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- Músicas Fofinhas 2 - Gluck / Sgambati - Melodia de Orfeu
Essa música pertence à ópera Orfeu e Eurídice, de Christoph Willibald Gluck, de 1762, revisada em 1774. Nessa versão tem um trecho chamado chamado de "Dança dos Espíritos Abençoados", que é para orquestra com flauta dominante. Acontece que o pianista Giovanni Sgambati, muito tempo depois, fez da Dança dos Espíritos uma peça para piano, que ele chamou de "Melodia de Orfeu". É praticamente uma transcrição para piano da linda cantilena da flauta acompanhada pela orquestra. Vou colocar as duas versões para vocês verem. Abaixo, a versão da ópera, com uma flauta acompanhada pelo Furibondo String Trio: E aqui, a versão que se tornou tão popular ao piano, com Yuja Wang. Uma vez o Arnaldo Cohen a tocou num recital aqui em Fortaleza. Eu tive que sair, pois choro com essa também. É pura beleza e inspiração. E é conhecidíssima, muito mais do que a ópera de que deriva. https://open.spotify.com/track/24cgBBhZD1cWekUqaYuqTB?si=4501ea363a404509 Gostou? Comente! Veja aqui, como ouvir música clássica. E veja nossas famosas listas - Top 10 Maiores Pianistas do Brasil - Top 10 Sinfonias Imprescindíveis - Top 10 Sonatas que Você tem que Conhecer - 10 Discos para Entender Beethoven - 10 Discos para Entender Mozart E análises de obras: - Brahms - Sinfonia Nº 1 - Brahms - Sinfonia Nº - Brahms - Concerto para Piano Nº 1 - Brahms - Concerto para Piano Nº 2 - Chopin - Os Études - Chopin - As Baladas - Beethoven - Sinfonia Nº 5 - Beethoven - Sinfonia Nº 6 "Pastoral" - Tchaikovsky - Sinfonia Nº 6 "Pathétique" - Dvorák - Sinfonia Nº 9 "Do Novo Mundo" - Mussorgsky - Quadros de Uma Exposição - Rachmaninoff - Concerto 1 - Rachmaninoff - Concerto 2 - Rachmaninoff - Concerto 3 - Rachmaninoff - Concerto 4 - Rachmaninoff - A Ilha dos Mortos - Richard Strauss - Sinfonia Alpina - Stravinsky - A Sagração da Primavera
- Beethoven - Sinfonia Nº 3 'Eroica' - Análise
Em 1803, Ludwig van Beethoven ainda era, de certa forma, um pacato cidadão morando em Viena, na Áustria, encantado com a Revolução Francesa e com Napoleão Bonaparte. Acontece que em 1804 Napoleão proclamou-se imperador e Beethoven ficou revoltado. Simplesmente porque viu que era um déspota, não estava interessado nos ideais da revolução, mas no poder. Não que ele tivesse nada a ver com o imperador, mas tinha escrito uma sinfonia inteira e revolucionária em sua homenagem. Pois ele foi lá na partiura manuscrita e apagou o nome do homenageado com tanta força que rasgou o papel. Além disso, a mente de Beethoven estava tumultuada pelo início da surdez, o que o levou a escrever o Testamento Heiligenstadt, já distribuindo seus bens e evidenciando sua tortura interna. A Eroica (Heróica) é revolucionária em vários aspectos: temos muitos acordes dissonantes, ele reforça tempos exóticos, o próprio comportamento da música é inovador, trazendo um espírito de triunfo, uma aura épica, que ainda não se tinha visto na música até então. Ao que parece, o compositor estava ciente do impacto dessas inovações. Houve um ensaio lendário em que os músicos quase se recusaram a tocar, e ele mesmo perdeu o ritmo em uma eção. Era considerada difícil de tocar, difícil de escutar, quase obcena. Mas ele insistia, regendo a estreia em agosto de 1804, na casa do seu patrono, o príncipe Franz Joseph von Lobkowitz, a quem a obra é dedicada. A sinfonia marca a entrada de Beethoven em sua segunda fase (de três). A fase romântica, ou fase heróica, como é chamada. É considerada o marco inicial do romantismo na música. Foi composta logo depois da segunda, mas se despede do classicismo presente nesta de forma retumbante. A orquestra pedida contém: 2 Flautas 2 Oboés 2 Clarinetes 2 Fagotes 3 Trompas 2 Trompetes Tímpanos Violinos 1 Violinos 2 Violas Violoncelos Contrabaixos Consta que o príncipe contratou 20 músicos extra para a estréia. A Obra Abaixo, a Sinfônica da Rádio de Frankfurt (hr-Sinfonieorchester), regida por Andrés Orozco-Estrada. I. Allegro con brio (20s) Ela já começa com dois acordes como que mostrando seu caráter agressivo. Logo depois aparece o tema 1 nos violoncelos (23s). A frase dos violoncelos parece ser interrompida por uma nota dos violinos (28s), que leva a um desfecho inesperado. As madeiras repetem o tema 1 (36s), mas dessa vez sem a interrupção, indo para uma terminação mais previsível. E já temos nesses poucos segundos uma revelação do que vai acontecer nos próximos minutos. Repare nas acentuações rítmicas aos 46s. O tema 1 entra com mais vigor aos 59s. Temos, então, uma transição nas madeiras (1m08s), depois outra (1m27s), nas cordas. Agora (1m48s) temos o segundo tema, bem contrastante, no clarinete. Na verdade, ele é bem distribuído pela orquestra. Aos 2m32s temos mais acordes acentuados e aos 2m37s, acordes repetidos como um martelar insistente. Aí, num súbito piano (2m59s), as cordas nos preparam para a repetição disso tudo, que começa aos 3m05s. Aos 3m18s repare na trompa natural que eles usam, sem pistos. É um instrumento que, se fosse esticado, atingiria uns 7 metros de comprimento. O desenvolvimento começa aos 5m45s, num clima meio misterioso. Logo aparece um material da transição (6m). Aos 6m13s repare na entrada do tema 1 nos contrabaixos e violoncelos. A música parece que vai se complicando, com mais acentuações e mudanças de tonalidade. Aos 7m29s tem início uma seção medonha que culmina com o acorde mais estranho da música (7m59s). Depois disso, Beethoven achou por bem nos dar um novo tema (no meio do desenvolvimento, o que não é comum). Nos oboés, aos 8m08s. Aos 8m26s o tema 1 ameaça. Aos 8m50s, em vez de nos apresentar alguma ideia nova sobre o tema 2, ele reapresenta o tema 3 e o desenvolve. A recapitulação tem início depois de uns tremulos em piano dos violinos. Aos 10m12s temos o tema 1, e mais uma vez, com um desfecho diferente. Temos as transições e o tema 2 aos 11m54s. Temos, então, o coda, aos 13m01s com uma modulação. Ele ainda trabalha o tema 3 (13m28s). Ele também trabalha os outros temas, nem parece um coda. E acaba com os mesmos acordes com que começou. II. Marcia funebre: Adagio assai (16m14s) O segundo é uma marcha fúnebre. Nobre e dramática, sua forma é A-B-A. Seu tema 1 é ouvido logo no início, nos violinos em registro grave. O oboé o repete aos 16m48s. Aos 17m18s, os violinos introduzem o tema 2, menos langoroso e mais poderoso. Ambos terão influência por todo o movimento. Aos 18m17s o tema 1 volta, na subdominante. Agora, aos 18m43s, o tema 2 volta no oboé. Ouça o eloquente acorde nas madeiras, aos 20m15s. Aos 20m50s tem início a parte B, que é bem mais serena, concedendo um certo alívio. É quase pastoral. Aos 22m39s começa uma modulação que nos trará de volta os temas da parte A (22m54s). A escrita é sutil, mas muito bem elaborada. Temos um fugado belíssimo, começando aos 23m31s. Ele serve como desenvolvimento. Aos 25m27s, mais acordes dramáticos e uma cadência perfeita que leva ao começo do tema 1. Aí Beethoven endoida de novo (26m). Tudo muito atormentado e dividido. Até que o oboé restaura o tema 1 em sua completude (26m46s). O tema 2 volta aos 27m12s com um brilho escuro fora do comum. É incrível como esse movimento, assim como o anterior, se faz com pouco material, apenas desenvolvendo bem e alternando gestos. Repare, por exemplo, na seção quase jocosa que tem início aos 28m54s. E em como ela vai ganhando dramaticidade aos poucos até jorrar uma completa melancolia, antes de a música acabar. III. Scherzo. Allegro vivace - Trio (32m02s) Depois desses dois movimentos superpoderosos, não tinha muito como fazer o Scherzo brilhar. Mas ele faz o possível. É um inventivo movimento em que predomina a escrita absolutamente clara para a orquestra, alternando momentos de pianíssimo com fortíssimo. O Trio começa aos 35m36s, com três trompas. Repare como, na trompa natural, a mão direita tem que se movimentar na campana para dar as notas na afinação correta. Aos 36m09s volta o Scherzo. Existe um consenso de que estes dois últimos movimentos são mais fracos. Leonard Bernstein argumenta que isso é só porque os dois primeiros foram tão monumentalmente fantásticos. Concordo. IV. Finale. Allegro molto - Poco Andante - Presto (37m58s) O finale é um tema com 10 variações. Ele aparece aos 38m10s bem calminho em pizzicato nas cordas, com alguns arrebatamentos. A primeira variação é bem contrapontística, nas cordas, também, mas com arco. Na terceira variação o tema aparece nos baixos e uma segunda melodia começa a invadir, aos 39m43s, no oboé. Ela terá importância e será, inclusive, protagonista dos momentos culminantes do movimento. Aos 40m23s temos mais um fugado, valendo como quarta variação, que tem consequências mais dramáticas. Depois a música segue alternando momentos turbulentos com outros mais triunfantes. Observe, aos 42m29s, a aparição do inocente tema 2. Ele domina a nona variação. Aos 44m28s temos uma lembrança do tema 2 do segundo movimento. Na décima variação, a orquestra volta em tutti (todos os instrumentos) em mais um momento de grandeza. O coda é brilhante e enérgico. Considerações finais A Eroica é de uma importância grandiosa no desenvolvimento da história da música. Suas dimensões, suas alterações de humor, sua magnitude, sua orquestração, tudo transborda criatividade e a personalidade única de Beethoven. Começa o romantismo, com todas essas características, que seriam levadas às últimas consequências, de modo que, no final do século XIX, os compositores achavam que não tinham mais para onde expandir a música tonal, partindo para outras ideias, como o atonalismo, dando origem à música moderna. Gravações importantes Vou tentar ir além do óbvio aqui, o que significa que só vou mencionar as gravações lendárias de Herbert von Karajan, Otto Klemperer e Wilhelm Furtwängler. Pronto, mencionei. E são excepcionais. - Erich Kleiber, com a Orquestra do Concertgebouw - De 1953, é a gravação clássica. Extremamente bem tocada e bem gravada para a época. - Gustavo Dudamel, regendo a Sinfônica Jovem Simón Bolivar - É de 2012 e é uma das gravações mais convincentes e com o melhor som. Dudamel e sua excelente orquestra venezuelana fazem milagre. - Claudio Abbado, com a Filarmônica de Viena - De 1987 e meio lerda, é uma das minhas gravações preferidas, com a Filarmônica tocando de modo excepcional. - George Szell, regendo a Orquestra de Cleveland - Em seu auge, a paceria Szell/Cleveland fez algumas das principais gravações de Beethoven. Temos, por exemplo, os concertos com Leon Fleisher, que são definitivos. A Eroica, de 1957, não fica atrás, com uma virilidade impressionante. Gostou? Comente! Veja aqui, como ouvir música clássica. E veja nossas famosas listas - Top 10 Maiores Pianistas do Brasil - Top 10 Sinfonias Imprescindíveis - Top 10 Sonatas que Você tem que Conhecer - 10 Discos para Entender Beethoven - 10 Discos para Entender Mozart E análises de obras: - Brahms - Sinfonia Nº 1 - Brahms - Sinfonia Nº 4 - Brahms - Concerto para Piano Nº 1 - Brahms - Concerto para Piano Nº 2 - Chopin - Os Études - Chopin - As Baladas - Beethoven - Sinfonia Nº 5 - Beethoven - Sinfonia Nº 6 "Pastoral" - Tchaikovsky - Sinfonia Nº 6 "Pathétique" - Dvorák - Sinfonia Nº 9 "Do Novo Mundo" - Mussorgsky - Quadros de Uma Exposição - Rachmaninoff - Concerto 1 - Rachmaninoff - Concerto 2 - Rachmaninoff - Concerto 3 - Rachmaninoff - Concerto 4 - Rachmaninoff - A Ilha dos Mortos - Richard Strauss - Sinfonia Alpina - Stravinsky - A Sagração da Primavera
- Compreendendo o Maestro Parte 3 - Curiosidades
Algumas curiosidades que eu achei interessante colocar aqui. Espero que formem um conjunto acima de tudo elucidativo sobre o papel do rengente. Poucos regentes são mulheres. Ou poucas têm destaque. Certamente tem a ver com machismo. E também com tradição, que elas estão criando agora. Algumas são: Marin Alsop (americana, regeu a Orquestra Sinfônica Estadual de São Paulo), Susanna Mälkki (finlandesa, rege a Filarmônica de Helsinki), Mirga Gražinytė-Tyla (lituana, rege a Sinfônica da Cidade de Birmingham), além de Alondra de la Parra, Joana Carneiro, Nathalie Stutsmann e outras. Homossexuais também são poucos. Até os anos 90 era quase impossível um regente se declarar gay. Um exemplo famoso era Leonard Bernstein, o maestro americano que morreu em 1990 e nunca expôs suas preferências sexuais. Mas pouco a pouco eles vão perdendo o medo. Alguns maestros morreram regendo: Dimitri Mitropoulos (teve um ataque cardíaco enquanto ensaiava a 3ª de Mahler), Giuseppe Sinopoli (ataque cardíaco aos 54 anos quando regia a ópera Aida), Joseph Keilberth (teve um colapso quando regia ópera no mesmo pódio em que, em 1911, morreu Felix Mottl), Eduard van Beinum (ataque cardíaco ensaiando a 1ª de Brahms) e um punhado de outros. Alguns regentes, como Arturo Toscanini, Herbert von Karajan, Daniel Barenboim e Vladimir Ashkenazy se tornam tão famosos quanto Pop Stars. Os regentes de primeiro escalão ganham muito dinheiro. Facilmente ultrapassam 3 milhões de dólares em uma temporada em uma orquestra. E geralmente eles têm vínculo com 3 ou 4. Alguns compositores foram regentes de maior ou menor sucesso. Temos gravações de Rachmaninoff, Stravinsky, Lutosławski, Penderecki e Villa-Lobos regendo suas próprias obras; e Boulez e Previn, que se tornaram regentes realmente respeitados e gravaram de tudo. Praticamente todo regente sabe tocar piano. Não necessariamente como virtuose, mas eles sempre reduzem a partitura orquestral para piano para aprendê-las. Além disso, regentes de ópera muitas vezes ensaiam os cantores acompanhando-os ao piano. Entre os regentes que são pianistas virtuoses temos Daniel Barenboim, Vladimir Ashkenazy e Andre Previn. A leitura de partitura tem que ser excelente. Muitos regentes aprendem as obras só com a partitura, digamos, durante um voo. Eles batem o olho e têm uma ideia de como soa. Alguns são infernais e gritam com os músicos. Principalmente antigamente. Dá pra ver ensaios no YouTube em que eles destroem os instrumentistas. Mas a maioria é amigável. Muitos maestros preferiam reger sem a batuta: Leopold Stokowski, Valery Gergiev, Dimitri Mitropoulos e Pierre Boulez. Às vezes (uma vez na vida) a um maestro é dada a oportunidade de simplesmente montar uma orquestra com orçamento ilimitado; ou aprimorar uma, contratando músicos, construindo a sala de concerto. É o sonho de todos eles. Aconteceu no Brasil, quando John Neschling reformulou a Sinfônica Estadual de São Paulo e na Inglaterra, quando Simon Rattle reconstruiu a Sinfônica da Cidade de Birmingham. Existem maestros especializados na interpretação com instrumentos e técnicas de época. São as Interpretações Historicamente Informadas (HIP, sigla em inglês), de que falo nesse post. Alguns regentes brasileiros tiveram uma carreira de destaque lá fora: Eleazar de Carvalho, cearense de Iguatu; John Neschling, carioca; Roberto Minczuk, paulista. Tem dois regentes que eu não consigo mais escutar devido a seus comportamentos: James Levine (pior que ele é excelente) e Charles Dutoit, que já foi casado com Martha Argerich. Ambos se envolveram em escândalos de abuso e assédio sexual. Gostou do post? Comente aí em baixo. E não se esqueça de conferir: Parte 1 Parte 2
- Compreendendo o maestro parte 2 - Pra que serve?
O que faz um maestro? Se você já se perguntou isso, venha descobrir com a Arara. Ele fica mexendo as mãos na frente da orquestra, certo. E os músicos parecem entrar na hora em que ele baixa as mãos. Parecem também parar quando ele faz um gesto. Então fica aparente que o maestro é, como diz a famosa analogia, um guarda de trânsito musical. Ocorre que isso é parte do trabalho dele, sim. Parte! O regente, que é o nome técnico da profissão, dá a entrada da orquestra, e todas as entradas de instrumentos que ocorram naquela música. Digamos que você é um flautista. Você entra bem no começo da música, então fica atento ao levare (que é uma espécie de gesto preparatório) e começa a tocar quando a mão cai. Se você estiver tocando devagar demais, o maestro tem um gesto pra te dizer pra correr um pouquinho. Daí você para de tocar e a partitura diz que você vai passar 93 compassos em silêncio. Você conta os 93 e entra no 94? Ou você não conta nada e entra quando o regente apontar pra você? Na verdade, é uma mistura dos dois. O maestro tem que indicar a sua entrada, mas você também tem que saber a hora de entrar (mesmo porque se você não souber isso, não está sabendo muito a música), até pro caso de ele esquecer (o regente tem que lembrar de 1 bilhão de coisas, pode esquecer alguma). O mesmo acontece se você estiver tocando fraco demais. Ele, com um movimento, vai te pedir pra crescer. Ou decrescer, caso esteja forte demais. A maneira e efetividade com que o maestro faz isso tudo se chama, simplesmente, técnica. Ou técnica de mão. Essa técnica vai permitir que ele dê equilibrio ao conjunto de forma rápida e eficiente. Uma das coisas mais difíceis de fazer é desacelerar a orquestra inteira sincronicamente, como se fosse um músico só reduzindo a velocidade e, depois, retomando. Isso porque o compositor pediu na partitura, escrevendo sobre as notas a palavra: ritardando. Agora, você imagina, uma partitura de 120 páginas (digamos, 30 minutos de música): tem milhares de observações e instruções, e o maestro tem que, não só saber como fazer, mas lembrar que estão lá. E aí vem outra questão: pra quê tantas instruções? O que o compositor quer com isso? Ele quer construir a narrativa da sua obra. Vamos pegar uma música de Richard Strauss (o Strauss profundo, sem parentesco com o valsista Johann Strauss II). A peça se chama Morte e Transfiguração. Começa com um ritmo fraco e pulsante. O que é? O coração de um homem à beira da morte? E por que a música tem passagens felizes? Estaria ele lembrando momentos alegres de sua vida? E daí se vai construindo uma interpretação lógica, baseada não só no que está na partitura, mas no que se sabe do compositor. Imagino que um regente leia muito. Principalmente biografias. Aí o regente pega todas as suas referências, todas as informações e indicações da partitura e monta a sua interpretação. E, nos ensaios, faz o seu melhor para que a orquestra compreenda essa visão. Por isso, não é incomum ouvirmos, num ensaio de orquestra, coisas como: "mais quente!", ou "mais assertivo", ou ainda "sem esperança!" etc... Mas não pense que toda música tem uma narrativa linear, uma historinha. Às vezes sim, mas como a música pode ser muito abrstrata, às vezes o regente tem que usar palavras mais alusivas, para que os músicos entendam onde ele quer chegar. Acha que terminou, o trabalho do regente? Non! Os músicos perguntam o tempo todo coisas como: que baqueta usar (numa percussão); qual o movimento certo dos arcos dos violinos; onde o oboé deve respirar etc. Tudo antes do ensaio, existe um acordo tácito de que os músicos devem falar o mínimo do mínimo nos ensaios, porque se cada um resolver tirar suas dúvidas ali, nunca mais vai terminar. E o regente tem que ter absoluta convicção e confiança no que diz. Se a orquestra perceber alguma insegurança nele, ela própria ficará insegura. Além disso, o maestro tem que ter boa relação com os músicos; autoridade; controle e calma. Cabe a ele, também, sempre aprimorar a orquestra, ensaiando sobretudo as fraquezas do conjunto. E ele participa do processo de seleção dos músicos. Os testes são feitos por trás de uma cortina, para que não sejam favorecidos homens sobre mulheres ou aconteça qualquer outro tipo de discriminação. Observe: Perceba a quantidade de informações que essa página da Sagração da Primavera, de Stravinsky, contém. Crescendo, glissando, sempre forte, uníssono, campanas no ar; flatterzunge. Além dos trinados, legatos, acentos, crescendos... Isso em três compassos: a obra tem quase 160 páginas. Não é exatamente o dever do regente saber cada coisinha de cor, mas ele tem que estudar a partitura o suficiente para ser fluente e, se precisar, apenas bater o olho na partitura para se situar. Arranhamos a superfície do que é o trabalho de um regente. No próximo post vou falar algumas curiosidades e, mais pra frente, claro, farei meus Top + que 10. Se ainda não leu, leia aqui a parte 1, um resumíssimo da história da regência. E aqui, a parte 3.
