top of page

Resultados da busca

362 resultados encontrados com uma busca vazia

  • A Mina da Roupa de Borracha #04

    Uma história em quadrinhos de Dona Dora. Dona Dora Nascida no Rio e criada na Ceilândia-DF, foi estudante de escolas públicas e formada em Artes Plásticas pela UnB - Universidade de Brasília. Em 2013, passou a produzir quadrinhos participando de eventos marginais ou feiras de coletivos de produção independente Zines. Desde então faz uns desenhos diferenciados, pinta quadros, faz quadrinhos e atualmente dá aula de Artes para o Ensino Médio. Curadoria de quadrinhos: Nílbio Thé e Isabelle Prado.

  • A monogamia é a forma cristã de amar.

    Em seu artigo sobre a interferência colonial das relações afetivo-sexuais de indígenas, Vania Moreira (2018) comenta que: "Em razão de ser o matrimônio monogâmico um dos sacramentos do catolicismo, a não monogamia impedia a conversão e o batismo dos adultos, comprometendo seriamente o sucesso da obra missionária. Pode-se mesmo afirmar que superar a não monogamia dos índios se tornou uma verdadeira obsessão dos missionários dedicados à evangelização. O combate à poligamia dos índios foi trabalho pastoral intenso e contínuo dos jesuítas no Brasil" A colonização não acabou, nem a cristianização, que é sua essência. A positivação das leis coloniais segue no vocabulário de muitas pessoas que defendem o jeito cristão de amar: monogamia, pra elas, significa amor, profundidade, cuidado, respeito etc. Não monogamia, associam à falta de controle sobre o corpo, a amores falsos, rasos e afins. É o mesmo repertório colonial atualizado. O padre José de Anchieta (1584-1586) em suas cartas comenta que nunca tinha presenciado nenhum indígena assassinando ou agredindo companheiras por adultério. Óbvio, não havia o pressuposto monogâmico. Há quem defenda monogamia saudável ou mesmo revolucionária, como se houvesse um jeito bom dela acontecer. Mas se é assim, se determinada relação não se pauta em posse, controle e cerceamento, porque chamá-la de monogamia? Não existe uma monogamia boa x uma prática ruim de seus preceitos, pois a própria moralidade é o que a organiza. Assim como não existe monogamia escolhida (escolhas só podemos fazer sobre nosso próprio corpo), também não existe não monogamia imposta (pois ela é uma reivindicação sobre si, não sobre o corpo alheio). Uma pessoa pode se relacionar com apenas uma pessoa e ser não mono, pois, repito: não monogamia é sobre não se autorizar a legislar desejos e afetos alheios. A autonomia afetivo-sexual é um direito (que deveria ser) intransferível. Algo ser combinado ou acordado não significa que é ético e não é ético combinar a terceirização da sua própria autonomia. Geni Núñez Ativista indígena. Psicóloga e amante do pensamento artesanal. Membro da articulação brasileira de indígenas psicólogos.

  • Reunião de Roteiro - Crepúsculo

    Compartilho um vídeo que legendei de um canal do YouTube chamado Screen Rant. É só entretenimento, tá, gente? No canal deles não tem legenda. Mas se gostarem corram lá. A situação é a de que um roteirista vai apresentar o roteiro ao produtor (o mesmo ator faz os dois). Quando você se acostuma, que tudo é irônico, você termina o vídeo pensando no tanto de furo que tem no roteiro do filme em questão. Começemos com Crepúsculo. Não esqueça de comentar. Não deixe de conferir nossas listas de: Top 10 Sinfonias Top 10 Concertos para Piano Top 10 Sonatas para Piano

  • O Que Aconteceu Antes da Foto ou a música que não foi

    Conversa no WhatsApp entre mim e o Nílbio. Nílbio - Eu vejo essa foto e lembro do que aconteceu antes e morro de rir!😂😂😂 Rafael - O que foi? Tu não sabe a história? Não. Tu lembra que o caetano e o chico tinham um programa de tv? Sim. Certo Aí um belo dia, aproveitando uma turnê do Piazzola no Brasil ele foi convidado pro programa deles Daí Chico chegou no ouvido do Caetano e disse Pega a visão, o Piazzola um tempo atrás me mandou uma melodia. E me pediu uma letra. Se liga, foi numa noite de bebedeira ali pelo café Tortoni, depois que chegamos de uma noitada lá no caminito da vez que fui lá. Ele talvez nem lembre. Eu mesmo só me toquei agora Continuo, Chico, estou estimulado com essa história, disse a caetano Então Caetano... Daí eu pensei no seguinte: eu bato um fio pro Piazzola lá no hotel e combino com ele. Faço a letra e daqui uma semana quando a gente for fazer o programa a letra vai tá pronta e a gente faz ela no programa. Inédita Puxa Chico... ontem eu me perguntava o que você pensava de mim. Se você gostava de mim e agora você fala essa coisa linda. Você é lindo, Chico. Você deu o furo do programa. Que furo lindo esse seu Aí Chico chegou em casa. Tomou um uísque com Marieta e bateu o telefone pro Piazzola Daí o Piazzola atendeu ¡Hermano Chico! ¡Me gusta muchissimo tu llamada! Daí o chico mandou a real e fez o hermano Astor lembrar a melodia Hermano Astor chega ficou de p... duro com a promessa que em uma semana teria uma parceria que abalaria o cone sul. Toda aquela latinidade Hermano Astor passou uma semana treinando a música enquanto irmão Chico teve um bloqueio criativo. Acontece que toda a mpb já tava sabendo desse rolê do mercosul da música pq num ensaio com os Doces Bárbaros o caê mandou a visão pra Gil, Bethania e Gal. Alguém falou pra Paulinho da Viola, Tim Maia que contou pro Nelson Motta de modo que rolou uma energia. Aí claro que alguém teve a ideia de chamar o Jobim pro programa para garantir o fornecimento de energia artística cósmica para o continente porque realmente era muita energia envolvida numa parceria Buarque-Piazzola. Daí ficou acertado que no programa ia ter o Caetano, o Chico e o Tom ciceroneando o hermano Astor como atração principal. Daí Que NO DIA DA GRAVAÇÃO o hermano chega com o bandoneon emocionado já tocando a melodia desde a entrada no prédio dos estúdios e dançando uns passos de tango. E o no camarim o zói de bila chega no hermano e diz "não deu". Acontece que o hermano era a condensação da latinidade. E já abalado pela perda das Maldivas para a Inglaterra ele não contou pipoca e partiu pra cima do Chico. TÁ ACHANDO QUE EU SOU O BOB MARLEY, CAR()$HO!? PAZ E AMOR? NEM FUTEBOL EU JOGO. MEU DESPORTO É O BOXE! EU VOU JOGAR ESSES OLHO VERDE NO MAR, SEU C&*ÃO (claro que tudo isso em espanhol) E partiu pra cima Tom Jobim que apartou os ânimos culturais do cone sul , provavelmente contou alguma história da Violeta Parra ou da Mercedes Sosa ou ainda um grane segredo de Frank Sinatra e aí todo mundo se acalmou e foi na hora que - provavelmente o Nelson Motta chegou e - bateram essa foto que eu não sei quem tirou, mas como disse: não duvido do Nelson. Rafael - Achei fofa a maneira fragmentada e espetacular com que tu contou a história.

  • Filarmônica de Berlim - As Melhores Orquestras do Mundo 1

    Vou falar um pouco sobre cada orquestra dessa lista. E outras. Conhecer uma orquestra é como conhecer um sotaque. Seu som é tão próprio que, às vezes, dá pra identificar. Os especialistas identificam qual orquestra está tocando em poucos segundos. Eu não vou tão longe: identifico se é inglesa, russa, americana, germânica... Mas não foi planejado. Foi consequência de escutar muita música. E tem certas orquestras que dá mesmo pra destacar várias características e, a partir destas, ir afunilando as possibilidades até que você tenha certeza de qual está tocando. É o caso da primeira dessa série, a Orquestra Filarmônica de Berlim. A Alemanha tem tantas orquestras fantásticas (só em Berlim, eu lembro de 4) que é uma proeza uma delas ser considerada a maior. A BPO (Berliner Philharmoniker) consegue ser a orquestra mais famosa e, em muitos aspectos, a melhor do mundo. Começa com o orçamento: um músico dela ganha, em média 9 mil euros por mês só de salário. Ganham ainda comissões por gravação e por seus trabalhos como cameristas - a orquestra incentiva que seus músicos façam música de câmara. Isso faz com que cada vaga seja disputadíssima e que cada músico contratado seja de absoluta competência. Músicos de destaque Veja o exemplo de três solistas. Daishin Kaishimoto, um jovem violinista japonês, que é simplesmente o spalla (principal violino) da orquestra, já gravou como solista (em concertos para violino, existe um violinista principal, que fica em pé, além dos pra lá de 20 violinos normais da orquestra). Ou seja, quando não está sendo o spalla da maior orquestra do mundo, está sendo solista. Gravou o concerto de Brahms com Myunh-Whun Chung e a Staatskapelle de Dresden (outra orquestra fenomenal) e tem um contrato com a Sony. Emmanuel Pahud, flautista suíço que faz sucesso desde os anos 90, é uma das estrelas da BPO. Chegou a abandoná-la nos anos 2000, mas voltou e é o primeiro flautista do conjunto. Pahud tem uma relação muito boa com a Orquestra Sinfônica Estadual de São Paulo, tendo sido artista residente na década que graças a deus se passou. Além de ter vários discos gravados e ser um dos flautistas vivos de maior reputação. Andreas Ottensamer, este muito jovem (31), é o primeiro clarinetista da orquestra. É uma das estrelas da vez. Seu pai, Ernst, teve o mesmo cargo na Filarmônica de Viena, que hoje é ocupado por seu irmão Daniel. Tem gravado profusamente, lançando discos com Yuja Wang e como solista na própria BPO. Maestros Os maestros são um capítulo. Entre 1882 e 1922, seus regentes principais foram Ludwig von Brenner (1882–1887), Hans von Bülow (1887–1893), Richard Strauss (o compositor) (1894–1895) e Arthur Nikisch (1895-1922). Um começo extraordinário, com ênfase em Nikisch, que trabalhou com ela por mais de 2 décadas e era considerado o maior regente de então. Mas eis que assume Wilhelm Furtwängler (1922-1945). Ele dirigiu a orquestra no começo da era das gravações e nos deixou várias, que são consideradas um tesouro. Furtwängler era um maestro altamente idiossincrático, falava pouco nos ensaios, regia lento e sem precisão, tomava várias liberdades com a partitura, especialmente no que diz respeito aos andamentos; mas tirava um som único. É do tipo que ou você ama ou detesta. Logo depois dele, Sergiu Celibidache regeu a orquestra por 7 anos até que Furtwängler voltou por mais duas temporadas, terminando em 1954. Agora vejam, de 1954 até 1989, a orquestra só teve um regente. Ninguém menos que Herbert von Karajan. Ele assumiu a orquestra jovem e só saiu porque morreu. A Era Karajan é marcada pelas seguintes características. A sonoridade, a afinação, o equilíbrio (entre sopros e cordas) eram perfeitos. Perfeitos como nunca um regente havia feito. Isso tinha um custo. Alguns críticos acusavam (e eu, mesmo fã de Karajan, concordo) a orquestra de só ter um som. Pouca variedade, pouco colorido. Sonoridade engessada. Essa sonoridade funcionava muito bem, na minha opinião, em Beethoven e Brahms. Nos românticos em geral. Quando chegava no impressionismo, realmente faltava um pouco de fluidez. Mas isso é ínfimo, não quer dizer que eles tocavam mal Debussy. Apenas eram mais adequados à produção de um som mais duro. Eles gravaram, no tempo de Karajan, praticamente tudo que se tinha pra gravar. Gravavam, por exemplo, as sinfonias de Beethoven nos anos 60, daí nos anos 70 a tecnologia mudava e eles gravavam de novo. E de novo nos anos 80 para CD. Ele era famoso como um pop star. E vendia como um. Outra sacada de mestre foi o VHS. Eles eram a orquestra mais filmada, sem dúvida. E lançavam as fitas, e depois, DVDs. Aí a gente ia se familiarizando com os músicos e com o maestro. Depois mudariam de estratégia, mas eu falo disso mais pra frente. Mas eis que ele morre e fica aquele grande mistério: quem os músicos vão escolher para ser seu próximo regente? Daniel Barenboim, o famosão, era cotado. Assim como Ricardo Muti, o galã. Parecia a espera do anúncio do papa. E eles acabaram elegendo o discreto Claudio Abbado, com uma certa surpresa geral. Abbado tinha feito importantes gravações sinfônicas, tinha trabalhado com a Sinfônica de Chicago, a Sinfônica de Londres, a Filarmônica de Viena. Tinha afinidade com um repertório vastíssimo, que ia desde a música barroca até a contemporânea. Então foi ele, nos anos 90, que se encarregou de mudar no que Karajan tinha falhado, mas mantendo o que ele conquistara - era a orquestra mais famosa do mundo não por acaso. E ele trouxe muita música nova, como a de seu amigo, compositor Luigi Nono. Claudio Abbado deixou a orquestra no fim do seu contrato, em 2002. Lutava à época com um câncer. Em 2004 voltou a regê-la como convidado. Morreria em 2014. Pois o seu titular pelos anos 2000-2010 seria, surpreendentemente, o inglês Simon Rattle. Rattle é mais um acontecimento do que um regente. Não que ele não seja musicalmente bom. É competente. Mas onde ele chega, ele muda as coisas. Tinha trabalhado antes na Sinfônica de Birmingham e transformado-a em uma orquestra de alto nível, construindo uma sala de concerto de respeito. Em Berlim ele fez performances dramáticas de oratórios de Bach (dramáticas, mesmo, com atores), trazia música moderna, levou a orquestra em uma turnê asiática. E nessa época eles resolveram fazer um app. Sei que você releu, mas é um app, mesmo. Falo mais abaixo. Pois bem. Em 2019 eles anunciaram que começariam a trabalhar com um novo regente. O eleito foi Kirill Petrenko. Um regente ainda jovem, com uma discografia pequena. Com a pandemia, ainda não dá pra avaliar nada de como a orquestra se comporta com ele. Mas, sem dúvida, é um talento. Digital Concert Hall Em 2008, eles lançam o Digital Concert Hall, que basicamente é a Netflix da BPO. Você assina, baixa o app e pode assistir a milhares de concertos e documentários. E pode assistir aos concertos que estão acontecendo, ao vivo (que, depois, são adicionados à biblioteca). Além disso, eles disponibilizam os famosos vídeos da orquestra da época de Karajan e de Abbado. Já notou como é difícil ver vídeos de obras completas da orquestra no YouTube? Estão todos no app. A Philharmonie Toda orquestra de peso tem uma casa de concertos à altura. A Philharmonie, inaugurada em 1963, tem 2 salas: a maior, onde a orquestra se apresenta, acolhe 2.440 pessoas; a menor, dedicada à música de câmara, 1.180. Anteriormente a Filarmônica tocava na velha Philharmonie, que foi destruída na guerra. E aí está o perfil da "Maior Orquestra do Mundo". Pra ficar claro: a BPO, a Filarmônica de Viena e a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã costumam alternar, ano a ano, as três primeiras posições nesse quesito. Comente o que achou. Já experimentou o aplicativo? Gravações Importantes - Ludwig van Beethoven - Sinfonia Nº 6 "Pastoral" /Carl Maria von Weber - Abertura Der Freischutz / Maurice Ravel - Suíte Nº 2 de Daphnis et Chloé - regente: Wilhelm Furtwängler - uma gravação de um concerto de 1944, simplesmente sublime. Dapnhis et Chloé elétrica, Pastoral plácida e Freischutsz preciso. Lembre-se que as gravações ao vivo de Furtwängler na guerra, em Berlim, eram super carregadas. As pessoas choravam e se emocionavam muito. - Ludwig van Beethoven - As Sinfonias e Aberturas - regente: André Cluytens - atenção às aberturas. Também à 5ª Sinfonia, da qual ele tira muita energia e à 6ª, que parece outra orquestra. - Ludwig van Beethoven - As Sinfonias - regente: Herbert von Karajan (anos 80, que tem um som melhor que as gravações das décadas anteriores e igual valor artístico) - atenção às sinfonias Nº 3 e 5. - Gustav Mahler - Sinfonia Nº 7 - regente: Claudio Abbado - das gravações de Abbado, pelo menos com a BPO, esta é a que mais me cativa, mesmo não gostando muito de Mahler. Mas é difícil escolher, ele me agrada em tudo. - Franz Liszt - Concertos para Piano Nos. 1 e 2 / Sergei Rachmaninoff - Concerto para Piano Nº 2 - regente: Leopold Ludwig, pianista: Andor Foldes - três gravações maravilhosas desse pianista que precisa ser mais apreciado. - Pyotr Tchaikovsky - Sinfonia Nº 6 "Pathétique" - regente: Kirill Petrenko - belamente tocado e regido como quem ainda está tateando sua nova orquestra, o disco mostra uma das melhores gravações de Tchaikovsky por um regente russo. A Filarmônica está surpreendente.

