• Nílbio Thé

top 10: livros para azeitar uma conversa literária

A função desta lista — bem como de outras que publicarei aqui — não é mostrar nada muito diferente, avassaladoramente bizarro ou absurdamente experimental. Um dia farei umas listas loucas dessas, mas não agora. A intenção é apenas ampliar o radar de buscas literárias partindo de livros, temas e artistas já relativamente conhecidos. Deste modo, aqui tem lado B de grandes escritoras e escritores, abordagens não usuais para gêneros já conhecidos, estreias de artistas da palavra — que, a meu ver, deveriam ser mais conhecidas — e livros que eu fico triste por serem erroneamente pouco lidos, ou pouco traduzidos ou editados ou debatidos em nosso país. Vamos lá!



10. O Perseguidor - Julio Cortázar

Todo mundo conhece Cortázar de livros como "O jogo da amarelinha" e "Todos os fogos o fogo". Isso faz com que esta pequena novela (ou conto grande) passe desapercebida. Ela, aliás, só não foi completamente esquecida pelo editorial (e pelos leitores) do Brasil possivelmente graças à editora mais hipster que já existiu em terras tupiniquins: Cosac Naify, que fez esta edição da foto em capa dura e, como era de praxe deles, arrojado projeto gráfico.

Eu comprei essa edição em uma daquelas míticas promoções anuais da editora — que eu passei muito tempo achando que eram lenda urbana e as pessoas na livraria riram quando descobri que era de verdade. Então procurei todos que meu bolso permitiu comprar e, dentre eles, esta edição, que não foi difícil encontrar, pois é um livro chamativo. Aliás, ele é tão bem ilustrado pelo conterrâneo de Cortázar, José Muñoz, que, quando pus minhas mãos nele, pensei se tratar de um quadrinho. Mas é prosa. E uma prosa altamente dinâmica, que narra, do ponto de vista de um jornalista crítico musical, parte da vida de um músico de jazz, o saxofonista Johnny Carter, especificamente seus últimas dias de vida. A narrativa é extremamente envolvente e detalhada, a ponto de você acreditar que Johnny Carter realmente existiu. Sob determinado ponto de vista, até que existiu sim, já que ele é baseado em Charlie Parker, por quem Cortázar nutria admiração (aliás, quem gosta de jazz mesmo vai admirar, ou pelo menos respeitar, Charlie Parker).

Este conto-novela foi publicado originalmente em 1959, na coletânea intitulada "As armas secretas". Aqui, Cortázar tenta tratar daquilo que ele considerava seu principal epicentro narrativo: o que ele chamava de "fato humano essencial". É um livro que boa parte das pessoas leria em uma tarde, em uma sentada, num longo fôlego que as páginas irão tirar. A narrativa tem uma stimmung (que pode ser "rusticamente" traduzido por "atmosfera") perfeita a ponto de ser possível sentir o cheiro dos lugares. É incrível. A tradução aqui é de Sebastião Uchoa Leite.



9. As Fenícias - Eurípedes

Este livro conta a história de um cara, um tal de Édipo, que, sem saber, mata o pai e casa com a mãe. Mas, espera, essa peça não é "Édipo Rei"? Pois é, a original, de Sófocles, é sim. Mas esta aqui é a versão feminina, na qual Jocasta — a "mãe-esposa" de Édipo — que conta o paranauê mais complicado da história daquilo que resolvemos chamar de "ocidente".

A peça em questão foi escrita por Eurípedes por volta de 411 a.C., ou seja, aproximadamente 16 anos após a estimativa de data de Édipo Rei, 427 a.C. É uma peça que tenta ser menos racional que Édipo, apelando mais à emoção. Penso que ela seria muito mais interessante se tivesse sido escrita por uma mulher, mas estamos falando da Grécia no tempo em que ela era antiga, né? Então vamos de Eurípedes mesmo.

