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- gosto mais de estar com 30.
Gosto mais de estar com 30. De me olhar assim de perto, um privilégio, e saber que me tornei outra, outra menina, outra mulher. Gosto mais desses encontros com os espelhos. De descobrir, à penumbra ou à plena luz, as minhas formas e suas incontáveis perfeições, no meio das curvas, através dos pelos e poros, no traço das rugas e nas camadas de celulite. Gosto mais de não achar que estou competindo com outras mulheres, de que preciso de um homem para ser feliz, de que devo satisfações da minha aparência, da minha língua e de quem frequenta a minha cama ou os meus textos. Gosto mais de não aceitar menos do que dou, de ter aprendido a dizer não, não gosto, não quero, talvez mais tarde, talvez nunca. Gosto mais de não ter saco para fingir orgasmos, de finalmente ter comprado um vibrador e de saber exatamente o que me deixa com tesão, na minha pele e na pele do outro. Gosto mais de ignorar as vitrines, os manequins, os catálogos de cosméticos, a promessa da juventude eterna, a suposta ameaça dos carboidratos. Gosto de comer meus doces em paz. Gosto mais de saber que não preciso casar ou ter filhos, porque temos abandonado, não sem sofrimento, eu sei, os prazos de validade. Gosto mais de não ter medo do futuro, como quando eu tinha vinte anos e imaginava que já estaria velha aos 30. Gosto mais de me imaginar aos 40. Da ideia de fazer 50. De poder fazer uma grande festa para comemorar os 60, a idade que a minha mãe tem hoje, com o rosto e o sorriso tão belos quanto antes, e o mesmo cheiro doce e atraente nos abraços. Gosto mais de ter chegado até aqui e de me sentir muito bonita, não por causa dos reflexos com mais ou menos roupa, mas por causa de quem eu sinto que sou, da boa companhia que faço a mim mesma, das conversas que tenho comigo e dos sonhos que ainda tenho sonhado, apesar de tudo e de ser mulher. Gosto mais, finalmente e tanto mais, de olhar em volta e saber que não estou sozinha, pois ao meu lado caminham mulheres, grandes e maravilhosas mulheres, com mais ou menos décadas de vida, e que me inspiram todos os dias a gostar mais de mim e dessa vida pela qual eu permaneço acordando durante as manhãs. Kah Dantas Kah Dantas é cearense, mestra em literatura comparada, professora da rede pública de ensino e autora do livro autobiográfico Boca de Cachorro Louco (2016) e do livro de contos eróticos Orgasmo Santo (2020). Gosta de escrever, cometer o pecado da carne e comer docinhos.
- Rachmaninoff ou Rachmaninov? Como se pronuncia e Escreve?
Os russos têm enorme dificuldade em traduzir os nomes para a escrita ocidental. Pra começar, o "o" de Rachmaninoff tem, na verdade, som de Ö. Aquele o com e alemão. Então, às vezes eles põem um o, como Gorbatchov (ele mesmo, às vezes, aparece como Gorbachev), e às vezes, um e, como Pletnev. O som é o mesmo: Ö. Agora vamos pro ff ou v. Também não faz diferença. O som é de f. No caso de Rachmaninoff, usava-se muito Rachmaninov, mas ele mesmo assinava noff, de modo que passou-se a usar mais este. Tipo, no Spotify tá com ff. Nas capas da maioria dos discos modernos, também. Eu me acostumei mais com essa. Calma que ainda faltam dois fonemas. O R de Ra, é trinado, como em prato. E o ch é como o rr (de arroz). Melhor que tentar escrever é mostrar. Veja abaixo. Espero ter ajudado, foi um prazer. Não deixe de conferir nossas listas de: Top 10 Sinfonias Top 10 Concertos para Piano Top 10 Sonatas para Piano
- Brahms - O 2º Concerto para piano - Análise
Falei sobre o 1º Concerto para Piano em Orquestra, em Ré menor, Op. 15 nesse post - é por isso que eu não sou contra as obras terem apelidos. Facilita muito. O Concerto Nº 2 para Piano e Orquestra, em Si bemol maior, Op. 83 é do que trataremos aqui. Licença pra ser pessoal aqui. Conheci essa peça na adolescência, talvez 12 anos. Na época achava a coisa mais romântica (falo do romantismo, movimento cultural do século XIX) que já tinha ouvido. Eu tinha uma namorada imaginária, e era com ela que eu escutava, deitado no chão em frente ao aparelho de som. E também eu gostava de colocar o vinil - tenho até hoje - e ficar lendo o encarte. Era aquela coleção da Editora Abril, que vinha com um libreto falando da vida do compositor e outro falando da obra e da interpretação. Sempre que chegava no final da biografia, quando eu sabia que o compositor ia morrer, eu ficava pensando: "não vou me emocionar dessa vez", só pra cair no choro quando morria. Eu o conheci antes do primeiro, antes mesmo das sinfonias. Brahms era um homem sério, taciturno, e sua vida, sem graça. Nunca casou, só se relacionando com prostitutas e era apartidáro e ateu. As duas únicas coisas emocionantes em sua biografia são a relação com a família Schumann e o embate Brahms-Wagner. Os Schumann Em 1853 Brahms é recebido por Robert e Clara Schumann em sua casa - ele andava sem rumo e seu amigo Joseph Joachim, um grande violinista da época, fez a ponte com os Schumann. O velho compositor já apresentava sinais de seu estado mental precário, mas escreveu palavras generosas e proféticas sobre Brahms: "... jovem que, já no berço, foi embalado pelas graças e pelos gênios... Apresenta todos os indícios que nos autorizam a proclamá-lo um predestinado... Além disso, tem uma elevada virtude, a modéstia... Nós lhe damos as boas vindas como um mestre entre os mestres." Robert Schumann Acontece que Brahms e a esposa de Schumann, Clara, se apaixonaram. Mas Brahms tinha uma personalidade esquisita: sexo, só com prostitutas, sem ligação emocional; e amor, só se fosse sem sexo. Além disso, ele jamais ficaria com ela, mesmo depois da morte de Schumann, em 1856 - tinha Schumann como um pai. Nos últimos estágios da doença, e após uma tentativa de suicídio, Robert foi internado. Brahms voltou imediatamente à casa da família para cuidar de Clara e das crianças (ela era muito atarefada, tinha uma carreira internacional como pianista e era compositora). Além disso, ela não podia entrar no asilo masculino, de modo que Brahms fazia a comunicação entre Robert e ela. Depois que ele morreu eles continuaram bons amigos e, dizem, platonicamente apaixonados. Brahms X Wagner O compositor Richard Wagner encarnava um mito. Era o maior compositor de ópera (que ele chamava de dramas musicais) do mundo. Brahms nunca escreveu ópera, era apegado às chamadas velhas formas (sinfonia, concerto, sonata - musica basicamente instrumental). Não que ópera fosse uma coisa moderna, existia desde o Barroco. Mas Wagner trazia o novo, o bombástico, o apaixonadamente romântico para a música. Ele defendia que a música tinha que descrever alguma coisa. Que música simplesmente por ser música era algo sem propósito. Não houve embate sério entre os dois compositores em si, mas o mundo se dividia entre os Wagnerianos e os Brahmsianos. Quando saía uma sinfonia de Brahms, metade da plateia aplaudia em deleite e a outra permanecia fria, vindo a escrever críticas com tendencias claramente anti-Brahms. Sobre a sua terceira sinfonia, por exemplo, diziam que não tinha uma melodia cantável (como se isso fosse defeito... - e tinha, sim), que ele compunha 15 minutos de música sobre um material parco e vago (coisa que todos admiravam em Beethoven) e que a orquestração não tinha imaginação (outra mentira). Isso, que dividiu a Europa na segunda metade do século XIX, só iria acabar no modernismo, que aí nada mais importava. Nem formas velhas, nem óperas românticas. Mas a despeito disso, no século XX foram escritas mais sinfonias que em qualquer outro. O Concerto Nº 2 Composto em 1881, ele tem quatro movimentos: Allegro non troppo Allegro appassionato Andante Allegretto grazioso—Un poco più presto E é bem longo, ocupando muitas vezes um CD inteiro. Em concertos, é sempre o prato principal, a outra parte tem que ser mais leve. Desde sua estreia, em 1881, em Budapeste, com o compositor como pianista, revelou-se um tremendo sucesso. Ainda maior que o do primeiro concerto. O fato de ser escrito em 4 movimentos revela a intenção de Brams de que o concerto fosse visto mais como uma peça sinfônica - ou seja, que o público não espere grandes exibições de virtuosismo do tecladista. Não obstante, a obra é tremendamente difícil para o solista. Mas se a escutarmos como quem escuta uma sinfonia, tem mais sentido. Essa concepção de "sinfonia com piano" não é nova. Também não é usada aqui pela última vez. Mas esse é um dos exemplos máximos de peça em que a escrita para piano se mescla impecavelmente com a da orquestra. Acima, a pianista chinesa Yuja Wang toca com a Orquestra Filarmônica de Munique, regida por Valery Gergiev. 1º Movimento - Allegro non troppo O concerto começa com um anúncio da trompa (3s), logo seguido de uma leve pontuação do piano (9s). Isso duas vezes. Aí as madeiras, seguidas pelas cordas, fazem aparecer um motivo (28s) que vai ser muito importante na obra. Segue-se um trabalho mais virtuosístico do piano (43s). E aí vem a exposição em si. Em si bemol (1m43s). O tema é o que se segue. Se não sabe ler partitura, acompanhe o desenho: uma subida, uma descida, uma nota curta e uma longa (a nota branca). Depois uma descida, outra descida e a repetição da nota curta com a longa. Só. E o movimento vai te mostrar como Brahms trabalha com realmente pouquíssimo material, só que no bom sentido. Só essas três primeiras notas, serão exploradas à exaustão. A segunda frase também. Na verdade, o trabalho que ele faz é tão extensivo que não dá pra eu colocar coisa por coisa aqui. Peço que procure identificar as duas frases acima por todo o movimento. Elas aparecem triunfantes, ameaçadoras (3m16s), heróicas (11m24s), de toda forma que você imaginar. 2º Movimento - Allegro appassionato O scherzo (não nomeado) do grupo (18m03s). Como o movimento anterior, tudo está no começo. Quase tudo. O trio do movimento, contém uma das páginas mais difíceis da literatura (23m23s), uma sucessão de oitavas contrárias no piano. Logo uma passagem lírica deste (23m48s) faz voltar o trio em tutti (toda a orquestra) para anunciar a volta do scherzo (25m02s). Extremamente bem escrito, tanto em seu uso do piano e da orquestra quanto nas proporções, é um movimento trágico com vários momentos de calmaria e lirismo. 3º Movimento - Andante Nesse movimento (27m40s) o primeiro violoncelo é importante ao ponto de, às vezes, na contracapa do disco, vir o nome da pessoa. É de uma beleza única, uma das mais belas páginas da litrertura musical. Um diálogo respeitoso (um nunca invade a fala do outro) entre o piano e o cello. Havia essa prática de destacar 1 violoncelo para uma parte importante nos movimentos lentos: veja o 2º Concerto de Franz Liszt e o Concerto de Clara Schumann. A melodia aparece em menor (33m54s), com um ar soturno, para dar voz ao clarinete (34m33s), em uma frase longa que desemboca no tema do violoncelo (36m10s), dessa vez em fá sustenido maior, mas logo voltando para original si bemol maior, dessa vez, com piano e violoncelo realmente conversando. O movimento acaba placidamente com motivos antes apresentados. 4º Movimento - Allegretto grazioso—Un poco più presto Esse movimento pode ser tocado de várias maneiras: mordaz, inocente, triunfante... Yuja Wang e Gergiev tocam brincando. Como eu não gosto de Finales, é o meu menos favorito, mas ainda assim, tenho que reconhecer sua excepcional escrita para piano e para orquestra, e o sabor húngaro de alguns dos seus momentos. E reconheço também que é um ótimo final para esse glorioso concerto. Não é um rondó propriamente dito, mas tem elementos de um. Aqui, diferente dos outros movimentos, em que Brahms se limita a uma economia de material temático, temos 5 temas apresentados no começo. Todos são devidamente desenvolvidos. Esse grandioso concerto, com todos os seus elementos de saga, viajando o mundo inteiro, era inédito até então, até mesmo em suas proporções. Foi um sucesso desde a estréia, mantendo-se no repertório desde então como um dos mais titânicos exemplares de obra concertante romântica. Gravações Importantes O concerto tem muitas nuances, de modo que é impossível uma só interpretação captar todas. Por isso listei um bocado aqui em baixo. Mas qualquer que você escolher vai ser excelente. - Emil Gilels, com Eugen Jochum regendo a Filarmônica de Berlim - Assim como no 1º Concerto, essa dupla + orquestra faz uma gravação que serve até hoje de referência. - Nelson Freire, com Riccardo Chailly regendo a Orquestra do Gewandhaus de Leipzig - Também assim como o 1º Concerto, Freire/Chailly fazem a gravação mais falada (e bem falada) da atualidade. É um disco duplo que tem em todas as estantes de amantes de música clássica. Existe um certo consenso de que essas gravações dos dois concertos são definitivas. Mas, como eu disse, a obra tem nuances. - Hélène Grimaud, com Andris Nelsons conduzindo a Filarmônica de Viena - Hélène entra nessa lista não porque eu precisava colocar uma mulher (poucas gravaram os concertos de Brahms), mas porque o que ela e Andris Nelsons fazem é de arrepiar. - Vladimir Horowitz, com Arturo Toscanini e a Sinfônica da NBC - O pianista e seu sogro, o irascível regente italiano, gravaram poucas vezes juntos. Essa aqui, de 1948, foi muito importante, mesmo Horowitz admitindo que não gostava muito do concerto e achando que tocou mal. Bobagem, Volodya, vc arrasa. - Wilhelm Backhaus, com Karl Böhm e a Filarmônica de Viena - Eu lembro. Comprei o disco da coleção Great Pianists of the 20th Century do Wilhelm Backhaus sem saber do repertório. Quando vi que tinha o Concerto Nº 2 de Brahms e o escutei, queria contar pra todo mundo. Era um registro ao vivo em 1952 com a mesma orquestra, regida por Carl Schuricht. Essa aqui é de 1967, de estúdio, com Böhm, e tem o som ainda melhor. O pianista estava com 83 anos! - Sviatoslav Richter, com Lorin Maazel e a Orquestra de Paris - Das gravações de Richter, o grande intérprete desse concerto, eu ecolho essa daqui? É. É uma das que têm melhor som e o acompanhamento de Maazel com a OdP é lindo! - Daniel Barenboim, com Gustavo Dudamel regendo a Staatskapelle de Berlim - A Staatskapelle de Berlim, depois que tomou Barenboim como líder, tem crescido muito. Aqui ele cede o pódio à celebridade venezuelana Gustavo Dudamel e vai tocar piano. E como toca. São gravações ao vivo (tem o Concerto 1, também). - Claudio Arrau, com Bernard Haitink e a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã - Claudio Arrau, com seu sonzão mostruoso, gravou a peça mais de uma vez. Essa é a melhor: está com a orquestra perfeita, um regente talentoso e os engenheiros de som fazem um ótimo trabalho. - Maurizio Pollini, com Claudio Abbado e a Filarmônica de Berlim - Eles dois, Pollini e Abbado, gravaram esse concerto outra vez, com a Filarmônica de Viena. Aliás, acho que foi antes. Eles gravaram tudo: os concertos de Beethoven, Bartók, Brahms, Schumann. Em Chicago, Viena e Berlim. A dupla italiana era certeira, dois intérpretes um tanto discretos e tecnicamente absolutos. - Joseph Moog, com Nicholas Milton regendo a Deutsche Radio Philharmonie - Foi a última gravação desse concerto que me impressionou. A sonoridade é refinada, camerística e tem um ar de época. Joseph Moog é um grande pianista. - Lars Vogt tocando e regendo a Northern Sinfonia - A única gravação nessa lista de alguém que toca e rege ao mesmo tempo. Mas é porque é perfeita. A orquestra está sensacional. Parabéns para todos os envolvidos. - André Watts, com Leonard Bernstein e a Filarmônica de Nova Iorque - De 1968, quando Watts tinha 22 anos. Ele já tinha gravado com Bernstein, aos 17, o Concerto Nº 1 de Franz Liszt, com imenso sucesso. Ele foi do anonimato à fama rapidamente. Infelizmente não grava nada há anos. O único pianista negro a entrar para a coletânea Great Pianists of the 20th Century. Sua interpretação é forte e precisa, André nunca fez mágica com o som, mas toca com facilidade as passagens mais difíceis, e com muita poesia. Leia mais sobre o 1º Concerto aqui. Gostou do post? Não esqueça de comentar e de clicar no coraçãozinho, pra gente saber que você gostou do conteúdo.
- das kino na arara: A Cinemateca Brasileira pede socorro
Salvaguardando o maior acervo audiovisual da América do Sul, a Cinemateca Brasileira é uma instituição pública responsável pela preservação e divulgação da produção audiovisual brasileira. Seu trabalho essencial percorre desde a coleta, catalogação e difusão, até áreas voltadas à pesquisa, estudo e ressignificação das obras audiovisuais. Seu acervo conta com cerca de 250 mil rolos de filmes e mais de um milhão de documentos relacionados ao cinema, como fotografias, roteiros, cartazes, livros, entre outros. Entre os exemplos de material disponível estão os roteiros originais de Glauber Rocha, os filmes da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, as primeiras imagens da Rede Tupi, enfim, um patrimônio de valor inestimável. Como reforço da nossa memória audiovisual, visitar a Cinemateca Brasileira deveria ser um passeio obrigatório a todo(a) brasileiro(a), ao menos uma vez na vida. Localizada na Vila Clementino, na Zona Sul de São Paulo, a Cinemateca vive, em 2020, a sua pior crise, e os problemas vão muito além da situação de pandemia, que impossibilita a visitação das pessoas. As dificuldades se iniciaram em 2013, quando uma intervenção do Ministério da Cultura destituiu a diretoria da Cinemateca, retirando sua autonomia operacional. De lá para cá, a Cinemateca vive um cenário constante de enfraquecimento institucional. O descaso da Secretaria do Audiovisual do antigo Ministério da Cultura (MinC) desencadeou, em 2016, o quarto incêndio sofrido pela instituição ao longo sua história, no qual mil rolos de filmes antigos foram perdidos, situação tratada com total desconsideração pelas autoridades. Tivemos, em fevereiro deste ano, mais um caso de desrespeito à cinemateca: Em enchente que danificou 113 mil cópias de DVDs, a Secretaria do Audiovisual se absteve totalmente das responsabilidades e esta situação, inclusive, nunca sequer foi comentada pela ex-secretária da Cultura, Regina Duarte, atualmente cotada por Jair Bolsonaro para coordenar a própria cinemateca. Sem quaisquer medidas de proteção, falta de manutenção, atraso no pagamento dos funcionários e repasse nulo do Governo Federal para que a cinemateca sobreviva, a instituição, que corre o risco de ter cortada a energia elétrica por falta de pagamento, passa por seu pior momento. Sem cuidados técnicos e condições propícias de conservação, arriscamos perder a totalidade do nosso acervo, uma deterioração da nossa própria memória coletiva e social. Foi divulgado, em 15 de maio, um abaixo-assinado intitulado “Cinemateca pede socorro”, com assinatura de diversos profissionais do setor audiovisual, como cineastas, produtores, críticos, professores, estudantes, curadores, programadores e colaboradores, o texto reporta o total sucateamento que vem sofrendo a instituição. No Twitter, o cineasta Kleber Mendonça Filho enfatizou a questão: “Isso é um pedido de socorro no pior momento dessa instituição que cuida da memória do Brasil”. O diretor estadunidense Martin Scorsese também manifestou apoio e indignação e cobrou explicações sobre o caso. Além de ser uma figura central na fundação da Cinemateca, o crítico e historiador do cinema Paulo Emilio Salles Gomes reforçava sua concepção de Cinemateca voltada uma educação para o cinema. Ocorre que hoje, muito pelo contrário, o que vemos é um governo que não tem projeto para a cultura, e declara uma guerra cultural contra quem tem. Além de deixar morrer os corpos, levando adiante sua necropolítica, também pretende matar as almas. No site da Federação Internacional de Arquivos Cinematográficos é possível ver vários vídeos de apoio à Cinemateca Brasileira. As cinematecas são, geralmente, um local de encontro, um museu, um ponto turístico, motivo de orgulho da população do país. No México, por exemplo, a Cinemateca vive lotada. Em Bogotá, a Cinemateca foi, em 2019, lindamente restaurada. Por aqui, o audiovisual tenta sobreviver. Que dias melhores venham para a Cinemateca Brasileira! Jéssica Frazão é produtora audiovisual e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). É integrante do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema (Elviras) e colunista cinematográfica no jornal O Município Blumenau, com "Das Kino - Um olhar crítico sobre o cinema".