- Compreendendo o Maestro Parte 1 - História
Vamos tentar começar a entender o trabalho de um regente de orquestra. Quero que você me acompanhe, porque vou falar só o essencial e tudo que vou falar é essencial. No barroco, na música de câmara, o regente era o cravista. Na música coral surgiu aquele cidadão, o kapellmeister, que indicava aos cantores a sua entrada, a hora de respirar, quando cantar mais forte e que vozes deveriam se destacar das outras em determinada passagem (mas ele também era o compositor e arranjador daquela corte ou daquela igreja). E eles aplicaram isso também à orquestra, que começava a crescer e precisar de um indivíduo dedicado para aquela função. Ainda mais em ópera. No começo eles regiam com um bastão, batendo o ritmo no chão. O compositor Jean-Baptiste Lully acabou sofrendo um grave acidente ao reger, ferindo o pé com esse bastão. Ferimento que acabou gangrenando e o levando à morte. No classicismo, muitas vezes o próprio compositor regia sentado ao cravo. Ou o primeiro violinista fazia o que ainda hoje o lider de um quarteto de cordas faz: levanta a mão um tempo antes da entrada, descendo e tocando a corda no tempo certo. E com a respiração ele também dava a deixa. Se você for escutar um quarteto de cordas, vai ouvir uma profusão de sons de respiração. Já no século XIX, a orquestra cresceu um monte, e então passaram a precisar de uma pessoa só indicando todas as entradas, crescendos, rubatos e muito mais. Não dava mais pra ele ser um instrumentista. Porque na música a partir de Beethoven, havia muitas pausas abruptas, entradas em tempos diferentes, silêncios... E os rubatos (fazer rubato é dar uma leve acelerada ou retardada, pra depois retomar o andamento) foram ficando mais sofisticados. Por volta de 1830 o jovem Felix Mendelssohn começou a reger e a usar a batuta, que facilita a visão do gesto para os músicos. Mendelssohn, o mesmo compositor, é considerado um dos pais da regência. Então vieram muitos compositores-regentes, como Richard Wagner, Hector Berlioz, Richard Strauss e Gustav Mahler. Mas o primeiro músico que ficou famoso por ser maestro e que realmente vivia disso, com muito sucesso, foi Hans von Bülow. Respeitado por toda a Europa, ele tinha um estilo próprio e era capaz de fazer a orquestra ter um som próprio. Depois dele vieram os dois grandes regentes que influenciariam todos os outros. Estou falando de Arthur Nikisch e Hans Richter. Nikisch foi um dos mais influentes maestros de toda a história. Ele chegou a gravar, e, embora as orquestras na época ainda não tivessem atingido o nível de perfeição de hoje, ele certamente as ajudou a atingir. Dizia-se que ele regia mais com os olhos que com as mãos. No final do século XIX e começo do XX surgiram os os dois que finalmente formariam as duas correntes de pensamento do século (na verdade, até hoje). Arturo Toscanini e Wilhelm Furtwängler. O primeiro, italiano, temperamental, gritava horrores com seus músicos e exigia perfeição. Ele era partidário da intepretação mais fiel possível à partitura. Já Furtwängler, alemão, era o oposto de tudo isso que eu falei. Tomava liberdades enormes com a partitura, era gentil e falava pouco nos ensaios. Ouvi entrevistas de músicos que diziam algo como: "assim que eu entrei na orquestra o primeiro clarinetista veio me dizer que quando a batuta atingisse o segundo botão da sua camisa, esse era o tempo 1". Sua regência era lânguida e tendia para o lento. A do Toscanini era viril e tendia para o rápido. Temos gravações históricas de um e de outro. Aliás, gravações históricas não nos faltam. Nikisch regendo a 5ª de Beethoven; Toscanini com seu genro Vladimir Horowitz tocando o 1º Concerto de Tchaikovsky e o 2º de Brahms; Furtängler regendo a 3ª Sinfonia de Beethoven; Bruno Walter regendo a 9ª Sinfonia de Mahler (Bruno havia trabalhado com Mahler); Pierre Monteux regendo A Sagração da Primavera, de Stravinsky e o balé Daphnis et Chloé, de Ravel (Monteux regera as estreias das duas obras); Stravinsky regendo Stravinsky, Rachmaninoff regendo sua obra; Lutosławski regendo a sua; Penderecki; Boulez... De alguns dos regentes mais importantes da nossa história falarei em uma série de Top 10 que planejo fazer. No próximo post explico qual a função de um regente. A verdadeira necessidade de um. Veja aqui a parte 2 e aqui a parte 3.
- Berlioz - A Sinfonia Fantástica - O delírio em forma de música
A Sinfonia Fantástica, Op. 14 (Symphonie Fantastique), que apareceu nesta lista, foi composta em 1830 pelo francês Hector Berlioz. Ao que me consta, é sua obra mais conhecida e uma das sinfonias mais importantes de todo o repertório. O nome "Fantástica" não é no sentido de "olha que sinfonia fantástica", mas no sentido de que é uma grande fantasia. É uma obra programática, isto é, conta uma história. Observem. São momentos na vida de um jovem artista, que, a certa altura, aparentemente rejeitado por sua amada, resolve se matar com uma dose monumental de ópio. Acontece que ele não morre, mas entra numa alucinação profunda. Os movimentos, que vão contando a história, são: 1. Rêveries - Passions (Devaneios - Paixões) - O artista vê uma moça e imediatamente se apaixona. Ela surge na forma de um tema que irá se repetir por toda a obra: a ideia fixa. O movimento é composto por alternâncias entre esse amor desesperado e outros estados de espírito, como alegria, exaltação, raiva, ciúme. 2. Un Bal (Um Baile) - Ele se vê em vários momentos da sua vida: num baile confuso, contemplando a natureza etc. Mas, qualquer que seja a situação, aparece o pensamento intrusivo da mulher, que o atormenta. Esse movimento é uma valsa superagradável. Algumas gravações da sinfonia incluem uma seção com solo de corneta, que Berlioz acrescentou posteriormente. 3. Scène aux Champs (Cena no Campo) - Ele está numa noite no campo e algo lhe chama a atenção: dois pastores (no bom sentido) tocam o Ranz des Vaches, uma melodia tocada numa espécie de trompa para tanger o gado. Um toca aqui, o outro responde à distância. Esse dueto o faz ter o palpite de que ele também não andará mais só. Mas então vem a pergunta: e se ela for infiel? Essa dúvida vira uma tormenta. O movimento termina com o Ranz des Vaches novamente, mas, desta vez, só um toca, o outro não mais responde. Um grande professor que eu tive, Germán, me fez perceber a orquestração desse movimento. Para ele, no aspecto de orquestração, o romantismo se consolidou aqui. Isso porque as madeiras (flautas, oboés, cornes-ingleses, clarinetes, fagotes) têm importância maior que as cordas aqui. De fato, até então as cordas dominavam, os sopros servindo apenas para lhes dar suporte ou para fazer frases curtas. Nesse movimento, o toque dos pastores é feito no corne-inglês e no oboé. E a ideia fixa aparece no oboé e na flauta. 4. Marche au Supplice (Marcha ao Suplício) - É aqui que ele, achando que ela não o queria, resolve tomar ópio em dose mortal. Mas ele não morre, caindo, em vez disso, num sono cheio de visões e premonições. É um sonho terrível: possuído pelo ciúme, ele mata a amada e é condenado à morte. Ele assiste à própria execução. No delírio, seu último pensamento é nela, representada, como sempre, pela ideia fixa, que aparece tocada no clarinete. 5. Songe d'une Nuit du Sabbat (Sonho de uma Noite de Sabá) - Ele sonha que seu funeral é um sabá (encontro diabólico de feiticeiras), ao qual comparecem monstros e demônios. Em meio a risadas grotescas, grunhidos e gritos, ele ouve, uma vez mais, a ideia fixa, mas agora ela está destituída de qualquer charme, transformada em uma "música de dança vulgar". Nesse movimento, ouvimos o Dies Irae, um cantochão medieval ameaçador que costuma ser evocado por compositores quando estes querem falar de morte. Obra extremamente madura para um compositor de 27 anos, ela inaugura a escrita sinfônica francesa de forma brilhante (Berlioz era um exímio orquestrador). A estrutura cíclica da peça, em que cada movimento tem relação com os outros, é realizada de maneira impecável. Eu indico as seguintes gravações: Sinfônica de Chicago (London Symphony), regente: Claudio Abbado - Sinfônica de Londres (London Symphony), regente: Colin Davis - Sinfônica de Boston (Boston Symphony), regente: Seiji Ozawa - Les Siècles, regente: François-Xavier Roth. A enorme orquestra que ele pede (e ele é bem específico), compõe-se por: 2 Flautas (uma delas alternando para Flautim) 2 Oboés (um deles alternando para Corne-inglês) 2 Clarinetes (um deles alternando para Clarinete em Mi Bemol, mais agudo) 4 Fagotes 4 Trompas 2 Cornetas 2 Trompetes 3 Trombones 2 Oficleides (hoje geralmente substituídos por Tubas) 2 Tímpanos Percussão: Pratos, Caixa-clara, Bombo Sinfônico, Sinos em Dó e Sol 2 Harpas 15 Primeiros Violinos 15 Segundos Violinos 10 Violas 11 Violoncelos 9 Contrabaixos Curiosidades: - Acredita-se que Berlioz tenha escrito a peça, ele mesmo, sob influência de ópio; - O regente americano Leonard Bernstein dizia que é a primeira música psicodélica, mais de 130 anos antes dos Beatles; - Liszt escreveu um arranjo para piano em 1833; - A sinfonia é inspirada na obsessão de Berlioz pela atriz irlandeza Harriet Smithson, mesmo ele estando comprometido com outra; - Ela não é sujeita a interpretações, visto que o próprio Berlioz providenciou uma espécie de libreto com a descrição exata dos movimentos; - Seu nome oficial é Episódio da Vida de um Artista, Sinfonia Fantástica em Cinco Partes; - Berlioz revisou durante 15 anos a obra, de modo que o que conhecemos hoje é a versão de 1845; - A sinfonia colocou Berlioz no mapa; - A orquestra que ele pede é composta de 90 músicos, ou mais; - A certa altura, o primeiro oboé se retira de cena e toca na coxia, quando um dos pastores toca à distância; - Foi dedicada ao Imperador de Todas as Rússias, Czar Nicolau I.
- Beethoven - SInfonia Nº 5 - Análise
Ludwig van Beethoven escreveu sua Sinfonia Nº 5, em Dó menor, Op. 67 entre 1804, logo após a 3ª, a "Eroica", e 1808. Ele interrompeu a composição para cuidar da 4ª. E também compôs a 6ª, a "Pastoral" ao mesmo tempo. Depois, a apelidaram de "Fate", ou "Destino", porque as quatro notinhas iniciais, o pam-pam-pam-paaaam, elas aparecem no início e, praticamente sozinhas, conduzem a uma das jornadas mais legais de todas as sinfonias. Uma que vai do desespero ao triunfo. Lembram que quando eu falei da sexta eu disse que era muito difícil arranjar um teatro em Viena na época e, quando ele conseguiu, colocou todas as obras que pôde para estrear? A 5ª também estava lá. Não foi exatamene um fiasco, mas foi um concerto muito longo (mais de 4 horas!) e estava frio. Além disso, ele conseguiu apenas um ensaio, de modo que as pessoas reagiram mais às condições do concerto que à música. Foi no Theater an der Wien, em 22 de dezembro de 1808. Ele regeu e tocou piano em tudo. Na época, chamou a 5ª de 6ª e vice-versa, trocando quando foi publicar a partitura. O programa era: 1. A Sexta Sinfonia (Chamada de 5ª, na época) 2. A Aria: Ah! Perfido, Op. 65 3. O Gloria da Missa em Dó maior 4. O 4º Concerto para Piano Intervalo 5. A Quinta Sinfonia (Chamada de 6ª) 6. O Sanctus e o Benedictus da Missa em Dó maior 7. Uma improvisação de Beethoven ao Piano 8. A Fantasia Coral É incrível que o mesmo homem tenha composto a "Pastoral", aquela graciosa exibição do amor pela natureza e a 5ª, que lida com questões bem mais profundas. Abaixo, nossa Sinfônica da Rádio de Frankfurt (hr-Sinfonieorchester), sob a regência do colombiano Andrés Orozco Estrada. A Obra I. Allegro con brio (15s) Já começa com o tema sendo apresentado de imediato, as quatro notas e depois mais quatro. Note que todo o movimento é baseado nessas notas. É a arte de fazer muito com pouco. Aos 58 segundos as trompas anunciam (com as mesmas notas) a introdução do tema 2 (1m), bem mais lírico. Eles repetem a curta exposição (em algumas gravações isso não acontece) aos 1m37s. Aos 2m55s temos o desenvolvimento. Repare nos acordes em fortissimo e suas acentuações aos 3m23s. Beethoven nos dá alguns sustos, como aos 4m. Depois o oboé vai se insinuando até que tem sua voz ouvida (4m27s). Nenhuma nota desse movimento é em vão. Está tudo conectado, muito bem pensado e elaborado. É um movimento que consegue, com apenas 4 notas, nos transmitir o que nem mil palavras podem. II. Andante con moto (7m24s) Andante con moto não tem nada a ver com andar de moto. É ritmo de caminhada, mas com movimento. O belo tema dos violoncelos entra logo de início. Ele é cantante e tranquilo. Depois vem o tema 2, nos metais, aos 8m37s. É um movimento de extrema beleza. Saímos do "destino batendo à nossa porta" para um belo passeio de moto. Um clarinete e um fagote, depois os sopros, preguiçosos, fazem um belo coral aos 12m13s. Até que a orquestra ataca de novo no tema 2. A música às vezes assume um jeito de marcha. Mas tem um final belíssimo. III. Scherzo: Allegro (16m50s) O Scherzo (pelo qual Beethoven substituiu o Minueto nas sinfonias) começa ameaçador, nos graves. Mas logo vai se revelar uma música de busca ao triunfo. Ele tem o motivo de 4 notas do começo ao fim, às vezes por baixo de algum tema, às vezes como protagonista. Exceto no trio (18m51s). Ele volta ao Scherzo com as trompas. Vem um segundo trio, fugado, e, depois as cordas em pizzicato voltam ao tema do Scherzo de novo. IV. Allegro - Presto (24m39) Sem interrupção (attacca) chegamos no ponto de virada. Toda a angústia que se passou se transforma em triunfo. De júbilo, alegria, o que você quiser chamar. Vale prestar atenção na orquestração aqui, que é brilhante e usa o flautim. Repare no coda exageradamente longo, como se ele quisesse reafirmar o triunfo. Considerações finais Se a Pastoral foi a primeira sinfonia descritiva, essa aqui foi a primeira sinfonia-jornada, saindo das trevas até, no último movimento, chegar à luz. E Beethoven o faz com maestria, usando e abusando das 4 notas (do destino), e com uma orquestração impecável. Gravações recomendadas - Carlos Kleiber, regendo a Filarmônica de Viena - A gravação mais conhecida da obra, de 1975. Unanimidade, praticamente, pela energia e pela execução impecável da Filarmônica. - Herbert von Karajan, com a Filarmônica de Berlim - Como Karajan era múito famoso, era chique dizer que suas interpretações não eram lá essas coisas. Mas quase todas são. Ele era um refinadíssimo escultor de sons. Essa gravação de 1984 mostra exatamente isso. - Arturo Toscanini, com a Sinfônica da NBC - Essa versão, dos anos 50 é gloriosa. Você encontra no Spotify nessa caixa: https://open.spotify.com/album/1NNw57TGjZNXrgxQaR5Zgd?si=LoYabOIkSJ-LtJZg3aMM-Q - Christopher Hogwood, com a Academia de Música Antiga - Das interpretações de época, essa é a que mais me agrada. O som da orquestra é impressionante. E o som gravado, também, que é de 1987. Gostou? Comente! Veja aqui, como ouvir música clássica. E veja nossas famosas listas - Top 10 Maiores Pianistas do Brasil - Top 10 Sinfonias Imprescindíveis - Top 10 Sonatas que Você tem que Conhecer - 10 Discos para Entender Beethoven - 10 Discos para Entender Mozart E análises de obras: - Brahms - Sinfonia Nº 1 - Brahms - Sinfonia Nº 4 - Brahms - Concerto para Piano Nº 1 - Brahms - Concerto para Piano Nº 2 - Chopin - Os Études - Chopin - As Baladas - Beethoven - Sinfonia Nº 6 "Pastoral" - Tchaikovsky - Sinfonia Nº 6 "Pathétique" - Dvorák - Sinfonia Nº 9 "Do Novo Mundo" - Mussorgsky - Quadros de Uma Exposição - Rachmaninoff - Concerto 1 - Rachmaninoff - Concerto 2 - Rachmaninoff - Concerto 3 - Rachmaninoff - Concerto 4 - Rachmaninoff - A Ilha dos Mortos - Richard Strauss - Sinfonia Alpina - Stravinsky - A Sagração da Primavera
- Richard Strauss - Sinfonia Alpina - Análise
