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  • Foto do escritorRafael Torres

Beethoven - Sinfonia nº 4 - Análise

Espremida entre a grandiosa 3ª ("Eroica") e a famosíssima, a 4ª Sinfonia, em Si Bemol, Op. 60 de Ludwig van Beethoven (1770-1827) é uma obra magna que ficou à sombra dessas duas. Mas não por seu teor musical. Ela pode ser vista como um progresso em relação à e é, também, um passo em direção à . Se soubermos olhar da maneira apropriada.


Em 1806, Beethoven e seu amigo e mecenas, o Príncipe Lichnowsky estavam passando o verão na casa deste na Silésia (uma região que se distribuía entre o que hoje são Polônia, República Tcheca e Alemanha). Foram visitar um amigo do príncipe, o Conde Franz von Oppersdorff. Esse conde tinha uma orquestra, e Beethoven o apresentou sua 2ª Sinfonia. Admirado, o Conde encomendou uma nova obra ao compositor. Beethoven já estava esboçando a 5ª, mas, em vez de usá-la como a peça encomendada, ele suspendeu o trabalho para compor essa que seria a 4ª.



Agora, notem bem: ele não tocou para o Conde a 3ª Sinfonia. Isso se deve, provavelmente, ao fato de que ele tinha consciência de que se tratava de uma obra transgressora e ousada demais para a sua época. Mesmo em Viena ela causara alvoroço. Isso indica que talvez ele soubesse estar na presença de um conservador, o que explica por que ele não o ofereceu a 5ª, que já estava iniciada. Era uma obra emocionalmente carregada, absolutamente Romântica, coisa com que a Europa ainda estava se acostumando. Imagina-se que tenha optado por oferecer um trabalho um pouco mais sutil.


Mas isso não significa que ele tenha feito da Quarta uma sinfonia fácil ou modesta. Na verdade, a obra tem vida própria e méritos próprios.


Como era uma obra comissionada, teve duas estreias: a privada (surpreendentemente não na casa do Conde que a encomendou, mas na de outro patrono de Beethoven, o Príncipe Lobkowitz), em 1807; e a pública, no Burgtheater de Viena, em abril de 1808.



 

A Obra



A 4ª Sinfonia tem 4 movimentos e dura cerca de 33 minutos. É, possivelmente, a mais negligenciada das 9. Mesmo sendo uma obra carismática, cheia de otimismo e de momentos positivos. Parece que seu pecado foi esse. Queriam outra Eroica, retumbante, brilhante, transgressora. Ou gostaram mais da , apresentada meses depois. A quarta é isso, não se sabe o que ela é. E esquecem que um benefício da Música Clássica é justamente a exploração. Essa exploração está no berço do que fazemos aqui: a análise musical.


Hoje a peça é mais respeitada e procurada. O distanciamento secular e os esforços de vários regentes, que gravaram as versões mais convincentes, trouxeram luz sobre a peça. Vamos a ela.


 

A orquestra é relativamente modesta, provavelmente correspondendo aos instrumentos que a orquestra do conde possuía.


1 Flauta

2 Clarinetes

2 Oboés

2 Fagotes

2 Trompas

2 Trompetes

Tímpanos

Violinos 1

Violinos 2

Violas

Violoncelos

Contrabaixos


Abaixo, nosso vídeo guia com a Orquestra Sinfônica da Rádio de Frankfurt (hr-Sinfonieorchester) e o regente Andrés Orozco-Estrada.


I. Adagio – Allegro vivace (38s)


Introdução


A obra começa com uma misteriosa introdução, em tons escuros. Sobre uma nota longa da Flauta, dos Clarinetes, Fagotes e Trompas, as cordas fazem uma melodia de vai-e-volta. Repare que ela começa toda em legato. Mas logo os Violinos continuam numa melodia em staccato (1m02s). Apenas preste atenção nessa seção da música. Ele parece querer descrever o cosmos, o universo.


Outra nota longa das madeiras junto com a melodia medonha das cordas (1m28s). Mais staccatos, dessa vez na orquestra inteira (1m51s). Aos 2m18s, mais uma nota longa. Temos ligeiras subidas de dinâmica, com as cordas em pizzicato. Eles começam a crescer de vez, primeiro sobre uma nota só, mas logo depois, há uma explosão de força na orquestra em em tutti.