- Os Milagres de Mozart - Concerto para Flauta e Harpa - Análise
As circunstâncias para que justamente Wolfgang Amadeus Mozart compusesse um Concerto para Flauta, Harpa e Orquestra tinham que ser as que foram. Decidido mais uma vez a tentar a vida fora de sua Salzburgo natal, onde seu pai insistia que ficasse, o jovem de 21 anos vai com a sua mãe a Paris. Lá ele se aloja na casa do Duque De Guines, que lhe encomendara aulas de composição para sua filha, Marie-Louise-Philippine. No começo, Wolfgang ficou encantado, a menina era talentosa, o duque tocava flauta muito bem, segundo o próprio Mozart, e encomendou esse concerto para suas próprias habilidades, bem como as da filha na harpa. Mozart compôs essa obra absolutamente maravilhosa, que até hoje está no repertório de qualquer flautista ou harpista. Acontece que a viagem a Paris não foi muito boa. Primeiro porque o duque, ao final das aulas, não quis pagar o que devia a Mozart. Ofereceu metade (que louco!), que o compositor recusou. Pra piorar, a mãe dele acabou morrendo de uma doença que nunca ficou esclarecida. Mozart estava em dívidas, tinha que penhorar objetos constantemente, e a demora em chamar um médico possivelmente foi por causa da falta de dinheiro. Uma coisa que surpreende algumas pessoas às vezes é como, em períodos de penúria, ele compunha peças tão leves e angelicais. Temos que lembrar que a morte prematura e a doença eram muito comuns naquela época. Ele mesmo era um filho que tinha vingado junto com a irmã, de um total de sete que nasceram. Resignava-se e se seguia a vida. Isso e o fato de que ele era um músico realmente prodigioso. Veja aqui um exemplo. Enfim. Ele compôs rapidinho, como costumava, e tudo leva a crer que a peça foi executada pelos três. E nunca mais ele tocou no assunto. A peça está pronta, e muito bem acabada, mas ele não escreveu as cadências, de modo que hoje, praticamente toda gravação tem uma versão diferente das cadências - ele obviamente escreveu pausas e a palavra cadenza para indicar onde as queria. O Concerto Em Dó Maior, esta obra singela e juvenil é o K. 299 de Mozart. Koechel, ou K. é a catalogação mais aceita para as obras dele. Equivale ao Opus. Ele compôs até o K. 626, quando, aos 35 anos, faleceu. Nos concertos até essa altura (antes do século XIX), quando os solistas eram mais de um, chamava-se a eles de concertino e à orquestra, de ripieno. A orquestra do Concerto para Flauta e Harpa é pequena, constituindo-se das cordas, dois oboés, duas trompas e os solistas. Abaixo, o flautista Mathieu Dufour, a harpista Marion Ravot, com a Orquestra da Academia Karajan da Filarmônica de Berlim, sob a regência de Ton Koopman. 1º Movimento - Allegro A obra abre luminosa (30s), com um acorde que leva a uma série de arpejos ascendentes e descendentes. Já é o Tema 1. Note que essa parte é da orquestra, mas era prática comum o concertino se juntar ao ripieno, especialmente no começo da Exposição. Hoje em dia nem sempre se faz isso. 1m09s temos o Tema 2, bem mais calmo e cantante. Com 1m52 começa a exposição dos solistas. Eles praticamente repetem o que fez a orquestra, mas com pequenos arabescos (2m05s), já desenvolvendo o material temático. Aos 2m40s temos esse novo Tema, que é apresentado pela flauta. Aos 3m começa um belo jogo entre as cordas e a flauta e que vai ser explorado posteriormente. Aos 3m22s o Tema 2 volta. E aos 4m48s entra o Desenvolvimento, em que eles trabalham todo o material apresentado. Aos 6m01s vem a Reexposição (ou Recapitulação). Aqui eles vão apresentar os temas 1 (6m01s) e 2 (6m21s) e 3 (6m40s) novamente e abrir espaço para a cadência. Antes, repare nesse momento (7m30s), como a articulação da flauta e dos violinos é perfeita. Aliás, o fraseado inteiro é perfeitamente sincronizado. A cadência se inicia aos 8m43s e vai até 9m52s, quando a orquestra retoma só pra finalizar. 2º Movimento - Andantino O segundo movimento (10m42s) é o milagre de Mozart. Ele apenas apresenta um Tema longo e vai variando - tática que Beethoven aproveitaria, por exemplo, no 2º movimento do seu Concerto para Violino. Começa com as três notinhas em staccato (10m42s) seguidas pela bela frase que as complementa (10m57s). Poucas são as gravações que expõem com nitidez a característica harmônica desse trecho. Especialmente as violas e os segundos violinos, fazem notas dissonantes maravilhosas. Dá pra perceber bem na versão de Hogwood (veja abaixo). Aos 11m26 o concertino repete o longo Tema, e aos 11m56s eles o desenvolvem brevemente. Aos 14m14s repete-se mais uma vez com consequências diferentes. E agora leva a uma cadência (17m09s). Aos 19m07s a orquestra faz seu retorno pra encerrar o movimento. 3º Movimento - Rondeau - Allegro Aos 20m10s tem início o Rondó, que originalmente era uma dança, mas que evoluiu para uma forma. É mais uma forma do que qualquer coisa. O Tema 1 é sucedido da parte 2. Aí volta o Tema 1, dessa vez seguido da parte 3. Enfim, A-B-A-C-A-D-A-E-A... Se assemelha a uma brincadeira. Repare, por exemplo, quando a harpa entrega uma ideia (21m21s) e a flauta devolve (21m31s) um pouco diferente. Faz parecer que os músicos estão improvisando. Volta o Tema 1 (23m55s).Depois, Tema 1 no modo menor (25m14s) e cadência (27m40s). Até que a orquestra volta novamente (28m36s) para encerrar. Considerações Finais É um lindo concerto da juventude de Mozart. Ele obviamente não tocava harpa, mas a escrita não é ruim. Ainda era um instrumento com pouca notoriedade, mais um brinquedo de moças da alta sociedade europeia. Na harpa não se usa o dedo mindinho, de modo que alguns padrões de 5 notas ou 10 são identificáveis como tendo sido compostos para o teclado e depois transpostos para ela. Ademais, nos dois primeiros movimentos é praticamente um concerto para flauta com orquestra e harpa acompanhantes. A harpa só se manifesta mais no terceiro movimento. Gravações Recomendadas - Lisa Beznosiuk (flauta) e Francis Kelly (harpa), com a Academy of Ancient Music, regida por Christopher Hogwood - Christopher Hogwood, grande maestro inglês, e sua orquestra, AAM, são especialistas em repertório pré século XIX. Isto é, tocam com instrumentos do século XVIII (ou cópias fieis) e com técnicas dessa época. Veja mais sobre isso aqui. Essa gravação, de 1987, é impecável. Todas as articulações, os andamentos e as dinâmicas são decisões acertadas. - Karlheinz Zoeller (flauta) e Nicanor Zabaleta (harpa), com a Filarmônica de Berlim, regida por Ernst Märzendorfer - Uma versão bem conhecida. Zabaleta era o harpista do século XX. O som é meio problemático. A harpa parece ter uma microfonação mais distante, mas parecem querer compensar isso deixado o volume mais alto. Mas eles tocam impecavelmente. É uma interpretação romântica da obra, ou seja, usam uma orquestra grande (mais cordas) e fraseados modernos. É de 1962. - Jacques Zoon (flauta) e Letizia Belmondo (harpa), com a Orquestra Mozart, regida por Claudio Abbado - Essa é a ideal pra quem fica indeciso entre uma abordagem (a "de época") e a outra, romântica. Essa aqui, de 2011, é mais como se faz hoje, isto é, com uma orquestra moderna, mas sem exageros, nem de tamanho nem de arroubos sentimentais. Mas também não tem muitas "regras" como têm as "autenticas". Gostou do post? Vai gostar das nossas outras análises. E vai comentar, você vai comentar - olhe bem fixo pra cá; você está começando a sentir sono, os olhos pesados. Mas sabe que se comentar isso passa. Tchaikovsky - A Sinfonia Nº 6 "Pathétique" Rachmaninoff - Concertos Nº 1, Nº 2, Nº3 e Nº 4 Debussy - Os Prelúdios para piano: Livro 1 e Livro 2
- Beatriz - Edu Lobo e Chico Buarque
Eu mesmo cantei Beatriz. Minha filha se chama Beatriz, então, não poderia ser outra pessoa. Perguntei ao Renato Braz, mas ele disse que preferia gravar outra, que essa ele já tinha gravado. Ele acabou gravando "Sobre Todas as Coisas". Não tive dificuldade de achar o tom certo pra cantar, porque resolvi que gravaria tirando 95% do rubato que o Milton Nascimento incutiu nela. Claro que eu não consigo cantar como Milton Nascimento. Principalmente com excesso de rubato. Vou dizer uma coisa. Cantar com esse tanto de rubato do Milton, só o Milton. Eu tive que fazer quadradinha. Mas ficou bem bonitinha. Veja como cada nota conta, tanto da voz como dos instrumentos. Violão, voz, flauta e arranjo: Rafael Torres Piano: Leonardo Torres Bandolim: Ayrton Pessoa Baixo: Ednar Pinho Beatriz Edu Lobo e Chico Buarque Olha Será que ela é moça Será que ela é triste Será que é o contrário Será que é pintura O rosto da atriz Se ela dança no sétimo céu Se ela acredita que é outro país E se ela só decora o seu papel E se eu pudesse entrar na sua vida Olha Será que é de louça Será que é de éter Será que é loucura Será que é cenário A casa da atriz Se ela mora num arranha-céu E se as paredes são feitas de giz E se ela chora num quarto de hotel E se eu pudesse entrar na sua vida Sim, me leva para sempre Beatriz Me ensina a não andar com os pés no chão Pra sempre é sempre por um triz Ai, diz quantos desastres tem na minha mão Diz se é perigoso a gente ser feliz Olha Será que é uma estrela Será que é mentira Será que é comédia Será que é divina A vida da atriz Se ela um dia despencar do céu E se os pagantes exigirem bis E se um arcanjo passar o chapéu E se eu pudesse entrar na sua vida
- Papo de Arara: Gidalti jr.
No ano de 2018 o mais importante prêmio literário do Brasil, o Jabuti, lançou a categoria “Quadrinhos” em sua premiação. O primeiro vencedor dela foi o mineiro natural de Belo Horizonte criado em Belém do Pará Gidalti Jr. Embora seu romance gráfico Castanha do Pará (cuja breve resenha que fiz é possível de ser lida aqui) tenha sido lançado em 2016, foi neste ano com a premiação e, contraditoriamente, com uma censura, que sua obra ganhou espaço na mídia. Em uma exposição num shopping de Belém um dos painéis do artista (justamente a pintura que serve de capa para Castanha do Pará) foi coberto com um lençol a pedido da polícia militar. De São Paulo, o artista que também é professor universitário, concedeu esta entrevista onde fala de sua estreia no mundo da arte sequencial com sua obra premiada com o Jabuti e também indicada ao HQ mix de melhor obra independente. Foi nesse período, cerca de 3 anos atrás que eu entrevistei Gidalti. Republico não somente a entrevista dele aqui, como, numa troca de e-mails rápida, fizemos uma segunda rodada de perguntas "atualizando" a primeira entrevista. Seguem agora ambas aqui nessa postagem. O romance gráfico Castanha do Pará do Pará é sua primeira incursão pelos quadrinhos. Quanto tempo entre a ideia inicial e sua publicação? Sim. De fato a novela gráfica Castanha do Pará é o meu primeiro trabalho de fôlego como autor. Já havia produzido material numa linha mais experimental e pessoal, nada que eu tenha publicado ou tentado publicar. Desde o inicio da ideia da minha HQ, fui com uma ideia objetiva de publicar uma novela gráfica robusta. O tempo de produção durou aproximadamente 3 anos. Ele é uma adaptação de um conto, correto? O conto Adolescendo Solar de Luizan Pinheiro, que eu usei de inspiração para criar o enredo do Castanha do Pará, é a maior influencia na obra. Em seguida, memórias de minha infância vivida e inventada. Ainda, Belém e suas peculiaridades. Sou natural de Belo Horizonte, Minas Gerais, e fui muito criança pra Belém, onde eu vivi minha infância, minha adolescência e parte de minha fase adulta. E tuas referências e influências de modo geral? As minhas referências são bem diversas. A princípio poderia citar o Milton Hatoum, que é um exemplo de como explorar bem o contexto do Norte, assim como outros escritores da região, como Salomão Larêdo, Dalcídio Jurandir, Edyr Augusto Proença. Também cito outras influências como Machado, Franz Kafka, Mia Couto e Ariano Suassuna. No que se refere a parte gráfica e de narrativa, curto muito o trabalho de Jon J. Muth, Enki Bilal, Shiko, Sergio Toppi, Greg Tocchini, Juanjo Guarnido, Pablo Echevarria e meu professor Carcamo. Estou sempre acompanhando como o Brasil é retratado no cinema. Me atrai o olhar de Walter Salles em Central do Brasil e Abril Despedaçado, Fernando Meirelles em Cidade de Deus, Anna Muylaert em Que Horas Ela Volta, Kléber Mendonça Filho em O Som ao Redor, José Padilha em Tropa de Elite e muitos outros. Tenho muitas referências nas artes plásticas e em especial na pintura. Para não me alongar, citaria o Anders Zorn, Sargent e Sorolla. Queria também que você explicasse essa questão da censura. Eram painéis expostos num shopping em Belém? Como foi o convite para essa expo. Eram reproduções suas em painéis, correto? Como chegou a notícia da censura da sua pintura? Eu participei de uma exposição que circula em alguns centros comerciais de Belem. É uma exposição de quadrinistas e artistas que estão no contexto do de produção de quadrinhos no Pará. Uma das obras que estavam na exposição (uma réplica da capa do meu livro) figura uma cena em que um policial militar está correndo atrás de um menino de rua, que é o protagonista do meu livro. É uma cena de ação em que o policial faz um movimento com o objetivo de capturar ou prender o menino. Um movimento de repressão enquanto o menino foge. Aparentemente, essa imagem incomodou um grupo de pessoas que tem afinidade ou vínculos com a polícia militar do Pará, e esse grupo se manifestou por meio das redes sociais de maneira incisiva e até ameaçadora, exigindo a retirada da imagem da exposição. E foi o que aconteceu. Fiquei sabendo do ocorrido através de um jornalista que me procurou perguntando o que eu achava da retirada da obra da exposição. Nesse momento que eu comecei a tomar conhecimento do ocorrido. Como você está lidando com a censura de sua obra pela polícia do Pará? O caso foi resolvido, já? Como isso vem repercutindo? Sobre o caso da censura, eu me manifestei contra por meio das redes sociais e a resposta do público geral e da imprensa foi muito gratificante, pois gerou nas redes sociais e na mídia uma grande manifestação a favor da liberdade e de solidariedade a minha pessoa. Infelizmente, a capa foi retirada da exposição e substituída por outra mas para a administração do shopping a ação pegou muito mal. Apesar do stress, o livro ficou mais exposto ainda. Foi um tiro no pé para os censores. Castanha do Pará pode ter sido sua primeira obra, mas que outras ideias passaram pela sua cabeça antes dela? Ou Ela realmente foi sua primeira ideia de quadrinho? Antes de produzir o álbum eu queria fazer quadrinho de super herói. Eu me via como um desenhista da marvel, dc ou Vertigo. Me via mais como uma peça dentro de uma indústria, por conta de um desconhecimento de minha parte em relação as possibilidades desse universo. Enxergava as possibilidades de atuar na indústria americana era algo mais palpável, uma vez que minhas referências, os artistas que eu admirava atuavam nessa linha. Somente depois que eu ampliei meu universo artístico, seja por meio de influências vindas do cinema, da literatura clássica, das artes plásticas e mesmo de outras abordagens em fazer e pensar histórias em quadrinhos (como o mercado europeu e os autores brasileiros) que percebi que poderia caminhar nessa linha. O projeto foi inscrito no Catarse, demorou muito para conseguir angariar as doações necessárias para o orçamento? sim, o livro foi financiado por meio de financiamento coletivo. Não demorou para que o projeto arrecadasse a verba para custear a impressão e a distribuição. Isso se deve ao fato de que antes de publicar o projeto no catarse, eu já tinha um grande investimento de labor no trabalho, então quando expus o projeto na plataforma, ele já estava praticamente pronto para ser impresso na gráfica. Isso gerou credibilidade nos apoiadores e as pessoas investiram sabendo que o trabalho já estava muito proximo de chegar em suas mãos. Alguns apoiadores receberam o livro antes mesmo da campanha no catarse terminar. E a sensação de ganhar o Jabuti, aliás, de ser o primeiro vencedor da novíssima categoria de Quadrinhos do prêmio Jabuti? Como você soube que estava concorrendo e qual foi a sensação de ganhar? Ganhar o prêmio jabuti foi algo muito especial. O quadrinho nacional está em uma fase excepcional, com muitas obras e autores ganhando cada vez mais destaque.Estamos ganhando espaço, entretanto, o mercado ainda não é totalmente solido. A maioria dos autores que produz quadrinho autoral ainda se encontra em uma zona de risco. A abertura da categoria no prêmio Jabuti confirma os méritos dessa produção. Submeti o projeto ao prêmio sem esperança de estar entre os finalistas, tendo em vista a quantidade de negativas que tive anteriormente. Quando soube que era um finalista, já me sentia muito realizado e ganhar o primeiro lugar foi de fato um reconhecimento que não esperava. Fiquei muito feliz e animado para produzir mais e melhor. Já pensa em próximos projetos em quadrinhos? Sim, estou sempre com muitos projetos em mente. Alguns em fase de amadurecimento, outros mais imaturos. Ainda não sinto a vontade para expor detalhes de trabalhos que ainda estão em fase de amadurecimento, mas não devo demorar a entregar novidades aos meus leitores. Depois dessa entrevista, publicada no jornal onde trabalhava, entrei em contato alguns meses atrás com o Gidalti, não somente para revisitar essas perguntas, mas também para fazer outras. Uma espécie de segundo tempo da nossa conversa, um segundo round. Segue abaixo. 1) Sabemos que um quadrinho no estilo de Castanha do Pará, que muitos usualmente chamam de "Álbum" levam muito tempo para serem feitos. Castanha do Pará por exemplo, você comentou que demorou cerca de 3 anos para sair do papel. Mas de lá para cá algumas das suas ideias ganharam força o suficiente para estarem perto de serem impressas? Sim. Estou a alguns anos envolvido na pesquisa, roteiro e arte de um novo projeto. Será publicado em 2021 e tem o apoio do Proac, o programa de ação cultural de São Paulo. 2) Quando digitamos seu nome no Google aparece logo em seguida que sua profissão é de professor. Eu também já fui professor por cerca de dez anos. É um trabalho fascinante, mas que exige muito e toma tempo. Particularmente eu me inspirava muito, contudo, não tinha tempo para colocar nada (ou quase nada ) no papel. Era paradoxal. Para você, como que ser professor interfere no seu fazer artístico e vice-versa? Ser professor está diretamente ligado ao meu fazer artístico, pois a vivência no ambiente acadêmico me permite estar em constante aprendizado. Penso muito na realização de obras de arte como algo bastante similar a pesquisa científica. O pensamento acadêmico ajuda muito a gerenciar todas as fazes da produção de quadrinhos, por exemplo. E no fim, parte de minhas intenções passam em gerar saberes a parir de minha obra. 3) Como você avalia o impacto do prêmio Jabuti hoje na sua vida pessoal, profissional e para os quadrinhos de um modo geral? Os impactos ainda são sentidos, permanentes, digamos assim, ou é necessário esquecer isso para focar no futuro, em coisas novas e não ficar "deslumbrado" com o prêmio? Obviamente que há impactos permanentes e a maioria destes é no sentido positivo. Como toda conquista, é preciso celebrar e virar a pagina. Sou movido pela novidade e pela inventividade e procuro me colocar sempre fora da zona de conforto. Grandes conquistas surgem a partir dessa lógica de que nada é garantido. 4) O cenário da literatura independente, especificamente de quadrinhos, de dois anos para cá, como você avalia as facilidades e dificuldades para quem quer publicar? Mudou muito, mudou pouco? Não tenho acompanhado de perto as mudanças mais relevantes dos últimos dois anos. Mas posso dizer que, hoje, as possibilidades são múltiplas e há espaço para todos. As pequenas e novas editoras, as plataformas de financiamento e os editais de cultura são determinantes nesse sentido. O mercado continua carente de mais leitores, temos problemas de distribuição, mas o contexto atual é muito dinâmico e temos que estar sempre resilientes e produzindo sempre. Atualmente Gidalti se prepara para lançar o álbum Brega Story que explora o rico universo da música brega paraense. Agradecemos à leitura e se quiser ler nossas outras entrevistas, basta clicar aqui.