É uma peça curta e, claro, uma tragédia, mais que literalmente falando. Dessas que acabam com a gente no final. Aí eu sempre imagino um texto desse encenado ao vivo, deve ser ainda mais doloroso. "Édipo Rei" teve várias continuações e releituras (algo que hoje o pessoal gosta de chamar de "franquia"), criando um universo narrativo próprio, mas "As Fenícias" também chegou a ter sua própria releitura por Sêneca, que escreveu uma peça homônima. Mas neste caso específico, temos um tratado sobre as paixões humanas e, talvez, até uma tentativa (extremamente datada e que envelheceu mal) de homenagear as mulheres, enaltecendo, por exemplo, sua capacidade maternal "inata". De todo modo, fazendo um recorte temporal, lembrando que é uma peça da Antiguidade, temos uma obra que ajudou na criação de arquétipos psicossociais tão importantes para a humanidade (sobretudo a "ocidental"). É um relato épico, trágico e emotivo sobre nossa desgraça. E nós sabemos que nada mais atual do que uma desgraça, né?



8. Branco neve, vermelho Rússia - Dorota Masłowska

Eu achei esse livro no acaso dos acasos. Estava na casa de um amigo debatendo um curta-metragem que estávamos produzindo e, em cima de uma pilha de coisas que estava em cima de uma caixa de som, havia esse livro. O projeto gráfico e as ilustrações eram tão bonitos, caprichados e coloridos que, por um momento, como ocorreu com o livro do Cortázar citado acima, eu pensei que fosse uma graphic novel.

Infelizmente não consegui recordar o nome do ilustrador, nem achar na internet. Se alguém souber agradeço de antemão se colocar nos comentários.

Trata-se do primeiro romance da ainda muito jovem escritora polonesa. Tem uma narrativa altamente dinâmica, rápida, vertiginosa e muito divertida, e que lembra o fluxo de ideias vomitadas em alta velocidade de "Trainspotting", por exemplo. Linguagem chula, vulgar, gírias... Um verdadeiro "videoclipe literário". Dorota também usa, genialmente, um recurso metalinguístico que eu não vou dizer qual é para não estragar a surpresa. A originalidade não é no truque em si, mas na forma como ele surge e que até hoje me marca.

É um livro divertido, intenso (e muito tenso também), muito inteligente, engraçado e jovem. Embora ele fale especificamente sobre um tipo de juventude, existe algo de atemporal nisso, algo que perpassa praticamente todos os jovens de todas (ou quase todas) as gerações. Um livro rock'n'roll de uma autora que, infelizmente, só tem este livro traduzido no Brasil. A história em si é simples: Andrzej Vermski está em crise depois de (adivinha) ser largado pela namorada Magda. Ele passa o dia se esbarrando em várias e várias mulheres interessantes em meio a teorias da conspiração, delírios e compulsão por drogas. O que o torna incrível, contudo, não é essa história meio chinfrim e batida, mas a forma como a autora a narra. Divertido, inteligente, pouco conhecido e com momentos de genialidade. Não tem como não estar nesta lista!



7. A Tenda - Margaret Atwood

Margaret Atwood ganhou um merecido lugar de destaque na cultura pop contemporânea depois que seu premiado livro "O conto da aia" virou série de TV. Mas aqui nós temos uma autora experimental, com textos curtos e deliciosamente misteriosos (aliás, foi com este livro que eu a conheci, presente da minha sogra). Em alguma medida, evoca em minha mente diversos textos curtos e deliciosos do livro "Contos de Amor Rasgados", da brasileira Marina Colasanti, mas provavelmente só pelo fato de serem curtos e absurdamente bem escritos. As narrativas não são tão curtas como as de Marina — em geral, têm entre duas e oito páginas — e nem tão fofas. São algo entre a literatura experimental e a literatura de gênero, mais precisamente o realismo fantástico ou surrealismo (roupas que sonham, por exemplo), o terror e a fantasia e um pouco de ficção científica. É como se fosse mesmo uma síntese dialética entre o seu lado "best-seller" e uma prosa poética que se preocupa apenas com a suspensão dos processos de leitura, em alguns momentos apontando para o vazio e para a leveza e, em outros, cutucando dedos nas feridas de modo que algo que pode parecer quase uma fábula é, em verdade, muito mais próximo de uma narrativa baseada em fatos reais. Não existe nenhuma preocupação intensa ou evidente de explicar fatos ou mesmo de promover explicitamente algum tipo de catarse, apenas um tentador convite de embarcar na viagem.

