• Victor Cruzeiro

CONTOS DO LOOP


Simon Stålenhag

A ficção científica tem muitos caminhos. Engana-se redondamente (ou planamente, para quem acredita que os planetas não são redondos) quem acha que o gênero se reduz a batalhas espaciais em naves ou alienígenas invasores com armas laser e cabeças enormes. A ficção científica se caracteriza, principalmente, por uma visão de mundo transportada pela tecnologia, existente ou não, para fora do que conhecemos como "real". Então, superpoderes — como dos "X-Men" — ou experimentos científicos — como o clássico "Frankenstein" — também fazem parte do espectro de ficção científica. Mas esse não precisa ser o centro da história, podendo ser apenas um acessório em torno de temas que são essencialmente humanos, como relações afetivas e políticas, como são as obras da estadunidense Ursula K. Le Guin (1929-2018).

Ursula K. Le Guin

Dito isso, não é exagero colocar a série "Contos do Loop" em um lugar bem especial na ficção científica contemporânea. A série estadunidense — exibida no serviço de transmissão da Amazon Prime — envolve temas delicados como perda, amor, angústias e a própria passagem do tempo, com uma belíssima embalagem de tecnologia e eventos inexplicáveis. Então, como um bibelô de porcelana em uma embalagem cromada, a série nos mostra, em seus oito episódios, as vidas e histórias de moradores da fictícia cidade de Mercer, em Ohio, nos EUA, onde há um laboratório subterrâneo de física experimental que pretende "tornar o impossível, possível".

O Centro de Física Experimental de Mercer parece ser o equivalente a um acelerador de partículas (como o localizado na fronteira entre França e Suíça, inaugurado em 2008), mas muito anterior. Pelas roupas, veículos e alguns aparelhos, a série se passa nos anos 70 e, conforme nos dizem algumas histórias, o Centro já está ali há algum tempo. Com isso, vemos uma espécie de realidade alternativa, na qual um laboratório de alta tecnologia existe em uma cidadezinha no meio dos EUA há muitos anos, espalhando por seus arredores cabos, antenas, cápsulas, robôs, carcaças e toda série de itens que indicam um avanço tecnológico bastante superior ao nosso, mas em outra época. Isso não somente insere a série no subgênero do retrofuturismo — que mostra uma história paralela em que os nossos paradigmas tecnológicos atuais foram atingidos no passado, levando a humanidade para outro rumo —, mas também oferece lampejos de um outro mundo! Afinal, podemos imaginar que, pelo investimento feito naquele laboratório, pelo tempo que ele está ali e pelas tecnologias criadas nele (as poucas que vemos envolvem próteses e robótica avançada), outros projetos científicos famosos dos EUA, como o Projeto Manhattan, que criou a bomba atômica, nunca vieram a existir.


Simon Stålenhag

Mas tudo que podemos fazer é imaginar esse outro mundo, já que o foco da série não é a tecnologia, mas as pessoas que dão vida a esse lugar. Nessa série, é um erro pensar que a tecnologia é sempre a questão determinante das nossas vidas (como faz Black Mirror). Nos "Contos do Loop", a vida e suas questões singulares são mais fortes e complexas do que qualquer tecnologia inexplicada. Do medo ao luto, do amor à solidão, a série retrata a vida humana como um encontro entre a delicadeza do mais fino material com o horizonte de eventos do mais inconcebível buraco negro. Baseado na grandiosa coletânea homônima de pinturas digitais do artista sueco Simon Stålenhag, a série não se preocupa em explicar totalmente a tecnologia, que é apenas um pano de fundo, cuja ação, para o bem ou para o mal, ativa o desenvolvimento das questões essenciais.

Nem todos os episódios têm finais satisfatórios ou estão necessariamente conectados com os demais. Nem todos os personagens se conhecem ou suas vidas se cruzam, mas todos são inegavelmente afetados — e potencializados! — pelos encontros que têm com os aparatos e eventos da série. O episódio final sintetiza todo esse deslumbre da vida humana como algo muito mais belo e potente do que qualquer tecnologia jamais será, mas não oferece respostas (assim como não oferece uma segunda temporada necessariamente, para nossa tristeza!).

A lição da série tem um amargo gosto existencial: tudo é possível, de bom e de ruim. Afinal, diferentemente da matemática e da física, viver não tem resposta exata, e a equação vai sendo completada por cada um no correr das incógnitas e dos problemas dessas pequenas existências singulares e infinitas que chamamos vida.





VICTOR CRUZEIRO é goiano, de 1989. Para sustentar seus vícios, já fez um pouco de tudo: crítico de arte para gatos, correspondente de gastronomia do Planalto e relações públicas do time campeão da série C da sua cidade. Atualmente é professor de Filosofia e gosta tanto quanto de pequi, do futuro e, em todas as realidades possíveis, da América Latina.

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