- O Visconde Partido ao Meio
O mundo é feito de dualidades. Quente e frio. Claro e escuro. Luz e Sombra. Amor e ódio. Mas acredito que entre as dualidades mundanas, nenhuma tem mais voga que a entre o bem e o mal. E é esta que Ítalo Calvino traz a baila no seu O Visconde Partido ao Meio, obra de 1952, que teve sua primeira edição brasileira em 1988. Ítalo nasceu em Cuba em 1923 e seguiu com seus pais, logo após seu nascimento, para a Itália. Formou-se em Letras e iniciou Agronomia, curso o qual abandou para se juntar à resistência ao fascismo durante a segunda guerra mundial, fazendo do cunho político uma presença assídua em suas obras. Em O Visconde Partido ao Meio, Medardo di Terralba, o Visconde, vai para a guerra contra os turcos, acompanhado de seu escudeiro, Curzio. Lá pelas tantas, Medardo é atingido por um tiro de canhão que o manda pelos ares, partindo-o ao meio no sentido dos pés à cabeça (meu lado biólogo me força a trazer o termo correto: partindo-o em corte sagital). Durante a noite, período de trégua, duas carroças percorrem o campo de batalha: uma para os feridos, uma para os mortos. Do Visconde só se achou metade direita do seu corpo, a qual foi colocada na carroça dos feridos, levada ao hospital e tratada. Após sua “meia” recuperação, meio Medardo volta a Terralba, mas não parece o mesmo que a deixou para a guerra. Além do físico coberto parcialmente por uma capa escura, o visconde se tornou uma pessoa má (qual a relação entre direita e maldade? Olha o cunho político aí, gente!). Quem sabe foram as experiências da guerra que o deixaram assim. Tempos depois, certa confusão se forma ao perceberem a mudança de comportamento do Visconde, que se tornou caridoso e benevolente para com os seus. O que aconteceu realmente com o Visconde, deixo para vocês descobrirem quando lerem a peça de Calvino. Mas o que “O Visconde Partido ao Meio” deixa como aviso, pelo menos para mim, é a questão do equilíbrio. Dualidades, na verdade, não são compostas por duas coisas, mas de apenas uma. Por exemplo: luz e sombra. A sombra nada mais é que a ausência de luz. Então podemos dizer que são duas coisas distintas, sendo que uma é apenas a ausência da outra? E onde começa a luz e termina a sombra, ou vice-versa? Onde começa o calor e termina o frio, sendo que o frio é apenas a ausência de calor? Não temos como dizer onde começa uma e termina a outra, porque não são duas coisas limítrofes que são invadidas conforme a circunstâncias. São apenas a mesma coisa, em “estados diferentes”. Assim como o bem e o mal, abordados na obra do Visconde. Ser benévolo o tempo todo é benéfico e garante a felicidade de si e de outrem? E ser mau? Leiam a estória do Visconde que foi partido ao meio por uma bala de canhão na guerra religiosa entre cristão e mouros e tirem suas conclusões. Curte literatura? Que tal uma lista com 10 livros diferentões pra ler como essa aqui? Ou uma resenha do livro de terror mais badalado do momento? E quem sabe um artigo sobre as principais escritoras argentinas da contemporaneidade? LEANDRO KRINDGES é Técnico Químico de profissão, licenciado em Biologia por paixão, fã de Foo Fighters a Belchior e de tirinhas, especialmente Peanuts. Sempre teve curiosidade em saber o que se passava por trás das músicas, e essa busca se tornou um hobby. Tecladista da Banda Villa Rock, arranha também violão e guitarra. Aprendeu a gostar de ler depois do Kindle.
- Castanha do pará de gidalti moura jr.
Castanha-do-Pará é, sem dúvida, uma obra que futuramente irá figurar em todas as possíveis listas de melhores quadrinhos brasileiros do século XXI, ou ainda em alguma antologia sobre as principais e melhores obras de arte sequencial brasileira vindo desde Ângelo Agostini até os dias atuais. Publicada em 2016 ela foi simplesmente a primeira obra a ganhar o prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira na categoria (também lançada em 2018 e, confesso, com certo atraso já) de Histórias em Quadrinhos. O prêmio, e também uma problema jurídico sobre censura que um de seus painéis expostos numa exposição num shopping em Belém, contribuíram para a repercussão do livro. Uma obra com temática necessária e, infelizmente atual, sobre a situação de garotos em situação de rua do país do ponto de vista de um único garoto, Castanha, e de uma única cidade, Belém, mas que respeitando a máxima de Dostoiévsky “cante sua aldeia e cantará o mundo” retrata praticamente todo o país. O trabalho tem uma narrativa literária paralela entre passado e presente que se complementam com ironia e sarcasmo. A narrativa tem uma forte matiz de naturalismo, dada a visceralidade de seu universo, seu cenário, sua história e seus personagens. Mas a narração visual que brinca com elementos realistas, surrealistas e expressionistas transforma tudo numa alegoria visual potente. Se Art Spielgeman ficou conhecido por Maus ao retratar judeus como ratos, alemães como gatos, poloneses como porcos e aliados como cães, aqui Gidalti retrata a partir de animais de nossa fauna urbana como gatos, cães, ratos e urubus as crianças em situação de vulnerabilidade social. A pergunta lançada por Hector Babenco em seu filme Quem matou Pixote reverbera nessa tragédia contemporânea, urbana e banal mostrando os verdadeiros culpados por tantos Pixotes (e acreditem, não são poucos, nem os Pixotes, nem os culpados). E por falar em cineastas, é inevitável vir à minha memória ao falar de uma estreia já tão premiada quanto essa, a figura de Anselmo Duarte, diretor de O Pagador de Promessas, ele falou certa vez em entrevista que largou o cinema porque se no início de sua carreira já ganhou o prêmio máximo do cinema (a Palma de Ouro em Cannes), tudo o que viesse depois (e alguns filmes vieram) seria menor. Tomara que Gidalti Jr. Pense realmente além de prêmios e siga numa profícua carreira nos quadrinhos.
- Sobre dragões em garagens
Tenho escrito sobre os riscos de se acreditar em afirmações falsas (tanto sobre os supostos argumentos do movimento antivax como em fake news de um modo mais geral) e me senti na obrigação de escrever sobre ceticismo. Mais especificamente sobre ceticismo cientifico. Esse termo foi cunhado por Carl Sagan, um dos maiores divulgadores da ciência de todos os tempos, que inspirou muitos jovens a seguir a carreira cientifica, eu incluso. Sei que falar sobre esse assunto sempre causa um certo desconforto, pois é exatamente nesse ponto em que percebemos que a maioria das pessoas não gosta da ciência. Elas gostam das descobertas, dos produtos da ciência. Mas não são muito fãs das perguntas que a ciência faz. Para começar preciso citar outra frase de Sagan: “A ciência é mais que um corpo de conhecimento, é uma forma de pensar, uma forma cética de interrogar o universo, com pleno conhecimento da falibilidade humana.” Mas porque essa forma de pensar causa incômodo? E qual a ligação com dragões em garagens? Vamos por partes. Em seu livro intitulado o Universo assombrado por demônios, Sagan sugere a seguinte situação. Um belo dia alguém que você conhece te diz que tem um dragão morando na garagem. Você decide ir até lá e não vê dragão nenhum. Mas seu amigo insiste que esse dragão é invisível, o que explica satisfatoriamente o fato de você não conseguir ver o tal dragão. Você põe farinha no chão para ver as pegadas, mas seu amigo te informa que esse dragão flutua. Aí você sugere que se jogue tinta em cima dele pois assim vai ficar visível. Mas seu amigo te informa de que esse dragão é etéreo, imaterial, a tinta não grudaria nele. De forma que não há como detectar aquele dragão. A essa altura você deve estar duvidando da seriedade ou da sanidade do seu amigo não é mesmo? É fácil ver nesse caso como o ceticismo pode ser útil e importante para não se deixar acreditar em afirmações infundadas. São necessárias provas irrefutáveis para aceitar essa afirmação como sendo parte da realidade. E simplesmente aceitar qualquer afirmação desse tipo pode ser perigoso além de ridículo. Portanto você diz ao seu amigo que quando ele puder detectar e fornecer alguma prova você irá acreditar. Assim como um amigo que acredita em signos, o dono do dragão tem uma crença que para você não faz sentido. Mas não parece tão grave. Agora imagina que além do seu amigo tem mais gente acreditando nisso. Não só que aquele dragão é real mas que todas as casas do mundo tem um dragão indetectável na garagem e que trazem presentes e enfeites para eles. Loucura não? Imagine que a crença ficou tão popular que não acreditar nela te exclui de grupos, deixa pessoas furiosas, faz com que duvidem do seu caráter. Adicione a isso o ingrediente emocional. Uma geração se passou e agora temos pessoas que foram criadas desde a infância acreditando nesses dragões. Eles absorveram esse ensinamento de maneira emocional, ouviram histórias sobre os dragões salvando a humanidade, essas histórias ajudaram a moldar o caráter delas. Agora quando você tenta explicar que as coisas acontecendo na vida daquela pessoa não dependem da vontade dos dragões, você também estará dizendo a ela que muitas das belas lições que seus pais lhe ensinaram sobre a vida são baseadas em afirmações sem sentido. Que mesmo sendo as pessoas que ela mais ama e admira eles estavam errados em relação ao que acreditavam e ela também está. Carl Sagan nos desafia a manter um estado mental cético, porém aberto a novas ideias e possibilidades. Afinal, você não teria problemas para acreditar na existência dos dragões se eles deixassem pegadas na farinha. Se cobrir o dragão de tinta deixasse ele visível, e se fosse possível interagir com eles, não teria nenhum motivo para discordar do seu amigo. Nesse caso o ceticismo cientifico nos diz para aceitar os dragões como realidade. Por mais incrível e surreal que seja a existência de dragões, se existem provas que não podem ser refutadas então eles são reais. Não importa quantas pessoas aceitem esse fato ou não. A primeira coisa que quero salientar é a importância da análise de evidências. Principalmente quando queremos acreditar em algo. Alguém que jamais perdeu um amigo ou um parente vai ter maior dificuldade de acreditar em comunicação com mortos do que alguém que perdeu pessoas queridas. O fato de uma afirmação parecer agradável ou reconfortante deve ser o primeiro sinal de que precisamos analisar com mais cuidado, pois somos naturalmente susceptíveis ao engano quando queremos acreditar em uma afirmação. A segunda coisa é que o número de pessoas acreditando em uma afirmação não deve ser usado como argumento para validar uma ideia. Entretanto a ideia de pertencimento a um grupo é tão forte que esse argumento é usado inúmeras vezes em nossa sociedade na ideia de que um produto mais consumido é o melhor. Para reforçar essa ideia vale até criar estatísticas e afirmações fantasiosas ainda que contraditórias, (a pasta de dente indicada por 9 a cada dez dentistas aparentemente não é a pasta mais indicada pelos dentistas). A ideia de que a maioria não pode estar errada é explorada também em discursos políticos que chegam a distorcer o conceito de maioria para defender a legitimidade das suas imposições de ideias. Um grande exemplo é nosso atual presidente dizendo que as minorias devem se curvar a vontade da maioria. Para essa frase fazer sentido ele teria que ser pronunciada em mandarim. Sem o cuidado de fazer questionamentos céticos diante das informações que nos são apresentadas acabamos vulneráveis. E por mais que você possa pensar que acreditar em fantasias pode ser inofensivo, saiba que sempre pode ser perigoso viver fora da realidade. Quer ver? Imagina esse grupo de pessoas formando uma bancada no congresso para que seja obrigatório que todos raspem a cabeça, afinal dragões invisíveis odeiam cabelo. E quando você menos espera existem dois grupos brigando até a morte porque segundo um grupo os dragões invisíveis não podem ter cor, pois são invisíveis. Mas outro grupo, apesar de não verem os dragões, tem fé que eles são amarelos. E quando as políticas públicas forem guiadas por alguém que afirma ter conversado com um desses dragões, não em uma garagem mas em cima de uma goiabeira? Pois bem, apesar de ser muito louca essa história tem vários paralelos com a realidade. É por isso que o ceticismo cientifico causa tanto desconforto, porque revisar de forma crítica nossos conhecimentos e nossas visões de mundo exige maturidade, disciplina e nunca será mais fácil do que aceitar sem questionar. Questionar é o trabalho básico de um cientista. Por isso cientistas no mundo todo estão nesse momento tentando achar furos ou erros e imprecisões nas afirmações cientificas mais básicas e relevantes. Porque se você descobre que Einstein estava totalmente errado sobre a relatividade e consegue provar isso, você não vai ser agredido, ninguém vai duvidar do seu caráter. Eles vão te dar um prêmio Nobel. Você será lembrado como um dos grandes nomes que nos ajudaram a entender o universo. Então se você acredita em energia dos cristais, signos, homeopatia ou feng shui, entenda que é uma crença sem bases sólidas. Portanto sua crença num judeu zumbi de dois mil anos, que é um terço de Deus e veio numa missão suicida pra te salvar da maldição do homem de barro que comeu a fruta mágica, não é melhor do que o amigo imaginário de ninguém. Mesmo que pareça inofensivo, repense se a atitude de aceitar matar seu próprio filho porque ouviu uma voz na sua cabeça deve ser considerado um gesto de fé. Questione. Faça perguntas. Faça uma geral na sua garagem. E se no final ainda sobrar algum dragão por lá lembre-se que ter uma crença é como ter um pênis: isso não é um problema em si, contanto que você não tente enfiar ele nas pessoas à força. Gostou do artigo? tem mais artigos da nossa sessão Neurônio Cult aqui! André Almeida André Pinheiro: Nascido no Ceará e radicado no Rio de Janeiro, cursando doutorado em biofísica pela UFRJ atualmente pesquisando na área de toxicologia ambiental sobre a bioacumulação de microplástico. Nerd assumido e aventureiro da cozinha nas horas vagas
- top 10: livros para azeitar uma conversa literária
A função desta lista — bem como de outras que publicarei aqui — não é mostrar nada muito diferente, avassaladoramente bizarro ou absurdamente experimental. Um dia farei umas listas loucas dessas, mas não agora. A intenção é apenas ampliar o radar de buscas literárias partindo de livros, temas e artistas já relativamente conhecidos. Deste modo, aqui tem lado B de grandes escritoras e escritores, abordagens não usuais para gêneros já conhecidos, estreias de artistas da palavra — que, a meu ver, deveriam ser mais conhecidas — e livros que eu fico triste por serem erroneamente pouco lidos, ou pouco traduzidos ou editados ou debatidos em nosso país. Vamos lá! 10. O Perseguidor - Julio Cortázar Todo mundo conhece Cortázar de livros como "O jogo da amarelinha" e "Todos os fogos o fogo". Isso faz com que esta pequena novela (ou conto grande) passe desapercebida. Ela, aliás, só não foi completamente esquecida pelo editorial (e pelos leitores) do Brasil possivelmente graças à editora mais hipster que já existiu em terras tupiniquins: Cosac Naify, que fez esta edição da foto em capa dura e, como era de praxe deles, arrojado projeto gráfico. Eu comprei essa edição em uma daquelas míticas promoções anuais da editora — que eu passei muito tempo achando que eram lenda urbana e as pessoas na livraria riram quando descobri que era de verdade. Então procurei todos que meu bolso permitiu comprar e, dentre eles, esta edição, que não foi difícil encontrar, pois é um livro chamativo. Aliás, ele é tão bem ilustrado pelo conterrâneo de Cortázar, José Muñoz, que, quando pus minhas mãos nele, pensei se tratar de um quadrinho. Mas é prosa. E uma prosa altamente dinâmica, que narra, do ponto de vista de um jornalista crítico musical, parte da vida de um músico de jazz, o saxofonista Johnny Carter, especificamente seus últimas dias de vida. A narrativa é extremamente envolvente e detalhada, a ponto de você acreditar que Johnny Carter realmente existiu. Sob determinado ponto de vista, até que existiu sim, já que ele é baseado em Charlie Parker, por quem Cortázar nutria admiração (aliás, quem gosta de jazz mesmo vai admirar, ou pelo menos respeitar, Charlie Parker). Este conto-novela foi publicado originalmente em 1959, na coletânea intitulada "As armas secretas". Aqui, Cortázar tenta tratar daquilo que ele considerava seu principal epicentro narrativo: o que ele chamava de "fato humano essencial". É um livro que boa parte das pessoas leria em uma tarde, em uma sentada, num longo fôlego que as páginas irão tirar. A narrativa tem uma stimmung (que pode ser "rusticamente" traduzido por "atmosfera") perfeita a ponto de ser possível sentir o cheiro dos lugares. É incrível. A tradução aqui é de Sebastião Uchoa Leite. 9. As Fenícias - Eurípedes Este livro conta a história de um cara, um tal de Édipo, que, sem saber, mata o pai e casa com a mãe. Mas, espera, essa peça não é "Édipo Rei"? Pois é, a original, de Sófocles, é sim. Mas esta aqui é a versão feminina, na qual Jocasta — a "mãe-esposa" de Édipo — que conta o paranauê mais complicado da história daquilo que resolvemos chamar de "ocidente". A peça em questão foi escrita por Eurípedes por volta de 411 a.C., ou seja, aproximadamente 16 anos após a estimativa de data de Édipo Rei, 427 a.C. É uma peça que tenta ser menos racional que Édipo, apelando mais à emoção. Penso que ela seria muito mais interessante se tivesse sido escrita por uma mulher, mas estamos falando da Grécia no tempo em que ela era antiga, né? Então vamos de Eurípedes mesmo. É uma peça curta e, claro, uma tragédia, mais que literalmente falando. Dessas que acabam com a gente no final. Aí eu sempre imagino um texto desse encenado ao vivo, deve ser ainda mais doloroso. "Édipo Rei" teve várias continuações e releituras (algo que hoje o pessoal gosta de chamar de "franquia"), criando um universo narrativo próprio, mas "As Fenícias" também chegou a ter sua própria releitura por Sêneca, que escreveu uma peça homônima. Mas neste caso específico, temos um tratado sobre as paixões humanas e, talvez, até uma tentativa (extremamente datada e que envelheceu mal) de homenagear as mulheres, enaltecendo, por exemplo, sua capacidade maternal "inata". De todo modo, fazendo um recorte temporal, lembrando que é uma peça da Antiguidade, temos uma obra que ajudou na criação de arquétipos psicossociais tão importantes para a humanidade (sobretudo a "ocidental"). É um relato épico, trágico e emotivo sobre nossa desgraça. E nós sabemos que nada mais atual do que uma desgraça, né? 8. Branco neve, vermelho Rússia - Dorota Masłowska Eu achei esse livro no acaso dos acasos. Estava na casa de um amigo debatendo um curta-metragem que estávamos produzindo e, em cima de uma pilha de coisas que estava em cima de uma caixa de som, havia esse livro. O projeto gráfico e as ilustrações eram tão bonitos, caprichados e coloridos que, por um momento, como ocorreu com o livro do Cortázar citado acima, eu pensei que fosse uma graphic novel. Infelizmente não consegui recordar o nome do ilustrador, nem achar na internet. Se alguém souber agradeço de antemão se colocar nos comentários. Trata-se do primeiro romance da ainda muito jovem escritora polonesa. Tem uma narrativa altamente dinâmica, rápida, vertiginosa e muito divertida, e que lembra o fluxo de ideias vomitadas em alta velocidade de "Trainspotting", por exemplo. Linguagem chula, vulgar, gírias... Um verdadeiro "videoclipe literário". Dorota também usa, genialmente, um recurso metalinguístico que eu não vou dizer qual é para não estragar a surpresa. A originalidade não é no truque em si, mas na forma como ele surge e que até hoje me marca. É um livro divertido, intenso (e muito tenso também), muito inteligente, engraçado e jovem. Embora ele fale especificamente sobre um tipo de juventude, existe algo de atemporal nisso, algo que perpassa praticamente todos os jovens de todas (ou quase todas) as gerações. Um livro rock'n'roll de uma autora que, infelizmente, só tem este livro traduzido no Brasil. A história em si é simples: Andrzej Vermski está em crise depois de (adivinha) ser largado pela namorada Magda. Ele passa o dia se esbarrando em várias e várias mulheres interessantes em meio a teorias da conspiração, delírios e compulsão por drogas. O que o torna incrível, contudo, não é essa história meio chinfrim e batida, mas a forma como a autora a narra. Divertido, inteligente, pouco conhecido e com momentos de genialidade. Não tem como não estar nesta lista! 