Exposição


Quando a música se torna frenética (3m17s), é quando estamos na exposição, em que o compositor vai nos mostrar seus 2 (ou 3) temas principais. A primeira coisa que ouvimos nessa sessão é o Tema A (3m17s). Parece que abandonamos completamente aquele clima soturno da introdução.


O Tema A é alegre e saltitante, aparecendo primeiro nos Violinos I, em staccato e piano. No final (3m20s) o Oboé, os Clarinetes e os Fagotes finalizam a frase. Novos acordes da orquestra em duplo forte fazem vir o Tema A (3m25s) em toda a orquestra, com mais firmeza. Aos 3m47s, disfarçado e enrolado em outras melodias, ouvimos o Motivo, que é desimportante demais para ser um tema, mas que terá importância na obra. Logo uma ponte (3m55s) que nos liga ao outro tema.


O Tema B é, como sempre, contrastante. Aparece aos 4m08s no Fagote, e é imediatamente respondido pelo Oboé e, depois, pela Flauta, em uma espécie de Cânon. É um tema sossegado e sem conflito.


Aos 4m20s começamos uma subida em pianíssimo, depois, crescendo nas cordas, que conduz a um tutti e, então, ao Tema C (4m36s), também em Cânon entre o Clarinete e o Fagote. O Tema C é repetido (4m44s) de imediato, pelos Violinos I e II, com notas dobradas e em Cânon com as Violas, os Violoncelos e os Contrabaixos. Temos, então, mais uma ponte (por volta dos 5m). Está nos levará ao Desenvolvimento.


Repetição - Alguns regentes preferem obedecer a instrução de Beethoven e repetir a Exposição. Nesse caso, toda essa sessão é tocada mais uma vez, de maneira idêntica. Mas não é o que ocorre aqui.



Desenvolvimento


O Desenvolvimento é o momento da música em que o compositor vai mostrar, mesmo que brevemente, suas habilidades de manipulação temática. Ele vai tocar temas em tonalidades diferentes, com ritmos diferentes, vai amarrá-los, pode começar um e terminar outro.


O Tema A logo nos é reapresentado (5m24s), tocado pelos Violinos I e com a mesma resposta do Oboé, dos Clarinetes e dos Fagotes. O Tema A é repetido aos 5m31s. Esse início de Desenvolvimento é semelhante à música que ouvimos na Exposição.


Aos 6m15s surge o Tema B, no Fagote, perseguido pelo Oboé. Escutamos uma transição que nos põe no Tema C (6m43s). Ele é repetido pelos Violinos I e II, Violas e Flauta. Aos 7m21s temos ecos do Tema A, entrecortado, como se disputado pelos Violinos e Violoncelos. Nesta aparição do Tema A, a orquestra vai perdendo força. Aos 7m44s temos a Flauta, pela primeira vez carregando um tema (Tema A).


Aos 7m48s, o Motivo recebe um belo tratamento temático, que alterna notas longas e curtas. Ela passa pelo Violino I, pela Flauta, Clarinete e Fagote, volta nos Violinos, agora, I e II, no Clarinete e, por fim nos Violinos I e II. E o tempo todo ficamos ouvindo pequenas citações ao Tema A.


De súbito, aos 8m04s a orquestra toda aparece de uma vez, em duplo forte. E fica repentinamente fraca, com lindas menções ao Tema A, nas cordas em staccato. Daí, a música fica alternando entre o forte e o piano - era uma característica de Beethoven surpreender o público com esses contrastes.


Perceba que ele traz motivos e recortes de várias melodias, temas ou não, o tempo todo.


Aos 9m04s ocorre uma passagem curiosa. É como se ele estivesse em um quarto escuro, tateando, tentando enxergar. Daí, isso vai crescendo, crescendo e desemboca na luz! Uma luz cintilante e ofuscante, aos 9m21s, com toda a orquestra. É o nosso retorno.


Recapitulação


Na Recapitulação o compositor reapresenta os temas. Aqui podem ocorrer alterações na orquestração e na parte harmônica, mas a Recapitulação foi concebida para ser similar à Exposição.


Aos 9m24s o Tema A é trazido de novo, revigorado, nos Violinos I e II. É repetido pelo Oboé, aos 9m27s. Aos 9m35s ele aparece nos Contrabaixos e vai se desfigurando, através de alterações harmônicas.


