• Eduardo Macedo

Cordel: O rabequeiro do brejo e o trinado do diabo


Giuseppe Tartini encontrou-se com o Diabo ainda no séc. XVIII, bem antes do advento do romantismo. Muito embora Paganini tenha se consagrado por sua virtuose, excentricidade e pela história do pacto mefistofélico, em sua época a transgressão já estava há muito instaurada no meio artístico; o “incidente de Teplitz” já tinha acontecido.


Foi em sonho que o “cão” apareceu para o violinista barroco e ofereceu-se a ele como gênio. Qualquer que fosse o pedido feito, num piscar de olhos era atendido. Até que, após muitos desejos concedidos, o amo viu o violino na cabeceira da cama e ordenou: “toca algo para mim”. Arco e violino em mãos, a criatura onírica executou a mais sublime das sonatas que o músico ouvira em toda sua vida. Impressionante! O poder daquela música lhe fora tão inebriante que ele acabou adormecendo, embalado no mundo dos sonhos para acordar novamente no chão dos homens. Correu para registrar em pauta o que ouvira antes que a divina memória lhe traísse. Resultado: estava composta sua Magnum Opus, uma das mais belas e conhecidas peças para violino de toda a história, o célebre “Trinado do diabo”.


Quem dorme em rede e não é primogênito certamente já teve o desprazer de ser acordado aos puxões e sacudidas de punhos. É sempre um susto, e mais ainda quando quem puxa é o Diabo. Assim acordou Gilberto José Pedro, o Gilzé, tocador de rabeca dos confins do Brejo do Reguengado. O moço era agricultor e costumava "passar a égua no bode durante as folgas". Tinha fama no lugar e até ganhava algum para tocar em festas. Porém, para o seu desprazer, apareceu o fole e tomou de conta de tudo, rebaixando a rabequinha ao status de antiguidade. Perdeu o gosto de tocar e viveu cabisbaixo até que, certa noite, recebeu a visita que lhe renderia sucesso e restauraria o prestígio ao seu instrumento e a ele a criatividade.


Inspirado pelo fantástico episódio vivido por Tartini e pela tradição da rabeca nordestina foi escrito o cordel “O rabequeiro do Brejo e o trinado do Diabo”, obra faustiana de Eduardo de Menezes Macedo, poeta que, enquanto aguarda o sonho que o fará um Dante, um Leandro, segue escrevendo seus versos teimosos.


Às estrofes!


O RABEQUEIRO DO BREJO E O TRINADO DO DIABO

Eduardo Macedo

152 estrofes


Após quase cem passados

Pouca coisa inda me resta;

As mãos já não firmam mais,

A vista pra nada presta,

As pernas são varas secas,

A boca tudo detesta.


Mas já fui bom vivedor,

Quando rapaz tive glória.

Meus dedos eram ligeiros,

Na rabeca fiz história.

Em quantos sambas toquei

Não puxo pela memória!


Por Gilberto José Pedro

Dos Santos sou batizado,

Mas pelo povo fui sempre

De Gilzé Pedro chamado;

O famoso rabequeiro

Do Brejo do Reguengado.


Não existia sanfona

Quando eu era molecote.

Pé-de-bode, concertina,

Era coisa de alto dote.

A rabeca é quem reinava

Em valsa, baião e xote.


Em qualquer ocasião

Onde existia uma dança

Eu olhava o tocador

E me enchia de esperança

De um dia poder tocar.

Guardo isso na lembrança.


Sonhava em ser rabequeiro

Pra fazer dançar a gente.

Achava que todo músico

Detinha algo diferente.

Até que o destino deu-me

Certa vez esse presente.


Lembro muito bem que pai,

Num ano bom de fartura,

Chegou um dia da feira

Com legume, arroz, mistura,

Mais um pacote de pano,

Bem cosido na costura.


Papai vinha troviscado,

O que logo mãe notou.

Quando ele abriu o pacote

E de dentro retirou

Uma rabeca, ligeiro

A confusão se instaurou:


− Além de tomar cachaça

Pelo mundo tu investe

Dinheiro em breguesso que

Não se come nem se veste!

Quer tocar pra ir nos bailes,

Cachaceiro, fi' da peste?!


Pai, sem responder a ela,

Puxou, calmo, uma banqueta,

Pôs a rabeca no peito,

Empunhou sua vareta,

Danou-se a riscar as cordas

Co’os fios da crina preta.


Foi um ganido tão grande

Tão rouco e tão desmedido

Que pai logo desistiu.

Pela cana combalido,

Encostou ela de lado,

Saiu coçando o ouvido.


