• Kah Dantas

As meninas do fim do mundo



Como se estivesse sitiada e à mira profusa de milhares de substâncias tóxicas capazes de constranger as páginas dos livros de geografia e suas descrições da atmosfera, esta cidade a sudeste da terra brasilis amanheceu coberta de fumaça, cinza e assustadora como um salão de caldeiras - à beira da explosão - de um navio a vapor do século XIX. Então eu deixei de sair à varanda e de abrir as janelas, emudecida diante da visão do fim do mundo que está para acontecer de dentro para fora desta redoma, globo de fuligem onde existimos presos, mas tudo em vão: um compromisso me chamou à rua.


Coloquei a máscara, pinguei colírio nos olhos, mas o cheiro e a acidez da morte não respeitam tecidos nem soluções oftálmicas. A respiração ia torta como a caminhada, e os olhos ardiam dum fumo invisível, empoeirados do inconveniente que é ainda estar vivo num ano de anúncios incapazes de acompanhar o passo humano da destruição.


Ergui os olhos para o céu, surpreendida com meu próprio ímpeto de coragem, adivinhando formas de aviões perdidos entre as nuvens adoecedoras, desculpando-me em voz baixa com os pássaros e todo tempo elaborando pedidos de perdão por ter nascido de espécie tão má, arauto da morte e da extinção.


Então fui subtraindo os segundos e os passos da conta total e desconhecida da vida, observando o colorido dos grafites que estão desbotando, descobrindo algum ramo verde e solitário rompendo o asfalto, calculando pontos de referência até o meu destino final e reparando, outra vez, que as árvores não balançam mais.


Duas meninas, tão jovens, tão bonitas!, usando batom e jeans apertado, atravessaram meu caminho, cheirosas e com risadas sonoras, tagarelando empolgadas sobre algum assunto importante ao começo de suas adolescências, sacudindo seus cabelos que certamente teriam brilhado ao sol, pudessem seus raios trespassar aquela imensidão escura.


Ai, as meninas, tão jovens, tão bonitas!, levando suas máscaras nas mãos e ignorando o ocaso de todas as coisas, fizeram despertar em mim uma inveja que me arrancou lágrimas dos olhos queimados, consolando-os, acidentalmente, da sua dor. E eu quis também ter uma amiga ao meu lado, nós duas soltas em pleno passeio, perfumadas e com roupas escolhidas de véspera, rumo a qualquer final de dia ignorante e feliz.


Olhei para trás e esqueci a respiração por um pouco, alguns segundos só, sabendo que precisaria daquela última imagem para poder escrever, para vir até estas linhas e elaborar esta crônica, o coração rasgado e suplicante por um único dia ignorante e feliz, vinte e quatro horas de absoluto desconhecimento da sujidade do mundo, os motores afumados interrompidos, o pensamento leve e os sorrisos cheios de todos os significados felizes e de significado nenhum, pois apenas sorrisos.


Vão, meninas, eu pensei, vão com os pés no chão e sem olhar para o céu. Aconteça o que acontecer, não olhem. Não hoje, não nesta tarde, não nesta noite. Para que não seja o caso de terem a consciência assaltada e de algum comentário distrai-las do riso irresponsável e egoísta de dentes descobertos, um riso que eu tanto quis.


Amanhã, quem sabe.




Kah Dantas


Kah Dantas é cearense, mestra em literatura comparada, professora da rede pública de ensino e autora do livro autobiográfico “Boca de Cachorro Louco” (2016) e do livro de contos eróticos “Orgasmo Santo” (2020). Gosta de escrever, cometer o pecado da carne e comer docinhos.

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