Um Poema Sinfônico maduro de Richard Strauss (o bom). Não que os outros Strausses fossem ruins. Joseph, Johann e Johann II Strauss eram compositores de valsas e polkas vienenses. É música de ocasião, que não tem uma gota da relevância da de Richard. Vale lembrar que é um nome muito comum na Alemanha e Áustria, e, enquanto os três valsistas eram parentes, esse aqui não tinha nada a ver com eles. A Sinfonia Alpina marca a volta dele aos seus queridos Poemas Sinfônicos, depois de 11 anos compondo ópera e dedicando-se à profissão de regente. Dizem que foi um dos maiores maestros de todos os tempos. Mas sobraram poucas gravações e o som é bem ruim. O que eu sei é que ele era um excelente orquestrador. A música de Strauss não é estruturalmente complexa: geralmente é dividida em episódios bem narrativos, com título e tudo. Não é profunda, também, mas é altamente atraente, bem feita, polifônica e demonstra um talento absurdo para lidar com várias texturas instrumentais ao mesmo tempo. Dura uma quase hora, mas você não sente o tempo passar. É a descrição de uma excursão pelos Alpes que ele fez quando menino, começa descrevendo uma noite e termina na outra noite. Abaixo, nossa habitual Orquestra da Rádio de Frankfurt (hr-Sinfonieorchester), sob a excelente regência de Andrés Orozco-Estrada. É sempre bom ver uma orquestra com tantas mulheres, inclusive nas cadeiras mais importantes. Não vou fazer uma análise de verdade, como as outras. Com cada aparição de cada tema e tudo. Porque os movimentos têm nomes que descrevem exatamente o que Strauss queria dizer. A Obra Ele pede uma orquestra imensa. Uma das maiores que eu já vi. 4 Flautas (2 alternando para Flautins) 3 Oboés (1 alternando para Corne Inglês) 1 Heckelphone (um Oboé mais grave) 1 Clarinete em Mi bemol 2 Clarinetes 1 Clarinete Baixo (alternando para Clarinete em Dó) 4 Fagotes (1 alternando para Contrafagote) 8 Trompas (4 alternando para Tubas de Wagner) 12 Trompas fora do palco 4 Trompetes 2 Trompetes fora do palco 4 Trombones 2 Trombones fora do palco Tímpanos - 2 Timpanistas Percussão Glockenspiel Máquina de Vento (Wind Machine) Máquina de Trovão (Thunder Machine) Celesta Órgão 2 Harpas 18 Violinos 1 16 Violinos 2 12 Violas 10 Violoncelos 8 Contrabaixos Strauss escreveu, após a morte de Gustav Mahler, em 1911: "A morte desse desejoso, idealista, energético artista é uma perda grande... Mahler, o Judeu, poderia atingir a elevação através do Cristianismo. [Mas] é claro para mim que a Alemanha só atingirá nova energia criativa se se libertar do Cristianismo... Eu vou chamar minha Sinfonia Alpina: Der Antichrist, pois ela representa: purificação moral da pessoa através da sua própria força, libertação através do trabalho, adoração da eterna e magnífica natureza." Mais tarde, com a chegada do Nazismo, ele ficaria meio encantado com o movimento e se complicaria um pouco, apenas posteriormente o renegando. Mas aqui vemos um cidadão praticamente ateu, louvando um judeu e a natureza. E o tema dessa obra é esse: a adoração à natureza. Vamos aos movimentos. I. Noite (43s) Repare nesta descrição da noite, com os sopros graves, como se tudo fosse difícil de enxergar. Os primeiros raios de sol são representados por duas notinhas nas flautas, trompetes etc. II. Alvorada (4m17s) Depois de um crescendo, o sol finalmente aparece, triunfante. É um movimento curto, todos são tocados sem interrupção. III. A Subida (6m01s) A subida começa nos graves (contrabaixos). A escrita orquestral é simplesmente arrebatadora, os metais aparecendo bastante. Perto do final a gente ouve os metais que estão fora do palco, para dar uma ideia de distância. IV. Entrada na Floresta (8m21s) Começa com um acorde menor ameaçador, mas ameaça vai diluindo. Aqui transparece bem a facilidade que ele tinha de lidar com várias texturas concorrentes (muita informação musical acontecendo ao mesmo tempo). Eventualmente temos um segundo tema super tranquilo, com solos de cordas ecoados pelas cordas em tutti. A tranquilidade é total, e eu realmente não entendo o acorde inicial ter sido tão dramático. V. Passeando pelo Riacho (13m57) O riacho é um movimento bem curto, e o personagem parece estar encantado. VI. Na Cachoeira (14m47s) A cachoeira é representada pelo burilar das madeiras, assim como as harpas. VII. Aparição (15m01s) Aqui é como se eles vissem algo na mata, mas não algo assustador. Talvez animais. Talvez a "Fada dos Alpes". A música é muito bonita. Ouve-se os pássaros. VIII. Sobre Prados Floridos (15m49s) Outro movimento bem curto. O personagem está em paz. Repare novamente nas texturas. IX. Sobre o Pasto Alpino (16m51s) Aqui ouvimos os sinos das vacas e melodias gloriosas. A orquestração se torna mais esparsa. X. Sob Arvoredos e Vegetação Rasteira no Caminho Errado (19m29s) Aqui a instrumentação adensa um pouco, com muitos elementos nas madeiras e metais. XI. Na Geleira (21m03s) Outro acorde menor representa a vasta geleira. A amplitude também é representada pelas notas mais longas da música. XII. Momentos de Perigo (22m22s) Com o tema principal e uma escrita jocosa, o perigo deve ser de escorregar. Eles andam com cuidado, pelo que se percebe. Observe, aos 23m15s o heckelphone, uma espécie de oboé tenor (uma oitava abaixo do oboé). XIII. No Cume (23m54s) Uma subida no trompete nos leva ao cume da montanha, onde a vista é ampla e bela, assim como os sons. Tem um belo solo de oboé, representando a solidão daquele lugar. Em outros momentos a música é majestosa, nas cordas. É realmente emocionante. XIV. Visão (29m43s) Uma visão calma. Aqui temos a solos de sopros, bem como a entrada do órgão (32m51s). XV. Névoa Subindo (33m41s) Os fagotes, depois os clarinetes, representam a ascenção da névoa. A escrita se torna turva, como não poderia deixar de ser. XVI. O Sol Gradualmente Obscurece (34m) Com uma escrita charmosa, ele evoca o leitmotif do sol, usado na Alvorada. XVII. Elegia (34m53s) Um canto em uníssono das cordas representa um estado de espírito mais funesto. Ouve-se bem o órgão nessa parte. E o heckelphone. XVIII. Calmaria Antes da Tempestade (37m02s) Começam a se ouvir trovões ao longe (tímpanos). O clarinete, o heckelphone e a flauta dominam o movimento. Depois ouvem-se os primeiros pingos de chuva (notas staccato no oboé), que vão se tornando cada vez mais frequentes. E mais trovões. E vento (veja a máquina de vento, aos 40m10s). XIX. Trovão e Tempestade, A Descida (40m19s) Até que a tempestade cai, com uma escrita orquestral magistral. Aqui ele usa a máquina de vento, um instrumento que era novo e foi usado até com certa frequência no começo do século XX. Veja as Tubas de Wagner, aos 41m16s. Quando ela vai terminando, ouvimos de novo os últimos pingos d´água, nos oboés e pizzicatos das cordas. XX. Por do Sol (44m21s) Aqui ele faz uso do tema da noite, nos sopros. Logo entram as cordas, para dar um toque mais mágico ao momento. XXI. O Silêncio Assenta (46m56s) Impossíver retratar silêncio com música, certo? Mas o que ouvimos aqui é principalmente o órgão em piano (baixinho). Alguns sopros se juntam calmamente a ele. O movimento é plácido e belo. XXII. Noite (54m28s) Aqui temos uma quase repetição do primeiro movimento. Com aquelas escalas descendentes e os acordes dos metais. A obra acaba serenamente, todos os perigos já passaram. A Recepção Sinfonia Alpina foi estreada em outubro de 1915, em Berlim, com Strauss regendo a Dresden Hofkapelle. As reações foram diversas, com alguns chamando pejorativamene de "música de cinema" (que é mais efeito do que conteúdo). Mas hoje é uma das obras mais queridas de Richard Strauss. Ele mesmo gostava bastante dela. Apesar do nome Sinfonia, ela está mais para um Poema Sinfônico, ou seja, é completamente descritiva e episódica, tendo, de sinfonia, apenas a duração. Gravações recomendadas - Richard Strauss regendo a Orquestra do Estado Bávaro - É a melhor gravação de Strauss dessa obra, pelo som de 1941. É um documento importantíssimo, e a interpretação é impressionante. https://www.youtube.com/watch?v=krQ_yogvIzo - Georg Solti com a Orquestra da Rádio Bávara - Essa, de 1979 tem um som impressionante. Solti faz a orquestra se soltar e exibir um som mágico. É a minha favorita. https://open.spotify.com/album/3iaYWw1ClppIBjB3BMssR7?si=uz_2XGTwRque5rTAtljb7w - Herbert von Karajan regendo a Filarmônica de Berlim - De 1980, é a última gravação da sinfonia por Karajan. O som é muito bom, e é considerada uma gravação de referência. - Vladimir Jurowsky com a Filarmônica de Londres - É a gravação moderna que eu recomendo. É de 2018. As texturas são cristalinas e a grandiosidade está presente. Comente o que achou. Gostou da Sinfonia Alpina? Veja aqui, como ouvir música clássica. E veja nossas famosas listas: - Top 10 Maiores Pianistas do Brasil - Top 10 Sinfonias Imprescindíveis - Top 10 Sonatas que Você tem que Conhecer - 10 Discos para Entender Beethoven - 10 Discos para Entender Mozart E análises de obras: - Brahms - Sinfonia Nº 1 - Brahms - Sinfonia Nº 4 - Brahms - Concerto para Piano Nº 1 - Brahms - Concerto para Piano Nº 2 - Chopin - Os Études - Chopin - As Baladas - Beethoven - Sinfonia Nº 6 "Pastoral" - Tchaikovsky - Sinfonia Nº 6 "Pathétique" - Dvorák - Sinfonia Nº 9 "Do Novo Mundo" - Mussorgsky - Quadros de Uma Exposição - Rachmaninoff - Concerto 1 - Rachmaninoff - Concerto 2 - Rachmaninoff - Concerto 3 - Rachmaninoff - Concerto 4 - Rachmaninoff - A Ilha dos Mortos - Stravinsky - A Sagração da Primavera
- 10 Discos para Entender Mozart
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) começou a compor cedo. Foi uma das maiores crianças prodígio da história. Atingiu a maturidade musical também muito cedo, antes dos 20 já compunha obras magistrais. Joseph Haydn, seu amigo e famoso compositor, chegou a dizer que Mozart era o maior compositor que ele já tinha visto ou ouvido falar. Como tudo nele era prematuro, a morte também foi. Aos 35 anos ele morria em Viena, para onde tinha se mudado para ser compositor freelancer, talvez o primeiro da história. Vamos percorrer uma discografia que não vai incluir suas amadas óperas, porque eu não entendo e não conheço o gênero. Mas não teremos apenas música instrumental, pois amo a música sacra dele. Concertos para Flauta e Harpa; para Flauta Nº 1; e para Fagote - Beznosiuk, Kelly, Bond e Christopher Hogwood regendo a Academia de Música Antiga O Concerto para Flauta e Harpa é bem juvenil, ele compôs aos 21 anos. Mas é uma jóia. É por ele que eu recomendo esse CD. Mas os Concertos para Flauta e o para Fagote também são muito interessantes. Aqui temos uma interpretação com instrumentos e técnicas da época de Mozart. Veja mais sobre isso aqui. Hogwood, que conduz ao cravo, tira uma sonoridade única da orquestra, destacando as eventuais dissonâncias que apareçam. As gravações são de 1986 e 1987. https://open.spotify.com/album/5QgrOLmZBXlt27Rq7IQCdh?si=LGIbKhnRRM-EbdRFw7beqA Serenatas Nº 10 "Gran Partita" e Nº 12 "Nacht Musik" - Harmonie de l'Orchestre des Champs-Elysées, regida por Philippe Herreweghe São duas obras sensacionais. A "Gran Partita" tem o famoso movimento lento que o Salieri descreve com paixão no filme "Amadeus". Mas também tem um tema com variações e um rondó maravilhosos. As duas serenatas são de cerca de 1782. São só instrumentos de sopro e mais um contrabaixo (na Gran Partita). Que às vezes é substituído por um contrafagote. Nessa música, obrigatoriamente, tem-se que usar instrumentos da época, porque alguns, como o basset horn só eram usados naquele tempo. Herreweghe e seu grupo parisiense nos dão uma das melhores versões de ambas obras, numa gravação de 1995. https://open.spotify.com/album/6igvEywKXIbL9EVosVRiep?si=YXqCtr4JSyyMMEKOVn1Wow Concerto para Piano Nº 23 e Sonata Nº 13 - Vladimir Horowitz, Orquestra do Teatro Scala de Milão, sob Carlo Maria Giulini Nessas gravações de 1987 temos as melhores interpretações de Mozart pelo pianista ucraniano Horowitz. Não tem nada de época aqui: usam-se instrumentos modernos, uma orquestra grandinha e vibrato. Mas isso não é menos autêntico que as gravações HIP (historically informed performance). O som de Horowitz, aqui com 84 anos, é delicioso, e ele toca um non legato de fazer inveja. E toca uma cadência de Busoni que raramente é ouvida. A orquestra, sob Giulini, está ótima. Este concerto, de 1786, é o meu favorito. Ele foi composto junto do 24º e do 25º. São três obras primas. Teremos mais concertos para piano, porque estão entre as obras mais importantes de Mozart. A sonata, de 1783, é tocada com bravura. Também é uma das minhas sonatas favoritas, e essa interpretação é simplesmente de cair o queixo. https://open.spotify.com/album/3Wk7F4AQrLeqE4xQVGEqya?si=fFbDc5arQBeHoShMs6AGHQ Quinteto com Clarinete e Quarteto de Cordas Nº 15 - Quarteto Arcanto e Jörg Widmann Esta é uma das gravações mais sensacionais do prezadíssimo Quinteto com Clarinete, de 1789, dois anos antes da morte do compositor. As articulações, a precisão timbrística, a entonação, tudo está perfeito. O Quarteto Nº 15, um dos mais arrepiantes, de 1783, recebe o mesmo tratamento. A escrita para quarteto de cordas, recente para Mozart, já alcançava níveis altíssimos. A gravação, de 2013, é muito boa. Para conhecer a música de câmara de Mozart, não conheço gravação melhor. https://open.spotify.com/album/1Tjv0ppf7HQAKs98evvuwv?si=FXN_eSaZRTiIt6K-kiOlqg Concertos para Piano Nos. 20, 21, 25 e 27 - Friedrich Gulda, com Claudio Abbado regendo a Filarmônica de Viena Estou trapaceando, porque são dois discos. Mas no Spotify e nas outras plataformas estão juntos, de modo que vale. Quando começa o Concerto Nº 20 é de arrepiar. Gulda, um dos maiores pianistas do século XX, é sensacional. Ele tem um som duro, diferente de Mitsuko Uchida e Maria João Pires, que tocam Mozart com a maior delicadeza. Nesse concerto ele usa a cadência de Beethoven, mas em outros ele toca cadências dele mesmo, que também era compositor. Foram gravados entre 1974 e 75. O 21º é o mais conhecido. O tal do "Elvira Madigan". É plácido e cantante. O 25º é uma espécie de concerto "heróico", como seriam os de Beethoven, posteriormente. E o 27º é de uma pureza que só uma criança. E chega de concerto para piano. Ou não, os concertos todos (são 27) são fenomenais. https://open.spotify.com/album/3VZmZJfweWxbvHrPJT5aUw?si=rbGaE_ziTOiuovL7QegjKw Concerto para Clarinete, Concerto para Fagote e Concerto para Flauta Nº 2 - Carbonare, Zoom, Santana e Orquestra Mozart, regida por Claudio Abbado Esse registro, de 2013, eu indico pelo Concerto para Clarinete. Escrito em 1791, ano da sua morte, é um encanto. É o Concerto para Clarinete mais conhecido e mais tocado. O movimento central é belíssimo, e os periféricos são perfeitos. O Concerto Nº 2 para Flauta, na verdade é o Conceto para Oboé adaptado. Mas funciona bem dos dois jeitos. O de Fagote é de Fagote, mesmo. Abbado usa algumas intenções e ideias do movimento HIP, mas as aplica num ambiente moderno. https://open.spotify.com/album/4EBsr6mzX96yRB3RlK4iQb?si=nv50MFZMShWvvrWw5fAj1g Sonatas Nº 11 e 14 e Fantasias - Maria João Pires Maria João Pires, pianista portuguesa respeitadíssima, não poderia faltar nessa lista. Seu Mozart é delicado, um tanto contido, legato, mas muito musical. As sonatas, a 11ª é de 1783, e é a que contém o famoso Rondó Alla Turca. A 14ª é do ano seguinte e é uma beleza. As fantasias são obras à parte. Mozart solta sua criatividade e cria obras do futuro, nem parece ele. Depois dos másculos Horowitz e Gulda, você vai querer ouvir esse toque feminino. https://open.spotify.com/album/1OkV1Pw7WSrptzajrFKsrG?si=zF7CSjEITsSwNJeHVhcUUg Grande Missa em Dó Menor - Gabrielli Consort e Paul McCreesh na regência Essa missa, de é um milagre. Toda ela é linda, aí quando você nem espera mais perfeição, vem o Et Incarnatus Est. É um quarteto da soprano com uma flauta, um oboé e um fagote de uma beleza que não tem descrição. A missa, de 1883, não foi terminada por Mozart, mas faltou pouco. A gravação do Gabrielli Consort com Paul McCreesh é uma das mais celebradas. https://open.spotify.com/album/09s4MnZ3L7iBULF6uAtXsE?si=exMUeFazQ8yAKxrd3UMz_g Réquiem - Academia de Música Antiga, com Christopher Hogwood Esta ainda é minha versão favorita do Réquiem, junto da de Giulini e da de Mackerras. Mas a de Hogwood tem uma vantagem: usa coro infantil. Quando aquelas vozes de crianças vão invadindo sua cabeça você se arrepia inteiro. Farei um post dedicado ao Réquiem, porque ele tem uma história interessante e complicada, já que Mozart morreu antes de concluí-lo, em 1791. Ele foi terminado por um aluno, Franz Xavier Süssmayr, que, na minha opinião, fez um ótimo trabalho. Nesse CD, de 1984, eles usam um Amem fugado, no final da Lacrimosa, que tinha sido recentemente encontrado e que eles atribuíram ao Réquiem. E ainda tem minha soprano favorita, Emma Kirkby. https://open.spotify.com/album/5Ext8hogDD2WFmUI8mStcz?si=FTmlBZt5Sn-z2bSy2V1Omw Sinfonias Nos. 40 e 41 "Jupiter" - Orquestra de Câmara de Praga, sob Charles Mackerras Essas gravações de Mackerras, com cravo, de 1986, não poderiam faltar. Aliás, não poderiam faltar sinfonias de Mozart. E essas duas, compostas quase juntas, em 1788, são as últimas e mais elaboradas. A 40 é conhecidíssima e bela. A 41 é um titã, por isso recebeu um nome (que não foi dado por Mozart) tão grandioso. Elas avançam na direção de Beethoven e do romantismo, embora ainda faltassem alguns anos para o romantismo se consolidar. https://open.spotify.com/album/5x1RJ2nJv7bL8AzXEG4NcC?si=b_8nnNPNTmSC4ldMbWu47w Conheça essas obras, meu jovem, e estará bem encaminhado na obra de Mozart. Acrescente as óperas, principalmente: As Bodas de Fígaro, Don Giovanni e A Flauta Mágica e será um conhecedor respeitável do compositor. Comente aí o que achou. Tem outras obras e gravações que você acha essenciais? E veja nossas famosas listas: - Top 10 Maiores Pianistas do Brasil - Top 10 Sinfonias Imprescindíveis - Top 10 Sonatas que Você tem que Conhecer - 10 Discos para Entender Beethoven E análises de obras: - Brahms - Sinfonia Nº 1 - Brahms - Sinfonia Nº 4 - Brahms - Concerto para Piano Nº 1 - Brahms - Concerto para Piano Nº 2 - Chopin - Os Études - Chopin - As Baladas - Beethoven - Sinfonia Nº 6 "Pastoral" - Tchaikovsky - Sinfonia Nº 6 "Pathétique" - Dvorák - Sinfonia Nº 9 "Do Novo Mundo" - Mussorgsky - Quadros de Uma Exposição - Rachmaninoff - Concerto 1 - Rachmaninoff - Concerto 2 - Rachmaninoff - Concerto 3 - Rachmaninoff - Concerto 4 - Rachmaninoff - A Ilha dos Mortos - Stravinsky - A Sagração da Primavera
- Top 10 Concertos para Violino Imperdíveis
