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Perfil: Yuja Wang - A Encantadora de Pianos

Por Rafael Torres


Nascida em Beijing, em 1987 e tendo estudado piano desde os 6 aninhos, mudou-se aos 14 para a América do Norte, onde se matriculou no Instituto Musical Curtis (Filadélfia). Lá, estudou com o grande pianista Gary Graffman.


É linda, carismática, talentosa, inspiradora, melhor que Lang Lang e uma pianista que quase toca a perfeição.




 

Yuja Wang


Yuja Wang (王羽佳)

Beijing, China

10 de fevereiro de 1987 (37 anos)


Brevíssima biografia


Yuja é de uma família de artistas: mãe, Zhai Jieming, dançarina; pai, Wang Jianguo, percussionista. A mãe começou a ensinar-lhe os rudimentos do piano quando ela tinha 6 aninhos. Mas a epifania musical da menina veio quando sua mãe, a fim de despertar-lhe o interesse pela dança, levou-a uma apresentação de "O Lago dos Cisnes" (música de Piotr Tchaikovsky que ganhou várias coreografias ao longo do tempo). Yuja percebeu que não gostava de dançar, mas ficou fascinada pela música.


Entre os 7 e os 14 anos teve apenas uma professora de piano, Ling Wan, no Conservatório Central de Música, na mesma Beijing. Segundo Yuja, mais do que uma tutoria, a professora lhe proporcionava uma convivência voltada à cultura, com visitas a museus, concertos... "Era como uma mentora", ela define com carinho.


Mas aos 14 anos, Yuja já dava sinais de que ao piano dedicaria todos os seus esforços e que queria se profissionalizar, de modo que, aos 15, ela debandou para o Canadá e, depois, os Estados Unidos. Precisamente, para Curtis Institute of Music, em Filadélfia. Mais precisamente ainda, para as mãos do professor e internacionalmente celebrado pianista concertista Gary Graffman (ainda vivo, mas olha... tem 95 anos), com quem se formou em cinco anos (em 2008) e que até hoje é só elogios à pequena aluna.


Sobre Graffman: gravou repertório solo e concertante, este com alguns dos maiores regentes do século XX! Como Charles Munch, Eugene Ormandy, George Szell e Leonard Bernstein. Escute um pouco da arte de Gary Graffman nesse disco que selecionei. Ou seja intrépido e digite no YouTube o nome dele!


Voltando à Yuja. Li em algum lugar que seu plano era ultrapassar Martha Argerich. Já vou dizendo, Martha não deve estar longe de se aposentar e Yuja pode, muito bem, ocupar seu trono. Mas, se o plano for esse mesmo, lhe falta algo para poder ser considerada a sucessora da Martha: sua técnica é fenomenal, mas a da Martha é mitológica; sua discografia é estrondosa, mas não tanto quanto a absoluta da Martha; e Yuja tem que afiar ainda mais seu pianismo. Só eu notei que, quando corre mais, ela erra demais? De maneira muito sutil, ela atropela algumas passagens e borra outras.


Veja o vídeo abaixo, de Martha Argerich tocando o Jeu D'eau, de Maurice Ravel. E repare na clareza.




Veja, abaixo, 6 finalizações impressionantes da Yuja de obras variadas - e, às vezes, a reação do público, que ela tem na palma da mão.


A Carreira de Yuja


Yuja se formou em 2008, certo? Eu lembro que por volta dessa época eu já escutava falar em seu nome. Meu irmão morava em São Paulo, na época, e, se não me engano, foi a um recital dela. (A propósito, dizemos ter ido a um recital quando a atração é um músico só, ou dois. Quando é um conjunto maior, mesmo que não inclua piano, chamamos de concerto. Você pode até ir a um concerto com orquestra e piano em que eles não toquem Concerto algum).


