• Mariana Cerrillo

Sobre leituras e controvérsias: escritoras argentinas

Tradução de Rafaela Lobato


Nestes dois últimos anos, minhas leituras, por interesse ou capricho, não sei, foram reduzidas a escritoras argentinas. Algumas delas fazem parte do circuito editorial de mercado, com reconhecimento em outros países, como Samanta Schweblin ou Agustina Bazterrica, e até mesmo que habitam espaços culturais oficiais como Mariana Enriquez, atual diretora da área de Letras do Fundo Nacional de Artes.


As três são escritoras de mérito, ao meu gosto, com propostas de renovação de gênero.


Augustina Bazterrica. Foto de Martín Rosenzveig.

Bazterrica com Cadáver Exquisito, romance distópico de ficção científica sobre canibalismo, tocou o ponto exato da problemática da indústria da carne, do veganismo e, em última instância, as novas formas de conceber o humano e a reprodução, além de questionar a visão antropocêntrica diante de um crescente interesse pelo direito animal. O interessante do romance, além de sua qualidade literária, é de renovação da curiosidade sobre o gênero (também havia “mérito” de mercado nisso, também não vamos mentir) e despertou paixão/ fanatismo? em muitos leitorxs, muito interessadxs nos fenômenos que tematiza.


Mariana Enriquez. Foto de Leonardo García.

Por sua vez, Enriquez se aventura na renovação do gênero do terror com dois volumes de contos: Las cosas que perdimos en el fuego e Los peligros de fumar en la cama (As coisas que perdemos no fogo e Os perigos de fumar na cama em tradução livre), trabalhando com uma marca registrada: finais abertos, histórias aparentemente inacabadas. Com este elemento narrativo desencadeou-se uma controvérsia incômoda entre os contadores de histórias herdeiros do terror clássico, ao Poe, com seus finais fechados e a busca do efeito para quem as histórias de Enriquez são defeituosas, "mal escritas"; e aqueles que entendem os finais abertos de Enriquez como um forte compromisso com a continuidade do efeito aterrorizante na busca perturbadora (e inútil) por respostas do leitor, onde o final aberto se funde com a realidade da existência.


Samanta Schweblin. Foto de Carlos Furman.

Samanta Schweblin também renova a narrativa, mas a partir da linha cortazária do fantástico cotidiano. Ela constrói mundos perturbadores onde a realidade se torna familiar e ameaçadora, às vezes apenas com a escolha particular de um ponto de vista narrativo, ou com um forçamento dos fatos em lugares inexplicáveis do comportamento humano. Tanto em seus três livros de contos El núcleo del disturbio (O núcleo da perturbação em tradução livre), Pássaros na boca e Sete casas vazias, como em seus dois romances, Distância de Resgate e Kentukis, ela trabalha meticulosamente com a linguagem e as imagens que desencadeiam níveis complementares de leitura entre o estranho e o fantástico, admitindo o alegórico ao encerrar suas histórias; precisamente a mais interessante, eu acho, de sua literatura.


Porém muitos outros nomes interessantes, além dos ressonantes, circulam alegremente. Resgato, por exemplo, os romances de Laura Alcoba, La casa de los conejos (A casa dos coelhos em tradução livre), El azul de las abejas e La danza de la araña (O azul das abelhas e A dança da aranha em tradução livre), é uma trilogia sobre a memória dos crimes ocorridos durante a Ditadura Civil Militar de '76 na Argentina. Os três romances trabalham o relato histórico a partir da autobiografia, com uma prosa muito emocional. Também a coletânea de poemas La esposa de Sandro (A esposa de Sandro em tradução livre) e o romance Las Malas (As malvadas em tradução livre), de Camila Sosa Villada, duas obras intensas, de grande beleza poética, e ao mesmo tempo comoventes, cruas, que retratam o mundo emocional e a hostilidade em que a comunidade travesti vive.


Gabriela Cabezón. Foto de Daniel Mordzinsky.