O concerto para violino é o que tem mais tradição depois do concerto para piano. Trata-se de uma forma: é uma obra, geralmente em três movimentos, com um violino principal e a orquestra dialogando entre si. Na verdade, como o violino é mais antigo que o piano, temos muitos concertos barrocos, como os de Tartini, Locatelli e Vivaldi. As 4 Estações são concertos para violino de Vivaldi. Com Mozart, no classicismo, o concerto para violino começou a ganhar sua forma definitiva, culminando no enorme e célebre Concerto para Violino de Beethoven. Os 10 que eu listo abaixo são realmente Top 10 na minha humilde, modesta e servil opinião. O que não impede que depois eu faça o Top 20 a 10. E depois vou falar sobre cada um individualmente. Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Concerto Nº 2 em Mi, BWV 1042 (1723) Aí em cima temos a violinista Hilary Hahn. Acostumem-se com ela, porque eu vou indicar muita coisa dela aqui. É um fenômeno. Esse Concerto para Violino em Mi maior de Johann Sebastian Bach, de 1723, é a coisa mais linda. É extremamente conhecido, tem três movimentos e a orquestra só contém cordas. Na época era prática comum a divisão entre instrumento solista e orquestra não ser tão forte, de modo que o violino solo também toca junto ao ripieno (o conjunto completo). Os movimentos são: Allegro - o mais conhecido; Adagio (8m7s) - como uma lenta sarabanda; Allegro Assai (14m51s) - um finale alegre e belo. Gravação recomendada: Orquestra de Câmara de Los Angeles (Los Angeles Chamber Orchestra), regente: Jeffrey Kahane, violino: Hilary Hahn Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - Concerto Nº 3, KV 216 (1775) Composto por Wolfgang Amadeus Mozart aos 19 anos, o Concerto para Violino em Sol é o terceiro de 5. Os concertos para violino de mozart são adorados, quase tanto quanto os para piano (esses, são 27). Aqui já temos uma separação bem forte entre o violino solo e os violinos do ripieno. O segundo movimento (10m40s) é uma beleza. Acho que o Papa está assistindo a esse concerto do vídeo. Tem um cardeal que não para de folhear uma revista ou iPad. Ao som de Mozart, ainda mais com Hilary Hahn e Gustavo Dudamel. Sacrilégio! Na obra temos também a inclusão dos sopros, que são muito bem utilizados pelo jovem compositor. Gravação recomendada: Orchestra Mozart, regente: Claudio Abbado, violino: Giuliano Carmignola Ludwig van Beethoven (1770-1827) - Concerto em Ré, Op. 61 (1806) O Concerto para Violino em Ré, de Ludwig van Beethoven, estabeleceu uma tradição: a partir de agora, concertos para violino poderiam ser peças longas além da conta, profundas e extremamente difíceis. O primeiro movimento tem mais de 20 min. Os outros 2 são mais curtos. E a partir daqui a orquestra cresceu. A orquestra de Beethoven é chamada de Orquestra Romântica, geralmente tem 14 primeiros violinos, 12 segundos violinos, 10 violas, 10 violoncelos, 6-8 contrabaixos; 2 flautas, 2 clarinetes, 2 oboés, 2 fagotes, 2-4 trompas, 3 trompetes, 3 trombones e tímpanos. Ao longo do romantismo (Séc. XIX) e principalmente no século XX, ela foi crescendo mais ainda. O segundo movimento (25m13s) é um belíssimo Larghetto em que o lindo tema é tocado primeiro nas cordas em surdina; depois nas trompas, que é quando entra o violino solo fazendo pequenos comentários; depois no clarinete e, então, no fagote. A orquestra faz, então, em tutti (todos os instrumentos) mais uma afirmação do tema (4ª vez) e o violino solo volta para fazer. É um lindíssimo diálogo entre o solista e a orquestra que, eventualmente, desemboca no terceiro movimento (34m24s). Este é um rondó divertido. Gravação recomendada: Deutsche Kammerphilharmonie de Bremen, regência e violino: Lisa Batiashvili Félix Mendelssohn (1809-1849) - Concerto em Mi menor, Op. 64 (1844) Esse é o concerto que está no coração de todo violinista. De todos dessa lista, tem 5 que são realmente os mais gravados: Beethoven, Mendelssohn, Brahms, Tchaikovsky e Sibelius. Cada um tem sua característica. O de Felix Mendelssohn é o queridinho. A melodia com que abre é tão familiar, tão bela, de uma tristeza tão bonita. Parece música judia (eu não sei por quê, já que não conheço música dos judeus, mas tem um sabor), e de fato, ele era judeu. O que deu um problemão, porque Wagner, o germânico, o considerava um forasteiro e blá blá blá. Isso evoluiu até a maior das tragédias, o Holocausto (não que Wagner, morto muito antes, tenha nada a ver, mas os nazistas usavam a música dele para propaganda e desprezavam Mendelssohn). John Williams, ao fazer a trilha sonora de "A Lista de Schindler", não citou diretamente o concerto de Mendelssohn, mas o clima geral da trilha e o uso de um violino solo (tocado por Itzhak Perlman) evocam certamente a peça. Gravação recomendada: Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã (Concertgebouworkest), regente: Bernard Haitink, violino: Itzhak Perlman Johannes Brahms (1833 - 1897) - Concerto em Ré, Op. 77 (1878) Outro que teve problemas com Wagner, embora não pessoalmente. Acontece que os amantes da música, no final do século XIX se dividiram em duas facções. Os admiradores de Brahms (mais tradicional) e os de Wagner (mais de vanguarda). Os compositores mesmo se admiravam mutuamente, mas os fãs, foi briga feia. Farei um post ainda sobre isso. O Concerto em Ré, de Johannes Brahms não é o único aqui nessa tonalidade. Acho que tem algo a ver com a facilidade que é escrever para violino nesse tom. A penúltima corda é um ré, e a última, um sol, que é a subdominante. É dedicado ao virtuose Joseph Joachim, que escreveu a dificílima cadência. O primeiro movimento é majestoso, mesmo sendo plácido. É monumental como o de Beethoven. Aliás, no concerto de estréia foi tocado depois do de Beethoven, para desagrado de Brahms, que achava que a noite teria muito ré maior. O segundo movimento é belíssimo, anunciado pela incrível melodia do oboé. Do terceiro eu, particularmente não gosto. Muito barulhento. Mas é apropriado. Os críticos elegeram a obra como "intocável" (Wieniawsky), "concerto contra o violino" (Bülow) e acusaram de a única melodia estar com o oboé (Sarasate). Mas hoje o concerto é uma catedral, diante da qual todos se curvam. Gravação recomendada: Orquestra do Gewandhaus de Leipzig (Gewandhausorchester), regente: Riccardo Chailly, violino: Leonidas Kavakos Pyotr Tchaikovsky (1840-1893) - Concerto em Ré, Op. 35 (1878) Esse Concerto em Ré de Tchaikovsky também é muito difícil. Composto no mesmo ano do de Brahms, é outro que todo violinista de carreira grava. Extremamente agradável para o ouvinte, é de matar para o solista. De quando começa a cadência até o fim do primeiro movimento, o músico não para. Um crítico chegou a dizer que o violino não é tocado, mas "espancado até ficar roxo" (Hanslick). O segundo movimento é charmoso, melódico, carinhoso, típico de Tchaikovsky. O finale é formidável. Aqui o violinista também é usado ao extremo, e várias técnicas são empregadas. Gravação recomendada: Orquestra de Câmara Mahler (Mahler Chmaber Orchestra), regente: Daniel Harding, violino: Janine Jansen Camille Saint-Saëns (1835-1921) - Concerto Nº 3 em Lá menor, Op. 61 (1880) Camille Saint-Saëns era um garoto promissor. Mas muito promissor, mesmo. Com dois aninhos ele já manifestava evidências de ter ouvido absoluto e tirava melodias ao piano de ouvido. Um prodígio. Isso de certa forma o afetou negativamente. Porque se esperava dele um grande compositor das sinfonias e óperas mais geniais. Li em algum lugar que ele era, em termos de talento bruto, até mais impressionante que Mozart e Mendelssohn. Mas ele ficou tão marcado com essa coisa de criança prodígio que o fato é que ele nunca conseguiria suprir as expectativas do público. Ele é conhecido pela sua bela Sinfonia Nº 3, pelo Carnaval dos Animais (uma super divertida e criativa suíte de câmara) e por este concerto para violino, dentre outras coisas. Eu ainda acho que ele é injustiçado. Mais obras suas deveriam vir à tona, pois era um compositor espetacular. Mas também não dá pra dizer que ele é um compositor esquecido: ele é considerado um dos grandes. Mas são poucas as suas obras que entraram realmente no repertório tradicional. O 3º é um dos concertos favoritos dos violinistas. Eu o acho misterioso, elegante e eloquente. Por incrível que pareça, é o menos difícil dos três do compositor. Este é mais atento à estrutura e à beleza melódica do que às dificuldades técnicas. O segundo movimento (9m30s) é lindíssimo. E o terceiro (17m40s) é maravilhoso. Gravação recomendada: Orquestra De Paris (Orchestre de Paris), regente: Daniel Barenboim, violino: Itzhak Perlman Jean Sibelius (1865 - 1957) - Concerto em Ré menor, Op. 47 (1904) O finlandês Jean Sibelius é um dos mais importantes compositores, especialmente de música sinfônica. São 7 sinfonias, vários poemas sinfônicos (como Finlândia) e este Concerto para Violino. É uma obra de elevação, quase transcendental, como Sibelius sabia ser. Ele começa etéreo, como se estivéssemos no mundo do silêncio, tentando delicadamente quebrá-lo. É um concerto virtuosístico, mas sempre a serviço da música: não há exibição gratuita do violino. A cadência (8m46s) gigantesca consegue evidenciar a técnica do instrumentista sem quebrar o clima. Aos 19m30s temos o belo segundo movimento e aos 28m46s, o terceiro. Gravação recomendada: Orquestra Sinfônica da Rádio Sueca (Swedish Radio Symphony Orchestra), regente: Esa-Pekka Salonen, violino: Hilary Hahn * Mas escutem a gravação histórica de: Orquestra Philharmonia (Philharmonia Orchestra), regente: Walter Susskind, violino: Ginette Neveu Edward Elgar (1857-1934) - Concerto em Si menor, Op. 61 (1910) Feito sob encomenda do lendário violinista Fritz Kreisler, que chegou a dar uns retoques na parte do violino (era comum compositores pedirem aconselhamento técnico aos violinistas a quem a obra era dedicada, como arcadas, dedilhados etc.). Fritz nos deixou algumas gravações de vários concertos dessa lista. Mas, até onde eu sei, não desse. Compositor largamente responsável pelo renascimento da música inglesa, Edward Elgar é hoje conhecido pelas trancendentais Variações Enigma e pelas marchas Pompa e Circunstância (tem coisa mais inglesa que esse título? Parece nome de livro da Jane Austen). A primeira dessas marchas é muito usada como música de formatura, especialmente nos Estados Unidos. Seu concerto para violino é dos mais difíceis, e é altamente respeitado. Abusa de cruzamentos de corda, de cordas duplas ou triplas e cordas duplas em harmônico. O segundo movimento (17m54s) é britanicamente lindo. O terceiro movimento (aos 28m23s), longo para um finale, é o mais brilhante. Numa das primeiras gravações, Elgar regeu a Orquestra Sinfônica de Londres e o jovem Yehudi Menuhin tocou a parte solista. É de 1932. Gravação recomendada: Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony), regente: Colin Davis, violino: Hilary Hahn Dmitri Shostakovich (1891 - 1953) - Concerto Nº 1 em Lá menor, Op. 77 (1948) Acima, no vídeo, temos a impressionante Hilary Hahn tocando este concerto com Mariss Jansons e a Filarmônica de Berlim. Você pode achar essa gravação com melhor qualidade no app Digital Concerthall, da Filarmônica, que disponibiliza vários vídeos de concertos ao longo do século XX e XXI. Eu recomendo, mas é pago. Em Euro. Várias gravações que eu indiquei aqui são com Hilary, que, ao lado de Leonidas Kavakos é a minha violinista favorita. O Concerto Nº 1 de Dmitri Schostakovich foi dedicado ao violinista David Oistrakh, em 1948, que o estreou com Evgeny Mravinsky regendo a Filarmônica de Leningrado. Oistrakh também deu conselhos ao compositor sobre a parte técnica do insrtumento. É uma obra maravilhosa. Shostakovich escreveu pares de concertos: 2 para piano, 2 para violino e 2 para violoncelo. Sistematicamente, são considerados mais bem acabados os primeiros. Concordo, principalmente dos de violino e violoncelo. O primeiro movimento é ameaçador, crescendo aos poucos, tomando forma, daquela maneira meio industrial de Shostakovich. O segundo, Scherzo, (13m29s) foi descrito como demoníaco pelo violinista. O terceiro (19m37s), também é eloquente. É uma Passacaglia, que é uma forma em que o compositor apresenta uma linha de baixo, ou então acordes, e sobre ela faz variações. Aos 28m58s temos a longa cadência, que começa gelada e vai ganhando firmeza. O 4º movimento (34m07s) é uma Burlesque curta e dificílima. Gravação recomendada: Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara (Bavaraian Radio Symphony Orchestra), regente: Esa-Pekka Salonen, violino: Lisa Batiashvili Por favor avise nos comentários sobe qualquer vídeo que esteja fora do ar. Ajeito na mesma hora. Gostou da lista? Comente e veja essas outras. Top 10 Sinfonias imprescindíveis Top + 10 Sinfonias imprescindíveis Top 10 Concertos para piano E confira a lista das 20 melhores orquestras do mundo.
- Chamada para Contos: Edital Mundo Punk
A Editora Cyberus está com um edital para contos no estilo Retrofuturismo nas modalidades Clockpunk, Cyberpunk, Dieselpunk, Nazipunk, Sandalpunk e Stonepunk. Transcrevo: Prefácio/Apresentação: AUTOPOIESE Igor Moraes A variedade de subgêneros que se alimentam do sufixo punk revela a mente imaginativa — e a criatividade em geral pessimista — dos autores pela figura da tecnologia na vida humana, atravessando diversas fronteiras e épocas: Cyberpunk (Estados Unidos), Tupinipunk (Brasil), Silkpunk (China) são apenas alguns exemplos de como uma visão tecnológica é cada vez mais variada. A tecnologia e o pessimismo se uniram em um inconsciente social, sendo utilizado como espelho e especulação do que o futuro desconhecido nos reserva. A palavra ligada ao sufixo punk vai variando a cada narrativa, abordando as forças técnicas que guiam o cenário retratado ou a estética empregada que também conduzem a narrativa. O entendimento do gênero começa pelo seu nome. O punk foi um movimento da década de 1970 nascido como uma forma de expressão artística contracultural, trazendo a contestação, a subversão, a desconfiança que existe na sociedade. As roupas de couro rasgadas, os penteados chamativos, as correntes, os espetos e os brincos ao mesmo tempo que escandalizavam e quebravam a norma social vigente contrastavam com o cenário tecnológico avançado. Não é porque a tecnologia avançou que deixamos de ter problemas sociais, como o desemprego e a decadência econômica. O primeiro registro escrito que abriu o leque para todos os demais foi Bruce Bethke, autor americano conhecido por seu conto Cyberpunk, mas rapidamente foi acolhido aos trabalhos de outros escritores como William Gibson, que obteve destaque nesse nicho por Neuromancer – romance lançado em 1984, vencedor dos prestigiados prêmios Hugo, Nebula e Philip K. Dick. De lá para cá, essa ideia de contestação ganhou vida própria. Como na autopoiese da comunicação luhmanniana, o gênero punk se multiplicou como rede de produção de componentes e estruturas, sofrendo influências tanto internas como de demandas externas, operando de forma autorreferencial e se autorganizando em elementos difusos, com sistemas diferenciados. Traduzindo, conforme a sociedade enriquece ou empobrece, sistemas parasitários estatais se estalam ou religiões são criadas e extintas, existe a demanda de novas visões de mundo literárias, e não foi diferente na ficção científica, e não foi diferente sobre o gênero punk. Biopunk, por exemplo, é um derivado do Cyberpunk só que focado em genética, do mesmo jeito que Hopepunk mostra importância da esperança e a noção de que há ideais que valem a pena lutar em um mundo onde se pode pressentir o perigo e o caos. Conheci o trabalho do Alexander Meireles da Silva em uma introdução no livro Contos clássicos de vampiro da Editora Hedra. Na época, eu tinha quinze anos e nunca imaginei que estaria não só interagindo com ele, mas prestando essa homenagem. Quando dei essa ideia para o Maurício e para o Pedro, não imaginei que eles iam gostar, mas eles toparam sem pensar duas vezes. A série Mundo Punk que dá nome ao livro está em seu canal na internet abordando todas as diferentes modalidades, elencando suas principais diferenças dos mais abrangentes gêneros existentes. Acesse e escreva e inscreva o seu! Você tem até 31 de dezembro de 2021. Esse post se autodestruirá em 2022. https://editoracyberus.weebly.com/blog/edital-mundo-punk-1
- Tchaikovsky - Sinfonia Nº 6 "Pathétique" - Análise
Será possível deixar um recado profundamente perturbador com uma música? O compositor russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1841-1893) certamente achava que sim. Ele concebeu uma grande sinfonia, sua última, aliás, sua última obra, como uma espécie de declaração. A música na Rússia no século XIX, se formos reduzir bem ao mínimo, começa com Mikhail Glinka (obviamente houve compositores antes dele, mas ele foi o pai da música erudita com raíses, de fato, calcadas naquele país), seguido pelo Grupo dos Cinco (Mussorgsky, Balakirev, Cui, Rimsky-Korsakov e Borodin) e o que podemos chamar de compositores soltos. Anton Rubinstein, Sergei Taneyev e o próprio Tchaikovsky. Na verdade houve outros compositores que atingiram fama internacional, como Arensky ou, posteriormente Rachmaninoff e Medtner. De todos, os mais famosos foram ele e Rachmaninoff, seu protegido. O prestígio que ele tinha como compositor era sem precedentes na Rússia. E sua carreira no exterior era igualmente imponente. Sobretudo sua ópera Eugene Onegin, seus balés O Lago dos Cisnes, O Quebra-Nozes, seu 1º Concerto para Piano e suas 4 primeiras sinfonias, eram celebrados como obras primas de um compositor inspirado. O melodista Pyotr Tchaikovsky. Mas a vida dele era conturbada. Observe, a mãe dele morreu de cólera na sua adolescência. Ele noivou uma vez, mas foi abandonado quando ela descobriu que ele era homossexual. Casou com outra mulher, mas simplesmente fugiu após um mês e meio. Apaixonou-se por um dos seus alunos, que vinha a ser seu sobrinho. Acontece que ser gay no século XIX não era bom. Existem documentos que mostram que ele foi submetido a "uma corte de honra" - seria julgado por colegas, para não passar pela humilhação e exposição de ser julgado pelo Czar - por seu comportamento. O resultado do julgamento é desconhecido - uma testemunha diz que ele saiu da sala pálido e sem palavras. Existe a possibilidade de que ele tenha sido condenado a se matar. Outros acreditam que ele se matou por se sentir sufocado pela sociedade. Alguns dizem que ele não se matou. Foi tudo um acidente. Mas, como veremos, houve, no mínimo, negligência com sua saúde por parte dele mesmo. E o fato de que sofria de depressão clínica. Os fatos são os seguintes: - Ele era gay e depressivo; - Ele foi a esse julgamento; - A Sexta Sinfonia, sua última obra, tem fortes indícios de ser uma carta de despedida; - Ele dizia que queria chamar a obra de Sinfonia Programática, mas não devia revelar o programa; - Modest Tchaikovsky, seu irmão, sugeriu o título Pateticheskaya, que foi erroneamente traduzido para o francês "Pathétique", que quer dizer trágico; - Na verdade, a tradução mais correta seria Sinfonia Sentimental, ou Sinfonia Emocional; - É uma obra carregada de símbolos e conotações. É realmente uma jornada emocional; - Dias depois da estréia, em São Petersburgo, após uma ópera, foi com amigos a um restaurante e pediu um copo de água gelada; - Estavam no meio de uma epidemia de cólera (a mesma doença que havia matado sua mãe), por isso, era proibido servir água não fervida; - O garçom avisou que não tinha, mas Tchaikovsky pediu água não fervida mesmo; - Alertaram-no para não beber do copo, mas ele disse "não tenho medo de cólera", e bebeu; - Modest conta uma história um pouco diferente, que também pode ser verdade: dias antes ele havia posto água da pia num copo, para alguma finalidade, e o posto em cima da mesa. Tchaikovsky teria propositalmente bebido deste copo; - De qualquer forma, ele foi de fato ao restaurante (mas muitos estranham que lá não tivesse água fervida e nem mineral, corroborando a história de Modest); - No dia seguinte, seu irmão o encontrou acamado, com dores no estômago e diarréia; - Ele não aceitou que chamassem médicos; - 5 dias depois, em 6 de novembro de 1893, estava morto. A Sinfonia Abaixo, o maestro Lionel Bringuier regendo a Orquestra da Rádio de Frankfurt (hr-Sinfonieorchester). Repare no longo silêncio quando a música acaba. 