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  • Continho

    Enterrado em seus pensamentos, Diego via, mas não via a cena da rua. Até que teve uma coisa que o chamou a atenção. A cada 4 ou 5 pessoas que passavam, um pedreiro gordo pegava uma pela gola e pela cintura e a atirava na construção. Que diabo é isso? E ninguém dizia nada? Já tinha pego uns 3 quando Diego se aproximou. Ele não vai me pegar, vai? Dito e feito. Bastou chegar perto e o pedreiro gordo o catou e jogou pra dentro. Ainda mais essa! - Escuta aqui, meu filho... - Vai jogar! - Como assim vai jogar? - Você vai jogar. Foi aí que Diego olhou para dentro. Estava acontecendo uma partida de futebol improvisado na areia, num espaço minúsculo. Pessoas esquisitas jogando! E aqueles cachorros imensos observando calmamente? - Mas eu não sei jogar futebol! - Claro que sabe, hombre. Você é o Pelé. Continua... Rafael Torres

  • De Helena para Iara

    Helena finalmente havia conseguido convidar Marcela para aquele bar, seu favorito, porque era gay (o bar) (e Helena). Só não entendia aquela moça na outra mesa, à sua frente. Acontece que, quando Marcela levantou pra jogar bilhar, ficou de cara com a moça. Ela sorria e dizia: "Ei!", "Psiu!", "Tu és especial, sabia?", "Sabias que és... eras bela?" E caía na risada. Completamente bêbada, Helena pensou. Helena olhava ansiosa por Marcela, mas seu olhar sempre caía na moça. Era até bonita. Na verdade, reparando bem, era muito bonita. Mandou um beijo, a louca. Tinha que parar de olhá-la. Ia aparentar interesse. Olhou para a mesa de bilhar e pensou se não devia ir pra lá de mudança, com cerveja e tudo. Marcela estava linda, e parece que rodeada de admiradores. Helena suspirou. Porque hoje ela pegava a Marcela. Quando olhou pra frente tomou um susto: a moça estava sentada em sua mesa. - Tenho um presente pra ti - ela falou um tanto infantil, estendendo uma coisa pra ela. Era um embrulho de folhas de bananeira. Cocada? Mas a gente dá cocada em folha de bananeira? Sem pensar, ela pegou e abriu. Rapadura. Rapadura? Ficou sem jeito. - Obrigada. Você que fez? - Foi. Fui eu que fiz. - ela não tinha mais a atitude infantil - Come! - e o seu semblante mudou, ficando levemente mais sério. Desse jeito ela se revelava seriamente bela. Mas de um jeito que tanto impressionou Helena que ela soltou um ui! A outra riu. - Tu és doida? És sim - ela chiava. Pernambucana. - Mas sério, come, que não é desse mundo. Helena buscou Marcela, mas não a achou. Devia ter ido ao banheiro. De repente, ao imaginar Marcela nua, acabou imaginando a pernambucana. Quase soltou outro ui. - Ei, olha aqui pra mim - e agora ela estava normal, como se tivesse ficado sóbria num instante - Prazer, Iara. - Prazer! Helena. - e deu uma mordidinha na rapadura. Era boa. Incrível. - Pois bem, mas você não quer que eu acredite que trouxe essa rapadura pra mim, né? - Quero... - e Helena teve que lembrar o que tinha dito. - Claro que não você você. Mas para uma pessoa especial que eu sabia que ia encontrar hoje - ela sorria. - E o que você quer dessa pessoa especial? - Quero. - e Helena teve que lembrar o que tinha perguntado. - Essa rapadura. Ela... - Helena resolveu ir ao ponto - Tem alguma coisa, não tem? Droga? Eu não uso droga. - Ah, mas não é nada sério. - e lá ia Helena tentar reconstruir o que perguntara. Então era uma droga, mas não era séria? Não era droga? Ou o quê? Sei lá... O que quer que fosse a estava deixando incrivelmente relaxada. Ela deu uma mordida bem grande, olhando Iara nos olhos. Ela tinha a pele branca, rosada, linda. Os olhos azuis tinham um charme incomum. E a boca, os cabelos, aquela mulher era perfeita. Mas tinha que se restaurar. A Marcela, cadê a Marcela? Estava na mesa de bilhar ficando com um menino. Ao diacho. Voltou a olhar para Iara e ela estava com a língua levemente exposta a encarando. Meu Deus, o que fazer com aquela língua. Foi quando percebeu que, na ponta, tinha um papelzinho quadrado. Pensando bem, uma vez na vida a gente tem que experimentar. Sem pensar, tocou a língua com a sua. Beijaram-se longamente. Dali a uma hora, já estavam fora, andando de mãos dadas. "Eu moro aqui perto". - Você não era de Recife? - Perto. - aí Helena desistiu de tentar refazer a pergunta na sua cabeça. Estava meio confusa, já. Andaram uns três quarteirões e entraram num beco. Estava tudo deserto. Helena não sentia nem um pouco de medo. Se pegaram mais um bocado e entraram em outro beco. Isso, de dentro de um beco. Ali, Iara simplesmente se agachou e fez xixi. E Helena reparou, no seu ombro, uma tatuagem. Espera, ela tá fazendo xixi? Helena só olhava o ombro, o xixi e a tatuagem. Era um boto rosa, perfeito, parecia uma foto. Helena sentiu a ironia e deu um risinho. - Quem fez foi um grande amigo meu. O maior tatuador do Brasil. - E se levantou puxando Helena. Ela sentia que deveria estar achando tudo muito mais estranho do que estava achando. Estava ficando era tonta. Bem tonta. A outra a conduziu por outro beco, esse bem escuro. Tão escuro que dava sono. Ela não via mais nada, só o contorno de Iara. Pediu pra sentar um pouco e apagou. Acordou com dia claro num quartinho. Pequeno mesmo. Só uma cama, uma cômoda e uma cadeira com um senhor de preto. Ele falou sorrindo. - Bom dia, Iara. - Seu sorriso era agradável. - Não vejo a Iara. - Ah, claro. Esqueci de lhe apresentar. Você é a Iara. Lhe apresentar? Fora apresentada a si mesma? Seu nome era Iara? Era Iara? Olhou para a porta que se abria e a outra Iara entrou, sentando-se na beira da cama e dando-lhe um beijo carinhoso. O homem saiu. Helena tinha muitas perguntas, mas não tinha muita vontade de fazê-las. - Você é igual o Boto Rosa? Ou é diferente? - Helena perguntou tentando se fazer casual. - Sou. - Ué? Helena ia vocalizar esse ué quando a outra continuou. - Você quer ficar comigo? Não vai acontecer nada de errado com você. Não sou como dizem. - E como dizem? - Dizem. - ai ai ai, pensou Helena... - Eu sou... Eu não sou o boto. - E quem você é? Qual o seu nome? É Iara? - Ainda não decidi. Mas Iara é você. Eu sou música... Calma, suas perguntas serão respondidas. - Verdade? - Não. - ela riu, mais bela do que nunca. Aff... Helena sentia que tinha que desvendar aquela ali. Não ia embora. Não enquanto não desvendasse todos os segredos da menina sem nome. Continua... Rafael Torres

  • microliteratura de marcio markendof #02: microcontos críticos críticos

    Os microcontos, apesar de sua curta extensão, podem ser empregados como ferramentas e crítica social, permitindo uma visão irônica do mundo contemporâneo. Na pequena seleta abaixo temas de nossa época, como o terraplanismo, a modernidade líquida e as fortunas de igrejas, são o alvo de uma narrativa breve, mas pronta para um punch no leitor. Mais microliteratura aqui. Mais produções artística com oquadrinhos, contos, cordel e tudo o mais que pode caber num site na nossa sessão Zartes. Marcio Markendorf Professor, pesquisador e escritor. Leciona no curso de Cinema e na Pós-graduação em Literatura da UFSC. Publicou a novela "Soy loca, Lorca, feito um chien no chão" (Urutau, 2019) e, em parceria com Adriano Salvi, o volume de microliteratura, "Microcontando" (Caiaponte Edições, 2019), obra financiada pela lei de incentivo à cultura de Balneário Camboriú. Mantém uma conta dedicada às formas breves no Instagram (@microliteratura).

  • Entrevista com Luiz Cláudio Ramos - Papo de Arara

    Um dos maiores arranjadores do Brasil há várias décadas, Luiz Cláudio Ramos já trabalhou com Dorival Caymmi, Elis Regina, Quarteto em Cy, Tom Jobim e, hoje, com Chico Buarque. Eu digo hoje porque eles trabalham lado a lado desde o final dos anos 80. Luiz é o arranjador e produtor musical de todos os discos e shows de Chico desde então. Veja aqui a lista com os discos do Chico favoritos da Arara. Olá, maestro Luiz Cláudio Ramos. Obrigado por nos conceder essa entrevista com tanta prontidão. 1. Você nasceu e sempre viveu no Rio de Janeiro? Nasci em Santa Teresa, aqui no Rio e sempre vivi aqui no Rio. 2. Me fale um pouco sobre as suas origens musicais. Muita música em casa? Teve professor? A minha mãe era gaúcha, com uma família grande, muitos irmãos, todos músicos. Minha mãe tocava piano, cantava, tocava violão. Tias e tios, todos músicos. Piano, violoncelo, flauta, tinha bastante coisa. Eu tive uma iniciação muito leve com o Ian Guest (compositor húngaro radicado no Brasil), na parte de música, teoria; e tive uma iniciação também muito leve com o Arthur Verocai no violão. Isso lá por 1967, por aí. 3. Meu pai me contou que, nos anos 70, ele comprava discos seus. Só não lembro se eram de violão ou se você cantava. Nunca consegui achar os discos, mas tenho imensa curiosidade. Quantos discos lançou de si mesmo? Eu não tenho muitos discos, não. Meus, mesmo, eu tenho dois. Um com o Franklin (da Flauta), que a gente gravou, sei lá, uns dez anos atrás; e um que eu gravei no início dos 80 pra PolyGram, num projeto chamado MPBC. Agora, tinha um cantor da geração do meu irmão - não falei, o meu irmão foi cantor, Carlos José, seresteiro, éramos 4, ele, o primeiro e eu, o mais novo - e tinha um amigo dele, Luiz Cláudio, mineiro. Acho que seu pai me confundiu com ele... 4. Você escreve para orquestra muito bem. Quando decidiu se tornar arranjador? Estudou orquestração? Muito obrigado que eu escrevo muito bem. Eu sempre gostei de arranjar, de harmonizar, desde os primeiros grupos, ainda no colégio. Eu sempre gostava de harmonizar e fazer contracanto. E não estudei orquestração, não. Foi tudo na marra, mesmo. Eu tive muita prática, porque tive a sorte de entrar no mercado de trabalho, gravando discos, muito cedo, e eu peguei aquela fase áurea de gravação, em que a gente gravava, às vezes, várias vezes por dia. E aí o Roberto Menescal foi muito importante na minha carreira, me incentivou a escrever e eu comecei. O primeiro disco que eu fiz foi o do Fagner, Manera Fru Fru. 5. Você trabalhou em vários discos do Chico Buarque antes de se tornar efetivo na banda dele, na posição que convencionamos chamar de “maestro” (e não vejo por que não). Como foi essa transição? Ele te convidou para fazer a produção musical de um disco – o Chico Buarque, de 1989? Eu toco com o Chico há muito tempo, a primeira gravação que eu fiz com ele foi um arranjo do Edu Lobo, para Bárbara, isso no início dos anos 70. E a partir daí eu comecei a trabalhar com ele. Já naquele disco - no show - Chico e Bethânia, eu já participei da elaboração das harmonias junto com o Chico. Eu era o responsável pelas músicas do Chico. O Chico pensava parecido comigo - pensa parecido comigo. Há uma identificação, principalmente harmônica, ele gosta de inverter (acordes)... E nesse meio tempo, o que resolveu a minha vida, foi que eu percebi uma tese de escalas - o que eu uso são 4 escalas, basicamente, para fazer todos os meus arranjos. A transição. Aí eu participei de vários discos do Chico como músico. O primeiro arranjo que eu fiz pra ele completo, foi "Mulheres de Atenas". Porque na fase do Chico e Bethânia, quem fez os arranjos de orquestra foi o Maestro Gaya. 6. Você tem muito contato com a música erudita? Chega a ser um entusiasta? Tive muito contato com música erudita, sim. Principalmente através da família da minha mãe, que tocava piano. E várias pessoas ligadas à família, sempre houve muita música lá em casa. E sou um entusiasta, sim. São os grandes mestres, né? Bach, Ravel, Chopin, Mozart, esses são talvez da minha maior admiração. Sou um entusiasta da música clássica, sim. 7. Como é produzir um disco? Eu nunca tive um produtor, de modo que não faço ideia do que ele faz. Produzir disco, depende muito do artista. Tem artistas que chegam com tudo pronto. Tem outros que não têm ideia do que querem, na verdade. Tem produtores que são ligados na parte da mídia, que têm ligações com a mídia, alguns não entendem nada de música... Tem outros ligados mais à parte técnica da produção do disco, pessoas que já sabem mixar, que têm ideia já da mesa. Eu sou ligado à parte musical, sou um produtor musical. Elaboro os arranjos, me ligo mesmo é na parte da música. 8. Você já tocou com Tom Jobim, Edu Lobo, Chico, Caetano, Dori, e até Mick Jagger. Agora é só esperar a ligação do Paul McCartney (risos). Deve ter boas histórias. Ah, tenho ótimas histórias, claro. São mais de 50 anos de profissão. Eu larguei a faculdade de medicina pra ser músico - fiz o primeiro ano da faculdade em 68, e em 69, logo no início, eu comecei a tocar com o Simonal, Wilson Simonal, que era um sucesso grande na época. Com o Som Três do César (Camargo) Mariano, que era um dos meus ídolos de juventude. E é claro, aí tem muitas histórias. 9. Como é trabalhar com o Chico Buarque? Ele é exigente? Tem noção da importância dele para os fãs? O Chico é o Chico, né? É muito fácil trabalhar com ele, e é claro que eu tenho noção da importância dele pro mundo. "Exigente", eu não diria, não. Porque a parte musical... Porque tem outros artistas, por exemplo: o Francis (Hime) escreve, né? O Edu (Lobo) escreve, o Tom (Jobim) escrevia. O Djavan é muito musical - ele não tem conhecimento musical, mas tem uma grande musicalidade, assim como outros... João Bosco... Cada um tem o seu jeito. Mas o Chico, ele é "menos" músico, na acepção da palavra. Músico instrumentista. Do que esses outros, então ele não tem muito a vivência do músico instrumentista. 10. Tem alguma música específica que foi mais desafiadora de fazer arranjo? Não, não tem música específica que tenha sido mais desafiadora, não. Cada música é um desafio, na verdade. E aí vão surgindo os problemas e a gente tem que resolver. É isso. Grande abraço a todos. Espero que tenham gostado. Vão conferindo o nosso disco "Argonautas Interpretam Edu Lobo", que eu estou aos poucos colocando no YouTube e aqui. Beatriz Meia-Noite Opereta de Casamento A Moça do Sonho A Permuta dos Santos Ave Rara Por favor, comentem, fiquem à vontade. E apertem no coraçãozinho.

  • top 10: Vídeo-games como obras de arte!

    Para conceber uma lista que trate de videogames entendidos como arte, recorremos ao que já foi previamente selecionado para exibição em museus e galerias. Alguns títulos da lista fazem parte do acervo de jogos expostos no Museu de Arte Moderna de Nova York. Outra fonte utilizada para os jogos da lista é o acervo do “Molleindustria”. Estúdio que tem como premissa uma reapropriação de videogames, seus jogos são sempre citados como jogos “persuasivos” ou jogos com uma agenda, que atravessam o paradigma da diversão e trazem muita inquietação nos temas abordados. E ainda adicionamos alguns jogos mais recentes que merecem uma chance de apreciação. 10. GAYBLADE 1992 Em um RPG é comum encontrarmos um universo de ficção repleto de magos, cavaleiros, dragões e paisagens medievais, mas em Gayblade a narrativa aborda uma realidade ainda mais sombria e faz o jogador experienciar o contexto de marginalização e discriminação sofrida pela comunidade LGBT nos anos 90. Inclusive dando a oportunidade do jogador combater os sujeitos propagadores de ódio e desinformação. Talvez o jogo hoje seja pouco conhecido e apreciado por conta de uma atrapalhada empresa. Acontece que Ryan Best perdeu o jogo original e seu código fonte durante uma mudança, a empresa responsável pelo transporte não apareceu e Ryan que tinha voo marcado não conseguiu encaminhar as caixas para o novo endereço. Mesmo com a ajuda e esforço da comunidade o jogo permanece perdido. Mesmo que não seja encontrado o impacto de Gayblade ficou registrado na mídia impressa do período e na memória da comunidade que nunca antes havia sido representada de forma honesta num jogo eletrônico. 9. TETRIS 1984 Os jogos são uma expressão criativa recente e ainda em pleno desenvolvimento, seus desdobramentos esbarram em limitações técnicas. Nesse sentido Tetris se destaca pois envelheceu muito bem, continuando divertido de se jogar mesmo nos dias de hoje. A prova disso é o lançamento de Tetris 99 que apresenta uma versão online que combina o tetris clássico com o novo conceito de “battle royale”. A importância e a relevância cultura de Tetris foi reconhecida quando o jogo foi adicionado ao conjunto de jogos clássicos em exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York. Tetris é a prova que mesmo com uma proposta pictórica simples e minimalista o autor pode proporcionar ao expectador uma experiência rica em emoções e divertimento. 8. KATAMARI Se você considera que arte pode apresentar uma perspectiva diferente do cotidiano, que podemos por meio dela refletir sobre nossa experiência de consumo, uso e afinidade com os objetos ao redor. Se essas forem uma das premissas da arte. Katamari definitivamente é arte pois toda a proposta do jogo é trabalhada no acúmulo de objetos enquanto as escalas são a base dessa experiência, algumas fases começam da rua e pouco tempo depois estamos navegando pela galáxia. 7. SIMCITY 1989 Ao assumir o cargo de prefeito o jogador precisa criar e gerir uma cidade. Nessa simulação é preciso dar conta das demandas da população, tomar decisões que envolvem política, geografia, bem estar-social, acidentes naturais, recursos energéticos, impostos. Uma experiência lúdica que diz muito sobre a ideologia do jogador que vai fazer escolhas no âmbito de políticas públicas. Com poucos recursos você precisa decidir entre construir uma escola, delegacia de polícia ou uma nova estação de trem por exemplo. Tais escolhas impactam a vida dos sims (avatares) e fazem refletir sobre o melhor caminho a percorrer no desenvolvimento de uma cidade. 6. PHONE STORY Phone Story demonstra por meio de um jogo divertido uma realidade muito devastadora nas dinâmicas de produção de bens. O jogo é ambientado na produção de um smartphone de uma multinacional que para baratear o custo dos produtos se utiliza da exploração de mão de obra barata em países com leis trabalhistas frágeis. Algumas fases demonstram até mesmo o trabalho infantil. Todo o dinheiro levantado através do jogo foi doado a uma ex-funcionária da Foxconn que ao tentar cometer suicídio ficou com graves sequelas. Phone Story busca uma práxis ao debater as consequências do capitalismo global e lançar um holofote sobre as relações trabalhistas abusivas cometidas no complexo industrial da Foxconn e em outras partes do planeta. 5.TAMATIPICO Este é um dos primeiros jogos da “Molleindustria”, é jogo manifesto que trata da exploração de mão obra com exaustivas horas de trabalho ininterruptas. Aborda as péssimas condições de trabalho em que muitos trabalhadores são expostos ao redor do mundo. Toda a interface e mecânica de Tamatipico busca parodiar os jogos de criação de pets virtuais como o Tamagochi, uma associação engraçada mas que infelizmente é comum em ambientes de trabalho onde muitas empresas impõem aos empregados jornadas exaustivas e sem o devido tempo de descanso. A vida e o bem-estar do trabalhador são concedidos como e quando o empregador quiser. 4. EVE ONLINE Jogo de interpretação de personagem multijogador massivo. A forma de ser e estar em EVE depende do papel que o jogador quer interpretar. Por meio de uma avatar você ocupa um espaço digital de forma coletiva com outros jogadores. Neste universo espacial não existe um objetivo principal mas algumas missões e tarefas opcionais que premiam o jogador com os recursos e a moeda virtual. Para gerar riqueza nesse universo pode-se coletar recursos, fabricar itens, ou mesmo saquear outros jogadores. A transformação da matéria em produtos manufaturados para fins de acúmulo de capital e o consumismo desenfreado funcionam perfeitamente em MMORPGs pois, ao contrário do mundo real lá os recursos naturais são infinitos e não existem os reflexos da poluição e da desigualdade social. Além dessa reflexão social o game também promove, a partir de seus sons e gráficos uma imersão muito boa em sua diegese (universo dele) e arte também pode ser isso um momento de fuga do mundo real para um mundo imaginário, seja ele no espaço sideral ou em um cortiço fictício. 3. PAC-MAN O jogo do “come-come” foi lançado em 1980 visando o mercado de arcades. Mas devido ao sucesso foram feitos diversos desdobramentos do jogo para consoles e o personagem foi utilizado em diversas formas de merchandising. Por conta das limitações técnicas o jogo todo acontecia na mesma tela, ainda com tais limitações os desenvolvedores conseguiram criar uma inteligência artificial complexa onde cada fantasma possuía diretrizes distintas. Também é o começo da mecânica de “power-ups” que mais tarde vai ser popularizada em Super Mario. Hoje o personagem ainda é muito popular e conquistou um lugar de destaque não só na cultura dos jogos mas também na cultura pop tendo aparições em filmes, museus, músicas e desenhos animados. 2. DREAMS Não é o primeiro sistema para criação de jogos mas talvez seja o mais popular e acessível no momento por conta da sua compatibilidade com os consoles modernos (PS4). Mais um caso em que a indústria de jogos flerta com a cultura participativa e propõe o empoderamento criativo e técnico do espectador que consome e constrói jogos em comunidade. Além dos jogos é possível criar outras experiências como as machinimas (animações realizadas usando as engines dos jogos). 1. 171 (Pré-Alpha) Jogo com temática inspirada no Brasil e desenvolvido por brasileiros da Betagames Group. 171 surge no contexto das populares modificações de Grand Theft Auto. Os desenvolvedores receberam apoio da comunidade por meio das campanhas de crowdfunding e o jogo tem tudo para se tornar um título de peso com grande alcance de público dentro e fora do Brasil. A narrativa de ficção com ambiente inspirado em Sumaré (SP) e tantas outras periferias do país. Em jogos de aventura de mundo aberto os detalhes fazem toda a diferença, em 171 é possível identificar os modelos de carros, o estilo das nossas paradas de ônibus, orelhões e ruas de terra. Um registro lúdico de tantas realidades das periferias brasileiras com gráficos fotorrealistas. Fontes: https://www.moma.org/explore/inside_out/2012/11/29/video-games-14-in-the-collection-for-starters/ https://www.molleindustria.org https://lgbtqgamearchive.com/games/games-by-decade/1990s/gayblade/ https://www.netflix.com/br/title/81019087 http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2012/12/pac-man-tetris-e-outros-games-vao-virar-peca-de-museu-em-2013.html https://tetris.com/by-the-numbers https://youtu.be/1Kpmb77_aFM Ayrton Selo Costuma fazer lives e vídeos pra comunidade de jogos online, sempre experimentando alguma coisa no universo dos memes e outras formas de remixagem. Acusado de atrasar os conteúdos mas sempre correndo pra cumprir os prazos. Gosta de doces e não confia em pessoas que defendem privatizações.