7. A Tenda - Margaret Atwood Margaret Atwood ganhou um merecido lugar de destaque na cultura pop contemporânea depois que seu premiado livro "O conto da aia" virou série de TV. Mas aqui nós temos uma autora experimental, com textos curtos e deliciosamente misteriosos (aliás, foi com este livro que eu a conheci, presente da minha sogra). Em alguma medida, evoca em minha mente diversos textos curtos e deliciosos do livro "Contos de Amor Rasgados", da brasileira Marina Colasanti, mas provavelmente só pelo fato de serem curtos e absurdamente bem escritos. As narrativas não são tão curtas como as de Marina — em geral, têm entre duas e oito páginas — e nem tão fofas. São algo entre a literatura experimental e a literatura de gênero, mais precisamente o realismo fantástico ou surrealismo (roupas que sonham, por exemplo), o terror e a fantasia e um pouco de ficção científica. É como se fosse mesmo uma síntese dialética entre o seu lado "best-seller" e uma prosa poética que se preocupa apenas com a suspensão dos processos de leitura, em alguns momentos apontando para o vazio e para a leveza e, em outros, cutucando dedos nas feridas de modo que algo que pode parecer quase uma fábula é, em verdade, muito mais próximo de uma narrativa baseada em fatos reais. Não existe nenhuma preocupação intensa ou evidente de explicar fatos ou mesmo de promover explicitamente algum tipo de catarse, apenas um tentador convite de embarcar na viagem. Um ponto forte e que deixa o livro ainda mais belo e especial é que as ilustrações (que ora são desenhos, ora poemas visuais) são da própria Margaret Atwood. Um "lado B" da autora com toda a potência de um "lado A". 6. Contos - Katherine Mansfield Sempre que falam de grandes escritoras que exploram e vagueiam pelos recônditos da alma humana (e, claro, feminina também), fala-se em Virginia Woolf, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles — agora também na Margaret Atwood (conforme consta na posição 7 aqui desta lista). Mas que tal conferir essa maravilhosa escritora neozelandesa? Katherine Mansfield foi uma primorosa escritora de contos e outras narrativas curtas tendo influenciado pessoas do calibre da própria Virginia Woolf. Contudo, sua fama é mais restrita aos anglófonos (e olhe lá, porque mesmo entre os anglófonos a Nova Zelândia é quase um "pária", na falta de termo melhor, por ter pouco de sua cultura divulgada fora do manto de exotismo que a cerca), além de ter vivido muito pouco tempo, apenas 34 anos, o que contribui para não ser tão famosa quanto as pessoas que influenciou. Mansfield foi uma mulher à frente de seu tempo, tanto na escrita, tendo praticamente criado um estilo de conto "só seu", como na vida pessoal, tendo escandalizado algumas pessoas. O primeiro conto deste livro, "Senhorita Brill", por exemplo, é intenso, quando parece discreto. Aliás, graças especificamente a este conto, este livro começou a fazer parte da minha vida, pois a senhorita Brill foi uma das fontes de inspiração para uma personagem teatral que criei em parceria com minha amiga Andréa Piol. Ela passou uma semana falando desse conto sem parar e o utilizamos em nosso texto. É uma beleza e de uma tremenda virtuose literária criar toda uma violência sutil e delicada... É como se lêssemos em suas linhas algo realmente semelhante a Clarice Lispector ou Virginia Woolf (que alegava que Mansfield era a única pessoa cuja escrita ela invejava), mas, nas entrelinhas, soa como um Edgar Allan Poe, um Rubem Fonseca. Incrível como cada pequeno acontecimento é gigantesco. Aliás, este conto também foi importante para a própria Mansfield, que alcançou com ele um enorme reconhecimento crítico. Contudo, sua história de vida foi bastante triste, como a de outro gênio literário, Franz Kafka. Katherine Mansfield sofria de depressão e tuberculose, de modo que ela passou muito tempo reclusa e publicando quase nada de seus textos. Mas, se considerarmos que boa parte de seus melhores escritos foram produzidos enquanto ela estava internada em um spa europeu tratando de uma grave hemorragia em 1918 (e que a mataria em 1923), então... uau! Publicar o que escrevia era o de menos. Mansfield foi bem pouco traduzida para o português. Suas primeiras edições brasileiras datam de 1992, o que incluem três contos, que seriam parte de uma novela inacabada, e um ensaio, nunca concluído de sua transição dos contos para narrativas longas. A edição da foto é da finada editora Cosac Naify. 5. Sob o olhar do Leão - Maaza Mengiste Bem sabemos que um artista não nasce pronto. Ele vai melhorando ao longo do tempo. Mas algumas pessoas iluminadas já arrasam logo na sua estreia, fazendo com que o conceito de obra-prima se assemelhe ao de obra máxima. É o caso de Maaza Mengiste, que impressiona de cara em seu primeiro livro, justamente este. A história toca em um ponto sempre polêmico, sobretudo atualmente, quando todo mundo (acha que) entende de política: revolução. Particularmente, o tema política me interessa bastante; infelizmente, contudo, a qualidade de boa parte das obras de várias linguagens que tratam disso vai na contramão. Nos dias de hoje é comum explorar a política através de avassaladoras paixões cegas, de certezas absolutas e totalmente partidárias, não dando a devida importância para as micro-histórias. No Brasil, a primeira lembrança que me vem à mente numa narrativa semelhante é "Eles não usam Black-Tie", de Gianfrancesco Guarnieri, que, a partir da história de uma família, retrata o processo de uma greve, ou a partir de uma greve retrata uma família. Conflitos trabalhistas de uma indústria, tensões familiares, racismo, papéis de gênero... Está tudo ali. No romance de Mengiste, temos, não uma greve, mas uma guerrilha marxista (Derg) derrubando Hailé Selassié — descendente de uma linhagem histórica de imperadores, especificamente o 255º sucessor da linhagem do famigerado rei Salomão (lembrando sempre que a Etiópia é o país mais antigo do mundo) — afetando toda uma nação no auge dos anos 1970. Hailé Selassié, embora tenha modernizado o país, não conseguiu combater a enorme fome que assolava seu povo, sendo esse o estopim da guerrilha. E, no meio disso tudo, uma família, cuja única certeza é a da incerteza e cuja única prioridade é a a vida de seus integrantes e sua própria sobrevivência enquanto família. O patriarca, o médico Hailu, tem que lidar com a doença da esposa, o fascínio revolucionário de um dos filhos e o fascínio religioso de outro, que também enfrenta seus próprios problemas familiares. História real e ficcional de costuram, de forma coerente, racional e emotiva. A autora e sua obra (indicada ao Pushcart Prize) foram aclamadas pela revista New York logo de cara. O que me lembra que pensei em fazer uma lista sobre grandes estreias, sabe, aquele pessoal que já na primeira obra faz um estardalhaço? Bom, mas acabei colocando a Maaza aqui nesta lista, porque, afinal, pessoas talentosas podem figurar em diversas listas. Atualmente ela já publicou três livros e vive entre a Etiópia, a Itália e os Estados Unidos. 4. A fábrica de robôs - Karel Tchapek Peça de teatro é algo que poucas pessoas — que não são do teatro — leem. Talvez exista uma exceção disso quando falamos em uma dramaturgia muito famosa como a de William Shakespeare, Samuel Beckett e, talvez, Bertolt Brecht. E justamente por isso (também por isso na verdade) nesta lista tem duas. "As Fenícias", que citei lá em cima, e esta aqui, a segunda. Eu amo essa peça com todas as minhas forças e tenho uma enorme admiração pelo seu autor. Karel Tchapek é tipo... uma meta de vida. Percebam: na época da Segunda Guerra Mundial, Tchapek e seu irmão Josef foram declarados inimigos públicos pelos Nazistas pelo fato de ser escritor e o irmão pintor. Depois vieram os Soviéticos e, bem, ele continuou sendo inimigo público. Em 1969, 31 anos após seu falecimento, o astrônomo Luboš Kohoutek batizou um asteroide que havia descoberto com seu nome: 1931-Capek. Ou seja: o cara irritou stalinistas, nazistas, inventou uma palavra, revolucionou a ficção científica, virou um dos escritores mais importantes em sua língua e ainda virou nome de asteroide. Nazistas e stalinistas eu já sei que irrito. Falta a parte do asteroide e de escrever alguma coisa que preste. Mas voltemos ao livro de Tchapek... Trata-se de uma peça em três atos, que conta a história de cientistas e uma ativista de direitos "robóticos", digamos assim, dentro da fábrica de robôs Rossum. No primeiro ato, temos a apresentação do cenário, dos personagens e, bom, melhor deixar vocês descobrirem por conta própria. Embora tenha criado o termo e o conceito de robô (antes, no máximo, existia a ideia de "autômatos"), o que existe na peça são o que hoje conhecemos por "sintozoides": seres sintéticos muito mais próximos de algo orgânico que algo mecânico. Uma curiosidade é que a palavra vem do tcheco robota, que pode ser associada tanto a servo ou escravo como a trabalho forçado. Há também quem associe o termo ao conceito de mais-valia marxista. O mais interessante, porém, é que Tchapek pensou em usar o termo labori, do latim labor, mas seu irmão o convenceu de que a sonoridade tcheca era melhor. Fico imaginando nos blockbusters de ficção científica as pessoas gritando: "os laboris assassinos", "os laboris espaciais". Uma grata surpresa ao escrever este artigo foi descobrir que a editora brasileira Madrepérola está em campanha de financiamento coletivo para uma edição lindamente ilustrada, traduzida diretamente do tcheco e com o texto adaptado ao formato de prosa, mais precisamente romance. Vou até fazer uma pausa para permitir a admiração dessa arte linda do Vitor Wiedergrun. Essa edição em questão vem com o título mais próximo do original tcheco: R.U.R. (Robôs Universais de Rossum). 3. Diário de Bitita - Carolina Maria de Jesus Carolina Maria de Jesus é um gênio literário — ou uma gênia, se quisermos subverter a norma, algo que gênios geralmente fazem. Mas dizer que ela era genial ainda é pouco, pois ela era mais que isso: precisava escrever, era algo atávico à sua já difícil sobrevivência. Provavelmente todo mundo já pelo menos ouviu falar de "Quarto de Despejo", sua mais que incrível estreia no mundo literário, mas "Diário de Bitita" é igualmente tocante, lindo, delicado e também, ao mesmo tempo, forte. Ali entendemos, de modo poético, o surgimento, a formação desta incrível autora. Mas eu vejo muito pouca gente falando sobre "Diário de Bitita". Aqui ela fala da sua infância, adolescência e o começo da vida adulta. Aliás, o nome é porque esse era o seu apelido quando jovem. Carolina de Jesus só soube seu nome oficial quando entrou na escola. O livro, além de ser de uma beleza pungente, é de uma verdade dolorosa. Para aqueles que não entendem — ou não querem entender — as teorias sociais do tão famoso "racismo estrutural" proferidas por acadêmicos, bastaria ler com honestidade este livro para ter todos os mecanismos para jogar fora todo e qualquer resquício de racismo que, porventura, exista em sua mente. Além da história singela, linda e, ao mesmo tempo, cruel de dentro do livro, a história do livro em si é assaz interessante. Carolina Maria de Jesus, antes de morrer, entregou dois cadernos com seus manuscritos para a jornalista Clélia Pisa. "Diário de Bitita" foi publicado postumamente (e pela primeira vez) em Paris, em 1982, cinco anos após sua morte. No Brasil, no entanto, o livro foi publicado apenas em 1986, mais uma prova de que o Brasil não liga muito para seus próprios artistas. Maria Carolina de Jesus, ao invés de ser reverenciada por seu trabalho como escritora e compositora (e por que não dizer "socióloga"?), foi tratada por muitos críticos como uma "curiosidade estética" (a exemplo do que ocorreu com o pintor Chico da Silva), do tipo "olhe, uma escritora naïf que é catadora de lixo! Que coisa mais avant-garde!", de modo que, ao passar o sucesso de seu celebrado primeiro livro, todos voltaram aos seus afazeres de sempre, o que só reitera e comprova tudo que ela diz em seus escritos e mostra como boa parte da suposta elite intelectual brasileira é elitista, esnobe e, quase que por conseguinte dessas duas características, racista, lembrando-me que Nelson Pereira dos Santos, em "Rio, Zona Norte", tece críticas geniais a esta fauna intelectual brasileira. Voltando ao livro em questão, problemas de gênero, pobreza e racismo são alguns dos temas tratados por Bitita, com a inteligência e objetividade de uma criança que, bem sabemos, tornou-se um monstro da literatura mundial. 2. Sobre a imortalidade de Rui Leão - Machado de Assis Todo mundo sabe que Machado de Assis é "O Cara", mas a maioria de nós conhece apenas os greatest hits do cara. Só que ele escreveu praticamente todos os gêneros, até os mais obscuros e, se bobear, deve até ter inventado alguns. Temos aqui um tremendo lado B que a editora Plutão, especializada em ficção científica, fez o favor de publicar e resgatar nessa edição digital muito caprichada e bonita. São dois contos fantásticos — tanto por serem do gênero "fantasia", guarda-chuva que engloba terror, ficção científica e fantasia propriamente dito, como por serem, claro, fantasticamente bem escritos — que contam a história, por dois pontos de vista diferentes, de Rui Leão, um homem imortal graças a uma misteriosa poção indígena que ganhou do sogro. Claro que temos toda a ironia, inteligência e elegância de Machado de Assis que, embora não tenha criado a ficção científica ou a literatura fantástica, percebeu rápido como ninguém seu potencial metafórico e alegórico para falar da realidade e das dores humanas. Os contos não são longos, mas somadas suas páginas a uma ótima introdução escrita por Roberto de Sousa Causo, que provavelmente é o mais profícuo autor brasileiro de ficção científica da atualidade, temos o peso de um bom livro que pode ser lido, talvez, em uma só tarde. Vale muito a pena! E como a Plutão só trabalha com publicações digitais, o livro é baratinho! Vale demais! 1. O último homem - Mary Shelley Mary Shelley é conhecida por apenas um romance, poeticamente intitulado de "O Prometeu Moderno", mais conhecido, no entanto, pelo seu título mais simples e famoso (sim, a obra tem dois títulos) "Frankenstein". Isso não é injusto, de certo modo, já que este livro revolucionou toda a literatura e ganhou um enorme espaço na cultura pop. Nenhuma lista de elogios, por maior que seja, é suficiente para "Frankenstein", de modo que, se ela quisesse não fazer mais nada da vida depois de escrevê-la com apenas 19 anos, estaria coberta de razão. Contudo, não foi isso o que ocorreu e ela continuou escrevendo. O problema, de certo modo, é que a absurda genialidade de seu primeiro romance acabou ofuscando praticamente todos os seus trabalhos subsequentes. Dentre eles, esta magnífica obra futurista e distópica, simplesmente sua segunda ficção científica — e, não duvido, a segunda ficção científica do mundo, já que a primeira é dela também. A obra — originalmente publicada em três partes — tem muitas semelhanças com "Fankenstein": girando em torno de personagens perdidos em seu próprio tempo e com sublimes e detalhadas descrições de paisagens exuberantes que nada devem ao seu legado literário (ela e seu esposo, Percy Shelley, viajavam muito e boa parte de seus diários de viagem eram aproveitados por Mary Shelley em suas obras). A história começa em 2073 e inaugura o que, no cinema, vai ser conhecido por found footage — virando um subgênero do horror —, que são os filmes que são encontrados por acaso dentro de uma narrativa, tipo o já clássico "Bruxa de Blair". Mas o que se encontra aqui é, não um filme, claro, mas um manuscrito em uma caverna na Itália. É um livro que também é extremamente interessante, inventivo e bem construído. É também um pouco engraçado, já que o "transporte do futuro" imaginado pela autora são os balões (sim, queridos, balões!). A história tem personagens fortemente autobiográficos (alteregos dela, do esposo e de amigos, como Lord Byron), questionador da política e da humanidade, em meio a uma PANDEMIA (olha que atual! Praticamente um documentário!) e esteticamente revolucionário (Mary Shelley questiona o próprio estilo romântico de outrora). Uma segunda e feliz descoberta que fiz nesta lista foi que a editora Plutão está preparando uma segunda versão brasileira da obra com esta beleza de capa que deixo aqui para o deleite de vocês. Gostou? Não gostou? Comenta aqui! Se você gosta de resenhas literárias, confere a resenha que a Fabi Ferraz do romance da autora sul-coreana Han Kang A Vegetariana. Outra dica legal é a matéria sobre literatura contemporânea argentina de nossa correspondente internacional Mariana Cerrillo que você pode ler clicando aqui.
- Rachmaninoff - Concerto para Piano Nº 4 - O Patinho Feio
Já tendo falado sobre os outros 3, detenho-me agora no 4º Concerto para Piano de Sergei Rachmaninoff. Ele definitivamente não é o mais gostado dos 4. O 1º é considerado um começo promissor; o 2º, a volta por cima (depois de um fiasco com a 1ª Sinfonia); e o 3º, a montanha, o Everest. O 4º é a ovelha negra. Ele foi considerado por muito tempo uma obra sem atrativos, com pouca fluidez, problemas de continuidade, temas pouco cativantes. Enfim, uma obra árida. Vamos já discordar. Composto em 1926, publicado em 1928 e, finalmente, revisado e republicado em 1941, o concerto teve poucas execuções por parte do próprio compositor, que se abatia facilmente com críticas e recebeu algumas nessa obra. A estreia teve uma reação fria. O público queria o famoso, velho e conhecido Rachmaninoff, mas ele lhes deu um Rachmaninoff Belle Époque, um tanto industrial, sofisticado. Só que ele realmente esqueceu de colocar um tema forte no primeiro movimento e no segundo. O terceiro também é um pouco confuso. Mas calma! Dito isto, bora defender a obra. Eu demorei a me apaixonar pelo 4º Concerto. Poucos pianistas o gravam individualmente: mas muitos o gravam quando querem lançar uma coleção com os 4 mais a Rapsódia Sobre um Tema de Paganini. De forma que ele foi muito gravado. Certamente mais de 50 vezes, sem contar gravações ao vivo. O pianista mais importante a gravá-lo solto, independente dos outros 3, foi Arturo Benedetti Michelangeli. O genial italiano, conhecido por ter um repertório não muito vasto e por se dedicar mesmo às obras que escolhia (eram poucas comparadas a outros pianistas, mas ainda eram em número considerável), nem tomou conhecimento dos 3 primeiros, mas defendia o 4º. Fez uma gravação maravilhosa, com a orquestra Philharmonia, regida por Ettore Gracis, que deve ser a mais perfeita. É considerada uma gravação de referência. No final deixo algumas sugestões de gravações. O Primeiro Movimento começa agitado, a melodia é apresentada pelo piano ecoado pelas madeiras em tremolo. O corne inglês apresenta um motivo importante, assim como a flauta. Mas o segundo tema também é do piano. São temas que, pelo menos pra mim, depois que você se acostuma, mostram sua beleza. O movimento é cheio de momentos que você tem que prestar atenção pra perceber que são notáveis. Quando a música entra na sua cabeça, aí toda a sua beleza vem em cada audição. De todos os concertos de Rachmaninoff, esse é o que retem mais a característica de cada vez que você escuta, mais ele se torna atraente. O Segundo Movimento é um Largo de beleza serena e nostálgica. O ponto culminante é lá pelos 5 minutos, quando ele vai crescendo e desemboca num momento tão sublime que é arrebatador. Pra ser justo, ele já tinha feito a mesma coisa num Étude-Tableau de 1911 que não foi publicado senão postumamente (o compositor morreu de câncer em 1943, aos 69 anos). É o Étude-Tableaux Op. 33, Nº 3, que vai escalando e tem o mesmo desfecho. O Terceiro Movimento é mais problemático. Destituído do momento de triunfo típico do compositor, como tão eloquente no Concerto Nº 2 e sublime no Nº 3, ficou ele um tanto sem propósito. Mas não que seja desinteressante. Era apenas questão de marketing, deixar uma bela explosão pra fechar a obra. Não o fazendo, manteve sua integridade (sua, pessoal, e do concerto), à custa do amor do público. Mas ouça o que eu estou dizendo: depois de se acostumar, você vai amar esse concerto, com curvas agudas e orquestração eficiente e muita beleza. Veja algumas opções de gravações: - Sergei Rachmaninoff, com a Orquestra de Filadélfia, regida por Eugene Ormandy; - Vladimir Ashkenazy, com a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã, sob a regência de Bernard Haitink; - Arturo B. Michelangeli, com a Orquestra Philharmonia, sob Ettore Gracis; - Tamás Vásáry, com a Sinfônica de Londres, sob Yuri Ahronovitch; - Alexander Ghindin, com a Filarmônica de Helsinki, sob Vladimir Ashkenazy (essa é a primeira gravação da primeira versão do concerto, a que se toca mais é a de 1941. O próprio Ashkenazy gosta mais dessa versão. Eu acho a última mais satisfatória.) Confira também nossas listas: O 1º e o 2º Concertos de Rachmaninoff O 3º Concerto de Rachmaninoff 10 Concertos para Piano 10 Sinfonias + 10 Sinfonias 10 Sonatas para Piano
- TOP 10 Obras sinfônicas extra categoria que você deve conhecer