Um ponto forte e que deixa o livro ainda mais belo e especial é que as ilustrações (que ora são desenhos, ora poemas visuais) são da própria Margaret Atwood. Um "lado B" da autora com toda a potência de um "lado A".



6. Contos - Katherine Mansfield

Sempre que falam de grandes escritoras que exploram e vagueiam pelos recônditos da alma humana (e, claro, feminina também), fala-se em Virginia Woolf, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles agora também na Margaret Atwood (conforme consta na posição 7 aqui desta lista).

Mas que tal conferir essa maravilhosa escritora neozelandesa? Katherine Mansfield foi uma primorosa escritora de contos e outras narrativas curtas tendo influenciado pessoas do calibre da própria Virginia Woolf. Contudo, sua fama é mais restrita aos anglófonos (e olhe lá, porque mesmo entre os anglófonos a Nova Zelândia é quase um "pária", na falta de termo melhor, por ter pouco de sua cultura divulgada fora do manto de exotismo que a cerca), além de ter vivido muito pouco tempo, apenas 34 anos, o que contribui para não ser tão famosa quanto as pessoas que influenciou. Mansfield foi uma mulher à frente de seu tempo, tanto na escrita, tendo praticamente criado um estilo de conto "só seu", como na vida pessoal, tendo escandalizado algumas pessoas.

O primeiro conto deste livro, "Senhorita Brill", por exemplo, é intenso, quando parece discreto. Aliás, graças especificamente a este conto, este livro começou a fazer parte da minha vida, pois a senhorita Brill foi uma das fontes de inspiração para uma personagem teatral que criei em parceria com minha amiga Andréa Piol. Ela passou uma semana falando desse conto sem parar e o utilizamos em nosso texto. É uma beleza e de uma tremenda virtuose literária criar toda uma violência sutil e delicada... É como se lêssemos em suas linhas algo realmente semelhante a Clarice Lispector ou Virginia Woolf (que alegava que Mansfield era a única pessoa cuja escrita ela invejava), mas, nas entrelinhas, soa como um Edgar Allan Poe, um Rubem Fonseca. Incrível como cada pequeno acontecimento é gigantesco. Aliás, este conto também foi importante para a própria Mansfield, que alcançou com ele um enorme reconhecimento crítico.

Contudo, sua história de vida foi bastante triste, como a de outro gênio literário, Franz Kafka. Katherine Mansfield sofria de depressão e tuberculose, de modo que ela passou muito tempo reclusa e publicando quase nada de seus textos. Mas, se considerarmos que boa parte de seus melhores escritos foram produzidos enquanto ela estava internada em um spa europeu tratando de uma grave hemorragia em 1918 (e que a mataria em 1923), então... uau! Publicar o que escrevia era o de menos. Mansfield foi bem pouco traduzida para o português. Suas primeiras edições brasileiras datam de 1992, o que incluem três contos, que seriam parte de uma novela inacabada, e um ensaio, nunca concluído de sua transição dos contos para narrativas longas. A edição da foto é da finada editora Cosac Naify.



5. Sob o olhar do Leão - Maaza Mengiste

Bem sabemos que um artista não nasce pronto. Ele vai melhorando ao longo do tempo. Mas algumas pessoas iluminadas já arrasam logo na sua estreia, fazendo com que o conceito de obra-prima se assemelhe ao de obra máxima. É o caso de Maaza Mengiste, que impressiona de cara em seu primeiro livro, justamente este.