Aos 8m59s o Tema B surge no Fagote, seguido pelo Clarinete e pelo Oboé. E aos 10m27s vem o Tema C, no Clarinete em Cânon com o Fagote. Nesse trecho, o maestro Andrés Orozco-Estrada resolveu enfatizar as Trompas, que fazem um belo contracanto. Achei uma boa ideia. Não é uma sonoridade que vemos todo dia, mas acho que, por isso mesmo, deve ser oferecida. É repetido aos 10m33s pelos Violinos I e II e pela Flauta. Aos 10m56s temos a frase de finalização.


Aos 11m08s chegamos ao Coda.



Coda


O Coda é a sessão de encerramento. Não tem nenhum compromisso estrutural ou temático. Sua única peculiaridade é o fato de ser barulhento, pois os compositores geralmente querem terminar o movimento de modo positivo.


Aqui não adianta descrever. São pancadas dos Tímpanos com os Trompetes e as Trompas, a afirmação da tonalidade da obra e acordes bem assertivos, no final.


II. Adagio (12m10s)


O movimento lento da obra é aquele em que o compositor nos demonstra sua capacidade melódica. Ele costuma ser sereno e bonito. Aqui, não se aplica a Forma Sonata (a estrutura do primeiro movimento, com Introdução, Exposição, Desenvolvimento, Recapitulação e Coda), e ele pode ter várias formas.


O Adagio começa com uma pulsação marcada pelos Violinos II. Essa marcação percorrerá todo o movimento. Logo, aos 12m15s, aparece, nos Violinos I, com belos contracantos das Violas, o Tema A. É uma melodia de notas longas e cantabile. Este tema terá desdobramentos inimagináveis. Aos 12m34s os Violinos I tocam a segunda parte do Tema. Aos 12m56s a Flauta repete o Tema A com o lindo auxílio de Clarinetes, Fagotes e Trompas.


Aos 13m34s a pulsação muda, marcada, agora, por ondulações dos Violinos II, Violas e Violoncelos. Nessa parte ouvimos, também, os Tímpanos, com Trombones e Trompa (por algum motivo, entre o Classicismo e o começo do Romantismo, os compositores sempre apoiavam os Tímpanos com instrumentos de metal).


A melodia que a Flauta faz aos 13m50s não chega a ser temática. A peça segue com uma orquestração maravilhosa: nítida e transparente.


Aos 14m22s o Clarinete nos traz o lírico e alongado Tema B e finalizando em piano. A frase é entrecortada, ele dá umas pausas e vai terminá-la aos 14m38s. Os Violinos ficam fazendo figurações que lembram o primeiro movimento. Esse trecho termina aos 15m03s. Que é quando a orquestra entra, em tutti, para fazer a frase final.


Os Violoncelos fazem uma variação sobre o Tema A, aos 15m07s, ajudados pelas Violas e, então, os Violinos II e I. Perceba que a pulsação do começo do movimento voltou de várias formas: em outros instrumentos e com outras notas. Aos 15m34s a harmonia muda para o acorde da dominante.


Aos 15m50s ressurge, tranquilo, o Tema A. Aos 16m30s ele faz que vai repetir, mas a astúcia de Beethoven nos traz o Tema A (16m33s) em tom menor, aumentando muito a carga de intensidade do movimento. A orquestração também é exótica, o Tema declarado pelo Trompete.


É um trecho tipicamente Beethoveniano, com os Trompetes, os Tímpanos, o acompanhamento pesado, a mudança de tom, acordes dissonantes, a dramaticidade.


Aos 16m55s temos uma parada para os Violinos I e II pincelarem um Motivo. Até que, aos 17m25s, o Fagote intervém, com o motivo da pulsação. Ele serve de acompanhamento para a entrada do Clarinete, com o Tema A, mas só parte dele. Mas aos 17m54s Beethoven novamente deixa a Flauta tocar o Tema A de forma variada e, dessa vez, de maneira mais plena.


Temos belos momentos de alternância entre o tranquilo e o aflito. O final é bastante Mozartiano, inclusive na orquestração.


A peça termina de forma agradável, com acordes firmes ressoando por toda a orquestra.



III. Scherzo e Trio: Allegro Molto e vivace (22m05s)


Scherzo e Trio é, geralmente, o terceiro movimento de uma obra grande (com muitos movimentos, como uma Sinfonia, uma Sonata, um Concerto, um Quarteto de Cordas). Ele tem uma estrutura semelhante à A-B-A: Scherzo-Trio-Scherzo. Ele veio substituir o Minueto-Trio-Minueto. Beethoven foi o primeiro compositor a usá-lo em larga escala. É uma peça curta, rápida e com um Trio caracteristicamente mais calmo.


