem coisa que funciona melhor numa ou noutra. Gravações recomendadas: Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), regente: Roberto Minczuc / Piano: Cristina Ortiz Igor Stravinsky (1882-1971) - O Pássaro de Fogo (1910) (Balé) A peça que alçou Stravinsky à fama. Embora ainda deva muito a Rimsky-Korsakov, de quem foi aluno, já se percebe o excelente orquestrador e o criador quase indomável de ideias que ele seria. Depois desse balé ele escreveria Petrushka e, então, A Sagração da Primavera, que o imortalizaria. O pássaro de fogo é um conto popular russo. Sobre um pássaro que traz bênçãos e maldições para seu dono. Foi encomendada, como os outros dois e como Daphnis et Chloé, de Ravel, pelo empresário Sergei Diaghilev, para a sua companhia, os Ballets Russes. Claude Debussy (1862-1918) - Nocturnes (Noturnos) (1899) Os três Noturnos de Debussy são uma inestimável amostra da arte impressionista francesa. Estão entre as três obras em três movimentos que ele escreveu para orquestra. Bem, o terceiro movimento emprega um coro feminino. Vagamente menos tocados que La Mer, compõem um tríptico baseado em poemas de Henri de Régnier. O primeiro, Nuages (Nuvens) reafirma as aspirações sempre oníricas do compositor. É um movimento esparso, com um corne inglês proeminente e simulações de nuvens mais ameaçadoras através de trêmulos das cordas. O segundo movimento, bem mais agitado e chamado Fêtes (Festas), é cheio de fragmentos melódicos muito passageiros, retratando de forma apropriada as sensações de quando estamos envoltos em festividades. Mas, no meio do movimento começa um ritmo um tanto obsessivo e crescente, ornado por corais de metais e de madeiras, aos quais, eventualmente se junta a caixa clara. Quando os sopros acalmam tudo, o movimento termina tranquilo. O terceiro é Sirènes (Sereias), em que ele emprega o coro feminino. A orquestração é bem sensual e o movimento tem ares paradisíacos. Os infinitos ritmos do oceano e o canto das sereias são a inspiração para esse movimento. Debussy também usou como inspiração quadros de James A. M. Whistler, que era um dos seus pintores favoritos. Gravação recomendada: Filarmônica de Berlim (Berliner Philharmoniker), regente: Claudio Abbado Béla Bartók (1881-1945) - Música para Cordas, Percussão e Celesta (1936) Música altamente dissonante e densa - o oposto da de Vaughan Williams - é uma das peças mais conhecidas de Bartók, o mais famoso compositor húngaro do modernismo. O primeiro movimento é uma lenta e complexa fuga, que gira em torno da nota lá (Bartók tinha isso de gravitar em torno de uma determinada nota). No ponto culminante do movimento, ele já gravita em torno do mi bemol, que é distante por um trítono do lá. O segundo movimento é mais percussivo, com seus pizzicati, mas novamente contém texturas intrincadas. No terceiro, conhecido como "noturno", ele começa com um xilofone tocando a mesma nota num ritmo derivado da sequência de Fibonacci (um número é a soma dos dois anteriores): 1-1-2-3-5-8-5-3-2-1-1. Vários efeitos das cordas com o piano e o glissando no tímpano. A obra termina com um quarto movimento bem agitado. Seria uma dança folclórica frenética. A peça é mais conhecida do que gravada, não sei bem por que. Talvez por causa do grande impacto causado pelas gravações de Ferenc Fricsay, Antal Dorati, Herbert von Karajan e Georg Solti. Gravação recomendada: Filarmônica de Los Angeles (LA Philharmonic), regente: Esa-Pekka Salonen Antonin Dvořák (1841-1904) - The Noon Witch (1896) (poema sinfônico) A Bruxa do Meio-Dia, do tcheco Antonin Dvořák é um poema sinfônico programático, ou seja, tem uma história: uma mãe avisa seu filho que se ele não se comportar a bruxa vai pegá-lo. Claro que ele não se comporta e a feiticeira vem exatamente ao meio-dia. Ela persegue o filho e a mãe, que acaba desmaiando e deixando-o à mercê da bruxa. Horas depois o pai chega e vê o menino morto nos braços da mãe. Ela, com medo da bruxa, tinha acidentalmente sufocado o filho. É uma história de assombração para os pais: contar histórias de bruxas para seus filhos pode ser um mau negócio. Percebam que a chegada do meio-dia é anunciada na música com doze badaladas do sino. Dvořák era exímio orquestrador, como todos nessa lista, e utiliza os recursos da orquestra para ilustrar bem fielmente a história. Gravação recomendada: Filarmônica de Berlim (Berliner Philharmoniker), regente: Claudio Abbado Gostou do post? Comente! Leia também Top 10 Sinfonias, vol. 1 Top 10 Sinfonias, vol. 2 Top 10 Concertos para Piano, vol. 1 + Top 10 Obras Sinfônicas Top 10 Obras Sinfônicas
- Disco - Holst: Os Planetas / Elgar: Variações Enigma - Filarmônica de Bergen / Litton
O regente norte americano Andrew Litton tem construído uma sólida discografia. As obras desse disco, ele já tinha gravado antes: Os Planetas com a Sinfônica de Dallas e as Variações Enigma com Orquestra Filarmônica Real, da Inglaterra. Sua primeira gravação dos planetas era respeitadíssima, embora não muito conhecida. O mesmo com as Variações. O que ambas gravações não tinham era o som da Bis, a gravadora que tem trabalhado com várias orquestras que tiveram seu renome crescendo recentemente, como é o caso da Osesp (a Orquestra Sinfônica Estadual de São Paulo). A gravadora é muito querida por audiófilos, pois o som é magistral. Na variação 7 - "Troyte", você sente todo o poder da orquestração: mesmo tocando em volume alto, não há distorção e a definição do som é altíssima. Na variação 12 - "B. G. N.", o som do violoncelo é tão presente, parece que ele está tocando na sua frente. A interpretação de Litton e dos músios Noruegueses nessa peça é maravilhosa, com crescendos e decrescendos apropriados. Sinceramente, desde que eu ouvi essas gravações, tenho até dificuldade em ouvir outras. É uma gravação sem muitos ruídos externos, como respirações, passada de páginas etc. Depois vêm os Planetas. Litton e a orquestra estão novamente concentrados e interessados em criar todos os climas possíveis para você. Já dá pra sentir isso em Mercúrio, talvez o mais furioso dos planetas. E mais uma vez o som da Bis não o decepciona, é excepcional. Essas obras vão do pianíssimo ao fortíssimo às vezes em questão de segundos. Não é fácil fazer isso de maneira convincente. Nas passagens muito fortes é fácil que se perca definição, os metais ou as percussões engolindo os outros instrumentos. Mas isso não acontece aqui. É soberbo. Escute esse disco nas plataformas digitais. Vou deixar o link para o Spotify: https://open.spotify.com/album/6X0mPDJZyHIkD04ZpS88od?si=vIo7eXzOSZ2mx7yrcDVVTw
- CONTOS DO LOOP
A ficção científica tem muitos caminhos. Engana-se redondamente (ou planamente, para quem acredita que os planetas não são redondos) quem acha que o gênero se reduz a batalhas espaciais em naves ou alienígenas invasores com armas laser e cabeças enormes. A ficção científica se caracteriza, principalmente, por uma visão de mundo transportada pela tecnologia, existente ou não, para fora do que conhecemos como "real". Então, superpoderes — como dos "X-Men" — ou experimentos científicos — como o clássico "Frankenstein" — também fazem parte do espectro de ficção científica. Mas esse não precisa ser o centro da história, podendo ser apenas um acessório em torno de temas que são essencialmente humanos, como relações afetivas e políticas, como são as obras da estadunidense Ursula K. Le Guin (1929-2018). Dito isso, não é exagero colocar a série "Contos do Loop" em um lugar bem especial na ficção científica contemporânea. A série estadunidense — exibida no serviço de transmissão da Amazon Prime — envolve temas delicados como perda, amor, angústias e a própria passagem do tempo, com uma belíssima embalagem de tecnologia e eventos inexplicáveis. Então, como um bibelô de porcelana em uma embalagem cromada, a série nos mostra, em seus oito episódios, as vidas e histórias de moradores da fictícia cidade de Mercer, em Ohio, nos EUA, onde há um laboratório subterrâneo de física experimental que pretende "tornar o impossível, possível". O Centro de Física Experimental de Mercer parece ser o equivalente a um acelerador de partículas (como o localizado na fronteira entre França e Suíça, inaugurado em 2008), mas muito anterior. Pelas roupas, veículos e alguns aparelhos, a série se passa nos anos 70 e, conforme nos dizem algumas histórias, o Centro já está ali há algum tempo. Com isso, vemos uma espécie de realidade alternativa, na qual um laboratório de alta tecnologia existe em uma cidadezinha no meio dos EUA há muitos anos, espalhando por seus arredores cabos, antenas, cápsulas, robôs, carcaças e toda série de itens que indicam um avanço tecnológico bastante superior ao nosso, mas em outra época. Isso não somente insere a série no subgênero do retrofuturismo — que mostra uma história paralela em que os nossos paradigmas tecnológicos atuais foram atingidos no passado, levando a humanidade para outro rumo —, mas também oferece lampejos de um outro mundo! Afinal, podemos imaginar que, pelo investimento feito naquele laboratório, pelo tempo que ele está ali e pelas tecnologias criadas nele (as poucas que vemos envolvem próteses e robótica avançada), outros projetos científicos famosos dos EUA, como o Projeto Manhattan, que criou a bomba atômica, nunca vieram a existir. Mas tudo que podemos fazer é imaginar esse outro mundo, já que o foco da série não é a tecnologia, mas as pessoas que dão vida a esse lugar. Nessa série, é um erro pensar que a tecnologia é sempre a questão determinante das nossas vidas (como faz Black Mirror). Nos "Contos do Loop", a vida e suas questões singulares são mais fortes e complexas do que qualquer tecnologia inexplicada. Do medo ao luto, do amor à solidão, a série retrata a vida humana como um encontro entre a delicadeza do mais fino material com o horizonte de eventos do mais inconcebível buraco negro. Baseado na grandiosa coletânea homônima de pinturas digitais do artista sueco Simon Stålenhag, a série não se preocupa em explicar totalmente a tecnologia, que é apenas um pano de fundo, cuja ação, para o bem ou para o mal, ativa o desenvolvimento das questões essenciais. Nem todos os episódios têm finais satisfatórios ou estão necessariamente conectados com os demais. Nem todos os personagens se conhecem ou suas vidas se cruzam, mas todos são inegavelmente afetados — e potencializados! — pelos encontros que têm com os aparatos e eventos da série. O episódio final sintetiza todo esse deslumbre da vida humana como algo muito mais belo e potente do que qualquer tecnologia jamais será, mas não oferece respostas (assim como não oferece uma segunda temporada necessariamente, para nossa tristeza!). A lição da série tem um amargo gosto existencial: tudo é possível, de bom e de ruim. Afinal, diferentemente da matemática e da física, viver não tem resposta exata, e a equação vai sendo completada por cada um no correr das incógnitas e dos problemas dessas pequenas existências singulares e infinitas que chamamos vida. VICTOR CRUZEIRO é goiano, de 1989. Para sustentar seus vícios, já fez um pouco de tudo: crítico de arte para gatos, correspondente de gastronomia do Planalto e relações públicas do time campeão da série C da sua cidade. Atualmente é professor de Filosofia e gosta tanto quanto de pequi, do futuro e, em todas as realidades possíveis, da América Latina.
