• Nílbio Thé

O nó de Rubem Fonseca


Divulgação

Rubem Fonseca morreu. Ele morreu e a Regina Duarte nem se deu conta disso na breve passagem pela secretaria (que era um Ministério da Cultura e que, aliás, eu comento e critico aqui). Mas quem foi Rubem Fonseca mesmo?


Dizer que Rubem foi um escritor ou, ainda, o maior expoente da literatura policial brasileira, um neonoir tupiniquim, um dos grandes escritores do século XX de nosso país... Bom, tudo isso já foi dito e é até meio clichê (não que eu odeie clichês) e, talvez, justamente por esta razão não tenha vontade de falar desse aspecto que, potencialmente, quase todo mundo já sabe: é o básico.


A desculpa de usar o Rubem Fonseca no título (e, de quebra, nessa linda foto de cabeçalho) foi o seu potencial alegórico e metafórico, além, claro, de poder homenagear um dos meus escritores preferidos desde a época em que eu tentei ser jovem.


Rubem foi policial (neste artigo da revista Fórum podemos ver mais detalhes sobre sua formação), porque acho que, com exceção de Paulo Coelho, ninguém consegue ser escritor em tempo integral no Brasil. Nas horas vagas ele escrevia. E, como um artista só consegue criar a partir do que conhece, ele escrevia histórias policiais cheias de violência, vingança e escatologia.


Como boa parte dos policiais que trabalharam nos anos 60 (quero deixar claro: não todos, mas boa parte, mas não todos, mas boa parte...) Fonseca foi um convicto anticomunista e ser anticomunista na ditadura militar era quase sempre sinônimo de delator, espião e torturador. Pelos documentos levantados, Fonseca fez parte da minoria anticomunista que não torturou nem delatou ninguém.


Marcelo Rubens Paiva - outro grande escritor por quem nutro admiração - escreveu um ótimo artigo para o Estadão sobre isso. Marcelo é filho do emblemático engenheiro e deputado federal Rubens Beydrot Paiva assassinado na ditadura militar por Antônio Fernando Hughes de Carvalho e, por incrível que pareça (e esse é o cerne da questão que tento trazer aqui) admirador da estética fonsequiana. Ou seja, Marcelo Rubens Paiva tinha tudo para queimar todos os livros de Rubem Fonseca, mas é maduro o suficiente para perceber a complexidade das coisas.


Estamos num período mais uma vez conturbado, onde muitas pessoas, sobretudo jovens, jogam certezas uns nos outros como se fossem pedras envoltas em arames farpados. E aí existem pessoas que param de ouvir os discos de um determinado artista porque descobriram que, em 1978, aquele artista bateu no carro de um vizinho de uma prima de não sei quem e fugiu sem pagar pelo prejuízo. Os artistas precisariam serem puros para serem admirados. Analisemos, pois, quem admirava Rubem Fonseca.


Fonseca era extremamente bem quisto pelos militares por seus serviços prestados pela fundação do instituto Ipês, cuja formação ideológica serviu de base política e cultural para o golpe (do qual Rubem, posterior e publicamente, repudia) como podemos verificar também neste excelente artigo do site Zona Curva.


Quando escrevo formação ideológica básica para o golpe, leia-se: a função do Instituto Ipês era desestabilizar o governo João Goulart. Todos sabem o que aconteceu depois, mas aqui só para podermos dar claramente nome "aos bois": ditadura militar.


Longe de mim dizer que João Goulart era comunista (nunca acreditei nessa narrativa) de fato, ou que seu (extremamente breve) governo foi maravilhoso ou horrível (nem tenho fundamento para isso). Mas apoiar uma ditatura que, como tal, derramou muito sangue inocente, aí já é demais.


Voltando ao assunto... Rubem Fonseca era respeitado pelos militares enquanto pessoa, apesar de sua obra sempre polêmica, chocante e perturbadora, essa dualidade, portanto causava desconforto entre os mesmos militares que o respeitavam.