  • vida (e morte) de imigrante na irlanda

    Nem só de boas notícias sob um céu de arco-íris vive a nossa ilha verdejante. E enquanto seres humanos povoarem esta Terra, que de plana não tem nada, circularão crises, tensões e cisões as mais diversas, como bem sabemos. Inclusive muitos crimes ainda cometidos contra imigrantes, em pleno século XXI. O fato é que um brasileiro, Thiago Cortes (28 anos), que trabalhava com delivery pelo aplicativo Deliveroo, foi tragicamente morto no início de setembro. Após ter sido atropelado na volta de uma de suas entregas, não resistiu aos ferimentos causados pelo motorista, que avançou o sinal vermelho em um cruzamento, deixando de prestar socorro à vítima. Atitude que poderia ter salvado sua vida. Segundo relatos, o carioca pedalava pela área dos cais, no Norte de Dublin, região onde também foi encontrado um carro abandonado, o mesmo envolvido no incidente. As autoridades pediram acesso às câmeras de segurança para poder identificar os suspeitos: um menor de idade e outros três adolescentes alcoolizados, que vivem no subúrbio dublinense. Discutir as razões do atropelamento, mesmo com inúmeros casos de estrangeiros que já sofreram ataques xenófobos seguidos por violência na mesma área da ocorrência, parece mera especulação. No entanto, atualmente, é difícil atribuir total confiança à Guarda Siochána, a polícia civil da República da Irlanda, cujas atribuições são de polícia judiciária e preventiva uniformizada, sob um princípio de: “se impor não pela força das armas ou em número, mas pela autoridade moral, conquanto servidores do povo.” O essencial, portanto, seria compreender as dinâmicas sociais que determinam as desigualdades de tratamento entre nativos e imigrantes, principalmente estrangeiros de origem latino-americana ou ascendência africana. Isto porque fronteiras, nacionalidades e títulos de cidadania não passam de convenções sociais excludentes, instrumentos de dominação nas mãos dos mais poderosos. Como seres humanos, estudantes e trabalhadores, devemos lutar pela superação de lógicas atrozes que, além de não solucionarem nossos reais dilemas, só intensificam essa diáspora entre classes, gêneros, raças e linguagens ao redor do planeta. Tal divisão se agrava quando, enquanto brasileiros em território irlandês, tratamos a comunidade dos “Irish travellers” (viajantes) pelo vocábulo pejorativo “knackers”, por exemplo, um grupo minoritário que geralmente vive nas periferias, recebe apoio financeiro do Governo e apresenta comportamentos antissociais. Os “young offenders” (delinquentes juvenis) são conhecidos por arrumarem confusão, inclusive, entre eles próprios e toda a sociedade irlandesa. Apesar da grande revolta causada pelas leis frouxas quanto à discriminação racial e certo aumento da extrema direita por toda a Europa, a comoção pelo assassinato de Thiago uniu fortemente a comunidade brasileira aqui em Dublin. Foi bonito ver centenas de pessoas se mobilizando em meio à pandemia, tomadas as precauções sanitárias devidas, para uma passeata pela cidade. Além de clamar por justiça nas ruas, tanto o povo latino quanto os irlandeses passaram a arrecadar fundos para auxiliar os familiares da vítima e a discutir amplamente também sobre questões trabalhistas concernentes aos aplicativos de entrega de comida. Curiosidade: Importante notar que um total de 535,4 mil estrangeiros vivem na Irlanda, entre dezenas de nacionalidades, em um país com 4,8 milhões de habitantes. Isso significa que pouco mais de 10% da população é formada por imigrantes. O último censo mostra que o Brasil está em sexto lugar. Na nossa frente, vêm cidadãos da Letônia (19,9 mil), Romênia (29,1 mil), Lituânia (36,5 mil), Reino Unido (103,1 mil) e Polônia (122,5 mil). Dito isto, é urgente que intensifiquemos a educação de toda a população contra o racismo e a xenofobia, sem precisarmos exacerbar a cultura do ódio através de punições mais severas. Pelo contrário, devemos ampliar políticas públicas para o tratamento efetivo da drogadicção, promovendo atividades de prevenção e reinserção social desses usuários de baixa renda, jovens dependentes de drogas e sem-teto, haja vista a gravíssima crise de moradia que por muitos anos vem assolando a sociedade irlandesa, bem como afeta profundamente brasileiros que, assim como Thiago, legal ou ilegalmente, vêm buscar uma qualidade de vida melhor em outro país e se deparam com as condições precárias das acomodações estudantis, maus tratos, entre outras situações indignas. Aproveito este espaço para deixar meus profundos sentimentos aos que morrem todos os dias nas mãos bélicas do preconceito, com a esperança de que esse pesar resista fortemente para pensarmos, em conjunto e criticamente, novas possibilidades fraternas, igualitárias e mais justas. Afinal, o que nos resta a não ser o poder da solidariedade entre todos os povos do mundo? Vamos em frente! Sigamos na luta. #JusticeForThiago #ImmigrantsLifeMatter PAOLA BENEVIDES nasceu em Fortaleza e é licenciada em Letras e pós-graduada em Linguística Aplicada (Tradução), pela UECE. De cantora e compositora em bandas independentes, transita entre performances em saraus, experimentos audiovisuais, midiáticos e místicos. Possui poesia e prosa publicadas em antologias, blogs, zines e revistas literárias. Cofundadora da @logoslanguageservices, é revisora textual, transcritora, tradutora e intérprete. Autoexilada em Dublin desde 2016.

  • Top 10 melhores faixas de rock da década de 1970.

    Nossa viagem continua! Se existe algo próximo de uma unaminidade é de como os anos 70 foram agitados, barulhentos, emblemáticos e importantes para a construção do mundo que conhecemos hoje. Revoltas, protestos, crises, eclosão de movimentos políticos... E é claro que a arte foi um reflexo de tudo isso. O rock tinha se consolidado nos anos 60 como música jovem, contestadora e de contracultura e isso tudo gerou essas dez faixas que listamos agora para voces! 10 – Hey Hey, My My (Neil Young) Esse é um dos hinos do rock e diz, “o rock and roll nunca morrerá”. Será? 9 – Walk On The Wild Side (Lou Reed) Cria de uma cena altamente louca comandada pelo mago da cultura pop americana Andy Warhol, criou asas e voou nessa que é uma das canções mais Beatnik de todos os tempos. 8 – Black Sabbath (Black Sabbath) Canção soturna que começa com um acorde proibido pela igreja na idade média e a frase “ o que é isso que está na minha frente?”. Vai encarar? 7 - Band on the Run (Wings) A segunda banda de Paul McCartney, Wings, lançou seu terceiro e mais bem sucedido disco em 1973. Até hoje é considerado um dos melhores trabalhos do ex-Beatle. 6 – Psycho Killer (Talking Heads) Pais do Indie, na minha opinião é a maior banda de rock americana de todos os tempos. 5 – The Man Who Sold The World (David Bowie) clássico regravado pelo Nirvana e que fez parte de um dos álbuns mais conceituais e bem produzidos de todos os tempos. 4 – The Battle Of Evermore (Led Zeppelin) Podem dizer o que quiserem... Mas pra mim, o Zeppelin é simplesmente insuperável. Ouço nos caras metal, blues, progressivo, reggae, hard... o que cê quer mais? 3 – Bohemian Rhapsody (Queen) Essa é uma das canções mais tristes e bem feitas que já ouvi. Não à toa se transformou nesse fenômeno sendo escolhido como tema do filme que contou a história da banda. Nota dos editores: Abaixo a primeira versão do clipe dirigido por Bruce Gowers ligeiramente diferente que praticamente todos nós conhecemos. 2 – Imagine (John Lennon) Se todos os políticos decisivos do planeta ouvissem e refletissem sobre o que Lennon escreveu nessa música, o mundo seria outro. Abaixo temos o videoclipe oficial. Mas aqui damos a opção de um clipe experimental do incrível artista polonês Zbigniew Rybczyński que ainda é pouco conhecida e antes só estava disponível em serviços de streaming menos difundidos mundialmente como o youku.com (o "youtube" chinês). 1 – Comfortably Numb (Pink Floyd) Melhor solo de todos os tempos e maior banda da história. Só o Pink Floyd conseguiu tocar o céu! E na próxima semana chegamos aos igualmente incríveis anos 60 quando o rock mostrou que (ao menos aparentemente) veio pra ficar!! Até lá! Rodrigo Vargas é do mundo. Nasceu em Goiânia, cresceu em Brasília, estudou em Londres e está cearense. Jornalista e psicólogo, teve bandas de rock e atuou como VJ na televisão. Foi apresentador e editor de cultura da afiliada à rede Globo no Ceará. O resto é história!

  • Beethoven - Sinfonia nº 6 "Pastoral" - Análise

    Esta simpática sinfonia de Ludwig van Beethoven (1770-1827) parece a mais inofensiva das nove. É bucólica, campestre, matinal, vespertina. A única coisa que quebra sua paz é uma tempestade, que é seu 4º movimento. Mas na verdade, a única sinfonia descritiva de Beethoven, a Sexta, é uma verdadeira revolução. Primeiramente, por isso mesmo, por ser descritiva. Não era nem um pouco comum. Depois, pela orquestração magistral de que o compositor faz uso. Ela opera, se tirarmos a tempestade, como uma sinfonia clássica: 1º - Rápido; 2º Lento; 3º Scherzo e 4º - Rápido. Mas entre o scherzo e o finale, tem ela, ficando a sinfonia com 5 movimentos. A orquestração se destaca porque, mais do que nas sinfonias anteriores, Beethoven faz muito uso das madeiras, confiando-lhes, às vezes, temas inteiros. Além disso, ele usa efeitos para simular o vento, o canto de pássaros e até gotinhas de chuva. Não podemos comparar, em termos de textura, com uma orquestração de Berlioz, ou Tchaikovsky, estes vieram depois e, se orquestravam com maestria, é porque Beethoven tinha aberto o caminho. Falar em caminho, o compositor adorava trilhas na natureza. Essa música é uma homenagem dele ao campo. Falar em trilhas, foi usada quase completa no filme Fantasia (1940), de Walt Disney com Leopold Stokowski regendo a Orquestra de Filadélfia. Eles removeram algumas repetições, mas usaram todos os movimentos. Muito surpreendente, também, é que ela foi composta juntamente com a 5ª Sinfonia, aquele rompante de fúria e triunfo que em nada lembra a serenidade e a calma da 6ª. É como um escritor trabalhar em dois livros altamente contrastantes ao mesmo tempo. Acontece. A orquestra que se pede consiste em: 2 Flautas (1 Flautim no último movimento) 2 Clarinetes 2 Oboés 2 Fagotes 2 Trompas 2 Trompetes 2 Trombones As cordas (Violinos I, Violinos II, Violas, Violoncelos e Contrabaixos) Tímpanos Abaixo, o regente Andrés Orozco-Estrada regendo a Sinfônica da Rádio de Frankfurt. 1º Movimento - "Despertar de sentimentos alegres na chegada ao campo" - Allegro ma non troppo O primeiro movimento é em forma sonata. Beethoven deu títulos que deixam bem claras as suas alusões musicais. No entanto, ele costumava dizer que queria que a Pastoral fosse "antes uma expressão do sentimento do que uma pintura". Ou seja, ela é descritiva, mas também não dá pra pegar qualquer nota, ou mesmo tema, e aplicar-lhe uma imagem. Muitas vezes o que é retratado é só um estado de espírito. A própria forma sonata é usada de maneira muito (extremamente) orgânica, de modo que não pareça que foi talhada pelo compositor, e sim, sentida. Já começa na exposição com o Tema 1 (23s) dando o ar da graça. Essa melodia (sobretudo as três primeiras notas dos violinos) vai ecoar por todo o movimento. Vamos observar o uso da fermata, que é o prolongamento da nota final de uma frase (28s). As violas repetem as quatro primeiras notas (29s) até que uma figura galopante faz um crescendo que leva ao tutti (todos os instrumentos) (1m01s) que reflete o acordamento desses sentimentos. A 1m30s temos o Tema 2. Viu como ele foi introduzido? Sutil e com charme. Esse tema vai passeando, primeiro nos violinos, depois nas violas, depois nos violoncelos, então nos contrabaixos, até que o clarinete, depois a flauta assumem. Tudo isso para nos dar a impressão de quê? De uma cascata. Não é genial? Daí temos a repetição da exposição (2m43s). Essa repetição, antigamente, como as peças tinham que ser mais curtas para caber nos discos de vinil, ela era cortada. Na verdade, essa mania de cortar a repetição da exposição eu acho que tem a ver com o comprimento da obra para o vinil. Avançamos para o desenvolvimento aos 5 minutos. Um motivo galopante (inversão daquele primeiro) faz uma longa elaboração, que passa pelos violinos (5m13s), flautas (5m17s), oboés (5m24s) e vai crescendo até a orquestra fazê-lo em tutti (5m36s). Aí ela vai se fragmentando até virar duas notinhas no fagote, que o próprio fagote se encarrega de transformar numa lembrança do Tema 1 (5m51s). Isso se repete (5m58s) só que, dessa vez, quando a flauta faz seu trecho ela não empaca, mas continua fazendo mais do Tema (6m43s). Aqui (6m53) entra um desenvolvimento mais sério, com o Tema sendo tocado primeiro o fim, depois o começo. E em tom menor. Até que cai nos violinos, que elaboram uma frase graciosa (7m23s) que leva à recapitulação (7m27s), já com o Tema 1 se montando para o tutti (7m49s). O Tema 2 (8m22s) também reaparece e nos leva ao coda (9m35), anunciado pelo clarinete. 2º Movimento - "Cena no riacho" - Andante molto mosso Iniciando aos 11m43s já com o Tema 1, quero que percebam como a melodia é hesitante, descrevendo os murmúrios de um riacho. É repetido aos 12m19s pelo clarinete e fagote. Perceba os trinados das cordas, sempre pontuando a música com o canto de passarinhos. O Tema 2 entra aos 12m49, nos violinos, repetidos pelo clarinete. Veja como, aos 13m27s o Tema 1 volta recheado de referências ao riozinho e os pássaros. Aos 14m12s a flauta executa um teminha de fechamento que será visto mais adiante. Aos 15m39s, uma aparição em canon do fechamento do Tema 1. Aqui Beethoven optou por nos deixar, em vez de uma cantilena longa, com várias melodias fragmentadas, como ideias episódicas: a água, os animais, o clima... Aos 16m35s o oboé aparece lindo com o Tema 1, a flauta fazendo arpejos de contracanto. Depois a flauta assume e eles fazem um belíssimo dueto (16m57s). Aos 17m21s temos uma modulação importante. Ele brinca com os 2 temas, fazendo-os dar voltas no desenvolvimento. Aos 22m31s temos uma espécie de cadência, em que a flauta, o oboé e o clarinete vão fazer uma imitação de rouxinol, codorniz e cuco, respectivamente. Depois a orquestra se junta ao trio para terminar a seção. 3º Movimento - "Feliz reunião de camponeses" - Allegro Aos 24m13s tem início o Scherzo da peça. As cordas começam imediatamente apresentando o Tema 1, descendente. Aos 24m41s o tema se revela grandioso num tutti. Aos 24m53s repare na resposta das trompas, e também nas próprias trompas. No vídeo eles estão usando duas trompas naturais, sem pistos. É um instrumento da época de Beethoven, quando uma trompa só podia tocar as notas da série harmônica a que se propunha (ela podia, através da mudança de tubos, mudar sua tonalidade, porém), enquanto que as de hoje podem tocar cromaticamente todas as notas. Aliás, algumas vezes durante o vídeo vocês vão ver os trompistas tirando os tubos para escorrer o vapor que se acumula no instrumento - não, não é saliva. Aos 25m02s o oboé e o fagote fazem uma melodia que lembrava a Beethoven tanto os laendler (uma dança que precedeu a valsa) quanto as bandas (ruins) de camponeses que ele tanto conhecia. Isso serve de Trio. Repete-se o Scherzo (25m45s) e o Trio (27m13s). O Scherzo (27m56s) é repetido tranquilamente e alegremente até que é subitamente interrompido (29m07s). Os pastores pressentem uma tempestade, e as primeiras gotas já caem. 4º Movimento - "Trovão, tempestade" - Allegro Os contrabaixos em ppp são os trovões à distância, e os ventos. Os violinos e as madeiras vão fazendo crescer a ameaça até que ela explode num terrível relâmpago, num tutti (29m36s) - e só aqui é revelado que a orquestra tem trombones e trompetes. Além de tímpanos. Aqui ele simula tudo, a chuva (29m57s), os trovões (30m07s), gente chamando (30m42s) e o vento (31m22s). Esse movimento é pura criatividade musical. Mas a tempestade passa logo, os últimos trovões ficando pra trás (32m22s). 5º Movimento - "Canção dos pastores. Sentimentos de graça após a tempestade" - Allegretto Sem interrupção, com um espreguiçar da flauta (32m50s) começa o maravilhoso finale. O clarinete (32m54s) toca um tema que lembra um ranz des vaches, um chamado de pastores aos seus animais. A trompa imediatamente responde e isso dá origem ao nosso Tema 1 (33m08s) nos violinos. Repare nas gotas que sobraram da chuva nos violoncelos, nesse trecho. Os segundos violinos repetem o iluminado e inspirado tema (33m26s) e ele vai crescendo até que atinge toda a orquestra. Esse tema vai ser apresentado como um rondó-sonata: aparece e é seguido pela exposição; aparece (35m07s) e é seguido pelo desenvolvimento (35m41s); aparece (37m02s) e é seguido pela recapitulação. E finalmente vem o coda (41m25s). Termina reafirmando o acorde de fá. Termina de maneira mais sutil que qualquer outra sinfonia de Beethoven. Considerações finais A estreia teve alguns problemas. Como era difícil agendar uma sala em Viena em 1808, ele aproveitou quando conseguiu para estrear a 5ª e 6ª Sinfonias, o 4º Concerto para Piano e outras obras. Foi um concerto de 4 horas, e o público não gostou muito. Mesmo sendo seu querido Beethoven, e mesmo sendo no começo do século XIX, era longo demais. Mas com o tempo se tornou uma das mais queridas sinfonias do repertório, e influenciaria, como falei, Hector Berlioz (1803-1869) na sua Sinfonia Fantástica, fascinado pela ideia de música descritiva e pelo uso da orquestra para efeitos. Gravações recomendadas Tentei excluir as gravações pertencentes a integrais de Beethoven, mas não consegui. Nenhuma das sinfonias de Beethoven é mais gravada que as outras, os regentes fazem, em muitos casos, mais de uma vez, a gravação do conjunto das 9 Sinfonias. Existem infinitas versões maravilhosas. Então eu vou listar aquelas com que tenho uma relação afetiva. - Otto Klemperer, com a Orquestra Philharmonia - De 1958. Klemperer é lento, sempre foi. Mas ao mesmo tempo, tem uma força motora, algo carregando a música para frente. Além disso, faz a orquestra tocar com toda a serenidade que a música pede. Pra mim é a versão definitiva. - Claudio Abbado, com a Filarmônica de Viena - Lá pelos 15 anos, eu ganhei um CD do Claudio Abado regendo a Pastoral, numa gravação ao vivo de 1987. Eu estava acostumado com Bernstein, que me parecia que queria que a música acabasse logo. Quando eu ouvi essa, fiquei impressionado com a lentidão, especialmente no primeiro movimento. E com como essa lentidão não era enfadonha. Certamente não é como se tocava à época de Beethoven, mas é lindo. Você vai encontrar nesse link. https://open.spotify.com/album/49hZO6CqdwimXcAHIIF4qP?si=TAONXi3VQiOn3IGeEre2hQ - Mariss Jansons regendo a Sinfônica da Rádio Bávara - Simplesmente impressionante. Eles tocam muito bonito, é uma das maiores orquestras do mundo. De 2013, é uma versão bem moderna. A combinação Jansons + Sinfônica da Rádio Bávara rendeu muita coisa boa. Ele era um regente espetacular. - Christopher Hogwood, com a Academy of Ancient Music - Quando eu ganhei a minha primeira caixinha com as 9 Sinfonias, foi a de Hogwood. E, como sempre, a Pastoral era uma das que mais me interessavam. A versão, de 1988, é lépida, mas não a ponto de ser apressada. Os instrumentos solistas são excelentes. - Carlo Maria Giulini, com a Filarmônica de Los Angeles - Essa versão é iluminada e sadia. O primeiro movimento começa mansinho, até que explode lindamente no tutti. É de 1980. Ao lado da de Klemperer é considerada obrigatória na coleção de qualquer um. - André Cluytens regendo a Filarmônica de Berlim - É uma versão mais durona da música. Mas claro que Cluytens, com a sua sensibilidade imensurável, sabe também tirar leveza da Filarmônica de Berlim quando acha que cabe. Gravação de 1960, som muito bom.