A ocasião em que seu nome se tornou internacionalmente conhecido foi a inclusão, em 2009, no YouTube, do vídeo de uma apresentação sua com o maestro Kurt Masur, tocando o Concerto em Sol Menor de Félix Mendelssohn, filmada no Festival Verbier, Suíça. Meu irmão jurava que Masur gritava com ela. Assim, como os músicos fazem quando querem deixar a marcação de tempo bem clara (mas bem clara, mesmo). Eu sempre achei que o grito fosse para a orquestra.


Se tiver ficado curioso, repare na marca de 1m49s. Ele dá um grito, claro. Mas Yuja está perfeitamente no tempo. O flautista é que me parece não estar conseguindo acompanhar o ritmo frenético.


Ouça também o Concerto para a Mão Esquerda, de Ravel, com Orchestra dell'Accademia Nazionale di Santa Cecilia, de Roma, junho 2016, sob a regência de Lionel Bringuier. Sim, o concerto é apenas para a mão esquerda. A direita fica relaxadinha, aí. E pronta para o iPad.


Muito bem, sobre o álbum. A massa viciada de críticos musicais saudosos do que faziam os músicos 50 anos atrás correu para sua maquininha de escrever, pronta para lançar suas pequenas e disfarçadas injeções de peçonha. Há críticos YouTubers, críticos de revistas virtuais importantíssimas, críticos de jornal, de blog, de bermuda, na sala de casa... Eles deixaram de perceber, ou de acreditar, na própria relevância.



Não que o álbum tenha sido desqualificado: a maior parte das críticas é sutilmente positiva. Algumas são francamente calorosas. Mas mesmo as positivas sempre têm uma leve e apurada pitada de pimenta. É algo que simplesmente não pode faltar, se o assunto for: dois músicos jovens não americanos (nem europeus). A gravação pode estar impecável, mas o jogo é mostrar que o crítico está acima. Ele é quem vai decidir se ficou bom. Isso vem por causa da baixa auto estima de grande parte deles. É simplesmente impossível encontrar um crítico que ainda se surpreenda com a técnica da Yuja. Mas a culpa disso não é dela, mas das décadas de gravações que temos (o próprio Rachmaninoff gravou essas peças, com a Orquestra de Filadélfia, regida ora por Leopold Stokowski, ora por Eugene Ormandy). Calma! Vou exemplificar, embora sem revelar o nome dos autores. Um trecho que sempre me chama a atenção é da seguinte categoria:


"Ela traz inflexões mais afiadas e uma palpável assertividade às variações mais suaves, embora a meditativa Variação 16 (ele está falando da Rapsódia Paganini) se arraste, enquanto na versão com Abbado, ele a mantém à tona. Mesmo assim, eu sinto falta de Wild/Horenstein e Graffman/Bernstein, com o lépido intercâmbio em estilo concertante entre pianista e regente de suas versões." (É, críticos adoram citar o máximo possível de gravações, para mostrar que têm repertório) (E sim, ele gosta mais de Earl Wild e Gary Graffman - o professor da Yuja porque, basicamente, tocam mais rápido).


Gente, Earl Wild e Jascha Horenstein gravaram a Rapsódia em 1977. Faz 46 anos! Gary Graffman e Leonard Bernstein a gravaram em 1964! 1964! Beatles! Não há problema algum gostar, admirar ou até idolatrar versões antigas. Algumas são mesmo imortais. O problema, o enorme problema, está em comparar as versões antigas com as novas nos moldes de uma das duas. O tempo cuidou de fazer com que os intérpretes atuais fossem moldados de outro jeito. Eles são da internet, do smartphone, do encontro às cegas do Tinder, são hiperativos, mesmo que tenham TDAH. Isso não os torna melhores ou piores intérpretes que um intelectual como Claudio Arrau e sua proverbial biblioteca cerebral. Mas muito muito diferentes.



Pois bem, o que acontece: antigamente as orquestras não eram tão boas quanto hoje; os regentes eram mais versáteis, sim (e menos especializados); e os pianistas, mesmo os melhores deles, não se comparavam tecnicamente aos maiores da nova geração. Para completar, o som gravado era infinitamente inferior ao de hoje, e isso impacta absurdamente na percepção que temos, tanto positivamente quanto negativamente. Mas não cheguei ao mais importante. Os parâmetros de interpretação mudam sem pudor com o passar dos anos. O que se fazia 30 anos atrás pode parecer brega para uma plateia atual, que já ouviu centenas de gravações e concertos com essas obras e as conhece de cor.