Um conto que acho arrebatadoramente violento de Rubem, O Cobrador, pode ser perfeitamente interpretado como uma obra de denúncia sobre a exclusão social que fabrica boa parte dos bandidos que conhecemos. Já os contos Passeio Noturno 1 e 2 mostram outra face da violência: a da classe abastada que literalmente atropela os marginalizados que ela mesma produz. Nascemos para a violência como profetizaram Arthur C. Clarke e Stanley Kubrick no prelúdio de 2001, uma Odisséia no Espaço.


A despeito disso, Rubem Fonseca parecia ter uma espécie de dupla personalidade. Lembro que, anos atrás, na minha primeira especialização, foi citado o caso de um TCC em que a autora (creio que era uma autora) defendia algo no texto e, nas notas de rodapé, defendia o contrário. Eu achei isso fascinante (a despeito de uma possível bipolaridade, esquizofrenia ou falta de atenção). Ocorre que é mais ou menos isso que podemos presumir de Rubem Fonseca. Rubem era o escritor transgressor, ousado, violento, agressivo e subversivo que afrontava a moral e os bons costumes.Fonseca era igualmente um autor e um ideólogo a serviço de algo que se revelou um grande golpe militar.


Desse modo, estamos diante de um verdadeiro nó ideológico. Se abrirmos mão de boa parte de nossas certezas e percebemos como a realidade é, de fato, complexa, a coisa fica bem mais fácil. Sim, porque complexo não é necessariamente algo difícil e o simples, muitas vezes, não é fácil. Mas nesse mundo que cada vez mais segmenta, Rubem Fonseca vira essa criatura que boa parte da "intelligentsia" jovem e militante não suportaria engolir sem estar disposta a sofrer de indigestão ideológica. Porque a arte dele potencialmente diz uma coisa, enquanto seu comportamento civil diz o oposto.


Interessante, não? Ainda mais quando a própria obra dá margem para múltiplas interpretações. E digo isso porque, sob algum aspecto, quão melhor é uma obra de arte, mais "níveis de leitura" ela tem. Além disso, a arte é esse mistério eterno por nunca dizer nada diretamente. Mas é claro, que do mesmo modo que um artista cria a partir do que conhece (como falei acima), nós interpretamos as coisas a partir do que conehcemos também, e do que acreditamos, mas já, já chego nessa parte. O fato é que no momento em que ela, a obra de arte, diz algo diretamente, você acaba com todas as demais possibilidades interpretativas dela. Entretanto, melhor do que explicar é exemplificar: Publicamos aqui um Top 10 de Sinfonias "imprescindíveis" para quem quer se aventurar no mundo da música clássica. Sugiro ler, especificamente, sobre a Sinfonia número 5 de Dmitri Shostakovich. E aí, trazendo essa questão para o Rubem Fonseca, pergunto: Será que O Cobrador fonsequiano está falando de tudo que a sociedade capitalista tira dos pobres ou está apenas validando politicamente a violência?


Como disse, a vida é complexa e militar em nome de causas, parece, cansa. E quando digo militar não falo da militância política raivosa, festiva e mística da internet (inclusive ddos militantes que "militam errado"), mas falo da militância estética, o artista que está sempre destruindo, provocando e reconstruindo as estéticas. Isso gasta tanta energia que a vida pessoal do ser humano vira um marasmo conservador (no pior sentido do termo), quando não raivoso. Solto essa questão aqui porque, falando dessa dicotomia artista-obra (que, muitas vezes, se complementam e em outras se contradizem), não faltam exemplos que encontramos com facilidade, formando uma lista interessante (nada pequena) de artistas que foram esteticamente transgressores e politicamente conservadores. Um exemplo que ainda me assusta um pouco é o de Glauber Rocha, que elogiou publicamente um dos grandes líderes e mentores do golpe militar de 1964: Golbery do Couto e Silva, além de Ernesto Geisel. E eu não vejo nenhum jovem membro da intelligentsia militante que busca a todo custo o unicórnio stalinista sagrado da pureza revolucionária consagrada e lacradora boicotando Glauber e o motivo óbvio é que se boicotarmos Gláuber, abre-se um enorme vácuo no cinema brasileiro, que ficaria sem seu principal referencial marginal, tropicalista, político e vanguardista. Sem Gláuber sobraria no cinema apenas Mário Peixoto passível de reverência como artista disruptivo, mas o cara só fez um filme, aí fica foda.