Scherzo

Esse Scherzo, especificamente, é elétrico. Começa com o Tema A, aos 22m06s, com uma série de acordes bárbaros seguidos por um diálogo entre Clarinete e Fagote e as cordas. Ora doce, outras, mais agitado. Esse trecho é repetido (22m18s).


Aos 22m30s o Tema A aparece de forma mais burlesca, na Flauta e Violinos I. E, depois de algumas deliberações, ele surge em seu primeiro formato (22m49s). Aos 23m11s o Tema A aparece sendo brincado pela orquestra.


Trio

Aos 23m52s o Oboé assume o Tema B, ou Tema do Trio. Os Violinos interferem na frase do Oboé, com sutis gracejos. Aos 24m06s o Tema B volta. Aos 24m46s a orquestra quase inteira entra para fazer o final do Tema B, encerrando o Trio. A partir daí, reduzindo a dinâmica (chegando a pianíssimo).



Scherzo

O novo Scherzo apresenta seu Tema A logo de cara (25m03s). Este trecho é semelhante ao Primeiro Scherzo, com o Tema A aparecendo ora brincante, ora com força.


Aos 26m49s temos a finalização do Tema A. E, aos 27m28s temos uma breve Codeta encerrando o movimento com um acorde em tutti e fortissimo.



IV. Allegro Ma Non Troppo (27m42s)


O Finale, o último movimente, é considerado tão importante quanto o primeiro. Ele é uma síntese, não musical, mas de humores, da peça. Um finale pode ter várias formas, inclusive a forma sonata. Não é o caso, aqui.


Começamos o Allegro Ma Non Troppo com um Tema A em pianíssimo ao qual logo seguem acordes em fortissimo.


O caráter desse movimento, Beethoven o criou e apelidou de Aufgeknöpft (desabotoado).


Aos 28m12s o Oboé anuncia o Tema B. Ele é retomado pelos Violoncelos, aos 28m18s. Mais contrastes.


Aos 28m35s temos uma célula de finalização que ainda não havia aparecido em todo o movimento. Ela é repetida aos 28m41s, ligeiramente dissonante e ameaçadora. Mas o que vem dela é uma frase graciosa da Flauta (28m44s). Aos 28m51s a música uma endoidada que vai resvalar no Tema A, nos Violinos (29m04s).


A música fica brincando com seus temas. É um trecho muito colorido, em que Beethoven flerta com o humor. Temos a aparição de Temas, Motivos, modulações e as mais diversas técnicas de composição para tornar o Finale o mais interessante possível. Vários instrumentos Solo aparecem. A sinfonia se encerra com uma versão de brincadeira do triunfo, aos 33m59s.

 

Os Períodos de Beethoven


Vamos lembrar, para facilitar a apreciação, dos três períodos de Beethoven. Tecnicamente ele em si pertence ao período de Transição entre o Classicismo e o Romantismo. Mas isso nos dá uma noção errada, a de que toda a sua obra é transicional. A verdade é que as coisas se dividem mais ou menos assim:



Primeiro Período - De 1792, quando abandonou sua cidade de Bonn e foi morar em Viena, até 1802. Podemos chamá-lo de Período Clássico. No começo dele, o compositor ainda era um aprendiz de Joseph Haydn e ganhou muita notoriedade na Áustria como pianista. No final do período ele já estava compondo com confiança, obras até um pouco chocantes, pelo uso das dinâmicas extremas, de texturas orquestrais densas e ritmos surpreendentes. Nessa época ele escreveu os 2 Primeiros Concertos para Piano e Orquestra, os 3 Primeiros Trios para Piano (Op. 1), os primeiros 6 Quartetos de Cordas (que são pilares do repertório), o Septeto, para Clarinete, Fagote, Trompa, Violino, Viola, Violoncelo e Contrabaixo, as Sinfonias Nos. 1 e 2 (que o elevaram o status a maior promessa musical desde Mozart), e as 12 Primeiras Sonatas para Piano. Também começou a ensinar alunos que tornar-se-iam músicos influentes, como Ferdinand Ries e Carl Czerny. Podemos dizer que, aqui, ele era um compositor do Classicismo.



Testamento de Heiligenstadt
Testamento de Heiligenstadt.

