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História da Música 4 - Romantismo, Vol. 3 - A Música de Programa

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    Rafael Torres
  • há 2 dias
  • 10 min de leitura

Por Rafael Torres


(Atenção, "Música de Programa" nada tem a ver com "Garota de Programa".)


A principal característica da música do romantismo é o seu idiomatismo. Mas isso é lógico! Explico: no Romantismo começou-se a escrever música para descrever um texto, uma história, ou uma impressão. Uma música que, sozinha, refletisse o que quer que o compositor sonhasse!



Mendelssohn


Um dos primeiros casos disso é o poema sinfônico "As Hébridas (A Gruta de Fingal)", de Felix Mendelssohn-Bartholdy. Apesar de se tratar de um poema sinfônico, ele a chamou de abertura, pois o termo poema sinfônico seria criado décadas depois.


Escute o poema e sinta exatamente o que Mendelssohn sentiu ao visitar a caverna de mesmo nome na Escócia. A interpretação é da Orquestra Sinfônica de Londres sob a regência de John Eliot Gardiner.



Precedentes


Claro que a ideia de se compor baseado em um fator extra musical, já existia antes: temos, no barroco, "As 4 Estações" de Antonio Vivaldi.


Veja o "Outono", na interpretação do grupo Voices of Music.



Temos também o "Capricho para a partida de um irmão querido", de Johann Sebastian Bach. Veja abaixo, na interpretação do maravilhoso pianista húngaro András Schiff.



Ludwig van Beethoven


No Classicismo, essa história ia assim, incipiente. Até que, em 1808, Ludwig van Beethoven escreveu a sua "Sinfonia Pastoral", a de número 6. Nela, Beethoven descreve seus inúmeros episódios (ou passeios) na natureza.


Os movimentos são:

- "Despertar de sentimentos alegres na chegada ao campo" - Allegro ma non troppo;

- "Cena no riacho" - Andante molto mosso;

- "Feliz reunião de camponeses" - Allegro;

- "Trovão, tempestade" - Allegro;

- "Canção dos pastores. Sentimentos de graça após a tempestade" - Allegretto.


Escute, abaixo, o 1º movimento, com a Orquestra Sinfônica Simón Bolivar, regida por Gustavo Dudamel.



Depois, Beethoven tentou tirar o corpo para fora, afirmando que a sinfonia era "mais uma expressão de sentimento do que pintura". Mas estão lá, todos os títulos dos movimentos. E eles fazem, sim, alusões programáticas.


Tanto que, em 1940, Walt Disney e o maestro Leopold Stokowski (e a Orquestra de Filadélfia) a elegeram para a animação "Fantasia".


Cena do filme "Fantasia", de Walt Disney
Cena do filme "Fantasia", de Walt Disney

(Parêntesis para Fantasia

No final dos anos 30, Walt Disney quis empreender. Mais do que um filme, Fantasia seria um formato. Todo ano (!) eles fariam um longa-metragem nesses moldes: pegariam obras inteiras e fariam animações sobre elas (fossem descritivas ou não. como é o caso da , uma orquestração de Stokowski da "Tocata e Fuga em Ré Menor", de Johann Sebastian Bach).


Não foi sem dificuldades, que o projeto se deu. O som tinha que ser impecável e estéreo. Para isso, Disney e a RCA desenvolveram o fantasound, o primeiro sistema capaz de tal aventura em uma sala de cinema. Mas nem todas as salas de cinema dos EUA o tinham, Disney teve que o instalar em tempo recorde, em Nova Iorque, para a estreia. Depois, Los Angeles, Boston, Filadélfia, Chicago, Detroit, San Francisco, Baltimore, Washington, Minneapolis, Buffalo, Pittsburgh e Cleveland.


O filme deu certo, o projeto, não. Porque o próximo lançamento só viria no ano 2000, com Fantasia 2000. Que já não é tão legal, porque pegaram recortes de músicas (algo com que nem Disney, nem Stokowski jamais concordariam). E as animações, embora magníficas, são digitais (feitas por computador).