  • Música Calada - A Arte de Federico Mompou

    Claude Achille Debussy, o grande compositor francês da virada do século XIX para o XX, talvez tenha sido o compositor mais influente de sua geração. Até mais que Stravinsky e Schoenberg. Porque seu estilo não ditava regras, ele removia regras. Ele mesmo foi influenciado por outros, obviamente. Especialmente por Erik Satie, um compositor estranho. Devia vir junto com o nome dele: Eric Satie, um compositor estranho. O que Eric tinha era uma escrita esparsa, como manteiga espalhada sobre muito pão (referência nerd)... O que não significa que não tivesse densidade. Você só tinha que esperar mais pra ver essa densidade. Mas depois eu falo sobre Satie. Debussy herdou muito das texturas dele (ambos escreveram muita música para piano, e é a ele que me refiro aqui). Os acordes eram tonais, ou seja, tinham nome, mas eram carregados de dissonâncias "agradáveis". A forma final do impressionismo musical foi dada por Debussy. Ele detestava esse termo, mas não tinha como fugir dele. Sua música era mais uma sucessão de sensações do que uma narrativa clara. Heitor Villa-Lobos teve sua fase emulando o impressionismo. Obras como "A Prole do Bebê", livros 1 e 2, são repletas de atmosferas fantásticas e pianismo quase orquestral, em suas cores. O compositor Federico Mompou (1893-1987) foi muitas vezes chamado de Debussy catalão. Não sei se ele gostava, mas ele também não tinha como fugir do epíteto. Sua obra para piano é delicada, meio mística e muito charmosa. Morou na juventude em Paris, onde conviveu com Debussy, Ravel e Satie. Na II Guerra, voltou a Barcelona. Vim falar da sua Musica Callada, uma série de 28 preludiozinhos para piano composta entre 1959 e 1967. O que seria uma música silenciosa? Bom, começando a ouvir, já se tem uma ideia. Ela tem notas, mas parece se valer do silêncio entre elas de maneira mais assertiva. Parece que a música tem um segredo. Não que seja um segredo musical, mas a personalidade dela é como a de alguém que tem um segredo. Por falar nisso, algumas têm codigozinhos musicais, mesmo. Uma melodia da qual, se você tirar algumas notas, faz inesperado sentido tonal, por exemplo. Aliás isso é recorrente nas peças: ele às vezes escreve um simples arpejo e enxerta 2 notinhas dissonantes que fazem toda a diferença. O título ele retirou de um poema de San Juan de la Cruz: La noche sosegada En par de los levantes de la aurora, la música callada. La soledad sonora la cena que recrea y enamora O poema, que é enorme (isso é um trecho), fala sobre a necessidade de encontrarmos a nossa música interna, que emana do silêncio. Mompou foi gravado por grandes pianistas, como Guiomar Novaes, Alicia de Larrocha, mais recentemente, Arcadi Volodos, Daniil Trifonov e Stephen Hough. Mas existe uma gravação que não tem preço (aliás, acho que tem), que é do próprio compositor tocando os 4 livros de sua Musica Callada. Vou deixar o link do Spotify. Escutem e divirtam-se. https://open.spotify.com/album/0afR50oLPpYbh8MsCUJYpr?si=UpM_g8EGRgqsybiquil7yA

  • Música: Nada - para Camila Pitanga e Domingos Montagner

    Pensei em compartilhar com vocês essa música que eu fiz em que o eu lírico é a Camila Pitanga, falando ao Domingos Montagner. Não vou contar a história porque todo mundo conhece e eu não tenho nada a acrescentar. Só Nada. Por favor, entendam que a gravação foi feita aqui em casa, gravei todos os instrumentos e as vozes, então a qualidade não é das melhores. Nada Eu, tu e o rio, nada Pois ninguém viu nada Vem devagar, nada Meu coração Nada Eu tão fascinada Eu, que de danada Não pressenti nada Vem, por tudo Nada Minha história é só mais uma No São Francisco rabiscada Foi a nossa novela Mas sei que o rio não me deve Nada Pelo amor de nada Água amotinada Desafortunada Só te peço Nada Era maravilhoso nós dois No São Francisco à toa Mas naquela hora nunca Desejei tanto ver canoa Pude fazer nada Vida ali é nada No fim da jornada Pela água Nada Até hoje Nada No meu peito... 15.12.2020 Veja a música que eu fiz para a minha filha, Beatriz - Choro Dela