  • gosto mais de estar com 30.

    Gosto mais de estar com 30. De me olhar assim de perto, um privilégio, e saber que me tornei outra, outra menina, outra mulher. Gosto mais desses encontros com os espelhos. De descobrir, à penumbra ou à plena luz, as minhas formas e suas incontáveis perfeições, no meio das curvas, através dos pelos e poros, no traço das rugas e nas camadas de celulite. Gosto mais de não achar que estou competindo com outras mulheres, de que preciso de um homem para ser feliz, de que devo satisfações da minha aparência, da minha língua e de quem frequenta a minha cama ou os meus textos. Gosto mais de não aceitar menos do que dou, de ter aprendido a dizer não, não gosto, não quero, talvez mais tarde, talvez nunca. Gosto mais de não ter saco para fingir orgasmos, de finalmente ter comprado um vibrador e de saber exatamente o que me deixa com tesão, na minha pele e na pele do outro. Gosto mais de ignorar as vitrines, os manequins, os catálogos de cosméticos, a promessa da juventude eterna, a suposta ameaça dos carboidratos. Gosto de comer meus doces em paz. Gosto mais de saber que não preciso casar ou ter filhos, porque temos abandonado, não sem sofrimento, eu sei, os prazos de validade. Gosto mais de não ter medo do futuro, como quando eu tinha vinte anos e imaginava que já estaria velha aos 30. Gosto mais de me imaginar aos 40. Da ideia de fazer 50. De poder fazer uma grande festa para comemorar os 60, a idade que a minha mãe tem hoje, com o rosto e o sorriso tão belos quanto antes, e o mesmo cheiro doce e atraente nos abraços. Gosto mais de ter chegado até aqui e de me sentir muito bonita, não por causa dos reflexos com mais ou menos roupa, mas por causa de quem eu sinto que sou, da boa companhia que faço a mim mesma, das conversas que tenho comigo e dos sonhos que ainda tenho sonhado, apesar de tudo e de ser mulher. Gosto mais, finalmente e tanto mais, de olhar em volta e saber que não estou sozinha, pois ao meu lado caminham mulheres, grandes e maravilhosas mulheres, com mais ou menos décadas de vida, e que me inspiram todos os dias a gostar mais de mim e dessa vida pela qual eu permaneço acordando durante as manhãs. Kah Dantas Kah Dantas é cearense, mestra em literatura comparada, professora da rede pública de ensino e autora do livro autobiográfico Boca de Cachorro Louco (2016) e do livro de contos eróticos Orgasmo Santo (2020). Gosta de escrever, cometer o pecado da carne e comer docinhos.

  • Rachmaninoff ou Rachmaninov? Como se pronuncia e Escreve?

    Os russos têm enorme dificuldade em traduzir os nomes para a escrita ocidental. Pra começar, o "o" de Rachmaninoff tem, na verdade, som de Ö. Aquele o com e alemão. Então, às vezes eles põem um o, como Gorbatchov (ele mesmo, às vezes, aparece como Gorbachev), e às vezes, um e, como Pletnev. O som é o mesmo: Ö. Agora vamos pro ff ou v. Também não faz diferença. O som é de f. No caso de Rachmaninoff, usava-se muito Rachmaninov, mas ele mesmo assinava noff, de modo que passou-se a usar mais este. Tipo, no Spotify tá com ff. Nas capas da maioria dos discos modernos, também. Eu me acostumei mais com essa. Calma que ainda faltam dois fonemas. O R de Ra, é trinado, como em prato. E o ch é como o rr (de arroz). Melhor que tentar escrever é mostrar. Veja abaixo. Espero ter ajudado, foi um prazer. Não deixe de conferir nossas listas de: Top 10 Sinfonias Top 10 Concertos para Piano Top 10 Sonatas para Piano

  • Brahms - O 2º Concerto para piano - Análise

    Falei sobre o 1º Concerto para Piano em Orquestra, em Ré menor, Op. 15 nesse post - é por isso que eu não sou contra as obras terem apelidos. Facilita muito. O Concerto Nº 2 para Piano e Orquestra, em Si bemol maior, Op. 83 é do que trataremos aqui. Licença pra ser pessoal aqui. Conheci essa peça na adolescência, talvez 12 anos. Na época achava a coisa mais romântica (falo do romantismo, movimento cultural do século XIX) que já tinha ouvido. Eu tinha uma namorada imaginária, e era com ela que eu escutava, deitado no chão em frente ao aparelho de som. E também eu gostava de colocar o vinil - tenho até hoje - e ficar lendo o encarte. Era aquela coleção da Editora Abril, que vinha com um libreto falando da vida do compositor e outro falando da obra e da interpretação. Sempre que chegava no final da biografia, quando eu sabia que o compositor ia morrer, eu ficava pensando: "não vou me emocionar dessa vez", só pra cair no choro quando morria. Eu o conheci antes do primeiro, antes mesmo das sinfonias. Brahms era um homem sério, taciturno, e sua vida, sem graça. Nunca casou, só se relacionando com prostitutas e era apartidáro e ateu. As duas únicas coisas emocionantes em sua biografia são a relação com a família Schumann e o embate Brahms-Wagner. Os Schumann Em 1853 Brahms é recebido por Robert e Clara Schumann em sua casa - ele andava sem rumo e seu amigo Joseph Joachim, um grande violinista da época, fez a ponte com os Schumann. O velho compositor já apresentava sinais de seu estado mental precário, mas escreveu palavras generosas e proféticas sobre Brahms: "... jovem que, já no berço, foi embalado pelas graças e pelos gênios... Apresenta todos os indícios que nos autorizam a proclamá-lo um predestinado... Além disso, tem uma elevada virtude, a modéstia... Nós lhe damos as boas vindas como um mestre entre os mestres." Robert Schumann Acontece que Brahms e a esposa de Schumann, Clara, se apaixonaram. Mas Brahms tinha uma personalidade esquisita: sexo, só com prostitutas, sem ligação emocional; e amor, só se fosse sem sexo. Além disso, ele jamais ficaria com ela, mesmo depois da morte de Schumann, em 1856 - tinha Schumann como um pai. Nos últimos estágios da doença, e após uma tentativa de suicídio, Robert foi internado. Brahms voltou imediatamente à casa da família para cuidar de Clara e das crianças (ela era muito atarefada, tinha uma carreira internacional como pianista e era compositora). Além disso, ela não podia entrar no asilo masculino, de modo que Brahms fazia a comunicação entre Robert e ela. Depois que ele morreu eles continuaram bons amigos e, dizem, platonicamente apaixonados. Brahms X Wagner O compositor Richard Wagner encarnava um mito. Era o maior compositor de ópera (que ele chamava de dramas musicais) do mundo. Brahms nunca escreveu ópera, era apegado às chamadas velhas formas (sinfonia, concerto, sonata - musica basicamente instrumental). Não que ópera fosse uma coisa moderna, existia desde o Barroco. Mas Wagner trazia o novo, o bombástico, o apaixonadamente romântico para a música. Ele defendia que a música tinha que descrever alguma coisa. Que música simplesmente por ser música era algo sem propósito. Não houve embate sério entre os dois compositores em si, mas o mundo se dividia entre os Wagnerianos e os Brahmsianos. Quando saía uma sinfonia de Brahms, metade da plateia aplaudia em deleite e a outra permanecia fria, vindo a escrever críticas com tendencias claramente anti-Brahms. Sobre a sua terceira sinfonia, por exemplo, diziam que não tinha uma melodia cantável (como se isso fosse defeito... - e tinha, sim), que ele compunha 15 minutos de música sobre um material parco e vago (coisa que todos admiravam em Beethoven) e que a orquestração não tinha imaginação (outra mentira). Isso, que dividiu a Europa na segunda metade do século XIX, só iria acabar no modernismo, que aí nada mais importava. Nem formas velhas, nem óperas românticas. Mas a despeito disso, no século XX foram escritas mais sinfonias que em qualquer outro. O Concerto Nº 2 Composto em 1881, ele tem quatro movimentos: Allegro non troppo Allegro appassionato Andante Allegretto grazioso—Un poco più presto E é bem longo, ocupando muitas vezes um CD inteiro. Em concertos, é sempre o prato principal, a outra parte tem que ser mais leve. Desde sua estreia, em 1881, em Budapeste, com o compositor como pianista, revelou-se um tremendo sucesso. Ainda maior que o do primeiro concerto. O fato de ser escrito em 4 movimentos revela a intenção de Brams de que o concerto fosse visto mais como uma peça sinfônica - ou seja, que o público não espere grandes exibições de virtuosismo do tecladista. Não obstante, a obra é tremendamente difícil para o solista. Mas se a escutarmos como quem escuta uma sinfonia, tem mais sentido. Essa concepção de "sinfonia com piano" não é nova. Também não é usada aqui pela última vez. Mas esse é um dos exemplos máximos de peça em que a escrita para piano se mescla impecavelmente com a da orquestra. Acima, a pianista chinesa Yuja Wang toca com a Orquestra Filarmônica de Munique, regida por Valery Gergiev. 1º Movimento - Allegro non troppo O concerto começa com um anúncio da trompa (3s), logo seguido de uma leve pontuação do piano (9s). Isso duas vezes. Aí as madeiras, seguidas pelas cordas, fazem aparecer um motivo (28s) que vai ser muito importante na obra. Segue-se um trabalho mais virtuosístico do piano (43s). E aí vem a exposição em si. Em si bemol (1m43s). O tema é o que se segue. Se não sabe ler partitura, acompanhe o desenho: uma subida, uma descida, uma nota curta e uma longa (a nota branca). Depois uma descida, outra descida e a repetição da nota curta com a longa. Só. E o movimento vai te mostrar como Brahms trabalha com realmente pouquíssimo material, só que no bom sentido. Só essas três primeiras notas, serão exploradas à exaustão. A segunda frase também. Na verdade, o trabalho que ele faz é tão extensivo que não dá pra eu colocar coisa por coisa aqui. Peço que procure identificar as duas frases acima por todo o movimento. Elas aparecem triunfantes, ameaçadoras (3m16s), heróicas (11m24s), de toda forma que você imaginar. 2º Movimento - Allegro appassionato O scherzo (não nomeado) do grupo (18m03s). Como o movimento anterior, tudo está no começo. Quase tudo. O trio do movimento, contém uma das páginas mais difíceis da literatura (23m23s), uma sucessão de oitavas contrárias no piano. Logo uma passagem lírica deste (23m48s) faz voltar o trio em tutti (toda a orquestra) para anunciar a volta do scherzo (25m02s). Extremamente bem escrito, tanto em seu uso do piano e da orquestra quanto nas proporções, é um movimento trágico com vários momentos de calmaria e lirismo. 3º Movimento - Andante Nesse movimento (27m40s) o primeiro violoncelo é importante ao ponto de, às vezes, na contracapa do disco, vir o nome da pessoa. É de uma beleza única, uma das mais belas páginas da litrertura musical. Um diálogo respeitoso (um nunca invade a fala do outro) entre o piano e o cello. Havia essa prática de destacar 1 violoncelo para uma parte importante nos movimentos lentos: veja o 2º Concerto de Franz Liszt e o Concerto de Clara Schumann. A melodia aparece em menor (33m54s), com um ar soturno, para dar voz ao clarinete (34m33s), em uma frase longa que desemboca no tema do violoncelo (36m10s), dessa vez em fá sustenido maior, mas logo voltando para original si bemol maior, dessa vez, com piano e violoncelo realmente conversando. O movimento acaba placidamente com motivos antes apresentados. 4º Movimento - Allegretto grazioso—Un poco più presto Esse movimento pode ser tocado de várias maneiras: mordaz, inocente, triunfante... Yuja Wang e Gergiev tocam brincando. Como eu não gosto de Finales, é o meu menos favorito, mas ainda assim, tenho que reconhecer sua excepcional escrita para piano e para orquestra, e o sabor húngaro de alguns dos seus momentos. E reconheço também que é um ótimo final para esse glorioso concerto. Não é um rondó propriamente dito, mas tem elementos de um. Aqui, diferente dos outros movimentos, em que Brahms se limita a uma economia de material temático, temos 5 temas apresentados no começo. Todos são devidamente desenvolvidos. Esse grandioso concerto, com todos os seus elementos de saga, viajando o mundo inteiro, era inédito até então, até mesmo em suas proporções. Foi um sucesso desde a estréia, mantendo-se no repertório desde então como um dos mais titânicos exemplares de obra concertante romântica. Gravações Importantes O concerto tem muitas nuances, de modo que é impossível uma só interpretação captar todas. Por isso listei um bocado aqui em baixo. Mas qualquer que você escolher vai ser excelente. - Emil Gilels, com Eugen Jochum regendo a Filarmônica de Berlim - Assim como no 1º Concerto, essa dupla + orquestra faz uma gravação que serve até hoje de referência. - Nelson Freire, com Riccardo Chailly regendo a Orquestra do Gewandhaus de Leipzig - Também assim como o 1º Concerto, Freire/Chailly fazem a gravação mais falada (e bem falada) da atualidade. É um disco duplo que tem em todas as estantes de amantes de música clássica. Existe um certo consenso de que essas gravações dos dois concertos são definitivas. Mas, como eu disse, a obra tem nuances. - Hélène Grimaud, com Andris Nelsons conduzindo a Filarmônica de Viena - Hélène entra nessa lista não porque eu precisava colocar uma mulher (poucas gravaram os concertos de Brahms), mas porque o que ela e Andris Nelsons fazem é de arrepiar. - Vladimir Horowitz, com Arturo Toscanini e a Sinfônica da NBC - O pianista e seu sogro, o irascível regente italiano, gravaram poucas vezes juntos. Essa aqui, de 1948, foi muito importante, mesmo Horowitz admitindo que não gostava muito do concerto e achando que tocou mal. Bobagem, Volodya, vc arrasa. - Wilhelm Backhaus, com Karl Böhm e a Filarmônica de Viena - Eu lembro. Comprei o disco da coleção Great Pianists of the 20th Century do Wilhelm Backhaus sem saber do repertório. Quando vi que tinha o Concerto Nº 2 de Brahms e o escutei, queria contar pra todo mundo. Era um registro ao vivo em 1952 com a mesma orquestra, regida por Carl Schuricht. Essa aqui é de 1967, de estúdio, com Böhm, e tem o som ainda melhor. O pianista estava com 83 anos! - Sviatoslav Richter, com Lorin Maazel e a Orquestra de Paris - Das gravações de Richter, o grande intérprete desse concerto, eu ecolho essa daqui? É. É uma das que têm melhor som e o acompanhamento de Maazel com a OdP é lindo! - Daniel Barenboim, com Gustavo Dudamel regendo a Staatskapelle de Berlim - A Staatskapelle de Berlim, depois que tomou Barenboim como líder, tem crescido muito. Aqui ele cede o pódio à celebridade venezuelana Gustavo Dudamel e vai tocar piano. E como toca. São gravações ao vivo (tem o Concerto 1, também). - Claudio Arrau, com Bernard Haitink e a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã - Claudio Arrau, com seu sonzão mostruoso, gravou a peça mais de uma vez. Essa é a melhor: está com a orquestra perfeita, um regente talentoso e os engenheiros de som fazem um ótimo trabalho. - Maurizio Pollini, com Claudio Abbado e a Filarmônica de Berlim - Eles dois, Pollini e Abbado, gravaram esse concerto outra vez, com a Filarmônica de Viena. Aliás, acho que foi antes. Eles gravaram tudo: os concertos de Beethoven, Bartók, Brahms, Schumann. Em Chicago, Viena e Berlim. A dupla italiana era certeira, dois intérpretes um tanto discretos e tecnicamente absolutos. - Joseph Moog, com Nicholas Milton regendo a Deutsche Radio Philharmonie - Foi a última gravação desse concerto que me impressionou. A sonoridade é refinada, camerística e tem um ar de época. Joseph Moog é um grande pianista. - Lars Vogt tocando e regendo a Northern Sinfonia - A única gravação nessa lista de alguém que toca e rege ao mesmo tempo. Mas é porque é perfeita. A orquestra está sensacional. Parabéns para todos os envolvidos. - André Watts, com Leonard Bernstein e a Filarmônica de Nova Iorque - De 1968, quando Watts tinha 22 anos. Ele já tinha gravado com Bernstein, aos 17, o Concerto Nº 1 de Franz Liszt, com imenso sucesso. Ele foi do anonimato à fama rapidamente. Infelizmente não grava nada há anos. O único pianista negro a entrar para a coletânea Great Pianists of the 20th Century. Sua interpretação é forte e precisa, André nunca fez mágica com o som, mas toca com facilidade as passagens mais difíceis, e com muita poesia. Leia mais sobre o 1º Concerto aqui. Gostou do post? Não esqueça de comentar e de clicar no coraçãozinho, pra gente saber que você gostou do conteúdo.

  • das kino na arara: A Cinemateca Brasileira pede socorro

    Salvaguardando o maior acervo audiovisual da América do Sul, a Cinemateca Brasileira é uma instituição pública responsável pela preservação e divulgação da produção audiovisual brasileira. Seu trabalho essencial percorre desde a coleta, catalogação e difusão, até áreas voltadas à pesquisa, estudo e ressignificação das obras audiovisuais. Seu acervo conta com cerca de 250 mil rolos de filmes e mais de um milhão de documentos relacionados ao cinema, como fotografias, roteiros, cartazes, livros, entre outros. Entre os exemplos de material disponível estão os roteiros originais de Glauber Rocha, os filmes da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, as primeiras imagens da Rede Tupi, enfim, um patrimônio de valor inestimável. Como reforço da nossa memória audiovisual, visitar a Cinemateca Brasileira deveria ser um passeio obrigatório a todo(a) brasileiro(a), ao menos uma vez na vida. Localizada na Vila Clementino, na Zona Sul de São Paulo, a Cinemateca vive, em 2020, a sua pior crise, e os problemas vão muito além da situação de pandemia, que impossibilita a visitação das pessoas. As dificuldades se iniciaram em 2013, quando uma intervenção do Ministério da Cultura destituiu a diretoria da Cinemateca, retirando sua autonomia operacional. De lá para cá, a Cinemateca vive um cenário constante de enfraquecimento institucional. O descaso da Secretaria do Audiovisual do antigo Ministério da Cultura (MinC) desencadeou, em 2016, o quarto incêndio sofrido pela instituição ao longo sua história, no qual mil rolos de filmes antigos foram perdidos, situação tratada com total desconsideração pelas autoridades. Tivemos, em fevereiro deste ano, mais um caso de desrespeito à cinemateca: Em enchente que danificou 113 mil cópias de DVDs, a Secretaria do Audiovisual se absteve totalmente das responsabilidades e esta situação, inclusive, nunca sequer foi comentada pela ex-secretária da Cultura, Regina Duarte, atualmente cotada por Jair Bolsonaro para coordenar a própria cinemateca. Sem quaisquer medidas de proteção, falta de manutenção, atraso no pagamento dos funcionários e repasse nulo do Governo Federal para que a cinemateca sobreviva, a instituição, que corre o risco de ter cortada a energia elétrica por falta de pagamento, passa por seu pior momento. Sem cuidados técnicos e condições propícias de conservação, arriscamos perder a totalidade do nosso acervo, uma deterioração da nossa própria memória coletiva e social. Foi divulgado, em 15 de maio, um abaixo-assinado intitulado “Cinemateca pede socorro”, com assinatura de diversos profissionais do setor audiovisual, como cineastas, produtores, críticos, professores, estudantes, curadores, programadores e colaboradores, o texto reporta o total sucateamento que vem sofrendo a instituição. No Twitter, o cineasta Kleber Mendonça Filho enfatizou a questão: “Isso é um pedido de socorro no pior momento dessa instituição que cuida da memória do Brasil”. O diretor estadunidense Martin Scorsese também manifestou apoio e indignação e cobrou explicações sobre o caso. Além de ser uma figura central na fundação da Cinemateca, o crítico e historiador do cinema Paulo Emilio Salles Gomes reforçava sua concepção de Cinemateca voltada uma educação para o cinema. Ocorre que hoje, muito pelo contrário, o que vemos é um governo que não tem projeto para a cultura, e declara uma guerra cultural contra quem tem. Além de deixar morrer os corpos, levando adiante sua necropolítica, também pretende matar as almas. No site da Federação Internacional de Arquivos Cinematográficos é possível ver vários vídeos de apoio à Cinemateca Brasileira. As cinematecas são, geralmente, um local de encontro, um museu, um ponto turístico, motivo de orgulho da população do país. No México, por exemplo, a Cinemateca vive lotada. Em Bogotá, a Cinemateca foi, em 2019, lindamente restaurada. Por aqui, o audiovisual tenta sobreviver. Que dias melhores venham para a Cinemateca Brasileira! Jéssica Frazão é produtora audiovisual e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). É integrante do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema (Elviras) e colunista cinematográfica no jornal O Município Blumenau, com "Das Kino - Um olhar crítico sobre o cinema".