1º Movimento - Adagio – Allegro non troppo A peça começa com esses fagotes (53s), que parecem vir do nada. A música parece ter uma centelha de vida quando entram as violas (1m14s) e então repete (1m28s). Os oboés (2m03s) e os clarinetes (2m13s) ameaçam uma ideia. Aos 2m46s a ideia vira o Tema 1, nas violas, repetido imediatamente pelas flautas (2m56s). O movimento alterna vários estados de espírito e colorações. É dado ao tema um tratamento harmônico vasto, fazendo-o cair em várias tonalidades. Aos 5m09s temos uma preparação ascendente nas cordas, e depois, o lindo Tema 2 (5m26s), nos violinos. É o trecho mais conhecido da obra, e revela o dom melodioso que Tchaikovsky tinha. O tema é ouvido mais uma vez aos 8m. O clarinete faz uma menção, como uma despedida (10m), a ele. É quando temos um corte abrupto do tímpano e da orquestra (10m58s). Entra o Desenvolvimento (10m58s), muito atormentado e contrastante. Aos 12m02s ele simplesmente entra em suspensão para tocar, nos trombones, um trecho do Réquiem Ortodoxo Russo, que diz: "E que sua alma descanse com as almas de todos os santos". Mas logo volta a tormenta. Ele desenvolve o Tema 1 até um ápice (14m), depois do qual, decresce e cresce de novo, nos momentos de culminância da obra, como se estivéssemos perdidos. Ao final ele vai ficado mais e mais silencioso até que a flauta e os violinos trazem de volta o Tema 2 (16m20s), já na recapitulação, que conduz a um breve coda (19m20s). Ao final da partitura, Tchaikovsky escreve aos músicos - morrendo. 2º Movimento - Allegro con grazia O segundo movimento é uma valsa. A ser tocada com graça. Mas tem uma coisa: é uma valsa manca. A valsa normal faz 1, 2, 3, 1, 2, 3. Essa faz 1, 2, 3, 4, 5... Falta-lhe o 6, ou o segundo 3. Seu Tema, que é tocado de cara, e o tratamento que ele recebe, são, mais uma vez, dignos do título de grande melodista de Tchaikovsky. Ela tem as partes A (21m16s) - B (23m41s) - A (25m50s). 3º Movimento - Allegro molto vivace Esse movimento (29m17s) absurdamente vivo e lúcido seria um final retumbante, a prova de que no final, as coisas ficam bem. Seu Tema (29m29s) (inteiro aos 31m01s) é triunfante e a orquestração, mais ainda. Termina tão bombasticamente que muitas vezes o público aplaude, mesmo tendo no programa escrito que tem mais um. Não é possível que não seja o final! Ele dá todas as dicas, faz todos os clichês de um finale! Tudo vai crescendo no coda (36m20s) barababam barababam pei pou pá paaaaaaam! Algumas pessoas aplaudem. Mas aí... 4º Movimento - Finale: Adagio lamentoso Um acorde agudo nas cordas (38m20s), como a ponta de um punhal. Ele vem nos lembrar dos tormentos que ouvimos lá no primeiro movimento. Já começa com o seu Tema 1 (39m40s), que é uma junção do que fazem as cordas fazem. Um movimento de ziguezague. Se você tocar só a parte do violino 1, ou só a parte da viola, não vai ouvir o tema. Ele é feito de modo que violinos 1, violinos 2, violas e violoncelos se complementem. Ainda assim, há uma sensação de ascenção. Fagotes (39m51) têm muita presença aqui. É um finale langoroso, Wagneriano, trágico, emocional. O Tema 2 (41m11s) entra de forma mais elegíaca, resignada, belamente cantante. A orquestra cresce, temos um ponto culminante (43m06s) que lembra o do 1º movimento. Mas aí os acordes fortes nas cordas voltam (43m24s). E vão ficando cada vez mais graves. A música parece agonizar. O gongo (46m46s) parece ser a sentença de que tudo se aproxima do fim. Os trombones (46m49s) fazem seu anúncio. Os baixos começam a fazer uma pulsação (47m36s), como pulsação de coração, mesmo. E vai morrendo. A Recepção Desconheço coisa mais trágica (é que não conheço as óperas de Wagner). Toda vez que eu escuto, fico todo arrepiado. Na estreia, Tchaikovsky regeu. Solomon Volkov testemunhou: "... quando os sons finais da sinfonia já tinham morrido e Tchaikovsky lentamente abaixou a batuta, houve um silêncio no público. Em vez de aplauso, soluços abafados vinham de várias partes do teatro. O público estava paralisado e Tchaikovsky ficou lá, parado, sua cabeça curvada." Seu irmão, Modest, diz que, depois, os aplausos foram efusivos, e que ele voltou ao palco muitas vezes. Nunca ouviria performance tão aplaudida desta sinfonia, que foi muito tocada após a morte do compositor. Considerações finais A análise não é extremamente detalhada, a ideia é que você mais escute a música do que leia. E se você sentir um pouco do que eu sinto ao ouvi-la, terá valido à pena. A gravação acima é excepcional, mas o som não é de CD. Vou listar abaixo algumas gravações. Escolha uma e persista nela. Gravações Recomendadas Menção honrosa às gravações de: Ashkenazy e Orquestra Philharmonia; e Valery Gergiev com a Orquestra do Teatro Kirov. - Orquestra Nacional Russa, com Mikhail Pletnev - Se você quiser só uma interpretação dessa sinfonia, veja esta aqui. A orquestra é fenomenal, obedecendo com categoria a cada nuance do seu genial maestro. E o som, dos anos 90, é excepcional. - Filarmônica de Leningrado, regida por Evgeny Mravinsky - A gravação clássica. A que todo mundo tem em vinil, CD, o que seja. Gravada nos anos 60, seu som até que é bom, mas a interpretação é o que importa. Os músicos da Filarmônica se deixam carregar pelos sentimentos, às vezes beirando perder o controle. - Filarmônica de Berlim, regida por Herbert von Karajan - Essa versão, de 1976 mostra Karajan no seu melhor repertório. A Filarmônica está incrível. É uma versão um tanto fria, que não se permite arroubos, mas o toque é impecável. - Sinfônica de Chicago, sob Claudio Abbado - Das gravações de Abbado, essa, de 1986 é a que mostra mais seu controle (alguns o acusam de excesso de controle, mas eu não acho, não). Ele cuida de cada crescendo, decrescendo, cada vírgula da música. - Filarmônica Tcheca, regida por Semyon Bychkov - Em 2015, esse genial maestro fez esse registro com a grande orquestra Tcheca. O som, o regente e a orquestra perfeitos. Dão uma aula de leitura. Bychkov é considerado uma promessa que não decolou. Mas ele é um dos regentes mais importantes da atualidade, como é que não decolou? Porque nunca foi o titular da Sinfônica de Londres, Concertgebouw ou Filarmônicas de Viena e Berlim? É melhor que muitos que o foram. - Sinfônica da Rádio Bávara, regida por Mariss Jansons - Nessa gravação de 2018, Jansons e sua orquestra provam que estavam no auge da sua arte. Onde permaneceram até sua morte, em 2019. É um dos meus regentes favoritos. A orquestra talvez seja a melhor do mundo (é que eu adoro). Eles tocam com muita efervecência e ardência, o oposto da relativa frieza de Karajan. Para mim, é a gravação definitiva. Me diz o que achou, comenta aí em baixo e curte no coraçãozinho. Se você chegou até aqui, parabéns pela persistência! Tomara que tenha gostado. E veja nossas famosas listas: - Top 10 Maiores Pianistas do Brasil - Top 10 Sinfonias Imprescindíveis - Top 10 Sonatas que Você tem que Conhecer - As 20 Melhores Orquestras do Mundo E análises de obras: - Brahms - Sinfonia Nº 1 - Brahms - Sinfonia Nº 4 - Brahms - Concerto para Piano Nº 1 - Brahms - Concerto para Piano Nº 2 - Chopin - Os Études - Chopin - As Baladas - Beethoven - Sinfonia Nº 6 "Pastoral" - Dvorák - Sinfonia Nº 9 "Do Novo Mundo" - Mussorgsky - Quadros de Uma Exposição - Rachmaninoff - Concerto 1 - Rachmaninoff - Concerto 2 - Rachmaninoff - Concerto 3 - Rachmaninoff - Concerto 4 - Rachmaninoff - A Ilha dos Mortos
- Debussy - Prelúdio para a Tarde de um Fauno - Análise
Composto em 1894, o Prélude à l'Après-Midi d'un Faune é uma obra orquestral, espécie de poema sinfônico, de Claude Achille Debussy (1862-1918). Com 10 minutos de duração, ele abriu o caminho para a música moderna. Porque, embora seja, em última instância, tonal, essa tonalidade é ambígua, por vezes escondida. É certo que ele usa acordes com nomes, o dó maior, o lá menor. Tudo isso. Mas ele não usa cadências normais. Veja, no fragmento abaixo, tocado pela flauta logo no começo da música, começa em dó sustenido e desce até um sol. Em vários momentos da peça esse tema vai se repetir (9 vezes) e sempre os acordes que o acompanham serão variados. Abaixo, a nossa hr-Sinfonieorchester (a Sinfônica de Frankfurt) sob a regência de Andrés Orozco-Estrada toca o Prélude. A verdade é que, tonalmente, essa escala cromática não diz nada. Ela não tem base tonal, é como se fosse uma melodia flutuando no ar. Lembremos que, no mesmo ano em que foi composto o prelúdio, foi escrita a 9º Sinfonia de Dvořák, "Do Novo Mundo". Que é a coisa mais tonal do mundo, calcada no Romantismo. Brahms ainda era vivo. Até a instrumentação faz rupturas. As madeiras são praticamente mais importantes do que as cordas. Estas tocam boa parte da peça com surdina. O clima é de encantamento, como nunca se tinha ouvido antes. O primeiro tema aparece na flauta, logo no começo, desacompanhada. Aos 3m52s temos, no clarinete, um segundo tema, totalmente derivado do primeiro. Ele vai nos conduzir à seção central, dominada pelas cordas. O próprio clarinete dá a deixa para o terceiro tema, nas madeiras (5m41s). As cordas assumem lindamente, sob incisos das madeiras (6m20s). O que parece com o auge do movimento vai perdendo força e ficando esparso. Um violino solo (7m16s) ainda toca o terceiro tema. Mas logo a flauta traz o primeiro tema (7m28s)e a música segue, meio sem rumo. O oboé participa, o corne inglês, os clarinetes, até que a flauta volta, sob um acorde de trêmulos nas cordas. E, com uma alusão a todos os temas a música vai acabando. Esse clima, que hoje a gente reconhece de filmes de fantasia e tudo mais, não era conhecido na época. Foi Debussy que inventou. Não inaugurava o modernismo totalmente. Mas dizia ao romantismo que o futuro se chegava. O título é porque a música se baseia em um poema de Stéphane Mallarmé homônimo, que descreve um fauno passeando no bosque, quando se depara com ninfas e náiades e fica, digamos, excitado. Ele as persegue, sem sucesso (graças a Deus) e acaba dormindo, num doce sonho erótico. Foi estreada em Paris, em 22 de dezembro de 1894, sob a regência de Gustave Doret. Existem centenas de gravações até agora. Gravações recomendadas - Claudio Abbado, com a Filarmônica de Berlim - com a flauta encantada de Emmanuel Pahud, o astro 1º flautista da Filarmônica e uma execução inspirada, além da engenharia de som muito impressionante, é uma versão imprescindível. De 2001. - Bernard Haitink, com a Orquestra do Concertgebouw, de Amsterdã - de 1986, essa gravação é espetacular. A verdade é que todas as orquestras fazem bem esse Prelúde. Mas as madeiras da Concertgebouw fazem a diferença. - Ernest Ansermet, com L'Orchestre de la Suisse Romande - à moda antiga, mas com uma boa transferência digital do som analógico de 1957, essa gravação preciosa mostra Ansermet, um gênio da batuta, em seu auge, com sua orquestra suíça. - Pierre Monteux, com a Sinfônica de Londres - Monteux era o regente francês do começo do século XX. Estreou vários balés de Stravinsky, bem como do próprio Debussy. Trata-se de uma versão de alguém que esteve lá, nos primórdios do modernismo. Essa gravação, de 1961 é obrigatória. Gostou de conhecer essa peça fantástica? Comente! E veja outras de nossas análises: Debussy - Prelúdios para Piano - Livro 1 e Livro 2 Beethoven - Sinfonia Nº 6 "Pastoral" Tchaikovsky - Sinfonia Nº 6 "Pathétique" Dvořák - Sinfonia Nº 9 "Do Novo Mundo" Rachmaninoff - Concerto para Piano Nº 2
- Steve Reich - Música Para Pedaços de Madeira - Análise
Steve Reich (1936) e John Adams (1947), americanos, são os dois compositores mais interessantes da música minimalista (na minha modesta opinião). Estão entre os compositores mais requisitados desde os anos 60. A Filarmônica de Los Angeles e a Filarmônica de Berlim gravaram séries de CDs dedicados a Adams. Reich aparece sempre nos concertos. De 1972 a "Música para Pedaços de Madeira" mostra bem a criatividade do compositor. Eles partem do princípio que música é uma variação sonora. Se você tiver um grande acorde e, de repente, soar uma nota a mais, ela será notada melhor que as restantes. Isso porque quando a gente se acostuma com um padrão, qualquer coisa que fuja dele chama a atenção. E é aí que entra a criatividade. Com 5 músicos batendo bloquinhos de madeira, poderia soar como o caos, todo mundo tocando o que quisesse, ou como a mais organizada textura. Que é como soa. Abaixo, a Orquestra Philharmonia, com Santtu-Matias Rouvali, que além de percussionista é o maestro titular da orquestra, executa a peça. Repare na absoluta presença rítmica dos membros de percussão da Philharmonia (de Londres). Rouvali rege discretamente, um deles teria que fazê-lo, e ele é o regente titular. Reich é esperto. Ele vai adicionando um a um os bloquinhos até criar a textura desejada. Daí, com pequenas acentuações, ele cria as variações que podem ser infinitas. Mas mesmo assim, a obra poderia ser chata. Acontece que quando começa a perder o interesse ele faz que vai parar, só pra recomeçar de novo e criar uma nova textura. Não tem nenhum elemento de improviso aí. Tudo está na gigantesca partitura. É algo fenomenal, tanto a composição quanto a performance. Comente o que achou! E veja nossas famosas listas: - Top 10 Maiores Pianistas do Brasil - Top 10 Sinfonias Imprescindíveis - Top 10 Sonatas que Você tem que Conhecer - As 20 Melhores Orquestras do Mundo E análises de obras: - Brahms - Sinfonia Nº 1 - Brahms - Sinfonia Nº 4 - Brahms - Concerto para Piano Nº 1 - Brahms - Concerto para Piano Nº 2 - Chopin - Os Études - Chopin - As Baladas - Beethoven - Sinfonia Nº 6 "Pastoral" - Tchaikovsky - Sinfonia Nº 6 "Pathétique" - Dvorák - Sinfonia Nº 9 "Do Novo Mundo" - Mussorgsky - Quadros de Uma Exposição - Rachmaninoff - Concerto 1 - Rachmaninoff - Concerto 2 - Rachmaninoff - Concerto 3 - Rachmaninoff - Concerto 4 - Rachmaninoff - A Ilha dos Mortos
- Exposição - Henrique Torres - Cocó (Fortaleza)
A nossa segunda exposição será do fotógrafo Henrique Torres. Nascido em Recife, em 1951, residente em Fortaleza desde 1961, Henrique trabalha com fotografia desde o começo dos anos 2000. Participou de importantes eventos, como o Salão de Abril (2005), Unifor Plástica (2007, 2009), deVERcidade (2005, 2006, 2007 e 2010), Encontros de Agosto (2015), VerboVer e Solar (2018); e as exposições individuais "Noturno" (2003), “Fortaleza Noturna” (2007) e “Nas esquinas” (2010). É membro fundador e ex-Presidente do Instituto da Fotografia – Ifoto. Sobre a exposição Cocó ele fala: "Cocó é um rio que corta a zona leste cidade de Fortaleza e uma grande área de seu manguezal foi transformada em Parque Ecológico. Este ensaio, em desenvolvimento há vários anos, procura mostrar as belezas naturais tão próximas de nós, fortalezenses, e como a cidade parece sempre pronta a uma lenta invasão - que cabe a nós impedir." Sem título Cat. No. 1-8 Jato de tinta e carvão sobre papel Canson 200 21x29 cm. Impressa em março/2021 R$ 150,00 Sem título Cat. No. 1-11 Jato de tinta e carvão e pastel seco sobre papel Canson 200 21x29 cm. Impressa em janeiro/2021 R$ 150,00 Sem título Cat. No. 1-3 Jato de tinta e carvão sobre papel Canson 200; 21x29 cm; Impressa em janeiro/2021 R$ 150,00 Sem título Cat. No. 1-4 Jato de tinta e carvão sobre papel Canson 200; 21x29 cm; Impressa em janeiro/2021 R$ 150,00 Sem título Cat. No. 1-10 Jato de tinta e carvão sobre papel Canson 200 21x29 cm. Impressa em janeiro/2021 R$ 150,00 Sem título Cat. No. 1-13 Jato de tinta e carvão sobre papel Canson 200; 21x29 cm; Impressa em janeiro/2021 R$ 150,00 Para adquiri-las entre em contato com o fotógrafo. Ele explicará como é feito o envio e tudo mais. É feita apenas uma tiragem de cada foto. No site, você pode ver outras séries, e em breve postaremos mais. https://www.htorresfoto.com.br/ WhatsApp: (85) 99101-2776 (Henrique)
- EXPOSIÇÃO - o futurismo indígena de kadu xukuru
Inauguramos nossa galeria digital com uma exposição individual do artista Kadu Xukuru. Artista jovem que de bom grado aceitou nosso convite. Seu trabalho, calcado na técnica da colagem digital, faz uma ponte indelével e reflexiva entre passado e futuro. Entre os povos que nos deram origem e uma transformação que talvez nos espere em algum momento do tempo. Esta é a primeira exposição de nosso site. Exibir trabalhos artísticos com sejam literários ou visuais (como o documentário Amargo Rio Doce) é algo que fazemos com prazer e estamos muito felizes com o Kadu ter aceito nosso convite. Abaixo uma breve apresentação dele. Me chamo Kadu, trabalho como artista visual e sou originário do Povo Xukuru. Utilizo os parentes indígenas que fotografo como personagens de minhas obras, produzo colagens digitais, com uma perspectiva decolonial, onde expresso um futuro no qual nós, povos originários, estamos vivos e somos protagonistas de nossas próprias histórias. Nomeio essa proposta de #futurismoindígena e proponho o fim da colonialidade. FUTURISMO INDÍGENA Gostou? Compartilha com sua rede e comenta aqui! Mais trabalhos artísticos de colaboradores e convidados na nossa sessão Zartes!