Os críticos ignoram gravações sofríveis de pianistas antigos, como Artur Rubinstein, Sviatoslav Richter. Lembro de uma vez em que simplesmente não aguentei escutar a 1ª Balada de Chopin tocada por Vladimir Horowitz porque era um desastre. Mas ponderei e concluí que, no passado, as expectativas eram outras. Veja mais essa, ainda sobre Wang/Dudamel:



"Wang gravou o Segundo Concerto para a DG, em 2011, com Claudio Abbado, então eu estava curioso para ver se algo havia mudado ao longo dessa década. O andamento do novo primeiro movimento está mais para lento, quando consideramos versões bem dosadas como Howard Shelley-Bryden Thomson ou Kirill Gerstein/Kirill Petrenko. Se um maior senso de fluidez é desejável, Wang e Dudamel compensam com um som volumoso e uma inegável presença."


"Mas é pelo vestido laranja de Yuja Wang que a terça-feira provavelmente será lembrada... Seu vestido de terça foi tão curto e apertado que, se fosse menor, a casa poderia ser forçada a restringir admissão de qualquer amante da música abaixo dos 18..."


Esse crítico acha que inovou. Tal qual um adolescente de 18 anos, fez seu artigo a respeito da minusculidade da roupa de uma mulher que não pôde se defender (nem deveria). Essa não devia sequer ser a questão. Mas tudo bem, a crítica foi muito criticada.



Caso em questão


O recentemente lançado álbum Sergei Rachmaninoff: Os 4 Concertos para Piano + Rapsódia Sobre um Tema de Paganini, interpretados pela pianista chinesa Yuja Wang e pelo regente venezuelano Gustavo Dudamel, que rege a Orquestra Filarmônica de Los Angeles. São gravações ao vivo em uma abarrotada Walt Disney Hall, a sala da Filarmônica. Mas não se percebe. Nem uma tosse, som de cadeira, nada, quase nada. E o melhor: os aplausos são editados, não se ouve uma palmazinha, um bravo, ao fim de um concerto...! Isso me agrada!


Leia sobre cada concerto nos links (não sobre estas gravações):



Trata-se do projeto mais ambicioso da carreira da talentosa pianista e um bom item no currículo do maestro venezuelano, que se despede da Filarmônica de Los Angeles (foi contratado pela Filarmônica de Nova Iorque) com um tremendo êxito.


Isso mesmo. A glória não é por igual. A pianista colhe a maior parte dos louros, mas isso não é arbitrário. É dela o maior trabalho, desde estudar loucamente as cinco peças, todas reconhecidamente dificílimas, montar a concepção e descobrir um jeito de transmiti-la ao público. O regente, se for competente, vai acompanhar cada curva, cada acelerada, cada susto que ela, rindo, furtivamente, largar. A orquestra é excepcional, fantástica, mas um concerto para piano não é feito para a orquestra brilhar, mesmo os de Sergei Rachmaninoff. Ainda assim temos vários momentos em que a orquestra trouxe o peso (ou a leveza) exato.


O dicionário não é muito generoso na seção de elogios desvairados. Pois bem, a supremamente talentosa Yuja Wang já havia gravado algumas dessas obras. O Concerto Nº 2 e a Rapsódia Sobre um Tema de Paganini, em 2011, com a Orquestra de Câmera Mahler regida por Claudio Abbado; e o Concerto Nº 3, em 2013, com a Orquestra Sinfônica Simón Bolivar e o próprio Gustavo Dudamel.


Na gravação com Claudio Abbado ela, ainda muito nova, acatou a concepção camerística, de som pequeno (mas encantadora) do maestro. Sobre a primeira gravação com Dudamel, vi em algum lugar que ela ficou insatisfeita com o piano que a ofereceram em Caracas. Acreditem, não é bobagem ou estrelismo. Essa ferramenta de trabalho é tão sensível que alguns pianistas preferem viajar com o seu. E, naturalmente, a Walt Disney Hall tinha vários pianos para que ela escolhesse.