  • Os Milagres de Mozart - Concerto para Flauta e Harpa - Análise

    As circunstâncias para que justamente Wolfgang Amadeus Mozart compusesse um Concerto para Flauta, Harpa e Orquestra tinham que ser as que foram. Decidido mais uma vez a tentar a vida fora de sua Salzburgo natal, onde seu pai insistia que ficasse, o jovem de 21 anos vai com a sua mãe a Paris. Lá ele se aloja na casa do Duque De Guines, que lhe encomendara aulas de composição para sua filha, Marie-Louise-Philippine. No começo, Wolfgang ficou encantado, a menina era talentosa, o duque tocava flauta muito bem, segundo o próprio Mozart, e encomendou esse concerto para suas próprias habilidades, bem como as da filha na harpa. Mozart compôs essa obra absolutamente maravilhosa, que até hoje está no repertório de qualquer flautista ou harpista. Acontece que a viagem a Paris não foi muito boa. Primeiro porque o duque, ao final das aulas, não quis pagar o que devia a Mozart. Ofereceu metade (que louco!), que o compositor recusou. Pra piorar, a mãe dele acabou morrendo de uma doença que nunca ficou esclarecida. Mozart estava em dívidas, tinha que penhorar objetos constantemente, e a demora em chamar um médico possivelmente foi por causa da falta de dinheiro. Uma coisa que surpreende algumas pessoas às vezes é como, em períodos de penúria, ele compunha peças tão leves e angelicais. Temos que lembrar que a morte prematura e a doença eram muito comuns naquela época. Ele mesmo era um filho que tinha vingado junto com a irmã, de um total de sete que nasceram. Resignava-se e se seguia a vida. Isso e o fato de que ele era um músico realmente prodigioso. Veja aqui um exemplo. Enfim. Ele compôs rapidinho, como costumava, e tudo leva a crer que a peça foi executada pelos três. E nunca mais ele tocou no assunto. A peça está pronta, e muito bem acabada, mas ele não escreveu as cadências, de modo que hoje, praticamente toda gravação tem uma versão diferente das cadências - ele obviamente escreveu pausas e a palavra cadenza para indicar onde as queria. O Concerto Em Dó Maior, esta obra singela e juvenil é o K. 299 de Mozart. Koechel, ou K. é a catalogação mais aceita para as obras dele. Equivale ao Opus. Ele compôs até o K. 626, quando, aos 35 anos, faleceu. Nos concertos até essa altura (antes do século XIX), quando os solistas eram mais de um, chamava-se a eles de concertino e à orquestra, de ripieno. A orquestra do Concerto para Flauta e Harpa é pequena, constituindo-se das cordas, dois oboés, duas trompas e os solistas. Abaixo, o flautista Mathieu Dufour, a harpista Marion Ravot, com a Orquestra da Academia Karajan da Filarmônica de Berlim, sob a regência de Ton Koopman. 1º Movimento - Allegro A obra abre luminosa (30s), com um acorde que leva a uma série de arpejos ascendentes e descendentes. Já é o Tema 1. Note que essa parte é da orquestra, mas era prática comum o concertino se juntar ao ripieno, especialmente no começo da Exposição. Hoje em dia nem sempre se faz isso. 1m09s temos o Tema 2, bem mais calmo e cantante. Com 1m52 começa a exposição dos solistas. Eles praticamente repetem o que fez a orquestra, mas com pequenos arabescos (2m05s), já desenvolvendo o material temático. Aos 2m40s temos esse novo Tema, que é apresentado pela flauta. Aos 3m começa um belo jogo entre as cordas e a flauta e que vai ser explorado posteriormente. Aos 3m22s o Tema 2 volta. E aos 4m48s entra o Desenvolvimento, em que eles trabalham todo o material apresentado. Aos 6m01s vem a Reexposição (ou Recapitulação). Aqui eles vão apresentar os temas 1 (6m01s) e 2 (6m21s) e 3 (6m40s) novamente e abrir espaço para a cadência. Antes, repare nesse momento (7m30s), como a articulação da flauta e dos violinos é perfeita. Aliás, o fraseado inteiro é perfeitamente sincronizado. A cadência se inicia aos 8m43s e vai até 9m52s, quando a orquestra retoma só pra finalizar. 2º Movimento - Andantino O segundo movimento (10m42s) é o milagre de Mozart. Ele apenas apresenta um Tema longo e vai variando - tática que Beethoven aproveitaria, por exemplo, no 2º movimento do seu Concerto para Violino. Começa com as três notinhas em staccato (10m42s) seguidas pela bela frase que as complementa (10m57s). Poucas são as gravações que expõem com nitidez a característica harmônica desse trecho. Especialmente as violas e os segundos violinos, fazem notas dissonantes maravilhosas. Dá pra perceber bem na versão de Hogwood (veja abaixo). Aos 11m26 o concertino repete o longo Tema, e aos 11m56s eles o desenvolvem brevemente. Aos 14m14s repete-se mais uma vez com consequências diferentes. E agora leva a uma cadência (17m09s). Aos 19m07s a orquestra faz seu retorno pra encerrar o movimento. 3º Movimento - Rondeau - Allegro Aos 20m10s tem início o Rondó, que originalmente era uma dança, mas que evoluiu para uma forma. É mais uma forma do que qualquer coisa. O Tema 1 é sucedido da parte 2. Aí volta o Tema 1, dessa vez seguido da parte 3. Enfim, A-B-A-C-A-D-A-E-A... Se assemelha a uma brincadeira. Repare, por exemplo, quando a harpa entrega uma ideia (21m21s) e a flauta devolve (21m31s) um pouco diferente. Faz parecer que os músicos estão improvisando. Volta o Tema 1 (23m55s).Depois, Tema 1 no modo menor (25m14s) e cadência (27m40s). Até que a orquestra volta novamente (28m36s) para encerrar. Considerações Finais É um lindo concerto da juventude de Mozart. Ele obviamente não tocava harpa, mas a escrita não é ruim. Ainda era um instrumento com pouca notoriedade, mais um brinquedo de moças da alta sociedade europeia. Na harpa não se usa o dedo mindinho, de modo que alguns padrões de 5 notas ou 10 são identificáveis como tendo sido compostos para o teclado e depois transpostos para ela. Ademais, nos dois primeiros movimentos é praticamente um concerto para flauta com orquestra e harpa acompanhantes. A harpa só se manifesta mais no terceiro movimento. Gravações Recomendadas - Lisa Beznosiuk (flauta) e Francis Kelly (harpa), com a Academy of Ancient Music, regida por Christopher Hogwood - Christopher Hogwood, grande maestro inglês, e sua orquestra, AAM, são especialistas em repertório pré século XIX. Isto é, tocam com instrumentos do século XVIII (ou cópias fieis) e com técnicas dessa época. Veja mais sobre isso aqui. Essa gravação, de 1987, é impecável. Todas as articulações, os andamentos e as dinâmicas são decisões acertadas. - Karlheinz Zoeller (flauta) e Nicanor Zabaleta (harpa), com a Filarmônica de Berlim, regida por Ernst Märzendorfer - Uma versão bem conhecida. Zabaleta era o harpista do século XX. O som é meio problemático. A harpa parece ter uma microfonação mais distante, mas parecem querer compensar isso deixado o volume mais alto. Mas eles tocam impecavelmente. É uma interpretação romântica da obra, ou seja, usam uma orquestra grande (mais cordas) e fraseados modernos. É de 1962. - Jacques Zoon (flauta) e Letizia Belmondo (harpa), com a Orquestra Mozart, regida por Claudio Abbado - Essa é a ideal pra quem fica indeciso entre uma abordagem (a "de época") e a outra, romântica. Essa aqui, de 2011, é mais como se faz hoje, isto é, com uma orquestra moderna, mas sem exageros, nem de tamanho nem de arroubos sentimentais. Mas também não tem muitas "regras" como têm as "autenticas". Gostou do post? Vai gostar das nossas outras análises. E vai comentar, você vai comentar - olhe bem fixo pra cá; você está começando a sentir sono, os olhos pesados. Mas sabe que se comentar isso passa. Tchaikovsky - A Sinfonia Nº 6 "Pathétique" Rachmaninoff - Concertos Nº 1, Nº 2, Nº3 e Nº 4 Debussy - Os Prelúdios para piano: Livro 1 e Livro 2

  • Beatriz - Edu Lobo e Chico Buarque

    Eu mesmo cantei Beatriz. Minha filha se chama Beatriz, então, não poderia ser outra pessoa. Perguntei ao Renato Braz, mas ele disse que preferia gravar outra, que essa ele já tinha gravado. Ele acabou gravando "Sobre Todas as Coisas". Não tive dificuldade de achar o tom certo pra cantar, porque resolvi que gravaria tirando 95% do rubato que o Milton Nascimento incutiu nela. Claro que eu não consigo cantar como Milton Nascimento. Principalmente com excesso de rubato. Vou dizer uma coisa. Cantar com esse tanto de rubato do Milton, só o Milton. Eu tive que fazer quadradinha. Mas ficou bem bonitinha. Veja como cada nota conta, tanto da voz como dos instrumentos. Violão, voz, flauta e arranjo: Rafael Torres Piano: Leonardo Torres Bandolim: Ayrton Pessoa Baixo: Ednar Pinho Beatriz Edu Lobo e Chico Buarque Olha Será que ela é moça Será que ela é triste Será que é o contrário Será que é pintura O rosto da atriz Se ela dança no sétimo céu Se ela acredita que é outro país E se ela só decora o seu papel E se eu pudesse entrar na sua vida Olha Será que é de louça Será que é de éter Será que é loucura Será que é cenário A casa da atriz Se ela mora num arranha-céu E se as paredes são feitas de giz E se ela chora num quarto de hotel E se eu pudesse entrar na sua vida ​ Sim, me leva para sempre Beatriz Me ensina a não andar com os pés no chão Pra sempre é sempre por um triz Ai, diz quantos desastres tem na minha mão Diz se é perigoso a gente ser feliz ​ Olha Será que é uma estrela Será que é mentira Será que é comédia Será que é divina A vida da atriz Se ela um dia despencar do céu E se os pagantes exigirem bis E se um arcanjo passar o chapéu E se eu pudesse entrar na sua vida

  • Papo de Arara: Gidalti jr.

    No ano de 2018 o mais importante prêmio literário do Brasil, o Jabuti, lançou a categoria “Quadrinhos” em sua premiação. O primeiro vencedor dela foi o mineiro natural de Belo Horizonte criado em Belém do Pará Gidalti Jr. Embora seu romance gráfico Castanha do Pará (cuja breve resenha que fiz é possível de ser lida aqui) tenha sido lançado em 2016, foi neste ano com a premiação e, contraditoriamente, com uma censura, que sua obra ganhou espaço na mídia. Em uma exposição num shopping de Belém um dos painéis do artista (justamente a pintura que serve de capa para Castanha do Pará) foi coberto com um lençol a pedido da polícia militar. De São Paulo, o artista que também é professor universitário, concedeu esta entrevista onde fala de sua estreia no mundo da arte sequencial com sua obra premiada com o Jabuti e também indicada ao HQ mix de melhor obra independente. Foi nesse período, cerca de 3 anos atrás que eu entrevistei Gidalti. Republico não somente a entrevista dele aqui, como, numa troca de e-mails rápida, fizemos uma segunda rodada de perguntas "atualizando" a primeira entrevista. Seguem agora ambas aqui nessa postagem. O romance gráfico Castanha do Pará do Pará é sua primeira incursão pelos quadrinhos. Quanto tempo entre a ideia inicial e sua publicação? Sim. De fato a novela gráfica Castanha do Pará é o meu primeiro trabalho de fôlego como autor. Já havia produzido material numa linha mais experimental e pessoal, nada que eu tenha publicado ou tentado publicar. Desde o inicio da ideia da minha HQ, fui com uma ideia objetiva de publicar uma novela gráfica robusta. O tempo de produção durou aproximadamente 3 anos. Ele é uma adaptação de um conto, correto? O conto Adolescendo Solar de Luizan Pinheiro, que eu usei de inspiração para criar o enredo do Castanha do Pará, é a maior influencia na obra. Em seguida, memórias de minha infância vivida e inventada. Ainda, Belém e suas peculiaridades. Sou natural de Belo Horizonte, Minas Gerais, e fui muito criança pra Belém, onde eu vivi minha infância, minha adolescência e parte de minha fase adulta. E tuas referências e influências de modo geral? As minhas referências são bem diversas. A princípio poderia citar o Milton Hatoum, que é um exemplo de como explorar bem o contexto do Norte, assim como outros escritores da região, como Salomão Larêdo, Dalcídio Jurandir, Edyr Augusto Proença. Também cito outras influências como Machado, Franz Kafka, Mia Couto e Ariano Suassuna. No que se refere a parte gráfica e de narrativa, curto muito o trabalho de Jon J. Muth, Enki Bilal, Shiko, Sergio Toppi, Greg Tocchini, Juanjo Guarnido, Pablo Echevarria e meu professor Carcamo. Estou sempre acompanhando como o Brasil é retratado no cinema. Me atrai o olhar de Walter Salles em Central do Brasil e Abril Despedaçado, Fernando Meirelles em Cidade de Deus, Anna Muylaert em Que Horas Ela Volta, Kléber Mendonça Filho em O Som ao Redor, José Padilha em Tropa de Elite e muitos outros. Tenho muitas referências nas artes plásticas e em especial na pintura. Para não me alongar, citaria o Anders Zorn, Sargent e Sorolla. Queria também que você explicasse essa questão da censura. Eram painéis expostos num shopping em Belém? Como foi o convite para essa expo. Eram reproduções suas em painéis, correto? Como chegou a notícia da censura da sua pintura? Eu participei de uma exposição que circula em alguns centros comerciais de Belem. É uma exposição de quadrinistas e artistas que estão no contexto do de produção de quadrinhos no Pará. Uma das obras que estavam na exposição (uma réplica da capa do meu livro) figura uma cena em que um policial militar está correndo atrás de um menino de rua, que é o protagonista do meu livro. É uma cena de ação em que o policial faz um movimento com o objetivo de capturar ou prender o menino. Um movimento de repressão enquanto o menino foge. Aparentemente, essa imagem incomodou um grupo de pessoas que tem afinidade ou vínculos com a polícia militar do Pará, e esse grupo se manifestou por meio das redes sociais de maneira incisiva e até ameaçadora, exigindo a retirada da imagem da exposição. E foi o que aconteceu. Fiquei sabendo do ocorrido através de um jornalista que me procurou perguntando o que eu achava da retirada da obra da exposição. Nesse momento que eu comecei a tomar conhecimento do ocorrido. Como você está lidando com a censura de sua obra pela polícia do Pará? O caso foi resolvido, já? Como isso vem repercutindo? Sobre o caso da censura, eu me manifestei contra por meio das redes sociais e a resposta do público geral e da imprensa foi muito gratificante, pois gerou nas redes sociais e na mídia uma grande manifestação a favor da liberdade e de solidariedade a minha pessoa. Infelizmente, a capa foi retirada da exposição e substituída por outra mas para a administração do shopping a ação pegou muito mal. Apesar do stress, o livro ficou mais exposto ainda. Foi um tiro no pé para os censores. Castanha do Pará pode ter sido sua primeira obra, mas que outras ideias passaram pela sua cabeça antes dela? Ou Ela realmente foi sua primeira ideia de quadrinho? Antes de produzir o álbum eu queria fazer quadrinho de super herói. Eu me via como um desenhista da marvel, dc ou Vertigo. Me via mais como uma peça dentro de uma indústria, por conta de um desconhecimento de minha parte em relação as possibilidades desse universo. Enxergava as possibilidades de atuar na indústria americana era algo mais palpável, uma vez que minhas referências, os artistas que eu admirava atuavam nessa linha. Somente depois que eu ampliei meu universo artístico, seja por meio de influências vindas do cinema, da literatura clássica, das artes plásticas e mesmo de outras abordagens em fazer e pensar histórias em quadrinhos (como o mercado europeu e os autores brasileiros) que percebi que poderia caminhar nessa linha. O projeto foi inscrito no Catarse, demorou muito para conseguir angariar as doações necessárias para o orçamento? sim, o livro foi financiado por meio de financiamento coletivo. Não demorou para que o projeto arrecadasse a verba para custear a impressão e a distribuição. Isso se deve ao fato de que antes de publicar o projeto no catarse, eu já tinha um grande investimento de labor no trabalho, então quando expus o projeto na plataforma, ele já estava praticamente pronto para ser impresso na gráfica. Isso gerou credibilidade nos apoiadores e as pessoas investiram sabendo que o trabalho já estava muito proximo de chegar em suas mãos. Alguns apoiadores receberam o livro antes mesmo da campanha no catarse terminar. E a sensação de ganhar o Jabuti, aliás, de ser o primeiro vencedor da novíssima categoria de Quadrinhos do prêmio Jabuti? Como você soube que estava concorrendo e qual foi a sensação de ganhar? Ganhar o prêmio jabuti foi algo muito especial. O quadrinho nacional está em uma fase excepcional, com muitas obras e autores ganhando cada vez mais destaque.Estamos ganhando espaço, entretanto, o mercado ainda não é totalmente solido. A maioria dos autores que produz quadrinho autoral ainda se encontra em uma zona de risco. A abertura da categoria no prêmio Jabuti confirma os méritos dessa produção. Submeti o projeto ao prêmio sem esperança de estar entre os finalistas, tendo em vista a quantidade de negativas que tive anteriormente. Quando soube que era um finalista, já me sentia muito realizado e ganhar o primeiro lugar foi de fato um reconhecimento que não esperava. Fiquei muito feliz e animado para produzir mais e melhor. Já pensa em próximos projetos em quadrinhos? Sim, estou sempre com muitos projetos em mente. Alguns em fase de amadurecimento, outros mais imaturos. Ainda não sinto a vontade para expor detalhes de trabalhos que ainda estão em fase de amadurecimento, mas não devo demorar a entregar novidades aos meus leitores. Depois dessa entrevista, publicada no jornal onde trabalhava, entrei em contato alguns meses atrás com o Gidalti, não somente para revisitar essas perguntas, mas também para fazer outras. Uma espécie de segundo tempo da nossa conversa, um segundo round. Segue abaixo. 1) Sabemos que um quadrinho no estilo de Castanha do Pará, que muitos usualmente chamam de "Álbum" levam muito tempo para serem feitos. Castanha do Pará por exemplo, você comentou que demorou cerca de 3 anos para sair do papel. Mas de lá para cá algumas das suas ideias ganharam força o suficiente para estarem perto de serem impressas? Sim. Estou a alguns anos envolvido na pesquisa, roteiro e arte de um novo projeto. Será publicado em 2021 e tem o apoio do Proac, o programa de ação cultural de São Paulo. 2) Quando digitamos seu nome no Google aparece logo em seguida que sua profissão é de professor. Eu também já fui professor por cerca de dez anos. É um trabalho fascinante, mas que exige muito e toma tempo. Particularmente eu me inspirava muito, contudo, não tinha tempo para colocar nada (ou quase nada ) no papel. Era paradoxal. Para você, como que ser professor interfere no seu fazer artístico e vice-versa? Ser professor está diretamente ligado ao meu fazer artístico, pois a vivência no ambiente acadêmico me permite estar em constante aprendizado. Penso muito na realização de obras de arte como algo bastante similar a pesquisa científica. O pensamento acadêmico ajuda muito a gerenciar todas as fazes da produção de quadrinhos, por exemplo. E no fim, parte de minhas intenções passam em gerar saberes a parir de minha obra. 3) Como você avalia o impacto do prêmio Jabuti hoje na sua vida pessoal, profissional e para os quadrinhos de um modo geral? Os impactos ainda são sentidos, permanentes, digamos assim, ou é necessário esquecer isso para focar no futuro, em coisas novas e não ficar "deslumbrado" com o prêmio? Obviamente que há impactos permanentes e a maioria destes é no sentido positivo. Como toda conquista, é preciso celebrar e virar a pagina. Sou movido pela novidade e pela inventividade e procuro me colocar sempre fora da zona de conforto. Grandes conquistas surgem a partir dessa lógica de que nada é garantido. 4) O cenário da literatura independente, especificamente de quadrinhos, de dois anos para cá, como você avalia as facilidades e dificuldades para quem quer publicar? Mudou muito, mudou pouco? Não tenho acompanhado de perto as mudanças mais relevantes dos últimos dois anos. Mas posso dizer que, hoje, as possibilidades são múltiplas e há espaço para todos. As pequenas e novas editoras, as plataformas de financiamento e os editais de cultura são determinantes nesse sentido. O mercado continua carente de mais leitores, temos problemas de distribuição, mas o contexto atual é muito dinâmico e temos que estar sempre resilientes e produzindo sempre. Atualmente Gidalti se prepara para lançar o álbum Brega Story que explora o rico universo da música brega paraense. Agradecemos à leitura e se quiser ler nossas outras entrevistas, basta clicar aqui.