Trago hoje a primeira lista de uma série de 3 ou 4 (quem sabe até mais) sobre peças sinfônicas que não se enquadram na categoria de Sinfonia ou de Concerto ou de Abertura. São alguns poemas sinfônicos, alguns balés e outras peças que realmente não se encaixam em nenhuma categoria. São ótimas pra quem quer começar no mundo da música erudita, simplesmente pegue qualquer uma, escute e deixe a mágica acontecer. Só lembrando que não está em ordem de nada. Nem cronológica. Edward Elgar (1857 - 1934) - Variações Enigma (Enigma Variations) (tema com variações) Edward Elgar foi um dos primeiros compositores ingleses depois do “grande hiato”. Acontece que a Inglaterra teve vários compositores extremamente relevantes, como John Dowland, Thomas Tallis, William Byrd, Orlando Gibbons, Henry Purcell, todos da Renascença (1400–1600) e do Barroco (1600–1750). Aí, claro que no classicismo e no romantismo houve compositores, mas nenhum alcançou fama internacional. Então veio Elgar (1857–1934), e a ele se sucedeu toda uma geração de compositores importantes, como Vaughan Williams, William Walton, Benjamin Britten e Gustav Holst. Foi uma espécie de retomada da Inglaterra ao cenário musical. Ele é um romântico tardio. A peça mais famosa de Elgar é a série de marchas Pompa e Circunstância (você deve conhecer como a música de formatura), sobretudo a primeira delas. Mas sua obra mais importante é as Variações Enigma, de 1899. É uma música teoricamente leve, que evoca características de amigos do compositor e situações que ele viveu com alguns deles. Mas, tentando fazer essa peça família, saiu uma música excepcionalmente universal, ainda que notoriamente inglesa. Os movimentos são geralmente nomeados com as iniciais desses amigos ou parentes. O nome “Enigma” vem do fato de a peça conter uma charada. Só que ninguém sabe o que é. Não se sabe nem o que é a pergunta, menos ainda a resposta. A teoria mais forte é que o tema, antes de qualquer variação, o tema bruto, seja um contraponto (uma melodia que, de maneira meio matemática, se encaixa com outra) de alguma melodia muito popular (na época). Mas nunca decifraram qual seria essa melodia. O próprio Elgar sugeriu que o Enigma é exatamente um contraponto, uma melodia que nunca aparece na música, mas está evidente entre cada variação. Como uma peça de teatro em que o personagem principal nunca aparece. Vale notar que ele jurava que iam decifrar o enigma desde a estréia, mas que, como isso não aconteceu, ele nunca disse o que era. Se eu sei a resposta? Não é óbvio? Gravações recomendadas: Orquestra Filarmônica de Bergen (Bergen Philharmonic), regente: Andrew Litton – Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony), regente: Adrian Boult Claude Debussy (1862 - 1918) - Prélude à l’Après-midi d’un Faune (poema sinfônico) O modernismo começou exatamente nessa peça. Não era mais romântica, tínhamos que dar outro nome. É raro que tenhamos uma obra de arte inaugural de toda uma era. Mas tá aqui. Fazendo uma analogia mais ou menos como escreveu o regente Julio Medaglia: Claude Debussy não pintou um quadro moderno. Ele pegou um quadro romântico e apagou, para que outros pintassem sobre. Ou seja, ele não fez nada realmente moderno, ele apenas evitou tudo que era romântico. A música é genial pelo que ela não faz, e não pelo que faz. Explico: a música tonal é baseada no acorde da dominante, que gera tensão, resolvendo no acorde da tônica, que gera relaxamento. A música ocidental se baseava nisso há 500 anos. Então, em 1894, vem o Prélude (traduz-se Prelúdio para a Tarde de um Fauno). Ele simplesmente nos dava acordes tensos e não resolvia. Isso é técnico, mas você pode escutar a peça e compreender que ela é vaga, flutuante. Não existe mais hierarquia entre os acordes. De tão suspensa, a música pode terminar em qualquer ponto. Debussy era um mágico da música. De tudo: orquestração, melodia, harmonia e ritmo. Essa música é tão incrível! Você ouve ora uma textura orquestral complexa, ora o som de um instrumento em destaque. A melodia principal é um cromatismo que desce e sobe e que é sempre repetido, mas nunca cansa. Esse tema parece acordar, no começo da música (na flauta), brincar e viajar bastante (nos seus 10 minutos, é ouvido 10 vezes) e, no fim, ficar preguiçoso de novo até dormir. Fantástico! Gravações recomendadas: Orquestra Filarmônica de Berlim (Berliner Philharmoniker), regente: Claudio Abbado – Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony), regente: Valery Gergiev Igor Stravinsky (1882 - 1971) - A Sagração da Primavera (The Rite of Spring; Le Sacre du Printemps) (balé) Falar da Sagração da Primavera não é fácil. Muito já foi dito. É, pra mim, a peça mais impressionante já composta. Fugidia, não serve pra dar aula de harmonia, pois depois que a gente descobre uns acordes octatônicos, esta passa a ser irrelevante; não serve pra dar aula de orquestração, porque qualquer coisa que você faça parecido com a Sagração será imitativo; estrutura, então! A peça não tem nenhuma lógica a não ser a história em que se baseia. Igor Stravinsky mesmo teve a ideia, que é bem simples. Uma tribo carece de uma boa colheita, e oferece à natureza, em troca, o sacrifício de uma jovem. Há um ritual, conduzido pelos velhos sábios, que prepara para a entrada das jovens. Elas hão de dançar até que uma delas caia duas vezes, tornando-se a eleita. Esta, então, dança em frenesi, literalmente, até a morte. O compositor ofereceu a ideia e a música a Sergei Diaghilev, dono dos Ballets Russes, uma das companhias de balé mais respeitadas da época. Ambos já tinham trabalhado juntos em O Pássaro de Fogo e Petrushka. Ele aceitou e, em 1913 houve o que é uma das estreias mais famosas da história. Tem livros e filmes inteiros sobre essa estréia. O cenário e o figurino eram de Nicholas Roerich, e a coreografia, do grande bailarino polonês Vaslav Nijinsky. A peça já começa com um fagote tocando acima do seu registro habitual. Metade do público aplaudia, mas a outra metade começou a vaiar insistentemente. Relatam-se brigas no teatro. Nijinsky, o coreógrafo, tinha que, na coxia, gritar o ritmo para os bailarinos, que já não ouviam a orquestra. Há quem diga que o motivo das vaias era a dança, não exatamente a música. Enquanto que, no balé clássico, o peito do pé se mantém à vista e as mãos e o rosto se fazem graciosos, no balé de Nijinsky, os pés ficavam pra fora, exibindo a sola; os braços faziam movimentos quadrados; os rostos tinham expressões diversas... Na primeira guerra a coreografia original se perdeu, então eles fizeram outra. Mais recentemente, alguns desenhos permitiram recriar o bailado inicial. O fato é que quase nunca o balé é encenado, mas a música é recorrente nas salas de concertos. Nenhuma obra do século XX é tão tocada e gravada. Dura cerca de 33 minutos. Existem gravações com Pierre Monteux, que regeu a orquestra na estreia, e pelo menos 4 com o próprio Stravinsky a reger. Gravações recomendadas: Orquestra Filarmônica de Los Angeles (LA Philharmonic Orchestra), regente: Esa-Pekka Salonen – Musica Aeterna, regente: Teodor Currentzis – Orquestra do Concertgebouw de Amsterdam (Concertgebouworkest), regente: Daniele Gatti Béla Bartók (1881 - 1945) – O Mandarim Miraculoso (The Miraculous Mandarin) (balé-pantomima) Béla Bartók, compositor húngaro, foi um dos mais importantes do século XX. Conhecido por seus 3 Concertos para Piano, a Música para Cordas, Percussão e Celesta, o Concerto para Orquestra e muito mais, tem também nesse balé uma de suas mais celebradas partituras. Como no caso de Stravinsky, a dança não é tão famosa quanto a própria música. Composto entre 1918 e 1924, constando de um ato só, foi, posteriormente, transformado em suíte de concerto, que é a forma pela qual é mais conhecido. Sua audição dura cerca de 16 minutos. A partitura é brilhante, empregando a orquestra de forma magistral. Tem uma hora, logo no começo, em que entra um som gravíssimo que, quando bem executado, tem um efeito sensacional. Gravações recomendadas: Orquestra Sinfônica de Detroit (Detroit Symphony), regente: Antal Dorati – Orquestra Sinfônica de Los Angeles (LA Philharmonic), regente: Esa-Pekka Salonen Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959) – Uirapuru (poema sinfônico) Diz a lenda que se você ouvir o canto do uirapuru, pássaro raro e que só canta uma vez por ano, quando está fazendo o ninho para a parceira, você fica louco. Diz a lenda que Heitor Villa-Lobos visitou a Floresta Amazônica e que ouviu o piado do pássaro. Na verdade, Villa era um mentiroso compulsivo, e talvez nunca tenha sequer pisado na floresta. Ele mentia tanto que isso o fez cruzar o mundo, com histórias de como quase foi comido por canibais, de lendas que ouvira pelo nordeste do Brasil e tudo mais que ele imaginasse (ou que fosse verdade). Fato é que sua imaginação era tão grande pras histórias quanto pra música. A música orquestral de Villa-Lobos é tão imaginativa que, às vezes, chega a ser extravagante. Mas isso é raro. No geral ela é exuberante como a Floresta Amazônica. Uirapuru, de 1934, está entre as peças sinfônicas dele de que eu mais gosto. Foi gravada por grandes orquestras e grandes regentes, como Leopold Stokowski. Na partitura, ele usa um instrumento chamado violinofone, que é uma espécie de violino misturado com trompa. O som é de um violino distante. É mais uma peça fantástica nessa lista. Você se sente na floresta, Villa-Lobos era rei nisso! Sua audição dura 17 minutos. Gravações recomendadas: Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), regente: Isaac Karabtchevsky – Orquestra Sinfônica da Paraíba, regente: Eleazar de Carvalho Steve Reich (*1936) – Variações para Cordas, Sopros e Teclados Lembro da minha mãe chegando em casa com esse disco e colocando na vitrola. Ainda tenho o vinil. Foi o meu primeiro contato com a música minimalista. Ela (minha mãe), como sempre, me explicou do que se tratava. Quem nunca teve contato, talvez pense que a música minimalista é calmíssima, zen. Na verdade, ela pode ser bem agitada, quase infernal. No caso dessa peça de Steve Reich, de 1980, os instrumentos não param, as madeiras têm que se alternar para pegar fôlego. Elas fazem uma base bem movimentada sobre a qual lentos acordes dos metais vão dando forma à obra. O resultado é primoroso. Na verdade, poucas peças minimalistas me chamam tanta atenção. Você tem aquele burburinho das madeiras, ou às vezes das cordas, e, do nada, surge um acorde cheio, bonito, nos metais, pra depois decrescer e morrer. A execução dura 21 minutos. Foi encomendada pela Sinfônica de São Francisco. Gravação recomendada: Orquestra Sinfônica de São Francisco (San Francisco Symphony), regente: Edo de Waart Richard Strauss (1864 - 1949) - Assim Falou Zarathustra (Also Sprach Zarathustra) (poema sinfônico) Inspirada no romance filosófico homônimo de Friedrich Nietszche, por sua vez inspirado na figura de Zoroastro, um filósofo persa do século VII A.C., é uma peça que eu escuto sem ter lido o livro. De 1896, é, como grande parte dos poemas sinfônicos de Richard Strauss, uma peça nem romântica nem moderna. O compositor o dividiu em 9 partes, mas são tocados quase sem interrupção. Ele abre com uma nota grave no órgão, no contrafagote e nos contrabaixos, sobre a qual logo ouvimos uma lenta fanfarra nos trompetes e dois abruptos acordes do restante da orquestra, seguidos pelo batucar dos tímpanos. Essa música é comumente associada à imagem de homens da caverna em triunfo. Isso porque Stanley Kubrick a usou em uma cena em que o homem descobre a arma (um tacape), em 2001: Uma Odisséia no Espaço. Esta obra também tem um enigma, mas este não é inerente a ela, e sim, a Nietszche. É o Enigma do Mundo. Algo sobre a verdade universal... O fato é que Strauss usa a relação entre o enigma e sua suposta resposta no final da música. Eu só sei que ele passa a música inteira alternando o acorde de dó maior com o de si maior. Aí, tem quem teorize que um representa o divino, e o outro, o humano. E quando a peça termina, não dá pra saber se foi em um acorde ou no outro. Eu não vou me alongar sobre esse assunto, porque se o fizer, vou escrever o dia inteiro. Mas, se a obra te parece complexa, vá lá e escute, que vai ver que ela é mesmo é bonita. Não confunda o Richard Strauss com os valsistas Joseph, Johann e Johann Strauss II. Estes compunham música de ocasião, para bailes, réveillons, enfim. O Richard era mais profundo (deu pra notar, né?). Assim Falou Zarathustra dura cerca de 30 minutos. Gravações recomendadas: Orquestra Filarmônica de Berlim (Berliner Philharmoniker), regente: Herbert von Karajan – Orquestra da Rádio Bávara (Bavarian Radio Orchestra), regente: Mariss Jansons – Orquestra Filarmônica de Viena (Wiener Philharmoniker), regente: Richard Strauss Aaron Copland (1900 - 1990) – Primavera nos Apalaches (Appalachian Spring) (balé e suíte de balé) O compositor Aaron Copland foi, durante muito tempo, considerado o mais importante dos Estados Unidos. Suas obras mais importantes são peças orquestrais, como a Fanfarra para um Homem Comum, o balé Billy the Kid, um belo e singelo Concerto para Clarinete e o balé Appalachian Spring, que depois foi transformado em uma suíte para orquestra. O balé original era para uma orquestra de câmara composta por 13 instrumentos. Já ouvi essa versão e ela funciona bem, mas a versão de concerto, para orquestra completa, me parece mais satisfatória. A versão do vídeo aí em cima é híbrida. É uma orquestra reduzida devido a uma tal pandemia. Composta em 1940, a obra se tornou lendária. Em 1945, Copland ganhou o Pulitzer de Música com ela. Como é uma suíte de balé, a obra tem uma estrutura menos sinfônica e mais rapsódica. Ou seja, é uma série de momentos encadeados um no outro em que um não tem, necessariamente, conexão com o anterior. Mas é belíssima, e extremamente americana. Não sei se eu saberia explicar o porquê de eu achar americana, mas quando você ouvir, vai identificar. Talvez o clima heroico, algo bélico. Nessa lista as obras pertencem todas a universos diferentes. Essa aqui, por exemplo, é única. Dura cerca de 25 minutos. Gravação sugerida: Orquestra Filarmônica de Nova Iorque (New York Philharmonic), regente: Leonard Bernstein – Orquestra Filarmônica de Los Angeles (LA Philharmonic), regente: Zubin Mehta Paul Dukas (1865 - 1935) – O Aprendiz de Feiticeiro (L’Apprentis Sorcier) (poema sinfônico) Este poema sinfônico de Paul Dukas, nomeado “Scherzo sobre uma balada de Goethe”, foi bem sucedido desde a sua gênese, em 1897. Mas seu sucesso maior, a inclusão no filme Fantasia de Walt Disney, o compositor, falecido 5 anos antes, em 1935, não veria. Desde então, o Scherzo (scherzos ou scherzi são peças com caráter vigoroso, ou jocoso, ou jovial), tem sido gravado por qualquer orquestra que tenha alguma discografia. É uma peça programática, em que um jovem aprendiz de feitiçaria toma escondido o chapéu do seu mentor sem ainda estar preparado para o poder que ele lhe dá. A orquestração é perfeita, uma pintura. Ele usa artifícios que só se tornariam comuns pelo menos 10-15 anos depois. Uma porção de pizzicatos, surdina nos trompetes, glissandos, cromatismos, simulações de poderes mágicos, água e até o assassinato de uma vassoura. Tudo isso já existia (se bem que acho que nunca se tinha simulado o assassinato de uma vassoura antes), claro, mas ele usou com uma propriedade absurda. E o mais impressionante é como a orquestra vai crescendo, enquanto o jovem mago vai perdendo gradualmente o controle do feitiço. Obra prima! Tem cerca de 10-11 minutos. Gravações sugeridas: Les Siécles, regente: François-Xavier Roth – Orquestra Sinfônica de Boston (Boston Symphony), regente: Charles Munch Modest Mussorgsky (1839 - 1881) – Quadros de Uma Exposição (Pictures at an Exhibition) Na verdade, Quadros de Uma Exposição é uma suíte para piano. Mas talvez seja mais conhecida na sua forma orquestrada por Maurice Ravel (1875 - 1937). São 10 “quadros” intercalados por variações de uma promenade (passeio). Vale dizer que Modest Mussorgsky seria um compositor praticamente desconhecido se Ravel não tivesse tomado a atitude de transcrever para orquestra, em 1922, essa peça, cujo original é de 1874. Mas, tendo-o feito, criou uma das obras mais executadas e gravadas do repertório sinfônico. Até a versão original para piano ganhou notoriedade, tornando-se uma espécie de showpiece para grandes pianistas, pois é extremamente bem escrita e virtuosística. A peça se baseia em alguns quadros do pintor, amigo de Mussorgsky, Viktor Hartmann, que falecera aos 39 anos, pouco antes. Admiradores de Hartmann organizaram então uma exposição com 400 quadros do artista. E, inspirado nos quadros, Mussorgsky compôs a peça. Os movimentos são: 1. “Promenade” (Passeio) 2. “Gnomus” (Gnomo) 3. “Promenade” (Passeio) 4. “Il Vecchio Castello” (O Velho Castelo) 5. “Promenade” (Passeio) 6. “Tuileries” (Tulherias) 7. “Bydlo” (Carro de Bois) 8. “Promenade” (Passeio) 9. “Ballet des Petits Poussins dans leurs Coques” (Balé dos Pintinhos em suas Cascas de Ovos) 10. “Samuel Goldenberg et Schmuyle” 11. ”Promenade” (Passeio) 12. ”Limoges, Le Marché” (O Mercado em Limoges) 13. “Catacombae, Sepulcrum Romanum” (Catacumbas, Sepulcro Romano) 14. “Cum Mortuis in Língua Mortua" (Com os Mortos em Língua Morta) 15. “La Cabane de Baba-Yaga sur de Pattes de Poule” (A Cabana de Baba-Yaga sobre Patas de Galinha) 16. “La Grande Porte de Kiev” (O Grande Portal de Kiev) Sempre me impressionei com “Gnomo”, “O Velho Castelo”, “Catacumbas”, “A Cabana de Baba-Yaga” e “O Grande Portal de Kiev”, além da originalidade com que, cada vez, ele apresenta a "Promenade". Em sua orquestração, Ravel emprega instrumentos de percussão com muita habilidade e bom gosto, já que no original não há nem sinal de onde caberia tal percussão. Em “O Velho Castelo”, Ravel deu a melodia a um saxofone, instrumento raro na orquestra. A lenda de “Baba-Yaga” é sobre uma feiticeira russa, às vezes boa e prestativa, outras, má, que mora numa cabana sobre pés de galinha. Nem todos os quadros sobreviveram, mas vou colocar alguns dos que ainda existem. Gravações recomendadas: Orquestra do Teatro Mariinsky (Mariinsky Orchestra), regente: Valery Gergiev – Orquestra Sinfônica de Chicago (Chicago Symphony), regente: Neeme Järvi
- Chopin - Os Estudos (Études) - Análise
