• Kah Dantas

gosto mais de estar com 30.



Gosto mais de estar com 30. De me olhar assim de perto, um privilégio, e saber que me tornei outra, outra menina, outra mulher.


Gosto mais desses encontros com os espelhos. De descobrir, à penumbra ou à plena luz, as minhas formas e suas incontáveis perfeições, no meio das curvas, através dos pelos e poros, no traço das rugas e nas camadas de celulite.


Gosto mais de não achar que estou competindo com outras mulheres, de que preciso de um homem para ser feliz, de que devo satisfações da minha aparência, da minha língua e de quem frequenta a minha cama ou os meus textos.


Gosto mais de não aceitar menos do que dou, de ter aprendido a dizer não, não gosto, não quero, talvez mais tarde, talvez nunca.


Gosto mais de não ter saco para fingir orgasmos, de finalmente ter comprado um vibrador e de saber exatamente o que me deixa com tesão, na minha pele e na pele do outro.


Gosto mais de ignorar as vitrines, os manequins, os catálogos de cosméticos, a promessa da juventude eterna, a suposta ameaça dos carboidratos.


Gosto de comer meus doces em paz.


Gosto mais de saber que não preciso casar ou ter filhos, porque temos abandonado, não sem sofrimento, eu sei, os prazos de validade.


Gosto mais de não ter medo do futuro, como quando eu tinha vinte anos e imaginava que já estaria velha aos 30.


Gosto mais de me imaginar aos 40. Da ideia de fazer 50. De poder fazer uma grande festa para comemorar os 60, a idade que a minha mãe tem hoje, com o rosto e o sorriso tão belos quanto antes, e o mesmo cheiro doce e atraente nos abraços.


Gosto mais de ter chegado até aqui e de me sentir muito bonita, não por causa dos reflexos com mais ou menos roupa, mas por causa de quem eu sinto que sou, da boa companhia que faço a mim mesma, das conversas que tenho comigo e dos sonhos que ainda tenho sonhado, apesar de tudo e de ser mulher.


Gosto mais, finalmente e tanto mais, de olhar em volta e saber que não estou sozinha, pois ao meu lado caminham mulheres, grandes e maravilhosas mulheres, com mais ou menos décadas de vida, e que me inspiram todos os dias a gostar mais de mim e dessa vida pela qual eu permaneço acordando durante as manhãs.



Kah Dantas


Kah Dantas é cearense, mestra em literatura comparada, professora da rede pública de ensino e autora do livro autobiográfico Boca de Cachorro Louco (2016) e do livro de contos eróticos Orgasmo Santo (2020). Gosta de escrever, cometer o pecado da carne e comer docinhos.

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