Caiu no fundo da rede,

Ferrou em sono profundo.

Com raiva, mamãe saiu

Pra casa do vô Raimundo.

Resultado: fiquei só

Mais a rabeca no mundo!


Passei a égua no bode

Sem ter tocado jamais

E tirei um som tão limpo,

Friccionando os animais

Que desde então a rabeca

Eu mesmo não soltei mais.


No começo era escondido

Que tocava, sem ter perto

Pai nem mãe, porém um dia

Fui por eles descoberto.

No fim das contas acharam

Que eu ia no rumo certo.


Eu detinha algum talento,

Muito embora encabulado.

Passei a ter meus horários

Entre a faina do roçado

Para treinar na bichinha,

Por pai e mãe abonado.


Fui aprendendo sozinho.

Quando havia uma função

Em casamento, batismo,

Reisado, renovação,

Eu só reparava em quem

Tinha a rabeca na mão.


Com as butucas nos dedos

Que corriam pelo braço,

Eu ia gravando os toques –

Melodias e compasso.

Chegava em casa eu pegava

A minha e mandava o aço.


Nisso, cresci afamado:

“Gilzé Pedro Rabequeiro”.

Me formei tocador sem

Assinar o nome inteiro.

Toquei meu primeiro samba

Como se diz, “nos cueiro”.


O tempo passou voando;

Pai morreu, mãe foi morar

Com vovô, no que eu fiquei

Na casa, pra pastorar.

Adulto, já, nessa altura

Ganhava o meu pra tocar.


Foi quando, pro meu desastre,

Apareceu concertina.

O povo se enfeitiçou

De maneira tão mofina

Que eu despenquei como quem

Cai num buraco sem quina.


Ninguém mais queria ouvir

A rabeca − era cafona!

Falavam somente em fole

De pé-de-bode e sanfona.

Nessa prosa até os velhos

Foram pegando carona.


Eu fiquei desconsolado,

Pois pra viver só de roça

É preciso chuva boa,

Com seca não há quem possa.

Afora o prazer que eu tinha

De tocar numa palhoça.


Tardezinha, certa feita,

Eu voltava do plantio

E quando adentrei em casa

Senti um grande vazio.

Até mesmo o rancho velho

Achei que estava mais frio.


Comi angu de farinha

Com queijo e feijão maduro.

Acendi o candeeiro

Porque já ficava escuro

E me vi ali sozinho,

Triste, sem ninguém e duro.


Abri o baú de mãe,

Lancei mão da rabequinha,

Me sentei no tamborete,

Afinei bem a bichinha,

Toquei um samba completo

Pro público que ali não tinha.


Terminei, soltei o arco,

Peguei ela e disse assim:

− Então, minha companheira,

Fale o que será de mim.

Vamos findar na miséria

Dessa solidão sem fim?


− Me inspira com qualquer coisa,

Ritmo novo, algum segredo

Pra gente voltar aos sambas

E sair desse degredo.

Nem que seja pra tocar

No inferno eu topo, sem medo!


Olhando pra ela eu disse

Com muito ressentimento

Tudo aquilo e de repente

Em casa soprou um vento

Que me arrepiou o couro

E toldou meu pensamento.


Deixei ela sobre a mesa,

Carreguei o candeeiro

Pra camarinha e deitei

Na minha rede ligeiro.

Fiquei a me balançar

Olhando às telhas, cabreiro.


Acabei adormecendo

Mesmo de candeia acesa.

Mas o sono durou pouco,

Qual não foi minha surpresa:

Receber, de madrugada,

Visita da profundeza!


Acordei com uns repuxos

Na rede e quando a visão

Foi se desanuviando

Eu vi bem de frente o Cão,

Em pé, segurando os punhos,

Sacudindo com a mão.


Foi um susto tão medonho

Que nem consegui gritar.

Puxei os lados da rede

Para nela me ocultar,

Foi quando ele foi falando

Pra eu não me apavorar.


− Seu Gilberto José Pedro,

Não tema, mantenha a calma.

Não vim pra lhe fazer mal,

Guarde sossegada a alma.

Vim aqui dar bom alvitre

E não promover-lhe trauma.


− Tenho aqui sua rabeca

E vou lhe ensinar um toque

Que duvido que aos dançantes

Grande calor não provoque.

Portanto preste atenção.

Repare, se desentoque!


Fiquei no fundo da rede

Me tremendo, apavorado,

Até que a rabeca entrou

Com o seu timbre arranhado

Chorando um baião que nunca

Antes eu tinha escutado.