- Desenho Coisinhas #01
Por Lele Reis LELE REIS desenha coisinhas e não tem interesse suficiente em si mesma ou no seu trabalho pra dizer qualquer coisa além disso! :-D Curadoria de quadrinhos: Nílbio Thé e Isabelle Prado
- As três razões da lágrima (conto-poema-ensaio)
A primeira, basal, resulta de átomos de sal que, contraídos, tornam-se líquido. Escapa-nos porque há um orifício. A segunda, reflexa, é uma reposta do plexo a um órgão em risco. Controla-a a língua no palato e o diafragma encolhido. Sentimental, a terceira, nada explica. É a única com poder analgésico, diz a medicina. Evita-se evitando a vida. Data base: Chora-se mais às sextas-feiras e aos sábados à noite. Caíam bem as lágrimas nos homens da Grécia Antiga, Só na Idade Moderna tornaram-se coisa de menina. ADRIANA LUNARDI é autora de "Vésperas" (contos) e "A vendedora de fósforos" (romance). Criou, com Max Mallmann, o seriado "Ilha de Ferro"(Globoplay, 2018). Vive em São Paulo.
- Chico Science e a Ciência
Na canção "Computadores Fazem Arte", Chico Science e a Nação Zumbi dão força e som aos seguintes versos: Computadores fazem arte Artistas fazem dinheiro, dinheiro Computadores fazem arte Artistas fazem dinheiro, dinheiro Podemos fazer várias interpretações desses versos, desde associá-lo à célebre frase de Picasso, de que grandes artistas roubam ideias, até a questões levantadas por importantes estudiosos que falam da desumanização da arte (José Ortega y Gasset) e da humanização das tecnologias (Diana Domingues). Mas vamos tentar não viajar muito hoje e focar no que existe de mais óbvio aqui: Chico Science curtia tecnologia. E curtia arte. A relação de Francisco de Assis França com a cultura, a natureza e a tecnologia era tão forte que, ao ajudar a criar o movimento Mangue Beat, ele fez duas coisas emblemáticas: adotou o nome artístico de Chico Science, pelo qual seria conhecido no Brasil e no mundo, e criou uma metáfora poderosa para explicar a antropofagia modernista tropicalista revisitada a partir de Recife: "uma antena parabólica fincada no mangue", ou seja, alguém que não perde suas raízes, mas também não deixa de olhar ao redor. A partir daí, podemos imaginar o Mangue Beat, com todas as suas analogias tecnológicas, como uma espécie de ficção científica tropical em forma de música. E é interessante perceber como o universo da ficção científica tem se aproximado mais e mais da realidade em pelo menos dois aspectos: 1. As tecnologias inventadas por artistas, cineastas, escritores estão cada vez mais sendo recriadas por engenheiros, inventores, pesquisadores, desenvolvedores e empresas, saindo do mundo das ideias e vindo para o mundo material. Robôs, submarinos, ciberespaço, espaçonaves, helicópteros, clonagem são apenas alguns poucos exemplos de revoluções tecnológicas que surgiram primeiro na mente insana e criativa de artistas para somente algum tempo depois darem as caras na história material da humanidade. 2. O poder metafórico e profético da ficção científica. Como diria a escritora Ursula K. Le Guin de forma magistral, quando se escreve ficção científica ou fantasia, estamos falando apenas da realidade. Tanto é que quando falavam a Karel Čapek que sua seminal peça A Fábrica de Robôs era ficção, ele se irritava profundamente. Trocando em miúdos, basta a gente olhar para as notícias do jornal e ver que a distopia agora não é exclusividade de narrativas fantasiosas do cinema, dos quadrinhos, dos games ou da literatura. Ela está na nossa frente. Mas agora, uma notícia bem interessante, e diríamos até feliz, coloca um terceiro ponto de aproximação entre Chico Science e a ciência. A descoberta de um novo novo gênero e espécie de crustáceo descrito a partir de duas localidades ao longo do litoral de Pernambuco recebeu o nome de Chicosciencea pernambucensis. Em artigo publicado em 19 de setembro de 2020 no Journal of Crustacean Biology, pesquisadores demonstraram que, com análise morfológica, Chicosciencea difere de todos os gêneros de "camarões-limpadores" por uma combinação de caracteres. A análise molecular inferida recuperou um grupo que compreende espécies de vida livre (ou seja, que não vivem em associação com esponjas) e espécies de águas rasas e, com base neste grupo e em suas semelhanças morfológicas, moleculares e ecológicas, o estudo propõe formalmente a inclusão desse gênero e também fornece uma lista mundial atualizada de Stenopodidea (infraordem de crustáceos decápodes). Com a descrição de Chicosciencea gen. nov., a infraordem Stenopodidea agora compreende 13 gêneros e 92 espécies. Esse tipo de camarão compreende animais da ordem mais diversa dentro dos crustáceos, os decápodes, sendo encontrados em diferentes regiões do mundo, inclusive no Brasil, além de apresentarem uma grande importância econômica e ambiental. Camarões representantes de Stenopodidea realizam diversas interações ecológicas com diferentes grupos de animais marinhos, incluindo esponjas, cnidários, poliquetas, equinodermos e peixes. A interação mais estudada é a de limpeza ("cleaning mutualism"), em que os camarões-limpadores se alimentam de ectoparasitas e tecidos comprometidos de peixes, enquanto estes se beneficiam pela redução dos efeitos negativos na saúde do "cliente". Os representantes da infraordem Stenopodidae estão presentes, por exemplo, em produções de animação famosas nos quais suas características comportamentais são exploradas, tanto dentro de aquários como em seu habitat natural. Em Procurando Nemo (Disney/Pixar), Jacques é um camarão-limpador do Oceano Pacífico com sotaque francês que vive no aquário do Nemo e é obcecado por limpar tudo a todo momento. Em O Espanta Tubarões (Dreamworks), o lava-rápido de baleias no fundo do mar conta com camarões-limpadores como funcionários. O professor Alexandre Almeida, coordenador do Laboratório de Biologia de Crustáceos da UFPE, se diz satisfeito com a descoberta e com a homenagem. Segundo ele, "o nome dele acabou ficando Chicosciencea, que é o nome do gênero, pernambucensis, que é o nome da espécie. Chicosciencea em homenagem ao grande Chico Science e pernambucensis em alusão à localidade onde o animal foi encontrado, no litoral de Pernambuco, que, por enquanto, é o único local onde ele é conhecido. A gente está contribuindo, assim, com a descrição dessa nova espécie, com uma coisa altamente preciosa, que é o patrimônio da nossa biodiversidade, então, a gente só pode preservar o patrimônio que a gente conhece", afirmou. Ao que parece, Chico Science foi, ainda que indiretamente, como muitos outros artistas, um incentivador da ciência, mostrando que criadores, desenvolvedores e descobridores têm muito mais em comum do que se pensa. Seja pelos problemas de realizar seu trabalho num país como o Brasil, seja pelas dificuldades de se ter o devido reconhecimento, ou pela satisfação de fazer com que a gente entenda mais de si e do mundo que nos cerca. DANIELA "Chimp" DIAS é professora de Biologia e Ciências, e amante de etologia e evolução, principalmente de primatas. É mestra em Avaliação de Impactos Ambientais (Manejo e Conservação da Biodiversidade). Se amarra em tudo relacionado ao terror/horror e serial killers. Curte uns metal e sua banda favorita é o Pantera. NÍLBIO THÉ é editor da Arara Neon.
- E as vitrolas?