E por falar em ressonar, abro um parêntese particular para Gabriela Cabezón Cámara, com seu romance As Aventuras da China Iron, em que ela reescreve El Martín Fierro, a obra fundadora da Literatura Argentina, a partir de uma perspectiva de gênero extremamente interessante e disruptiva da "tradição nacional". Apenas algumas semanas atrás, esta escritora se pronunciou sobre a questão dos direitos autorais e regalias da abertura de uma biblioteca virtual que compartilhava materiais protegidos por direitos autorais em formato digital sem a autorização de todxs. Cabezón Cámara pediu "pensar no outro" antes de compartilhar materiais sem permissão, e acendeu um estopim interessante para pensar sobre um tema duro que precisa, sem dúvida, estar no centro da discussão atual sobre edição, abuso e exploração do mercado editorial nestes tempos (ou desde sempre?), a democratização dos conteúdos e o acesso à cultura. Essa polêmica dividiu as águas entre colegas e trabalhadorxs da cultura, baixou os polegares, agrupou bandeiras e não deixou ninguém indiferente vinculado ao mundo literário e cultural.


Selva Almada, por exemplo, autora de uma excelente não ficção intitulada Chicas Muertas, e do romance Ladrilleros, duas obras que recomendo vivamente, saiu em defesa daqueles escritores que se sentiram prejudicados pela situação, expressando a sua solidariedade com eles, e sua raiva com aqueles que, sendo colegas, compartilham as obras de outrxs sem a menor objeção.


Parece que algumas coisas estão começando a ressoar e se mover dentro dos espaços de poder em que a cultura está organizada. Não apenas Cabezón Cámara abriu a polêmica, Mariana Enriquez também estava no centro da tempestade meses atrás devido a uma decisão surpresa dentro do mundo literário. O Concurso de Letras do FNA, cobiçado e esperado a cada ano por milhares de escritorxs, costumava incluir todos os gêneros, mas neste ano ele se restringiu aos gêneros de ficção científica, terror e fantasia, formas preferidas de Enriquez. Esta decisão gerou uma longa lista de denúncias contra ela, contra a Instituição e as políticas públicas de promoção e divulgação da cultura.


Alejandra Kamiya. Foto de Carlos Villoldo.

Por fim, gostaria de mencionar, e além da polêmica, uma escritora fascinante e não tão ressonante quanto os nomes anteriores. Alejandra Kamiya é autora de dois belos livros de contos: As árvores caídas também são a floresta e O sol move a sombra das coisas (títulos em tradução livre). Nesse período de leitura que dediquei arbitrariamente às escritoras, os contos de Kamiya foram uma porta estranha que me conduziu ao poético por meio da narrativa. As histórias nesses livros são profundas e humanas. Contam com a delicadeza com que seguramos um pássaro nas mãos. Algumas são histórias muito tristes, outras muito simples na aparência, mas que se conectam com uma visão filosófica da existência. As imagens que ela constrói são belas, pura poesia. Até os silêncios são lidos. E encontrar dois desses livros de contos nestes tempos de ansiedade garantida e gritaria é um oásis de leitura.


Portanto, aqui estão minhas modestas recomendações de leitura sobre escritoras argentinas, incluindo polêmicas que valem a pena ler e acompanhar nas redes sociais, para todxs vocês.

* Infelizmente de todas essas autoras e livros resenhados, apenas Mariana Enriquez foi editada no Brasil (As Coisas que perdemos no fogo pela editora Intrínseca).


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Gostou? Quer ler mais sobre mulheres na literatura contemporânea? Aqui tem a resenha do um livro incrível de uma autora da Coréia do Sul.



Mariana Cerrillo

Mariana Cerrillo vive. É suficiente. Ela estudou Literatura, mas esqueceu algumas coisas. Gosta de conversar muito com alunos, amigxs e pessoas que a convidam a pensar e rir. Escreve e pesquisa. Às vezes, desenha. Nunca fica entediada.


Rafaela Lobato


Cyber poeta. Camaleoa que muda de cor de cabelo do neon ao branco. É da noite e do dia, leva o skate debaixo do braço por onde vai e não dispensa uma boa música brasileira. Tradutora de inglês, espanhol e italiano.

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