• Rafael Torres

Top 10 Discos de Tom Jobim

A discografia de Tom Jobim é relativamente pequena. Alguns de seus melhores discos ele fez com a Banda Nova, um conjunto que ele montou e que constava com Danilo Caymmi (flauta e voz), Paulo Jobim (violão), Jaques Morelembaum (violoncelo e alguns arranjos), um grupo de vozes femininas, bateria e baixo. Ele ao piano e cantando a maior parte das músicas.


A voz de Tom Jobim tem duas características, pra mim. Não era muito boa, tecnicamente e timbristicamente, mas ao mesmo tempo, era aconchegante. Lembrava muito meu avô cantando bossas quando eu era criança. Então talvez só eu goste dela. Ou outras pessoas com experiências semelhantes.


Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim era natural do Rio de Janeiro. Cidadão do mundo, acho que ele cunhou esse termo aqui no Brasil. Foi o compositor brasileiro de maior sucesso no exterior até hoje. Foi gravado por todos os jazzistas. Ella Fitzgerald, Frank Sinatra e Diana Krall fizeram discos inteiros dedicados à sua obra. Criou, junto com João Gilberto, a bossa nova, que era mais do que um ritmo, era um jeito de cantar, de tocar violão, de fazer a bateria, de compor, fazer letra etc.


Tom faleceu em 1994 de câncer, doença contra a qual muito lutou. A Banda Nova, ativa por 10 anos, se dissolveu então.


Aos discos. Atenção, dei prioridade aos de estúdio em que ele toca principalmente músicas suas.


10. Terra Brasilis (1980)

The Composer of Desafinado Plays

O problema de visitar a discografia de Tom é que ele não gravou as músicas de maneira linear. Canções compostas pra aquele álbum. Pelo menos não necessariamente. O disco duplo Terra Brasilis, por exemplo, abre com a versão em inglês de Vivo Sonhando, que é Dreamer, bem anterior a ele. Guardem essa informação, porque vai ser importante: ele não compunha álbuns, mas gravava o que lhe dava na telha.

Continuando, temos a linda Canta, Canta Mais, dele e do Vinícius, outra bem antiga, e que ele gravaria com mais autoridade mais tarde. Olha, Maria é parceria tripla de Tom, Chico Buarque e Vinícius de Moraes. Chico havia gravado em seu disco Construção, de 1971. Aqui, Tom grava só instrumental, o que eu acho que funciona perfeitamente, porque mesmo desprovida de sua letra monumental, a música é absurda.

Temos várias regravações, como Samba de Uma Nota Só, Dindi, Quiet Nights of Quiet Stars (Corcovado), Desafinado, Wave. Tudo muito bom. Esse disco é perfeitamente bom. Não é super profundo, mas é absolutamente agradável!


9. O Tempo e o Vento (1985)

O disco da trilha sonora da série da Globo, baseada na série dos meus livros favoritos, O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, uma saga gaúcha. Ele nos trouxe como tema principal Passarim, uma das músicas mais charmosas do Tom e que, depois, daria origem a um álbum inteiro. Tem músicas instrumentais e muitas das faixas não são cantadas por ele, por exemplo, Rodrigo, Meu Capitão e Senhora Dona Bibiana, cantadas por Zé Renato.

Mas é um disco de climas, é um daqueles que você escuta sempre do começo ao fim.


8. Matita Perê (1973)

Tom Jobim Matita Perê (1972)

Tom Jobim se interessava muito pela mata, pelos passarinhos e pelo folclore brasileiros. Esse disco, que abre com Águas de Março, tem muito da alma brasileira. Pra ficar claro, não é o Jobim americano de que tantos tanto reclamaram. É o Tom saudoso, quase uma versão popular do Villa-Lobos. Não que o disco seja extremamente nacionalista, mas é um dos primeiros discos em que ele canta sobre os próprios interesses. Ele levaria a brasilidade a extremos num disco que veremos mais à frente.

Matita Perê tem a belíssima Ana Luiza, que eu acho que deveria ser tão popular quanto Lígia. A faixa título, composta com letra de Paulo César Pinheiro, tem mais de 7 minutos, fazendo longas jornadas tonais. É uma das músicas mais impressionantes do maestro. O disco tem poucas e longas faixas, o que o torna mais interessante para nós músicos, talvez.


7. Inédito (1995)

Tom Jobim Inédito (1995)

Esse disco tem um nome irônico, já que não apresenta uma única melodia que já não tivesse sido gravada antes. Ele foi gravado sob patrocínio de uma empresa (aquela que não devemos nomear), em 1987, que queria fazer um apanhado da carreira do compositor. Só em 1995 ele foi lançado para o público em geral. Tom dizia que foi o disco em que ele mais se divertiu ao gravar. É todo com sua banda, muito entrosada, nada de convidados ("chega de convidados" ou algo assim). E gravado em casa.

Temos Wave, Desafinado, Garota de Ipanema (muito bom arranjo), Retrato em Branco e Preto, Sabiá, Samba do Avião, Estrada do Sol, Águas de Março e muitas outras em arranjos camerísticos (temos algumas poucas cordas) que funcionam muito bem.

Eu cresci ouvindo esse disco, lançado quando eu tinha 14 anos, daí meu favoritismo. Danilo Caymmi canta lindamente a Modinha de Villa-Lobos.