  • Top 10 Discos de Tom Jobim

    A discografia de Tom Jobim é relativamente pequena. Alguns de seus melhores discos ele fez com a Banda Nova, um conjunto que ele montou e que constava com Danilo Caymmi (flauta e voz), Paulo Jobim (violão), Jaques Morelembaum (violoncelo e alguns arranjos), um grupo de vozes femininas, bateria e baixo. Ele ao piano e cantando a maior parte das músicas. A voz de Tom Jobim tem duas características, pra mim. Não era muito boa, tecnicamente e timbristicamente, mas ao mesmo tempo, era aconchegante. Lembrava muito meu avô cantando bossas quando eu era criança. Então talvez só eu goste dela. Ou outras pessoas com experiências semelhantes. Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim era natural do Rio de Janeiro. Cidadão do mundo, acho que ele cunhou esse termo aqui no Brasil. Foi o compositor brasileiro de maior sucesso no exterior até hoje. Foi gravado por todos os jazzistas. Ella Fitzgerald, Frank Sinatra e Diana Krall fizeram discos inteiros dedicados à sua obra. Criou, junto com João Gilberto, a bossa nova, que era mais do que um ritmo, era um jeito de cantar, de tocar violão, de fazer a bateria, de compor, fazer letra etc. Tom faleceu em 1994 de câncer, doença contra a qual muito lutou. A Banda Nova, ativa por 10 anos, se dissolveu então. Aos discos. Atenção, dei prioridade aos de estúdio em que ele toca principalmente músicas suas. 10. Terra Brasilis (1980) O problema de visitar a discografia de Tom é que ele não gravou as músicas de maneira linear. Canções compostas pra aquele álbum. Pelo menos não necessariamente. O disco duplo Terra Brasilis, por exemplo, abre com a versão em inglês de Vivo Sonhando, que é Dreamer, bem anterior a ele. Guardem essa informação, porque vai ser importante: ele não compunha álbuns, mas gravava o que lhe dava na telha. Continuando, temos a linda Canta, Canta Mais, dele e do Vinícius, outra bem antiga, e que ele gravaria com mais autoridade mais tarde. Olha, Maria é parceria tripla de Tom, Chico Buarque e Vinícius de Moraes. Chico havia gravado em seu disco Construção, de 1971. Aqui, Tom grava só instrumental, o que eu acho que funciona perfeitamente, porque mesmo desprovida de sua letra monumental, a música é absurda. Temos várias regravações, como Samba de Uma Nota Só, Dindi, Quiet Nights of Quiet Stars (Corcovado), Desafinado, Wave. Tudo muito bom. Esse disco é perfeitamente bom. Não é super profundo, mas é absolutamente agradável! 9. O Tempo e o Vento (1985) O disco da trilha sonora da série da Globo, baseada na série dos meus livros favoritos, O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, uma saga gaúcha. Ele nos trouxe como tema principal Passarim, uma das músicas mais charmosas do Tom e que, depois, daria origem a um álbum inteiro. Tem músicas instrumentais e muitas das faixas não são cantadas por ele, por exemplo, Rodrigo, Meu Capitão e Senhora Dona Bibiana, cantadas por Zé Renato. Mas é um disco de climas, é um daqueles que você escuta sempre do começo ao fim. 8. Matita Perê (1973) Tom Jobim se interessava muito pela mata, pelos passarinhos e pelo folclore brasileiros. Esse disco, que abre com Águas de Março, tem muito da alma brasileira. Pra ficar claro, não é o Jobim americano de que tantos tanto reclamaram. É o Tom saudoso, quase uma versão popular do Villa-Lobos. Não que o disco seja extremamente nacionalista, mas é um dos primeiros discos em que ele canta sobre os próprios interesses. Ele levaria a brasilidade a extremos num disco que veremos mais à frente. Matita Perê tem a belíssima Ana Luiza, que eu acho que deveria ser tão popular quanto Lígia. A faixa título, composta com letra de Paulo César Pinheiro, tem mais de 7 minutos, fazendo longas jornadas tonais. É uma das músicas mais impressionantes do maestro. O disco tem poucas e longas faixas, o que o torna mais interessante para nós músicos, talvez. 7. Inédito (1995) Esse disco tem um nome irônico, já que não apresenta uma única melodia que já não tivesse sido gravada antes. Ele foi gravado sob patrocínio de uma empresa (aquela que não devemos nomear), em 1987, que queria fazer um apanhado da carreira do compositor. Só em 1995 ele foi lançado para o público em geral. Tom dizia que foi o disco em que ele mais se divertiu ao gravar. É todo com sua banda, muito entrosada, nada de convidados ("chega de convidados" ou algo assim). E gravado em casa. Temos Wave, Desafinado, Garota de Ipanema (muito bom arranjo), Retrato em Branco e Preto, Sabiá, Samba do Avião, Estrada do Sol, Águas de Março e muitas outras em arranjos camerísticos (temos algumas poucas cordas) que funcionam muito bem. Eu cresci ouvindo esse disco, lançado quando eu tinha 14 anos, daí meu favoritismo. Danilo Caymmi canta lindamente a Modinha de Villa-Lobos. 6. Passarim (1987) Passarim parece inaugurar essa nova fase do Tom. A fase à qual pertencem o disco anterior da lista e Brasileiro. O Tempo e o Vento já nos tinha apresentado a faixa título, mas aqui ele mostra a forma final dela. Bebel é mais uma canção derramada e linda sobre um personagem feminino. Anos Dourados tem a participação do seu co-autor Chico Buarque, amo essa canção como, de fato, todas as dessa parceria. Luiza, a canção ideal, aparece com uma tonelada de reverb, coisa dos anos 80. Mas está linda. Temos ainda Borseguim, Gabriela, uma interpretação maravilhosa de Fascinatin' Rhythm, de George e Ira Gershwin... É um disco maravilhoso nessa nova era com arranjos menos monumentais e Villa-Lôbicos, tendendo mais a valorizar a banda, seus cantores e suas cantoras. 5. Urubu (1976) Esse é o disco nacionalista do Tom Jobim. A começar pelo berimbau que abre o disco na canção O Boto. A orquestra parece querer tomar o campo, às vezes, com a eloquência, agora sim, de Villa-Lobos. Não são cordas discretas como nos seus discos futuros, mas madeiras e metais tocando elementos rítmicos que são concebidos como parte das canções. São os arranjos sensacionais de Claus Ogerman. Lígia é, como sabemos, uma das mais belas melodias do Tom, assim como é Ângela. Correnteza tem um lindo arranjo, pra variar. Saudade do Brasil é uma música que podia ser do Villa. Sinfonicamente linda, ela parece que fala de ter saudade de uma coisa em que você está, não como se ele estivesse fora do Brasil cantando sua saudade, mas dentro. 4. Edu & Tom/Tom & Edu (1981) Esse é o disco que eu menos escuto dentre os dessa lista. O que não significa que eu não conheça sua importância e sua qualidade. Apenas não costumo ouvir muito. Mas tem uma maravilhosa Pra Dizer Adeus, de Edu Lobo e Torquato Neto; uma agradável Chovendo na Roseira; a gravação definitiva de Vento Bravo; tem ainda Ângela, Luiza, Canto Triste etc. O disco é mais cantado pelo Edu, com Tom fazendo aquelas suas típicas intervenções. É obrigatório, porque aqui se juntaram dois gênios compositores tocando suas maravilhosas canções. 3. Elis & Tom (1974) Elis & Tom é um álbum feliz. Feliz e triste. Porque ela sabia cantar as duas coisas como ninguém. E aqui ela está cantando o maior compositor do nosso tempo. Os arranjos tinham tudo pra ficar datados, mas não aconteceu isso. O disco é bem atemporal. Além da antológica interpretação de ambos de Águas de Março, temos gravações imortais de Por Toda a Minha Vida, de Pois É (muito difícil de cantar, com uma harmonia magistral), Só Tinha Que Ser Com Você, O Que Tinha Que Ser e muitas outras. 2. Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim (1967) Frank Sinatra era o homem que tinha mais facilidade em cantar na música americana de sua geração. Ele não costumava dedicar álbuns inteiros a um compositor, mas abriu uma exceção para o Tom. Tá certo que o disco contém umas músicas que não eram dele, mas são poucas. Os dois estão à vontade. Ou o Tom pelo menos parece (já li que ele estava nervoso à beça). Garota de Ipanema, Dindi, Quiet Nights of Quiet Stars, How Insensitive, e Once I Loved estão impecáveis na voz do Sinatra. Tom toca violão no disco, coisa que ele gostava de evitar, preferindo o piano. Achava muito latin lover a imagem de um brasileiro tocando violão. 1. Brasileiro (1994) Esse é o disco. Maravilhoso da cabeça aos pés. Tá, tenho que confessar que não gosto de três músicas. São elas Maracangalha, Maricotinha (ambas de Dorival Caymmi) e Pato Preto. Mas tem muita coisa maravilhosa. Insensatez com Sting! Querida! As instrumentais Surfboard, Meu Amigo Radamés e Radamés y Pelé. Sensacionais! Ainda tem uma tradução para inglês e interpretação de O Trem Azul, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, uma fantástica Chora Coração e o lindo Samba de Maria Luiza. Dentre os discos de Tom Jobim, é o que soa mais refrescante e moderno. Não à toa. Foi o último que lançou em vida. Depois teria o póstumo Inédito, de que já falei, mas pode-se dizer que esse álbum encerra de maneira maravilhosa a discografia do maior compositor de canções brasileiro dos nossos tempos. Também fecha o arco de personagem do Jobim: por fim ele nos traz um álbum conciso, pensado como uma obra só. Façamos algumas menções honrosas e justifiquemos suas ausências. Getz/Gilberto - veremos numa futura análise discográfica de João Gilberto. Esse eu não incluí porque a participação do Tom, ainda que considerável, não lhe confere autoridade sobre o álbum. Miucha & Antônio Carlos Jobim - excelente disco, só que tem poucas músicas do Tom. Jobim Sinfônico - disco da OSESP com obras orquestrais do Tom, é espetacular, mas foi feito bem depois de sua morte. Não acho que seja um disco dele. A Certain Mr. Jobim - se esse fosse um TOP 11, ele entrava. É um belo disco.

  • Ave Rara - Argonautas e Marco Forte Interpretam Edu Lobo

    Mais uma do nosso disco Argonautas Interpretam Edu Lobo. Você pode escutá-lo completo aqui. Dessa vez chamamos o super cantor cearense Marco Forte para a voz. Marco Forte voz Rafael Torres violão e arranjo Ayrton Pessoa piano Ednar Pinho baixo Luiz Orsano percussão Ave Rara (Edu Lobo e Aldir Blanc) Minha vida peregrina Vai em busca de você Como se eu fosse um malê E você fosse a revelação Do poente vem teu canto Ave rara do islã Quem é pedra como eu sou Bebe a água do amanhã Ah! Tanta sede é meu destino Esse amor é beduíno E oásis teu lençol Mas, sempre no fim da viagem Você volta a ser miragem Areia e Sol Deixe seu comentário e veja as outras músicas do disco! Meia-Noite Opereta de Casamento A Moça do Sonho A Permuta dos Santos

  • Top 10 das melhores faixas de rock brasileiro: os anos 80!

    Nossa viagem pelo rock brasileiro continua chegando aos anos 80, época considerada por muitas pessoas como a era de ouro do rock nacional com a explosão do pós-punk / new wave em São Paulo em Brasília e também o surgimento de bandas descontraídas e cheias de deboche (e por que não dizer desbunde também) além de da entrada no circuito fonográfico e radiofônico de bandas de outras cidades fora do eixo já conhecido Rio - São Paulo, como Porto Alegre. 10 – Até Quando Esperar (Plebe Rude) – Punk rock brasileiro na sua origem. Mais uma banda de Brasília que desponta e abre caminho para uma consciência mais politizada do gênero. 9 – Rebelde Sem Causa (Ultraje a Rigor) – Sarcástico e bem humorado ganhou rapidamente espaço. Letras bem escritas e harmonias eletrizantes tomaram de assalto as rádios do Brasil. 8 – Weekend (Blitz) – Filhote do funk rock e do que muitos chamam de "world music" abocanhou o público de todas as gerações e marcou um período do pop criativo, teatral e talentoso. 7 – Decadance Avec Elegance (Lobão) – Genial e instável. Lobão começou como baterista da Blitz e acabou ganhando a carreira solo e se consolidando como uma das vozes mais atuantes do rock até hoje. 6 – Ando Só (Engenheiros do Hawaii) – Fora do eixo Rio-São Paulo, os gaúchos abriram caminho para outras bandas talentosas do sul como o Nenhum de Nós. Gessinger é completo! Um dos maiores letristas do rock brasileiro de todos os tempos, também é multi-instrumentista e o vocalista inconfundível desse super grupo que na verdade é ele. 5 – Fullgás (Marina) – Irmã do poeta Antônio Cícero, escreveu em parceria as letras mais profundas do rock nacional. Suas músicas tem além de poesia, uma completude instrumental que ora é sentida por um baixo pulsante, ora por um solo de guitarra desconcertante. 4 – Caleidoscópio (Paralamas do Sucesso) – Esse power trio é o mais completo da história do rock nacional. Guitarra, baixo e bateria impecáveis! Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone. 3 – Sete Cidades (Legião Urbana) – Renato Russo é o maior líder do rock nacional. A sua liderança ultrapassou a fronteira da Legião Urbana e tomou conta de toda as gerações que se seguiram até a sua morte. 2 – Por Que a Gente é Assim (Barão Vermelho) – Cazuza e Frejat mudaram a trajetória do rock nacional. Nunca o blues fez tanto sentido no Brasil. Nunca o blues teve letras tão bem trabalhadas e poesias magnificas. Até então! 1 – O que (Titãs) – Super banda de tamanho e de talento. Eram tantos seus lideres que ao longo dos anos foi se desmontando e mesmo assim, sobreviveu. Original, utópica e punk. Arte e agonia! Gostou? Semana que em a viagem continua! Se você gosta mesmo dos anos 80 tem um artigo sobre rock russo com uma ótima banda dos anos 80: a Kino! E além disso temos uma lista também do Rodrigo Vargas com o melhor do rock gringo dos anos 80 aqui! RODRIGO VARGAS é do mundo. Nasceu em Goiânia, cresceu em Brasília, estudou em Londres e está cearense. Jornalista e psicólogo, teve bandas de rock e atuou como VJ na televisão. Foi apresentador e editor de cultura da afiliada à rede Globo no Ceará. O resto é história!