Eles estão nos mais diversos comerciais, filmes, séries e até em novelas. Em pleno 2020, somos bombardeados com imagens de discos e toca-discos quase que diariamente. É até inevitável não despertar, no mínimo, uma boa lembrança, saudosismo ou mesmo curiosidade por parte daqueles que já vivenciaram o auge do vinil, e também pela geração do mp3. Imaginemos que você está em um supermercado perto da sua casa, de máscara, dando aquela olhada maliciosa na prateleira das cervejas, quando, mais à frente, você se depara com uma vitrolinha igual à que você viu na TV. Precinho bacana e ainda com a opção tentadora de parcelar em até 10x sem juros no cartão. Comprar ou não comprar, eis a treta. Então você dá uma espiadinha no celular para pesquisar sobre o aparelho em fóruns, sites ou quem sabe alguém próximo que já colecione, mas acabou que mais atrapalhou do que ajudou. E agora? Dá o play aqui que nós vamos te dar essa força para escolher um toca-discos de até R$ 400,00. Lembrando que a ideia aqui não é entrar em detalhes, mas apenas direcionar vocês a uma boa escolha. Nessa faixa de valor, vamos te dar duas opções, sem muitas delongas: A primeira são os aparelhos novos, no formato "maletinha" ou similares, da Raveo, Multilaser, etc. A segunda opção são os usados, mas guerreiros, 3x1, da Nacional, Gradiente, entre várias outras marcas de época. A primeira pergunta, se não a mais importante que devemos fazer é: você almeja ser DJ? Ou quer iniciar um novo hobby prazeroso e escutar uns bolachões para ter uma experiência sonora, visual, tátil e até olfativa? Se você escolheu a primeira opção, infelizmente lamentamos informar, mas nessa média de preço fica praticamente impossível operar em algo analógico. Se pesquisar o assunto na internet, deve ver diversos blogueiros(as), influencers e lojistas condenando os toca-discos novos — erroneamente apelidados de "vinil killers" —, aqueles que encontramos com mais facilidade, como os de formato maleta, ou os que possuem um visual mais vintage. Eles acabam falando tão mal deles, que provocam um certo pavor e acabam por afastar novos clientes, fazendo que, por muitas vezes, até desistam de iniciar sua coleção. Geralmente são pessoas elitistas ou lojistas incomodados com a diminuição das vendas dos seus tesouros que são vendidos a preços exorbitantes devido à popularização que esses humildes aparelhos trazem de volta ao mercado do vinil. A bandeira a ser levantada deveria ser do vinil para todos! Se pretende injetar uma média de suados R$ 400,00, não dê muita importância a nenhuma das pessoas acima, até porque nenhum deles paga as suas contas. Saiba também que, por esse valor, você não terá nada de muito extraordinário em suas mãos, pois, no mundo do vinil, o céu é o limite, mas terá um aparelho que cumpre bem com sua função e você também desfrutará da alegria e do prazer de escutar bons discos, seja sozinho ou em ótima companhia. Os dois tipos que te indicamos geralmente são do tipo "belt drive" (significa tração por correia), que é o mais recomendado para uso doméstico. Existem ainda os de "polia" e os "Direct Drives", mas, como falamos acima, os detalhes vão ficar para uma próxima conversa. A vantagem deles é que você não precisa quebrar a cabeça e o bolso para comprar aparelhos extras, como receivers, pré-amplificadores, equalizadores, etc., ou se preocupar também com potência e impedância em amplificadores e caixas de som para que consiga o seu objetivo, já vem tudo pronto para você. É só ligar e curtir, servindo até de decoração em muitos ambientes de sua casa. A maioria dos toca-discos novos te entregam 1 ano de garantia e já vem com uma saída auxiliar caso você necessite de um volume maior de som do que o dos alto-falantes já embutidos. Alguns vêm com a função bluetooth, rádio, CD e fitas cassete e também a opção de digitalizar sua coleção em mp3, direto no seu pendrive. Saída para fone de ouvido, caso tenha alguém que se incomode com o barulho do seu novo hobby. São todos configurados de fábrica, você não vai se preocupar com nada de ajuste. Por serem pequenos, e alguns bivolts, dá pra levar tranquilamente para alguma viagem e ainda utilizar no seu garimpo de discos por aí. Por outro lado, como eles não vêm com uma regulagem de peso no braço da agulha e anti-skating, alguns podem vir com a "tracking force" (peso que a agulha exerce sobre o disco) fixa um pouco elevada, o que pode vir a causar algum tipo de dano ao vinil em longo prazo. — Como assim, vai estragar meu disco? TODO aparelho, tendo regulagem ou não, vai acarretar em um atrito entre a agulha e o vinil, que chega a altas temperaturas. Então, independente disso, irá ocorrer o desgaste. A questão é o tempo, uns vão degastar mais rápido, outros vão demorar um pouco mais. Vamos ilustrar uma situação: Suponhamos que você compre um disco por R$ 10,00 em uma feira ou em uma loja qualquer, e que, escutando várias e várias vezes este disco por cinco anos ou mais, você venha a causar algum dano que prejudique a audição dele. Creio que seus R$ 10,00 foram um ótimo investimento durante esses anos, não?! Afinal, poucos são os entretenimentos pagos que se aproveite tanto por tanto tempo. As vantagens dos usados, logicamente com a exceção da garantia e do bluetooth (risos), são muito similares aos novos. Os problemas dos usados vão desde o risco de ser enganado pelo suposto vendedor (NUNCA compre algo usado sem antes testar) ou mesmo o azar de um bom aparelho que foi usado por anos sem nenhum dano vir a pifar na sua mão, indo até a dificuldade em achar mão de obra para fazer a devida manutenção ou reparo. Existem cidades que praticamente não têm ninguém que ofereça o serviço, imagine você o dilema que seria para uma simples reposição de peças! Você irá encontrar os modelos antigos em algumas lojas especializadas, feiras e também em sites de compra e venda. Espero ter ajudado, um abraSom. BRUNO BRAVO tem 33 anos. Técnico em Áudio e Produtor Fonográfico. (IATEC) CEO na 8 Polegadas Record Shop.
- Território Marginal #01
O Lado Triste da vida. Um quadrinho de Vitor Batista. VITOR BATISTA é cartunista, designer e arquiteto, nasceu em Barbalha (CE) em meados de 1981, acredita nas três partes da filosofia universal e fica puto quando confundem ele com um gringo. Curadoria de Quadrinhos: Nílbio Thé e Isabelle Prado
- A impressionante orquestração de Ravel (Daphnis et Chloé - Suíte Nº 2)
Maurice Ravel foi o grande ser humano orquestrador. Orquestrar é a arte de escrever ou reescrever (transcrever) uma música especificamente para orquestra e com todos os desdobramentos disso. Saber que dois oboés não soam com o dobro da potência de um só; que, naquele registro, com os violinos tocando Mezzo Forte, a flauta só vai soar se tocar muito forte; que os trombones não soam bem tão próximos (as notas tão próximas), exceto exatamente naquele ponto; que um instrumento fica estridente aqui, outro, desnecessário, porque não vai aparecer... Eu amo orquestração. Mas, embora na faculdade tenham sido 4 semestres, não a domino perfeitamente. Ravel dominava tanto que os outros compositores o invejavam. Tem a famosa história de George Gershwin, que, em visita a Paris, queria aulas com Ravel. Este teria dito "O senhor já não é um compositor de sucesso?", ao que Gershwin responde que sim. "E quanto o senhor ganha por ano?", perguntou Ravel, "1 milhão de dólares", ouviu e retrucou "Então você é quem deveria me dar aulas!". Essa história é duvidosa (mas pode ser que tenha acontecido). Muito mais plausível é que Ravel tenha se recusado a ensinar Gershwin por medo de que, com muitas aulas teóricas, o compositor perdesse seu dom natural para a melodia. "É melhor ser um bom Gershwin que um mal Ravel!", isso ele disse mesmo. Pra mim, o apogeu da sua arte foi o balé Daphnis et Chloé, de 1912. Como os balés eram muito longos, os compositores extraíam trechos deles para fazer uma versão de concerto (sem a dança, tocada na sala de concerto). Ele extraiu 2 suítes de Daphnis et Chloé, e a Segunda, justamente a mais conhecida, mostra o potencial de criação de um compositor que usava a orquestra como um infinito leque de cores. Com notas longas e outras extremamente curtas, de maneira que o que cada instrumento faz individualmente é ininteligível, ele parece tecer gesto a gesto um monumental movimento. Um balé. Escutem só a peça: começa com uma longa e majestosa descrição musical de uma alvorada. São 3 movimentos, mas eles são interligados, você vai pensar que é um movimento só. Tem o amanhecer; tem uma intervenção de Pan, na flauta (07m30s, aos 10m05s vocês podem ouvir uma escala descendente que passa por 4 flautas como se fosse uma só) e tem a dança final (12m24s), com todos os personagens, na qual ele emprega vastamente as percussões. A orquestra, nesse caso, a Filarmônica de Berlim, sob a regência de Simon Rattle, toca avassaladoramente. - A orquestra pedida é enorme e, em muitas gravações, mesmo da Suíte Nº 2, usa-se ainda um coro (sem palavras), que está presente no balé original. Mas as gravações que eu prefiro são geralmente sem coro. - O balé foi encomendado por Sergei Diaghilev, dos Ballets Russes, o mesmo que encomendou a Sagração da Primavera no ano seguinte, 1913. - O compositor, conhecido por ser extremamente metódico, demorou 3 anos para entregar a partitura. - No auge da alvorada temos um acorde sublime (04m40s), que Ravel, blasé, insistia: "É apenas um Ré Maior acrescido de Sexta". Pode até ser, mas eu pego meu violão, toco um Ré com 6ª e não soa assim, não. - Ele era tão bom nisso, que tem uma peça, o Bolero, que é praticamente um exercício de orquestração, que ele não gostava e que hoje é famosíssima. - Era considerada dificílima de dançar. - Pierre Monteux, o mesmo maestro que estrearia a Sagração da Primavera, regeu a estreia e tem gravações da obra. Gravações recomendadas: Orquestra de Paris (Orchestre de Paris), regente: Daniel Barenboim (Suíte Nº 2) - Orquestra de Paris, regente: Semyon Bychkov (Suíte Nº 2) - Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony), regente: Pierre Monteux (balé completo)
- O Coração de Chopin
Tafofobia. É bem possível que você nunca tenha ouvido falar nessa palavra, mas ela designa o medo irracional de ser enterrado vivo. E esse, partindo da minha própria tafofobia (que está sob controle), deve ser um medo bastante comum. Frédéric François Chopin, polônes da cidade de Żelazowa Wola, nascido em 1810, considerado um dos maiores compositores para piano e um dos maiores pianistas da história, sofria dessa fobia. Se você nunca ouviu Chopin, você precisa ouvir. Se você já ouviu Chopin, não fez mais que a sua obrigação. Mas a tafofobia afetou a vida de Chopin de uma maneira bastante particular. Ele faleceu aos 39 anos, em 17 de outubro de 1849, de causas que até o momento são discutidas, mas que indícios levam a crer que o que o fez perecer foram efeitos colaterais da tuberculose. Em vida, solicitou à sua irmã mais velha, Ludwika, que, quando deixasse esse mundo, lhe fosse retirado o coração, para que não corresse o risco de ser enterrado vivo. E assim foi feito. Seu coração foi retirado e colocado dentro de uma urna de cristal, que foi preenchida com conhaque para a preservação do órgão. A urna foi selada e colocada dentro de uma caixa de madeira. A relíquia contendo o coração de Chopin sobreviveu a duas guerras mundiais, sendo roubada pelo exército alemão durante a destruição de Varsóvia na Segunda Guerra Mundial. Atualmente a urna com o coração do grande pianista está lacrada dentro de um dos pilares da Igreja da Santa Cruz, em Varsóvia, adornado com a inscrição de uma passagem do Evangelho de Mateus: “Onde seu tesouro está, aí estará também seu coração.” (Mateus, 6:21) Também atendendo a um desejo seu, o corpo de Chopin repousa no cemitério Père-Lachaise, em Paris, famoso por proporcionar morada final a outras celebridades como Honoré de Balzac, Oscar Wilde, Marcel Proust, Maria Callas, Édith Piaf, Jim Morrison, entre outros. *** A foto que ilustra o topo deste texto é a única fotografia conhecida de Frédéric Chopin, provavelmente feita por Louis-Auguste Bisson em 1849. *** Sugestões de obras para conhecer Frédéric Chopin: Waltz in D-Flat Major, Op. 64, N° 1, “Minute Waltz” Polonaise N° 6 in A-Flat Major, Op. 53, “Heroic” Waltz in E-Flat Major, Op. 18, “Grand Valse Brilliante” LEANDRO KRINDGES é Técnico Químico de profissão, licenciado em Biologia por paixão, fã de Foo Fighters a Belchior e de tirinhas, especialmente Peanuts. Sempre teve curiosidade em saber o que se passava por trás das músicas, e essa busca se tornou um hobby. Tecladista da Banda Villa Rock, arranha também violão e guitarra. Aprendeu a gostar de ler depois do Kindle.