A história toca em um ponto sempre polêmico, sobretudo atualmente, quando todo mundo (acha que) entende de política: revolução. Particularmente, o tema política me interessa bastante; infelizmente, contudo, a qualidade de boa parte das obras de várias linguagens que tratam disso vai na contramão. Nos dias de hoje é comum explorar a política através de avassaladoras paixões cegas, de certezas absolutas e totalmente partidárias, não dando a devida importância para as micro-histórias. No Brasil, a primeira lembrança que me vem à mente numa narrativa semelhante é "Eles não usam Black-Tie", de Gianfrancesco Guarnieri, que, a partir da história de uma família, retrata o processo de uma greve, ou a partir de uma greve retrata uma família. Conflitos trabalhistas de uma indústria, tensões familiares, racismo, papéis de gênero... Está tudo ali.

No romance de Mengiste, temos, não uma greve, mas uma guerrilha marxista (Derg) derrubando Hailé Selassié descendente de uma linhagem histórica de imperadores, especificamente o 255º sucessor da linhagem do famigerado rei Salomão (lembrando sempre que a Etiópia é o país mais antigo do mundo) — afetando toda uma nação no auge dos anos 1970. Hailé Selassié, embora tenha modernizado o país, não conseguiu combater a enorme fome que assolava seu povo, sendo esse o estopim da guerrilha. E, no meio disso tudo, uma família, cuja única certeza é a da incerteza e cuja única prioridade é a a vida de seus integrantes e sua própria sobrevivência enquanto família. O patriarca, o médico Hailu, tem que lidar com a doença da esposa, o fascínio revolucionário de um dos filhos e o fascínio religioso de outro, que também enfrenta seus próprios problemas familiares. História real e ficcional de costuram, de forma coerente, racional e emotiva.

A autora e sua obra (indicada ao Pushcart Prize) foram aclamadas pela revista New York logo de cara. O que me lembra que pensei em fazer uma lista sobre grandes estreias, sabe, aquele pessoal que já na primeira obra faz um estardalhaço? Bom, mas acabei colocando a Maaza aqui nesta lista, porque, afinal, pessoas talentosas podem figurar em diversas listas. Atualmente ela já publicou três livros e vive entre a Etiópia, a Itália e os Estados Unidos.



4. A fábrica de robôs - Karel Tchapek

Peça de teatro é algo que poucas pessoas — que não são do teatro — leem. Talvez exista uma exceção disso quando falamos em uma dramaturgia muito famosa como a de William Shakespeare, Samuel Beckett e, talvez, Bertolt Brecht. E justamente por isso (também por isso na verdade) nesta lista tem duas. "As Fenícias", que citei lá em cima, e esta aqui, a segunda. Eu amo essa peça com todas as minhas forças e tenho uma enorme admiração pelo seu autor.

Karel Tchapek é tipo... uma meta de vida. Percebam: na época da Segunda Guerra Mundial, Tchapek e seu irmão Josef foram declarados inimigos públicos pelos Nazistas pelo fato de ser escritor e o irmão pintor. Depois vieram os Soviéticos e, bem, ele continuou sendo inimigo público. Em 1969, 31 anos após seu falecimento, o astrônomo Luboš Kohoutek batizou um asteroide que havia descoberto com seu nome: 1931-Capek. Ou seja: o cara irritou stalinistas, nazistas, inventou uma palavra, revolucionou a ficção científica, virou um dos escritores mais importantes em sua língua e ainda virou nome de asteroide. Nazistas e stalinistas eu já sei que irrito. Falta a parte do asteroide e de escrever alguma coisa que preste.

Mas voltemos ao livro de Tchapek... Trata-se de uma peça em três atos, que conta a história de cientistas e uma ativista de direitos "robóticos", digamos assim, dentro da fábrica de robôs Rossum. No primeiro ato, temos a apresentação do cenário, dos personagens e, bom, melhor deixar vocês descobrirem por conta própria. Embora tenha criado o termo e o conceito de robô (antes, no máximo, existia a ideia de "autômatos"), o que existe na peça são o que hoje conhecemos por "sintozoides": seres sintéticos muito mais próximos de algo orgânico que algo mecânico. Uma curiosidade é que a palavra vem do tcheco robota, que pode ser associada tanto a servo ou escravo como a trabalho forçado. Há também quem associe o termo ao conceito de mais-valia marxista. O mais interessante, porém, é que Tchapek pensou em usar o termo labori, do latim labor, mas seu irmão o convenceu de que a sonoridade tcheca era melhor. Fico imaginando nos blockbusters de ficção científica as pessoas gritando: "os laboris assassinos", "os laboris espaciais".