Segundo Período - Conhecida como sua Fase Heroica, é marcada por evoluções composicionais de Beethoven. Eu considero essa fase plenamente Romântica. Ela durou de 1802 a 1812 e foi durante ela que Beethoven compreendeu que ficaria surdo, entrando em forte crise. E foi passar um tempo em um lugar mais agradável, sob sugestão do médico de ouvido. Era em Viena, mesmo. Um bairro afastado chamado Heiligenstadt, onde Beethoven permaneceu de abril a outubro de 1802. Lá ele escreveu uma carta para seus 2 irmãos chamada Testamento de Heiligenstadt, mas nunca a enviou, guardando, posteriormente, em seu birô, em Viena, e só seria tornada pública depois de sua morte. Nela ele fala sobre a luta com o ouvido, sobre fortes pensamentos suicidas, mas, sobretudo, da sua vontade de superar tudo isso e poder cumprir seu destino musical. E a primeira obra que completou após escrever o testamento foi a Sinfonia Nº 3 "Eroica". Ela é um marco na história da música. Se existe um ponto em que possamos dizer "aqui, acabou o Classicismo e começou o Romantismo", é esse. Ousada, com sons muito fortes, uma Marcha Fúnebre como segundo movimento, acordes dissonantes, acordes dissonantes destacados, cumprimento exagerado e a jornada emocional, tudo isso a torna uma peça extremamente especial. Outras obras do período incluem: Sinfonias 4, 5, 6, 7, 8; os 3 Últimos Concertos para Piano e Orquestra, os Quartetos Razumovsky (o , o e o ), o Concerto para Violino e Orquestra, o Trio Com Piano "Arqueduque", a Missa Solemnis e Sonatas para Piano até a Nº 26 "O Adeus". Foi nesse Segundo Período que Beethoven foi mais famoso, ainda que os problemas de audição tornassem difícil a ele tocar piano em público e até conversar. Aos poucos ele foi se tornando ranzinza e antissocial. Mas foi isso que ocorreu, Beethoven inventou o Romantismo na música.



Terceiro Período - Este misterioso e surreal período começou em algum ponto da década de 1810. O recluso Beethoven resolve estudar contraponto Renascentista e Música Barroca, analisando árduos corais de Johann Sebastian Bach e Georg Friedrich Händel e obras de Giovanni Pierluigi da Palestrina. Essas influências se refletiram na sua arte, que passou a incorporar Fugas e Polifonia. Beethoven lutava, desde a morte de seu irmão Kaspar, em 1815, contra a sua cunhada viúva, Johanna van Beethoven, que ele julgava obscena, suja e incapaz de ter custódia do filho do casal, o jovem Karl van Beethoven. Foi uma batalha de anos e ele deve ter odiado a moça, pois, em 1816, conseguiu a custódia do rapaz e jamais deixou que ele a visse. Nas constantes batalhas judiciais que se sucederam, chegou a subornar um juiz e dois membros do tribunal de apelação. Em 1820 as tentativas no tribunal cessaram, pois causavam ao menino um desgaste emocional enorme. Depois que o jovem tentou se matar a custódia foi totalmente garantida a Beethoven. Era uma relação obsessiva, com muito abuso emocional, contratação de amigos de Karl para espioná-lo e tudo mais. Em 1827 Beethoven morreu e Karl só pediu licença do Exército para ir ao funeral, três dias depois. Mas Johanna estava lá, no seu leito de morte. Suas últimas palavras foram "nem mais um fôlego, nem um fôlego mais". Uma autópsia revelou que ele tinha o fígado muito comprometido. Beethoven teve um enterro como Viena jamais testemunhara, com 20.000 (possivelmente muito mais) cidadãos acompanhando a procissão. O compositor Franz Schubert, que jamais tivera coragem de se apresentar a ele, foi um dos carregadores da tocha. Suas obras finais são a Sinfonia Nº 9 "Coral"; A Vitória de Wellington (em comemoração à vitória do Marquês de Wellington contra as forças de Joseph Bonaparte); As Ruínas de Atenas, para orquestra; a Abertura Rei Estêvão; a Cantata Mar Calmo e Viagem Próspera; A Consagração da Casa, para coro e orquestra; os Seis Últimos Quartetos de Cordas; Fuga para Quinteto de Cordas; as últimas 2 Sonatas para Violoncelo e Piano (a e a); As Variações Diabelli e suas 6 Últimas Sonatas para Piano Solo. Nesse período o Beethoven Clássico estava distante. Ora, o Beethoven Romântico fora superado. Diz-se que sua música, agora, era Pós Moderna. Nesse período Beethoven falava com o cosmos.