- As meninas do fim do mundo
Como se estivesse sitiada e à mira profusa de milhares de substâncias tóxicas capazes de constranger as páginas dos livros de geografia e suas descrições da atmosfera, esta cidade a sudeste da terra brasilis amanheceu coberta de fumaça, cinza e assustadora como um salão de caldeiras - à beira da explosão - de um navio a vapor do século XIX. Então eu deixei de sair à varanda e de abrir as janelas, emudecida diante da visão do fim do mundo que está para acontecer de dentro para fora desta redoma, globo de fuligem onde existimos presos, mas tudo em vão: um compromisso me chamou à rua. Coloquei a máscara, pinguei colírio nos olhos, mas o cheiro e a acidez da morte não respeitam tecidos nem soluções oftálmicas. A respiração ia torta como a caminhada, e os olhos ardiam dum fumo invisível, empoeirados do inconveniente que é ainda estar vivo num ano de anúncios incapazes de acompanhar o passo humano da destruição. Ergui os olhos para o céu, surpreendida com meu próprio ímpeto de coragem, adivinhando formas de aviões perdidos entre as nuvens adoecedoras, desculpando-me em voz baixa com os pássaros e todo tempo elaborando pedidos de perdão por ter nascido de espécie tão má, arauto da morte e da extinção. Então fui subtraindo os segundos e os passos da conta total e desconhecida da vida, observando o colorido dos grafites que estão desbotando, descobrindo algum ramo verde e solitário rompendo o asfalto, calculando pontos de referência até o meu destino final e reparando, outra vez, que as árvores não balançam mais. Duas meninas, tão jovens, tão bonitas!, usando batom e jeans apertado, atravessaram meu caminho, cheirosas e com risadas sonoras, tagarelando empolgadas sobre algum assunto importante ao começo de suas adolescências, sacudindo seus cabelos que certamente teriam brilhado ao sol, pudessem seus raios trespassar aquela imensidão escura. Ai, as meninas, tão jovens, tão bonitas!, levando suas máscaras nas mãos e ignorando o ocaso de todas as coisas, fizeram despertar em mim uma inveja que me arrancou lágrimas dos olhos queimados, consolando-os, acidentalmente, da sua dor. E eu quis também ter uma amiga ao meu lado, nós duas soltas em pleno passeio, perfumadas e com roupas escolhidas de véspera, rumo a qualquer final de dia ignorante e feliz. Olhei para trás e esqueci a respiração por um pouco, alguns segundos só, sabendo que precisaria daquela última imagem para poder escrever, para vir até estas linhas e elaborar esta crônica, o coração rasgado e suplicante por um único dia ignorante e feliz, vinte e quatro horas de absoluto desconhecimento da sujidade do mundo, os motores afumados interrompidos, o pensamento leve e os sorrisos cheios de todos os significados felizes e de significado nenhum, pois apenas sorrisos. Vão, meninas, eu pensei, vão com os pés no chão e sem olhar para o céu. Aconteça o que acontecer, não olhem. Não hoje, não nesta tarde, não nesta noite. Para que não seja o caso de terem a consciência assaltada e de algum comentário distrai-las do riso irresponsável e egoísta de dentes descobertos, um riso que eu tanto quis. Amanhã, quem sabe. Kah Dantas Kah Dantas é cearense, mestra em literatura comparada, professora da rede pública de ensino e autora do livro autobiográfico “Boca de Cachorro Louco” (2016) e do livro de contos eróticos “Orgasmo Santo” (2020). Gosta de escrever, cometer o pecado da carne e comer docinhos.
- Papo de Arara: Entrevista com Liduino Pitombeira
Do Liduino eu lembro desde que lembro de alguma coisa. Ele, minha mãe, meu pai, Maria de Cavalcanti e muitoso outros formavam o Syntagma, grupo especializado em música antiga (medieval, renascentista e barroca) misturada com música nordestina. O grupo ensaiava aqui em casa, e esses ensaios eram mágicos. Claro que a gente, eu, meus irmãos e os filhos da Duda, que é como a gente conhece a Maria de Cavalcanti, e sempre vinham aos ensaios, sabíamos de cor as peças que eles tocavam. Vocês acreditam que eu cresci com um cravo em casa? Nessa foto tem um piano de armário, encostado na parede, um cravo, bombos legueros, violão e várias flautas doces. O barbudo é o Liduino. Muuuuitos anos depois ele vai fazer doutorado nos EUA e, quando volta, implementa o Curso de Composicão na Faculdade de Música da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Eu me torno aluno dele aprendo tanta coisa!... Liduino é um prodígio. Gênio! O compositor mais bem sucedido do Ceará e um dos mais bem sucedidos do Brasil, nesse século XXI. Tocado por conjuntos nos Estados Unidos e na Europa, e por toda orquestra respeitada do Brasil, sua obra a gente pode ter certeza que vai durar e ser estudada por séculos. Mesmo na era do obscuro, sempre terá alguém pra admirar e valorizar a obra do nosso entrevistado de hoje. No final da entrevista coloquei as fotos com as legendas que ele mesmo me mandou, são importantes, não deixe de vê-las. Professor, conte-nos um pouco da sua trajetória de aprendizado? Desde onde começou seu interesse pela música. O interesse iniciou bastante cedo: não consigo precisar a idade exata, mas a memória me leva a algo em torno de oito anos de idade, embora eu tenha registro fotográfico com instrumento musical aos 3 anos de idade, em 1965 (Figura 1). Entre a data dessa fotografia e o primeiro violão de verdade (um ‘Ao Rei dos Violões’ com cordas de aço, comprado em uma rápida viagem à Fortaleza no início de 1974, que ainda conservo e que me deixaram grossos calos esverdeados por mais de quinze anos) passaram-se nove anos. Em 1974, iniciei uma frequência regular às atividades da Igreja Católica, em Russas, no interior do Ceará, e a música, especialmente a que era executada pelo violão e o harmônio, me despertou um interesse real em tocar um instrumento. Várias forças confluíram para que isso se tornasse realidade. O primeiro fator fundamental que me possibilitou um contato direto com o violão foi a amizade com a família Santiago: Luíza Gomes de Lima e Antônio Santiago de Lima e os filhos Constantino, Teógenes, Paulo, Helena, Cosette e Lourdes. Nessa família, a mãe iniciara os filhos na arte do violão desde cedo e todos eram capazes de executar o instrumento com exceção do Constantino (mais inclinado às ciências e teologia: ele construiu seu primeiro rádio e seu primeiro relógio, por exemplo, e tinha participação ativa nas missas de domingo). Paulo Santiago, atualmente conhecido como Paulinho di Tarso, aos 7 anos (Figura 3), foi meu primeiro professor de música através do violão. Nessa mesma época, um bancário que estava morando temporariamente em Russas, Antônio Militão de Lima e que frequentava a casa da minha vizinha, onde todas as noites havia longas rodas de conversa com cadeiras do lado de fora, viu meu interesse na música e se prontificou a me ensinar os princípios de notação musical e solfejo. Os exercícios baseados em um princípio simples – seguir as notas associadas às linhas e espaços do pentagrama – gerava algumas situações de solfejo complexas para um estágio inicial (como o último exemplo da Figura 2). O Cônego Pedro de Alcântara Araújo, padre nascido em Granja (CE) e vigário da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário nessa época, também foi uma inspiração durante os primeiros anos. Músico de formação erudita na Alemanha, com excelente leitura à primeira vista, Pedro de Alcântara (Figura 4) era compositor e intelectual e sempre orientava a pequena camerata que participava das missas solenes (violino, clarinete, violões e harmônio). Curiosamente nesse mesmo período, alguns músicos iniciaram um processo de reativação da banda de rock do Colégio Flávio Marcílio. Eu assistia aos ensaios e pela primeira vez pude ver de perto e experimentar a guitarra e o contrabaixo elétricos. Essa rápida iniciação nesses instrumentos me possibilitou fundar com outros colegas de Escola Técnica (hoje IF), logo, em seguida à mudança da minha família para Fortaleza (1977) o grupo Inhamuns (Figura 5). Em Fortaleza, após participar do Inhamuns, da Banda Pesquisa (1980), e de fundar a Banda Oficina (Figura 6) com Ocelo Mendonça, Dennis Bentes e Fábio Castro (1982), realizei estudos de harmonia com a professora Vanda Ribeiro Costa (de 1985 a 1991), participei da fundação do Syntagma, o qual integrei de 1986 a 1997, trabalhei com jingles e arranjos e cursei Licenciatura em Música na UECE (1986 a 1996). Entre 1991 e 1998, fui aluno de composição do compositor argentino, radicado na Paraíba, José Alberto Kaplan (Figura 7), o que significaria viagens mensais à cidade de João Pessoa, nos finais de semana. Entre o segundo semestre de 1996 e o primeiro semestre de 1998 fui professor substituto de harmonia, análise, contraponto e organologia na UECE, o que funcionou como uma preparação para o mestrado que se iniciaria no segundo semestre de 1998, na Louisiana State University (LSU), graças a uma bolsa ‘Assistantship’ concedida pelo meu orientador, o compositor Dinos Constantinides (Figura 8). Logo após o mestrado (2000), ingressei no doutorado (2000-2004) na mesma universidade. No último período, já estava dando aulas de composição na graduação e pós-graduação e, ao concluir o doutorado, atuei como professor de composição na LSU, do segundo semestre de 2004 ao primeiro semestre de 2006, quando retornei ao Brasil. Depois de uma rápida passagem por Fortaleza, onde desenvolvi pesquisa junto ao CNPq/FUNCAP (2007-2008) e ministrei aulas na UECE, fui contratado pela Universidade Federal da Paraíba (2008) e, em seguida, Universidade Federal de Campina Grande (2009). Desde o segundo semestre de 2014, sou professor de composição da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na graduação e pós-graduação e integro o grupo de pesquisa MusMat. O Syntagma fazia e ainda faz um trabalho interessante de expor pra gente a ponte que existe entre a música do nordeste e a música antiga, especialmente pelas raízes médio-orientais. Vocês fizeram um estudo específico sobre isso? A pesquisa que se desenrolava no Syntagma, durante o período em que participei, era mais aplicada do que de base, ou seja, não resultava em artigos de caráter reflexivo para publicação. Porém, nós tínhamos muito contato com repertório, partituras, instrumentos medievais e renascentistas. Chegamos a preparar um guia de escuta de música antiga e um curso sobre instrumentos medievais e renascentistas. Igualmente do lado nordestino, fizemos contato com a produção Armorial e a ideia de experimentar transcrições