  • Argonautas e Mônica Salmaso - Biscate

    Encontro maravilhoso dos Argonautas com a Mônica Salmaso. De todas as músicas do repertório para o show no Teatro RioMar Fortaleza, em 2018, essa foi talvez a única que eu sugeri. Ela adorou. Disse que nunca tinha cantado Biscate antes. Composta por Chico Buarque e cantada por ele e Gal Costa no disco Paratodos, de 1993, essa música é um achado. Pra mim é um exemplo fantástico de contraponto na música popular. Porque no final as duas melodias - ele e ela - se juntam e dá bem certinho. Eu nunca tinha cantado em pé. Mas faz sentido. Como disse o Nílbio, é um ato de gentileza se levantar para a dama das damas. Mônica Salmaso - voz e percussão Rafael Torres - voz Ayrton Pessoa - violão Ednar Pinho - baixo Igor Ribeiro - bateria Biscate (Chico Buarque) Vivo de biscate e queres que eu te sustente Se eu ganhar algum vendendo mate Dou-te uns badulaques de repente Andas de pareô, eu sigo inadimplente Chamo você pra sambar Levo você pra benzer Fui pegar uma cor na praia E só faltou me bater, é Basta ver um rabo de saia Pro bobo se derreter Vives na gandaia e esperas que eu te respeite Quem que te mandou tomar conhaque Com o tíquete que te dei pro leite Quieta que eu quero ouvir Flamengo e River Plate Faço lelê de fubá Faço pitu no dendê Sirvo seu pitéu na cama E nada dele comer, ai Telefone, é voz de dama Se penteia pra atender Vamos ao cinema, baby Vamos nos mandar daqui Vamos nos casar na igreja Chega de barraco Chega de piti Vamos pra Bahia, dengo Vamos ver o sol nascer Vamos sair na bateria Deixe de chilique Deixe de siricotico

  • O calor e a escuridão da linha do equador

    Deixe-me tentar explicar o calor da Linha do Equador para vocês. Sabe aquela sua tia que te abraça forte demais e você sente um calor sufocante? Assim é o Amapá, com a diferença de que não é possível se afastar dessa tia. O calor te envolve por completo, e não há vento nem para balançar as copas das árvores, que permanecem estáticas como em uma fotografia. Há lugares mais quentes no Brasil? Talvez. Tão quentes quanto? Com certeza. A primeira vez que fui visitar a minha irmã em Santana, no Amapá, foi pisar fora do avião, naquela escada que desce até a pista (o aeroporto era pequeno demais para ter aqueles corredores com ar refrigerado que te levam para dentro do aeroporto; até hoje não tem) e sentir que eu iria sufocar. O ar era quente e úmido, a ponto de parecer que não entraria em meus pulmões. Isso porque era meia-noite. O começo foi difícil, mas hoje acredito já estar acostumada. Com ar-condicionado e ventiladores ligados dia e noite, é claro. Naquele 3 de novembro, a energia desapareceu no meio do Jornal Nacional, em uma noite -- quem diria? -- quente de terça-feira. Acostumados, nem piscamos. Retiramos os equipamentos das tomadas, ligamos as velas e as luzes de emergência se acenderam automaticamente. As quedas de energia são muito comuns. Passamos o resto da noite vendo as estrelas e sem contato com o mundo exterior, pois devido a um fenômeno psíquico-radiônico-quântico, o sinal do celular desaparece junto com a energia. Coisas da Linha do Equador. Vimos uma estrela cadente. Na hora de dormir, coloquei em prática o meu super plano pulo do gato para poder dormir em um quarto fechado, sem ventilação e passando dos 30 graus: me cobrir com uma toalha molhada. Como vocês bem sabem, um cobertor é um isolante térmico, que mantém o calor que o seu corpo produz; pois bem, eu precisava do oposto disso, um descobertor (depois pensamos em um nome melhor). Molhou tudo, mas consegui dormir sob a toalha molhada. Abrir a janela é fora de cogitação, pelo risco de entrarem mosquitos e outros animais noturnos em meu quarto. No dia seguinte, soubemos o que tinha ocorrido: um incêndio na subestação do estado. A Ú-NI-CA subestação que distribui energia para o estado inteiro. Como soubemos disso sem internet, celular, 3G, 4G ou qualquer outro G? Milagrosamente, o fenômeno psicoquântico parece não atingir os celulares da Vivo, então quem tinha Vivo tinha internet. Naquela noite, compramos um chip da Vivo, que não quis entrar na internet, então mandamos mensagem de fumaça- digo, mensagem de texto para o pessoal em São Paulo. Enfim, tivemos notícias do mundo exterior na noite seguinte ao incêndio. E soubemos das promessas, que a energia voltaria no dia seguinte. No segundo dia, nada de energia e nada de as promessas serem cumpridas. Mais um dia sem poder trabalhar e morrendo de calor, usei roupas velhas e me encharquei de água da cabeça aos pés para suportar o calor da tarde. Fui ler os contos de abertura que enviaram para a editora. Depois fui montar um quebra-cabeças até ficar escuro demais para ver as peças. No terceiro dia, fiz à mão um tabuleiro de ludo, li o restante dos contos, acabei o quebra-cabeças. No quarto dia, toda a comida da geladeira estragou. Já tínhamos tirado tudo da geladeira e colocado em caixas de isopor com gelo, para que ficassem conservados por mais tempo, mas o gelo da cidade acabou e não conseguimos repor, então no quarto dia o gelo era água e tudo estava estragado. Além disso, meu repertório de jogos-infantis-para-quando-acaba-a-energia esgotou-se naquela noite. O que fazer com duas crianças pequenas trancadas em casa sem internet ou televisão? Socorro, TV Globinho!! A parte boa é que conseguimos alugar um gerador para a bomba da caixa d'água e eu finalmente, após 4 dias suando dia e noite, pude tomar um banho, já que estávamos economizando a água da caixa d'água. No quinto dia tive uma crise de choro que não consegui controlar. Era mais um dia que encharcada para aguentar o calor, uma paulista, em meio a amapaenses que estavam com calor sim, mas nem suavam. Quando falaram do sonho de beber uma coca-cola gelada, então, não aguentei e chorei mesmo. Detalhe: não havia coca-cola gelada em nenhuma parte da cidade (quiçá do estado), pois, com cinco dias funcionando continuamente, os geradores de energia dos mercados estavam sendo usados apenas para alimentos essenciais, e mal estavam aguentando. Os geradores a diesel, mesmo os grandes, de supermercados, não foram feitos para funcionarem tantos dias sem parar. As pessoas se amontoavam no aeroporto, no shopping, e até nos hospitais para ter eletricidade. Entendam: nos hospitais em meio a uma pandemia. Nessa noite, a energia voltou e dali a 10 minutos desapareceu novamente. Na empolgação, a criança escorregou no gelo derretido e ganhou um galo na cabeça. Aproveitei os 6% de bateria no celular (a primeira coisa que fiz quando a energia voltou foi conectar o celular para carregar) para pedir para voltar à Campinas. Meu pai comprou a passagem para terça; era uma sexta-feira. Lá vai eu mais uma vez dormir com a toalha molhada. No sexto dia, tudo que poderia estragar de alimentos estragou. Foi tudo jogado fora. Em pânico, as pessoas faziam passeatas, queimavam pneus. Fui fazer um novo quebra-cabeças, para passar o tempo. Agora sim entendia o que era não poder trabalhar durante uma quarentena. Também entendi o porquê do pessoal antigamente ir dormir tão cedo: não há nada para fazer depois que o sol se põe. Nada! No sétimo dia, entramos em um rodízio de energia que começava e terminava quando queria. Tivemos energia das 12 às 19 pela primeira vez, e eu aproveitei para trabalhar embaixo do ventilador. Ar condicionado? Depois de seis dias de calor eu já estava craque e um ventilador era luxo! Mais uma noite que durmo com a minha querida toalha molhada; nem me importava mais com o fedor dela. No oitavo dia também tivemos nosso quinhão de energia. As crianças assistiram a dois filmes e eu trabalhei até a energia cair novamente. No nono dia, coloquei minhas coisas em uma mochila, peguei o computador e saí do Amapá. Deixei lá todo o estoque da editora (sim, uma editora sem poder vender livros). Das 14 até às 22 horas aproveitei a energia dos aeroportos até chegar a Campinas. Meu sofrimento tinha acabado, mas o do povo amapaense não. O que dizer dos pequenos mercados, restaurantes, padarias, que perderam todos os produtos? O que dizer da família que gastou o auxílio emergencial com alimentos e viu tudo estragar na geladeira desligada? O que dizer das pessoas que arriscaram suas vidas por um balde de água ou gelo? Durante um apocalipse energético, a coisa mais importante é a água, depois a comida, a gasolina e o diesel para o transporte e os geradores de energia. Depois disso vem o caos e a revolta da população. Entendi como é difícil empreender sem infraestrutura. Entendi como o povo amapaense é forte. Entendi como o descaso, a corrupção política e a venda de votos (fruto do descaso com a educação formal) são destrutivos. Pobre povo amapaense, que precisa mesmo ser forte e guerreiro. Eu não fui, eu fugi. Aqueles que ficaram ainda hoje, 27 de novembro*, enfrentam falta de energia (que não está estabilizada), falta de alimentos nos mercados (compra-se o que tem, pé de alface com três folhas, óleo por 10 reais e por aí vai) e falta do interesse daqueles que estão no poder para com aqueles que na verdade têm o poder, mas não sabem disso (ou são mantidos na ignorância). *data em que o texto da Thaty chegou pra gente. Thaty Furtado botou na cabeça que iria abrir uma editora, foi lá e abriu a editora Minna. Vivendo entre São Paulo e Amapá, vai tocando a editora e o trabalho de freelancer.

  • A FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE

    Quando pensamos em moradia, o que surge em nossa mente imediatamente? Pensamos em nossas casas, certo? É tão óbvio e de certa forma até natural que a gente pense no nosso lar. Por mais natural que seja imaginar um cidadão vivendo em sua casa, essa realidade não é tão comum assim para grande parte da população brasileira. Existe um conceito adotado pela nossa Constituição Federal que tenta suprimir a desigualdade social e garantir moradia para todos, se chama função social da propriedade. Contemplada pela primeira vez no Brasil na Constituição de 1934, a função social é uma condição do direito de propriedade. Na verdade, ela limita o direito de propriedade em detrimento do bem-estar social e coletivo. Sendo assim, a função social da propriedade determina que a propriedade urbana ou rural deve, além de servir aos interesses do proprietário, atender às necessidades e interesses da coletividade. Somos um corpo social e isso quer dizer que devemos sempre pensar no bem-estar coletivo. Por isso, o direito de propriedade é um direito limitado e não absoluto, como muitas pessoas pensam. O Artigo 5° da Constituição Federal de 1988, traz, logo após a garantia do direito de propriedade, um inciso que limita esse direito: “XXII - é garantido o direito de propriedade; XXIII - a propriedade atenderá a sua função social;” O princípio básico da função social é de que não é favorável para a sociedade ter propriedades de terra sem utilidade alguma. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e estima-se que, hoje, cerca de 40 mil pessoas vivam nas ruas. O estudo "Estimativa da População em Situação de Rua no Brasil" utilizou dados de 2019, que conta com informações das secretarias municipais e do Cadastro Único do governo federal. A análise constatou que a maioria dos moradores de rua (81,5%) está em municípios com mais de 100 mil habitantes, principalmente das regiões Sudeste (56,2%), Nordeste (17,2%) e Sul (15,1%). Por isso, é de suma importância que a gente debata com mais frequência e dedicação o direito à moradia e crie mecanismos para que diversas terras e prédios, que não cumprem sua função social, possam atender a esse direito básico do cidadão. A função social das propriedades urbanas é definida no Estatuto da Cidade e no Plano Diretor de cada município. No caso de não cumprimento da função social, o município pode aplicar sanções ao proprietário e, se necessária, a desapropriação. No caso das propriedades rurais, a função social é estabelecida no Estatuto da Terra, que é uma lei federal. De acordo com essa legislação, a propriedade cumpre sua função social quando é explorada de forma sustentável, utiliza adequadamente os recursos naturais e respeita a legislação trabalhista. No caso de não cumprimento destes critérios, o governo federal pode efetuar a desapropriação e redistribuir a terra para fins de reforma agrária. Existe legislação a respeito, mas o que se observa é uma grande dificuldade de se aplicar esse direito em situações práticas. Por que isso acontece? Porque ainda temos introjetado em nosso Direito Civil uma proteção exacerbada ao direito de propriedade. Embora a Constituição Federal flexibilize a propriedade privada em detrimento dos interesses coletivos, a legislação cível, apesar de ter passado por várias revisões e alterações durante os últimos anos, ainda é rígida, além de servir de uma maneira geral a interesses de pessoas que detêm várias posses e boa situação financeira. Todavia, caminhamos progressivamente para um colapso ambiental e uma super lotação de centros urbanos e, atualmente, dentro de um contexto de pandemia mundial. Se não repensarmos as estratégias básicas de reforma agrária e planejamento urbano, muitas vidas serão perdidas e os direitos fundamentais não significarão mais nada. AMANDA LEITE é advogada. Graduada pelo Centro Universitário Uniceub, de Brasília e pós-graduada pela Fundação Escola Superior do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios - FESMPDFT. Especialista em Criminologia e Direito Penal. Membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/DF e ativista de direitos humanos.

  • Top 10 das melhores faixas de rock brasileiro: os anos 70!