6. Passarim (1987)

Tom Jobim Passarim

Passarim parece inaugurar essa nova fase do Tom. A fase à qual pertencem o disco anterior da lista e Brasileiro. O Tempo e o Vento já nos tinha apresentado a faixa título, mas aqui ele mostra a forma final dela. Bebel é mais uma canção derramada e linda sobre um personagem feminino. Anos Dourados tem a participação do seu co-autor Chico Buarque, amo essa canção como, de fato, todas as dessa parceria. Luiza, a canção ideal, aparece com uma tonelada de reverb, coisa dos anos 80. Mas está linda. Temos ainda Borseguim, Gabriela, uma interpretação maravilhosa de Fascinatin' Rhythm, de George e Ira Gershwin...

É um disco maravilhoso nessa nova era com arranjos menos monumentais e Villa-Lôbicos, tendendo mais a valorizar a banda, seus cantores e suas cantoras.


5. Urubu (1976)

Esse é o disco nacionalista do Tom Jobim. A começar pelo berimbau que abre o disco na canção O Boto. A orquestra parece querer tomar o campo, às vezes, com a eloquência, agora sim, de Villa-Lobos. Não são cordas discretas como nos seus discos futuros, mas madeiras e metais tocando elementos rítmicos que são concebidos como parte das canções. São os arranjos sensacionais de Claus Ogerman.

Lígia é, como sabemos, uma das mais belas melodias do Tom, assim como é Ângela. Correnteza tem um lindo arranjo, pra variar. Saudade do Brasil é uma música que podia ser do Villa. Sinfonicamente linda, ela parece que fala de ter saudade de uma coisa em que você está, não como se ele estivesse fora do Brasil cantando sua saudade, mas dentro.


4. Edu & Tom/Tom & Edu (1981)

Edu & Tom/Tom & Edu

Esse é o disco que eu menos escuto dentre os dessa lista. O que não significa que eu não conheça sua importância e sua qualidade. Apenas não costumo ouvir muito. Mas tem uma maravilhosa Pra Dizer Adeus, de Edu Lobo e Torquato Neto; uma agradável Chovendo na Roseira; a gravação definitiva de Vento Bravo; tem ainda Ângela, Luiza, Canto Triste etc.

O disco é mais cantado pelo Edu, com Tom fazendo aquelas suas típicas intervenções. É obrigatório, porque aqui se juntaram dois gênios compositores tocando suas maravilhosas canções.


3. Elis & Tom (1974)

Elis & Tom (1974)

Elis & Tom é um álbum feliz. Feliz e triste. Porque ela sabia cantar as duas coisas como ninguém. E aqui ela está cantando o maior compositor do nosso tempo. Os arranjos tinham tudo pra ficar datados, mas não aconteceu isso. O disco é bem atemporal.

Além da antológica interpretação de ambos de Águas de Março, temos gravações imortais de Por Toda a Minha Vida, de Pois É (muito difícil de cantar, com uma harmonia magistral), Só Tinha Que Ser Com Você, O Que Tinha Que Ser e muitas outras.


2. Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim (1967)

Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim (1967)

Frank Sinatra era o homem que tinha mais facilidade em cantar na música americana de sua geração. Ele não costumava dedicar álbuns inteiros a um compositor, mas abriu uma exceção para o Tom. Tá certo que o disco contém umas músicas que não eram dele, mas são poucas. Os dois estão à vontade. Ou o Tom pelo menos parece (já li que ele estava nervoso à beça).

Garota de Ipanema, Dindi, Quiet Nights of Quiet Stars, How Insensitive, e Once I Loved estão impecáveis na voz do Sinatra. Tom toca violão no disco, coisa que ele gostava de evitar, preferindo o piano. Achava muito latin lover a imagem de um brasileiro tocando violão.


1. Brasileiro (1994)

Tom Jobim Brasileiro

Esse é o disco. Maravilhoso da cabeça aos pés. Tá, tenho que confessar que não gosto de três músicas. São elas Maracangalha, Maricotinha (ambas de Dorival Caymmi) e Pato Preto. Mas tem muita coisa maravilhosa. Insensatez com Sting! Querida! As instrumentais Surfboard, Meu Amigo Radamés e Radamés y Pelé. Sensacionais!

Ainda tem uma tradução para inglês e interpretação de O Trem Azul, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, uma fantástica Chora Coração e o lindo Samba de Maria Luiza.

Dentre os discos de Tom Jobim, é o que soa mais refrescante e moderno. Não à toa. Foi o último que lançou em vida. Depois teria o póstumo Inédito, de que já falei, mas pode-se dizer que esse álbum encerra de maneira maravilhosa a discografia do maior compositor de canções brasileiro dos nossos tempos. Também fecha o arco de personagem do Jobim: por fim ele nos traz um álbum conciso, pensado como uma obra só.

 

Façamos algumas menções honrosas e justifiquemos suas ausências.


Getz/Gilberto - veremos numa futura análise discográfica de João Gilberto. Esse eu não incluí porque a participação do Tom, ainda que considerável, não lhe confere autoridade sobre o álbum.

Miucha & Antônio Carlos Jobim - excelente disco, só que tem poucas músicas do Tom.

Jobim Sinfônico - disco da OSESP com obras orquestrais do Tom, é espetacular, mas foi feito bem depois de sua morte. Não acho que seja um disco dele.

A Certain Mr. Jobim - se esse fosse um TOP 11, ele entrava. É um belo disco.

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