Fecha parêntesis para Fantasia)

Hector Berlioz


Pois bem, a obra de Mendelssohn viria em 1830. No mesmo ano, mais tarde, teríamos uma das obras programáticas mais emblemáticas da história: a "Sinfonia Fantástica", de Hector Berlioz. Nela, Berlioz descreve (sem palavras) momentos na vida de um artista. Com uma ideia fixa representando a mulher amada. Os movimentos são:


1. Rêveries - Passions (Devaneios - Paixões);

2. Un Bal (Um Baile);

3. Scène aux Champs (Cena no Campo);

4. Marche au Supplice (Marcha ao Suplício);

5. Songe d'une Nuit du Sabbat (Sonho de uma Noite de Sabá).


Veja, no vídeo abaixo, a sinfonia completa, regida por Esa-Pekka Salonen, com a NDR Elbphilharmonie Orchester.



Ou apenas o 4º movimento: a Marcha ao Suplício, regida por Simon Rattle, com a Orquestra Sinfônica de Londres.



Talvez seja interessante perceber que não se trata de uma marcha fúnebre, mas de uma espécie de marcha pré fúnebre. O artista está sonhando que se matou e está sendo conduzido à guilhotina, mas não está morto. Ele está, digamos, embebido em ópio.


Igualmente importante é perceber que Berlioz nos deixou um belo montante de aberturas. As Aberturas de Ópera não serviram como introdução a estas, mas como uma espécie de cartão de visita da ópera em questão. Eram obras puramente sinfônicas que costumavam ser tocadas em concertos, despojadas da ópera em questão.


Delas, evoluíram a Abertura de Concerto - que já é, basicamente, um poema sinfônico (antes de Liszt cunhar o nome).


De Berlioz temos, dente as mais famosas:


- Waveley;

- O Franco Atirador;

- O Rei Lear;

- Benvenuto Cellini;

- Le Corsair etc.


São obras extremamente bem orquestradas (vale lembrar que Berlioz escreveu, em 1844, um "Tratado sobre Instrumentação", um dos primeiros livros sobre orquestação de que se tem notícia).



Franz Liszt


O termo "Poema Sinfônico" foi cunhado pelo compositor húngaro Franz Liszt. Foi assim que ele definiu seus 13 Symphonische Dichtung (literalmente, 13 Poemas Sinfônicos).


Dentre estes temos Ce qu'on entend sur la montagne (O que se ouve na montanha), Tasso: lamento e trionfo (sobre poema de Lord Byron), Les préludes (sobre poema de Alphonse de Lamartine), Prometheus (baseado na literatura Grega) e Hamlet (naturalmente, sobre o personagem de Shakespeare).


Veja, abaixo, uma interpretação de Les Préludes regida por Otto Tausk com a Orquestra Sinfônica de Galícia.



Poema Sinfônico ou Abertura?


Não há consenso sobre o que é "Poema Sinfônico" ou "Abertura". Basicamente, adota-se o que o compositor anotou. O que existe é um consenso sobre o termo (Poema Sinfônico). Este sim, foi cunhado por Franz Liszt, a partir de 1841.


Depois


Joachim Raff


Depois de Liszt, parece que uma porta se abriu. O suíço Joachim Raff não é dos compositores mais famosos, mas são muito respeitados os seus Prelúdios Shakespearianos. São eles "Othello", "Macbeth", "A Tempestade" e "Romeu e Julieta".


Confira "A Tempestade" com a Orchestre de la Suisse Romande, regida por Neeme Järvi.



Bedřich Smetana


Compositores como o tcheco Bedřich Smetana, cerca de 12 anos mais jovem que Liszt, fizeram séries de Poemas Sinfônicos. No caso de Smetana, ele escreveu uma série de 6, chamados Má Vlast (Minha Pátria), dos quais o mais famoso é "O Moldava", sobre o rio que banha a cidade de Praga.