A empreitada faz parte do projeto Rachmaninoff 150, da poderosa gravadora alemã Deutsche Grammophon (em alusão aos 150 anos que o compositor teria se vivo). As obras foram gravadas em dois finais de semana consecutivos, em fevereiro de 2023 e o disco duplo (ou o álbum digital ou, ainda, o LP triplo) foi lançado em 1º de setembro.


 

Alguns fatos sobre ela:


Veja sobre o concerto no Rio!


  • Já tocou no Brasil e sempre se queixou de sons indesejáveis vindos da plateia - da plateia, qualquer som é indesejado. Na última ocasião, em 14 de março de 2024, ela tocou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e, enfurecida com esses sons, chegou a levantar do piano e retirar-se do palco. Como uma tia do 4º ano ensinando bons modos às crianças;

  • É uma notória brigadora, quando o assunto é barulho na plateia e celular;

  • Fala tantos idiomas quantos são exigidos de um concertista internacional;

  • Especula-se que seu cachê seja em torno do 100.000 dólares por concerto;

  • Namorou com o regente finlandês Klaus Mäkelä, mas já terminaram;

  • Seus pais estão vivos e moram em Beijing;

  • Já falei que Yuja é infinitamente melhor que o Lang Lang?

  • Ela também rege;


Yuja Wang e Klaus Mäkelä.
Yuja Wang e Klaus Mäkelä.

Discografia sugerida


  • Sonatas & Etudes (2009) - O primeiro (ou segundo, pois há outro) disco de Yuja traz, no repertório, as Segundas Sonatas de Chopin e Scriabin e a Sonata em Si Menor de Liszt. Tem, ainda, 3 peças menores: 2 Estudos de Ligety e o famoso arranjo do pianista Arcadi Volodos de um Rondó à la Turca, de Mozart. Tudo tocado com precisão e expressão corretas.

  • Transformations (2012) - Mais um recital, o disco conta com duas peças grandes - 3 Movimentos de Petrushka, de Stravinsky e as Variações sobre um Tema de Paganini, de Brahms, entrecortados por peças menores - Sonatas de Scarlatti e uma adaptação para piano solo de "La Valse", de Maurice Ravel.

  • Brahms (2014) - as Sonatas para Violino e Piano - com Leonidas Kavakos ao violino - Kavakos deve ser o maior violinista vivo. Porque esse disco não é possível. Preenchido pelas 3 Sonatas para Violino de Brahms (+ 2 peças menores), dele você sai achando que é o disco perfeito.

  • Blue Houer - com o clarinetista Andreas Ottensamer - Um recital de piano e clarinete repleto de obras de Mendelssohn (várias Canções sem Palavras) e Carl Maria von Weber (Grand duo Concertant). O duo, mais o violoncelo de Gautier Capuçon, reaparece tocando um trio de Brahms no disco Rachmaninoff & Brahms, de 2022. Gautier é o violoncelista da nossa época, enquanto Ottensamer é o primeiro clarinetista da Filarmônica de Berlim.

  • Rachmaninoff (2023) - Os 4 Concertos para Piano + a Rapsódia Paganini - Com a Filarmônica de Los Angeles, regida por Gustavo Dudamel - Yuja está fantástica, aqui. A filarmônica e o maestro estão bem, mas ela está muito assertiva e incutiu em doses certas romantismo e modernismo (as 5 peças têm dissonâncias). Ela se preparou tanto, que chegou a gravar as obras, o com Claudio Abbado e o com o próprio Dudamel.




A presença de Yuja no YouTube é famosa. Abaixo, alguns desses momentos mais célebres. A famosa e dificílima Toccata, de Sergei Prokofiev:


O Prelúdio Op. 23 Nº 5, de Sergei Rachmaninoff:


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E muito bom dia!





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