Uma grata surpresa ao escrever este artigo foi descobrir que a editora brasileira Madrepérola está em campanha de financiamento coletivo para uma edição lindamente ilustrada, traduzida diretamente do tcheco e com o texto adaptado ao formato de prosa, mais precisamente romance. Vou até fazer uma pausa para permitir a admiração dessa arte linda do Vitor Wiedergrun. Essa edição em questão vem com o título mais próximo do original tcheco: R.U.R. (Robôs Universais de Rossum).


Ilustração de Vitor Wiedergrun para "R.U.R.", nova versão para o texto clássico de "A fábrica de robôs".


3. Diário de Bitita - Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus é um gênio literário — ou uma gênia, se quisermos subverter a norma, algo que gênios geralmente fazem. Mas dizer que ela era genial ainda é pouco, pois ela era mais que isso: precisava escrever, era algo atávico à sua já difícil sobrevivência. Provavelmente todo mundo já pelo menos ouviu falar de "Quarto de Despejo", sua mais que incrível estreia no mundo literário, mas "Diário de Bitita" é igualmente tocante, lindo, delicado e também, ao mesmo tempo, forte. Ali entendemos, de modo poético, o surgimento, a formação desta incrível autora. Mas eu vejo muito pouca gente falando sobre "Diário de Bitita". Aqui ela fala da sua infância, adolescência e o começo da vida adulta. Aliás, o nome é porque esse era o seu apelido quando jovem. Carolina de Jesus só soube seu nome oficial quando entrou na escola.

O livro, além de ser de uma beleza pungente, é de uma verdade dolorosa. Para aqueles que não entendem — ou não querem entender — as teorias sociais do tão famoso "racismo estrutural" proferidas por acadêmicos, bastaria ler com honestidade este livro para ter todos os mecanismos para jogar fora todo e qualquer resquício de racismo que, porventura, exista em sua mente. Além da história singela, linda e, ao mesmo tempo, cruel de dentro do livro, a história do livro em si é assaz interessante. Carolina Maria de Jesus, antes de morrer, entregou dois cadernos com seus manuscritos para a jornalista Clélia Pisa. "Diário de Bitita" foi publicado postumamente (e pela primeira vez) em Paris, em 1982, cinco anos após sua morte. No Brasil, no entanto, o livro foi publicado apenas em 1986, mais uma prova de que o Brasil não liga muito para seus próprios artistas.

Maria Carolina de Jesus, ao invés de ser reverenciada por seu trabalho como escritora e compositora (e por que não dizer "socióloga"?), foi tratada por muitos críticos como uma "curiosidade estética" (a exemplo do que ocorreu com o pintor Chico da Silva), do tipo "olhe, uma escritora naïf que é catadora de lixo! Que coisa mais avant-garde!", de modo que, ao passar o sucesso de seu celebrado primeiro livro, todos voltaram aos seus afazeres de sempre, o que só reitera e comprova tudo que ela diz em seus escritos e mostra como boa parte da suposta elite intelectual brasileira é elitista, esnobe e, quase que por conseguinte dessas duas características, racista, lembrando-me que Nelson Pereira dos Santos, em "Rio, Zona Norte", tece críticas geniais a esta fauna intelectual brasileira. Voltando ao livro em questão, problemas de gênero, pobreza e racismo são alguns dos temas tratados por Bitita, com a inteligência e objetividade de uma criança que, bem sabemos, tornou-se um monstro da literatura mundial.



2. Sobre a imortalidade de Rui Leão - Machado de Assis

Todo mundo sabe que Machado de Assis é "O Cara", mas a maioria de nós conhece apenas os greatest hits do cara. Só que ele escreveu praticamente todos os gêneros, até os mais obscuros e, se bobear, deve até ter inventado alguns.