das obras de Luiz Gonzaga para a formação do grupo foi uma inovação. Uma pesquisa profunda nesse sentido exigiria uma grande equipe e um financiamento que talvez nunca será disponível. E sobre as técnicas de “interpretação historicamente informada”? O Syntagma não enveredou por essa linha – misturávamos saltério, violão e tambor de reisado em uma mesma obra. Em que ponto você percebeu que poderia viver da composição? Nunca houve essa percepção. É praticamente impossível viver de composição, especialmente no Brasil, principalmente para os compositores que lidam com um tipo de música que não é associada com o entretenimento. A maior parte dos compositores sobrevive, então, com os trabalhos de produção, performance (mais raramente) ou com o ensino, seja da composição ou de outras disciplinas relacionadas à música. Curiosamente a composição alimenta as duas grandes áreas da música: a musicologia (sistemática e histórica) e a performance. Sem obras não há o que analisar ou o que tocar. Mais curiosamente ainda, a composição parece ser vista por alguns como um elemento secundário, quase como um lazer, algo que só se deve fazer nas horas vagas, nas noites e nos fins de semana. Assim, um compositor fica encurralado entre a academia, que em muitas de suas vertentes não considera a composição como pesquisa (e esse movimento cresce a cada dia), e o mercado, que não vê a composição como entretenimento. Claro que nos países do hemisfério norte, os compositores podem ter uma situação melhor, graças aos grants e às conexões com grupos de música contemporânea patrocinados pelos fundos de cultura, somente para os que optam por trabalhar com uma estética bem específica, uma nova prática comum, que congrega basicamente quatro vertentes e suas hibridações: o espectralismo francês, a ‘new complexity’ inglesa, as massas sonoras polonesas, e o indeterminismo americano. Os compositores que ainda trabalham com parâmetros como alturas e durações têm menos condições de sobrevivência. Como está hoje o cenário para compositoras? Você se engaja nessas discussões? As melhores masterclasses de composição das quais participei foram ministradas pelas compositoras Chen Yi e Joan Tower, creio que por conta das argumentações claras, da imersão na obra e compreensão do meu estilo, e das sugestões construtivas que impactaram positivamente a composição de obras posteriores. As mulheres vêm sendo prejudicadas em todas as áreas do conhecimento há mais de dois mil anos. Posso observar isso de perto especialmente na composição. Infelizmente, os movimentos em direção à correção dessa anomalia ainda não são suficientes para promover uma maior inserção das mulheres na composição, fato que certamente ocasionaria um progresso inimaginável para a área. Fale-nos um pouco da sua rotina. Você já me disse que compunha todo dia e que compor era um hábito como uma ginástica. O violonista, se passa algumas semanas sem tocar, a musculatura atrofia. O que, principalmente, “atrofia” quando se para de compor? Sim, preciso compor todo dia. Minha rotina é, no entanto, conduzida pelas atividades da universidade: preparação e realização de aulas, pesquisa (leitura de artigos e livros, elaboração de artigos), atividades de extensão (atualmente tenho dois projetos de extensão na UFRJ: o Concurso de Composição Minerva e o Bate-papo sobre composição), tarefas burocráticas, orientações, reuniões (milhares delas) etc. Mas sempre é possível viabilizar fragmentos durante o dia e a noite, e é nessas horas que desenvolvo meus projetos composicionais. O que atrofia em um compositor, se ele não compõe, é o mesmo que atrofia em um escritor: a técnica criativa, com a qual se pode conceber estruturas coerentes, complexas e com múltiplos significados. Há disciplinas acadêmicas ou escolas de composição que te fascinam? As pesquisas que relacionam música e matemática, o espectralismo francês (pela possibilidade de geração de harmonias inusitadas e ricas), as pesquisas sobre o ritmo e o jazz. Existe algum estilo musical que não te agrade, que não fale nada pra você, mas ainda assim você respeite? E o contrário? Algo que te desperte emoções e que goste de ouvir, mas que, em uma avaliação consciente, não ache interessante. Essa pergunta parece sugerir um par de dicotomias que hipoteticamente produziria quatro tipos de música, segundo a perspectiva particular de um determinado ouvinte, ao considerar uma música agradável versus desagradável e interessante versus desinteressante. Como ouvinte, compositor e pesquisador tomo contato com todos os tipos de música sem restrições, na busca de ampliar minhas perspectivas e praticar a diversidade musical. É possível uma convivência pacífica entre os vários tipos de música. Você tem instrumentos favoritos para compor? Ou formações? Gosto de todos os instrumentos. Algumas combinações exigem mais atenção do compositor na hora de escrever: piano e violão, flauta e trompete, por exemplo. Formações prediletas: quinteto de sopros, quarteto de cordas, piano + instrumento solista. Você ainda se sente arrebatado quando ouve alguma coisa? Quando ouço uma nova canção do Guinga, uma boa interpretação de Webern, Boulez, Dutilleux, ou Camargo Guarnieri, uma trilha sonora do Bernard Hermann, um arranjo vocal do Jacob Collier, um Prelúdio de Claudio Santoro ou um improviso do Michel Pipoquinha, Joe Pass ou Pat Metheny. Vê jovens compositores do Brasil e do Ceará despontando? Em nível de Brasil sim. Vários alunos talentosos de composição passaram pelas minhas aulas, as chamadas das Bienais da Funarte são sempre bem concorridas e há vários compositores brasileiros de altíssimo nível ensinando no exterior. Estou um pouco afastado no cenário cultural do Ceará. Recentemente vi uma trilha sonora do João Victor Barroso (O Barco, de Petrus Cariry) e gostei bastante do resultado – é um compositor excelente e atualizado com as técnicas composicionais. Fale sobre a obra que escolheu para tocar aqui. O Concerto para Piano e Orquestra N.2, Op.210 (2016) foi encomenda da Funarte para a XXII Bienal de Música Brasileira Contemporânea, realizada em 2017, e dedicada à pianista Maria Di Cavalcanti. A obra em três movimentos — Sério, Dolente, Animado — foi construída a partir de materiais sonoros que se interconectam ora de maneira rigorosamente planejada, ora de maneira livre. Eu trabalho atualmente com duas abordagens composicionais distintas: uma intimamente ligada à pesquisa, tem relação com a teoria dos sistemas composicionais (incluindo a modelagem sistêmica) e se vincula à ideia de realizar um planejamento rigoroso da obra previamente ao ato composicional propriamente dito. Os planejamentos da maioria das obras realizadas através dessa abordagem estão documentados em artigos científicos (a maior parte acessível via repositório Academia). Outra abordagem composicional, à qual se vinculam a maioria das obras no meu catálogo, pode ser associada à multiplicidade de técnicas, estéticas e fontes que são o ponto de partida para a construção musical. Desta forma, uma nova obra pode iniciar com um gesto harmônico improvisado a partir de qual se derivam todos os materiais; outros pontos de partida podem ser uma pintura, um poema, uma silhueta de paisagem, um plano arquitetônico, um fractal etc. Esse Concerto pertence a essa segunda categoria de abordagem composicional. Assim um detalhamento completo do planejamento composicional dessa obra estaria além dos objetivos desta entrevista, e que seria mais adequado a um artigo de natureza técnica. Mesmo assim, posso fornecer algumas ideias musicais que deram origem à obra, por exemplo, a série dodecafônica que é anunciada de forma interrompida pelo tutti orquestral e é, logo em seguida, executada integralmente pelas cordas graves. Essa interrupção é feita pelo piano que ressalta o intervalo de quarta justa, uma característica intervalar importante da série. O segundo movimento, por exemplo, foi motivado pelo poliacorde (Ré maior + Fá menor) apresentado logo no início pelo piano (Figura 10). A série dodecafônica apresentada no primeiro movimento também retorna em alguns momentos do segundo movimento. O rigor na arquitetura da obra e a complexidade dos materiais se diluem gradualmente à medida em que os movimentos são apresentados, indo de um uso mais sistemático de sonoridades mais densas até um uso mais intuitivo de elementos mais tradicionais. Figura 1. Liduino Pitombeira aos 3 anos de idade (1965) com um violão de plástico. As cordas de nylon eram tangidas com palitos de fósforo queimados. Figura 2. Primeira aula de notação musical e solfejo com Antônio Militão de Lima, em 1974 Figura 3. Paulinho di Tarso em 2018. Figura 4. Padre Pedro de Alcântara Araújo, em 1988. Figura 5. Inhamuns (1978): Nicodemos Façanha (contrabaixo), Fernando Figueiredo (bateria), Poty Fontenelle (pífano), Liduino Pitombeira (guitarra elétrica) e Alcântara Pimentel (violão e voz). Figura 6. Banda Oficina I: Fábio Castro, Liduino Pitombeira, Dennis Bentes e Ocelo Mendonça, em 1983. Figura 7. Liduino Pitombeira, José Alberto Kaplan e Maria Di Cavalcanti, em 1991. Figura 8. Vinni Frizzo, Dinos Constantinides e Liduino Pitombeira, por ocasião da cerimônia de entrega do prêmio ‘MTNA Shepherd Composer of the Year’, em 2004, em Kansas City, Estados Unidos. Figura 9. Gestos iniciais do Concerto para Piano e Orquestra N.2, Op. 210 (2016) de Liduino Pitombeira. Embora a obra seja para orquestra sinfônica e piano, por questões de espaço, a figura mostra apenas a seção de cordas e o piano. Figura 10. Acorde inicial do segundo movimento do Concerto para Piano e Orquestra N.2, Op. 210 (2016) de Liduino Pitombeira.
- Argonautas e Edu Lobo - Meia Noite
Mais uma grande aventura dos Argonautas. Gravar com Edu Lobo foi uma emoção muito grande. Ele é um dos meus maiores ídolos. Sou só eu que me arrepio quando ele começa a cantar? Edu escolheu cantar Meia Noite, no disco que fizemos em homenagem a ele - Argonautas Interpretam Edu Lobo. Edu Lobo - voz Rafael Torres - violão e arranjo Ayrton Pessoa - piano Ednar Pinho - baixo Meia Noite (Edu Lobo e Chico Buarque) Se a noite não tem fundo O mar perde valor Opaco é o fim do mundo Pra qualquer navegador. Que perde o oriente E entra em expirais E topa pela frente um contingente Que ele já deixou pra trás. Os soluços dobram tão iguais Seus rivais, seus irmãos Seu navio carregado de ideais Que foram escorrendo feito grãos. As estrelas que não voltam nunca mais E um oceano Pra lavar as mãos.