Nem precisava zabumba

Pois havia um tal bordão

Troando feito pancada

Que se dá em percussão,

Ao passo que ressoava

Qual baixo de acordeão.


As notas do fraseado,

Cada qual era uma cor.

Mais parecia um jardim

Todo enfeitado de flor.

Aos poucos tomei coragem

De olhar para o tocador.


Tinha uma perna escorada

No tamborete de couro.

Nas costas um par de asas

Parecidas de besouro.

Um rabo se balançava

Na ponta do cabelouro.


Peludo que nem um bode,

Daqueles avermelhados,

Ele tocava a rabeca

De braços bem abaixados

Pros fios da barba às cordas

Não findarem enlinhados.


Com metade da cabeça

Fora da rede eu olhava

E na medida em que ouvia

A música me enfeitiçava –

Enquanto os olhos fechavam

A boca se escancarava.


Dormi sob a melodia

Da rabeca do diabo.

Dormi que passei direto...

A manhã já dava cabo

Quando mãe bateu na porta

Com um saco de quiabo.


“Bença mãe”, abri a porta,

No que ela foi perguntando:

− Agora deu pra passar

A manhã toda roncando?

Estás doente ou depois

De véi tá vagabundando?


− Não é isso, minha velha!

Como ontem teve frieza

Eu, que não me dou com frio,

De noite senti moleza.

Dê aqui esses quiabos,

Venha se sentar na mesa.


Me sentindo atordoado

Pela noite conturbada,

Lembrando do “pesadelo”

Da toada endiabrada,

Tomei um susto medonho

Quando vi mamãe sentada.


Pois sobre a mesa não tinha

Nada mais do que a toalha

E eu não tinha bebido

Coisa que o juízo empalha.

(Hoje ainda, sem cachaça,

A minha mente não falha!)


Bem lembrava onde eu havia

Depositado o instrumento

Antes de seguir ao quarto.

Lá voltei, pro meu tormento,

Avistei junto da rede

A rabequinha no assento.


Eu até quis começar

A ter medo mas, aí,

Pensei no baião fantástico

Que na madrugada ouvi.

Peguei a rabeca, o arco

E para a sala saí.


– Lá vem mais essa desgraça!

Tu devia era trocar

Essa bicha numa enxada

E por inverno rezar.

Deus o livre de preguiça…

Disse mãe a resmungar.


Com a rabequinha em punho

Comecei fazer esboço

Dos toques que recordava.

Logo fui, sem alvoroço,

Da casca à polpa e ligeiro

Tinha alcançado o caroço!


Toquei com desenvoltura

Toda aquela melodia.

Recordei nota por nota

Tudo que o bicho fazia.

Quando me dei conta mãe

Era quem se sacudia.


Foi um baião desgramado

Da cachorra da moléstia!

Tocado com maestria

(Digo sem falsa modéstia)

De fazer velha casar

E vaqueiro dar a véstia.


Na noite daquele dia

Ia haver o casamento

De Josué Marrequeiro

Com Zefinha Livramento;

Engomei meu paletó,

Rapei a barba a contento.


Logo após a cerimônia

Apontei em Josué.

Não havia começado

Ainda o arrasta-pé.

Quem veio me receber

Foi Francisco Punaré.


Punaré era cunhado

De Josué Marrequeiro,

Casado com sua irmã,

Cabra bom e verdadeiro.

Esse, sim, prestigiava

Ao ver um bom rabequeiro.


– Gilzé, quanto tempo tem

Que não te encontro em folguedo?

Tenho saudade de ouvir

Tu tocando esse brinquedo.

Há tempos só vejo gente

Batendo em botão com dedo.


– Meu compadre, Punaré,

Os tempos estão mudados.

O povo só quer dançar

Na base desses teclados.

Só querem saber de foles

Mesmo que estejam furados.


Francisco me replicou

Dizendo: − Pra lá com isso!

Eu até que escuto um fole,

Pois jamais nego serviço.

Mas prefiro a rabequinha,

Você bem que sabe disso.


Ficamos a prosear

Enquanto não começava

O baile, por consequência

Do fole que não chegava.

Foi quando o noivo me viu

E foi até onde estava.


– Boa noite, Gilzé Pedro.

Esteja em casa, à vontade.

Sua presença agradeço

E peço, por caridade,

Toque pro povo dançar

Que já há necessidade.


Nisso, não contei pipoca:

Desensaquei a bichinha,

Na égua esfreguei o breu,

Afinei ela certinha

E peguei a tocar nela

Uma mazurca que eu tinha.