Temos aqui um tremendo lado B que a editora Plutão, especializada em ficção científica, fez o favor de publicar e resgatar nessa edição digital muito caprichada e bonita. São dois contos fantásticos — tanto por serem do gênero "fantasia", guarda-chuva que engloba terror, ficção científica e fantasia propriamente dito, como por serem, claro, fantasticamente bem escritos — que contam a história, por dois pontos de vista diferentes, de Rui Leão, um homem imortal graças a uma misteriosa poção indígena que ganhou do sogro. Claro que temos toda a ironia, inteligência e elegância de Machado de Assis que, embora não tenha criado a ficção científica ou a literatura fantástica, percebeu rápido como ninguém seu potencial metafórico e alegórico para falar da realidade e das dores humanas.

Os contos não são longos, mas somadas suas páginas a uma ótima introdução escrita por Roberto de Sousa Causo, que provavelmente é o mais profícuo autor brasileiro de ficção científica da atualidade, temos o peso de um bom livro que pode ser lido, talvez, em uma só tarde. Vale muito a pena! E como a Plutão só trabalha com publicações digitais, o livro é baratinho! Vale demais!



Capa do que, até então, era a única edição brasileira.

1. O último homem - Mary Shelley

Mary Shelley é conhecida por apenas um romance, poeticamente intitulado de "O Prometeu Moderno", mais conhecido, no entanto, pelo seu título mais simples e famoso (sim, a obra tem dois títulos) "Frankenstein". Isso não é injusto, de certo modo, já que este livro revolucionou toda a literatura e ganhou um enorme espaço na cultura pop. Nenhuma lista de elogios, por maior que seja, é suficiente para "Frankenstein", de modo que, se ela quisesse não fazer mais nada da vida depois de escrevê-la com apenas 19 anos, estaria coberta de razão. Contudo, não foi isso o que ocorreu e ela continuou escrevendo.

O problema, de certo modo, é que a absurda genialidade de seu primeiro romance acabou ofuscando praticamente todos os seus trabalhos subsequentes. Dentre eles, esta magnífica obra futurista e distópica, simplesmente sua segunda ficção científica — e, não duvido, a segunda ficção científica do mundo, já que a primeira é dela também.

A obra — originalmente publicada em três partes — tem muitas semelhanças com "Fankenstein": girando em torno de personagens perdidos em seu próprio tempo e com sublimes e detalhadas descrições de paisagens exuberantes que nada devem ao seu legado literário (ela e seu esposo, Percy Shelley, viajavam muito e boa parte de seus diários de viagem eram aproveitados por Mary Shelley em suas obras).

A história começa em 2073 e inaugura o que, no cinema, vai ser conhecido por found footage — virando um subgênero do horror —, que são os filmes que são encontrados por acaso dentro de uma narrativa, tipo o já clássico "Bruxa de Blair". Mas o que se encontra aqui é, não um filme, claro, mas um manuscrito em uma caverna na Itália.

É um livro que também é extremamente interessante, inventivo e bem construído. É também um pouco engraçado, já que o "transporte do futuro" imaginado pela autora são os balões (sim, queridos, balões!). A história tem personagens fortemente autobiográficos (alteregos dela, do esposo e de amigos, como Lord Byron), questionador da política e da humanidade, em meio a uma PANDEMIA (olha que atual! Praticamente um documentário!) e esteticamente revolucionário (Mary Shelley questiona o próprio estilo romântico de outrora).


Uma segunda e feliz descoberta que fiz nesta lista foi que a editora Plutão está preparando uma segunda versão brasileira da obra com esta beleza de capa que deixo aqui para o deleite de vocês.

















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Se você gosta de resenhas literárias, confere a resenha que a Fabi Ferraz do romance da autora sul-coreana Han Kang A Vegetariana.


Outra dica legal é a matéria sobre literatura contemporânea argentina de nossa correspondente internacional Mariana Cerrillo que você pode ler clicando aqui.




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