- Villa-Lobos - As Bachianas Nº 3 - Análise
Uma das mais ricas de todos as nove peças chamadas Bachianas Brasileiras, a 3º é um forte recado ecológico. Villa-Lobos amava profundamente as florestas, o sertão, o folclore. Aqui ele retrata os bichos da mata, assim como sua exuberância e encanto. Heitor Villa-Lobos era um compositor da corrente nacionalista brasileira. Isso não significa que ignorava o que se passava na Música Moderna do mundo. Na verdade, para ser nacionalista, você tem que estar ligado a todos os movimentos nacionalistas do mundo. E em 1917, quando o compositor Darius Milhaud veio ao Brasil para um cargo diplomático, ele apresentou a Heitor todos os avanços da música francesa de então, com Claude Debussy, Maurice Ravel, Eric Satie e outras coisas que se desenrolavam na França, como a música de Igor Stravinsky e Sergei Prokofiev. No ano seguinte, Villa conhece outro músico de renome internacional: o pianista polonês Arthur Rubinstein, de quem se tornaria amigo e admirador, dedicando-lhe o seu Rudepoêma (que o tomaria 5 anos de trabalho). Rubinstein estrearia o Rudepoêma, mas nunca o gravaria. Trata-se de uma obra de 18 minutos para piano (mas tem uma versão para piano e orquestra). Falo dele em um post dedicado. Mas o fato é que Villa-Lobos, no começo dos anos 20 estava ficando muito conhecido, como vemos por sua participação na Semana de Arte Moderna de 22. A fase seguinte, justamente na Era Vargas (1930-45) ele resolveu homenagear seu compositor favorito, Johann Sebastian Bach. E como ele o fez? Compôs 9 peças, a maioria com mais de um movimento, num estilo melódico e harmônico que lembram perfeitamente Bach. A 4ª, belíssima, tem seu primeiro tema inspirado no Thema Regium, um famoso tema utilizado por Bach na sua Oferenda Musical. Mas estamos aqui para falar das Bachianas Brasileiras Nº 3. De 1934-38, foi estreada em Nova Iorque, com Villa-Lobos regendo e José Vieira Brandão ao piano, mas só em 1947. Sim, a obra é para piano e orquestra. Mas não é concertante, ou seja, o piano não se destaca demasiado, comportando-se mais como um integrante da orquestra. Abaixo, uma interpretação da Orquestra Nacional Húngara, sob a regência de Zoltán Kocsis, que foi ele mesmo um pianista excepcional, e Jean Louis Steuerman ao piano. A gravação não está boa, a orquestra parece mal ensaiada, portanto, não desanime, procure ouvir as gravações que eu vou recomendar abaixo. A obra tem 4 movimentos e a escrita orquestral comporta: 2 Flautas 1 Flautim 2 Oboés 1 Corne Inglês 2 Clarinetes 1 Clarone (Clarinete Baixo) 2 Fagotes 1 Contrafagote 4 Trompas 2 Trompetes 4 Trombones 1 Tuba Tambores Xilofone Piano Violinos I Violinos II Violas Violoncelos Contrabaixos 1. Prelúdio (Ponteio) - Adagio (38s) Ponteio e prelúdio são a mesma coisa: o primeiro na nomeclatura brasileira, o segundo, na de Bach e dos compositores eruditos. A música começa um tanto agitada, para ser um adagio. O piano já mostra que, se não vai ser a estrela da música, vai ser o instrumento, digamos, de confiança do compositor. O primeiro tema, nas violas e no 1º fagote (1m16s) já é Bachiano, com o piano fazendo pequenos incisos como acompanhamento. Em 1m54s os violinos fazem uma melodia que vai ser importante, com o piano fazendo o primeiro tema. A atmosfera empolgante, selvagem e encantadora já aparece desde os primeiros acordes. A orquestração é o puro caos do Villa-Lobos, estranha, mas muito criativa. 2. Fantasia (Devaneio) - Allegro moderato (7m11s) Esse lindo movimento começa com acordes em crescendo da orquestra, pontuados por notas simples do piano, que vão fazendo uma bela modulação. O motivo do trompete (7m41s) e o constante diálogo entre piano e orquestra (esse é um movimento um pouco mais concertante) são a tônica dessa parte. Até que uma escala ascendente rápida do 1º clarinete (8m32s) leva a música à calma. Essa parte é dominada primeiramente pelo clarinete, as cordas fazendo uma harmonia baseada no ciclo das quintas. O piano reassume (9m09s) e vai fazendo uma progressão. O auge da música é uma explosão (10m33s) que, depois vai se acalmando. Aí tem início um belo trio (11m05s), com o corne inglês, clarone e as cordas. Esse mesmo trecho é repetido (11m38s) com uma instrumentação diferente: violoncelos, trompas e fagotes. E depois, transfigurado por toda a orquestra (12m22s), com acordes que imitam os pássaros e os sons da selva. Claro, os sons da floresta não produzem consonância, mas dissonância. 3. Ária - Modinha - Largo (13m37s) Repare na melodia da flauta, acima da do corne inglês. É como se o corne fosse ao mesmo tempo melodia principal e acompanhamento dessa cantilena da flauta. Não é a primeira vez que Villa-Lobos faz isso. A harmonia fica lindíssima na trompa, fagote e contrafagote. Aí, aos 14m18s o clarinete ataca essa belíssima melodia Bachiana sobre uma nota pedal nos contrabaixos, violoncelos e clarone. Quando o piano entra, aos 14m47s, é para fazer uma linha ascendente que vai tensionando até liberar com o belo tema das cordas (15m09s). O trombone (15m48s), com sua frase interrompida, é de uma nobreza sem dó. Começa então um desenvolvimento do tema (16m47s) nas madeiras e no piano, sob acordes pontuados das cordas. Aos 18m24s temos o retorno da melodia do corne inglês, só que nas flautas e cordas, com vários contracantos remetentes ao restante do movimento. O clarinete recomeça (19m26s) com o tema do piano, aquele motivo ascendente que leva ao tema de relaxamento, antes nas cordas, agora, ao piano. O movimento tem, então um sutil final. 4. Toccata - Pica-Pau - Allegro (21m06s) Este movimento se propõe, naturalmente, a nos lembrar um pica-pau. É um alegre allegro (lembrando que allegro significa rápido, não necessariamente alegre). Para isso ele faz uso intenso do xilofone. Os metais e o piano têm uma escrita mais difícil aqui. O tema principal aparece nos violinos (21m45s), e vai aparecer diversas vezes na música. Mais uma vez temos o caos de Villa-Lobos, que é sempre um arroubo de criatividade absurda. Considerações finais As Bachianas Nº 3 não são as mais conhecidas. Veja: a Nº 2 tem um movimento que é o famoso "O Trenzinho do Caipira", a de Nº 4 é a mais bela e dolorida, seu primeiro movimento sendo conhecidíssimo (e ele ainda usa o tema de Caicó no último movimento), e a de Nº 5 é aquela cantilena para soprano acompanhada de 8 violoncelos que todo mundo sabe. Vou escrever sobre todas elas, mas resolvi começar pela de Nº 3 porque é a de que mais gosto. Ela pinta um cenário amazônico perfeito, fruto da imaginação sem limites de Villa-Lobos. Gravações recomendadas - Cristina Ortiz ao piano, com a New Philharmonia Orchestra regida por Vladimir Ashkenazy - foi a gravação com que fiquei conhecendo a obra, de forma que é minha favorita. É exuberante, passional e quase extravagante, como deveria. É de 1977. - Jean Louis Steuerman, com a OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), regida por Roberto Minczuk - é o mesmo pianista do vídeo, mas dessa vez com um acompanhamento mais luxuoso e um som gravado mais preciso. É de 2005. Imperdível! - José Feghali, com a Sinfônica de Nashville, regida por Kenneth Schermerhorn - uma das mais importantes gravações integrais das Bachianas, com o pianista brasileiro José Feghali na 3ª. O som não é muito bom, mas a interpretação é apropriada. De 2005. - Jorge Federico Ozorio, com a Royal Philharmonic Orchestra, regida por Enrique Bátiz - essa também é uma das mais importantes integrais das Bachianas (a melhor mesmo é da OSESP com Minczuk). Tem mais personalidade do que a de Feghali/Schemerhorn. De 1987. - Manoel Braune, com a Orquestra da Rádio Francesa, sob regência de Heitor Villa-Lobos - se o som não fosse tão antigo (é dos anos 50) seria minha versão favorita, porque é bem selvagem, mas sem deixar de ser musical. O próprio Villa regendo é maravilhoso. Gostou de conhecer essa Bachiana Brasileira? Ou seria essas Bachianas Brasileiras? Comente! E veja nossas famosas listas: - Top 10 Maiores Pianistas do Brasil - Top 10 Sinfonias Imprescindíveis - Top 10 Sonatas que Você tem que Conhecer - As 20 Melhores Orquestras do Mundo E análises de obras: - Brahms - Sinfonia Nº 1 - Brahms - Sinfonia Nº 4 - Brahms - Concerto para Piano Nº 1 - Brahms - Concerto para Piano Nº 2 - Chopin - Os Études - Chopin - As Baladas - Beethoven - Sinfonia Nº 6 "Pastoral" - Tchaikovsky - Sinfonia Nº 6 "Pathétique" - Dvorák - Sinfonia Nº 9 "Do Novo Mundo" - Mussorgsky - Quadros de Uma Exposição - Rachmaninoff - Concerto 1 - Rachmaninoff - Concerto 2 - Rachmaninoff - Concerto 3 - Rachmaninoff - Concerto 4 - Rachmaninoff - A Ilha dos Mortos
- Nelson Freire - O Maior Pianista do Brasil (1944-2021)
*Este artigo foi escrito antes da morte de Nelson, que ocorreu em 01/11/2021, no Rio de Janeiro. Nossas sinceras condolências à família e aos amigos do grande músico. Nelson Freire é um senhor discreto. É famosa a resenha sobre ele que tem como título: "Pianista quer ser discreto, mas seu talento não" ("Pianist takes back seat, but his talent doesn't"). Calado, reservado e musicalmente evitador de grandes explosões sentimentais. Mas seu talento, não. Ele reúne técnica impecável, controle sobrenatural, sonoridade cósmica e uma quase completa ausência de malícia (jamais toca simplesmente para impressionar). É um pianista para pianistas, que é como a gente chama o cara que toca tão bem que o público podia ser só de pianistas, ele ainda surpreenderia. Ele até conseguia manter essa discrição sob controle até 1999, quando a Phillips lançou a caixa Great Pianists of the 20th Century e o incluiu como único brasileiro. Nelson foi um dos que mais se beneficiaram com a inclusão na coleção. Assinou um contrato com a Decca e, até hoje, lança discos quase anualmente. Pouco antes de sair na caixa da Phillips ele tocou aqui em Fortaleza. Não pude ir e não me perdoo até hoje. Mas quem foi disse que ele estava em ótima forma. Ele nasceu em Boa Esperança, MG, em 1944. Quando tinha 3 anos era capaz de reproduzir as lições de piano de sua irmã espontaneamente. Aos 4 anos de idade foi estudar com um professor uruguaio numa cidade próxima. Depois de 12 aulas o professor disse que ele não tinha mais o que lhe ensinar e sugeriu que ele fosse para o Rio ter aulas com um professor profissionalizante. A família foi para lá e ele passou a ser pupilo de Nise Obino e de Lúcia Branco. Aos 14 anos sofreu um trauma horrível. Seus pais sofreram um acidente de carro quando estavam indo levá-lo a uma aula de piano e morreram. No documentário Nelson Freire, de João Moreira Salles (2003) lê-se uma carta do seu pai sobre o futuro do menino. No mesmo documentário ficamos conhecendo um pouco mais da sua amizade com a maior lenda do piano: Martha Argerich. Ela fala ótimo português durante todo o filme, mas, no que eu percebo como um gesto de pouca delicadeza, eles legendam a parte toda. Pois bem, Nelson foi ganhando prêmios e estudando com professores importantes, como Bruno Seidlhofer, que disse que só teve três alunos realmente talentosos - Nelson Freire, Martha Argerich e Friedrich Gulda. Os discos do Nelson, eu tenho quase todos. Antes do Great Pianists, tem um disco sensacional de Villa-Lobos; os concertos de Grieg, Tchaikovsky (nº 1) e Schumann, com Rudolf Kempe e a Filarmônica de Munique; recitais de Schumann, Schubert, Chopin; música de câmara com a Martha, os concertos de Liszt com David Zinman e a Philharmonie de Dresden e um punhado de gravações ao vivo. Depois que ele assinou com a Decca vieram os Estudos e Sonatas de Chopin, assim como os Noturnos; o livro 1 de Prelúdios de Debussy; um recital de Liszt; um de Brahms; um de Bach; um de compositores brasileiros; um de encores e, talvez o mais importante: os 2 Concertos de Bramhs com a Orquestra do Gewandhaus de Leipzig regida por Riccardo Chailly (que são hoje as grandes gravações de referência desses concertos); e o Concerto Nº 5 de Beethoven com a mesma formação. Tem também um belo Concerto Nº 2 de Chopin com a Gürzenich Orchester de Colônia regida por Lionel Bringuier. Saiu também, recentemente (mais ou menos, sei lá), um CD duplo chamado Radio Days, que são gravações de obras para piano e orquestra feitas nos anos 70-80. Esse disco é espetacular. E também um disco ao vivo chamado Salzburg, que é um recital em Salzburgo para dois pianos dele com a Martha Argerich do qual saem faíscas. Pode-se dizer hoje que Nelson Freire gravou bastante. Nunca é o suficiente, claro. Desde pequeno eu quero ouví-lo tocando a 1ª Balada de Chopin, mas parece que é a única Balada que ele não toca. Também daria tudo para ouví-lo tocando o Livro 2 de Prelúdios de Debussy, Concertos de Mozart, mais Sonatas de Beethoven e os 3 Movimentos de Petrushka, de Stravinsky. Além de Ravel. E muito mais Rachmaninoff... Não deixe de conferir nossas listas de: Top 10 Sinfonias Top 10 Concertos para Piano Top 10 Sonatas para Piano
- Brahms - O 1º Concerto para Piano - Análise
Tem uma besteira na música clássica - tem muita besteira - que agrupa Johann Sebastian Bach (1685-1750), Ludwig van Beethoven (1770-1827) e Johannes Brahms (1833-1894) como os "3 B's". Se Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) fosse Bozart, teríamos o "Quarteto B" com os compositores mais importantes da história. Diz-se, por exemplo, que um determinado regente vai se dar bem porque ele é bom nos 3 B's. Pra mim isso é BS, se é que me entendem. Mas nos dá uma noção da relevância de Brahms. Ele foi o compositor sinfônico mais importante de sua época - Richard Wagner (1813-1883) era o maior compositor de ópera. Ambos protagonizaram uma imensa briga (que se dava, na verdade, entre seus admiradores, pois os dois se davam bem) na segunda metade do século XIX - música instrumental vs. ópera; música pura vs. música descritiva; as velhas formas vs. a amorfidade do novo. Ainda falo sobre isso. Mas entenderam, né? O maior compositor "não de ópera" do romantismo depois de Beethoven foi Brahms. Pois para compositores sinfônicos, as obras mais importantes eram sinfonias e concertos, formas que ele dominava à perfeição. Escreveu 4 Sinfonias e 4 Concertos. Era muito perfeccionista, às vezes, já nas páginas finais de uma obra, a rasgava ou jogava na lareira. Daí o número relativamente pequeno. Os concertos são: 2 para piano, um para violino e um duplo, para violino e violoncelo. Lembrem-se que concertos são obras que combinam ou até antagonizam um instrumento solista com a orquestra. Sempre tem orquestra. O 1º Concerto para Piano Enfim, o mais antigo dos 4 é o 1º Concerto para Piano, em Ré Menor, completado em 1858. É seu Opus 15. Foi estreado em 1859, em Hanover, com Brahms ao piano e seu amigo, o violinista Joseph Joachim, regendo a orquestra. Foi sucesso imediato, alçando o compositor à categoria "promessa". Lembrando que ele também era um ótimo compositor para de música para piano e para música de câmara, e nesses cenários ele já despontava. Mas foi sua primeira obra orquestral a ser tocada em público e receber aprovação. E não foi à toa. É uma obra confiante, com uma escrita orquestral e pianística majestosa, com algumas melodias que grudam na cabeça. O primeiro movimento tem 22 minutos. O segundo, 14 e o terceiro, 11. De fato, o movimento de abertura é um dos mais longos do repertório concertístico, mas, graças à habilidade de Brahms em manipular o material que tem, a escuta não é nem um pouco maçante. Estrutura O compositor trabalha, no primeiro movimento, com um material temático relativamente limitado. Há o tema principal, que contém os trinados; o primeiro tema do piano, em terças; e um tema coral que surge no piano, mas que é nas cordas que revela sua beleza. Com esses três temas, dissecando-os, combinando-os e os modulando, ele cria um movimento impactante, que deixou ótimas impressões no público da época. O segundo movimento é muito mais contido e esparso. Longas linhas melódicas se desenvolvem nos fagotes em contraponto com os violinos, são depois repetidas pelo piano. Esse movimento tem um dos momentos mais belos pra mim (de tudo). É uma melodia em terças primeiro nos clarinetes - sob acordes descendentes do piano -, depois nas flautas, aí, um pouco à frente, nos oboés e então nos clarinetes, só que agora em maior. É lá pelos 5-6 minutos. O terceiro movimento é um rondó com três temas principais. Depois do segundo movimento carregado, esse é leve, como uma dança. É uma peça difícil para o piano e para a orquestra, finalizando o concerto com brilho. O concerto todo, a meu ver, não é muito virtuosístico, isto é, o pianista não se exibe muito. Mas é difícil achar o tom certo, bem como o equilíbrio entre o material temático. Gravações Importantes - Leon Fleisher, com George Szell regendo a Orquestra de Cleveland - Uma gravação clássica e excepcional. Como qualquer outra dessa lista, ela basta pra que você conheça o concerto. A parceria entre Fleisher, Szell e Cleveland deu muitos frutos nos anos 50-60. - Nelson Freire, com Riccardo Chailly regendo a Orquestra do Gewandhaus de Leipzig - Considerada a gravação definitiva por muitos. Uma das colaborações mais felizes da história do disco. Nelson toca com um som gigantesco, e Chailly fornece mais que um acompanhamento. Regente, pianista e orquestra encontraram o equilíbrio perfeito. E a sonoridade... - Hélène Grimaud, com Andris Nelsons conduzindo a Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara - Hélène foi uma das primeiras mulheres a gravar os concertos de Brahms, isso recentemente. E o fez com sua costumeira elegância e bom gosto. Escolheu (ou foi escolhida por) um dos regentes mais talentosos da atualidade e uma das orquestras mais suntuosas de todas. O som dessa gravação ao vivo é excepcional. - Ivan Moravec, com Jiří Bělohlávek e a Orquestra Filarmônica Tcheca - Moravec foi um pianista especial, dotado de um misto de colorido com técnica. Foi um dos melhores pianistas da sua geração, morrendo em 2015, em Praga, na sua República Tcheca. A Filarmônica Tcheca é sempre um privilégio ouvir, com Bělohlávek tendo sido um dos seus grandes regentes. - Emil Gilels, com Eugen Jochum e a Orquestra Filarmônica de Berlim - Maravilhosa, simplesmente. Eu ia dizer encantadora, mas não é. É titânica. Gilels podia tirar o som mais forte do piano antes de quebrar as cordas. E, nas passagens líricas, nos deixar boquiabertos. Jochum é o regente perfeito de Brahms. - Clifford Curzon, com George Szell regendo a Orquestra Sinfônica de Londres - Szell, desta vez regendo Curzon, prova que foi um dos maiores acompanhantes que já existiram. Essa, junto com a de Gilels, era considerada a grande gravação da obra, antes de Freire/Chailly.
- Maestro Bernard Haitink (1929-2021)
Essa semana, dia 21 de outubro de 2021, morreu um dos maiores regentes dos nossos tempos. O holandês Bernard Haitink. Nascido em Amsterdã, em 4 de março de 1929, ele muito cedo teve aulas de violino e regência com Felix Hupka, um professor local da Escola de Música de Amsterdã. Trabalhou como violinista em algumas orquestras e, entre 1954 e 1955 foi ter aulas com o grande regente alemão Ferdinand Leitner. Teve uma carreira meteórica, por assim dizer, ultrapassando seu professor em importância e produtividade. Em 1956 regeu pela primeira vez a Orquestra Real do Concertgebouw, de Amsterdã, substituindo num concerto o lendário Carlo Maria Giulini. Em 1959, com a morte de Edward van Beinum, ele se torna regente titular da orquestra, que já era considerada uma das mais refinadas e peculiares do mundo. Manteve o cargo de regente principal até 1988. Nesse longo período, comparado ao de Herbert von Karajan com a Filarmônica de Berlim, ele moldou o conjunto e o pôs no patamar mais alto: a Concertgebouw é frequentemente apontada como uma das 3 melhores do mundo. E gravaram muito. Ele era especialista em Gustav Mahler, Anton Bruckner, Ludwig van Beethoven, Johannes Brahms e o inglês Ralph Vaughan Williams. Gravou integrais das sinfonias de cada um desses. Regeu também a Filarmônica de Londres (1967-1979), a Orquestra do Covent Garden (a orquestra da ópera real britânica, entre 1987 e 2002), a Staatskapelle de Dresden (2002-2004), Sinfônica de Boston (principal regente convidado entre 1995 e 2004) e foi eleito membro honorário da Filarmônica de Berlim. Para mim, o que define a musicalidade de Haitink é a inteligência, a completa falta de frescura (sabe aqueles regentes que regem os movimentos lentos beeeem lento? Pra comover? Ele não.) A orquestra com que mais é associado é a do Concertgebouw, não tem como. Em 2019 anunciou que se aposentaria em setembro, e no dia 6, conduziu a Filarmônica de Viena, em Lucerna. Foi sua última aparição. Regeu o 4º Concerto para Piano de Beethoven (com Emanuel Ax ao piano) e a 7ª Sinfonia de Bruckner. Em 2020 saiu uma caixa de luxo do seu último concerto com a Filarmônica de Berlim. Também era a 7ª de Bruckner. Perdemos um dos maiores músicos do mundo, um homem que compreendia bem a linguagem musical dos mestres e que entendia todos os desdobramentos da arte de fazer soar uma orquestra. Gravações Recomendadas - Claude Debussy, com a Orquestra do Concertgebouw - Prelúde à l'Après-Midi d'un Faune, La Mer e Ibéria. Gravado em 1986 e 87, é um dos discos mais aclamados de Haitink. A orquestra soa excepcionalmente bem em música impressionista francesa. Eles tocam com calma e segurança, não tendo nada o que provar. - Maurice Ravel, com a a Orquestra do Concertgebouw - Boléro, Rapsódia Espanhola, Daphnis et Chloé (Suíte Nº 2) e Pavane pour une Infante Dèfunte. O Boléro é rápido e virtuosístico. A versão de Ravel tem 17 minutos, e essa aqui tem menos de 15. Mas o Daphnis é excepcional, as cordas da orquestra dando um show e as madeiras fazendo toda a diferença. Detalhe, na Pavane, para a trompa, executada como se fosse a coisa mais fácil do mundo (na verdade, é dificílimo, por causa das frases longas, sem respiração). Foram gravados entre 1971 e 76. - Johannes Brahms, com Claudio Arrau ao piano e a Orquestra do Concertgebouw - Concerto Nº 1 para Piano. Tão importante para a discografia de Arrau quanto para a de Haitink, essa gravação de 1969 do 1º concerto de Brahms é considerada definitiva. É uma preciosidade. - Sergei Rachmaninoff, com Vladimir Ashkenazy ao piano e a Orquestra do Concertgebouw - Concertos para Piano Nº 2 e 4. Os dois ciclos de Rachmaninoff mais importantes de Ashkenazy são com a Sinfônica de Londres, sob André Previn e esse daqui, com a Concertgebouw e Haitink. Cada um tem seus momentos, mas nos concertos 2 e 4 acho que essa versão, de 1984, bate a outra. - Richard Strauss, com Maximilian Hornung no violoncelo e a Orquestra da Rádio Bávara - Don Quixote. Acho essa gravação fenomenal. As dissonâncias tocadas sem um pingo de pudor pela orquestra Bávara, o violoncelo encantador, os andamentos. Tudo para fazer um dos Don Quixotes mais arrebatadores que já ouvi. De 2014. - Anton Bruckner, com a Filarmônica de Berlim - Sinfonia Nº 7. US$ 675. Essa gravação vem com um livro de luxo, num lançamento de gala pelo selo da Filarmônica de Berlim, a última do maestro com o conjunto. É de 2020.