O enterro de Beethoven em Viena, por  Franz Xaver Stöber
O enterro de Beethoven em Viena, por Franz Xaver Stöber.

Ele esteve parcialmente surdo por toda a sua vida adulta, e completamente surdo nos últimos 12 anos de vida. Ele conseguia compor porque tinha o ouvido interno muito bem treinado e eficiente. Conseguia imaginar todas as notas.


 

Gravações recomendadas


É tão fácil ver a 4ª Sinfonia em um CD com apenas uma outra Sinfonia quanto em caixas de 10 CDs com a Integral das Sinfonias.


- Herbert Blomstedt, regendo a Orquestra do Gewandhaus de Leipzig - A gravação mais recente de Blomstedt (de 2014 a 2017) (o maestro tem hoje 96 anos), essa com a Gewandhaus é perfeita. Tenho que ser sincero, perfeita, mesmo. Nas acentuações rítmicas, na precisão com que a orquestra toca notas que são difíceis de sair ao mesmo tempo. E sobretudo o som da Gewandhaus, uma das melhores orquestras para repertório alemão do Romantismo. É uma joia. E está lá no Spotify.


- Cyprien Katsaris, piano (versão transcrita por Franz Liszt) - Essa daqui eu incluí como curiosidade. Em 1864, portanto, quase quarenta anos após a morte de Beethoven, o compositor e pianista húngaro Franz Liszt (1811-1886) empreende pegar todas as Sinfonias do mestre e transcrevê-las para piano. O camarada Cyprien Katsaris aqui, um especialista em transcrições, toca da maneira mais sinfônica que eu já vi, preocupando-se com os contrastes e aplicando um som suficientemente gordo onde necessário. As gravações (de todas as sinfonias) foram feitas entre 1982 e 1989.


- Paul Kletzki, conduzindo a Orquestra Filarmônica Tcheca - Os registros com a Filarmônica Tcheca são sempre uma excelente escolha. Trata-se de um conjunto que tem todas as qualidade de orquestras como a Filarmônica de Berlim, ou de Viena, só que com um bônus: sua sonoridade peculiar. Deveria ser considerado Patrimônio Cultural da Humanidade. Repare que, embora ela toque afinado e com precisão rítmica, seu som é áspero e sem polimento. Tudo no bom sentido. Essa gravação, de 1965, é altamente recomendável.


- Georg Solti, regendo a Orquestra Sinfônica de Chicago - Solti, então regente principal da Sinfônica de Chicago, demorou a gravar sua integral das sinfonias de Beethoven. Mas quando o fez, foi arrasador. Tirava um som ora aveludado ora áspero da orquestra. No final das contas, quase todas as sinfonias foram consideradas superlativas. A quarta é uma das que gosto mais, sendo que eles tocam com mais vigor que outras versões por aqui. A gravação é de 1988.


- Mikhail Pletnev, regendo a Orquestra Nacional Russa - A orquestra toca muito e seu som é cristalino, transparente. Parece que tem menos instrumentos, deixando a textura mais limpa. Pletnev sabe fazer os climas e atmosferas de que precisamos. Gravação excepcional, de 2012.


- Emmanuel Krivine, regendo La Chambre Philharmonique - Essa é a única gravação com interpretação com instrumentos de época que vou recomendar. É a melhor. Há outras boas: Nikolaus Harnoncourt com o Concentus Musicus Wien (2 vezes), Christopher Hogwood, com a Academy of Ancient Music e John Eliot Gardiner, com a Orchestre Révolutionnaire et Romantique. Mas repito, esta é a melhor. A orquestra é muito afiada e precisa e Krivine tem uma atuação magistral. É de 2009-2010.


- Giovanni Antonini, com a Kammerorchester Basel - Essa versão se aproxima um pouco da de Krivine, não que ele use instrumentos de época, mas escolheu uma orquestra de câmara. Com isso, tem menos instrumentos nos naipes de cordas, deixando a sonoridade do conjunto cristalina. A interpretação é muito bem pensada, até os andamentos são escolhidos com sabedoria.


- Iván Fischer, com a Orquestra Festival de Budapest - Fischer montou a orquestra que quis, em Budapeste. Recrutou os melhores instrumentistas da Europa e, desde sua estreia, a orquestra foi um sucesso, arrancando críticas positivas por onde passa e a cada CD que lança. Nesta gravação ela se prova muito eficiente. O som gravado é excepcional. A gravação foi lançada em 2010.




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