  • O Visconde Partido ao Meio

    O mundo é feito de dualidades. Quente e frio. Claro e escuro. Luz e Sombra. Amor e ódio. Mas acredito que entre as dualidades mundanas, nenhuma tem mais voga que a entre o bem e o mal. E é esta que Ítalo Calvino traz a baila no seu O Visconde Partido ao Meio, obra de 1952, que teve sua primeira edição brasileira em 1988. Ítalo nasceu em Cuba em 1923 e seguiu com seus pais, logo após seu nascimento, para a Itália. Formou-se em Letras e iniciou Agronomia, curso o qual abandou para se juntar à resistência ao fascismo durante a segunda guerra mundial, fazendo do cunho político uma presença assídua em suas obras. Em O Visconde Partido ao Meio, Medardo di Terralba, o Visconde, vai para a guerra contra os turcos, acompanhado de seu escudeiro, Curzio. Lá pelas tantas, Medardo é atingido por um tiro de canhão que o manda pelos ares, partindo-o ao meio no sentido dos pés à cabeça (meu lado biólogo me força a trazer o termo correto: partindo-o em corte sagital). Durante a noite, período de trégua, duas carroças percorrem o campo de batalha: uma para os feridos, uma para os mortos. Do Visconde só se achou metade direita do seu corpo, a qual foi colocada na carroça dos feridos, levada ao hospital e tratada. Após sua “meia” recuperação, meio Medardo volta a Terralba, mas não parece o mesmo que a deixou para a guerra. Além do físico coberto parcialmente por uma capa escura, o visconde se tornou uma pessoa má (qual a relação entre direita e maldade? Olha o cunho político aí, gente!). Quem sabe foram as experiências da guerra que o deixaram assim. Tempos depois, certa confusão se forma ao perceberem a mudança de comportamento do Visconde, que se tornou caridoso e benevolente para com os seus. O que aconteceu realmente com o Visconde, deixo para vocês descobrirem quando lerem a peça de Calvino. Mas o que “O Visconde Partido ao Meio” deixa como aviso, pelo menos para mim, é a questão do equilíbrio. Dualidades, na verdade, não são compostas por duas coisas, mas de apenas uma. Por exemplo: luz e sombra. A sombra nada mais é que a ausência de luz. Então podemos dizer que são duas coisas distintas, sendo que uma é apenas a ausência da outra? E onde começa a luz e termina a sombra, ou vice-versa? Onde começa o calor e termina o frio, sendo que o frio é apenas a ausência de calor? Não temos como dizer onde começa uma e termina a outra, porque não são duas coisas limítrofes que são invadidas conforme a circunstâncias. São apenas a mesma coisa, em “estados diferentes”. Assim como o bem e o mal, abordados na obra do Visconde. Ser benévolo o tempo todo é benéfico e garante a felicidade de si e de outrem? E ser mau? Leiam a estória do Visconde que foi partido ao meio por uma bala de canhão na guerra religiosa entre cristão e mouros e tirem suas conclusões. Curte literatura? Que tal uma lista com 10 livros diferentões pra ler como essa aqui? Ou uma resenha do livro de terror mais badalado do momento? E quem sabe um artigo sobre as principais escritoras argentinas da contemporaneidade? LEANDRO KRINDGES é Técnico Químico de profissão, licenciado em Biologia por paixão, fã de Foo Fighters a Belchior e de tirinhas, especialmente Peanuts. Sempre teve curiosidade em saber o que se passava por trás das músicas, e essa busca se tornou um hobby. Tecladista da Banda Villa Rock, arranha também violão e guitarra. Aprendeu a gostar de ler depois do Kindle.

  • Castanha do pará de gidalti moura jr.

    Castanha-do-Pará é, sem dúvida, uma obra que futuramente irá figurar em todas as possíveis listas de melhores quadrinhos brasileiros do século XXI, ou ainda em alguma antologia sobre as principais e melhores obras de arte sequencial brasileira vindo desde Ângelo Agostini até os dias atuais. Publicada em 2016 ela foi simplesmente a primeira obra a ganhar o prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira na categoria (também lançada em 2018 e, confesso, com certo atraso já) de Histórias em Quadrinhos. O prêmio, e também uma problema jurídico sobre censura que um de seus painéis expostos numa exposição num shopping em Belém, contribuíram para a repercussão do livro. Uma obra com temática necessária e, infelizmente atual, sobre a situação de garotos em situação de rua do país do ponto de vista de um único garoto, Castanha, e de uma única cidade, Belém, mas que respeitando a máxima de Dostoiévsky “cante sua aldeia e cantará o mundo” retrata praticamente todo o país. O trabalho tem uma narrativa literária paralela entre passado e presente que se complementam com ironia e sarcasmo. A narrativa tem uma forte matiz de naturalismo, dada a visceralidade de seu universo, seu cenário, sua história e seus personagens. Mas a narração visual que brinca com elementos realistas, surrealistas e expressionistas transforma tudo numa alegoria visual potente. Se Art Spielgeman ficou conhecido por Maus ao retratar judeus como ratos, alemães como gatos, poloneses como porcos e aliados como cães, aqui Gidalti retrata a partir de animais de nossa fauna urbana como gatos, cães, ratos e urubus as crianças em situação de vulnerabilidade social. A pergunta lançada por Hector Babenco em seu filme Quem matou Pixote reverbera nessa tragédia contemporânea, urbana e banal mostrando os verdadeiros culpados por tantos Pixotes (e acreditem, não são poucos, nem os Pixotes, nem os culpados). E por falar em cineastas, é inevitável vir à minha memória ao falar de uma estreia já tão premiada quanto essa, a figura de Anselmo Duarte, diretor de O Pagador de Promessas, ele falou certa vez em entrevista que largou o cinema porque se no início de sua carreira já ganhou o prêmio máximo do cinema (a Palma de Ouro em Cannes), tudo o que viesse depois (e alguns filmes vieram) seria menor. Tomara que Gidalti Jr. Pense realmente além de prêmios e siga numa profícua carreira nos quadrinhos.

  • Sobre dragões em garagens

    Tenho escrito sobre os riscos de se acreditar em afirmações falsas (tanto sobre os supostos argumentos do movimento antivax como em fake news de um modo mais geral) e me senti na obrigação de escrever sobre ceticismo. Mais especificamente sobre ceticismo cientifico. Esse termo foi cunhado por Carl Sagan, um dos maiores divulgadores da ciência de todos os tempos, que inspirou muitos jovens a seguir a carreira cientifica, eu incluso. Sei que falar sobre esse assunto sempre causa um certo desconforto, pois é exatamente nesse ponto em que percebemos que a maioria das pessoas não gosta da ciência. Elas gostam das descobertas, dos produtos da ciência. Mas não são muito fãs das perguntas que a ciência faz. Para começar preciso citar outra frase de Sagan: “A ciência é mais que um corpo de conhecimento, é uma forma de pensar, uma forma cética de interrogar o universo, com pleno conhecimento da falibilidade humana.” Mas porque essa forma de pensar causa incômodo? E qual a ligação com dragões em garagens? Vamos por partes. Em seu livro intitulado o Universo assombrado por demônios, Sagan sugere a seguinte situação. Um belo dia alguém que você conhece te diz que tem um dragão morando na garagem. Você decide ir até lá e não vê dragão nenhum. Mas seu amigo insiste que esse dragão é invisível, o que explica satisfatoriamente o fato de você não conseguir ver o tal dragão. Você põe farinha no chão para ver as pegadas, mas seu amigo te informa que esse dragão flutua. Aí você sugere que se jogue tinta em cima dele pois assim vai ficar visível. Mas seu amigo te informa de que esse dragão é etéreo, imaterial, a tinta não grudaria nele. De forma que não há como detectar aquele dragão. A essa altura você deve estar duvidando da seriedade ou da sanidade do seu amigo não é mesmo? É fácil ver nesse caso como o ceticismo pode ser útil e importante para não se deixar acreditar em afirmações infundadas. São necessárias provas irrefutáveis para aceitar essa afirmação como sendo parte da realidade. E simplesmente aceitar qualquer afirmação desse tipo pode ser perigoso além de ridículo. Portanto você diz ao seu amigo que quando ele puder detectar e fornecer alguma prova você irá acreditar. Assim como um amigo que acredita em signos, o dono do dragão tem uma crença que para você não faz sentido. Mas não parece tão grave. Agora imagina que além do seu amigo tem mais gente acreditando nisso. Não só que aquele dragão é real mas que todas as casas do mundo tem um dragão indetectável na garagem e que trazem presentes e enfeites para eles. Loucura não? Imagine que a crença ficou tão popular que não acreditar nela te exclui de grupos, deixa pessoas furiosas, faz com que duvidem do seu caráter. Adicione a isso o ingrediente emocional. Uma geração se passou e agora temos pessoas que foram criadas desde a infância acreditando nesses dragões. Eles absorveram esse ensinamento de maneira emocional, ouviram histórias sobre os dragões salvando a humanidade, essas histórias ajudaram a moldar o caráter delas. Agora quando você tenta explicar que as coisas acontecendo na vida daquela pessoa não dependem da vontade dos dragões, você também estará dizendo a ela que muitas das belas lições que seus pais lhe ensinaram sobre a vida são baseadas em afirmações sem sentido. Que mesmo sendo as pessoas que ela mais ama e admira eles estavam errados em relação ao que acreditavam e ela também está. Carl Sagan nos desafia a manter um estado mental cético, porém aberto a novas ideias e possibilidades. Afinal, você não teria problemas para acreditar na existência dos dragões se eles deixassem pegadas na farinha. Se cobrir o dragão de tinta deixasse ele visível, e se fosse possível interagir com eles, não teria nenhum motivo para discordar do seu amigo. Nesse caso o ceticismo cientifico nos diz para aceitar os dragões como realidade. Por mais incrível e surreal que seja a existência de dragões, se existem provas que não podem ser refutadas então eles são reais. Não importa quantas pessoas aceitem esse fato ou não. A primeira coisa que quero salientar é a importância da análise de evidências. Principalmente quando queremos acreditar em algo. Alguém que jamais perdeu um amigo ou um parente vai ter maior dificuldade de acreditar em comunicação com mortos do que alguém que perdeu pessoas queridas. O fato de uma afirmação parecer agradável ou reconfortante deve ser o primeiro sinal de que precisamos analisar com mais cuidado, pois somos naturalmente susceptíveis ao engano quando queremos acreditar em uma afirmação. A segunda coisa é que o número de pessoas acreditando em uma afirmação não deve ser usado como argumento para validar uma ideia. Entretanto a ideia de pertencimento a um grupo é tão forte que esse argumento é usado inúmeras vezes em nossa sociedade na ideia de que um produto mais consumido é o melhor. Para reforçar essa ideia vale até criar estatísticas e afirmações fantasiosas ainda que contraditórias, (a pasta de dente indicada por 9 a cada dez dentistas aparentemente não é a pasta mais indicada pelos dentistas). A ideia de que a maioria não pode estar errada é explorada também em discursos políticos que chegam a distorcer o conceito de maioria para defender a legitimidade das suas imposições de ideias. Um grande exemplo é nosso atual presidente dizendo que as minorias devem se curvar a vontade da maioria. Para essa frase fazer sentido ele teria que ser pronunciada em mandarim. Sem o cuidado de fazer questionamentos céticos diante das informações que nos são apresentadas acabamos vulneráveis. E por mais que você possa pensar que acreditar em fantasias pode ser inofensivo, saiba que sempre pode ser perigoso viver fora da realidade. Quer ver? Imagina esse grupo de pessoas formando uma bancada no congresso para que seja obrigatório que todos raspem a cabeça, afinal dragões invisíveis odeiam cabelo. E quando você menos espera existem dois grupos brigando até a morte porque segundo um grupo os dragões invisíveis não podem ter cor, pois são invisíveis. Mas outro grupo, apesar de não verem os dragões, tem fé que eles são amarelos. E quando as políticas públicas forem guiadas por alguém que afirma ter conversado com um desses dragões, não em uma garagem mas em cima de uma goiabeira? Pois bem, apesar de ser muito louca essa história tem vários paralelos com a realidade. É por isso que o ceticismo cientifico causa tanto desconforto, porque revisar de forma crítica nossos conhecimentos e nossas visões de mundo exige maturidade, disciplina e nunca será mais fácil do que aceitar sem questionar. Questionar é o trabalho básico de um cientista. Por isso cientistas no mundo todo estão nesse momento tentando achar furos ou erros e imprecisões nas afirmações cientificas mais básicas e relevantes. Porque se você descobre que Einstein estava totalmente errado sobre a relatividade e consegue provar isso, você não vai ser agredido, ninguém vai duvidar do seu caráter. Eles vão te dar um prêmio Nobel. Você será lembrado como um dos grandes nomes que nos ajudaram a entender o universo. Então se você acredita em energia dos cristais, signos, homeopatia ou feng shui, entenda que é uma crença sem bases sólidas. Portanto sua crença num judeu zumbi de dois mil anos, que é um terço de Deus e veio numa missão suicida pra te salvar da maldição do homem de barro que comeu a fruta mágica, não é melhor do que o amigo imaginário de ninguém. Mesmo que pareça inofensivo, repense se a atitude de aceitar matar seu próprio filho porque ouviu uma voz na sua cabeça deve ser considerado um gesto de fé. Questione. Faça perguntas. Faça uma geral na sua garagem. E se no final ainda sobrar algum dragão por lá lembre-se que ter uma crença é como ter um pênis: isso não é um problema em si, contanto que você não tente enfiar ele nas pessoas à força. Gostou do artigo? tem mais artigos da nossa sessão Neurônio Cult aqui! André Almeida André Pinheiro: Nascido no Ceará e radicado no Rio de Janeiro, cursando doutorado em biofísica pela UFRJ atualmente pesquisando na área de toxicologia ambiental sobre a bioacumulação de microplástico. Nerd assumido e aventureiro da cozinha nas horas vagas