Frédéric Chopin (1810-1849), pianista e compositor polonês do romantismo, gostava de escrever coisas em série - 1 livro de 24 Prelúdios, 4 Baladas, 4 Scherzi, muitas Valsas, Polinaises e Mazurkas. E ele nos deixou 2 livros de 12 Estudos cada. Na sua época era comum que professores de piano compusessem séries de estudos, na verdade, já era tradição. Eram peças sem graça, destinadas a exercitar cada parte da técnica do piano. O que Chopin fez foi colocar música nesse conceito. Seus Estudos são, acima de tudo, interessantes ao ouvinte. Aliás, não sei se acima de tudo, poruqe eles são bem difíceis, também. Funcionam como estudos, sim. Abordam quase tudo da mecânica de tocar piano. Mas são também, acho até que principalmente, peças de concerto. O Livro 1, Op. 10 O 1º Caderno é de 1833. Tem alguns dos Études mais famosos, que são o 3º, às vezes chamado de "Tristesse", e o 12º, chamado "Revolucionário". Mas todos são famosos. Esmiucemos. 1. Em Dó Maior- O primeiro é bombástico, embora dê a impressão de que o conjunto vai ser musicalmente besta. É que ele nada mais é que uma série de arpejos para a mão direita, com a esquerda fazendo uns baixos rudimentares. Mas lembrem-se, esses estudos são pro pianista se exibir. Veja abaixo. 2. Em Lá Menor - O segundo é uma peça dificílima. Ouvindo, parece fácil. Mas o cromatismo na mão direita é feito com só três dedos, porque ele ocupa (propositalmente) os outros dois com acordes em staccato. Em vários momentos você tem que passar um dedo por cima do outro. 3. Em Mi Maior - Esse é o mais lírico de todos. Chopin dizia que esta melodia era a mais bonita que compusera. O compositor nunca o chamou de Tristesse, mas o nome pegou. É um estudo de cantabile, que é adicionar um caráter de voz cantada, cheia de variações de dinâmica e tempo, ao piano. A parte central é completamente diferente, parecendo mais com uma peça de exibição. Mas logo volta a bela melodia. 4. Em Dó Sustenido Menor - É um estudo de velocidade, o que a gente chama de 5 dedos (sem truques, sem oitavas, terças, só agilidade, mesmo). O legal é que a mão esquerda tem tanta importância quanto a direita, muitas vezes a espelhando. 5. Sol Bemol Maior - É o Estudo das Teclas Pretas, porque as usa todas. Trabalha um padrão de dedilhado na mão direita, tocado muito rápido. É um dos mais famosos. 6. Mi Bemol Menor - Mais um lírico, ainda que triste. Trabalha a expressividade, bem como a extração de melodias escondidas. 7. Em Dó Maior - Um estudo um bocado difícil, a mão direita fica alternando entre terças e sextas de uma forma muito contraintuitiva. 8. Em Fá Maior - Adoro esse. É bem leve e iluminado, trabalhando arpejos na mão direita, conectando com a esquerda. 9. Em Fá Menor - Esse estudo é mais para a mão esquerda, trabalhando sua flexibilidade. Já foi usado até em uma esquete do Monty Python. 10. Lá Bemol Maior - Ele é um estudo geralzão. Trabalha expressividade (o compositor pede que a mesma figura seja tocada de todas as maneiras possíveis), pedal e polifonia (a capacidade de tocar mais de uma melodia simultaneamente). 11. Em Mi Bemol Maior - Esse é para o arpejo propriamente dito. O compositor escreve um acorde chapado e, ao lado dele, o símbolo do arpejo. Então toca-se aquele acorde de baixo pra cima, bem rápido - como se você estivesse tamborilando os dedos na mesa. 12. Em Dó Menor - O famoso "Revolucionário". Não foi Chopin que deu esse apelido. Aliás, nenhum deles foi dado pelo compositor, vindo, às vezes, até de detratores. Esse trabalha a mão esquerda, que faz arpejos e corridas pelo teclado. É um dos mais famosos, e não dá pra deixar de notar por que ele é chamado desse nome. O Livro 2, Op. 25 O 2º caderno foi publicado em 1837. Se o primeiro foi dedicado ao compositor e pianista húngaro Franz Liszt, este é para a sua amante, Marie D'agoult. Não vou entrar em detalhes porque não sou fofoqueiro. 1. Em Lá Bemol Maior - É chamado de "Harpa Eólica", que é um instrumento de cordas que se deixa tocar pelo vento. Trabalha um padrão de arpejos espelhados nas duas mãos. 2. Em Fá Menor - Também estuda velocidade e coordenação: a mão esquerda toca dois grupos de 3 notas e a direita toca quatro grupos de três notas - em quiálteras e ao mesmo tempo. 3. Em Fá Maior - É um estudo de movimento lateral das mãos, que têm que alternar rapidamente notas tocadas com os dedos centrais, com os dedos periféricos. 4. Em Lá Menor - Um estudo para saltos, na mão esquerda, e síncope, já que a melodia da direita está no contratempo. 5. Em Mi menor - O "Estudo da Nota Errada". Através de dissonâncias e síncopes, o compositor cria esse efeito - de que o pianista está sempre errando a nota ou o tempo dela. 6. Em Sol Sustenido Menor - Esse é o "Estudo das Terças Duplas". Surrealmente difícil, talvez o mais complicado de todos. Eu, há muito tempo, escutei uma gravação do grande pianista russo Josef Lhévinne e foi uma das ocasiões em que fiquei mais impressionado com um pianista (ainda mais dos anos 30). Ele toca com uma facilidade e aparentemente sem esforço. É mágico. 7. Em Dó Sustenido Menor - O mais longo dos estudos, nos dois livros. Chamado de "Cello", porque sua linda cantilena vem na mão esquerda, num registro que lembra o do violoncelo. 8. Em Ré Bemol Maior - Esse é um estudo de sextas. Muito difícil, porque se tocam sextas em sucessão em ambas mãos. 9. Em Sol Bemol Maior - Chamado de "Borboleta" (mais uma vez, não foi o compositor que colocou o apelido), ele estuda uma alternância entre o pedal e o staccato. É bem curtinho. 10. Em Si Menor - Outro dificílimo, é um estudo de oitavas duplas. Uma figura cromática é tocada em 4 oitavas simultâneas. Peça de exibição. 11. Em Lá Menor - O "Vento do Inverno" é um dos mais impressionantes. Começa como quem não quer nada e então ataca. É muito difícill, trabalhando uma figura descendente na mão direita. Esse estudo foi usado no final do filme "Green Book", numa das melhores dublagens de piano que eu já vi. 12. Em Dó Menor - Um grande final para os dois livros oficiais de Études de Chopin. Esse estudo tumultuado trabalha arpejos em ambas mãos e é uma típica peça de Chopin - "Sturm und Drang", falo sobre isso em outro post. Três Novos Estudos Em 1839, Chopin compôs os 3 Novos Estudos (Trois Nouvelles Études). Bem diferentes em caráter dos Opp. 10 e 25, eles foram concebidos como uma contribuição para a apostila de piano de Ignaz Moscheles. Costumam ser gravados por pianistas que fazem a integral dos estudos. Agora, se não são difíceis (foram feitos para estudantes), são bem bonitinhos. A Edição de Godowsky O pianista e compositor polonês Leopold Godowsky (1870-1938), de quem temos gravações (bem antigas), fez uma série de 53 Estudos a Partir dos Estudos de Chopin. Cada um dos de Chopin rendeu 2 ou mais dos dele. Não dá pra dizer que são composições originais, porque as peças de Chopin estão totalmente reconhecíveis. Mas também não dá pra chamar de arranjos, porque ele fez bastantes alterações. É interessante. No Op. 10 Nº1, por exemplo, ele só inverte os arpejos. Quando um é pra cima, ele faz pra baixo. Se você quiser conhecer, o grande pianista cubano Jorge Bolet gravou alguns. https://open.spotify.com/album/4CPgokGFj4VNxgXZmVQHZA?si=eMclxYKlTLye9E8nVsB9aw Gravações Importantes Andrei Gavrilov - Ninguém toca o Op. 10 Nº 4 tão rápido quanto Andrei Gavrilov. Talvez a Martha Argerich, mas ela não gravou todos os estudos. Os estudos com o Andrei têm falhas (pequenas), mas ganha pontos por não evitar tomar riscos. É de tirar o fôlego. https://open.spotify.com/album/0hRCevyRTex7Q4fgvYvfy6?si=A9va88qVRBqRg4MjLb6UuQ Nelson Freire - Você encontra o Op. 10 num disco com a Sonata Nº 2; e o Op. 25 em outro, com a Sonata Nº 3. Nelson é simplesmente perfeito, sua famosa técnica cai como uma luva nos estudos. Vladimir Ashkenazy - Ashkenazy, no primor de sua técnica, nos dá uma versão peculiar. Ele aceita as dificuldades da peça, mas toca, sobretudo, com tranquilidade. Faz parecer fácil. Guiomar Novaes - Quando gravou os Études, Guiomar já tinha passado do seu auge, mas sua musicalidade certeira, não. Essa é uma gravação para quem quer ouvir mais o aspecto musical do que o técnico. https://open.spotify.com/album/6CjUHqkdYKgxojP6xj0i4w?si=EBi7KkOPSzC7sNcohsBQow
- Rachmaninoff - Concerto Nº 2 - Análise
Vou falar aqui do Concerto para Piano de que mais gosto desde criança. O 2º Concerto para Piano e Orquestra, em Dó Menor de Sergei Rachmaninoff (1873-1943), seu Opus 18, é também o mais popular de todos os concertos para piano já escritos. Desde os anos 50 vem sendo gravado constantemente e aparece facinho nos concertos de qualquer orquestra e pianista. História Foi composto em circunstâncias especiais. Pra entendê-lo, a gente vai ter que voltar um pouquinho. Rachmaninoff tinha começado, em 1891, a carreira de compositor. Sua peça de formatura do conservatório fora o Concerto Nº 1, em Fá Sustenido menor, Op. 1. É uma obra extremamente cativante, bem escrita e segura, especialmente para um compositor de 18 anos. Verdade que a primeira versão, que eu ouvi em gravação de Alexander Ghindin, regida por Vladimir Ashkenazy e com a Orquestra Filarmônica de Helsinki (resolveram gravar a obra como originalmente concebida), é um tanto vazia, como se fosse nua. Mas em 1917 ele faria uma revisão - que é tal como conhecemos a obra hoje - em que a orquestra é mais colorida, intercede mais e de maneira mais certeira. Além de mudar a maneira como algumas frases caminham. Mas, mesmo a primeira versão, mostra um absurdo talento para a melodia, para até mesmo a condução harmônica (e modulações) das frases e uma escrita para piano impetuosa, impecável. Como Moscou era um ovo, bastava uma apresentação para que uma obra chamasse bastante atenção e levasse aquele compositor ao - pelo menos relativo - sucesso. Então. Ele começou bem, e iria despontar de vez com a ópera Aleko, de 1892. Essa lhe garantiu até um editor, que, mais tarde, se provaria de muita utilidade, atirando uns dinheirinhos em épocas mais complicadas. Como todo compositor importante, esperava-se uma sinfonia dele. A morte de Tchaikovsky, que era um mentor para ele, e outros compromissos, adiaram um bocado a sinfonia, mas em 1895 ela saiu. E só foi tocada em 1897. O problema é como foi tocada. A premiére seria regida pelo compositor Alexander Glazunov. Acontece que ele não ensaiou a orquestra o suficiente (a obra tem vários momentos em que precisa de um regente firme e criativo) e ainda deu de beber. Tocou embriagado. Pelo menos é o que recorda Natália Satina, que se tornaria esposa do compositor. Rachmaninoff, na coxia, só ia se contorcendo com cada desafinada, cada entrada errada, cada passagem tocada forte demais ou fraco demais... Ele nem aguentou ouvir o finale (último movimento), indo embora sem olhar pra trás. Como São Petersburgo também era um ovo, espalhou-se do fracasso da peça. Os críticos foram venenosos. A crítica do colega compositor César Cui para o Novosti não ajudou: "Se existe um conservatório no inferno, e a um de seus estudantes talentosos é dada a tarefa de escrever uma sinfonia programática sobre as Sete Pragas do Egito, caso ele escreva uma sinfonia parecida com a do Sr. Rachmaninoff - seu problema não poderia ser resolvido de maneira mais brilhante, e ele encantaria todos seus companheiros de inferno." César Cui A sinfonia em si não era muito carismática - carecia de encantamento melódico e de um bom julgamento sobre a forma - mas tinha muitos méritos. Mas César. Pô. Doeu. Aliás, a palavra que descreve Rachmaninoff nesse momento é devastado: "Depois daquela sinfonia eu não compus mais nada por cerca de três anos. Eu me sentia como um homem que tivesse sofrido um derrame e por um longo tempo perdido seu uso da cabeça e das mãos. Eu não vou mostrar a sinfonia para ninguém, e vou me certificar disso no meu testamento, também." Sergei Rachmaninoff A palavra depressão aparece repetidas vezes em suas biografias. Sua família, preocupada, conseguiu que Sergei visitasse seu ídolo, o grande e já envelhecido escritor Leon Tolstói, mas as duas vezes em que se viram não foram de muito agrado para o compositor. Tolstói ficava repetindo coisas como "você acha que eu estou sempre satisfeito comigo", "você acha que tudo na vida é fácil?", ou "Trabalhe, trabalhe todo dia"... "Frases de efeito", segundo Rachmaninoff. Outra coisa que os parentes tentaram foi levá-lo a um terapeuta, que seria hoje o equivalente a uma mistura de psicanalista com hipnoterapeuta. Ele estava tão desesperado que aceitou ver toda semana o Dr. Nikolai Dahl. Foi o ponto de virada de sua vida. Ele ganhou intimidade com o doutor, que era apaixonado por música, e foi recuperando sua auto confiança. Surgiu uma oportunidade de concerto pra ele fazer em Londres, e ele queria escrever uma obra para isso. Então eles ficavam repetindo literalmente (trabalho de sugestão) "eu vou voltar a compor", "eu vou escrever um concerto de que todos vão gostar". Tá bom de eu dizer umas coisas dessas em voz alta, porque funcionou muito bem. Em 1900 ele compôs os dois últimos movimentos e os estreou. Depois compôs o 1º movimento e estreou tudo de novo, em 1901, em Moscou - o concerto na Inglaterra esperaria. Ele dedicou a obra ao Dr. Nikolai Dahl. A partir daí a carreira dele decolou, sendo solicitado para tocar no EUA com frequência, partindo pela primeira vez em 1909 - sobre isso falo nesse artigo. Ele casou em 1902 com a Natália, e foi um casamento feliz e próspero. Agora vamos conhecer um pouco da obra. O Concerto Acima, você vê o célebre pianista russo Evgeny Kissin executando o concerto com a Orquestra Filarmônica da Rádio Francesa, regida por Myung-Whun Chung. 1º Movimento - (um tal de) Moderato A obra começa (50s) com os famosos acordes à guisa de sinos no piano. Ele faz um crescendo até que desemboca no primeiro tema, tocado pelas cordas com um clarinete (1m19s até 2m46s). Este recurso de apoiar as cordas com apenas um instrumento de sopro é bem comum em Rachmaninoff, e certamente comum nesse concerto. Sobre esse tema, ele é tão comprido que o compositor sempre teve medo que as pessoas achassem que era uma introdução, em vez do tema principal. Mas ele recebe muito tratamento temático, repare quantas vezes você vai ouvir esse motivo ondulado, da frase que abre o tema, por todo o movimento. Depois de uma ponte do piano (3 min.), bem ligeira, que cai num acorde em fff da orquestra, o próprio piano dá o segundo tema (3m25s). Uma melodia super lírica e muito bonita. Preste bem atenção nos dois elementos que compõem esse tema: um arpejo ascendente e um rabinho serpenteado. Mais ou menos assim: Os dois motivos centrais do segundo tema são os circulados ao lado desenhado por um profissional. Preste bem atenção no segundo. Ele irá se tornar um "vírus", que é um elemento que vai tomando conta da música até dominá-la por completo. O segundo tema é repetido e desenvolvido imediatamente. Um breve e lindo diálogo do piano com o clarinete e o oboé, é seguido por uma doce subida e descida, baseada no primeiro motivo do desenho profissional. Um toque dos metais (5m53s) anuncia o desenvolvimento. O primeiro tema volta (6m06s), desta vez com caráter urgente. E aí o vírus começa a agir. Primeiro você o ouve na flauta (6m12s). Ele aparece de duas formas: puro, como o do desenho; ou precedido de três notinhas. O piano é logo contagiado por ele. O desenvolvimento todo é sobre os dois temas principais, mais o vírus. No ponto culminante (7m50s), ele faz uma mistura de final de desenvolvimento com começo da recapitulação. A orquestra toca o tema 1 enquanto o piano vai tocando o vírus. A segunda metade do tema 1 cabe ao piano. Quando entra o segundo tema (9m42s), é na trompa, de forma mais calma - como tinha que ser, ao suceder a recapitulação turbulenta do tema 1. O vírus ameaça ainda (10m18s), e fica. Agora ele dominou o movimento. Tudo o que se segue é uma elaboração dele. Ele aparece bem espaçado no piano nesse trecho (10m33s) em que os violoncelos fazem o arpejo do tema 2, num momento cheio de modulações, até que chega o coda (12m03s). E bem no finalzinho o piano faz uma referência ao 1º tema (12m36s). 2º Movimento - Adagio sostenuto O segundo movimento tem um formato mais livre, com um tema principal, uma parte B (com uma semi cadência) e a volta do tema. É o movimento lento da obra. Vamos lá. Tudo começa nas cordas (13m08s), que fazem uma das modulações (mudança de tonalidade) mais famosas do repertório - passa de Dó menor a Mi maior. Aos 13m34s o piano começa uma série de arpejos que vão servir de acompanhamento para o tema principal do movimento, que começa na flauta (13m58s) e é belamente entregue ao clarinete (14m20s). Esse tema é uma longa e linda cantilena, terminando com a flauta se juntando ao grupo (15m21s). Agora (15m33s) o piano repete, de maneira bem simples, o tema, enquanto o clarinete devolve a gentileza e o acompanha com o mesmo arpejo. A primeira parte termina com um acorde de Si Maior subitamente mudando para Si Menor (17m30s), dando início à seção mais atormentada desse movimento (17m39s), que funciona um pouco como desenvolvimento. A música vai ganhando tensão até explodir numa cadência curta e virtuosística do piano. Não se trata de uma cadência no sentido clássico-romântico, mas de um momento em que o piano fica mais exposto (21m15s). As flautas (22m10s) anunciam a volta à paz. O piano começa seus arpejos e as cordas entram com o tema (22m44s). Depois de uma culminância (24m08s) a orquestra vai perdendo a força até deixar só o piano, que termina o movimento. 3º Movimento - Allegro scherzando O terceiro movimento é bem rápido (25m53s). A orquestra começa como que brincando (scherzando) e cresce bem rápido até que entra o piano com uma escala bem rápida. É o movimento mais difícil e virtuosístico da obra. Seu tema principal aparece sensual, primeiro nas cordas e no oboé (27m47s), e é imediatamente repetido pelo piano (28m25s). Depois temos um momento exótico (29m27s), sucedido por mais um momento de virtuosismo (30m05s). A história é repetida: tema principal do movimento nas cordas, dessa vez com a flauta (32m23s), repetido novamente pelo piano (33m). Novamente sucedidos pelo momento exótico (34m09s). Mais um momento virtuosístico leva a uma explosão da orquestra (36m06s), que faz o piano repetir a escala do começo (36m10s) e parar dramaticamente. Então (36m26s) explode o tema principal, dessa vez glorioso e brilhante. Não poderia haver finale melhor (e que puxasse mais aplausos) não só para o concerto, como para toda a história que o cerca. Suntuoso e triunfal. Gravações Importantes Como eu falei, quase todo pianista tem que gravar o Concerto Nº 2 em algum ou em vários momentos da sua carreira. Aliás, hoje em dia não vemos muito isso, de um intérprete gravar a mesma obra várias vezes. Mas antigamente, até os anos 70 ou até mesmo 80, isso era comum. O grande mestre russo Vladimir Ashkenazy gravou esse concerto pelo menos 3 vezes como pianista e uma como regente. Foi ele quem regeu a gravação que eu mencionei acima dos originais do Concerto Nº 1 e do Nº 4. Mas vamos ao que interessa. - Sergei Rachmaninoff, com a Orquestra de Filadélfia, regida por Leopold Stokowski - O simples fato de termos um grande compositor do romantismo que gravou suas obras já é demais! O som é cheio de chiado (a gravação é de 1929, e é até boa pra época), mas vale à pena. É uma interpretação completamente sem frescura, sem exageros, rubatos e crescendos desnecessários. Stokowski era o regente do momento e a Filadélfia, a orquestra perfeita. Além disso, tinha-se implantado recentemente a gravação elétrica, uma nova forma, bem mais fiel, de captar o som. A dupla já tinha gravado a mesma obra em 1924, mas a qualidade do som é pior. Nessa gravação de 29, o compositor/pianista e o regente tinham discordâncias, com Rachmaninoff mais comedido e Stokowski mais dado à grandiloquência. Sergei gravaria os outros 3 concertos com a mesma orquestra regida por Eugene Ormandy (não porque brigara com Stokowski, apenas este não era mais o titular da orquestra). Esta gravação explica por que os pianistas tocam os acordes iniciais mais lento do que o andamento do primeiro movimento. Rachmaninoff o fazia. - Krystian Zimerman, com a Sinfônica de Boston, sob a batuta de Seiji Ozawa - Tanto Zimerman quanto Ozawa são intérpretes fenomenais, ainda que um tanto exagerados. Mas nessa gravação estão impecáveis. Vem num CD junto com o 1º Concerto, na interpretação definitiva deste. É extraordinário. Tudo, inclusive a sincronia assustadora que eles alcançaram. - Sviatoslav Richter, com a Filarmônica de Varsóvia, sob Stanislav Wislocki - Se você perguntar a qualquer conhecedor desse concerto por uma interpretação boa e saudável dessa obra, vão te dizer pra começar com essa. O som não é perfeito, mas é muito bom. A orquestra não era também essas coisas. Mas a interpretação como um todo acaba sendo justamente isso: a mais indicada. - Alexis Weissenberg, com a Filarmônica de Berlim e Herbert von Karajan - Tem uma gravação em vídeo (fuja dessa, já começa com Weissenberg propondo um andamento e Karajan deliberadamente acelerando) e a gravação de estúdio. Esta, de 1972 beira a perfeição. Weissenberg tinha uma técnica de máquina - ele não era expressivo em excesso, mas mecanicamente, nunca vi igual - e se adequava muito bem a Rachmaninoff. Karajan, que nunca gravou outra coisa desse compositor, se mostra inspirado do começo ao fim, e a Filarmônica, impecável. A flauta e o clarinete do 2º movimento são tocados com tanto carinho que dá dó. - Vladimir Ashkenazy, com a Orquestra do Concertgebouw, de Amsterdã, regida por Bernard Haitink - Gravação com um som magnífico, acho mais interessante que a do mesmo pianista regida por Previn. Mas só levemente, ambas são muito fortes. O próprio piano (que eles escolheram) tem um som impactante. As cordas da Concertgebouw, na entrada, soam já fantásticas. Tudo é mágico, e se você quiser se perder na música, ouça esta gravação. O único problema é que a prática da época (anos 70) era de interpretar as obras com certas nuances que hoje pareceriam dramáticas. Mas, sabendo que é coisa de época, dá pra perdoar. Leia sobre o 1º e um pouco mais sobre o 2º Concertos aqui. Aqui sobre o 3º e aqui sobre o 4º. Gostou do post? 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- microliteratura de marcio markendof #01: microcontos críticos
Brevíssimas histórias sobre questões de gênero. A microliteratura tem ganhado cada vez mais espaço na vida literária brasileira, muito especialmente em razão das redes sociais (Twitter, Facebook, Instagram), canais que facilitam a circulação desses produtos. Com uma nomenclatura variável — nanocontos, microcontos, miniconto —, a microliteratura da internet apresenta textos de umas poucas linhas/caracteres, às vezes acompanhados por imagens ou legendas, componentes paratextuais que complementam, reforçam ou ironizam o conteúdo do (micro)texto principal. Tal formato mínimo de escrita pode manter paralelos, por exemplo, com a linguagem do chiste, da charge, do aforismo ou do meme, frequentemente sendo permeado pelo humor e pela crítica social. Na pequena seleta abaixo, a intenção é problematizar questões de gênero e sugerir a reflexão sobre a heterossexualidade compulsória. Marcio Markendorf Professor, pesquisador e escritor. Leciona no curso de Cinema e na Pós-graduação em Literatura da UFSC. Publicou a novela "Soy loca, Lorca, feito um chien no chão" (Urutau, 2019) e, em parceria com Adriano Salvi, o volume de microliteratura, "Microcontando" (Caiaponte Edições, 2019), obra financiada pela lei de incentivo à cultura de Balneário Camboriú. Mantém uma conta dedicada às formas breves no Instagram ( @microliteratura ).