Veja "O Moldava" na interpretação da Gimnazija Kranj Symphony Orchestra, regida por Nejc Bečan. Repare na orquestração, desde o início, com a troca sutil entre as flautas.




Mily Balakirev


O compositor Russo Mily Balakirev foi outro que escreveu (poucos, mas admiráveis) poemas sinfônicos. "Russia" e "Tamara" são os mais conhecidos. Além de "Islamey", sua obra mais conhecida, escrita originalmente para piano, orquestrada por Alfredo Casella.


Veja, abaixo, a excelente orquestração de Casella para a "Islamey", com o maestro Gianandrea Noseda regendo a Orquestra Sinfônica de Londres.



Pjotr Ilyich Tchaikovsky


A partir de Tchaikovsky, na segunda metade do século XIX, começa a era do Poema Sinfônico. Ele mesmo escreveu "A Tempestade" (também inspirado em Shakespeare), "Hamlet" (igualmente), "Francesca da Rimini" (sobre o personagem da Divina Comédia, de Dante Alighieri), "Fatum" (Destino) e muitos outros.


Acompanhe, abaixo, "Romeu e Julieta", com a Orquestra da Rádio de Frankfurt (hr-Sinfonieorchester), regida por Adrés Orozco-Estrada.



Antonín Dvořák


Nascido na República Tcheca, em 1841, Dvořák escreveu diversas obras com esse viés. Nacionalista que era (assim como Smetana), sua obra está repleta de ritmos e melodias tchecos, mas em algumas ele imbuiu algo mais: histórias do folclore de seu país. Iniciou com Můj domov (Minha terra), em 1881-1882. Esta não tem história, mas é um poema sinfônico pela sua natureza descritiva. Em 1887, entregou-nos os 12 Ciprestes, ataptados de canções mais antigas suas sob poemas de Gustav Pfleger Moravský. São como Poemas para Quartetos de Cordas. E, a partir de 1891, veio com "No Reino da Natureza", que continha três poemas sinfônicos: um, de mesmo nome, os outros, as Aberturas "Carnaval" e "Otelo".


Em 1894, num surto, compôs 4, seus mais conhecidos: "O Duende das Águas", "A Feiticeira do Meio-Dia", "A Roca de Ouro", "A Pomba Selvagem", "O Canto do Herói"... Só parou porque, em 1904, morreu, na sua querida Praga.


Escute (num vídeo em que não precisamos usar os olhos), por exemplo, Polednice ("A Feiticeira do Meio-Dia") de Dvorák, com Neeme Järvi e a Orquestra Nacional Escocesa.



Richard Strauss


Talvez o ápice do Poema Sinfônico tenha se dado com Richard Strauss. Os seus eram imensos, chegando, facilmente a uma hora de duração. Alguns são em um único movimento, como "Metamorfoses" e outros, têm vários, como "Uma Sinfonia Alpina" e "Don Quixote" (este último emprega instrumentos específicos para ser a voz de um personagem. O violoncelo solo - sempre creditado e sentado à frente da orquestra -, por exemplo, é a voz de Dom Quixote, enquanto a viola solo - às vezes, creditada, outras, não -, faz a voz de Sancho Pança).


Veja uma performance da peça, abaixo, com a Orquestra Gürzenich de Colônia, regida por François-Xavier Roth e com Jean-Guilhén Queyras ao violoncelo.


(Dom Quixote já foi gravada pela Filarmônica de Berlim, sob a batuta de Herbert von Karajan e com o pernambucano Antônio Meneses ao violoncelo.)



Outro exemplos de poemas sinfônicos


Temos, de Sergei Rachmaninoff, "A Rocha" (1893) e "A Ilha dos Mortos" (1909). De Paul Dukas, "O Aprendiz de Feiticeiro" (1897). De Heitor Villa-Lobos, "Uirapurú" (1917-completado em 1934). Os Russos, especialmente, se adequaram perfeitamente ao formato (ou o fizeram se adequar). Desde Mikhail Glinka, passando por Mussorgsky, Balakirev, Rachmaninoff, Prokofiev e Shostakovich, (falaremos mais sobre eles no próximo capítulo: o nacionalismo).


