• Rafael Torres

Maestro Bernard Haitink (1929-2021)

Essa semana, dia 21 de outubro de 2021, morreu um dos maiores regentes dos nossos tempos. O holandês Bernard Haitink. Nascido em Amsterdã, em 4 de março de 1929, ele muito cedo teve aulas de violino e regência com Felix Hupka, um professor local da Escola de Música de Amsterdã. Trabalhou como violinista em algumas orquestras e, entre 1954 e 1955 foi ter aulas com o grande regente alemão Ferdinand Leitner.

Bernard Haitink conducting
Bernard Haitink

Teve uma carreira meteórica, por assim dizer, ultrapassando seu professor em importância e produtividade. Em 1956 regeu pela primeira vez a Orquestra Real do Concertgebouw, de Amsterdã, substituindo num concerto o lendário Carlo Maria Giulini. Em 1959, com a morte de Edward van Beinum, ele se torna regente titular da orquestra, que já era considerada uma das mais refinadas e peculiares do mundo. Manteve o cargo de regente principal até 1988. Nesse longo período, comparado ao de Herbert von Karajan com a Filarmônica de Berlim, ele moldou o conjunto e o pôs no patamar mais alto: a Concertgebouw é frequentemente apontada como uma das 3 melhores do mundo.


E gravaram muito. Ele era especialista em Gustav Mahler, Anton Bruckner, Ludwig van Beethoven, Johannes Brahms e o inglês Ralph Vaughan Williams. Gravou integrais das sinfonias de cada um desses.


Regeu também a Filarmônica de Londres (1967-1979), a Orquestra do Covent Garden (a orquestra da ópera real britânica, entre 1987 e 2002), a Staatskapelle de Dresden (2002-2004), Sinfônica de Boston (principal regente convidado entre 1995 e 2004) e foi eleito membro honorário da Filarmônica de Berlim.


Para mim, o que define a musicalidade de Haitink é a inteligência, a completa falta de frescura (sabe aqueles regentes que regem os movimentos lentos beeeem lento? Pra comover? Ele não.) A orquestra com que mais é associado é a do Concertgebouw, não tem como.


Em 2019 anunciou que se aposentaria em setembro, e no dia 6, conduziu a Filarmônica de Viena, em Lucerna. Foi sua última aparição. Regeu o 4º Concerto para Piano de Beethoven (com Emanuel Ax ao piano) e a 7ª Sinfonia de Bruckner.


Em 2020 saiu uma caixa de luxo do seu último concerto com a Filarmônica de Berlim. Também era a 7ª de Bruckner.


Perdemos um dos maiores músicos do mundo, um homem que compreendia bem a linguagem musical dos mestres e que entendia todos os desdobramentos da arte de fazer soar uma orquestra.

Bernard Haitink
Bernard Haitink

Gravações Recomendadas


- Claude Debussy, com a Orquestra do Concertgebouw - Prelúde à l'Après-Midi d'un Faune, La Mer e Ibéria. Gravado em 1986 e 87, é um dos discos mais aclamados de Haitink. A orquestra soa excepcionalmente bem em música impressionista francesa. Eles tocam com calma e segurança, não tendo nada o que provar.


- Maurice Ravel, com a a Orquestra do Concertgebouw - Boléro, Rapsódia Espanhola, Daphnis et Chloé (Suíte Nº 2) e Pavane pour une Infante Dèfunte. O Boléro é rápido e virtuosístico. A versão de Ravel tem 17 minutos, e essa aqui tem menos de 15. Mas o Daphnis é excepcional, as cordas da orquestra dando um show e as madeiras fazendo toda a diferença. Detalhe, na Pavane, para a trompa, executada como se fosse a coisa mais fácil do mundo (na verdade, é dificílimo, por causa das frases longas, sem respiração). Foram gravados entre 1971 e 76.


- Johannes Brahms, com Claudio Arrau ao piano e a Orquestra do Concertgebouw - Concerto Nº 1 para Piano. Tão importante para a discografia de Arrau quanto para a de Haitink, essa gravação de 1969 do 1º concerto de Brahms é considerada definitiva. É uma preciosidade.


- Sergei Rachmaninoff, com Vladimir Ashkenazy ao piano e a Orquestra do Concertgebouw - Concertos para Piano Nº 2 e 4. Os dois ciclos de Rachmaninoff mais importantes de Ashkenazy são com a Sinfônica de Londres, sob André Previn e esse daqui, com a Concertgebouw e Haitink. Cada um tem seus momentos, mas nos concertos 2 e 4 acho que essa versão, de 1984, bate a outra.


- Richard Strauss, com Maximilian Hornung no violoncelo e a Orquestra da Rádio Bávara - Don Quixote. Acho essa gravação fenomenal. As dissonâncias tocadas sem um pingo de pudor pela orquestra Bávara, o violoncelo encantador, os andamentos. Tudo para fazer um dos Don Quixotes mais arrebatadores que já ouvi. De 2014.


- Anton Bruckner, com a Filarmônica de Berlim - Sinfonia Nº 7. US$ 675. Essa gravação vem com um livro de luxo, num lançamento de gala pelo selo da Filarmônica de Berlim, a última do maestro com o conjunto. É de 2020.



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