- A Permuta dos Santos, de Edu Lobo e Chico Buarque, com Argonautas e Mônica Salmaso
Mais uma música do disco "Argonautas Interpretam Edu Lobo". Quando convidamos a Mônica Salmaso para participar de um show com a gente, em 2018, demos a ela total liberdade pra escolher as músicas que quisesse. A única de Edu Lobo e, salvo engano, a única do Chico Buarque também, foi essa: "A Permuta dos Santos". Daí, quando fomos gravar um disco com as músicas deles, reaproveitamos o arranjo e fomos mais uma vez beneficiados pela boa vontade da convidada. É um luxo. A única coisa que ela pediu foi que eu tocasse um Lá bem nítido entre a introdução e sua entrada, isso no show. Tirando isso, "você pode colocar as dissonâncias que quiser". É claro que esse Lá era pra ela se situar harmonicamente de imediato, já que não teríamos muitos ensaios, mas eu tenho certeza que se eu tocasse um Ré Bemol, ainda assim ela entrava certo (por falar nisso, na gravação, vocês nem vão ouvir esse Lá, substituí por um efeito de sinos). Essa música fala do curioso costume de "castigar" os santos e trocá-los de igreja até que venha a chuva. No Songbook (série de livros com as partituras de várias lendas da MPB produzidos por Almir Chediak) do Chico Buarque, tem uma breve descrição de Câmara Cascudo sobre esse hábito. Diz o autor: "[...] Outro recurso muito eficaz, o mais eficaz de todos eles, consiste em "contrariar" os santos. [...] levava-se para ali o S. Sebastião da igreja local, trazendo-se, em troca, [...], a imagem do Senhor do Bonfim, tudo processionalmente, com rezas e cânticos. Enquanto não chovia os santos não voltavam para seus lugares." Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo Voz: Mônica Salmaso Violão e arranjo: Rafael Torres Acordeão: Ayrton Pessoa Baixo: Ednar Pinho Percussão: Igor Ribeiro Bateria: Luiz Orsano Escute o disco em: www.grupoargonautas.com.br A Permuta dos Santos (Edu Lobo e Chico Buarque) São José de porcelana vai morar Na matriz da Imaculada Conceição O bom José desalojado pode agora despertar E acudir os seus fiéis sem terra, sem trabalho e pão Vai a virgem de alabastro Conceição Na 'carroça' para a Igreja do Bonfim A Conceição incomodada 'de escutar' nossa oração Nos livrar da seca, da enxurrada e da estação ruim Bom Jesus de luz neon sai do Bonfim Pra capela de São Carlos Borromeu O Bom Jesus contrariado deve se lembrar enfim De mandar o tempo de fartura que nos prometeu Borromeu pedra-sabão vai pro altar Pertencente à estrela-mãe de Nazaré A Nazaré vai 'de mudança' pro mosteiro de São João E o Evangelista pra basílica de São José Mas se a vida mesmo assim não melhorar Os beatos vão largar a boa-fé E as paróquias com seus santos, tudo fora de lugar Santo que quiser voltar pra casa, só se for a pé
- Cordel: O rabequeiro do brejo e o trinado do diabo
Giuseppe Tartini encontrou-se com o Diabo ainda no séc. XVIII, bem antes do advento do romantismo. Muito embora Paganini tenha se consagrado por sua virtuose, excentricidade e pela história do pacto mefistofélico, em sua época a transgressão já estava há muito instaurada no meio artístico; o “incidente de Teplitz” já tinha acontecido. Foi em sonho que o “cão” apareceu para o violinista barroco e ofereceu-se a ele como gênio. Qualquer que fosse o pedido feito, num piscar de olhos era atendido. Até que, após muitos desejos concedidos, o amo viu o violino na cabeceira da cama e ordenou: “toca algo para mim”. Arco e violino em mãos, a criatura onírica executou a mais sublime das sonatas que o músico ouvira em toda sua vida. Impressionante! O poder daquela música lhe fora tão inebriante que ele acabou adormecendo, embalado no mundo dos sonhos para acordar novamente no chão dos homens. Correu para registrar em pauta o que ouvira antes que a divina memória lhe traísse. Resultado: estava composta sua Magnum Opus, uma das mais belas e conhecidas peças para violino de toda a história, o célebre “Trinado do diabo”. Quem dorme em rede e não é primogênito certamente já teve o desprazer de ser acordado aos puxões e sacudidas de punhos. É sempre um susto, e mais ainda quando quem puxa é o Diabo. Assim acordou Gilberto José Pedro, o Gilzé, tocador de rabeca dos confins do Brejo do Reguengado. O moço era agricultor e costumava "passar a égua no bode durante as folgas". Tinha fama no lugar e até ganhava algum para tocar em festas. Porém, para o seu desprazer, apareceu o fole e tomou de conta de tudo, rebaixando a rabequinha ao status de antiguidade. Perdeu o gosto de tocar e viveu cabisbaixo até que, certa noite, recebeu a visita que lhe renderia sucesso e restauraria o prestígio ao seu instrumento e a ele a criatividade. Inspirado pelo fantástico episódio vivido por Tartini e pela tradição da rabeca nordestina foi escrito o cordel “O rabequeiro do Brejo e o trinado do Diabo”, obra faustiana de Eduardo de Menezes Macedo, poeta que, enquanto aguarda o sonho que o fará um Dante, um Leandro, segue escrevendo seus versos teimosos. Às estrofes! O RABEQUEIRO DO BREJO E O TRINADO DO DIABO Eduardo Macedo 152 estrofes Após quase cem passados Pouca coisa inda me resta; As mãos já não firmam mais, A vista pra nada presta, As pernas são varas secas, A boca tudo detesta. Mas já fui bom vivedor, Quando rapaz tive glória. Meus dedos eram ligeiros, Na rabeca fiz história. Em quantos sambas toquei Não puxo pela memória! Por Gilberto José Pedro Dos Santos sou batizado, Mas pelo povo fui sempre De Gilzé Pedro chamado; O famoso rabequeiro Do Brejo do Reguengado. Não existia sanfona Quando eu era molecote. Pé-de-bode, concertina, Era coisa de alto dote. A rabeca é quem reinava Em valsa, baião e xote. Em qualquer ocasião Onde existia uma dança Eu olhava o tocador E me enchia de esperança De um dia poder tocar. Guardo isso na lembrança. Sonhava em ser rabequeiro Pra fazer dançar a gente. Achava que todo músico Detinha algo diferente. Até que o destino deu-me Certa vez esse presente. Lembro muito bem que pai, Num ano bom de fartura, Chegou um dia da feira Com legume, arroz, mistura, Mais um pacote de pano, Bem cosido na costura. Papai vinha troviscado, O que logo mãe notou. Quando ele abriu o pacote E de dentro retirou Uma rabeca, ligeiro A confusão se instaurou: − Além de tomar cachaça Pelo mundo tu investe Dinheiro em breguesso que Não se come nem se veste! Quer tocar pra ir nos bailes, Cachaceiro, fi' da peste?! Pai, sem responder a ela, Puxou, calmo, uma banqueta, Pôs a rabeca no peito, Empunhou sua vareta, Danou-se a riscar as cordas Co’os fios da crina preta. Foi um ganido tão grande Tão rouco e tão desmedido Que pai logo desistiu. Pela cana combalido, Encostou ela de lado, Saiu coçando o ouvido. Caiu no fundo da rede, Ferrou em sono profundo. Com raiva, mamãe saiu Pra casa do vô Raimundo. Resultado: fiquei só Mais a rabeca no mundo! Passei a égua no bode Sem ter tocado jamais E tirei um som tão limpo, Friccionando os animais Que desde então a rabeca Eu mesmo não soltei mais. No começo era escondido Que tocava, sem ter perto Pai nem mãe, porém um dia Fui por eles descoberto. No fim das contas acharam Que eu ia no rumo certo. Eu detinha algum talento, Muito embora encabulado. Passei a ter meus horários Entre a faina do roçado Para treinar na bichinha, Por pai e mãe abonado. Fui aprendendo sozinho. Quando havia uma função Em casamento, batismo, Reisado, renovação, Eu só reparava em quem Tinha a rabeca na mão. Com as butucas nos dedos Que corriam pelo braço, Eu ia gravando os toques – Melodias e compasso. Chegava em casa eu pegava A minha e mandava o aço. Nisso, cresci afamado: “Gilzé Pedro Rabequeiro”. Me formei tocador sem Assinar o nome inteiro. Toquei meu primeiro samba Como se diz, “nos cueiro”. O tempo passou voando; Pai morreu, mãe foi morar Com vovô, no que eu fiquei Na casa, pra pastorar. Adulto, já, nessa altura Ganhava o meu pra tocar. Foi quando, pro meu desastre, Apareceu concertina. O povo se enfeitiçou De maneira tão mofina Que eu despenquei como quem Cai num buraco sem quina. Ninguém mais queria ouvir A rabeca − era cafona! Falavam somente em fole De pé-de-bode e sanfona. Nessa prosa até os velhos Foram pegando carona. Eu fiquei desconsolado, Pois pra viver só de roça É preciso chuva boa, Com seca não há quem possa. Afora o prazer que eu tinha De tocar numa palhoça. Tardezinha, certa feita, Eu voltava do plantio E quando adentrei em casa Senti um grande vazio. Até mesmo o rancho velho Achei que estava mais frio. Comi angu de farinha Com queijo e feijão maduro. Acendi o candeeiro Porque já ficava escuro E me vi ali sozinho, Triste, sem ninguém e duro. Abri o baú de mãe, Lancei mão da rabequinha, Me sentei no tamborete, Afinei bem a bichinha, Toquei um samba completo Pro público que ali não tinha. Terminei, soltei o arco, Peguei ela e disse assim: − Então, minha companheira, Fale o que será de mim. Vamos findar na miséria Dessa solidão sem fim? − Me inspira com qualquer coisa, Ritmo novo, algum segredo Pra gente voltar aos sambas E sair desse degredo. Nem que seja pra tocar No inferno eu topo, sem medo! Olhando pra ela eu disse Com muito ressentimento Tudo aquilo e de repente Em casa soprou um vento Que me arrepiou o couro E toldou meu pensamento. Deixei ela sobre a mesa, Carreguei o candeeiro Pra camarinha e deitei Na minha rede ligeiro. Fiquei a me balançar Olhando às telhas, cabreiro. Acabei adormecendo Mesmo de candeia acesa. Mas o sono durou pouco, Qual não foi minha surpresa: Receber, de madrugada, Visita da profundeza! Acordei com uns repuxos Na rede e quando a visão Foi se desanuviando Eu vi bem de frente o Cão, Em pé, segurando os punhos, Sacudindo com a mão. Foi um susto tão medonho Que nem consegui gritar. Puxei os lados da rede Para nela me ocultar, Foi quando ele foi falando Pra eu não me apavorar. − Seu Gilberto José Pedro, Não tema, mantenha a calma. Não vim pra lhe fazer mal, Guarde sossegada a alma. Vim aqui dar bom alvitre E não promover-lhe trauma. − Tenho aqui sua rabeca E vou lhe ensinar um toque Que duvido que aos dançantes Grande calor não provoque. Portanto preste atenção. Repare, se desentoque! Fiquei no fundo da rede Me tremendo, apavorado, Até que a rabeca entrou Com o seu timbre arranhado Chorando um baião que nunca Antes eu tinha escutado. Nem precisava zabumba Pois havia um tal bordão Troando feito pancada Que se dá em percussão, Ao passo que ressoava Qual baixo de acordeão. As notas do fraseado, Cada qual era uma cor. Mais parecia um jardim Todo enfeitado de