Veja, abaixo, a excelente interpretação do maestro Neil Thomson, com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, de "Uirapuru".




Considerações finais


No final das contas, grande parte da música erudita que consumimos, é programática. Porque ela é narrativa (geralmente), sem ser óbvia. Ela deixa espaço para a imaginação do ouvinte, muitas vezes, sugerindo o tema apenas no título.


Gravações recomendadas


- Ludwig van Beethoven - Sinfonia Nº 6, "Pastoral" - George Szell, regendo a Orquestra de Cleveland. Não gosto de me ater a gravações antigas. Eu as acho muito (ahm...) antigas. Mas esta, de 1962, me parece a "Pastoral" das "Pastorais". Se quiseres uma versão um pouco mais moderna, procura a de Carlo Maria Giulini, regendo a Filarmônica de Los Angeles, de 1980. A mais moderna que eu posso recomendar é a de Daniel Barenboim, com a Staatskapelle Berlin. Do ciclo do ano 2000.


- Felix Mendelssohn-Bartholdy - A Gruta de Fingal (As Hébridas) - Claudio Abbado, regendo a Sinfônica de Londres. De 1985, esta gravação é excepcional. Pertence a um disco com várias das "Aberturas" de Mendelssohn. Abbado estava no topo, tornar-se-ia regente principal da Filarmônica de Berlim, em 1989 e a Sinfônica de Londres estava em seu auge.


- Hector Berlioz - Sinfonia Fantástica - Orquestra de Cleveland, sob a regência de Christoph von Dohnániy. Quase difícil de escolher, a gravação definitiva (por enquanto) da Sinfonia Fantástica é essa, de 1989. Dohnániy pede bom gosto onde ele cabe e empolgação onde é bem-vinda.


- Franz Liszt - Symphonic Poems - George Solti conduzindo a Orchestre de Paris e a Filarmônica de Londres. Contendo 3 Poemas Sinfônicos de Liszt (Tasso, Lamento e Trionfo, Les Préludes e Prometheus) e a Valsa Mefistófeles nº 1 (em versão orquestrada pelo compositor, pois se tratava de uma peça para piano), é um disco sensacional. Gravado entre 1975 e 1986, é conciso, graças à masterização impecável dos engenheiros da Decca.


- Franz Liszt - Orchestral Works: The Weimar Symphonic Poems - Com a Orquestra do Gewandhaus de Leipzig, regida por Kurt Masur. Contendo quase todos os poemas sinfônicos de Liszt (Tasso, Lamento e Trionfo, Les Préludes, Orpheus, Prometheus, Mazeppa, Hungria, Hamlet etc.), este disco é uma pérola. De 1981, traz um som cristalino e um repertório magistral.


- Joachim Raff - Sinfonia Nº 2 e 4 Prelúdios Shakespearianos - Com Neeme Järvi e a Orchestre de la Suisse Romande. Como estamos a falar de Poemas Sinfônicos, eu me aterei a eles. Mas preciso dizer que a Sinfonia Nº 2 tem, aqui, sua provável melhor versão. Os 4 Prelúdios Shakespearianos são Poemas Sinfônicos baseados em obras de William Shakespeare. São eles: A Tempestade, Macbeth, Romeu e Julieta e Otelo. Gravado em 2012 e lançado em 2013, é um dos discos mais recentes da farta discografia de Järvi.


- Bedřich Smetana - Minha Pátria (Má Vlast) - Orquestra Filarmônica Tcheca, regida por Jiří Bělohlávek - É difícil para nós, (brasileiros), e da atualidade, compreender o que é "música exótica". Smetana foi um dos primeiros compositores nacionalistas do romantismo, sua música mistura requinte com patriotismo. Orquestração impecável com temas populares da República Tcheca.



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A Arara Neon é um blog sobre artes, ideias, música clássica e muito mais. De Fortaleza, Ceará, Brasil.

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