Exemplos fora do Brasil também não faltam e um particularmente instigante é o do beatnik canadense Jack Keruac que, como todo bom beatnik, foi um dos pilares fundadores da contracultura norteamericana (tornando-se depois o que comumente muitos chamam de "cultura jovem") e que, segundo relatos biográficos diversos, era uma pessoa quieta, chata, católica e conservadora. Existe inclusive um site chamado The American Conservative (não vou deixar linque porque não sou realmente obrigado), que faz uma análise no mínimo interessante sobre como seu conservadorismo e a busca por seu Deus Católico guiaram sua literatura, apenas confirmando que boas obras, em geral, têm múltiplas interpretações.


Existe, ainda, o polêmico e controverso caso da escritora, roteirista e atriz Thea von Harbou que, apesar do trabalho incrível como o romance Metrópolis (originando o filme homônimo roteirizado por ela e o diretor, seu esposo à época, Fritz Lang) teve um mal explicado envolvimento com o nazismo. Segundo Thea, ela se filiou ao partido para proteger seu esposo indiano, mas o caso é realmente tão complexo que a edição brasileira de seu mais famoso romance traz uma espécie de isenção/justificativa/explicação da editora sobre seu envolvimento com o partido hitlerista de modo a evitar romantizações sobre o caso.


Outros dois exemplos na música pop internacional são Morrissey principal compositor e idealizador do Smiths e John Lydon/Johnny Rotten.


Johnny Rotten. Imagem Mega

Lydon (também conhecido como Johnny Rotten) além de fã declarado do transgressor social (esteticamente bem mais conservador) Oscar Wilde, Rotten foi simplesmente vocalista do Sex Pistols. Não faz muito tempo, ele foi flagrado com uma camiseta de apoio a Donald Trump. Especificamente sobre Lydon, que fez fortuna negociando propriedades a partir do seu capital inicial advindo do cachê de sua carreira musical (algo no mínimo contraditório para alguém que se vendia como punk), eu não tenho como dizer nada muito além de que eu sempre considerei o movimento punk uma grande farsa (sim, uma grande mentira capitalista) a despeito de um punhado de músicas que julgo divertidas e de sua inegável importância na cultura new wave dos anos 80, além de uma potente influência na literatura, nos quadrinhos e cinema marginais dos anos 70 (eu posso escrever um texto detalhado depois, ao menos para não me acusarem de polemista gratuitamente). O fato é que pouquíssimos artistas, a meu ver, podem ser verdadeiramente classificados como "anarco-punks", então Lydon é apenas mais uma prova do que penso: ele nunca foi punk. Ou apenas um "rebelde sem causa" (como a canção do Ultraje a Rigor) que apenas queria chocar os pais quando jovem. Já Morrissey anda colecionando declarações racistas e xenófobas (sobretudo com relação a asiáticos) enquanto posa de bom moço da causa vegana (alguém lembra do Dado Dolabella? Ele alegou recentemente ter descoberto - após virar vegano - que na época em que bateu na esposa a causa disso foi seu excessivo consumo de carne que o tornava violento, pois a carne é um alimento advindo da violência e deixa essa marca "energética" na comida). E quero salientar (porque hoje em dia precisamos salientar tudo) que não tenho nada contra veganos (e vou até dizer a famosa frase "até tenho amigos que são"), mas uma coisa não tem nada a ver com a outra, mesmo que você queira que tenha.