- Pitch meeting Legendado 3 - Eclipse
Parte 3. Veja a segunda aqui e a primeira aqui. São legendas das reuniões de roteiro do canal do YouTube Screen Rant. Não esqueça de comentar aí em baixo. Não deixe de conferir nossas listas de: Top 10 Sinfonias Top 10 Concertos para Piano Top 10 Sonatas para Piano
- Rachmaninoff - Concerto para Piano Nº 3
Em 1909 o compositor russo Sergei Rachmaninoff partia para uma turnê nos Estados Unidos. Ele queria surpreender o público e ainda prestigiá-lo com uma nova obra. Foi por isso que escreveu o 3º Concerto para Piano, em Ré menor. Sendo 2º Concerto extremamente famoso, o compositor partiu em outra direção. O terceiro é uma obra mais fechada, mais obscura e consideravelmente mais difícil, tanto para o piano quanto para a orquestra. Diz-se que na viagem até o continente americano, o compositor praticava no navio em um teclado de piano de madeira, mudo, que mandara fazer. A segunda performance da obra, em Nova Iorque, é mais famosa que a primeira. Isso porque o regente era ninguém menos que Gustav Mahler. Por essa apresentação, ocorrida já em 1910, Rachmaninoff sempre teve enorme carinho. Mahler ensaiou exaustivamente a orquestra até que tudo ficasse perfeito. É a obra que aparece no filme Shine, no qual dão a entender que foi ela a responsável pelo colapso nervoso do pianista David Helfgott. É constantemente considerado o concerto para piano mais difícil do repertório tradicional. Foi dedicada ao polonês Josef Hofmann, que Rachmaninoff dizia ser o maior pianista da época (Hofmann dava o mesmo elogio a Rachmaninoff). Mas este nunca o tocou: tinha mãos pequenas, que não são favorecidas pelo concerto. Ele dizia apenas "não é pra mim". Amigo, é exatamente pra você! Por falar em mãos, as de Rachmaninoff eram gigantescas. As minhas pareceriam as de um Hobbit em cima das dele. Ele alcançava uma 13ª. De dó ao outro lá. O compositor gravou a obra, com alguns cortes, para que coubesse no disco. Abaixo, deixo a gravação de outro prodígio russo, o jovem Daniil Trifonov, com o regente coreano Myung-Whun Chung e a Orquestra Filarmônica da Rádio França. A Cadência Cadência é um momento de um concerto em que a orquestra para, de fato, e o solista toca sozinho a parte mais difícil possível, pra mostrar seu virtuosismo. Ela pode ou não ser escrita pelo compositor. É que às vezes eles deixam apenas uma indicação na partitura de que ali deve se iniciar a cadência. Alguns concertos têm cadências nos três movimentos, outros apenas em um. Alguns não têm, como o 2º Concerto de Rachmaninoff, o de Chopin etc. Há, ainda, concertos que têm várias opções de cadência, como é o caso de alguns dos de Mozart, para os quais vários compositores, Beethoven incluso, deixaram as suas contribuições. A cadência é o momento pelo qual todos esperam num concerto. Como será que o solista vai se sair? Ainda assim, ela está presa à obra (o concerto), e dificilmente uma delas toma vida própria e se aloja no nosso imaginário tão fortemente quanto o próprio concerto a que pertence. Mas há casos. A que talvez seja a mais conhecida cadência de concerto é a do primeiro movimento do 3º Concerto para Piano de Sergei Rachmaninoff. Ou as. O compositor escreveu uma tão titânica e eloquente que alguns consideraram titânica e eloquente demais, com seus dois pontos culminantes. Daí ele fez uma nova, mais leve, ligeira e com apenas um grande pico. Lembra uma tocata. A primeira passou a ser chamada de cadência ossia. O próprio compositor gravou a segunda (a pequena, a tocata, é assim que a gente chama). Grande parte das maiores gravações do concerto é com essa cadência. Martha Argerich, Vladimir Horowitz, Yuja Wang... Eu prefiro a ossia, menos sutil, mais apaixonada (e consideravelmente mais difícil). Mas sei que é difícil achar o tom certo nela. Você tem que crescer na parte que leva ao tema, e então, introduzi-lo de maneira inquestionável, sem hesitar (ou hesitando calculadamente, como fez Van Cliburn). Mas aí é que está, você não pode estourar tudo nessa hora, porque depois vêm os acordes explosivos, você tem que guardar pólvora pra eles. Algumas vezes ela pode ser sufocante, como no caso de Lazar Berman, que não deixa você respirar. Eu gosto, mas não é pra todo mundo. Na maior parte das vezes (até com Daniil Trifonov) ela promete tanto, que acaba não podendo cumprir. E é por isso que muitos escolhem a tocata. Gravações Importantes I. Com a Cadência (tocata) - Martha Argerich (com a Deutsches Symphonie-Orchester de Berlim, sob Riccardo Chailly) - considerada a versão moderna definitiva do concerto (assim, de 1982), a mais ágil, potente e expressiva. Martha Argerich. É uma gravação ao vivo, e dizem que Chailly lutava pra manter a orquestra no andamento dela. Não acho isso, não. Tudo é muito bem ensaiado, e, se há tensão, é proposital. Aliás, você ensaiar que está perdendo o controle é que é impressionante! - Vladimir Horowitz (com a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque, sob John Barbirolli) - Horowitz gravou este concerto várias vezes, mas esta, de 1941 com Barbirolli é a mais impressionante, muito embora o som seja ruim. Vale lembrar que o próprio Rachmaninoff, modesto, dizia que Horowitz tocava o concerto melhor que si. Horowitz não dá ideia de que o concerto seja difícil, tocando com grande fluidez e facilidade. - Sergei Rachmaninoff (com a Orquestra de Filadélfia, sob Eugene Ormandy) - ouvir o próprio compositor tocando, ainda que com algumas edições (tiveram que cortar partes da música para caber nos discos) é fantástico. Valeu, Sergei. É uma versão leve como a de Horowitz, de quando a peça ainda não era conhecida como a mais difícil do repertório. Aí eles tocavam relaxados. - Earl Wild (Royal Philharmonic Orchestra, sob a regência de Jascha Horenstein) - mais uma interpretação eletrizante. O pianista americano, um dos grandes do século XX, dá uma aula. - Alexis Weissenberg (Sinfônica de Chicago, Georges Prêtre) - Weissenberg é um dos meus pianistas favoritos. Sua interpretação é viril e sem frescura (como sempre). A agilidade e, principalmente a técnica de cinco dedos e de oitavas do Weissenberg são impressionantes. - Vladimir Ashkenazy (Sinfônica de Londres, sob a regência de Anatole Fistoulari) - a primeira e fluida gravação de Ashkenazy, uma lenda do piano, que ainda gravaria a obra outras vezes, só que tocando a outra cadência. - Alicia de Larrocha (com a Sinfônica de Londres, sob André Previn) - uma gravação de quem não tem que provar nada. Alicia toca com a doçura de quem toca Mozart. Mas sua técnica vem inquestionável quando requisitada. De 1975, a gravação, digo o som, é excepcional. E o bom gosto da pianista é notável. - Lilya Zilberstein (com a Filarmônica de Berlim, sob Claudio Abbado) - uma das gravações com melhor som, de 1994, e, possivelmente a melhor orquestra. Lilya é discreta, mas toca muito bonito. Recomendo demais essa gravação. - Jorge Bolet (com a Sinfônica de Londres, regente Iván Fischer) - Jorge Bolet, um cavalheiro cubano que fez sucesso um pouco tardiamente, tinha uma técnica que colocava a maior parte dos outros pianistas no chinelo. Aqui ele a mostra toda, em uma interpretação que só carece de uma coisa: maior séquito. - Arnaldo Cohen (com a Sinfônica Estadual de São Paulo, com a regência de John Neschling) - talvez a versão brasileira mais conhecida. Arnaldo é um pianista sensacional, sobre quem eu já falei nesse post. O tratamento dado por eles ao concerto é encantador. Mais do que convincente, é autoritário. Pena que não se pode encontrar no Spotify. Eu tenho em CD, mesmo. É de 2008. - Nelson Freire (com a Filarmônica de Roterdã e David Zinman) - outra versão brasileira. É uma gravação ao vivo do final dos anos 70. Nelson estava endiabrado. Se a gravação tivesse saído na época, seria tão adorada quanto a da sua BFF Martha Argerich. Hoje a gente encontra num álbum duplo chamado Nelson Freire - Radio Days. - Yuja Wang (com a Orquestra Sinfônica Simón Bolivar, sob a batuta de Gustavo Dudamel) - a maior pianista da sua geração (tem hoje 30 e poucos anos), Yuja é famosa pelos vestidos ousados e cortes de cabelo jovens. Mas consegue ser mais famosa pelo seu piano, que acho que é o ponto que ela quer provar. Que o modo de se vestir não é uma declaração de intenções, mas um gosto pessoal que não deve e não pode interferir na sua avaliação profissional. No disco, junto com o Concerto Nº 2 de Prokofiev, tão difícil quanto esse, ela tira de letra. Essa menina toca com uma facilidade que lembra uma mistura de Argerich com Horowitz. II. Com a Ossia Cadência A cadência mais difícil é também ligeiramente menos gravada. No começo ninguém gravava, acho que foi Van Cliburn que estabeleceu a tradição. - Vladimir Ashkenazy (com a Sinfônica de Londres regida por André Previn) - outra referência moderna na história das gravações desse concerto. Muito conhecida porque é excelente e porque sempre esteve facilmente disponível em LP, CD e hoje, mais ainda, nas plataformas digitais. - Vladimir Ashkenazy (com a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã, sob Bernard Haitink) - Ashkenazy gravou tanto esses concertos (os 4 de Rachmaninoff), que acho que se cansou e resolveu gravar depois como regente. Falo depois sobre essas empreitadas. Entre o ciclo com Previn e o ciclo com Haitink, cada qual tem seus encantos. Nesse concerto em particular eu não sei qual das duas recomendaria, daí botei as duas aqui. - Lasar Berman (Sinfônica de Londres, sob Claudio Abbado) - essa gravação é fenomenal. Berman toca com um peso, como se estivesse vencendo uma montanha. Ao mesmo tempo em que parece estar tendo dificuldade, não falha nunca. A cadência é o momento mais impressionante, e ele opta por não deixar o ouvinte respirar, crescendo, e crescendo, e crescendo... Se o regente não fosse Claudio Abbado, teria dificuldade em acompanhar o raciocínio dele, especialmente no 3º movimento. - Van Cliburn (Symphony of the Air, Kiril Kondrashin) - Van Cliburn foi o primeiro pianista americano a vencer o Concurso Tchaikovsky, na Rússia, aos 23 (em 1958, na Guerra Fria). Tocou este concerto e o 1º de Tchaikovsky na final, recebendo 8 minutos de aplausos e gritos de "deem-lhe o prêmio". Essa gravação é de quando voltou aos Estados Unidos, tocando no Carnegie Hall. Tem uma energia, uma tensão imensas, porque parece que o público vai explodir de excitação. - Cristina Ortiz (com a Orquestra Philharmonia, sob a direção de Iván Fischer) - Cristina é outra que eu incluí na lista dos maiores pianistas brasileiros. O que ela faz com esse concerto é desconcertante. Um desconcerto. Ela tem uma força e uma destreza que causam inveja. Tocando a cadência, parece que as cordas do piano vão quebrar. Eu gosto muito dessa gravação, que nunca é incluída nas listas de favoritos dos outros. - André Watts (com a Filarmônica de Nova Iorque, sob Seiji Ozawa) - essa gravação é um prodígio. André quebrou barreiras ao se tornar o pianista negro mais famoso do mundo. Sua técnica é milagrosa. Aqui ele decide tocar uma cadência híbrida: começa com a pequena e logo se torna a ossia. Uma curiosidade é que essa é uma das pouquíssimas gravações em que um pianista toca o ossia finale - os acordes, bem no final do terceiro movimento, tocados por todos em grupos de três, ele toca em grupos de quatro. É insano. - Daniil Trifonov (com a Filarmônica de Berlim, sob a regência de Simon Rattle) - acho que a única maneira de você ouvir essa versão é assinando o Digital Concert Hall, a plataforma de streaming de concertos da Filarmônica de Berlim. Trifonov é um dos pianistas mais talentosos e bem acabados dos nossos tempos. Essa versão supera a que ele lançou em disco, com Yannick Nézet-Séguin (que também é excelente) pela proposta. Eles fizeram esse monumental concerto em tons pastel. Existe uma ligação entre Rattle e o pianista, eles estão sintonizados. E tocam a obra sem grandes arrebatamentos, mas com uma sensibilidade incrível.
- O nó de Rubem Fonseca
Rubem Fonseca morreu. Ele morreu e a Regina Duarte nem se deu conta disso na breve passagem pela secretaria (que era um Ministério da Cultura e que, aliás, eu comento e critico aqui). Mas quem foi Rubem Fonseca mesmo? Dizer que Rubem foi um escritor ou, ainda, o maior expoente da literatura policial brasileira, um neonoir tupiniquim, um dos grandes escritores do século XX de nosso país... Bom, tudo isso já foi dito e é até meio clichê (não que eu odeie clichês) e, talvez, justamente por esta razão não tenha vontade de falar desse aspecto que, potencialmente, quase todo mundo já sabe: é o básico. A desculpa de usar o Rubem Fonseca no título (e, de quebra, nessa linda foto de cabeçalho) foi o seu potencial alegórico e metafórico, além, claro, de poder homenagear um dos meus escritores preferidos desde a época em que eu tentei ser jovem. Rubem foi policial (neste artigo da revista Fórum podemos ver mais detalhes sobre sua formação), porque acho que, com exceção de Paulo Coelho, ninguém consegue ser escritor em tempo integral no Brasil. Nas horas vagas ele escrevia. E, como um artista só consegue criar a partir do que conhece, ele escrevia histórias policiais cheias de violência, vingança e escatologia. Como boa parte dos policiais que trabalharam nos anos 60 (quero deixar claro: não todos, mas boa parte, mas não todos, mas boa parte...) Fonseca foi um convicto anticomunista e ser anticomunista na ditadura militar era quase sempre sinônimo de delator, espião e torturador. Pelos documentos levantados, Fonseca fez parte da minoria anticomunista que não torturou nem delatou ninguém. Marcelo Rubens Paiva - outro grande escritor por quem nutro admiração - escreveu um ótimo artigo para o Estadão sobre isso. Marcelo é filho do emblemático engenheiro e deputado federal Rubens Beydrot Paiva assassinado na ditadura militar por Antônio Fernando Hughes de Carvalho e, por incrível que pareça (e esse é o cerne da questão que tento trazer aqui) admirador da estética fonsequiana. Ou seja, Marcelo Rubens Paiva tinha tudo para queimar todos os livros de Rubem Fonseca, mas é maduro o suficiente para perceber a complexidade das coisas. Estamos num período mais uma vez conturbado, onde muitas pessoas, sobretudo jovens, jogam certezas uns nos outros como se fossem pedras envoltas em arames farpados. E aí existem pessoas que param de ouvir os discos de um determinado artista porque descobriram que, em 1978, aquele artista bateu no carro de um vizinho de uma prima de não sei quem e fugiu sem pagar pelo prejuízo. Os artistas precisariam serem puros para serem admirados. Analisemos, pois, quem admirava Rubem Fonseca. Fonseca era extremamente bem quisto pelos militares por seus serviços prestados pela fundação do instituto Ipês, cuja formação ideológica serviu de base política e cultural para o golpe (do qual Rubem, posterior e publicamente, repudia) como podemos verificar também neste excelente artigo do site Zona Curva. Quando escrevo formação ideológica básica para o golpe, leia-se: a função do Instituto Ipês era desestabilizar o governo João Goulart. Todos sabem o que aconteceu depois, mas aqui só para podermos dar claramente nome "aos bois": ditadura militar. Longe de mim dizer que João Goulart era comunista (nunca acreditei nessa narrativa) de fato, ou que seu (extremamente breve) governo foi maravilhoso ou horrível (nem tenho fundamento para isso). Mas apoiar uma ditatura que, como tal, derramou muito sangue inocente, aí já é demais. Voltando ao assunto... Rubem Fonseca era respeitado pelos militares enquanto pessoa, apesar de sua obra sempre polêmica, chocante e perturbadora, essa dualidade, portanto causava desconforto entre os mesmos militares que o respeitavam. Um conto que acho arrebatadoramente violento de Rubem, O Cobrador, pode ser perfeitamente interpretado como uma obra de denúncia sobre a exclusão social que fabrica boa parte dos bandidos que conhecemos. Já os contos Passeio Noturno 1 e 2 mostram outra face da violência: a da classe abastada que literalmente atropela os marginalizados que ela mesma produz. Nascemos para a violência como profetizaram Arthur C. Clarke e Stanley Kubrick no prelúdio de 2001, uma Odisséia no Espaço. A despeito disso, Rubem Fonseca parecia ter uma espécie de dupla personalidade. Lembro que, anos atrás, na minha primeira especialização, foi citado o caso de um TCC em que a autora (creio que era uma autora) defendia algo no texto e, nas notas de rodapé, defendia o contrário. Eu achei isso fascinante (a despeito de uma possível bipolaridade, esquizofrenia ou falta de atenção). Ocorre que é mais ou menos isso que podemos presumir de Rubem Fonseca. Rubem era o escritor transgressor, ousado, violento, agressivo e subversivo que afrontava a moral e os bons costumes. Já Fonseca era igualmente um autor e um ideólogo a serviço de algo que se revelou um grande golpe militar. Desse modo, estamos diante de um verdadeiro nó ideológico. Se abrirmos mão de boa parte de nossas certezas e percebemos como a realidade é, de fato, complexa, a coisa fica bem mais fácil. Sim, porque complexo não é necessariamente algo difícil e o simples, muitas vezes, não é fácil. Mas nesse mundo que cada vez mais segmenta, Rubem Fonseca vira essa criatura que boa parte da "intelligentsia" jovem e militante não suportaria engolir sem estar disposta a sofrer de indigestão ideológica. Porque a arte dele potencialmente diz uma coisa, enquanto seu comportamento civil diz o oposto. Interessante, não? Ainda mais quando a própria obra dá margem para múltiplas interpretações. E digo isso porque, sob algum aspecto, quão melhor é uma obra de arte, mais "níveis de leitura" ela tem. Além disso, a arte é esse mistério eterno por nunca dizer nada diretamente. Mas é claro, que do mesmo modo que um artista cria a partir do que conhece (como falei acima), nós interpretamos as coisas a partir do que conehcemos também, e do que acreditamos, mas já, já chego nessa parte. O fato é que no momento em que ela, a obra de arte, diz algo diretamente, você acaba com todas as demais possibilidades interpretativas dela. Entretanto, melhor do que explicar é exemplificar: Publicamos aqui um Top 10 de Sinfonias "imprescindíveis" para quem quer se aventurar no mundo da música clássica. Sugiro ler, especificamente, sobre a Sinfonia número 5 de Dmitri Shostakovich. E aí, trazendo essa questão para o Rubem Fonseca, pergunto: Será que O Cobrador fonsequiano está falando de tudo que a sociedade capitalista tira dos pobres ou está apenas validando politicamente a violência? Como disse, a vida é complexa e militar em nome de causas, parece, cansa. E quando digo militar não falo da militância política raivosa, festiva e mística da internet (inclusive ddos militantes que "militam errado"), mas falo da militância estética, o artista que está sempre destruindo, provocando e reconstruindo as estéticas. Isso gasta tanta energia que a vida pessoal do ser humano vira um marasmo conservador (no pior sentido do termo), quando não raivoso. Solto essa questão aqui porque, falando dessa dicotomia artista-obra (que, muitas vezes, se complementam e em outras se contradizem), não faltam exemplos que encontramos com facilidade, formando uma lista interessante (nada pequena) de artistas que foram esteticamente transgressores e politicamente conservadores. Um exemplo que ainda me assusta um pouco é o de Glauber Rocha, que elogiou publicamente um dos grandes líderes e mentores do golpe militar de 1964: Golbery do Couto e Silva, além de Ernesto Geisel. E eu não vejo nenhum jovem membro da intelligentsia militante que busca a todo custo o unicórnio stalinista sagrado da pureza revolucionária consagrada e lacradora boicotando Glauber e o motivo óbvio é que se boicotarmos Gláuber, abre-se um enorme vácuo no cinema brasileiro, que ficaria sem seu principal referencial marginal, tropicalista, político e vanguardista. Sem Gláuber sobraria no cinema apenas Mário Peixoto passível de reverência como artista disruptivo, mas o cara só fez um filme, aí fica foda. Exemplos fora do Brasil também não faltam e um particularmente instigante é o do beatnik canadense Jack Keruac que, como todo bom beatnik, foi um dos pilares fundadores da contracultura norteamericana (tornando-se depois o que comumente muitos chamam de "cultura jovem") e que, segundo relatos biográficos diversos, era uma pessoa quieta, chata, católica e conservadora. Existe inclusive um site chamado The American Conservative (não vou deixar linque porque não sou realmente obrigado), que faz uma análise no mínimo interessante sobre como seu conservadorismo e a busca por seu Deus Católico guiaram sua literatura, apenas confirmando que boas obras, em geral, têm múltiplas interpretações. Existe, ainda, o polêmico e controverso caso da escritora, roteirista e atriz Thea von Harbou que, apesar do trabalho incrível como o romance Metrópolis (originando o filme homônimo roteirizado por ela e o diretor, seu esposo à época, Fritz Lang) teve um mal explicado envolvimento com o nazismo. Segundo Thea, ela se filiou ao partido para proteger seu esposo indiano, mas o caso é realmente tão complexo que a edição brasileira de seu mais famoso romance traz uma espécie de isenção/justificativa/explicação da editora sobre seu envolvimento com o partido hitlerista de modo a evitar romantizações sobre o caso. Outros dois exemplos na música pop internacional são Morrissey principal compositor e idealizador do Smiths e John Lydon/Johnny Rotten. Lydon (também conhecido como Johnny Rotten) além de fã declarado do transgressor social (esteticamente bem mais conservador) Oscar Wilde, Rotten foi simplesmente vocalista do Sex Pistols. Não faz muito tempo, ele foi flagrado com uma camiseta de apoio a Donald Trump. Especificamente sobre Lydon, que fez fortuna negociando propriedades a partir do seu capital inicial advindo do cachê de sua carreira musical (algo no mínimo contraditório para alguém que se vendia como punk), eu não tenho como dizer nada muito além de que eu sempre considerei o movimento punk uma grande farsa (sim, uma grande mentira capitalista) a despeito de um punhado de músicas que julgo divertidas e de sua inegável importância na cultura new wave dos anos 80, além de uma potente influência na literatura, nos quadrinhos e cinema marginais dos anos 70 (eu posso escrever um texto detalhado depois, ao menos para não me acusarem de polemista gratuitamente). O fato é que pouquíssimos artistas, a meu ver, podem ser verdadeiramente classificados como "anarco-punks", então Lydon é apenas mais uma prova do que penso: ele nunca foi punk. Ou apenas um "rebelde sem causa" (como a canção do Ultraje a Rigor) que apenas queria chocar os pais quando jovem. Já Morrissey anda colecionando declarações racistas e xenófobas (sobretudo com relação a asiáticos) enquanto posa de bom moço da causa vegana (alguém lembra do Dado Dolabella? Ele alegou recentemente ter descoberto - após virar vegano - que na época em que bateu na esposa a causa disso foi seu excessivo consumo de carne que o tornava violento, pois a carne é um alimento advindo da violência e deixa essa marca "energética" na comida). E quero salientar (porque hoje em dia precisamos salientar tudo) que não tenho nada contra veganos (e vou até dizer a famosa frase "até tenho amigos que são"), mas uma coisa não tem nada a ver com a outra, mesmo que você queira que tenha. Além disso, soube da campanha do Eric Clapton contra o isolamento social necessário ao enfrentamento da pandemia do coronavírus, mas que veio junto ao resgate de falas racistas e xenófobas dele. Ou seja: exemplos sobram. Bem mais do que eu gostaria. O último é brasileiro: Elba Ramalho que fez parte de um grupo que renovou a MPB no anos 70 entrou numa de fazer discursos lisérgios sobre os cristãos serem a última muralha de proteção da sociedade contra o comunismo. Agora voltemos a Rubem Fonseca... Sabe aquela frase de que quando Pedro fala de Paulo eu sei mais de Pedro que de Paulo? É mais ou menos assim que as coisas na chamada "teoria do leitor" se processam. Antes, as pessoas se calcavam no que genericamente chamamos "teoria do autor" e tentavam esmiuçar todas as possibilidades de significados que um autor ou uma autora tinha colocado em suas criações. Goethe tripudiou isso de forma incrível em seu texto O Conto da Serpente Verde e da linda Lily (conhecido apenas por "O Conto" - em alemão, Das Märchen): disse que quando 52 interpretações tivessem falhado, ele diria o "real" significado dessa obra, espécie de precursora do surrealismo. Bom, ele morreu antes. Mas a dica foi 52, o número de cartas de um baralho, e o conto era visivelmente inspirado no tarô. Perceba: quando alguém lê os contos de Rubem Fonseca (e de qualquer outra pessoa) ela está colocando ali sua visão de mundo. Quando o personagem Cobrador de Rubem Fonseca ameaça o dentista logo no início do conto, você fica do lado de quem? Aliás, consegue escolher um lado? Acha necessário escolher um lado? Em seu conto Curriculum Vitae, publicado no livro de estreia Os Prisioneiros, em 1963 (e um dos meus contos preferidos dele e de tudo que li já na vida), Rubem fala que "todo homem é uma ilha, vamos deixar de poesia". Seria isso? Cada pessoa em seu universo particular interpreta como lhe convém, de acordo com suas crenças e sabe "dosar" essas crenças, afinal, cada texto tem um contexto. Em outras palavras, uma coisa é uma tatuagem de um símbolo viking no braço da Björk, outra uma tatuagem viking no braço daquele seu primo que enche a boca para pronunciar erroneamente o sobrenome alemão do tio-avô dele de Blumenau e que tem um suspeito interesse em temas da II Guerra Mundial. Bom, em algum momento eu vou precisar concluir esse texto, e algo me diz que é agora... O fato é que nosso cérebro tem dois hemisférios e isso pode ser uma grande metáfora para como entendemos o mundo, já que um tende mais ao que chamamos de "emoção", enquanto o outro tende ao que chamamos de "razão". A política e a arte transitam com facilidade entre essas duas searas de nossa vida pessoal e social. Particularmente, prefiro quando a política se baseia mais na razão enquanto a arte se baseia mais na emoção, mas é claro que tanto razão como emoção estão presentes em tudo. A realidade é complexa e não precisamos ter atestado de pureza ideológica de todo mundo que a gente consome. O fato é que é perfeitamente possível, em diversos casos, separar autor e obra em diferentes graus, mas penso que o mais importante, ao se consumir um bem simbólico, é ter em mente que sua interpretação daquilo não é a única verdade sobre aquela obra. Verdades existem aos borbotões. Rubem Fonseca é um escritor genial, a despeito de ter sido um ser humano um pouco mais equivocado que a média (para usar um eufemismo educado). Gostou? Comenta aqui pra gente! A lista citada das 10 Sinfonias que você precisa escutar que publicamos no Topping Toppers está aqui! Se você gosta de artigos sobre literatura, aqui também tem uma lista interessante sobre 10 livros fora da caixinha. Mas se você gosta mesmo de conteúdos políticos, sobretudo os que falam de como a política se infiltra em várias camadas de saber, existem vários na nossa sessão Neurônio Cult! E também um artigo muito interessante de um dos nossos colaboradores em política aqui. Nílbio Thé Editor do site.