- Beethoven - A 10ª Sinfonia - Completada por Inteligência Artificial
Quando eu era pequeno, vi na televisão um meninozinho, provavelmente de algum projeto de música para crianças carentes, tocando violino. No final o repórter perguntou, naturalmente, qual era aquela música. "Ode à Alegria, quem canta é o Beethoven", respondeu na lata. Um aluno meu me pediu uma vez pra aprender "Ódio e Alegria", que eu acho que é a mesma. O fato é que a 9ª e última sinfonia de Ludwig van Beethoven é um sucesso. Ela tem esse nome "Ode à Alegria" porque seu último movimento conta com um coral enorme, além de solistas (uma soprano, uma contralto, um tenor e um baixo) (além da orquestra) cantando um poema de Friedrich Schiller de mesmo nome. Foi terminada em 1824 e estreada em setembro do mesmo ano. É seu Op. 125. Foi a primeira sinfonia com vozes. Beethoven já estava totalmente surdo. O que não o impediu de reger a premiére. Inclusive, de continuar regendo quando a música já tinha acabado. O público delirou com a música desde esta estreia. Era claro que Beethoven queria que fosse sua última sinfonia. Caso contrário teria ele mesmo escrito a seguinte. Na verdade, ele dedicou seus últimos anos a escrever quartetos de cordas e dormir. Existe a possibilidade de que ele tenha querido compor uma 10ª em algum ponto. Porque existem esboços de um 1º movimento. Mas ele não levou adiante. Esses são os fatos. Acontece que, em 2019, uns musicólogos e uma inteligência artificial alegaram ter "completado" a obra. É o projeto "Beethoven X". A décima foi estreada em Bonn, cidade natal do compositor, em outubro de 2021. Fez-se um estardalhaço, todo mundo só fala disso, mas algumas coisas têm que ser ditas. O projeto em si é interessante, e a idéia de deixar uma inteligência artificial fazer o trabalho torna a coisa ainda mais instigante. E ainda tira a responsabilidade de cima dos musicólogos. Mas a peça não deve ser levada a sério, como se fosse mesmo uma imagem do que o próprio Beethoven teria escrito. Como disse o crítico musical David Hurwitz em seu canal do YouTube, Beethoven estava sempre se renovando. Cada sinfonia era diferente da anterior. Então é impossível alguém, ou mesmo um computador, prever o que ele faria a seguir. Ou seja, em vez de dar um passo à frente, eles deram um passo de lado. Ouvindo a obra, constato que isso é verdade: não parece Beethoven, parece um imitador de Beethoven que se baseou no que o compositor havia escrito antes. Capturaram bem seu estilo maduro (a chamada 3ª fase) e aplicaram tudo que se conhece de esboço e de procedimentos orquestrais dele. Além, claro, dos procedimentos musicais. Mas é esquisito. O último movimento, ainda que interessante, é meio bizarro. Aliás, é bem bonito, com uma introdução misteriosa (começa aos 8m50s, no vídeo abaixo). Tem órgão. Mas a mim lembra mais Hans Zimmer do que Ludwig. Claro que um projeto como esse tem tudo para ser criticado, porque cada pessoa que ama Beethoven é uma especialista em Beethoven. E cada especialista tem sua opinião. O fato é que a única coisa que a gente pode ter certeza é que, caso ele tivesse composto a décima, soaria como qualquer coisa, menos com isso. Como foi uma inteligência artificial que compôs, ela acabou escrevendo a música impossível. Veja, o computador teve que lidar com bilhões de informações, simular milhares de escolhas e ainda tentar imitá-lo. É impossível dizer que Beethoven tomaria as mesmas decisões. Na verdade é muito mais fácil afirmar que ele não faria igual. Não estou xingando o PC, veja bem. É um exercício válido e um orgulho para todas as inteligências artificiais. Só não dá pra gente se empolgar e achar que é a 10ª de Beethoven. Não condeno a iniciativa, desde que se deixe bem claro o que é Beethoven ali. Aliás, não é a primeira vez que tentam isso. Em 1989 o musicólogo Barry Cooper fez uma 10ª de Beethoven pra chamar de sua. Foi até gravada, com um áudio falado por ele. Ele deixa claro que "Beethoven estava completamente inocente" dessa ideia de 10ª sinfonia. Mas que o compositor se referiu a essa obra em cartas, de forma não muito definitiva. Existem hoje esboços para 1 e apenas 1 movimento. Nenhum fragmento tem mais do que 30 compassos contínuos. E nem sinal da orquestração, está tudo escrito para piano. Ele mesmo, Barry Cooper, nos dá um veredicto: "afinal, se nem Beethoven quis completar a obra, seria idiotice outra pessoa fazê-lo". Tiro no pé, afinal ele mesmo tentou. Argumentava que dava para fazer pelo menos o 1º movimento juntando os caquinhos que o mestre tinha deixado; e que a prática de outros compositores finalizarem obras dos mestres era comum (existe uma 10ª de Mahler, também completada por universitários). Mas no final temos isso: duas tentativas, duas ilusões. Interessantes, porque cada pessoa que tenta imitar Beethoven contribui para essa fantasia. Mas é só. Fantasia. Para ouvir o esforço bem intencionado e até agradável do Barry Cooper, acesse o seguinte link, com a Orquestra Sinfônica de Londres sob a regência de Wyn Morris: https://open.spotify.com/album/0YdABEBmv5PIlHtMf1fB1Q?si=LmbQ0qcCTe2wA-yX3bdvwA Agora, leia sobre uma sinfonia real de Beethoven, a 6ª, conhecida como "Pastoral". E vamos em frente.
- Chopin - Os Prelúdios, Op. 28 - Análise
Em 1839, Frédéric Chopin publica seu caderno de 24 Prelúdios Op. 28, cada um em uma tonalidade diferente (como J. S. Bach havia feito nos seus dois cadernos chamados "O Cravo Bem Temperado"). Enquanto os de Bach podem ser tocados separadamente, os de Chopin funcionam melhor tocados todos juntos, e na ordem em que estão publicados. É como se fosse uma grande obra formada por pequenas peças. Mesmo assim, às vezes, a gente ouve um ou dois sozinhos, em um concerto, especialmente como encore (bis). No inverno de 1838, Chopin vai com Georges Sand e os filhos dela para Mallorca (Espanha): morando em Paris desde 1830, o compositor polonês sofria com o frio, sobretudo porque tinha tuberculose. É nessa viagem que ele compõe uma boa parte dos Prelúdios. Ele dedica a obra a Camille Pleyel, o famoso fabricante de pianos da capital francesa, que lhe pagou 2 mil francos (equivalente a 30.000 euros hoje). É uma obra bem característica do romantismo, em que cada prelúdio tem um caráter sentimental forte, por vezes arrebatador. Alguns são mais fáceis de tocar, outros são extremamente virtuosísticos. Dura em torno de 33 a 35 minutos. A Obra Abaixo, o genial pianista russo Mikhail Pletnev executa os 24 prelúdios. Prelúdio 1, em Dó maior - Agitato Uma bela e nobre introdução. Hans von Bülow o apelidou de "Reunião", como se ele estivesse fazendo uma recapitulação mental de tudo que sabe para então mostrar toda a sua criatividade. Prelúdio 2, em Lá menor - Lento (46s) Meditativo, lento, belo e simples, com uma melodia (de notas longas) na mão direita e o acompanhamento na esquerda. No final ele faz uma cadência surpreendente, como se fosse modular para Mi maior, mas depois ajeita e termina em lá menor. Prelúdio 3, em Sol maior - Vivace (3m20s) Esse aqui é um prelúdio com jeitinho de toccata. Meio brincalhão. A mão esquerda faz um movimento perpétuo bem ligeiro até o final. Prelúdio 4, em Mi menor - Largo (4m20s) Esse é o mais famoso, talvez. Tom Jobim se inspirou nessa bela melodia e, principalmente, na expressiva harmonia cromática, para fazer sua "Insensatez". Tem desenvolvimento, o que o torna um pouco mais comprido. No funeral de Chopin essa peça foi executada em um órgão. Prelúdio 5, em Ré maior - Molto allegro (6m31s) Leve e divertido, conta com uma escrita fragmentada, como era típico de Chopin. Prelúdio 6, em Si menor - Lento assai (7m07s) Esse prelúdio lembra o Nº 4, o que nos dá uma sensação de retorno. Mas é outra música, com o mesmo tom funesto. Desta vez a melodia está na mão esquerda, a direita fazendo os acordes. Prelúdio 7, em Lá Maior - Andantino (9m18s) Este intrigante prelúdio é curtíssimo. Lindo, um dos favoritos do público. Lembra uma valsa que nunca começa. Ou uma Mazurka, uma dança polonesa que rendeu muitas composições de Chopin. Prelúdio 8, em Fá Sustenido menor - Molto agitato (10m02s) Aqui já é o típico Chopin agitado, transtornado, inquieto... A escrita já é mais pianística do que os anteriores, não dá pra tocar em outro instrumento. Prelúdio 9, em Mi maior - Largo (11m54s) Esse prelúdio consiste mais de uma progressão harmônica que de uma melodia em si. Prelúdio 10, em Dó Sustenido menor - Molto allegro (13m14s) Super ligeiro, com uma ideia musical meio macabra, diabólica, bem Chopin. Prelúdio 11, em Si maior - Vivace (13m50s) Mais tranquilo, só que sem ser triste. Prelúdio 12, em Sol Sustenido menor - Presto (14m46s) É bem virtuosístico, embora Pletnev aí em cima toque um pouco devagar. Prelúdio 13, em Fá Sustenido maior - Lento (16m03s) Esse também é muito bonito. Lembra um pouco um Impromptu de Schubert. Tem uma modulação belíssima (17m28s). É em forma A-B-A. Prelúdio 14, em Mi Bemol menor - Allegro (19m27s) Alfred Cortot chamou esse aqui de "Medo". Também é muito típico de Chopin. Prelúdio 15, em Ré Bemol maior - Sostenuto (20m05s) Já esse aqui é tranquilidade total. Sereno e belo. É o chamado "Pingo de Chuva" (Raindrop). Tem uma parte central mais séria (21m32s), com umas notas repetidas que nos trazem de volta o "medo" do prelúdio anterior. Mas a tranquilidade volta. Também é muito conhecido, sendo às vezes tocado sozinho. É o mais longo de todos do grupo. Termina quase em estado de devaneio. Prelúdio 16, em Si Bemol menor - Presto con fuoco (25m06s) Rápido e com fogo (Presto con fuoco). É um dos mais difíceis. Lembra um Impromptu, também, mas do próprio Chopin. Prelúdio 17, em Lá Bemol maior - Allegretto (26m11s) Um dos mais longos, também é tranquilo e melódico. Era o favorito de Robert e Clara Schumann e de Mendelssohn. Tem uma recapitulação com uma harmonia difusa (28m20s) extremamente interessante. Prelúdio 18, em Fá menor - Molto allegro (29m31s) Esse aqui me lembra o finale da 2ª Sonata. É impossível de ser cantado (sem ficar ridículo). É bem curtinho e explora bem a técnica do pianista. Prelúdio 19, em Mi Bemol maior - Vivace (30m35s) Por falar em técnica, esse aqui é provavelmente o mais difícil de todos, com suas figuras arpejadas. Embora não pareça. Prelúdio 20, em Dó menor - Largo (32m08s) Esse é bem carregado, com uma harmonia dotada de personalidade. É como uma série de cadências. Prelúdio 21, em Si Bemol maior - Cantabile (33m45s) Com uma melodia simples na mão direita e uma harmonia cromática na esquerda, é um prelúdio encantador. Prelúdio 22, em Sol menor - Molto agitato (35m23s) Muito agitado (Molto agitato) e atormentado, chamado por Alfred Cortot (um grande pianista que, por algum motivo, colocou um apelido para cada um dos prelúdios) de "Rebelião". Prelúdio 23, em Fá maior - Moderato (36m10s) A melodia passeia entre as duas mãos, com um clima meio encantado. Prelúdio 24, em Ré menor - Allegro appassionato (37m08s) Também bastante virtuosístico, esse prelúdio. Confere um final triunfante e brilhante para a peça. Gravações Recomendadas É simples. Todo grande pianista já gravou esse livro de prelúdios, mas basta você escutar as versões de Martha Argerich (um trovão) e Nelson Freire (a perfeição). Eu disse basta, mas como são peças bastante expressivas, elas abrem espaço para infinitas interpretações, de forma que é bem divertido ver o que cada pianista faz com elas. Também confira Jorge Bolet, Vladimir Ashkenazy, Claudio Arrau e o próprio Alfred Cortot, numa gravação antiga, mas muito interessante. Martha Argerich - https://open.spotify.com/album/3baJOyeM5b3t8CoOOeRKH6?si=elWRcNERRUui3yeIz3VZJQ Nelson Freire (disco 5) - https://open.spotify.com/album/40xVWPfQEPiTuMVKC2o1Ie?si=IHl0MLTWRKiyJA2U-M1-1g Jorge Bolet (ao vivo no Carnegie Hall) - https://open.spotify.com/album/44GKgtXEZbl2XJJzgzJfpm?si=4cy6XJgsTDuB6Zd-_oyy3w Alfred Cortot - https://open.spotify.com/album/507xh6aaYSJSDK8ioKKoqe?si=yQ-88tcwSqC3TVnCvjj-Ww ou https://open.spotify.com/album/5b8qw29oiPkYfVX1aj5sp2?si=OMNQnT1nSsCPP8XK-IVYZg (essa mais vintage)
- Os 5 Concertos para Piano de Beethoven
O conjunto dos 5 Concertos para Piano e Orquestra de Ludwig van Beethoven é um dos mais importantes da literatura musical. Os dois primeiros são da década de 1790, o começo da carreira do compositor, antes dos seus 30 anos. Nessa época, Beethoven ainda se encontrava no período clássico, e pode-se dizer até que imitava Mozart. Depois ele viria a operar no romantismo, e, a cada concerto, surpreendia. Não se pode falar de sua obra sem mencionar as 9 Sinfonias, as 32 Sonatas, os 5 Concertos para Piano, o Concerto para Violino, os 16 Quartetos de Corda... 1º Concerto O 1º Concerto na verdade foi composto em 1795, depois do segundo (mas publicado antes), sendo até um pouco evoluído em relação a este. Ele já tem vários elementos da personalidade musical de Beethoven. Especialmente nos ritmos martelados fora do tempo forte, na harmonia ousada e na orquestração grandiloquente. O compositor deixou 3 opções de cadência para o primeiro movimento, o que não impede que o pianista componha a sua própria. O segundo movimento é lindo, reminiscente de Mozart, também. Já demonstrava a capacidade melódica dele. O último movimento é um Rondó também obediente ao classicismo, e também tem cadência. Gravação recomendada: Martha Argerich, com a Orquestra de Câmara Mito (argh), sob Seiji Ozawa 2º Concerto O 2º Concerto é anterior, datando de 1789, possivelmente. É o menos tocado dos 5, mas não é desprovido de charme. Na verdade é bem interessante e teve gravações importantes (o concerto menos gravado de Beethoven ainda é mais gravado que o mais gravado da maioria dos compositores). Antes, quando me vinha à memória a melodia do primeiro movimento, eu jurava que era de Mozart. Menos emocional que o 1º, eu diria que é mais nobre. Sério, nessa de imitar o ídolo, ele fez um belo trabalho. Claro que quando você escuta com atenção, percebe que é Beethoven: um momento mais sombrio, uma variedade maior de dinâmica etc. Ele mesmo não gostava da peça: "não é das minhas melhores"... Mas compositores costumam ser críticos de suas obras mais bem sucedidas. A cadência do 1º movimento é brilhante, assim como no concerto anterior. O 2º movimento é sensacional, comovente. Melodicamente, em 4 dos 5 concertos, ele demonstrou sua capacidade plena nos segundos movimentos. No finale temos um Rondó cativante que termina a obra com brilho. Gravação recomendada: Mitsuko Uchida, com a Filarmônica de Berlim, sob a direção de Simon Rattle 3º Concerto O 3º Concerto é o adolescente. O começo do desprendimento de Beethoven dos seus antecessores clássicos. Aqui ele dá maior atenção aos sentimentos, pra colocar de forma simples. A música se torna muito mais poderosa, a intenção não é mais de fazer música que simplesmente gere deleite. É uma coisa especial. Composto por volta de 1800 e publicado em 1804, é uma obra que começa a pisar na nova corrente artística que varreria a Europa e da qual Beethoven seria um dos patronos: o romantismo. Pra começar, ele é em tom menor. Bem mais sombrio e capaz de provocar sensações mais à flor da pele. Tem característica da segunda fase do compositor (são 3): arrebatamento através de explosões orquestrais, mudanças súbitas na harmonia, acentuações rítmicas inesperadas e uma orquestração muito mais colorida. Além da cadência voraz e absolutamente matadora no primeiro movimento. O concerto é um perfeito veículo para um pianista mostrar suas qualidades. Delicadeza e ternura no segundo movimento. Agilidade no terceiro. É uma das mais importantes obras do mestre alemão, e, embora ainda não seja tecnicamente romântica, já semeia o terreno. Gravação recomendada: Martha Argerich, com a Orquestra de Câmara Mahler, sob a direção de Claudio Abbado 4º Concerto Já completamente mergulhado no romantismo, o 4º Concerto é uma das obras mais bem acabadas e maduras de qualquer compositor, de 1806. Claramente não foi feito para impressionar, com sua estrutura um tanto caótica: o 1º movimento começa com o piano introduzindo um tema na tonalidade de sol, que é a tonalidade proposta pelo concerto. Mas a orquestra retoma o tema em si maior. O que é estranho. Daí, mal a orquestra faz uma exposição, o piano volta e eles continuam em perfeita harmonia, como se não houvesse duelo senão nas entrelinhas. A obra só não é confusa porque tem certeza de si. É assertiva e segura. E genial. O tempo todo somos surpreendidos. Também não apresenta virtuosismo gratuito, isto é, exibicionismo de técnica por parte do piano. E lembra que eu disse que Beethoven desfila sua criatividade melódica nos movimentos lentos de 4 dos concertos? Pois aqui é a exceção. Não que o 2º movimento seja feio. Ele apenas não quer ser simplesmente belo. Sabe aquela modelo que insiste que é mais do que um rostinho bonito? É o caso. E é mais, mesmo. A melodia (ou como você quiser chamar) esconde uma profundidade que a gente só capta com muitas audições. A orquestra parece que vem com raiva e o piano responde sempre calmamente. Os dois quase não se encontram no movimento, quando um fala o outro cala. E os silêncios... Falam quase mais que a música. O terceiro movimento é um Rondó alegre como se nada tivesse acontecido. Mas também não é vazio. Consegue ser triunfante sem fugir da proposta do concerto, que é mais soturna. Vários compositores fizeram cadências para esta obra, dentre eles o próprio Beethoven, Johannes Brahms, Feruccio Busoni e Camille Saint-Saëns. Gravação recomendada: Alexis Weissenberg, com a Filarmônica de Berlim, sob a direção de Herbert von Karajan 5º Concerto - "Imperador" O Imperador é o mais conhecido dos 5. De 1811, nessa época o compositor, muito provavelmente já estava completamente surdo. Tanto que não tocou na estréia, como de praxe. O primeiro movimento começa com um acorde explosivo da orquestra seguido por uma breve candência do piano. E outra, e outra. Depois temos a exposição orquestral. O concerto é extremamente heróico, audacioso. Uma curiosidade é que ele não tem e, ao mesmo tempo, tem, uma cadência propriamente dita. A orquestra prepara, tocando o acorde da tônica com baixo na 5ª e para. Sabe-se que vem uma cadência. Mas o que vem é menor que uma, menos improvisativo, mais curto e menos virtuosístico. Mas, pra mim, é cadência. O segundo movimento é um dos mais belos do compositor. Sereno, apresenta uma perfeita harmonia entre o piano solista e a orquestra. Também tem modulações arrepiantes. Ele desemboca direto no terceiro movimento, sem interrupções, um Rondó que, pra mim, é um tanto barulhento. Não gosto de coisas felizes demais, alegria em excesso é desespero. Esse é provavelmente o concerto mais genial de Beethoven, embora alguns considerem o 4º mais satisfatório. Abaixo vou deixar algumas sugestões de gravação dos 5 concertos em conjunto. São muitas gravações excepcionais, e eu selecionei apenas algumas. Estas foram gravadas em conjunto, com o mesmo regente, a mesma orquestra e o mesmo pianista nos 5 concertos. São as chamadas integrais dos concertos para piano de Beethoven. Se você não conhece nenhum, sugiro que começe pelo 5º. - Alexis Weissenberg, com a Filarmônica de Berlim e o maestro Herbert von Karajan; - Mitsuko Uchida, com a Filarmônica de Berlim, sob a batuta de Simon Rattle; - Leif Ove Andsnes tocando e regendo a Orquestra de Câmara Mahler; - Claudio Arrau, com a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã, sob Bernard Haitink; - Nelson Freire, com a Orquestra do Gewandhaus de Leipzig, regida por Riccardo Chailly; - Wilhelm Kempff, com a Filarmônica de Berlim, sob Ferdinand Leitner; - Evgeny Kissin, Sinfônica de Londres, Colin Davis - Leon Fleisher, com a Orquestra de Cleveland, sob George Szell Não deixe de conferir nossas listas de: Top 10 Sinfonias Top 10 Concertos para Piano Top 10 Sonatas para Piano
- A Violinista Encantada - Ginette Neveu
Nascida em Paris, em 11 de agosto de 1919, Ginette Neveu revelou-se musical na primeira infância. Aos 5 tocou seu violino em público pela primeira vez, mas foi aos 7 que se deu sua estréia oficial: tocou o dificílimo concerto de Max Bruch na Salle Gaveaux, em Paris. Aos 9 ela se graduou no Conservatório de Paris com destaque. Aos 12 o professor Carl Flesch a ouviu num concurso e se ofereceu para dar aulas de graça. Aos 15 anos Ginette fez o impossível. Ganhou o Concurso Wieniawsky, em Varsóvia, que teve no segundo lugar ninguém menos que David Oistrakh, 27. E a ainda pequenininha Ida Haendel (aos 5), que ganhou uma medalha e tirou 7º lugar. Esse feito impressiona e assombra o mundo, porque Oistrakh viria a se tornar um dos (sei lá) cinco maiores violinistas de meados do século XX. Ginette teve uma carreira curta impecável, seu pianista era seu irmão, Jean-Paul Neveu. E além do repertório de violino e piano, ela excursionava com o repertório de violino e orquestra. Em 28 de outubro de 1949, ia com seu irmão de Paris a Nova Iorque quando o avião bateu numa montanha nos Açores, não deixando sobreviventes. Ela tinha 30 anos. Foram 48 vítimas. A sorte é que nos deixou gravações. Eu pessoalmente acho seu som cósmico, foram poucos os violinistas que me surpreenderam como ela. Ela tinha uma sonoridade límpida, clara. Sua técnica era evoluída. Ela fazia as passagens mais difíceis soarem fáceis, como se estivesse 50 anos à frente. Tocando Sibelius, revela-se sua mais óbvia façanha: era uma pintora, fazendo a gente ver as cores e até sentir o frio. No segundo movimento do Concerto para Violino de Beethoven, parece uma voz suave, mas que cala a todos quando fala. Às vezes, uma nota que antes era só uma nota, vira um momento revelador. Você tem que ter a experiência de, ao menos uma vez na vida, escutar Ginette Neveu. Gravações importantes - Johannes Brahms - Concerto para Violino, com a Orquestra Philharmonia, regida por Issay Dobrowen - Jean Sibelius - Concerto para Violino, com a Orquestra Philharmonia, dirigida por Walter Susskind - Claude Debussy - Sonata para Violino e Piano, com Jean-Paul Neveu - Richard Strauss - Sonata para Violino e Piano, com Gustaf Beck - Ludwig van Beethoven - Concerto para Violino, com a Orquestra SWR, de Stuttgart, regida por Hans Rosbaud (uma gravação ao vivo resgatada do último ano de sua vida - contém uma outra gravação maravilhosa, também ao vivo, do Concerto de Brahms, com a Filarmônica da Haia, regida por Antal Doráti) Abaixo, um trecho do Poème de Ernest Chausson. Observe o carisma, a entonação (afinação) com que ela toca os trinados e a intensidade do seu olhar e do seu toque.