Além disso, soube da campanha do Eric Clapton contra o isolamento social necessário ao enfrentamento da pandemia do coronavírus, mas que veio junto ao resgate de falas racistas e xenófobas dele. Ou seja: exemplos sobram. Bem mais do que eu gostaria. O último é brasileiro: Elba Ramalho que fez parte de um grupo que renovou a MPB no anos 70 entrou numa de fazer discursos lisérgios sobre os cristãos serem a última muralha de proteção da sociedade contra o comunismo.


Agora voltemos a Rubem Fonseca... Sabe aquela frase de que quando Pedro fala de Paulo eu sei mais de Pedro que de Paulo? É mais ou menos assim que as coisas na chamada "teoria do leitor" se processam. Antes, as pessoas se calcavam no que genericamente chamamos "teoria do autor" e tentavam esmiuçar todas as possibilidades de significados que um autor ou uma autora tinha colocado em suas criações. Goethe tripudiou isso de forma incrível em seu texto O Conto da Serpente Verde e da linda Lily (conhecido apenas por "O Conto" - em alemão, Das Märchen): disse que quando 52 interpretações tivessem falhado, ele diria o "real" significado dessa obra, espécie de precursora do surrealismo. Bom, ele morreu antes. Mas a dica foi 52, o número de cartas de um baralho, e o conto era visivelmente inspirado no tarô. Perceba: quando alguém lê os contos de Rubem Fonseca (e de qualquer outra pessoa) ela está colocando ali sua visão de mundo. Quando o personagem Cobrador de Rubem Fonseca ameaça o dentista logo no início do conto, você fica do lado de quem? Aliás, consegue escolher um lado? Acha necessário escolher um lado?


Em seu conto Curriculum Vitae, publicado no livro de estreia Os Prisioneiros, em 1963 (e um dos meus contos preferidos dele e de tudo que li já na vida), Rubem fala que "todo homem é uma ilha, vamos deixar de poesia". Seria isso? Cada pessoa em seu universo particular interpreta como lhe convém, de acordo com suas crenças e sabe "dosar" essas crenças, afinal, cada texto tem um contexto. Em outras palavras, uma coisa é uma tatuagem de um símbolo viking no braço da Björk, outra uma tatuagem viking no braço daquele seu primo que enche a boca para pronunciar erroneamente o sobrenome alemão do tio-avô dele de Blumenau e que tem um suspeito interesse em temas da II Guerra Mundial.


Bom, em algum momento eu vou precisar concluir esse texto, e algo me diz que é agora... O fato é que nosso cérebro tem dois hemisférios e isso pode ser uma grande metáfora para como entendemos o mundo, já que um tende mais ao que chamamos de "emoção", enquanto o outro tende ao que chamamos de "razão". A política e a arte transitam com facilidade entre essas duas searas de nossa vida pessoal e social. Particularmente, prefiro quando a política se baseia mais na razão enquanto a arte se baseia mais na emoção, mas é claro que tanto razão como emoção estão presentes em tudo. A realidade é complexa e não precisamos ter atestado de pureza ideológica de todo mundo que a gente consome.


O fato é que é perfeitamente possível, em diversos casos, separar autor e obra em diferentes graus, mas penso que o mais importante, ao se consumir um bem simbólico, é ter em mente que sua interpretação daquilo não é a única verdade sobre aquela obra. Verdades existem aos borbotões. Rubem Fonseca é um escritor genial, a despeito de ter sido um ser humano um pouco mais equivocado que a média (para usar um eufemismo educado).



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A lista citada das 10 Sinfonias que você precisa escutar que publicamos no Topping Toppers está aqui!


Se você gosta de artigos sobre literatura, aqui também tem uma lista interessante sobre 10 livros fora da caixinha.


Mas se você gosta mesmo de conteúdos políticos, sobretudo os que falam de como a política se infiltra em várias camadas de saber, existem vários na nossa sessão Neurônio Cult! E também um artigo muito interessante de um dos nossos colaboradores em política aqui.


Nílbio Thé


Editor do site.

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