- Filarmônica de Viena - As Melhores orquestras do mundo 3
Vamo lá. Não tô indo na ordem de qualidade, de fama, de minha preferência, nem nada. Só vou falar sobre as orquestras dessa lista pra vocês conhecerem mais como operam. Talvez eu fale até de orquestras que não estão na lista. Vamos à maior orquestra da Áustria. A Orquestra A Filarmônica de Viena é uma das 3 maiores orquestras, certamente. Quase tão famosa quanto a de Berlim e tão refinada quanto a do Concertgebouw, é uma orquestra cheia de peculiaridades. Cheia, cheia. A começar pelo fato de não ter um regente titular. Aquele que vai trabalhando o conjunto durante anos, que a faz ter o seu (do regente) som. Um cara pra chamar de "o maestro da Filarmônica de Viena". Não têm. Ela é mais uma instituição. Vamos entender. Os músicos que entram pra Filarmônica são aqueles que mais se destacam em outra orquestra, a da Ópera Estatal de Viena. Tem que passar pelo menos 3 anos nela, tocando ópera e balé (situações em que a orquestra é secundária, mas há grandes conjuntos que fazem isso) para poder fazer um requerimento para ocupar uma eventual vaga na VPO (Vienna Philharmonic Orchestra). Estes músicos são muito valorizados. O violinista Wolfgang Schneiderhan, o flautista Wolfgang Schulz e o clarinetista Karl Leister são só alguns exemplos que alcancaram fama internacional. A orquestra faz sua temporada anual no Musikvereinsaal. Todo ano eles elegem um regente. Por isso, e pelo prestígio que é reger a VPO, todo maestro que você imaginar já passou por lá. Desde Hans Richter e Gustav Mahler, passando por Karl Böhm e Herbert von Karajan, até os talentos modernos Andris Nelsons e Gustavo Dudamel. Eles foram regidos por e estrearam obras de compositores como Johannes Brahms, como suas sinfonias Nos. 1, 2 e 3 (regidas por Hans Richter) e as Variações Haydn (regidas pelo seu próprio punho). Estrearam a 8ª Sinfonia de Anton Bruckner, com o mesmo Richter regendo. O Musikverein A famosa sala de concerto está entre as melhores em forma de "caixa de sapato" do mundo, tanto por sua beleza quanto pela acústica. A sala maior (Großer Saal) acomoda 1.744 pessoas sentadas e 300 em pé. Ainda tem a Sala Brahms e outras 3 menores para recitais e música de câmara. Em 1913 ocorreu o Skandalkonzert (algo como concerto do escândalo), que foi uma apresentação de música moderna regida por Arnold Schönberg, análoga à estreia da Sagração da Primavera, em Paris, que viria a acontecer dois meses depois. Também conhecido como Concerto do Tapa (o organista deu um tapa num membro do auditório), seu repertório chocou o público, e teve de ser encerrado antes do previsto. Era música a expressionista e atonal de Schönberg, Webern e Berg, da qual eu não sou muito fã (mas não quero levar nenhum tapa por isso). A sala também recebe o famoso concerto de ano novo, que é, bem , todo ano. Eles tocam música leve, como as valsas e polkas de Joseph, Johann e Johann II Strauss, bem como obras de Offenbach e outros compositores, geralmente austríacos. As Peculiaridades Os instrumentos pertencem à orquestra, alguns raríssimos, como Stradivarius, Amati e outros. A Filarmônica de Viena afina em 443 hz para a nota lá (o normal é 440). Por que? E eu sei? A primeira mulher a reger a orquestra, Simone Young, o fez em 2005 (é uma instituição, nesse sentido, muito arcaica, tendo até hoje pouco mais de 15 mulheres no seu efetivo). O fagote é tocado sem vibrato. Os trompetes e trombones são menores. Os oboés e as trompas são diferentes etc... Só pra citar algumas coisas que tornam o som dela único no mundo. A Áustria e a cidade de Viena, sua capital, têm muito orgulho da sua orquestra, que é fruto de muito trabalho, alguma doidice e uma longa e bela história. Gravações Importantes - Ludwig van Beethoven - As Sinfonias - regente: Andris Nelsons - uma gravação limpíssima e com o som maravilhoso. - Jean Sibelius - Sinfonias Nº 1, 2, 5 e 7 - regente: Leonard Bernstein - Bernstein, o regente americano mais celebrado do século XX, era um grande sentimental. Ele extraía das orquestras grande expressividade. E eletricidade. - Pyotr Tchaikovsky - Sinfonia Nº 6 (clique para saber mais sobre a sinfonia) - regente: Valery Gergiev - um russo regendo uma das grandes orquestras nessa sinfonia medonha de bela. Não acredito nessa coisa de "só um russo sabe reger um russo". Besteira. Mas acontece algo nessa gravação. - Joseph Haydn - Sinfonias Nos. 94 "Surpresa" e 101 "O Relógio"/Johannes Brahms - Variações Haydn - regente: Pierre Monteux - acreditem, Monteux era um gênio. Nunca vi Haydn regido assim. O Brahms é com outra orquestra, de que ainda falaremos: a Sinfônica de Londres.
- Pitch Meeting legendado 2 - Lua Nova
Segunda parte. Veja a primeira aqui. Compartilho o segundo vídeo que legendei de um canal do YouTube chamado Screen Rant. No canal deles não tem legenda. Mas se gostarem corram lá. * Mal começo = mau começo. Não esqueça de comentar. Não deixe de conferir nossas listas de: Top 10 Sinfonias Top 10 Concertos para Piano Top 10 Sonatas para Piano
- Top 10 das melhores faixas de rock brasileiro: os anos 90!
Depois de uns perrengues dos editores na viagem no tempo aqui, voltamos! E voltamos para os anos 90 e voltamos, claro e mais uma vez com Rodrigo Vargas. Nos encontramos ali com ele no começo dos anos 90 e fomos caminhando conversando sobre o rock brasileiro até 1999 e da conversa veio essa lista de hoje que tem artistas que até hoje estão nas paradas das rádios, festas, playlists e programas de TV. Será que os anos 90 foram tão ótimos assim pro rock brasileiro? Vamos conferir. Top 10 (Rock Brasil 90´s) 10 – Antes Que Seja Tarde (Pato Fu) – banda bonitinha e que vem no embalo do Skank. Não é nada demais mas se surgisse hoje, seria genial. 9 – Jackie Tequila (Skank) – Utilizando o ska (ritmo jamaicano que ganhou o mundo nos anos 90) como estrutura, ganharam as rádios do país e colocaram Minas Gerais no mapa do gênero. 8 – Malandragem (Cassia Eller) – Não costumo reverenciar interpretes. Prefiro autorais pelo conceito de criação artística que sigo mas Eller transcende a arte. 7 – Tudo Que Ela Gosta de Escutar (Charlie Brown Jr.) – Skatistas de Santos, imprimiram um jeito particular de ver o mundo e de brigar por ele. O resultado são músicas arrebatadoras e finais trágicos para suas maiores figuras, Chorão e Champignon. 6 – O Último Dia (Paulinho Moska) – Moska é filhote dos anos 80 com a banda Inimigos do Rei mas foi nos anos 90, em carreira solo que mostrou que era definitivo como artista. 5 – Quem Sabe (Los Hermanos) – Nasceram pop com um disco arrebatador. Tão potente que até o Beatle George Harrison regravou uma de suas canções mais conhecidas, Anna Júlia. Nos anos seguintes embarcou na ideia elitista burguesa e apesar de produzir ótimos discos, soou sempre arrogante e auto suficiente. É tão original que criou uma fissura no rock nacional e até hoje, quase tudo o que surgiu reverbera a sua obra, impondo um abismo criativo em imitadores sem fim. 4 – Adoled (Planet Hemp) – Peso e voz. Uma das bandas mais ativistas de todos os tempos. Lutou pela legalização da maconha. Acabou presa e dividida, mas é sem dúvida um dos marcos daquela geração. 3 – Miséria S.A (O Rappa) – Junta aí todos os elementos cariocas como o morro, o samba, o rap, com um peso absoluto e letras cortantes vindas de um gênio chamado Marcelo Yuka. Uma tragédia interrompeu o sucesso estrondoso que faziam. Um tiro deixou Yuka, na época baterista e letrista paraplégico. A sua saída da banda foi possivelmente tão traumática quanto o crime que sofreu. O grupo continuou sem ele, mas nunca mais foi o mesmo. 2 – Eu Quero Ver O Oco (Raimundos) – Primeira banda de rock da segunda geração de Brasília surgiu com uma originalidade espantosa. Com ritmos nordestinos, letras maliciosas e um peso nunca tão popular no Brasil, tomou conta do cenário. Só foi interrompida pela saída repentina de seu vocalista e líder Rodolfo, que preferiu se tornar um religioso evangélico. 1 – A Praieira (Chico Science & Nação Zumbi) – Um dos grupos mais originais da história do rock brasileiro misturou toda a força nordestina, em um movimento que ficou mundialmente conhecido como Manguebeat. Um acidente fatal tirou a vida de seu líder e criador Chico Science, interrompendo uma trajetória criativa e genial. Gostou? Semana que em a viagem continua! E além disso temos uma lista também do Rodrigo Vargas com o melhor do rock gringo dos anos 90 aqui! Quer saber como essa lista de rock brazuca começa? Ela começa nos anos 70! RODRIGO VARGAS é do mundo. Nasceu em Goiânia, cresceu em Brasília, estudou em Londres e está cearense. Jornalista e psicólogo, teve bandas de rock e atuou como VJ na televisão. Foi apresentador e editor de cultura da afiliada à rede Globo no Ceará. O resto é história!
- Beatles e o Cover de Twist and Shout... espera, você disse cover!?
Você, estimado leitor, certamente já deve ter assistido o filme Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, 1986) e balançado o esqueleto na parte em que Ferris sobe no carro alegórico e faz um Lip Sync de Twist and Shout??? Ou ainda, antes disso, ouviu essa canção naquele LP arranhado de Please, Please Me do quarteto de Liverpool? Pois bem. De forma alguma estou aqui para diminuir a genialidade de John, Paul, Ringo e George. Mas não posso ser negligente na missão de destruir crenças musicais. Claro que estou brincando, mas uma coisa precisa ser dita: Twist and Shout não uma canção original dos Beatles. O ano era 1961. O grupo vocal de rhythm and blues The Top Notes lançou, dois anos antes da versão consagrada mundialmente pelos Beatles no álbum de 1963, no formato de single, a primeira gravação de fato de Twist And Shout (música composta por Phil Medley e Bert Russell), produzida por nada menos que Phil Spector (que viria a produzir ícones como Ike and Tina Turner, Leonard Cohen, Ramones, os próprios Beatles e depois álbuns solo de John e George). Ainda antes de ser gravada pelos Beatles, ela recebeu uma versão pelos The Isley Brothers, muito mais parecida com a consagrada, se comparada com a dos Top Notes. Deixo aqui as 3 versões citadas para apreciação. Top Notes: Abaixo versão de The Isley Brothers. Imagem da primeira fase ainda do grupo e que se parece, visualmente falando, com a foto dos Top Notes. Abaixo a versão mais famosa, dos Beatles, que é comumente tida como sendo a original por muitas pessoas. LEANDRO KRINDGES é Técnico Químico de profissão, licenciado em Biologia por paixão, fã de Foo Fighters a Belchior e de tirinhas, especialmente Peanuts. Sempre teve curiosidade em saber o que se passava por trás das músicas, e essa busca se tornou um hobby. Tecladista da Banda Villa Rock, arranha também violão e guitarra. Aprendeu a gostar de ler depois do Kindle.
- Disco: Preghiera -Trios de Rachmaninoff
A gente ouve várias gravações da mesma peça. No caso dos 2 Trios Élégiaques de Rachmaninoff, a versão de referência, ou ao menos uma delas, é do Beaux Arts Trio. Mas mesmo o grupo dessa formação (violino, violoncelo e piano) mais famoso do mundo não é páreo para quando uma gravadora resolve juntar 3 solistas geniais. É o caso do disco Preghiera, de 2017, que junta o violinista letão Gidon Kremer, a violoncelista lituana Giedre Dirvanauskaite e o pianista russo Daniil Trifonov. Os três simplesmente dominam as peças. O álbum abre com a peça que lhe dá nome: Preghiera é um arranjo de Fritz Kreisler para o segundo movimento do Segundo Concerto para Piano de Rachmaninoff. Ele reduziu para piano e violino (seu instrumento, com o qual chegou a gravar algumas sonatas com Rachmaninoff). É bonito, mas é só o que eu tenho a dizer. Seguimos com o começo propriamente dito. Eles invertem e tocam o Trio Élégiaque Nº 2 primeiro. E com perfeição. É uma peça que tem estrutura de sonata, e é elegíaca (dã), então você não pode sair desse clima meio fúnebre, mas encantado. Quase de oração (Preghiera é oração em italiano, ou me corrijam). Pois bem, do clima eles não saem, fazendo com maestria as pequenas variações de humor presentes na peça. Mas é a expressividade que é marcante. Como o trio é uma formação bem pequena, todos os três têm a oportunidade de brilhar e mostrar sua sensibilidade no fraseado. O compositor escreveu essa peça após a morte de seu amigo e mentor Pyotr Tchaikovsky. A solenidade e a beleza mostram o quanto ele admirava o mestre, que morreu repentina e tragicamente em 1893. Tem 3 movimentos. Por um tempo ele, que era muito autocrítico, não gostava da obra. Até que ouviu uma performance arrebatadora do Trio Moscou: "Vocês me fizeram amar meu Trio!" Curiosamente, é do 1º Trio Élégiaque que eu mais gosto. Ele é em um só movimento, mais curto que cada um dos dois primeiros do Trio nº 2. É uma peça que ele compôs quando era estudante, aos 18 anos. Mas é uma pequena joia. Ele começa com o acompanhamento do violino e do violoncelo, um artifício (abrir a peça com uma figura de acompanhamento) que ele usaria famosamente no 3º Concerto para Piano, muitos anos depois. Aí o piano anuncia a maravilhosa melodia, que servirá de tema principal pela obra. Ela termina com o mesmo tema, mas dessa vez com um verdadeiro acompanhamento de Marcha Fúnebre. Os Trios Elegíacos de Racmaninoff estão entre os mais expressivos e belos da literatura (vasta) para esta formação. Sugiro que você escute e depois me conte o que achou. São obras de uma magnitude e importância enormes.
- Como as orquestras estão lidando com a pandemia?
A pandemia fez o mundo ter que se repaginar. Os artistas fizeram a reconstrução de todo o seu papel (pra não falarmos de empresários, trabalhadores autônomos, professores...) e achar novos meios de se promover, de fazer seu trabalho. Se tem no mundo uma instituição que vive no limite entre a operacionalidade plena e a falência sumária é a orquestra sinfônica. Tomemos o exemplo brasileiro da OSESP (Orquestra Sinfônica Estadual de São Paulo), que é sustentada por uma fundação, pelo estado de São Paulo e pela venda de ingressos. Há uma imensa estrutura em volta da orquestra: pra começar, eles têm mais músicos do que se costuma ver no palco. Eles fazem revezamento. A OSESP emprega desde seu diretor artístico e seu regente até o caixa da lojinha de lembranças. Tem um contrato saudável de gravações, de onde tira mais uma comissão e vários conjuntos de câmara autossustentáveis. A equação é simplérrima, pra ser claro: o que entra tem que ser igual ao que se gasta. Isso significa que se alguma dessas fontes de dinheiro ficar comprometida, haverá problema. O mais óbvio que a pandemia nos trouxe foi a ausência de público. O grupo já voltou a dar concertos, mas, como são uma entidade não negacionista da realidade, toca para um público limitado. Não podem cobrar mais caro pelo ingresso, seria desleal e acho que é literalmente proibido. Então como as orquestras têm feito? A OSESP viu o orçamento R$ 100 milhões de reais, que era o previsto, cair para R$ 74 M. O governo de São Paulo teve que fazer um corte de 14% no repasse para a orquestra. O que os salvou foi a solidariedade do público: tendo comprado ingressos antecipados para concertos que não aconteceram, concordaram não pedir reembolso e doar os valores para a instituição. Os músicos e funcionários concordaram em cortar o próprio salário em 15%. Regentes e músicos têm aceitado cortes antes impensáveis nos seus salários. Os músicos da Orquestra de Filadélfia recebem 75% do seu antigo salário, isso até março, quando eles vão reavaliar. Algumas orquestras simplesmente não estão tendo a temporada 2020-2021, como a Sinfônica de Boston e a Filarmônica de Londres. A Orquestra Metropolitana de Nova Iorque teve perdas estimadas em 100 milhões de dólares e resolveu fechar as portas temporariamente. São tempos difíceis para todos nós. Eu acho que o mundo vai, com o tempo, se acomodar à nova realidade. Vamos passar uns bons anos assistindo a concertos, shows, peças e exposições na tela do celular. Digo anos porque, mesmo quando a pandemia passar, teremos nos habituado a essa nova vida. Um novo mundo polarizado, humilhado, transformado e devidamente sofrido. Só espero que no meio do caminho a música não pare.
