flor. Aos poucos tomei coragem De olhar para o tocador. Tinha uma perna escorada No tamborete de couro. Nas costas um par de asas Parecidas de besouro. Um rabo se balançava Na ponta do cabelouro. Peludo que nem um bode, Daqueles avermelhados, Ele tocava a rabeca De braços bem abaixados Pros fios da barba às cordas Não findarem enlinhados. Com metade da cabeça Fora da rede eu olhava E na medida em que ouvia A música me enfeitiçava – Enquanto os olhos fechavam A boca se escancarava. Dormi sob a melodia Da rabeca do diabo. Dormi que passei direto... A manhã já dava cabo Quando mãe bateu na porta Com um saco de quiabo. “Bença mãe”, abri a porta, No que ela foi perguntando: − Agora deu pra passar A manhã toda roncando? Estás doente ou depois De véi tá vagabundando? − Não é isso, minha velha! Como ontem teve frieza Eu, que não me dou com frio, De noite senti moleza. Dê aqui esses quiabos, Venha se sentar na mesa. Me sentindo atordoado Pela noite conturbada, Lembrando do “pesadelo” Da toada endiabrada, Tomei um susto medonho Quando vi mamãe sentada. Pois sobre a mesa não tinha Nada mais do que a toalha E eu não tinha bebido Coisa que o juízo empalha. (Hoje ainda, sem cachaça, A minha mente não falha!) Bem lembrava onde eu havia Depositado o instrumento Antes de seguir ao quarto. Lá voltei, pro meu tormento, Avistei junto da rede A rabequinha no assento. Eu até quis começar A ter medo mas, aí, Pensei no baião fantástico Que na madrugada ouvi. Peguei a rabeca, o arco E para a sala saí. – Lá vem mais essa desgraça! Tu devia era trocar Essa bicha numa enxada E por inverno rezar. Deus o livre de preguiça… Disse mãe a resmungar. Com a rabequinha em punho Comecei fazer esboço Dos toques que recordava. Logo fui, sem alvoroço, Da casca à polpa e ligeiro Tinha alcançado o caroço! Toquei com desenvoltura Toda aquela melodia. Recordei nota por nota Tudo que o bicho fazia. Quando me dei conta mãe Era quem se sacudia. Foi um baião desgramado Da cachorra da moléstia! Tocado com maestria (Digo sem falsa modéstia) De fazer velha casar E vaqueiro dar a véstia. Na noite daquele dia Ia haver o casamento De Josué Marrequeiro Com Zefinha Livramento; Engomei meu paletó, Rapei a barba a contento. Logo após a cerimônia Apontei em Josué. Não havia começado Ainda o arrasta-pé. Quem veio me receber Foi Francisco Punaré. Punaré era cunhado De Josué Marrequeiro, Casado com sua irmã, Cabra bom e verdadeiro. Esse, sim, prestigiava Ao ver um bom rabequeiro. – Gilzé, quanto tempo tem Que não te encontro em folguedo? Tenho saudade de ouvir Tu tocando esse brinquedo. Há tempos só vejo gente Batendo em botão com dedo. – Meu compadre, Punaré, Os tempos estão mudados. O povo só quer dançar Na base desses teclados. Só querem saber de foles Mesmo que estejam furados. Francisco me replicou Dizendo: − Pra lá com isso! Eu até que escuto um fole, Pois jamais nego serviço. Mas prefiro a rabequinha, Você bem que sabe disso. Ficamos a prosear Enquanto não começava O baile, por consequência Do fole que não chegava. Foi quando o noivo me viu E foi até onde estava. – Boa noite, Gilzé Pedro. Esteja em casa, à vontade. Sua presença agradeço E peço, por caridade, Toque pro povo dançar Que já há necessidade. Nisso, não contei pipoca: Desensaquei a bichinha, Na égua esfreguei o breu, Afinei ela certinha E peguei a tocar nela Uma mazurca que eu tinha. Houve tanta animação Que me senti num enterro! Pensei então “a mazurca Deve ter sido meu erro. Agora vou caprichar Pra acabar esse desterro”. Ajeitei ela no peito E danei a tocar xote Achando que os dançadores Iam sair no pinote, Mas o povo estava frio Que só mesmo água de pote. Não fosse o pé de Francisco Movimento não havia. Ao fim da segunda música Apenas ele aplaudia. Era a vez de usar a carta Derradeira que trazia. Olhei para o zabumbeiro E sem maiores demoras Sapequei o tal baião Como alguém que dá de esporas. Gastei tudo enquanto tinha Sem pensar nos noves foras. O povo foi levantando Um a um, cada casal Foi preenchendo o terreiro, Sacudindo o areal. De repente, era só dança Que se via no quintal. Pra você ver como foi: Eu, que andava desprezado, Sem aparecer em samba, Toquei feito um condenado Uma solfa atrás da outra, Pra parente e convidado. A coisa foi tão dum jeito Que quase hora e meia após Chegou o homem do fole E se deu − aqui pra nós − Que ninguém mais quis deixar Ele tocar seus forrós. Fui pra casa, aquele dia, Depois de quebrar a barra. A minha satisfação Foi algo que ninguém narra. Recuperei o prestígio Na noite daquela farra. Com muito sono nos olhos, O apurado na carteira, Cheguei em casa cansado, Desenrolei minha esteira, Deitei, agarrei no sono Pensando na brincadeira. Eu, que vinha duma noite De descanso interrompido Que desembocou em outra Sem nenhum sono dormido, Tirei direto, emendando, Sem ver o sol engolido. Quando foi na madrugada Acordei de supetão. Me levantei duma vez Em total escuridão. Quando acendi a candeia Lá estava, de novo, o cão! – Gilberto José, és rocha, Só não tem nada com santo! – Disse ele e caiu no riso Ao perceber meu espanto – Se acalme e vá se sentando Nesse banco aí no canto. – És mesmo “pedra noventa”, Nunca tive aluno igual. Gostei, aprendeu a música De maneira magistral. Tocou que caiu de novo No gosto do pessoal. – Seu talento é inconteste, Porém, o meu é maior, De maneira que consigo Te fazer tocar melhor. Com meus toques e macetes Tu não derrama suor. – Vamos, senta, sem receio, Eu já disse pra que vim. Hoje lhe dou outra aula, Basta reparar em mim, Que teu tempo de penúria Agora chegou ao fim. Ele pegou a rabeca E começou a tocar A mazurca que compus De forma espetacular, Mudando coisas que eu Jamais ia imaginar. Na sequência, o mesmo xote Do dia do casamento Ele interpretou também, Mas dando novo ornamento. Os floreados completos Bem guardei no pensamento. Mas deu-se que um sono forte Foi tomando minha mente Ao passo que ele tocava, Como houve anteriormente. Quando eu ia adormecendo Ainda ouvi, fracamente: − Dorme agora, rabequeiro, Amanhã acordarás Com maior desenvoltura. Pra frente sempre andarás Se depender dos auxílios Desse amigo, Satanás! − Dorme em paz. Em quatro noites Volto pra te oferecer O serviço mais completo Que outro não pode prover Por preço proporcional Ao prestígio que vais ter. Despertei com tais palavras Ecoando em meus ouvidos, Sabendo que o capiroto Sempre cobra aos envolvidos Com ele a tormenta eterna No fogo dos desvalidos. Durante o dia completo O medo me dominou, Porém, na boca da noite, Quando a rabeca chorou Naquela base do cão A minha ideia mudou. Estava tudo mais claro, Mais leve e descomplicado. Me sentia como nunca, Estava desembestado! Tocava divinamente No escuro e de olho fechado. Enquanto eu tocava em casa Apareceu Punaré Me saudando dessa forma: − Louvado seja, Gilzé! O homem que, pro meu gosto, Pôs a rabeca de pé! − Pra sempre seja louvado! Só porque sou seu amigo Não queira me engabelar Dizendo coisa comigo. Porém, um dia, quem sabe... Isso é coisa que persigo. Respondi feito galhofa, Oferecendo a cadeira. Ele disse: − ‘Tá de prosa, Mas eu não fiz brincadeira; Depois de ontem, no casório, Tu não sobra pra quem queira. − Quarta agora, Santo Antônio, Vai ter fogueira em Seu Bel. Ele mandou vir lhe ver Pra cumprir o seu papel, Porque “Gilzé na rabeca É doutor sem ter anel”. − Inda mandou perguntar A quanto sai a tocada, Pois somente passar pires Pra você não vale nada. Eita, prestígio da gota! Eita, moral desgraçada! Foi grande minha alegria. Finalmente a situação Dava sinais de melhora, Chovia no meu torrão! Estabeleci o preço E firmei minha intenção. Entre a rabeca e a roça Alternei até a festa. Na véspera visitei mãe, Levei quantia modesta Prometendo lhe dar mais Um dia após a seresta. Pedi a bença e voltei Pra minha casa sozinho. No trajeto eu refleti, Pensando pelo caminho Se acaso não estaria Sendo por demais mesquinho. Chegado o dia em Seu Bel Fiz o samba pegar fogo! Dançou gente nova e velha, Foi o maior desafogo. Dançou solteiro e casado, Até galinha com gogo! Mas o que me atentou mesmo Foi a beleza sem par Da prima de Josué Que, no terreiro a dançar, Vira e mexe aproximava Fixando em mim seu olhar. Seu nome era Deolinda. Com ela ainda dancei Duas solfas, visto que Minha rabeca passei À mão de outro rabequeiro Que no baile eu encontrei. Quando a festa terminou Recebi meu pagamento E já saí contratado Para fazer outro evento Logo no fim de semana, No sítio de Antõe Sarmento. Eu não tinha me esquecido Que existia um compromisso Marcado na madrugada. Exatamente por isso Tomei umas três lapadas Para enfrentar o serviço. Ao sair, por precaução, Deixei a candeia acesa E de longe percebi Dentro de casa clareza. Entrei espiando tudo, Pus a rabeca na mesa. Pela casa nem sinal, Tudo estava inalterado. Nisso, puxei a banqueta E quando estava sentado Vi que o saco da rabeca Parecia esfumaçado. Pra trás pinotei de susto, Quase que me desaprumo. A fumaça se adensou, Surgiu do meio do fumo O diabo, de olhos de fogo Espiando no meu rumo. Com um tremido das asas Ele espalhou a fumaça. Batendo palmas pra mim Disse: − Não há quem desfaça A glória daquele que Escolhe por onde passa. – Tua fama aqui no Brejo, Como vês, recuperaste. Hoje comanda teus passos Por caminho que trilhaste. Só a ti cabe ir além, Ou parar, caso te baste. – Comigo tens garantia De não te faltar engenho, Pois sendo teu professor Terei sempre grande empenho Em te ensinar novas técnicas, Aumentar teu desempenho. – O preço, deves saber, Pro teu sucesso e conforto Durante a vida completa, Só pagas depois de morto: Tocarás, pra todo o sempre, No meu território torto! Ao cabo dessas palavras A cana perdeu efeito, Me arrepiei por completo, Batucou forte meu peito, Logo imaginei que estava Já na casa dos sem jeito. Eu permaneci calado, Com medo e muito confuso. O coração galopava, A cabeça em parafuso Rodopiava e não vinha Um pensamento concluso. Ele então foi à rabeca E começou a tocar. Soou um xote arretado, Pareceu familiar, Até que enfim relembrei De Deolinda a dançar. Era a música que há pouco Tinha o colega tocado Para que nós dois dançássemos De umbigo e rosto colado. De repente, ao pensar nela, Me senti encorajado. Respirei fundo e falei: – Minha vida tem seguido Muito boa nesses dias. Reencontrei o sentido, Alegria e fé. Portanto Diga qual o prometido. – Muito bem, tu tens razão. Que não fique duvidoso! O nosso pacto prevê Que tu serás virtuoso E viverás com ventura Até que sejas