  • top 10: livros para azeitar uma conversa literária

    A função desta lista — bem como de outras que publicarei aqui — não é mostrar nada muito diferente, avassaladoramente bizarro ou absurdamente experimental. Um dia farei umas listas loucas dessas, mas não agora. A intenção é apenas ampliar o radar de buscas literárias partindo de livros, temas e artistas já relativamente conhecidos. Deste modo, aqui tem lado B de grandes escritoras e escritores, abordagens não usuais para gêneros já conhecidos, estreias de artistas da palavra — que, a meu ver, deveriam ser mais conhecidas — e livros que eu fico triste por serem erroneamente pouco lidos, ou pouco traduzidos ou editados ou debatidos em nosso país. Vamos lá! 10. O Perseguidor - Julio Cortázar Todo mundo conhece Cortázar de livros como "O jogo da amarelinha" e "Todos os fogos o fogo". Isso faz com que esta pequena novela (ou conto grande) passe desapercebida. Ela, aliás, só não foi completamente esquecida pelo editorial (e pelos leitores) do Brasil possivelmente graças à editora mais hipster que já existiu em terras tupiniquins: Cosac Naify, que fez esta edição da foto em capa dura e, como era de praxe deles, arrojado projeto gráfico. Eu comprei essa edição em uma daquelas míticas promoções anuais da editora — que eu passei muito tempo achando que eram lenda urbana e as pessoas na livraria riram quando descobri que era de verdade. Então procurei todos que meu bolso permitiu comprar e, dentre eles, esta edição, que não foi difícil encontrar, pois é um livro chamativo. Aliás, ele é tão bem ilustrado pelo conterrâneo de Cortázar, José Muñoz, que, quando pus minhas mãos nele, pensei se tratar de um quadrinho. Mas é prosa. E uma prosa altamente dinâmica, que narra, do ponto de vista de um jornalista crítico musical, parte da vida de um músico de jazz, o saxofonista Johnny Carter, especificamente seus últimas dias de vida. A narrativa é extremamente envolvente e detalhada, a ponto de você acreditar que Johnny Carter realmente existiu. Sob determinado ponto de vista, até que existiu sim, já que ele é baseado em Charlie Parker, por quem Cortázar nutria admiração (aliás, quem gosta de jazz mesmo vai admirar, ou pelo menos respeitar, Charlie Parker). Este conto-novela foi publicado originalmente em 1959, na coletânea intitulada "As armas secretas". Aqui, Cortázar tenta tratar daquilo que ele considerava seu principal epicentro narrativo: o que ele chamava de "fato humano essencial". É um livro que boa parte das pessoas leria em uma tarde, em uma sentada, num longo fôlego que as páginas irão tirar. A narrativa tem uma stimmung (que pode ser "rusticamente" traduzido por "atmosfera") perfeita a ponto de ser possível sentir o cheiro dos lugares. É incrível. A tradução aqui é de Sebastião Uchoa Leite. 9. As Fenícias - Eurípedes Este livro conta a história de um cara, um tal de Édipo, que, sem saber, mata o pai e casa com a mãe. Mas, espera, essa peça não é "Édipo Rei"? Pois é, a original, de Sófocles, é sim. Mas esta aqui é a versão feminina, na qual Jocasta — a "mãe-esposa" de Édipo — que conta o paranauê mais complicado da história daquilo que resolvemos chamar de "ocidente". A peça em questão foi escrita por Eurípedes por volta de 411 a.C., ou seja, aproximadamente 16 anos após a estimativa de data de Édipo Rei, 427 a.C. É uma peça que tenta ser menos racional que Édipo, apelando mais à emoção. Penso que ela seria muito mais interessante se tivesse sido escrita por uma mulher, mas estamos falando da Grécia no tempo em que ela era antiga, né? Então vamos de Eurípedes mesmo. É uma peça curta e, claro, uma tragédia, mais que literalmente falando. Dessas que acabam com a gente no final. Aí eu sempre imagino um texto desse encenado ao vivo, deve ser ainda mais doloroso. "Édipo Rei" teve várias continuações e releituras (algo que hoje o pessoal gosta de chamar de "franquia"), criando um universo narrativo próprio, mas "As Fenícias" também chegou a ter sua própria releitura por Sêneca, que escreveu uma peça homônima. Mas neste caso específico, temos um tratado sobre as paixões humanas e, talvez, até uma tentativa (extremamente datada e que envelheceu mal) de homenagear as mulheres, enaltecendo, por exemplo, sua capacidade maternal "inata". De todo modo, fazendo um recorte temporal, lembrando que é uma peça da Antiguidade, temos uma obra que ajudou na criação de arquétipos psicossociais tão importantes para a humanidade (sobretudo a "ocidental"). É um relato épico, trágico e emotivo sobre nossa desgraça. E nós sabemos que nada mais atual do que uma desgraça, né? 8. Branco neve, vermelho Rússia - Dorota Masłowska Eu achei esse livro no acaso dos acasos. Estava na casa de um amigo debatendo um curta-metragem que estávamos produzindo e, em cima de uma pilha de coisas que estava em cima de uma caixa de som, havia esse livro. O projeto gráfico e as ilustrações eram tão bonitos, caprichados e coloridos que, por um momento, como ocorreu com o livro do Cortázar citado acima, eu pensei que fosse uma graphic novel. Infelizmente não consegui recordar o nome do ilustrador, nem achar na internet. Se alguém souber agradeço de antemão se colocar nos comentários. Trata-se do primeiro romance da ainda muito jovem escritora polonesa. Tem uma narrativa altamente dinâmica, rápida, vertiginosa e muito divertida, e que lembra o fluxo de ideias vomitadas em alta velocidade de "Trainspotting", por exemplo. Linguagem chula, vulgar, gírias... Um verdadeiro "videoclipe literário". Dorota também usa, genialmente, um recurso metalinguístico que eu não vou dizer qual é para não estragar a surpresa. A originalidade não é no truque em si, mas na forma como ele surge e que até hoje me marca. É um livro divertido, intenso (e muito tenso também), muito inteligente, engraçado e jovem. Embora ele fale especificamente sobre um tipo de juventude, existe algo de atemporal nisso, algo que perpassa praticamente todos os jovens de todas (ou quase todas) as gerações. Um livro rock'n'roll de uma autora que, infelizmente, só tem este livro traduzido no Brasil. A história em si é simples: Andrzej Vermski está em crise depois de (adivinha) ser largado pela namorada Magda. Ele passa o dia se esbarrando em várias e várias mulheres interessantes em meio a teorias da conspiração, delírios e compulsão por drogas. O que o torna incrível, contudo, não é essa história meio chinfrim e batida, mas a forma como a autora a narra. Divertido, inteligente, pouco conhecido e com momentos de genialidade. Não tem como não estar nesta lista! 7. A Tenda - Margaret Atwood Margaret Atwood ganhou um merecido lugar de destaque na cultura pop contemporânea depois que seu premiado livro "O conto da aia" virou série de TV. Mas aqui nós temos uma autora experimental, com textos curtos e deliciosamente misteriosos (aliás, foi com este livro que eu a conheci, presente da minha sogra). Em alguma medida, evoca em minha mente diversos textos curtos e deliciosos do livro "Contos de Amor Rasgados", da brasileira Marina Colasanti, mas provavelmente só pelo fato de serem curtos e absurdamente bem escritos. As narrativas não são tão curtas como as de Marina — em geral, têm entre duas e oito páginas — e nem tão fofas. São algo entre a literatura experimental e a literatura de gênero, mais precisamente o realismo fantástico ou surrealismo (roupas que sonham, por exemplo), o terror e a fantasia e um pouco de ficção científica. É como se fosse mesmo uma síntese dialética entre o seu lado "best-seller" e uma prosa poética que se preocupa apenas com a suspensão dos processos de leitura, em alguns momentos apontando para o vazio e para a leveza e, em outros, cutucando dedos nas feridas de modo que algo que pode parecer quase uma fábula é, em verdade, muito mais próximo de uma narrativa baseada em fatos reais. Não existe nenhuma preocupação intensa ou evidente de explicar fatos ou mesmo de promover explicitamente algum tipo de catarse, apenas um tentador convite de embarcar na viagem. Um ponto forte e que deixa o livro ainda mais belo e especial é que as ilustrações (que ora são desenhos, ora poemas visuais) são da própria Margaret Atwood. Um "lado B" da autora com toda a potência de um "lado A". 6. Contos - Katherine Mansfield Sempre que falam de grandes escritoras que exploram e vagueiam pelos recônditos da alma humana (e, claro, feminina também), fala-se em Virginia Woolf, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles — agora também na Margaret Atwood (conforme consta na posição 7 aqui desta lista). Mas que tal conferir essa maravilhosa escritora neozelandesa? Katherine Mansfield foi uma primorosa escritora de contos e outras narrativas curtas tendo influenciado pessoas do calibre da própria Virginia Woolf. Contudo, sua fama é mais restrita aos anglófonos (e olhe lá, porque mesmo entre os anglófonos a Nova Zelândia é quase um "pária", na falta de termo melhor, por ter pouco de sua cultura divulgada fora do manto de exotismo que a cerca), além de ter vivido muito pouco tempo, apenas 34 anos, o que contribui para não ser tão famosa quanto as pessoas que influenciou. Mansfield foi uma mulher à frente de seu tempo, tanto na escrita, tendo praticamente criado um estilo de conto "só seu", como na vida pessoal, tendo escandalizado algumas pessoas. O primeiro conto deste livro, "Senhorita Brill", por exemplo, é intenso, quando parece discreto. Aliás, graças especificamente a este conto, este livro começou a fazer parte da minha vida, pois a senhorita Brill foi uma das fontes de inspiração para uma personagem teatral que criei em parceria com minha amiga Andréa Piol. Ela passou uma semana falando desse conto sem parar e o utilizamos em nosso texto. É uma beleza e de uma tremenda virtuose literária criar toda uma violência sutil e delicada... É como se lêssemos em suas linhas algo realmente semelhante a Clarice Lispector ou Virginia Woolf (que alegava que Mansfield era a única pessoa cuja escrita ela invejava), mas, nas entrelinhas, soa como um Edgar Allan Poe, um Rubem Fonseca. Incrível como cada pequeno acontecimento é gigantesco. Aliás, este conto também foi importante para a própria Mansfield, que alcançou com ele um enorme reconhecimento crítico. Contudo, sua história de vida foi bastante triste, como a de outro gênio literário, Franz Kafka. Katherine Mansfield sofria de depressão e tuberculose, de modo que ela passou muito tempo reclusa e publicando quase nada de seus textos. Mas, se considerarmos que boa parte de seus melhores escritos foram produzidos enquanto ela estava internada em um spa europeu tratando de uma grave hemorragia em 1918 (e que a mataria em 1923), então... uau! Publicar o que escrevia era o de menos. Mansfield foi bem pouco traduzida para o português. Suas primeiras edições brasileiras datam de 1992, o que incluem três contos, que seriam parte de uma novela inacabada, e um ensaio, nunca concluído de sua transição dos contos para narrativas longas. A edição da foto é da finada editora Cosac Naify. 5. Sob o olhar do Leão - Maaza Mengiste Bem sabemos que um artista não nasce pronto. Ele vai melhorando ao longo do tempo. Mas algumas pessoas iluminadas já arrasam logo na sua estreia, fazendo com que o conceito de obra-prima se assemelhe ao de obra máxima. É o caso de Maaza Mengiste, que impressiona de cara em seu primeiro livro, justamente este. A história toca em um ponto sempre polêmico, sobretudo atualmente, quando todo mundo (acha que) entende de política: revolução. Particularmente, o tema política me interessa bastante; infelizmente, contudo, a qualidade de boa parte das obras de várias linguagens que tratam disso vai na contramão. Nos dias de hoje é comum explorar a política através de avassaladoras paixões cegas, de certezas absolutas e totalmente partidárias, não dando a devida importância para as micro-histórias. No Brasil, a primeira lembrança que me vem à mente numa narrativa semelhante é "Eles não usam Black-Tie", de Gianfrancesco Guarnieri, que, a partir da história de uma família, retrata o processo de uma greve, ou a partir de uma greve retrata uma família. Conflitos trabalhistas de uma indústria, tensões familiares, racismo, papéis de gênero... Está tudo ali. No romance de Mengiste, temos, não uma greve, mas uma guerrilha marxista (Derg) derrubando Hailé Selassié — descendente de uma linhagem histórica de imperadores, especificamente o 255º sucessor da linhagem do famigerado rei Salomão (lembrando sempre que a Etiópia é o país mais antigo do mundo) — afetando toda uma nação no auge dos anos 1970. Hailé Selassié, embora tenha modernizado o país, não conseguiu combater a enorme fome que assolava seu povo, sendo esse o estopim da guerrilha. E, no meio disso tudo, uma família, cuja única certeza é a da incerteza e cuja única prioridade é a a vida de seus integrantes e sua própria sobrevivência enquanto família. O patriarca, o médico Hailu, tem que lidar com a doença da esposa, o fascínio revolucionário de um dos filhos e o fascínio religioso de outro, que também enfrenta seus próprios problemas familiares. História real e ficcional de costuram, de forma coerente, racional e emotiva. A autora e sua obra (indicada ao Pushcart Prize) foram aclamadas pela revista New York logo de cara. O que me lembra que pensei em fazer uma lista sobre grandes estreias, sabe, aquele pessoal que já na primeira obra faz um estardalhaço? Bom, mas acabei colocando a Maaza aqui nesta lista, porque, afinal, pessoas talentosas podem figurar em diversas listas. Atualmente ela já publicou três livros e vive entre a Etiópia, a Itália e os Estados Unidos. 4. A fábrica de robôs - Karel Tchapek Peça de teatro é algo que poucas pessoas — que não são do teatro — leem. Talvez exista uma exceção disso quando falamos em uma dramaturgia muito famosa como a de William Shakespeare, Samuel Beckett e, talvez, Bertolt Brecht. E justamente por isso (também por isso na verdade) nesta lista tem duas. "As Fenícias", que citei lá em cima, e esta aqui, a segunda. Eu amo essa peça com todas as minhas forças e tenho uma enorme admiração pelo seu autor. Karel Tchapek é tipo... uma meta de vida. Percebam: na época da Segunda Guerra Mundial, Tchapek e seu irmão Josef foram declarados inimigos públicos pelos Nazistas pelo fato de ser escritor e o irmão pintor. Depois vieram os Soviéticos e, bem, ele continuou sendo inimigo público. Em 1969, 31 anos após seu falecimento, o astrônomo Luboš Kohoutek batizou um asteroide que havia descoberto com seu nome: 1931-Capek. Ou seja: o cara irritou stalinistas, nazistas, inventou uma palavra, revolucionou a ficção científica, virou um dos escritores mais importantes em sua língua e ainda virou nome de asteroide. Nazistas e stalinistas eu já sei que irrito. Falta a parte do asteroide e de escrever alguma coisa que preste. Mas voltemos ao livro de Tchapek... Trata-se de uma peça em três atos, que conta a história de cientistas e uma ativista de direitos "robóticos", digamos assim, dentro da fábrica de robôs Rossum. No primeiro ato, temos a apresentação do cenário, dos personagens e, bom, melhor deixar vocês descobrirem por conta própria. Embora tenha criado o termo e o conceito de robô (antes, no máximo, existia a ideia de "autômatos"), o que existe na peça são o que hoje conhecemos por "sintozoides": seres sintéticos muito mais próximos de algo orgânico que algo mecânico. Uma curiosidade é que a palavra vem do tcheco robota, que pode ser associada tanto a servo ou escravo como a trabalho forçado. Há também quem associe o termo ao conceito de mais-valia marxista. O mais interessante, porém, é que Tchapek pensou em usar o termo labori, do latim labor, mas seu irmão o convenceu de que a sonoridade tcheca era melhor. Fico imaginando nos blockbusters de ficção científica as pessoas gritando: "os laboris assassinos", "os laboris espaciais". Uma grata surpresa ao escrever este artigo foi descobrir que a editora brasileira Madrepérola está em campanha de financiamento coletivo para uma edição lindamente ilustrada, traduzida diretamente do tcheco e com o texto adaptado ao formato de prosa, mais precisamente romance. Vou até fazer uma pausa para permitir a admiração dessa arte linda do Vitor Wiedergrun. Essa edição em questão vem com o título mais próximo do original tcheco: R.U.R. (Robôs Universais de Rossum). 3. Diário de Bitita - Carolina Maria de Jesus Carolina Maria de Jesus é um gênio literário — ou uma gênia, se quisermos subverter a norma, algo que gênios geralmente fazem. Mas dizer que ela era genial ainda é pouco, pois ela era mais que isso: precisava escrever, era algo atávico à sua já difícil sobrevivência. Provavelmente todo mundo já pelo menos ouviu falar de "Quarto de Despejo", sua mais que incrível estreia no mundo literário, mas "Diário de Bitita" é igualmente tocante, lindo, delicado e também, ao mesmo tempo, forte. Ali entendemos, de modo poético, o surgimento, a formação desta incrível autora. Mas eu vejo muito pouca gente falando sobre "Diário de Bitita". Aqui ela fala da sua infância, adolescência e o começo da vida adulta. Aliás, o nome é porque esse era o seu apelido quando jovem. Carolina de Jesus só soube seu nome oficial quando entrou na escola. O livro, além de ser de uma beleza pungente, é de uma verdade dolorosa. Para aqueles que não entendem — ou não querem entender — as teorias sociais do tão famoso "racismo estrutural" proferidas por acadêmicos, bastaria ler com honestidade este livro para ter todos os mecanismos para jogar fora todo e qualquer resquício de racismo que, porventura, exista em sua mente. Além da história singela, linda e, ao mesmo tempo, cruel de dentro do livro, a história do livro em si é assaz interessante. Carolina Maria de Jesus, antes de morrer, entregou dois cadernos com seus manuscritos para a jornalista Clélia Pisa. "Diário de Bitita" foi publicado postumamente (e pela primeira vez) em Paris, em 1982, cinco anos após sua morte. No Brasil, no entanto, o livro foi publicado apenas em 1986, mais uma prova de que o Brasil não liga muito para seus próprios artistas. Maria Carolina de Jesus, ao invés de ser reverenciada por seu trabalho como escritora e compositora (e por que não dizer "socióloga"?), foi tratada por muitos críticos como uma "curiosidade estética" (a exemplo do que ocorreu com o pintor Chico da Silva), do tipo "olhe, uma escritora naïf que é catadora de lixo! Que coisa mais avant-garde!", de modo que, ao passar o sucesso de seu celebrado primeiro livro, todos voltaram aos seus afazeres de sempre, o que só reitera e comprova tudo que ela diz em seus escritos e mostra como boa parte da suposta elite intelectual brasileira é elitista, esnobe e, quase que por conseguinte dessas duas características, racista, lembrando-me que Nelson Pereira dos Santos, em "Rio, Zona Norte", tece críticas geniais a esta fauna intelectual brasileira. Voltando ao livro em questão, problemas de gênero, pobreza e racismo são alguns dos temas tratados por Bitita, com a inteligência e objetividade de uma criança que, bem sabemos, tornou-se um monstro da literatura mundial. 2. Sobre a imortalidade de Rui Leão - Machado de Assis Todo mundo sabe que Machado de Assis é "O Cara", mas a maioria de nós conhece apenas os greatest hits do cara. Só que ele escreveu praticamente todos os gêneros, até os mais obscuros e, se bobear, deve até ter inventado alguns. Temos aqui um tremendo lado B que a editora Plutão, especializada em ficção científica, fez o favor de publicar e resgatar nessa edição digital muito caprichada e bonita. São dois contos fantásticos — tanto por serem do gênero "fantasia", guarda-chuva que engloba terror, ficção científica e fantasia propriamente dito, como por serem, claro, fantasticamente bem escritos — que contam a história, por dois pontos de vista diferentes, de Rui Leão, um homem imortal graças a uma misteriosa poção indígena que ganhou do sogro. Claro que temos toda a ironia, inteligência e elegância de Machado de Assis que, embora não tenha criado a ficção científica ou a literatura fantástica, percebeu rápido como ninguém seu potencial metafórico e alegórico para falar da realidade e das dores humanas. Os contos não são longos, mas somadas suas páginas a uma ótima introdução escrita por Roberto de Sousa Causo, que provavelmente é o mais profícuo autor brasileiro de ficção científica da atualidade, temos o peso de um bom livro que pode ser lido, talvez, em uma só tarde. Vale muito a pena! E como a Plutão só trabalha com publicações digitais, o livro é baratinho! Vale demais! 1. O último homem - Mary Shelley Mary Shelley é conhecida por apenas um romance, poeticamente intitulado de "O Prometeu Moderno", mais conhecido, no entanto, pelo seu título mais simples e famoso (sim, a obra tem dois títulos) "Frankenstein". Isso não é injusto, de certo modo, já que este livro revolucionou toda a literatura e ganhou um enorme espaço na cultura pop. Nenhuma lista de elogios, por maior que seja, é suficiente para "Frankenstein", de modo que, se ela quisesse não fazer mais nada da vida depois de escrevê-la com apenas 19 anos, estaria coberta de razão. Contudo, não foi isso o que ocorreu e ela continuou escrevendo. O problema, de certo modo, é que a absurda genialidade de seu primeiro romance acabou ofuscando praticamente todos os seus trabalhos subsequentes. Dentre eles, esta magnífica obra futurista e distópica, simplesmente sua segunda ficção científica — e, não duvido, a segunda ficção científica do mundo, já que a primeira é dela também. A obra — originalmente publicada em três partes — tem muitas semelhanças com "Fankenstein": girando em torno de personagens perdidos em seu próprio tempo e com sublimes e detalhadas descrições de paisagens exuberantes que nada devem ao seu legado literário (ela e seu esposo, Percy Shelley, viajavam muito e boa parte de seus diários de viagem eram aproveitados por Mary Shelley em suas obras). A história começa em 2073 e inaugura o que, no cinema, vai ser conhecido por found footage — virando um subgênero do horror —, que são os filmes que são encontrados por acaso dentro de uma narrativa, tipo o já clássico "Bruxa de Blair". Mas o que se encontra aqui é, não um filme, claro, mas um manuscrito em uma caverna na Itália. É um livro que também é extremamente interessante, inventivo e bem construído. É também um pouco engraçado, já que o "transporte do futuro" imaginado pela autora são os balões (sim, queridos, balões!). A história tem personagens fortemente autobiográficos (alteregos dela, do esposo e de amigos, como Lord Byron), questionador da política e da humanidade, em meio a uma PANDEMIA (olha que atual! Praticamente um documentário!) e esteticamente revolucionário (Mary Shelley questiona o próprio estilo romântico de outrora). Uma segunda e feliz descoberta que fiz nesta lista foi que a editora Plutão está preparando uma segunda versão brasileira da obra com esta beleza de capa que deixo aqui para o deleite de vocês. Gostou? Não gostou? Comenta aqui! Se você gosta de resenhas literárias, confere a resenha que a Fabi Ferraz do romance da autora sul-coreana Han Kang A Vegetariana. Outra dica legal é a matéria sobre literatura contemporânea argentina de nossa correspondente internacional Mariana Cerrillo que você pode ler clicando aqui.

  • Rachmaninoff - Concerto para Piano Nº 4 - O Patinho Feio

    Já tendo falado sobre os outros 3, detenho-me agora no 4º Concerto para Piano de Sergei Rachmaninoff. Ele definitivamente não é o mais gostado dos 4. O 1º é considerado um começo promissor; o 2º, a volta por cima (depois de um fiasco com a 1ª Sinfonia); e o 3º, a montanha, o Everest. O 4º é a ovelha negra. Ele foi considerado por muito tempo uma obra sem atrativos, com pouca fluidez, problemas de continuidade, temas pouco cativantes. Enfim, uma obra árida. Vamos já discordar. Composto em 1926, publicado em 1928 e, finalmente, revisado e republicado em 1941, o concerto teve poucas execuções por parte do próprio compositor, que se abatia facilmente com críticas e recebeu algumas nessa obra. A estreia teve uma reação fria. O público queria o famoso, velho e conhecido Rachmaninoff, mas ele lhes deu um Rachmaninoff Belle Époque, um tanto industrial, sofisticado. Só que ele realmente esqueceu de colocar um tema forte no primeiro movimento e no segundo. O terceiro também é um pouco confuso. Mas calma! Dito isto, bora defender a obra. Eu demorei a me apaixonar pelo 4º Concerto. Poucos pianistas o gravam individualmente: mas muitos o gravam quando querem lançar uma coleção com os 4 mais a Rapsódia Sobre um Tema de Paganini. De forma que ele foi muito gravado. Certamente mais de 50 vezes, sem contar gravações ao vivo. O pianista mais importante a gravá-lo solto, independente dos outros 3, foi Arturo Benedetti Michelangeli. O genial italiano, conhecido por ter um repertório não muito vasto e por se dedicar mesmo às obras que escolhia (eram poucas comparadas a outros pianistas, mas ainda eram em número considerável), nem tomou conhecimento dos 3 primeiros, mas defendia o 4º. Fez uma gravação maravilhosa, com a orquestra Philharmonia, regida por Ettore Gracis, que deve ser a mais perfeita. É considerada uma gravação de referência. No final deixo algumas sugestões de gravações. O Primeiro Movimento começa agitado, a melodia é apresentada pelo piano ecoado pelas madeiras em tremolo. O corne inglês apresenta um motivo importante, assim como a flauta. Mas o segundo tema também é do piano. São temas que, pelo menos pra mim, depois que você se acostuma, mostram sua beleza. O movimento é cheio de momentos que você tem que prestar atenção pra perceber que são notáveis. Quando a música entra na sua cabeça, aí toda a sua beleza vem em cada audição. De todos os concertos de Rachmaninoff, esse é o que retem mais a característica de cada vez que você escuta, mais ele se torna atraente. O Segundo Movimento é um Largo de beleza serena e nostálgica. O ponto culminante é lá pelos 5 minutos, quando ele vai crescendo e desemboca num momento tão sublime que é arrebatador. Pra ser justo, ele já tinha feito a mesma coisa num Étude-Tableau de 1911 que não foi publicado senão postumamente (o compositor morreu de câncer em 1943, aos 69 anos). É o Étude-Tableaux Op. 33, Nº 3, que vai escalando e tem o mesmo desfecho. O Terceiro Movimento é mais problemático. Destituído do momento de triunfo típico do compositor, como tão eloquente no Concerto Nº 2 e sublime no Nº 3, ficou ele um tanto sem propósito. Mas não que seja desinteressante. Era apenas questão de marketing, deixar uma bela explosão pra fechar a obra. Não o fazendo, manteve sua integridade (sua, pessoal, e do concerto), à custa do amor do público. Mas ouça o que eu estou dizendo: depois de se acostumar, você vai amar esse concerto, com curvas agudas e orquestração eficiente e muita beleza. Veja algumas opções de gravações: - Sergei Rachmaninoff, com a Orquestra de Filadélfia, regida por Eugene Ormandy; - Vladimir Ashkenazy, com a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã, sob a regência de Bernard Haitink; - Arturo B. Michelangeli, com a Orquestra Philharmonia, sob Ettore Gracis; - Tamás Vásáry, com a Sinfônica de Londres, sob Yuri Ahronovitch; - Alexander Ghindin, com a Filarmônica de Helsinki, sob Vladimir Ashkenazy (essa é a primeira gravação da primeira versão do concerto, a que se toca mais é a de 1941. O próprio Ashkenazy gosta mais dessa versão. Eu acho a última mais satisfatória.) Confira também nossas listas: O 1º e o 2º Concertos de Rachmaninoff O 3º Concerto de Rachmaninoff 10 Concertos para Piano 10 Sinfonias + 10 Sinfonias 10 Sonatas para Piano