    E estamos de volta com mais uma viagem pelo tempo! Desta vez partimos da década de 70 e seguiremos até os dias de hoje viajando pelo mundo do rock brazuca! Estão preparados! Rodrigo Vargas disseca o que e apresenta o que existe de melhor desse estilo que virou praticamente mundial e se é mundial, também é brasileiro! Vamos lá! 10 – Vou Morar No Ar (Casa das Máquinas) – Mistura de sons e percepções, bebem no progressivo e se inspiram em Bowie. 9 – Porque Sou Tão Feio (A Bolha) – Banda clássica da época, muito influenciada por Dylan e cia. Abaixo, como não conseguimos um link só da faixa, disponibilizamos um vídeo com o áudio do álbum completo! Pra quê melhor!? Mas a título de informação, a faixa citada já é a segunda da sequência! 8 – Pente (O Peso) – Excelente grupo cearense que usou o jazz e o blues de forma marginal e poética. Poucos foram tão decisivos na formatação do rock nacional! 7 – Rio de Janeiro City (Joelho de Porco) – O rock começa a dar o ar da graça tupiniquim com irreverência e brasilidade. 6 – Matança do Porco (Som Imaginário) – Banda de apoio de Milton Nascimento para o seu famoso show... Ah! É o Som Imaginário, durou três anos e é simplesmente impecável! 5 – Deus (O Terço) – Potencia pura! Progressiva e extremamente bem executada. Genial! 4 – Mistério do Planeta (Novos Baianos) – Essa é a banda mais hippie da história da música brasileira. A galera morava numa casa, juntos, e passava o dia inteiro fazendo música. O resultado é definitivo! Abaixo uma versão deliciosa ao vivo e raiz bem a cara deles. 3 – Gîtâ (Raul Seixas) – Um dos letristas mais completos do rock nacional e com uma vida inteiramente controversa, deixou um legado intocável. Abaixo o antológico videoclipe da canção. 2 – Sangue Latino (Secos E Molhados) – Essa é sem duvida uma das maiores bandas de rock mundial. Ney Matogrosso e cia. mudaram a trajetória da música brasileira e impactaram em grupos estrangeiros como o Kiss, apesar de negarem. Poucas pessoas fora do meio musical sabem, mas a banda até hoje existe, ainda que sem o sucesso de antes, com João Ricardo, o principal compositor do grupo (e quem criou o nome da banda também) à frente de quase tudo. 1 – Ando Meio Desligado (Mutantes) – Rita Lee e os irmãos Baptistas são tropicalistas geniais que romperam parcialmente com a dependência externa que o rock nacional tinha até então e exerceram influência em bandas como o Nirvana. RODRIGO VARGAS é do mundo. Nasceu em Goiânia, cresceu em Brasília, estudou em Londres e está cearense. Jornalista e psicólogo, teve bandas de rock e atuou como VJ na televisão. Foi apresentador e editor de cultura da afiliada à rede Globo no Ceará. O resto é história!

  • racismo algorítmico

    Você já ouviu falar em Racismo Algorítmico? No mínimo deve ter escutado ou lido alguém fazendo comentando sobre os programadores serem racistas e não os algoritmos (é a discussão mais comum). Se você não viu nada sobre isso, muito provavelmente você está contribuindo e nem está percebendo. Mas te explicar. Os algarismos das redes sociais são números que levam e trazem informações. Eles trazem pra gente aquilo que percebem que queremos ver, como propagandas de produtos para decoração quando estamos vendo com frequência perfis que compartilham esse assunto. Se você viu o filme O Dilema das Redes (disponível na plataforma streaming Netflix) você sabe mais ou menos do que estou falando: Os algoritmos nos dão essa ilusão e em troca levam todas as informações que puderem sobre nós. E claro, as intenção disso tudo existir é o lucro. Mas como isso interfere no racismo? Há uns meses, uma denúncia de racismo algorítmico viralizou no Twitter: Quando você coloca duas fotos ao mesmo tempo num Tweet pra rede, a ferramenta de socialização escolhe automaticamente qual foto ficará maior ou menor. Após alguns testes, os rostos das pessoas negras apareciam sempre no tamanho menor em detrimento das imagens das pessoas de pele branca. O teste foi feito de outra forma: As pessoas negras tiveram suas peles embranquecidas, e somente assim essas pessoas apareciam no tamanho maior. Ou seja, nós recebemos mais conteúdos e vimos mais imagens de pessoas brancas no Twitter. O mais curioso é que a denúncia começou por um programador, o Tony Arcieri, que deu o start e outras pessoas continuaram chegando a viralizar. Alguns programadores e líderes da rede social fizeram testes não-formais e dividiram os resultados sem saber direito como explicar o que estava acontecendo. Alguns assumiram o erro, outros como a Liz Kelley da comunicação do Twitter que relatou que a companhia "não encontrou evidências de preferências raciais ou de gênero em seus testes". É importante a gente saber que cada Rede Social funciona e reage de uma forma independente. Claro, e cada uma delas trabalha com algum foco, algumas mais voltadas para texto, outras pra imagens, o caso do Instagram (que foi onde eu me atentei pro assunto) demonstra entregar as cartas do jogo logo "na entrada". Se uma pessoa, que nunca tinha Instagram antes, faz um cadastro na rede pela primeira vez e procura por "beleza" na busca, ela vai receber a maioria dos resultados para a palavra "Beleza" Pessoas de pele branca. Se essa pessoa dá preferência para pessoas pretas (foi o teste que eu fiz) aos poucos a consulta vai mudando e mostrando pessoas pretas na consulta. Mas não é tão fácil assim mudar o algoritmo. Se quero ver perfis de profissionais da fotografia (minha área) e colocar na busca por "Fotógrafo" ele ainda vai me mostrar a avassaladora maioria pessoas brancas. Percebi que não depende só de mim para que esse algoritmo tenha a diversidade que precisa ter. Nesse mesmo tempo que comecei essas pesquisas, outros perfis no Instagram fizeram esses e outros tipos de denúncias. Influenciadoras negras colocaram a foto de mulheres brancas num mesmo post que colocaram suas fotos por último, e essas postagens foram as que tiveram mais alcance. E as reclamações para tudo isso foram as mesmas: "Os programadores são racistas". E não é bem assim. Podemos e devemos reclamar das empresas que ainda entopem de homens brancos todas as funções de liderança e precisamos ter corpos pretos em todo tipo de liderança. Mas não podemos cobrar sem fazer a nossa parte: Seguir, curtir, acompanhar, comentar e compartilhar (de fato), os algoritmos são reagentes das nossas buscas, portanto nós também somos responsáveis para mudar isso. O Racismo Algorítmico nada mais é do que um reflexo do racismo estrutural que vivemos. Helosa Araujo Afro indígena descendente, Cearense, graduada em Publicidade e Propaganda e pós-graduada em Moda e Comunicação. Trabalha com fotografia, leitura de imagens e análise de mídias digitais. Ativista, atua como coordenadora do movimento Waldorf Antirracista e co-fundadora do curso de Resgate de línguas originárias Nhee-Porã. no Rio Grande do Sul.

  • ++ 7 Discos de MPB Fora da Caixinha

    Já emendando com essa lista, que vem depois dessa. Não são Top 7, é uma lista infinita de discos que eu considero fundamentais na MPB mas que nem sempre são lembrados pelo grande público. ConSertão (Arthur Moreira Lima, Paulo Moura, Elomar, Heraldo do Monte) Consertão é uma reunião de 4 músicos fantásticos. Tão fantásticos que quase não cabe. É legal ver o Arthur Moreira Lima fazendo arpejos pirotécnicos no piano pra não desperdiçar seu virtuosismo. Às vezes ele toca cravo. De qualquer forma a sonoridade é única: piano/cravo, viola, violão e saxofone. Única mesmo. Além da voz singular do Elomar, absolutamente afinada e expressiva. Na viola, Heraldo do Monte e no sax, o Paulo Moura. Foi lançado em 1982 pela Kuarup. É um disco voltado para a obra de Elomar, mas tem outras peças brasileiras, inclusive eruditas, como a Valsa da Dor e a Festa no Sertão (Villa-Lobos) e a Valsa de Esquina Nº 12 (Mignone), além de Luiz Gonzaga, Waldir Azevedo e Severino Araújo. Campo Branco, talvez a música mais conhecida de Elomar tem um tratamento instrumental, contrapontístico e caloroso. Inselença prá Terra que o Sol Matou é cósmica, ao sax e ao piano e à viola, tocados com muita delicadeza. Quando Elomar canta, a gente já tava com saudade. Só essa faixa, que tem 8,5 minutos, dá uma tese de doutorado. A Valsa da Dor soa muito bem com o piano e o saxofone soprano. Pedacinho do Céu é com piano, sax e guitarra. E o disco encerra com a diferente Corban. Diferente no universo de Elomar, mas ele é infinito. Lunário Perpétuo - Antônio Nóbrega Esse álbum fantástico de 2002 do Antônio Nóbrega faz jus total ao legado de Ariano Suassuna. Somos guiados entre ricas instrumentações até a "coivara" da infanta do imperador Dom Pedro. Carrossel do Destino é altamente charmosa, com o clarinete atraente do Zezinho Pitoco. Nas percussões desse disco consta o Gabriel, filho do Antônio, batuqueiro nato. O disco canta ainda o romance de Riobaldo e Diadorim, de Grande Sertão: Veredas. E músicas instrumentais, como Canjiquinha, Pagão e Luzia no Frevo. Alma nordestina e alma brasileira minha gente. Dançando Pelas Sombras - Boca Livre Lançado pelo quarteto vocal Boca Livre em 1992, esse disco é o melhor deles, pra mim. A formação à época contava com: Zé Renato, violão e voz; Maurício Maestro, baixo e voz; Lourenço Baeta, violão, flauta e voz; e Fernando Gamma, violões e voz. Fernando era novo no grupo, mas se encaixou perfeitamente. Cantava muito bem e tocava violão como uma fera. E o grupo soube explorar isso tudo. A linda e luminosa Dança do Ouro (Zé Renato e Lourenço Baeta) abre o disco, que tem uma tolice chamada Gotham City (Jards Macalé e Capinam) como único ponto fraco. As mais mais são The First Circle (Pat Metheny e Lyle Mays), Caxangá (Milton Nascimento), Nua (Fernando Gamma), Todos os Santos (Maurício Maestro e Joyce) e Zen Vergonha (Guinga e Aldir Blanc). Contando ainda com Marcos Suzano na percussão, o disco chegou a ser lançado nos EUA e Canadá. Apenas recentemtente foi disponibilizado nos aplicativos de streaming. Caipira - Mônica Salmaso Com a proposta de gravar músicas do universo caipira (o que conhecemos como "sertanejo raiz"), Mônica Salmaso fez os seus dois milagres habituais. Cantar como ninguém e escolher um repertório impecável. Impagável. O ponto alto é Leilão (Hekel Tavares e Joracy Camargo), uma música absurdamente comovente e que se tornou muito importante pra mim. Os arranjos abusam da viola (Neymar Dias) e da sensível flauta de Teco Cardoso. Ela faz até um dueto com Rolando Boldrin (Saracura Três Potes) e um com ela mesma (Minha Vida). Sonora Garoa você pode ver de dois jeitos: como um arranjo delicado bem sucedido ou como um pianista tentando impressionar; mas de qualquer modo, é um pouco deslocada no disco. Talvez por isso a colocaram pra encerrar o álbum. Dá Licença Meu Senhor - João Bosco Certo. Este é um famosão da MPB. Mas esse disco não é óbvio. Dá Licença Meu Senhor é o disco de intérprete do João Bosco. Foi um dos primeiros discos que eu comprei quando saíram. No caso, aos 14, em 1995. Aqui ele se esbalda com seu genial violão e voz em canções de Villa-Lobos (Melodia Sentimental), Chico Alves e Ismael Silva (Se Você Jurar), Tom Jobim e Newton Mendonça (Desafinado), Dorival Caymmi (O Vento e Vatapá), Noel Rosa (Gago Apaixonado), Gilberto Gil (Expresso 2222) e muitos outros. O disco tem muito suingue, mas ao suingue do João Bosco até eu me rendo. Amor e Cordas - Léo Tomassini Professor de canto, Léo Tomassini lançou em 2003 esse obscuro disco que eu nem sei como veio parar nas minhas mãos. Mas é maravilhoso. A voz agradável, ainda que meio perfurante do Léo, e a instrumentação fiel ao nome do álbum, além do repertório muito bom, fazem desse disco uma coisa preciosa. Muito bandolim, violão, cavaquinho, violoncelo, uma atmosfera de roda de samba... Ele canta Tom Jobim, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Luiz Gonzaga, Cartola e Sinhô. Confiram, confiem. Piazzollando Com Sotaque Brasileiro Mais um disco de 1992, e mais um que a Kuarup lançou, produzido pelo Mário de Aratanha. São faixas de Piazzolla em um punhado de instrumentações diversas. Egberto Gismonti fez o arranjo da Fuga 9 para o Rio Cello Trio (Alceu Reis, Jacqes Morelembaum e Marcio Mallard). O trio, aliás, toca metade do álbum, auxiliado pelo Quinteto Villa-Lobos nas Estações Portenhas. Depois temos a Orquestra de Cordas Brasileiras e Chiquinho do Acordeon. Os arranjos são de Morelembaum, Zeca Assumpção, Henrique Cazes... Temos músicas como Libertango, a Suíte Portenha e Deus Xangô. Disco muito bem acabado. Se gostou não deixe de ver as outras listas e toda a seção de música do site. Ouça a playlist dessa seleção clicando aqui.