idoso. – O resto da mocidade Gastarás intensamente, Gozarás maturidade Da maneira mais decente. Sempre serás mencionado Na boca da tua gente. Assim dizendo esperou Até que lhe dei resposta: – De viver feliz, amado, Sei que não há quem não gosta. Porém, a vela se apaga Depois que a velhice encosta. – Então todos têm em mente Descansar repouso eterno, Viver toda a eternidade Com nosso Senhor superno. Nesse caso eu ficarei Pra sempre preso no inferno? – Tudo fica ao teu arbítrio, Pondera sobre o que tem. Pra que eu venha é só querer; Vou-me embora, pensa bem: Pois presos vivemos todos, Eu vivo preso também! Ao concluir tais palavras Tornou a desintegrar Em fumaça e pelos efes Da rabeca o vi entrar Até que não restou fumo Espalhado pelo ar. Chegado o dia da festa Parti para Antõe Sarmento Com a rabeca na bolsa, Deolinda no pensamento, Uma frieza nas mãos E no peito desalento. Ia pensando na vida, Sobre o que tinha mudado, Sobre os derradeiros dias, Como tinham melhorado; Voltei a ser “Gilzé Pedro Do Brejo do Reguengado”! Ao chegar fui recebido Com diversas saudações. Todos ali me aclamavam Dando felicitações. Com pouco foi Punaré Chegando com seus bordões. − Chegue aqui, compadre velho, Vamos pintar a caneca! Venha logo e desensaque Essa bendita rabeca, Bote a bicha pra tocar Que hoje a fogueira é de breca! Eu, que estava meio mole, Não correspondi ao nível, No que ele foi me dizendo: − Se alegre, será possível! Tenho pra lhe dar notícia Muito mais do que aprazível. − Espie só: lá no canto, Toda vestida de flor, Deolinda da Marreca Perfumadinha de amor. ‘Tão dizendo que ela veio No rastro do tocador! − Oxente, tá com conversa!? Resmunguei tentando, em vão, Esconder o meu semblante De gozo e satisfação. − Deixe disso e vamos logo Tomar uma com limão. No caminho da barraca Das bebidas ele disse: − Deolinda contou a Rosa E pediu que não abrisse. Mas essa deu com a língua Que eu queria que tu visse. − Rosa me contou que ela Declarou-se apaixonada E pra onde tu seguisse Ela iria preparada Pra ganhar teu coração Até findar-se casada! Eu tinha ganhado a noite Com a nova de Francisco! Tomei foi logo uma terça Que fiquei meio trovisco. Antes de ir pro terreiro Me acendi que só corisco. Dei um giro de cabeça Até mirar Deolinda Que àquela noite luzia Com uma beleza infinda. Era flor cujo botão Não desabrochara ainda. No sentido de ganhá-la Me mandei para a função Sentindo um fogo no espírito, Cheio de disposição. Peguei a rabeca velha E descasquei um baião. Botei pra voar as bandas Logo na primeira dança Que torei bem duas cordas Se não me falha a lembrança. A poeira subiu alta Que encobriu a vizinhança. Coloquei de volta as cordas E danei a xotear. Com solfa detrás de solfa O povo pôs-se a dançar. Mas no terreiro eu só via Deolinda a transitar. Depois duma hora e pouco Da rabeca fazer samba Parei para descansar Moído, de perna bamba. Botaram pra me render Um tocador carimbamba. Dedilhando um pé-de-bode O cabra tocou insosso. Como eu tinha o que fazer Sem piscar lhe dei endosso. Parti para Deolinda Sem provocar alvoroço. Cheguei sereno qual quê! Puxei ela para a dança. No passo dum xote manso Fui ganhando confiança. Ficamos juntos, dançando, Até o fim da festança. Aquela noite mudou Para sempre a minha história. Tornei-me mais confiante, Ganhei coragem notória, Passei a ser mais disposto, Melhorei minha oratória. Uns poucos dias depois O meu desejo chamou O professor das profundas, Que logo me visitou. Ainda melhor que antes A rabeca ele tocou. Aprendi diversas técnicas, Descobri muito segredo. Lembro dum tal de “piscado” Tocado apenas de dedo. Tinha também o trinado, Bonito de fazer medo! Assim fui tangendo a fama Desde o Brejo até pra fora. Quando a sanfona chegou Ganhou tudo, sem demora, Mas eu não sofri derrota Nem vi chegar minha hora. Continuei a tocar Nas fogueiras, casamentos... Inclusive, Deolinda Deu-me os melhores momentos. De filhos, netos, bisnetos, Foram trinta e três rebentos. Mas voltemos alguns anos, Vou findar minha ventura; Com o tempo fui sentindo Cada vez mais amargura. Quando pensava no inferno Eu padecia de agrura. Já na época madura, Com mulher, filhos, saúde, Satisfeito com a fama Que me deu minha virtude, Diante daquele acordo Me contentar eu não pude. Só pensava numa forma De quebrar aquele encanto. Quando vinha a agonia Eu me escondia num canto E, sem ninguém reparar, Deixava correr o pranto. Imagine uma prisão Feita de castigo e dor Onde, pela vida eterna, Sofreria o pecador? Pelo menos foi assim Que ensinou Nosso Senhor. E temendo ficar preso Foi que tive uma visão: Lembrei que quando ele vinha Me ensinar nova lição Emergia da rabeca Pra fazer aparição. Terminada a explicação Novamente penetrava Pelos efes do instrumento E por lá mesmo ficava. Imaginei “a rabeca Era que o pacto guardava”. Preparei uma coivara Lá na extrema do terreno, Levei quem me acompanhou Desde quando era pequeno. Era tarde, o sol se punha E o vento soprava ameno. Foi sentindo um grande aperto Que a rabequinha deitei Em cima das varas secas E por fim fogo ateei. Antes da chama subir Pra casa, triste, rumei. Fui me sentar lá no alpendre Pra ver o fogo pegar. Súbito uma labareda Começou a crepitar Que os estralos, de tão altos, Fizeram foi me assombrar. Subiram chamas vermelhas Muito desproporcionais Às varas que lá haviam E rajadas infernais De vento bateram portas, Assanharam animais. Deolinda saiu pra fora, Com o meu braço agarrou-se Mas tão rápido quanto veio A ventania acabou-se. As chamas também baixaram Até que o fogo apagou-se. Dali pra frente eu senti Que estava desobrigado. Comprei um novo instrumento Bonito, bem acabado, Mas fraco em termo de som – Não dava aquele trinado! Segui sendo contratado Pra fazer “forró” e festa, Sem nunca alcançar tocar Como o de chifre na testa. Foi mais tocador que eu, Isso a mim ninguém contesta. Uma saudade amuada Vez em quando ainda vem. Foi um grande aprendizado, Coisa que só poucos tem. Não fosse essa experiência Eu hoje seria alguém? G ozei a vida dum modo I nofensivo e direito. U sei o que tinha em mãos, S em nunca fazer malfeito E se você me maldiz P elas escolhas que fiz É por puro preconceito. T ermina aqui meu relato, A qui finda a narração. R ecordei da minha vida T ocando pelo sertão. I nda hoje a mocidade N o galope da saudade I nvade meu coração. Fortaleza, junho de 2016. Eduardo de Menezes Macedo é poeta, xilógrafo e compositor cearense. Nascido na capital alencarina em 1978 e filho de pais interioranos, faz dos versos cordelísticos instrumento para cantar e entalhar o sertão que carrega na alma. Autor de diversos títulos, premiado pelo ministério da cultura em 2010 e, mais recentemente, vencedor do concurso literário do PAIC 2017 com o livro “A fantástica peleja entre Bode Ioiô e Boi Mansinho”, brande suas armas contra geradores eólicos pela honra da musa poética do cordel brasileiro.
- resenha: a vegetariana de Han Kang
“O que será que se passa por trás desses olhos? Que tipo de terror, ira, dor ou inferno, que ela desconhece?” A Vegetariana, da escritora sul-coreana Han Kang é o primeiro livro da autora publicado em seu país. Segundo a própria Hang Kang, ele surgiu da necessidade de explorar as outras facetas do conto The Fruit of My Wife ou O Fruto da Minha Esposa (em tradução livre), também da autora. O conto fala sobre uma mulher que para de se alimentar e se transforma em planta para, logo em seguida, se tornar uma árvore que recebe os cuidados do marido. A autora afirmou em entrevistas que, mesmo após o conto publicado, ela ainda se sentia intrigada pela personagem e, portanto escreveu a novela A Vegetariana para tentar encontrar respostas e preencher as lacunas que ficaram abertas. É difícil encaixar A Vegetariana em um gênero específico, não há elementos fantásticos ou outros que o caracterizem como um horror: trata-se de uma ficção com um alto teor de conflitos psicológicos. O livro é dividido em três partes, em cada uma delas, o marido, o cunhado e a irmã recontam a experiência de conviver com Yeonghye, uma mulher que, após um sonho enigmático, anuncia que decidiu se tornar vegetariana. A decisão que parece simples é recebida pela família de Yeonghye com certa dose de exasperação. As reações exageradas vão escalonando à medida que a protagonista se separa da realidade, e o vegetarianismo é apenas um passo do seu processo que evolui até Yeonghye parar de ingerir alimentos e de se manter asseada. Cada estágio do seu processo vai descortinando as rachaduras da família, expondo casamentos infelizes, traumas de infância e relacionamentos abusivos. Como as narrativas possuem perspectivas limitadas e raramente ouvimos Yeonghye, o que resta ao leitor são as percepções dos personagens através de narrativas que em algumas vezes soam dúbias, afinal não estamos falando de narradores confiáveis aqui. Talvez seja esta a beleza de A Vegetariana, o motivo pelo qual foi premiado com o Man Book International Prize, a história repleta de camadas, vai se desdobrando aos nossos olhos, transbordando tantos significados e simbologias que é difícil ter certeza se o livro será decodificado após a leitura. O vegetarianismo de Yeonghye é literal, mas carrega consigo uma rebeldia contra o status quo de uma sociedade tradicionalista. Ao quebrar uma convenção familiar a protagonista está rompendo não apenas com hábitos, mas também com a submissão ao marido, que a vê como uma mulher “adequada”, e também expõe a estranha obsessão que o cunhado sente por ela, revelando que a vida da irmã — a personagem aparentemente mais centrada da trama — também não é tão perfeita. O livro trata de assuntos delicados para o público, com histórias que giram em torno de violência contra a mulher, abuso sexual e até o direito de acabar com a própria vida. Não preciso dizer que tenho apreço por esse tipo de livro. A história que, a princípio, pode soar simples, é intrincada e deixa no leitor o desejo de compreender o motivo pelo qual Yeonghye não quer mais estar entre nós. A Vegetariana, Han Kang Publicado no Brasil pela @todavialivros Tradução: Jae Hyung Woo Fabiana Ferraz é escritora, autora do conto “A Mulher e o Vento”, finalista do III Prêmio ABERST na Categoria Narrativa Curta de Terror. Os gêneros pelos quais se aventura são: Terror Psicológico, Fantasia Obscura, Mistério e Ficção Histórica. Fabiana também é Co-Fundadora do Clube de Escrita Sorocaba. Resenha Revisada por: Francisco Nogueira
