  • TOP 10 Obras sinfônicas extra categoria que você deve conhecer

    Trago hoje a primeira lista de uma série de 3 ou 4 (quem sabe até mais) sobre peças sinfônicas que não se enquadram na categoria de Sinfonia ou de Concerto ou de Abertura. São alguns poemas sinfônicos, alguns balés e outras peças que realmente não se encaixam em nenhuma categoria. São ótimas pra quem quer começar no mundo da música erudita, simplesmente pegue qualquer uma, escute e deixe a mágica acontecer. Só lembrando que não está em ordem de nada. Nem cronológica. Edward Elgar (1857 - 1934) - Variações Enigma (Enigma Variations) (tema com variações) Edward Elgar foi um dos primeiros compositores ingleses depois do “grande hiato”. Acontece que a Inglaterra teve vários compositores extremamente relevantes, como John Dowland, Thomas Tallis, William Byrd, Orlando Gibbons, Henry Purcell, todos da Renascença (1400–1600) e do Barroco (1600–1750). Aí, claro que no classicismo e no romantismo houve compositores, mas nenhum alcançou fama internacional. Então veio Elgar (1857–1934), e a ele se sucedeu toda uma geração de compositores importantes, como Vaughan Williams, William Walton, Benjamin Britten e Gustav Holst. Foi uma espécie de retomada da Inglaterra ao cenário musical. Ele é um romântico tardio. A peça mais famosa de Elgar é a série de marchas Pompa e Circunstância (você deve conhecer como a música de formatura), sobretudo a primeira delas. Mas sua obra mais importante é as Variações Enigma, de 1899. É uma música teoricamente leve, que evoca características de amigos do compositor e situações que ele viveu com alguns deles. Mas, tentando fazer essa peça família, saiu uma música excepcionalmente universal, ainda que notoriamente inglesa. Os movimentos são geralmente nomeados com as iniciais desses amigos ou parentes. O nome “Enigma” vem do fato de a peça conter uma charada. Só que ninguém sabe o que é. Não se sabe nem o que é a pergunta, menos ainda a resposta. A teoria mais forte é que o tema, antes de qualquer variação, o tema bruto, seja um contraponto (uma melodia que, de maneira meio matemática, se encaixa com outra) de alguma melodia muito popular (na época). Mas nunca decifraram qual seria essa melodia. O próprio Elgar sugeriu que o Enigma é exatamente um contraponto, uma melodia que nunca aparece na música, mas está evidente entre cada variação. Como uma peça de teatro em que o personagem principal nunca aparece. Vale notar que ele jurava que iam decifrar o enigma desde a estréia, mas que, como isso não aconteceu, ele nunca disse o que era. Se eu sei a resposta? Não é óbvio? Gravações recomendadas: Orquestra Filarmônica de Bergen (Bergen Philharmonic), regente: Andrew Litton – Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony), regente: Adrian Boult Claude Debussy (1862 - 1918) - Prélude à l’Après-midi d’un Faune (poema sinfônico) O modernismo começou exatamente nessa peça. Não era mais romântica, tínhamos que dar outro nome. É raro que tenhamos uma obra de arte inaugural de toda uma era. Mas tá aqui. Fazendo uma analogia mais ou menos como escreveu o regente Julio Medaglia: Claude Debussy não pintou um quadro moderno. Ele pegou um quadro romântico e apagou, para que outros pintassem sobre. Ou seja, ele não fez nada realmente moderno, ele apenas evitou tudo que era romântico. A música é genial pelo que ela não faz, e não pelo que faz. Explico: a música tonal é baseada no acorde da dominante, que gera tensão, resolvendo no acorde da tônica, que gera relaxamento. A música ocidental se baseava nisso há 500 anos. Então, em 1894, vem o Prélude (traduz-se Prelúdio para a Tarde de um Fauno). Ele simplesmente nos dava acordes tensos e não resolvia. Isso é técnico, mas você pode escutar a peça e compreender que ela é vaga, flutuante. Não existe mais hierarquia entre os acordes. De tão suspensa, a música pode terminar em qualquer ponto. Debussy era um mágico da música. De tudo: orquestração, melodia, harmonia e ritmo. Essa música é tão incrível! Você ouve ora uma textura orquestral complexa, ora o som de um instrumento em destaque. A melodia principal é um cromatismo que desce e sobe e que é sempre repetido, mas nunca cansa. Esse tema parece acordar, no começo da música (na flauta), brincar e viajar bastante (nos seus 10 minutos, é ouvido 10 vezes) e, no fim, ficar preguiçoso de novo até dormir. Fantástico! Gravações recomendadas: Orquestra Filarmônica de Berlim (Berliner Philharmoniker), regente: Claudio Abbado – Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony), regente: Valery Gergiev Igor Stravinsky (1882 - 1971) - A Sagração da Primavera (The Rite of Spring; Le Sacre du Printemps) (balé) Falar da Sagração da Primavera não é fácil. Muito já foi dito. É, pra mim, a peça mais impressionante já composta. Fugidia, não serve pra dar aula de harmonia, pois depois que a gente descobre uns acordes octatônicos, esta passa a ser irrelevante; não serve pra dar aula de orquestração, porque qualquer coisa que você faça parecido com a Sagração será imitativo; estrutura, então! A peça não tem nenhuma lógica a não ser a história em que se baseia. Igor Stravinsky mesmo teve a ideia, que é bem simples. Uma tribo carece de uma boa colheita, e oferece à natureza, em troca, o sacrifício de uma jovem. Há um ritual, conduzido pelos velhos sábios, que prepara para a entrada das jovens. Elas hão de dançar até que uma delas caia duas vezes, tornando-se a eleita. Esta, então, dança em frenesi, literalmente, até a morte. O compositor ofereceu a ideia e a música a Sergei Diaghilev, dono dos Ballets Russes, uma das companhias de balé mais respeitadas da época. Ambos já tinham trabalhado juntos em O Pássaro de Fogo e Petrushka. Ele aceitou e, em 1913 houve o que é uma das estreias mais famosas da história. Tem livros e filmes inteiros sobre essa estréia. O cenário e o figurino eram de Nicholas Roerich, e a coreografia, do grande bailarino polonês Vaslav Nijinsky. A peça já começa com um fagote tocando acima do seu registro habitual. Metade do público aplaudia, mas a outra metade começou a vaiar insistentemente. Relatam-se brigas no teatro. Nijinsky, o coreógrafo, tinha que, na coxia, gritar o ritmo para os bailarinos, que já não ouviam a orquestra. Há quem diga que o motivo das vaias era a dança, não exatamente a música. Enquanto que, no balé clássico, o peito do pé se mantém à vista e as mãos e o rosto se fazem graciosos, no balé de Nijinsky, os pés ficavam pra fora, exibindo a sola; os braços faziam movimentos quadrados; os rostos tinham expressões diversas... Na primeira guerra a coreografia original se perdeu, então eles fizeram outra. Mais recentemente, alguns desenhos permitiram recriar o bailado inicial. O fato é que quase nunca o balé é encenado, mas a música é recorrente nas salas de concertos. Nenhuma obra do século XX é tão tocada e gravada. Dura cerca de 33 minutos. Existem gravações com Pierre Monteux, que regeu a orquestra na estreia, e pelo menos 4 com o próprio Stravinsky a reger. Gravações recomendadas: Orquestra Filarmônica de Los Angeles (LA Philharmonic Orchestra), regente: Esa-Pekka Salonen – Musica Aeterna, regente: Teodor Currentzis – Orquestra do Concertgebouw de Amsterdam (Concertgebouworkest), regente: Daniele Gatti Béla Bartók (1881 - 1945) – O Mandarim Miraculoso (The Miraculous Mandarin) (balé-pantomima) Béla Bartók, compositor húngaro, foi um dos mais importantes do século XX. Conhecido por seus 3 Concertos para Piano, a Música para Cordas, Percussão e Celesta, o Concerto para Orquestra e muito mais, tem também nesse balé uma de suas mais celebradas partituras. Como no caso de Stravinsky, a dança não é tão famosa quanto a própria música. Composto entre 1918 e 1924, constando de um ato só, foi, posteriormente, transformado em suíte de concerto, que é a forma pela qual é mais conhecido. Sua audição dura cerca de 16 minutos. A partitura é brilhante, empregando a orquestra de forma magistral. Tem uma hora, logo no começo, em que entra um som gravíssimo que, quando bem executado, tem um efeito sensacional. Gravações recomendadas: Orquestra Sinfônica de Detroit (Detroit Symphony), regente: Antal Dorati – Orquestra Sinfônica de Los Angeles (LA Philharmonic), regente: Esa-Pekka Salonen Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959) – Uirapuru (poema sinfônico) Diz a lenda que se você ouvir o canto do uirapuru, pássaro raro e que só canta uma vez por ano, quando está fazendo o ninho para a parceira, você fica louco. Diz a lenda que Heitor Villa-Lobos visitou a Floresta Amazônica e que ouviu o piado do pássaro. Na verdade, Villa era um mentiroso compulsivo, e talvez nunca tenha sequer pisado na floresta. Ele mentia tanto que isso o fez cruzar o mundo, com histórias de como quase foi comido por canibais, de lendas que ouvira pelo nordeste do Brasil e tudo mais que ele imaginasse (ou que fosse verdade). Fato é que sua imaginação era tão grande pras histórias quanto pra música. A música orquestral de Villa-Lobos é tão imaginativa que, às vezes, chega a ser extravagante. Mas isso é raro. No geral ela é exuberante como a Floresta Amazônica. Uirapuru, de 1934, está entre as peças sinfônicas dele de que eu mais gosto. Foi gravada por grandes orquestras e grandes regentes, como Leopold Stokowski. Na partitura, ele usa um instrumento chamado violinofone, que é uma espécie de violino misturado com trompa. O som é de um violino distante. É mais uma peça fantástica nessa lista. Você se sente na floresta, Villa-Lobos era rei nisso! Sua audição dura 17 minutos. Gravações recomendadas: Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), regente: Isaac Karabtchevsky – Orquestra Sinfônica da Paraíba, regente: Eleazar de Carvalho Steve Reich (*1936) – Variações para Cordas, Sopros e Teclados Lembro da minha mãe chegando em casa com esse disco e colocando na vitrola. Ainda tenho o vinil. Foi o meu primeiro contato com a música minimalista. Ela (minha mãe), como sempre, me explicou do que se tratava. Quem nunca teve contato, talvez pense que a música minimalista é calmíssima, zen. Na verdade, ela pode ser bem agitada, quase infernal. No caso dessa peça de Steve Reich, de 1980, os instrumentos não param, as madeiras têm que se alternar para pegar fôlego. Elas fazem uma base bem movimentada sobre a qual lentos acordes dos metais vão dando forma à obra. O resultado é primoroso. Na verdade, poucas peças minimalistas me chamam tanta atenção. Você tem aquele burburinho das madeiras, ou às vezes das cordas, e, do nada, surge um acorde cheio, bonito, nos metais, pra depois decrescer e morrer. A execução dura 21 minutos. Foi encomendada pela Sinfônica de São Francisco. Gravação recomendada: Orquestra Sinfônica de São Francisco (San Francisco Symphony), regente: Edo de Waart Richard Strauss (1864 - 1949) - Assim Falou Zarathustra (Also Sprach Zarathustra) (poema sinfônico) Inspirada no romance filosófico homônimo de Friedrich Nietszche, por sua vez inspirado na figura de Zoroastro, um filósofo persa do século VII A.C., é uma peça que eu escuto sem ter lido o livro. De 1896, é, como grande parte dos poemas sinfônicos de Richard Strauss, uma peça nem romântica nem moderna. O compositor o dividiu em 9 partes, mas são tocados quase sem interrupção. Ele abre com uma nota grave no órgão, no contrafagote e nos contrabaixos, sobre a qual logo ouvimos uma lenta fanfarra nos trompetes e dois abruptos acordes do restante da orquestra, seguidos pelo batucar dos tímpanos. Essa música é comumente associada à imagem de homens da caverna em triunfo. Isso porque Stanley Kubrick a usou em uma cena em que o homem descobre a arma (um tacape), em 2001: Uma Odisséia no Espaço. Esta obra também tem um enigma, mas este não é inerente a ela, e sim, a Nietszche. É o Enigma do Mundo. Algo sobre a verdade universal... O fato é que Strauss usa a relação entre o enigma e sua suposta resposta no final da música. Eu só sei que ele passa a música inteira alternando o acorde de dó maior com o de si maior. Aí, tem quem teorize que um representa o divino, e o outro, o humano. E quando a peça termina, não dá pra saber se foi em um acorde ou no outro. Eu não vou me alongar sobre esse assunto, porque se o fizer, vou escrever o dia inteiro. Mas, se a obra te parece complexa, vá lá e escute, que vai ver que ela é mesmo é bonita. Não confunda o Richard Strauss com os valsistas Joseph, Johann e Johann Strauss II. Estes compunham música de ocasião, para bailes, réveillons, enfim. O Richard era mais profundo (deu pra notar, né?). Assim Falou Zarathustra dura cerca de 30 minutos. Gravações recomendadas: Orquestra Filarmônica de Berlim (Berliner Philharmoniker), regente: Herbert von Karajan – Orquestra da Rádio Bávara (Bavarian Radio Orchestra), regente: Mariss Jansons – Orquestra Filarmônica de Viena (Wiener Philharmoniker), regente: Richard Strauss Aaron Copland (1900 - 1990) – Primavera nos Apalaches (Appalachian Spring) (balé e suíte de balé) O compositor Aaron Copland foi, durante muito tempo, considerado o mais importante dos Estados Unidos. Suas obras mais importantes são peças orquestrais, como a Fanfarra para um Homem Comum, o balé Billy the Kid, um belo e singelo Concerto para Clarinete e o balé Appalachian Spring, que depois foi transformado em uma suíte para orquestra. O balé original era para uma orquestra de câmara composta por 13 instrumentos. Já ouvi essa versão e ela funciona bem, mas a versão de concerto, para orquestra completa, me parece mais satisfatória. A versão do vídeo aí em cima é híbrida. É uma orquestra reduzida devido a uma tal pandemia. Composta em 1940, a obra se tornou lendária. Em 1945, Copland ganhou o Pulitzer de Música com ela. Como é uma suíte de balé, a obra tem uma estrutura menos sinfônica e mais rapsódica. Ou seja, é uma série de momentos encadeados um no outro em que um não tem, necessariamente, conexão com o anterior. Mas é belíssima, e extremamente americana. Não sei se eu saberia explicar o porquê de eu achar americana, mas quando você ouvir, vai identificar. Talvez o clima heroico, algo bélico. Nessa lista as obras pertencem todas a universos diferentes. Essa aqui, por exemplo, é única. Dura cerca de 25 minutos. Gravação sugerida: Orquestra Filarmônica de Nova Iorque (New York Philharmonic), regente: Leonard Bernstein – Orquestra Filarmônica de Los Angeles (LA Philharmonic), regente: Zubin Mehta Paul Dukas (1865 - 1935) – O Aprendiz de Feiticeiro (L’Apprentis Sorcier) (poema sinfônico) Este poema sinfônico de Paul Dukas, nomeado “Scherzo sobre uma balada de Goethe”, foi bem sucedido desde a sua gênese, em 1897. Mas seu sucesso maior, a inclusão no filme Fantasia de Walt Disney, o compositor, falecido 5 anos antes, em 1935, não veria. Desde então, o Scherzo (scherzos ou scherzi são peças com caráter vigoroso, ou jocoso, ou jovial), tem sido gravado por qualquer orquestra que tenha alguma discografia. É uma peça programática, em que um jovem aprendiz de feitiçaria toma escondido o chapéu do seu mentor sem ainda estar preparado para o poder que ele lhe dá. A orquestração é perfeita, uma pintura. Ele usa artifícios que só se tornariam comuns pelo menos 10-15 anos depois. Uma porção de pizzicatos, surdina nos trompetes, glissandos, cromatismos, simulações de poderes mágicos, água e até o assassinato de uma vassoura. Tudo isso já existia (se bem que acho que nunca se tinha simulado o assassinato de uma vassoura antes), claro, mas ele usou com uma propriedade absurda. E o mais impressionante é como a orquestra vai crescendo, enquanto o jovem mago vai perdendo gradualmente o controle do feitiço. Obra prima! Tem cerca de 10-11 minutos. Gravações sugeridas: Les Siécles, regente: François-Xavier Roth – Orquestra Sinfônica de Boston (Boston Symphony), regente: Charles Munch Modest Mussorgsky (1839 - 1881) – Quadros de Uma Exposição (Pictures at an Exhibition) Na verdade, Quadros de Uma Exposição é uma suíte para piano. Mas talvez seja mais conhecida na sua forma orquestrada por Maurice Ravel (1875 - 1937). São 10 “quadros” intercalados por variações de uma promenade (passeio). Vale dizer que Modest Mussorgsky seria um compositor praticamente desconhecido se Ravel não tivesse tomado a atitude de transcrever para orquestra, em 1922, essa peça, cujo original é de 1874. Mas, tendo-o feito, criou uma das obras mais executadas e gravadas do repertório sinfônico. Até a versão original para piano ganhou notoriedade, tornando-se uma espécie de showpiece para grandes pianistas, pois é extremamente bem escrita e virtuosística. A peça se baseia em alguns quadros do pintor, amigo de Mussorgsky, Viktor Hartmann, que falecera aos 39 anos, pouco antes. Admiradores de Hartmann organizaram então uma exposição com 400 quadros do artista. E, inspirado nos quadros, Mussorgsky compôs a peça. Os movimentos são: 1. “Promenade” (Passeio) 2. “Gnomus” (Gnomo) 3. “Promenade” (Passeio) 4. “Il Vecchio Castello” (O Velho Castelo) 5. “Promenade” (Passeio) 6. “Tuileries” (Tulherias) 7. “Bydlo” (Carro de Bois) 8. “Promenade” (Passeio) 9. “Ballet des Petits Poussins dans leurs Coques” (Balé dos Pintinhos em suas Cascas de Ovos) 10. “Samuel Goldenberg et Schmuyle” 11. ”Promenade” (Passeio) 12. ”Limoges, Le Marché” (O Mercado em Limoges) 13. “Catacombae, Sepulcrum Romanum” (Catacumbas, Sepulcro Romano) 14. “Cum Mortuis in Língua Mortua" (Com os Mortos em Língua Morta) 15. “La Cabane de Baba-Yaga sur de Pattes de Poule” (A Cabana de Baba-Yaga sobre Patas de Galinha) 16. “La Grande Porte de Kiev” (O Grande Portal de Kiev) Sempre me impressionei com “Gnomo”, “O Velho Castelo”, “Catacumbas”, “A Cabana de Baba-Yaga” e “O Grande Portal de Kiev”, além da originalidade com que, cada vez, ele apresenta a "Promenade". Em sua orquestração, Ravel emprega instrumentos de percussão com muita habilidade e bom gosto, já que no original não há nem sinal de onde caberia tal percussão. Em “O Velho Castelo”, Ravel deu a melodia a um saxofone, instrumento raro na orquestra. A lenda de “Baba-Yaga” é sobre uma feiticeira russa, às vezes boa e prestativa, outras, má, que mora numa cabana sobre pés de galinha. Nem todos os quadros sobreviveram, mas vou colocar alguns dos que ainda existem. Gravações recomendadas: Orquestra do Teatro Mariinsky (Mariinsky Orchestra), regente: Valery Gergiev – Orquestra Sinfônica de Chicago (Chicago Symphony), regente: Neeme Järvi