  • top 10 melhores faixas de rock da década de 2010

    Como bem sabemos, o rock é um estilo que a cada década deixa marcas que podem ou não ser aproveitadas na década seguinte, e talvez justamente por isso ele seja um dos estilos musicais que se renova e muda tão rápida e intensamente, influenciando comportamentos, moda e outras tendências. Então a gente convidou o Rodrigo Vargas, ex-VJ e editor de cultura, para fazer uma sequência semanal arrebatadora daquilo que ele considera as melhores faixas para entender e, sobretudo, sentir (porque entender é coisa do século passado) o rock década a década. Ele não só topou como sugeriu fazer uma contagem regressiva começando nos anos de 2010 e indo até os anos 1950. Não precisa concordar com nada, só ligue o som e e aproveite a viagem! 10 – Je Ne Me Connais Pas (Mattiel): Americana, canta como se conhecesse a fundo o brega brasileiro. 9 – The Trip (Still Corners): Grupo de intenções maliciosas. Quer nos tirar do chão e elevar a qualquer altura. Vale a pena ouvir sem pressa. 8 – Sure (Hatchie): As músicas dela são tão leves que acalmam, completam. Se é possível ser pop sem ser popular, é ela. Tem vigor, talento e carisma. 7 – Evil (Greta Van Fleet): O Greta é a primeira banda de rock com adolescentes dessa geração a fazer sucesso entre os adolescentes, daí chega a velha guarda do rock e massacra os caras. Primeiro que ninguém tem bastão da sabedoria. Segundo que, se tivesse, não seriam eles. Atiram no próprio pé. Além de inibir a sobrevivência do rock, tentam desmantelar um grupo que é talentoso e que pode ser genial. Dica: escutar o primeiro trabalho dos Rolling Stones. 6 – UnAmerican (Dead Sara): Grupo potente, com discurso afiado e o peso que o rock precisa para chocar. 5 – Loose Change (Royal Blood): Esse duo é tão fodástico que se você ouvir e perceber que são apenas baixo e bateria de primeira, mudo meu nome. 4 – Level (Raconteurs): Essa é uma das poucas vezes na história em que uma banda de rock reúne caras já conhecidos e dá certo, completamente diferente do que seus membros fizeram previamente. 3 – Elephant (Tame Impala): A sonoridade do Impala varia de acordo com o humor de seu criador e quase onipresente líder, mas essa música é a síntese do que é. 2 – Exits (Foals): Impossível ouvir esses caras e não perceber a força do new wave e do indie oitentistas correndo pelas veias da banda e explodindo em sintetizadores e sonoridades contemporâneas. Frenéticos! 1 – Sunflower (Vampire Weekend): A número um tem motivo. Conseguiu ser original além de extremamente bem executada. Para quem diz que o rock morreu, começar por essa pode ser o início da vergonha. Até a próxima década! Nos encontramos nos anos 2000! RODRIGO VARGAS é do mundo. Nasceu em Goiânia, cresceu em Brasília, estudou em Londres e está cearense. Jornalista e psicólogo, teve bandas de rock e atuou como VJ na televisão. Foi apresentador e editor de cultura da afiliada à rede Globo no Ceará. O resto é história!

  • Top 10 melhores faixas de rock da década de 2000.

    Caros Araretes a viagem continua!! Voltamos para o começo dos anos 2000, também chamado por alguns de ZERO ZERO. Rodrigo Vargas continua nos guiando nesse túnel do tempo passando pelo que considera o que melhor sintetiza cada década em termos de rock! Vamos lá! Top 10 (2000´s) 10 – Islands (The XX): Grupo inglês que aproveitou bem a transição dos instrumentos base do rock como guitarra, baixo e bateria, substituindo-os por bases eletrônicas ou efeitos de sintetizadores. 9 –  Somewhere I Belong (Linkin Park): Vocais gritados, peso e uma base com DJ atravessou aquela geração e se espalhou pelo planeta. Fazer o que trouxeram não é fácil. Tanto que poucas bandas que se arriscaram nessa mistura sobreviveram. 8 – Seven Nation Army (The White Stripes): Duo absurdo! Bateria e guitarra extremamente afinados. Todas as influências indie, new wave e hard se entrelaçam para formar um dos grupos mais espontâneos dessa geração. 7 – Sex on Fire (Kings of Leon): Herança "rolling stoneana" do Sex Appeal com uma pegada contemporânea. Vocais altos e distorções ajudam a compor a verve. 6 – Take Me Out (Franz Ferdinand): Ninguém é mais indie do que eles. Escoceses, homenageiam o personagem estopim da Primeira Grande Guerra com o nome do grupo.  Mas o fazem sem nenhum motivo aparente. Suas musicas também passam por aí. Falam de qualquer coisa ou de coisa alguma. 5 – Show Me How to Live (Audioslave): Esse é o típico grupo formado por músicos já famosos, mas que deu tão certo que a gente já não sabe mais o que era melhor: se eram eles antes ou como estão. 4 – Go With The Flow (Queens of the Stone Age): São hard ao extremo. Os riffs não dão descanso e a bateria fraseia sempre que possível. Depois de ouvir pela primeira vez, ninguém esquece. 3 – Last Night (The Strokes): música chiclete de um tipo de punk nova iorquino de classe média. Tem até brasileiro entre eles! 2 – Times Like These (Foo Fighters): Imagine você como baterista de uma das melhores bandas de rock de todos os tempos. Agora imagine esse mesmo cara formando uma banda como vocalista e guitarrista. Qual a chance de dar certo?? Bem, o Foo Fighters é a parte positiva da estatística! 1 - Fall to Pieces (Velvet Revolver): Mais um grupo formado por quem já fazia sucesso. Mistura aí Guns N´Roses e Stone Temple Pilots. Agora ouve! A gente se vê semana que vem, agora lá nos anos 90, beleza? Rodrigo Vargas é do mundo. Nasceu em Goiânia, cresceu em Brasília, estudou em Londres e está cearense. Jornalista e psicólogo, teve bandas de rock e atuou como VJ na televisão. Foi apresentador e editor de cultura da afiliada à rede Globo no Ceará. O resto é história!

  • top 10 melhores faixas de rock da década de 1990.

    Nossa viagem no tempo continua! Estamos nos anos 90, emblemáticos por causa do grunge e do surgimento de bandas com um som alternativo e que até hoje fazem sucesso numa trajetória que foi ficando cada vez mais experimental. Há quem fale que foi a última década boa de rock. Será? Parece que quanto mais voltamos para as origens nessas listas, mais polêmicas surgem. Estão preparados? Vamos lá! Top 10 (90´s) 10 – Just (Radiohead) o grupo inglês se sente de outro mundo. Não à toa, simplesmente tenta esquecer os primeiros discos, em que as guitarras, baixo e bateria existiam. Ao fazer isso, quebram a barreira do rock e podem se chamar ou se localizar em qualquer lugar. Just é a lembrança eterna de uma mente sem passado, ou que pelo menos tenta não ter. 9 – Cigarettes & Alcohol (Oasis) O Oasis surgiu com essa marra toda de classe média baixa inglesa, que usa moletom, come peixe frito com batata e torce para o Manchester. Algumas músicas são obras primas, como esta. Vai... Wonderwall é legal! 8 – Bulls On Parade (Rage Against The Machine) O trio de músicos é perfeito e junta-se a eles o vocal funkiado e libertador do De La Rocha. O Rage foi a primeira banda americana a tocar em Cuba e durante a sua existência e mesmo depois, sempre gritou pelas minorias. 7 – Vasoline (Stone Temple Pilots) Essa é uma das melhores bandas do Grunge. Pena que seu vocalista, Weiland, sempre esteve envolvido com drogas. Condenado a não sair do seu estado de residência pela justiça americana, minou a possibilidade de vida longa do Stone Templo Pilots, de sua outra banda Velvet Revolver e talvez a própria. 6 – Burnout (Green Day) sou louco pelo Dookie! É um dos melhores álbuns dos anos 90 e me lembra o início da minha adolescência. Essa música é fodastica! 5 – Civil War (Guns N´ Roses) Guns é demais! Só quem viveu aquele febre mundial consegue dimensionar. Os caras ultrapassaram a barreira do humano. Tocaram até no filme Exterminador do Futuro. Civil War é a mais empática. 4 – Alive (Pearl Jam) O disco Ten é um dos melhores da história e qualquer uma que eu escolhesse dali representaria bem esse quarto lugar. Alive é forte e significa muito para um grupo que perdeu um de seus membros para as drogas e que viu todos os grupos periféricos perderem também. 3 – Give It Away (Red Hot Chili Peppers) Esse baixo é desgraçado de bom...kkk. O Flea é um gênio! Sou tão maluco por essas linhas de baixo que quando escuto Red Hot só consigo ouvir o cara! 2 – Man in the Box (Alice In Chains) Essa é na minha opinião a melhor banda do Grunge. Pode observar, nenhum tem os vocais afinados quanto eles. Nenhuma tem um guitarrista solo quanto eles. Nenhuma é mais Alice in Chains que eles! 1 – Breed (Nirvana) O Nirvana é genial, por isso merece estar no topo. Tudo o que representa e é. Essa música é para ouvir com a seguinte pergunta para responder: o que mudou? Gostou? Concordou? Não concordou? Marcou a tabelinha do bingo nas suas favoritas? Comenta aqui e deixa sua opinião! Semana que vem vamos até a década da new wave e dos pós-punk, os anos 80! Até mais! Gostou do texto! Comenta pra gente! Gosta de pesquisar e aprender sobre rock? Que tal ler a primeira parte de uma matéria sobre a instigante história do rock russo aqui? Quer ver onde começa essa lista com as melhores faixas de rock de cada década? Clica aqui! Rodrigo Vargas é do mundo. Nasceu em Goiânia, cresceu em Brasília, estudou em Londres e está cearense. Jornalista e psicólogo, teve bandas de rock e atuou como VJ na televisão. Foi apresentador e editor de cultura da afiliada à rede Globo no Ceará. O resto é história!

  • Top 10 melhores faixas de rock da década de 1980.