- papo de arara: hermes Veras
Hermes Veras é antropólogo, poeta e membro do selo literário Tubo e do Escambanautas, também outro grupo de escritores e escritoras que troca experiências, promove cursos e viabiliza publicações. Hermes já publicou a não-ficção O sacerdote e o aprendiz: antropologia de um terreiro amazônico pela editora Letramento agora no ao de 2021 e está neste momento com uma campanha de financiamento coletivo de seu livro de poemas Formas Veladas. Cearense radicado no Pará e com doutorado no Rio Grande do Sul, Hermes bateu um papo gostoso com a redação da Arara sobre antropologia, vida, arte e, claro, poesia e literatura. 1. Hermes, primeiramente explica: como foi que você percebeu que era poeta? Convive em mim um velho. Desde o finalzinho da infância, no início do adolescer, sentia aquela vontade de fazer poesia e outros tipos de expressões artística com as palavras. Só que essa vontade ia e voltava, geralmente passava logo! E me concentrava em coisas boas-divertidas, como brincar, ouvir música, jogar RPG. Com o passar do tempo e convivendo com meus professores de literatura no ensino médio, principalmente um professor que perdi o contato e a professora Nádya Gurgel, com quem falo até hoje, aprendi alguma coisa sobre a poesia e as escolas literárias. Meus primeiros poemas eram emulação do estilo simbolista e árcade, hahaha. E eu falando assim sei que parece coisa de gente besta, mas juro, não sou não. Eu tinha acesso a isso com o meu livro didático de literatura e também aperreando os professores. Bom, mas isso não me convenceu a ser poeta, nem de que eu poderia ser um. Já no final do ensino médio e o início de meu tempo de cientista social aprendiz, andava com um caderninho vagabundo, daqueles de capa mole e estampa de surfe, escrevendo uns poemas alucinatórios, sobre a filosofia das coisas cotidianas, da percepção de se perceber gente, disso de percorrer com consciência o tempo e o espaço. Das coisas que só podemos fazer quando estamos mergulhados no tempo da juventude e escolar, sem outras preocupações. Nesse período escrevi um livro todo manuscrito de poesia, tem um pouco mais de 40 poemas. Nunca publiquei e pretendo que fique assim. Mas lá tem poemas que gosto até hoje. Com isso ganhei o apelido de poeta entre amigas e amigos, claro que com um tom pejorativo, às vezes contemplativo ou digno de pena. Nessa época já participava do Grupo Eufonia de Literatura, também em Fortaleza (2007-2012). E éramos amigos que nos reuníamos para falar de literatura, de nossas leituras nae do que a gente escrevia na época. Foi um momento fundamental para que eu me sentisse parte de algo e esboçasse a vida de escritor. De qualquer forma, depois disso vieram os contatos com a Fazia Poesia, encabeçada pelo poeta Alex Zani, que é um portal literário de poetas contemporâneos, a participação do Festival da Poesia de Fortaleza (2020), com a curadoria do escritor Talles Azigon e por aí vai. 2. E como você se descobriu e se tornou antropólogo? Olha no Brasil geralmente é antropólogo quem tem o bacharelado em Antropologia (são cursos recentes) ou formação de pós-graduação em Ci na área. Entrei em contato com a antropologia só na graduação em Ciências Sociais na UECE (2009-2012). Sempre gostei da antropologia por conta de achar os textos mais bem escritos do que os das outras áreas das ciências sociais. Isso falando de maneira bem geral, há muitas exceções e diferenças. Mas o espírito da antropologia me pegou de jeito por ser uma maneira de se estar no mundo pensando e vivendo a diversidade-diferença e a potência disso para as relações sociais. É bem utópico, sabemos do passado colonial da disciplina, mas acredito que há muitas formas de praticar antropologia, quando estou escrevendo, seja o que for, estou fazendo uma delas, mas com outros registros e artefatos. Então, formalmente, fiz a graduação em ciências sociais. Passei a me achar perto de ser um antropólogo no mestrado em antropologia, que fiz na UFPA (2013-2015), em Belém do Pará. Mas isso é gradativo. Acho que me tornei antropólogo quando aprendi a ouvir o outro e extrair um aprendizado disso. O meu livro O sacerdote e o aprendiz: antropologia de um terreiro amazônico (2021) é uma materialização disso, por isso sou sempre muito grato ao Terreiro de Mina Deus Esteja Contigo e ao Pai Álvaro, local e com quem construí minha pesquisa para a dissertação-livro. Atualmente concluo o doutorado em Antropologia Social pela UFRGS, mas a minha pesquisa é em São João de Pirabas, também sou bastante grato aos terreiros que me receberam por lá, aos pais e mães de santo com quem convivi e muitas pessoas de religião afro. Não se acerta sempre, mas acho que a antropologia tem que ter esse espírito de aprendizagem, interlocução e movimento. 3. E como que você encara esse cenário atual da arte e, um pouco mais especificamente, da literatura independente brasileira? Em que estágio estamos tanto no sentido de organização, financiamento, mas sobretudo também de difusão das obras? Porque você faz parte de um selo literário independente, não é? Sabe, não sou a melhor pessoa para responder sobre mercado literário, mesmo o independente. Sim, o meu livro está saindo por uma editora independente, a Escaleras, de Salvador/João Pessoa, que é encabeçado pela escritora e editora Débora Gil Pantaleão. Convivo com várias outras pessoas escritoras que se aventuram no campo independente da literatura contemporânea. Acho que está difícil, pois sempre esteve. Mas está pior por conta da pandemia e de se ter um governo genocida, fascista e contra tudo que é bom na humanidade, ou seja, odeia a arte. Mas o pessoal está resistindo, criando, fazendo arte de birra, por ser contra, por precisar fazer isso. Sendo tinhoso, botando boneco. Mas aí cansa. Artista precisa comer, precisa pagar contas, precisa viver. No caso da literatura acho que há espaço para tudo e todas as pessoas. Sabe, acompanho de perto a revista Escambanáutica, que paga seus autores. Um de seus editores é o Moacir Fio, que também escreveu um microposfácio em Formas Veladas. A revista foca em literatura fantástica e especulativa. Tem também a newsletter de lá, a Pulpa Mágica, que também paga. Há algumas revistas que conseguem pagar seus profissionais por conta de financiamento coletivo. Esse é uns dos caminhos. Mas também pode nos esgotar. Enfim, o importante é tentar, brigar por nossos direitos e fazer o que estiver ao nosso alcance para construir um público leitor (devo ter umas 20 pessoas, mas estou caminhando rs) e nós mesmos tentarmos distribuirmos nossas obras. No geral nem as grandes editoras fazem isso, apenas com alguns gatos pingados. As independentes estão limitadas por questão humana: quase sempre é uma pessoa que toma conta de tudo, abrangendo para mais duas ou três. E tem a questão financeira, do financiamento da obra de fato. Muitas editoras independentes dependem do catarse, ou outras plataformas, para lançar os seus livros. A pré-venda por esses projetos de financiamento coletivo é essencial para que a editora não tenha maiores prejuízos e consiga produzir a obra. É um caminho que precisamos percorrer, mas também estarmos atentos a outras possibilidades. Uma hora a fonte seca... Enfim, acho que me perdi na resposta. De fato não sou o melhor para responder sobre isso, apesar de estar atento ao movimento. 4. É possível ser um artista sem ter internet hoje? Sim. É possível ser tudo. Não vai ser fácil. Assim como não é fácil ser artista e estar na internet ao mesmo tempo. Mas vou falar por mim, e sobre uma parte do meio literário que conheço. Não consigo me imaginar construindo um público leitor (que apesar de ser mínimo, tem sido formado a duras penas, com cada pessoa sendo conquistada na arte da palavra, sedução e lorota rs) sem os recursos das redes sociais. Além disso, estabeleci vínculos com várias pessoas da literatura por conta de oficinas que cursei, grupos de discussão, enfim, por conta dessas redes que vamos estabelecendo. Olha, hoje eu publico microcontos no instagram, na página @viu.eitanem . Tento ter um instagram relativamente ativo, no meu perfil pessoal também. Uso o twitter, facebook, linkedin... Escrevo uma newsletter de crônicas, um mensageiro, no link https://tinyletter.com/hermesveras. Enfim. Uso a internet a meu favor. De quebra ganho ansiedade e outros problemas. Nada é fácil... Sei que aprendi muito com a escritora e professora de escrita Vanessa Passos (que assina a quarta capa de Formas Veladas). Ela já era minha amiga por ser casada com o Paulo Henrique Passos, que participou do eufonia comigo junto com o CA Ribeiro Neto (que assina um microposfácio no Formas Veladas), o Pedro Gurgel e muitos outros amigos e amigas. Mas enfim, a Vanessa me incentiva a estar na internet, divulgando o meu trabalho como escritor e a colocar a cara no mundo. Também aprendo muito com a minha companheira, a Thay Petit, que é antropóloga e artista visual. A maioria dos aspectos visuais e audiovisuais que estão nas minhas redes são feitos por ela, ou tem muito da mão dela. Ela me convenceu de que eu preciso dar um jeito no visual das coisas que apresento. Antes eu batia o pé: sou escritor, vão ler o que escrevo. Sim, vão ler (esperança), mas preciso apresentar ao menos um negócio bonitinho, né. 5. E sobre o seu livro, como foi o processo de escrita do livro? Escrevi a maior parte dos poemas em 2020. Mas há poemas de 2019. Como te contei, escrevo poemas com certa frequência desde o final do ensino médio. Escrevi alguns livros de poesia que ficam na minha gaveta. Participo da Fazia Poesia. E por conta desses contatos, acabei fazendo algumas oficinas com a poeta Anna Clara de Vitto (ela escreveu a orelha de Formas Veladas). As oficinas dela foram empurrões para que eu criasse vergonha na cara e escrevesse mais um livro de poesia, mas um que dessa vez viesse ao mundo e fosse publicado. Então impulsionado pela oficina, ainda no início da pandemia, escrevi boa parte dos poemas. Reuni alguns de 2019 e editei para que tudo isso tivesse cara de livro. 6. Depois de escrito, qual foi a trajetória dele para chegar até a editora? Depois de tudo isso o livro recebeu a leitura sensível e crítica do CA Ribeiro Neto, ele me ajudou a pensar mais na unidade de Formas Veladas como um livro. Submeti para o concurso da Biblioteca Pública do Paraná. Aguardei o resultado, vi que não tinha rolado. Então editei o livro um pouco mais. Até que apareceu a chamada de originais da Editora Escaleras. Eu já tinha feito umas oficinas com a Débora Gil Pantaleão, a responsável pela editora. Sem contar que sou leitor mesmo de seu catálogo, acho que tem muita gente incrível, que não cito com medo de perder algum nome. Mas o catálogo de contos, poesias e agora romance, é impecável mesmo. Leiam Escaleras! Enfim. Enviei o meu original e ele foi aprovado. A Débora fez uma leitura também sensível, sugeriu umas alterações e fizemos. Agora o livro está em seus últimos dias de campanha no catarse, depois vai para a casa de quem comprar! 7. Você também é antropólogo, né? Lembro que o Paulo Leminski, que era faixa preta de judô, sempre dizia que - ao menos no caso dele - não dava para separar o atleta-artista marcial do poeta. Então eu te pergunto: é possível separar o antropólogo do poeta? Como esses dois campos se misturam e se conciliam em ti? Você separa ou junta uma da outra? Antes eu pensava que separava. Mas aí vi que não fazia muito sentido. Na verdade a pós-graduação acabou aniquilando um pouco do meu tesão pela literatura. Continuava lendo, mas escrevia pouco. Atualmente consigo conciliar um pouco melhor isso, mas continuo um caos. Não separo o antropólogo do poeta, nem o poeta do cronista, contista. Quando passo um café, sou eu que estou ali, passando o café. Eu que vou tomar o café, provavelmente. Então por que diabos não seria o antropólogo, poeta, contista, cronista, diabo a quatro, que estaria passando e tomando este café? Demorei para perceber isso, aí você pode perceber o quanto sou confuso e lento. 8. Hermes, você é nordestino, especificamente cearense. Mora no norte, especificamente o Pará, há muitos anos e atualmente estuda doutorado no Sul do país, na federal do Rio Grande do Sul. Partindo desse contexto queríamos te perguntar basicamente duas ou três coisas: Você tem a sensação de que muitos brasileiros desconhecem o próprio país? Ou em outro sentido, você percebe o privilégio que é ter essa vivência em várias regiões e realidades diferentes? Acho que é ainda mais privilégio ter essa vivência juntamente com esse conhecimento todo que você tem de antropologia onde a vivência prática e a reflexão teórica podem se misturar. E por fim, como você acha que isso contribui para sua poesia? A pergunta parece enorme, no entanto, no fundo, no fundo, o que queremos perguntar basicamente é uma pergunta-chave para outro antropólogo, Stuart Hall: Você consegue responder com facilidade àquela famosa pergunta: de onde você é? Quero te agradecer por essa pergunta. Sabe, eu gosto mesmo é do movimento. Mas nós nos movimentamos dentro de nós mesmos. Podemos viajar sem sair do lugar. De qualquer forma, me mover, simultaneamente, tanto de mim, quanto em espaço, caminhar por outras geografias, me é muito prazeroso. Sou um privilegiado por ter me deslocado para estudar. Na época estávamos nos governos do PT, todo aquele clima de que estudar vale a pena, que não eram mais só os ricos que poderiam estudar e até mesmo seguir carreira acadêmica. Viajei para vários estados do Brasil para apresentar meus trabalhos de antropologia, indo até mesmo para Santiago, no Chile e Posadas, Argentina. Tudo sendo financiado pelas universidades e instituições de fomento. Antes de entrar na faculdade, eu nunca tinha saído do Ceará praticamente. Só uma vez que fui de ônibus para Recife. Mas quem me fez sair de casa mesmo foi o ensino público e a ciência! Então sou um privilegiado por ter conseguido uma bolsa no mestrado, mesmo que tenha passado seis meses sem recursos, e por ter tido bolsa no doutorado. Sou privilegiado por ter estudado em universidades públicas, gratuitas e de qualidade, como a Universidade Estadual do Ceará, Universidade Federal do Pará, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E eu quero que cada vez mais pessoas possam passar por isso! Não podemos aceitar que o governo do nosso país seja contra a educação e a ciência. Que afirme que só os ricos podem acessar a universidade. Esses caras não podem vencer. Nem vão. Verdade é que meu movimento se deu junto com os bons ares da política pública universitária, junto com a minha vontade de conhecer mais do Brasil. Não é fácil aceitar esse tipo de vida movente. Agora tô com anseio de me fixar, conseguir me manter financeiramente, ajudar minha família de maneira mais efetiva. Mas não me arrependo. E bom. Eu posso dizer com exatidão de onde eu sou, nasci em Fortaleza e vivi nesta cidade até os meus 22 anos. Agora não sou só isso. A minha experiência em Belém e Ananindeua, no Pará, me marcou profundamente. Fui muito bem recebido aqui. Já a experiência no Sul, em Porto Alegre, foi mais de alteridade radical. Foi uma experiência bem interessante, mas não é a mesma de ter morado no Norte. No Norte acho que me misturei. Eu como as coisas daqui, falo expressões daqui. Isso sem deixar de ser cearense. Mas em Porto Alegre a história foi outra. Questão de afinidade espiritual, se podemos dizer assim. E também morei por menos tempo e sabia que era a experiência de cursar um doutorado. Quanto ao fato das pessoas não conhecerem o próprio país, acho que isso acontece mais por conta de nossa dimensão, da falta de incentivo e investimento em estudos básicos em geografia e a própria antropologia. Sem contar que o poder sudestino tende a ler o Brasil a partir do próprio umbigo, espalhando as suas mídias e atos como se fossem eles mesmas a expressão única e máxima do que se é Brasil. Mas nós no Norte e Nordeste sempre resistimos a tudo isso e não deixamos de contar nossas histórias e nos expressarmos desde a nossa experiência, mas sem dever nada a ninguém! 9. Quais suas principais influências na literatura, na antropologia e na vida? Isso de influência é difícil, pois me sinto influenciado por muita gente e seres. Não só no bom sentido. Portanto vou elencar nomes aleatórios e embaralhados: Manuel Bandeira, Gilka Machado, Hilda Hilst, Olga Savary, Cruz e Sousa, Kadu Carneiro, Lívio Barreto, Adélia Prado, Edson Carneiro, Bruno Menezes, Belchior, Luizinho Calixto, Zila Mamede e daí por diante. De contemporâneo a lista é mais infinita, leio muito meus amigos de editoras independentes. Mas vou citar os poetas do coletivo Fazia Poesia, muita gente me influencia ali, junto com o pessoal do Eufonia, atual Nós por Nós e o pessoal Escambanautas. Quem quiser apoiar o livro do Hermes no Catarse é só clicar aqui que enquanto a campanha estiver no ar o linque estará disponível!
