  • Chopin - Os Estudos (Études) - Análise

    Frédéric Chopin (1810-1849), pianista e compositor polonês do romantismo, gostava de escrever coisas em série - 1 livro de 24 Prelúdios, 4 Baladas, 4 Scherzi, muitas Valsas, Polinaises e Mazurkas. E ele nos deixou 2 livros de 12 Estudos cada. Na sua época era comum que professores de piano compusessem séries de estudos, na verdade, já era tradição. Eram peças sem graça, destinadas a exercitar cada parte da técnica do piano. O que Chopin fez foi colocar música nesse conceito. Seus Estudos são, acima de tudo, interessantes ao ouvinte. Aliás, não sei se acima de tudo, poruqe eles são bem difíceis, também. Funcionam como estudos, sim. Abordam quase tudo da mecânica de tocar piano. Mas são também, acho até que principalmente, peças de concerto. O Livro 1, Op. 10 O 1º Caderno é de 1833. Tem alguns dos Études mais famosos, que são o 3º, às vezes chamado de "Tristesse", e o 12º, chamado "Revolucionário". Mas todos são famosos. Esmiucemos. 1. Em Dó Maior- O primeiro é bombástico, embora dê a impressão de que o conjunto vai ser musicalmente besta. É que ele nada mais é que uma série de arpejos para a mão direita, com a esquerda fazendo uns baixos rudimentares. Mas lembrem-se, esses estudos são pro pianista se exibir. Veja abaixo. 2. Em Lá Menor - O segundo é uma peça dificílima. Ouvindo, parece fácil. Mas o cromatismo na mão direita é feito com só três dedos, porque ele ocupa (propositalmente) os outros dois com acordes em staccato. Em vários momentos você tem que passar um dedo por cima do outro. 3. Em Mi Maior - Esse é o mais lírico de todos. Chopin dizia que esta melodia era a mais bonita que compusera. O compositor nunca o chamou de Tristesse, mas o nome pegou. É um estudo de cantabile, que é adicionar um caráter de voz cantada, cheia de variações de dinâmica e tempo, ao piano. A parte central é completamente diferente, parecendo mais com uma peça de exibição. Mas logo volta a bela melodia. 4. Em Dó Sustenido Menor - É um estudo de velocidade, o que a gente chama de 5 dedos (sem truques, sem oitavas, terças, só agilidade, mesmo). O legal é que a mão esquerda tem tanta importância quanto a direita, muitas vezes a espelhando. 5. Sol Bemol Maior - É o Estudo das Teclas Pretas, porque as usa todas. Trabalha um padrão de dedilhado na mão direita, tocado muito rápido. É um dos mais famosos. 6. Mi Bemol Menor - Mais um lírico, ainda que triste. Trabalha a expressividade, bem como a extração de melodias escondidas. 7. Em Dó Maior - Um estudo um bocado difícil, a mão direita fica alternando entre terças e sextas de uma forma muito contraintuitiva. 8. Em Fá Maior - Adoro esse. É bem leve e iluminado, trabalhando arpejos na mão direita, conectando com a esquerda. 9. Em Fá Menor - Esse estudo é mais para a mão esquerda, trabalhando sua flexibilidade. Já foi usado até em uma esquete do Monty Python. 10. Lá Bemol Maior - Ele é um estudo geralzão. Trabalha expressividade (o compositor pede que a mesma figura seja tocada de todas as maneiras possíveis), pedal e polifonia (a capacidade de tocar mais de uma melodia simultaneamente). 11. Em Mi Bemol Maior - Esse é para o arpejo propriamente dito. O compositor escreve um acorde chapado e, ao lado dele, o símbolo do arpejo. Então toca-se aquele acorde de baixo pra cima, bem rápido - como se você estivesse tamborilando os dedos na mesa. 12. Em Dó Menor - O famoso "Revolucionário". Não foi Chopin que deu esse apelido. Aliás, nenhum deles foi dado pelo compositor, vindo, às vezes, até de detratores. Esse trabalha a mão esquerda, que faz arpejos e corridas pelo teclado. É um dos mais famosos, e não dá pra deixar de notar por que ele é chamado desse nome. O Livro 2, Op. 25 O 2º caderno foi publicado em 1837. Se o primeiro foi dedicado ao compositor e pianista húngaro Franz Liszt, este é para a sua amante, Marie D'agoult. Não vou entrar em detalhes porque não sou fofoqueiro. 1. Em Lá Bemol Maior - É chamado de "Harpa Eólica", que é um instrumento de cordas que se deixa tocar pelo vento. Trabalha um padrão de arpejos espelhados nas duas mãos. 2. Em Fá Menor - Também estuda velocidade e coordenação: a mão esquerda toca dois grupos de 3 notas e a direita toca quatro grupos de três notas - em quiálteras e ao mesmo tempo. 3. Em Fá Maior - É um estudo de movimento lateral das mãos, que têm que alternar rapidamente notas tocadas com os dedos centrais, com os dedos periféricos. 4. Em Lá Menor - Um estudo para saltos, na mão esquerda, e síncope, já que a melodia da direita está no contratempo. 5. Em Mi menor - O "Estudo da Nota Errada". Através de dissonâncias e síncopes, o compositor cria esse efeito - de que o pianista está sempre errando a nota ou o tempo dela. 6. Em Sol Sustenido Menor - Esse é o "Estudo das Terças Duplas". Surrealmente difícil, talvez o mais complicado de todos. Eu, há muito tempo, escutei uma gravação do grande pianista russo Josef Lhévinne e foi uma das ocasiões em que fiquei mais impressionado com um pianista (ainda mais dos anos 30). Ele toca com uma facilidade e aparentemente sem esforço. É mágico. 7. Em Dó Sustenido Menor - O mais longo dos estudos, nos dois livros. Chamado de "Cello", porque sua linda cantilena vem na mão esquerda, num registro que lembra o do violoncelo. 8. Em Ré Bemol Maior - Esse é um estudo de sextas. Muito difícil, porque se tocam sextas em sucessão em ambas mãos. 9. Em Sol Bemol Maior - Chamado de "Borboleta" (mais uma vez, não foi o compositor que colocou o apelido), ele estuda uma alternância entre o pedal e o staccato. É bem curtinho. 10. Em Si Menor - Outro dificílimo, é um estudo de oitavas duplas. Uma figura cromática é tocada em 4 oitavas simultâneas. Peça de exibição. 11. Em Lá Menor - O "Vento do Inverno" é um dos mais impressionantes. Começa como quem não quer nada e então ataca. É muito difícill, trabalhando uma figura descendente na mão direita. Esse estudo foi usado no final do filme "Green Book", numa das melhores dublagens de piano que eu já vi. 12. Em Dó Menor - Um grande final para os dois livros oficiais de Études de Chopin. Esse estudo tumultuado trabalha arpejos em ambas mãos e é uma típica peça de Chopin - "Sturm und Drang", falo sobre isso em outro post. Três Novos Estudos Em 1839, Chopin compôs os 3 Novos Estudos (Trois Nouvelles Études). Bem diferentes em caráter dos Opp. 10 e 25, eles foram concebidos como uma contribuição para a apostila de piano de Ignaz Moscheles. Costumam ser gravados por pianistas que fazem a integral dos estudos. Agora, se não são difíceis (foram feitos para estudantes), são bem bonitinhos. A Edição de Godowsky O pianista e compositor polonês Leopold Godowsky (1870-1938), de quem temos gravações (bem antigas), fez uma série de 53 Estudos a Partir dos Estudos de Chopin. Cada um dos de Chopin rendeu 2 ou mais dos dele. Não dá pra dizer que são composições originais, porque as peças de Chopin estão totalmente reconhecíveis. Mas também não dá pra chamar de arranjos, porque ele fez bastantes alterações. É interessante. No Op. 10 Nº1, por exemplo, ele só inverte os arpejos. Quando um é pra cima, ele faz pra baixo. Se você quiser conhecer, o grande pianista cubano Jorge Bolet gravou alguns. https://open.spotify.com/album/4CPgokGFj4VNxgXZmVQHZA?si=eMclxYKlTLye9E8nVsB9aw Gravações Importantes Andrei Gavrilov - Ninguém toca o Op. 10 Nº 4 tão rápido quanto Andrei Gavrilov. Talvez a Martha Argerich, mas ela não gravou todos os estudos. Os estudos com o Andrei têm falhas (pequenas), mas ganha pontos por não evitar tomar riscos. É de tirar o fôlego. https://open.spotify.com/album/0hRCevyRTex7Q4fgvYvfy6?si=A9va88qVRBqRg4MjLb6UuQ Nelson Freire - Você encontra o Op. 10 num disco com a Sonata Nº 2; e o Op. 25 em outro, com a Sonata Nº 3. Nelson é simplesmente perfeito, sua famosa técnica cai como uma luva nos estudos. Vladimir Ashkenazy - Ashkenazy, no primor de sua técnica, nos dá uma versão peculiar. Ele aceita as dificuldades da peça, mas toca, sobretudo, com tranquilidade. Faz parecer fácil. Guiomar Novaes - Quando gravou os Études, Guiomar já tinha passado do seu auge, mas sua musicalidade certeira, não. Essa é uma gravação para quem quer ouvir mais o aspecto musical do que o técnico. https://open.spotify.com/album/6CjUHqkdYKgxojP6xj0i4w?si=EBi7KkOPSzC7sNcohsBQow

  • Rachmaninoff - Concerto Nº 2 - Análise

    Vou falar aqui do Concerto para Piano de que mais gosto desde criança. O 2º Concerto para Piano e Orquestra, em Dó Menor de Sergei Rachmaninoff (1873-1943), seu Opus 18, é também o mais popular de todos os concertos para piano já escritos. Desde os anos 50 vem sendo gravado constantemente e aparece facinho nos concertos de qualquer orquestra e pianista. História Foi composto em circunstâncias especiais. Pra entendê-lo, a gente vai ter que voltar um pouquinho. Rachmaninoff tinha começado, em 1891, a carreira de compositor. Sua peça de formatura do conservatório fora o Concerto Nº 1, em Fá Sustenido menor, Op. 1. É uma obra extremamente cativante, bem escrita e segura, especialmente para um compositor de 18 anos. Verdade que a primeira versão, que eu ouvi em gravação de Alexander Ghindin, regida por Vladimir Ashkenazy e com a Orquestra Filarmônica de Helsinki (resolveram gravar a obra como originalmente concebida), é um tanto vazia, como se fosse nua. Mas em 1917 ele faria uma revisão - que é tal como conhecemos a obra hoje - em que a orquestra é mais colorida, intercede mais e de maneira mais certeira. Além de mudar a maneira como algumas frases caminham. Mas, mesmo a primeira versão, mostra um absurdo talento para a melodia, para até mesmo a condução harmônica (e modulações) das frases e uma escrita para piano impetuosa, impecável. Como Moscou era um ovo, bastava uma apresentação para que uma obra chamasse bastante atenção e levasse aquele compositor ao - pelo menos relativo - sucesso. Então. Ele começou bem, e iria despontar de vez com a ópera Aleko, de 1892. Essa lhe garantiu até um editor, que, mais tarde, se provaria de muita utilidade, atirando uns dinheirinhos em épocas mais complicadas. Como todo compositor importante, esperava-se uma sinfonia dele. A morte de Tchaikovsky, que era um mentor para ele, e outros compromissos, adiaram um bocado a sinfonia, mas em 1895 ela saiu. E só foi tocada em 1897. O problema é como foi tocada. A premiére seria regida pelo compositor Alexander Glazunov. Acontece que ele não ensaiou a orquestra o suficiente (a obra tem vários momentos em que precisa de um regente firme e criativo) e ainda deu de beber. Tocou embriagado. Pelo menos é o que recorda Natália Satina, que se tornaria esposa do compositor. Rachmaninoff, na coxia, só ia se contorcendo com cada desafinada, cada entrada errada, cada passagem tocada forte demais ou fraco demais... Ele nem aguentou ouvir o finale (último movimento), indo embora sem olhar pra trás. Como São Petersburgo também era um ovo, espalhou-se do fracasso da peça. Os críticos foram venenosos. A crítica do colega compositor César Cui para o Novosti não ajudou: "Se existe um conservatório no inferno, e a um de seus estudantes talentosos é dada a tarefa de escrever uma sinfonia programática sobre as Sete Pragas do Egito, caso ele escreva uma sinfonia parecida com a do Sr. Rachmaninoff - seu problema não poderia ser resolvido de maneira mais brilhante, e ele encantaria todos seus companheiros de inferno." César Cui A sinfonia em si não era muito carismática - carecia de encantamento melódico e de um bom julgamento sobre a forma - mas tinha muitos méritos. Mas César. Pô. Doeu. Aliás, a palavra que descreve Rachmaninoff nesse momento é devastado: "Depois daquela sinfonia eu não compus mais nada por cerca de três anos. Eu me sentia como um homem que tivesse sofrido um derrame e por um longo tempo perdido seu uso da cabeça e das mãos. Eu não vou mostrar a sinfonia para ninguém, e vou me certificar disso no meu testamento, também." Sergei Rachmaninoff A palavra depressão aparece repetidas vezes em suas biografias. Sua família, preocupada, conseguiu que Sergei visitasse seu ídolo, o grande e já envelhecido escritor Leon Tolstói, mas as duas vezes em que se viram não foram de muito agrado para o compositor. Tolstói ficava repetindo coisas como "você acha que eu estou sempre satisfeito comigo", "você acha que tudo na vida é fácil?", ou "Trabalhe, trabalhe todo dia"... "Frases de efeito", segundo Rachmaninoff. Outra coisa que os parentes tentaram foi levá-lo a um terapeuta, que seria hoje o equivalente a uma mistura de psicanalista com hipnoterapeuta. Ele estava tão desesperado que aceitou ver toda semana o Dr. Nikolai Dahl. Foi o ponto de virada de sua vida. Ele ganhou intimidade com o doutor, que era apaixonado por música, e foi recuperando sua auto confiança. Surgiu uma oportunidade de concerto pra ele fazer em Londres, e ele queria escrever uma obra para isso. Então eles ficavam repetindo literalmente (trabalho de sugestão) "eu vou voltar a compor", "eu vou escrever um concerto de que todos vão gostar". Tá bom de eu dizer umas coisas dessas em voz alta, porque funcionou muito bem. Em 1900 ele compôs os dois últimos movimentos e os estreou. Depois compôs o 1º movimento e estreou tudo de novo, em 1901, em Moscou - o concerto na Inglaterra esperaria. Ele dedicou a obra ao Dr. Nikolai Dahl. A partir daí a carreira dele decolou, sendo solicitado para tocar no EUA com frequência, partindo pela primeira vez em 1909 - sobre isso falo nesse artigo. Ele casou em 1902 com a Natália, e foi um casamento feliz e próspero. Agora vamos conhecer um pouco da obra. O Concerto Acima, você vê o célebre pianista russo Evgeny Kissin executando o concerto com a Orquestra Filarmônica da Rádio Francesa, regida por Myung-Whun Chung. 1º Movimento - (um tal de) Moderato A obra começa (50s) com os famosos acordes à guisa de sinos no piano. Ele faz um crescendo até que desemboca no primeiro tema, tocado pelas cordas com um clarinete (1m19s até 2m46s). Este recurso de apoiar as cordas com apenas um instrumento de sopro é bem comum em Rachmaninoff, e certamente comum nesse concerto. Sobre esse tema, ele é tão comprido que o compositor sempre teve medo que as pessoas achassem que era uma introdução, em vez do tema principal. Mas ele recebe muito tratamento temático, repare quantas vezes você vai ouvir esse motivo ondulado, da frase que abre o tema, por todo o movimento. Depois de uma ponte do piano (3 min.), bem ligeira, que cai num acorde em fff da orquestra, o próprio piano dá o segundo tema (3m25s). Uma melodia super lírica e muito bonita. Preste bem atenção nos dois elementos que compõem esse tema: um arpejo ascendente e um rabinho serpenteado. Mais ou menos assim: Os dois motivos centrais do segundo tema são os circulados ao lado desenhado por um profissional. Preste bem atenção no segundo. Ele irá se tornar um "vírus", que é um elemento que vai tomando conta da música até dominá-la por completo. O segundo tema é repetido e desenvolvido imediatamente. Um breve e lindo diálogo do piano com o clarinete e o oboé, é seguido por uma doce subida e descida, baseada no primeiro motivo do desenho profissional. Um toque dos metais (5m53s) anuncia o desenvolvimento. O primeiro tema volta (6m06s), desta vez com caráter urgente. E aí o vírus começa a agir. Primeiro você o ouve na flauta (6m12s). Ele aparece de duas formas: puro, como o do desenho; ou precedido de três notinhas. O piano é logo contagiado por ele. O desenvolvimento todo é sobre os dois temas principais, mais o vírus. No ponto culminante (7m50s), ele faz uma mistura de final de desenvolvimento com começo da recapitulação. A orquestra toca o tema 1 enquanto o piano vai tocando o vírus. A segunda metade do tema 1 cabe ao piano. Quando entra o segundo tema (9m42s), é na trompa, de forma mais calma - como tinha que ser, ao suceder a recapitulação turbulenta do tema 1. O vírus ameaça ainda (10m18s), e fica. Agora ele dominou o movimento. Tudo o que se segue é uma elaboração dele. Ele aparece bem espaçado no piano nesse trecho (10m33s) em que os violoncelos fazem o arpejo do tema 2, num momento cheio de modulações, até que chega o coda (12m03s). E bem no finalzinho o piano faz uma referência ao 1º tema (12m36s). 2º Movimento - Adagio sostenuto O segundo movimento tem um formato mais livre, com um tema principal, uma parte B (com uma semi cadência) e a volta do tema. É o movimento lento da obra. Vamos lá. Tudo começa nas cordas (13m08s), que fazem uma das modulações (mudança de tonalidade) mais famosas do repertório - passa de Dó menor a Mi maior. Aos 13m34s o piano começa uma série de arpejos que vão servir de acompanhamento para o tema principal do movimento, que começa na flauta (13m58s) e é belamente entregue ao clarinete (14m20s). Esse tema é uma longa e linda cantilena, terminando com a flauta se juntando ao grupo (15m21s). Agora (15m33s) o piano repete, de maneira bem simples, o tema, enquanto o clarinete devolve a gentileza e o acompanha com o mesmo arpejo. A primeira parte termina com um acorde de Si Maior subitamente mudando para Si Menor (17m30s), dando início à seção mais atormentada desse movimento (17m39s), que funciona um pouco como desenvolvimento. A música vai ganhando tensão até explodir numa cadência curta e virtuosística do piano. Não se trata de uma cadência no sentido clássico-romântico, mas de um momento em que o piano fica mais exposto (21m15s). As flautas (22m10s) anunciam a volta à paz. O piano começa seus arpejos e as cordas entram com o tema (22m44s). Depois de uma culminância (24m08s) a orquestra vai perdendo a força até deixar só o piano, que termina o movimento. 3º Movimento - Allegro scherzando O terceiro movimento é bem rápido (25m53s). A orquestra começa como que brincando (scherzando) e cresce bem rápido até que entra o piano com uma escala bem rápida. É o movimento mais difícil e virtuosístico da obra. Seu tema principal aparece sensual, primeiro nas cordas e no oboé (27m47s), e é imediatamente repetido pelo piano (28m25s). Depois temos um momento exótico (29m27s), sucedido por mais um momento de virtuosismo (30m05s). A história é repetida: tema principal do movimento nas cordas, dessa vez com a flauta (32m23s), repetido novamente pelo piano (33m). Novamente sucedidos pelo momento exótico (34m09s). Mais um momento virtuosístico leva a uma explosão da orquestra (36m06s), que faz o piano repetir a escala do começo (36m10s) e parar dramaticamente. Então (36m26s) explode o tema principal, dessa vez glorioso e brilhante. Não poderia haver finale melhor (e que puxasse mais aplausos) não só para o concerto, como para toda a história que o cerca. Suntuoso e triunfal. Gravações Importantes Como eu falei, quase todo pianista tem que gravar o Concerto Nº 2 em algum ou em vários momentos da sua carreira. Aliás, hoje em dia não vemos muito isso, de um intérprete gravar a mesma obra várias vezes. Mas antigamente, até os anos 70 ou até mesmo 80, isso era comum. O grande mestre russo Vladimir Ashkenazy gravou esse concerto pelo menos 3 vezes como pianista e uma como regente. Foi ele quem regeu a gravação que eu mencionei acima dos originais do Concerto Nº 1 e do Nº 4. Mas vamos ao que interessa. - Sergei Rachmaninoff, com a Orquestra de Filadélfia, regida por Leopold Stokowski - O simples fato de termos um grande compositor do romantismo que gravou suas obras já é demais! O som é cheio de chiado (a gravação é de 1929, e é até boa pra época), mas vale à pena. É uma interpretação completamente sem frescura, sem exageros, rubatos e crescendos desnecessários. Stokowski era o regente do momento e a Filadélfia, a orquestra perfeita. Além disso, tinha-se implantado recentemente a gravação elétrica, uma nova forma, bem mais fiel, de captar o som. A dupla já tinha gravado a mesma obra em 1924, mas a qualidade do som é pior. Nessa gravação de 29, o compositor/pianista e o regente tinham discordâncias, com Rachmaninoff mais comedido e Stokowski mais dado à grandiloquência. Sergei gravaria os outros 3 concertos com a mesma orquestra regida por Eugene Ormandy (não porque brigara com Stokowski, apenas este não era mais o titular da orquestra). Esta gravação explica por que os pianistas tocam os acordes iniciais mais lento do que o andamento do primeiro movimento. Rachmaninoff o fazia. - Krystian Zimerman, com a Sinfônica de Boston, sob a batuta de Seiji Ozawa - Tanto Zimerman quanto Ozawa são intérpretes fenomenais, ainda que um tanto exagerados. Mas nessa gravação estão impecáveis. Vem num CD junto com o 1º Concerto, na interpretação definitiva deste. É extraordinário. Tudo, inclusive a sincronia assustadora que eles alcançaram. - Sviatoslav Richter, com a Filarmônica de Varsóvia, sob Stanislav Wislocki - Se você perguntar a qualquer conhecedor desse concerto por uma interpretação boa e saudável dessa obra, vão te dizer pra começar com essa. O som não é perfeito, mas é muito bom. A orquestra não era também essas coisas. Mas a interpretação como um todo acaba sendo justamente isso: a mais indicada. - Alexis Weissenberg, com a Filarmônica de Berlim e Herbert von Karajan - Tem uma gravação em vídeo (fuja dessa, já começa com Weissenberg propondo um andamento e Karajan deliberadamente acelerando) e a gravação de estúdio. Esta, de 1972 beira a perfeição. Weissenberg tinha uma técnica de máquina - ele não era expressivo em excesso, mas mecanicamente, nunca vi igual - e se adequava muito bem a Rachmaninoff. Karajan, que nunca gravou outra coisa desse compositor, se mostra inspirado do começo ao fim, e a Filarmônica, impecável. A flauta e o clarinete do 2º movimento são tocados com tanto carinho que dá dó. - Vladimir Ashkenazy, com a Orquestra do Concertgebouw, de Amsterdã, regida por Bernard Haitink - Gravação com um som magnífico, acho mais interessante que a do mesmo pianista regida por Previn. Mas só levemente, ambas são muito fortes. O próprio piano (que eles escolheram) tem um som impactante. As cordas da Concertgebouw, na entrada, soam já fantásticas. Tudo é mágico, e se você quiser se perder na música, ouça esta gravação. O único problema é que a prática da época (anos 70) era de interpretar as obras com certas nuances que hoje pareceriam dramáticas. Mas, sabendo que é coisa de época, dá pra perdoar. Leia sobre o 1º e um pouco mais sobre o 2º Concertos aqui. Aqui sobre o 3º e aqui sobre o 4º. Gostou do post? Não esqueça de comentar e de clicar no coraçãozinho, pra gente saber que você gostou do conteúdo.

  • microliteratura de marcio markendof #01: microcontos críticos

    Brevíssimas histórias sobre questões de gênero. A microliteratura tem ganhado cada vez mais espaço na vida literária brasileira, muito especialmente em razão das redes sociais (Twitter, Facebook, Instagram), canais que facilitam a circulação desses produtos. Com uma nomenclatura variável — nanocontos, microcontos, miniconto —, a microliteratura da internet apresenta textos de umas poucas linhas/caracteres, às vezes acompanhados por imagens ou legendas, componentes paratextuais que complementam, reforçam ou ironizam o conteúdo do (micro)texto principal. Tal formato mínimo de escrita pode manter paralelos, por exemplo, com a linguagem do chiste, da charge, do aforismo ou do meme, frequentemente sendo permeado pelo humor e pela crítica social. Na pequena seleta abaixo, a intenção é problematizar questões de gênero e sugerir a reflexão sobre a heterossexualidade compulsória. Marcio Markendorf Professor, pesquisador e escritor. Leciona no curso de Cinema e na Pós-graduação em Literatura da UFSC. Publicou a novela "Soy loca, Lorca, feito um chien no chão" (Urutau, 2019) e, em parceria com Adriano Salvi, o volume de microliteratura, "Microcontando" (Caiaponte Edições, 2019), obra financiada pela lei de incentivo à cultura de Balneário Camboriú. Mantém uma conta dedicada às formas breves no Instagram ( @microliteratura ).

  • Pitch meeting Legendado 3 - Eclipse

    Parte 3. Veja a segunda aqui e a primeira aqui. São legendas das reuniões de roteiro do canal do YouTube Screen Rant. Não esqueça de comentar aí em baixo. Não deixe de conferir nossas listas de: Top 10 Sinfonias Top 10 Concertos para Piano Top 10 Sonatas para Piano

A Arara Neon é um blog sobre artes, ideias, música clássica e muito mais. De Fortaleza, Ceará, Brasil.

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