    Continuando nossa viagem no tempo regressiva até o nascimento do rock, estamos, nesta sexta-feira, em uma das décadas mais coloridas e estravagantes da cultura pop: os anos 80! Influenciados pela passagem do movimento punk, a popularização dos sintetizadores e uma tentativa de continuar se divertindo enquanto o mundo continuava girando sem parar, os anos 80 são polêmicos: muitos acham cafona, outros a melhor década que já existiu. Mas como tudo na vida existe sempre uma lista de top 10! Top 10 (80´s) 10 – Never Tear Us Apart (INXS) esses australianos sabem fazer tanto músicas com batidas que não nos deixam parados como baladas românticas que ajudam a qualquer casal se apaixonar. 9 – I´ll Be There For You (Bon Jovi) Estilo texano, com botas e fivelão, Bon Jovi e cia arrebataram corações e almas pelo planeta com um hard rock country meloso. 8 – How Soon Is Now (The Smiths) Morrissey é a grande influência de personagens do rock brasileiro como Renato Russo, apesar de estarem fazendo sucesso na mesma época. Todo o requinte Indie acabou provocando na Legião uma transição importante que vinha de um espírito mais Joy Division, ou melhor, Ian Curtis. 7 – Concrete Jungle (Bob Marley) Letrista absoluto, e com uma sensibilidade necessária para qualquer época, mas para a nossa, faz inveja e causa saudade. 6 – Dancing With Myself (Billy Idol) Quem já viu o Supla cantar sabe do impacto que é ouvir Billy Idol. Ouve aí! É uma espécie de punk/pop/indie saraivado de David Bowie. 5 – Still Loving You (Scorpions) Vocal destacado e único. Guitarras afinadas e virtuosas. A maior banda de rock da Alemanha arrasa corações ainda hoje. 4 – Let's Dance (David Bowie) Bowie é do final dos anos de 1960 mas o cara é o camaleão. A cada álbum um personagem diferente, um estilo contraditório. Essa música é quase que o marco final da sua epopeia. 3 – Wherever I May Roam (Metallica) maior banda metal da história – muitos discordam – simplesmente destroem com essa pedrada. 2 – Where The Streets Have No Name (U2) essa é uma das letras mais bonitas do rock. O U2 sempre se deixou ligado as causas humanísticas. Essa é a prova! 1 - Purple Rain (Prince) Maior de todos! Gênio! Semana que vem nos vemos em uma década que é, sem dúvida alguma, emblemática para o rock: os lisérgicos anos 1970! Tá chegando agora e quer saber pode onde a lista já passou? Uma dica: ela começa aqui! Quer conhecer tudo sobre rock? QUer sair da mesmice um pouco? Que tal investigar um pouco sobre o rock russo aqui? Se quiser saber mais sobre a influência do rock na música brasileira, tem um artigo ótimo sobre esse disco do Pepeu Gomes também! Rodrigo Vargas é do mundo. Nasceu em Goiânia, cresceu em Brasília, estudou em Londres e está cearense. Jornalista e psicólogo, teve bandas de rock e atuou como VJ na televisão. Foi apresentador e editor de cultura da afiliada à rede Globo no Ceará. O resto é história!

  • Top 10 melhores faixas de rock da década de 1960.

    Após uma breve pausa, continuamos com nossa viagem até o surgimento do rock através do que, na visão de Rodrigo Vargas, são consideradas as melhores faixas do gênero! E chegamos na década de 60! Essa década consolidou o estilo surgido nos anos 50 com muita música divertida, mas também uma boa dose de experimentalismo! Vamos lá! 10 – Surfin USA (The Beach Boys): esse som é muito americano e diz sobre uma década onde o bem estar capitalista também surfava. 9 – Maybe (Janis Joplin): Voz potente e apaixonante. Simplesmente diva! 8 – Sunshine Of Your Love (Cream): Esse power trio é insuperável. Era a seleção da época, melhores guitarrista, baixista e baterista. Não podia dar em outra... 7 – Respect (Aretha Franklin): Outra diva no top 10. Essa me deixa simplesmente estirado e soluçando...kkk 6 – Suspicious Mind (Elvis Presley): Muitos consideram essa a melhor fase do rei. Adoro a sua performance. Música completa! 5 – Blowin In The Wind (Bob Dylan): Dylan é para ouvir e ler. Ninguém se arrepende! 4 – Hey Joe (Jimi Hendrix): Maior guitarrista da história viveu pouco mas deixou um estrago na musica que nunca mais foi a mesma. Uma curiosidade que poucos sabem é que esta música não foi composta por Hendrix, e sim por Billy Roberts, mas foi através de Hendrix e sua banda (The Jimi Hendrix Experience) que esta canção foi imortalizada. 3 – People Are Strange (The Doors): Morrisson é gênio! Pena que foi cedo demais como vários dessa lista. 2 – Simpathy For The Devil (Rolling Stones): Bem escrita, bem elaborada e com muita profundidade. Essa é a obra mais bem-sucedida dos Stones. 1 – A Day In The Life (Beatles): A melhor música do maior álbum de todos os tempos da maior banda que já pisou nesse planeta. Agora a gente se despede marcando o próximo encontro para a semana que vem, lá nos anos 50, quando tudo começou!! Gostou? Já viu as nossas outras listas? Caso tenha chegado aqui agora, dá uma olhadinha na lista dos anos 70! Mas lembrando que nosso túnel das melhores faixas de rock começa aqui! E se você gosta mesmo de anos 70, saca essa listinha do Lauro André aqui do Novidades do Passado! Também temos uma só de discos dos Beatles! E uma interessante história sobre o Rock Russo! RODRIGO VARGAS é do mundo. Nasceu em Goiânia, cresceu em Brasília, estudou em Londres e está cearense. Jornalista e psicólogo, teve bandas de rock e atuou como VJ na televisão. Foi apresentador e editor de cultura da afiliada à rede Globo no Ceará. O resto é história!

  • Top 10 melhores faixas de rock da década de 1950.

    Finalmente chegamos aonde tudo começou! Os anos 1950!! Quando o Country e o Rhythm and blues se encontraram e criaram o rock'n roll. Um estilo visceral, corajoso, jovem, divertido, outsider e até meio selvagem já. Mas também cheio de amor e romance. Enfim... Um banquete de sentimentos! 10 – So What (Miles Davis) – Muita gente deve se perguntar, como assim, isso é Jazz?! Justamente, toda a potência expressada livremente por esse gênio ecoa nos trabalhos mais elaborados que vieram a seguir. Miles é uma das maiores influências para a consolidação do rock. 9 – Blue Train (John Coltrane) – Essa canção é absoluta e nos coloca diretamente ligados ao que sentimos. Aquelas emoções mais guardadas aparecem aqui com força e vigor. Coltrane é mais um gênio que sustenta o futuro. Futuro que é passado para quem está lendo essa lista agora e presente para quem a ouve. 8 – Tutti Frutti (Little Richard) – Frenética e acidental. Esses adjetivos elevaram o status da música pop e abriram caminho para que os jovens da época sonhassem em ter uma banda. Deixo o resto para a imaginação de vocês. 7 – Please, Please, Please (James Brown) – Mais conhecido pelos passos rápidos, giros e deslizes de suas músicas mais agitadas, Brown era versátil e é um dos alicerces para a música moderna. A sua influencia se espalhou por todos os estilos que vieram a seguir, do rock, ao rap. 6 – Someday Somewhere (B. B. King) - Solos endiabrados e muito swing. Um dos deuses da guitarra. Essa música faz parte de seus primeiros anos e mostram um músico forjado no blues e mostrando a que veio. 5 – Johnny B. Goode (Chuck Berry) – Figura controversa. Amada por poucos, odiada por muitos mas genial nos palcos. Seus acordes são eternos! Essa música foi imortalizada de várias formas, inclusive pelo cinema. Abaixo uma das primeiras gravações deste clássico roqueiro. Também postamos aqui uma antológica versão ao vivo de 1995 no Rock'n Roll Hall of Fame mostrando toda sua energia mesmo aos 69 anos e com participação de Bruce Springsteeen! 4 – I´d Rather Go Blind (Etta James) – Se você é daqueles que gostam de Bon Jovi, Creed ou qualquer banda hard que espalha histórias de amor, ouça Etta e vai entender qual a fonte desses caras. 3 – What´d I Say (Ray Charles) – Ouça e se deixe levar. Feche os olhos! É mágico! 2 – Hound Dog (Elvis Presley) – Os gritos e desmaios começaram aqui! Se o rock se espalhou pelo planeta foi graças ao gingado e talento do rei! Abaixo selecionamos sua apresentação no famigerado no The Ed Sullivan Show! 1 – Ain´t Got No I Got Life (Nina Simone) – É o ápice de uma mente e alma inquietas e que transformou a música para sempre! Gostou da lista? Concorda? Discorda? Comente! Em breve começaremos mais uma viagem temporal através do que há de melhor no rock brasileiro! E que tal agora que chegamos aos anos 50 fazer a viagem de volta ao presente avançando década por década ouvindo tudo de novo até o começo da lista na década de 2010? Se curtiu a ideia a lista dos anos 60 tá na mão! RODRIGO VARGAS é do mundo. Nasceu em Goiânia, cresceu em Brasília, estudou em Londres e está cearense. Jornalista e psicólogo, teve bandas de rock e atuou como VJ na televisão. Foi apresentador e editor de cultura da afiliada à rede Globo no Ceará. O resto é história!

  • + 7 Discos de MPB Fora da Caixinha

    Se você gostou desta lista, vai gostar dessa aqui. Aos poucos a gente vai construindo uma discoteca de MPB que não passe necessariamente pelos "clássicos". As aspas são pelo seguinte: a maior parte dos discos do Caetano Veloso, do Gilberto Gil, do Chico Buarque, do João Gilberto etc., são clássicos com todo o merecimento. Mas alguém aqui ousará dizer que os de fora da caixinha não são clássicos? Alguns são tão bem cuidados e desprendidos da tarefa de se vender, que se saem até melhor do que os grandes. Só peço perdão para uma coisa: vou repetir artistas, que eu também não sou nenhuma biblioteca da música brasileira. Então, mais 7 discos fora da caixinha para uma ilha deserta (é a ilha de Lost, porque tem aparelho de som lá). Quinteto Villa-Lobos Interpreta Só com arranjos de choros maravilhosos para quinteto de sopro, esse disco é muito bom. Pra começar com as faixas de abertura, "Odeon", de Ernesto Nazareth e "Naquele Tempo", de Pixinguinha. O quinteto contava com o talentosíssimo clarinetista Paulo Sérgio Santos, ainda novinho, mas já arrasando. Adoro "Brejeiro", também de Ernesto Nazareth; "Primeiro Amor", de Patápio Silva e "Choro Negro", do grande Paulinho da Viola (com Fernando Costa). Alceu Valença & Geraldo Azevedo Começando juntos, em 1972, com esse disco gravado pelas madrugadas, Alceu Valença e Geraldo Azevedo fizeram um álbum intrigante. Com arranjos do tropicalista Rogério Duprat, você não encontra esse disco no Spotify (pelo menos até agora, dezembro de 2020). Mas encontra no YouTube. Conhecido como "Quadrafônico", esse disco utiliza uma tecnologia chamada Quadrifônica (outro que a utilizou foi Benito di Paula), que precisa de 4 caixas de som para ser desfrutada. Essa tecnologia foi natimorta, pois era muito caro montar um sistema de som nessas condições. Já o álbum, nasceu pra ser cult. Mônica Salmaso - Corpo de Baile Talvez (eu disse talvez) o melhor disco da Mônica, ao lado do Caipira. Ela se deparou com um baú cheio de músicas de Guinga e Paulo César Pinheiro, há 20 anos intocadas. A maioria nunca gravada. Daí selecionou as 14 desse álbum e atribuiu cada uma a um arranjador de sua confiança. Dá pra ver que eles se saíram muito bem. Porque não é fácil. Você tem que fazer um arranjo diferente, excelente, surpreendente, mas sem parecer que quer impressionar. Ela tinha um grupo mais ou menos fechado, com um quarteto de cordas, um violeiro, um violão, baixo, bateria, piano e seu esposo Teco Cardoso nos sopros. Esse disco me mata. Destaco "Fim dos Tempos", "Navegante", "Bolero de Satã", "Curimã" e "Violada". Até pro PC Pinheiro, que não é meu letrista favorito, tiro o chapéu. Quinteto Violado Mais um disco de 1972 e de estreia. O Quinteto começa com uma poderosa versão de Asa Branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), de arrepiar. É um álbum de extrema importância na Música Popular Brasileira, que apresentou o Quinteto Violado ao mundo. Basicamente pernambucano, o grupo existe até hoje, com outra formação. Destaque para: Acauã, Marcha Nativa dos Índios Quiriri e Agreste. Sivuca e Quinteto Uirapuru O quinteto de cordas paraibano Uirapuru gravou com Sivuca, em 2004, clássicos do repertório deste e do seu próprio. O disco é comovente, e a interação entre acordeon e cordas produz uma sonoridade mágica. Filhos da Lua está belíssima, assim como Minha Luiza e Um Tom Para Jobim. Dominguinhos e Yamandú - Lado B Eu mudei minha opinião sobre Yamandú muito recentemente. Achava seu toque agressivo e repleto de explosões de velocidade desnecessárias. Pois é, ou eu mudei ou ele mudou. Seu som é profundo, no 7 cordas. E sua inventividade é infinita. Outro que é inigualável é o Dominguinhos. Aparentemente ele não sabia nada de música, nem o nome dos acordes. Se o chamassem para gravar uma música, por mais complexa que fosse, ele pedia pra ficar sozinho numa sala do estúdio escutando com seu acordeon no peito. Em 10 minutos pedia para gravar. E aí ninguém soava como Dominguinhos. Quando os dois se juntaram, em 2007 para lançar o primeiro disco, Yamandú + Dominguinhos, não dei muita bola. Mas recentemente, procurando no Spotify achei esse, o segundo: Lado B, de 2010. É perfeito. Yamandú está maravilhoso e Dominguinhos, um poeta dos foles. O repertório também é impecával, com: Da Cor do Pecado, Noites Sergipanas, Fuga pro Nordeste, Naquele Tempo e Pau de Arara. Guinga - Delírio Carioca O cantor, compositor e violonista carioca Guinga tem muito a nos oferecer. Suas composições são lindas, cheias de curvas inesperadas, modulações na hora e na dose certas. Isso pra não falar do seu violão. Complexo, denso, cheio de acordes que deviam se chamar Guinga I, Guinga II... A voz é bonita e aguda, só reclamo do fato de ele não cantar muito compreensivelmente as palavras. Adoro Saci (dele e de Paulo César Pinheiro), Passarinhadeira (idem), a linda Canção do Lobisomem, Baião de Lacan e Mise-en-Scène (todas com Aldir Blanc). Confira a outra lista de Discos Fora da Caixinha. E prepare-se para a próxima.

  • Você Não Pode Ser Irlandês e Racista.

    O poderoso poema antirracismo da cantora irlandesa Imelda May, “You Don't Get To Be Racist And Irish” (Você Não Pode Ser Irlandês e Racista), está sendo exibido em outdoors por toda a Irlanda. Imelda fala para o jornal Irish Independent mais sobre a mensagem por trás da sua poesia, que faz parte da campanha Rethink Ireland, um fundo de apoio para organizações e grupos que capacitam comunidades marginalizadas e enfrentam a desigualdade sistêmica. Ela diz: "Somos todos humanos e, portanto, devemos mostrar nossa humanidade uns aos outros, caso contrário, o que seríamos? Estou muito feliz que o poema tenha fomentado alguma discussão e sou grata por ter encontrado as palavras para ser capaz de escrevê-lo. Mas acho que agora não é o momento de ouvir minha voz. É hora de ouvir as vozes daqueles que precisam ser ouvidos." Após a morte de George Floyd nos Estados Unidos e os protestos que se seguiram ao redor do mundo, o povo em toda a Irlanda refletiu sobre os próprios problemas raciais de seu país. Isso levou a manifestações em massa em Dublin e cidades como Galway e Cork, bem como ao reconhecimento entre os líderes de todos os partidos políticos de que a mudança é necessária. O poema, além de uma resposta aos eventos ocorridos recentemente, também faz lembrar que a própria história irlandesa, por ser vítima da opressão, torna o racismo imperdoável. You Don't Get To Be Racist And Irish pode ser lido integralmente no original, em inglês, e logo em seguida a versão para o português da tradutora brasileira Paola Benevides, que reside na Irlanda desde 2016. You don’t get to be racist and Irish You don’t get to be proud of your heritage, plights and fights for freedom while kneeling on the neck of another! You’re not entitled to sing songs of heroes and martyrs mothers and fathers who cried as they starved in a famine Or of brave hearted soft spoken poets and artists lined up in a yard blindfolded and bound Waiting for Godot and point blank to sound We emigrated We immigrated We took refuge So cannot refuse When it’s our time To return the favour Land stolen Spirits broken Bodies crushed and swollen unholy tokens of Christ, Nailed to a tree (That) You hang around your neck Like a noose of the free Our colour pasty Our accents thick Hands like shovels from mortar and bricklaying foundation of cities you now stand upon Our suffering seeps from every stone your opportunities arise from Outstanding on the shoulders of our forefathers and foremother’s who bore your mother’s mother Our music is for the righteous Our joys have been earned Well deserved and serve to remind us to remember More Blacks More Dogs More Irish. Still labelled leprechauns, Micks, Paddy’s, louts we’re shouting to tell you our land, our laws are progressively out there We’re in a chrysalis state of emerging into a new and more beautiful Eire/era 40 Shades Better Unanimous in our rainbow vote we’ve found our stereotypical pot of gold and my God it’s good. So join us... 'cause You Don’t Get To Be Racist And Irish. ________________________________ Você não pode ser Irlandês e racista Não dá para ter orgulho da sua herança de suplícios e lutas por liberdade enquanto se ajoelha no pescoço do outro! Você não tem o direito de cantar canções sobre heróis e mártires mães e pais que choraram como morreram de fome Ou do bravo coração de fala mansa dos poetas e artistas fazendo fila num campo de extermínio vendados e amarrados esperando por Godot e ressoando à queima-roupa. Nós emigramos Nós imigramos Nós nos refugiamos Por isso, não podemos recusar a nossa hora de retribuir o favor. Terra roubada Espíritos quebrados Corpos esmagados e inchados sinais profanos de Cristo pregado a uma árvore (Essa) que você pendura em seu pescoço Feito o nó da forca do libertado. Nossa cor pastosa Nosso sotaque grosseiro Mãos como pás de argamassa e alvenaria fundação das cidades você agora se põe de pé Nosso sofrimento escoa de cada pedra onde surgem as oportunidades pendendo sobre os ombros dos nossos antepassados que deram à luz à mãe de sua mãe Nossa música é para os justos Nossas alegrias foram conquistadas Bem merecidas e servem para nos lembrar de relembrar Mais Negros Mais Cães Mais Irlandeses Ainda rotulados de duendes, Micks, Paddys, brutamontes nós estamos gritando para dizer que nossa terra, nossas leis estão progressivamente por aí Estamos em uma crisálida num estado de emergir em uma nova e mais bela Irlanda (Eire)/era 40 Tons Melhor Unânimes em nosso voto pelo arco-íris encontramos nosso pote de ouro estereotipado e meu Deus é bom. Então, junte-se a nós... ‘porque Você não pode ser racista sendo irlandês. Abaixo um vídeo com Imelda declamando seu próprio poema em inglês. PAOLA BENEVIDES nasceu em Fortaleza e é licenciada em Letras e pós-graduada em Linguística Aplicada (Tradução), pela UECE. De cantora e compositora em bandas independentes, transita entre performances em saraus, experimentos audiovisuais, midiáticos e místicos. Possui poesia e prosa publicadas em antologias, blogs, zines e revistas literárias. Cofundadora da @logoslanguageservices, é revisora textual, transcritora, tradutora e intérprete. Autoexilada em Dublin desde 2016.

  • SOBRE JAMES JOYCE, EXÍLIO E AFORTALEZAMENTOS

    "Quando eu morrer, Dublin estará encravada em meu coração." Em 1941, dia 13 de janeiro, morria James Joyce, aos 58 anos, na Suíça. O autor, que passou boa parte da sua experiência na Terra como expatriado, me fez questionar se eu chegaria à mesma idade inteira, também longe da pátria, por tamanha impaciência com o curso tomado pelo homem, caolho pelos erros recorrentes de leitura. Logo eu, mulher nordestina, malfalada por uma porção de imbecis mais competentes. Felizmente, um bocado de nonsense verborrágico ainda disfarça o caráter genial de suas obras, cujas histórias pavimentadas por cenários dublinenses, servem de guia para não me perder entre veredas estrangeiras. Mesmo na falta de cognição para mapas, permeada por referências das belas-letras às marginálias, decido abrir meu livro ao mundo — tão quebrada quanto guarda-chuva em tempestade de cinco minutos ou tão protegida quanto cu de bêbado adormecido em assento de trem por longas horas. Aqui é assim, pelo menos não tememos perder a próxima parada conversando transcendências com os loucos. Embora não tenha logrado tanto tempo fora de meu país natal como Joyce, ainda assim carrego o peso da identificação maior com a Irlanda do que com este Brasil medievo, cuja proporção oceânica me fez desenvolver o trauma de nunca ter aprendido a nadar. Reza a lenda que, enquanto lá se vive, fica-se a boiar, esperando sempre por um farol, um mito, uma rajada de vento na baforada de um anjo, um cão-guia, qualquer coisa que nos faça atravessar este momento distópico como se não detivéssemos a própria maestria. Até quem se põe contra a maré carece de remos firmes o suficiente para a persistência na luta. As ruas serviriam para quê, além da disseminação de pandemias, carnaval e pirraça de caras brancas pintadas? Foi-se o tempo em que o medo cavalgava onças. Macunaíma mandou lembranças! Tenho lamentado tanto a falta de memória da minha gente que, por vezes, me coloco no lugar da filha de um pai com Alzheimer, tendo que explicar repetidas vezes o que ocorre, na esperança de ser, enfim, compreendida. É amor que se desgasta pela relação abusiva mantida desde a Independência, à base de chibatadas e feijoadas, racismos, fascismos e dias santos. Dali saí correndo, bati as portas de casa, mas continuo esbravejando em minha própria língua-mãe, a quem devoto fluência ilimitada. Amém. Saudades? Dizem que não se deve desdenhar das ancestralidades, por isso, tento acreditar em encarnações passadas. Sinto uma atração inexplicável pelas terras celtas desde a infância, quando ousava questionar sobre como uma ilha tão miúda poderia ser fértil assim em cultura, musicalidade e poesia. Ora, é justamente pela origem famélica que uma identidade subsiste, apesar de todas as restrições colonizadoras. Ao produzir sua arte em larga escala, seja por catarse na hora da dor ou puro dom de alma, Éire se faz guerreira, uma deusa gaélica embriagada de cerveja preta. Foi por ter me rendido às pints de Guinness em noites friorentas que, orgulhosamente, reavivo a luz do meu Ceará, na afoiteza de ter tramado tantos sonhos cantados e escritos entre a boemia de uma Iracema maldita, cartografando Centro, Fátima, Benfica, Guará e tantos outros mundos familiares. Costumo associar a bravura do Nordeste à intrepidez da Irlanda, embora a beleza do meu mar percorra um solo mais agreste. Nasci em Fortaleza, capital que carrega, na raiz do nome e no lombo desse povo, uma grande coragem, bem traduzida por Euclides da Cunha na epopeia Os Sertões: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte". Haja Vida e Morte Severina para traduzir a imagem de um retirante em seus afortalezamentos. São muitas bagagens que devemos largar de mão sem, ao mesmo tempo, nos desprender por completo, pastorando com gosto, prestando atenção em todas elas. Andamos sem tempo. Mas que deus teria coração a ponto de escrever uma bíblia em menos de 24 horas? Homero? Não. O homem é tão carente de macrocosmos que se ilude com a impossibilidade de criar maravilhas em pormenores. Menos Leopold Bloom, destinado à tragédia de ser um Ulisses moderno. Há quem maneje bem os fluxos de consciência e não permita iniciantes na sua Literatura. E é justamente nela que aprendi a mergulhar mais a fundo, sem que o frio me fustigue a pele carregada de sangue negro, latino, indígena, alienígena de qualquer definição que hoje melhor nos caiba. Estou fora, mas tudo isso muito me afeta, incomoda, destempera por dentro. Joyce costumava dizer que a história não passa de um pesadelo do qual se tenta acordar. E, por fim, ainda alerta: "Eu irei lhe dizer o que farei e o que eu não irei fazer. Não vou servir àqueles nos quais não acredito mais, mesmo que se intitulem minha casa, minha cidade natal ou minha igreja: e eu tentarei me expressar [viver] da forma mais livre e completa possível [através da arte], usando em minha defesa as únicas armas que eu me permito usar — silêncio, exílio e habilidade." PAOLA BENEVIDES nasceu em Fortaleza e é licenciada em Letras e pós-graduada em Linguística Aplicada (Tradução), pela UECE. De cantora e compositora em bandas independentes, transita entre performances em saraus, experimentos audiovisuais, midiáticos e místicos. Possui poesia e prosa publicadas em antologias, blogs, zines e revistas literárias. Cofundadora da @logoslanguageservices, é revisora textual, transcritora, tradutora e intérprete. Autoexilada em Dublin desde 2016.

A Arara Neon é um blog sobre artes, ideias, música clássica e muito mais. De Fortaleza, Ceará, Brasil.

2024

  • Instagram
  • Facebook ícone social

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, entre em contato conosco.

DIRETRIZES DO SITE

bottom of page