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Átila, o Huno

  • Foto do escritor: Rafael Torres
    Rafael Torres
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Por Rafael Torres


Fiquem com mais um dos meus "Contos Medonhos e Desarranjados, Opus 1 - A Ilha Vermelha", que, a despeito do título, é um romance.


Gabriel era um ser sem órgãos. Sem membros, sem sentidos e sem memória. Sua própria consciência teimava em regressar. Regressar para o indesejável presente. E ele lutava para continuar caindo. Uma dor excruciante percorria seu corpo fluido, mas, logo, passava.


O som de música parecia vir de sua cabeça. De onde vinha? Imaginação? E a música ia se tornando mais e mais definitiva, drástica, crucial, em um crescendo orquestral de rara maravilha.


Na escuridão quase total, ele definia o que parecia ser uma janela, ou um espelho, com passagens fugidias da lua.



Repentinamente, a luz se acendeu. Mas a visão de Gabriel era turva. Reconheceu que estava no banheiro. Na banheira. Via o que parecia ser um homem todo de preto, encostado à parede, no fundo do banheiro. Era Átila, o Huno. Ele tinha certeza. E então, de dentro do homem, aparentemente, saiu outro Átila, em trajes claros e de pele escura. (Ou seria Djalma? Parecia com o Djalma, mas um Djalma herói, épico.)


Essa figura se aproximou e lhe removeu os fones. A boca de Gabriel proferiu, quase à revelia:


Perdão, Djátila, eu só queria... eu só queria... — A frase acabava dolorosamente aí.


— Eu sei, Gabriel, mas ainda não é sua hora. Hoje, não é você que decide — e pareceu retirar uma corrente do próprio pescoço e colocar no de Gabriel, que imediatamente foi sugado à realidade.


A luz apagou. A porta do banheiro foi aberta à força por seu pai e a luz, reacesa. As duas figuras tinham sumido. Os pais de Gabriel miraram, aflitos, o garoto nu dentro de uma banheira cheia de sangue.


Gabriel olhou para os pulsos, estavam sarados. Seu teor de sangue também parecia ter se restaurado, já que se sentia vigoroso e sem sono. Estava bem, ao menos fisicamente, como raramente estivera.


O que aconteceu aqui? — perguntou o pai.


Átila, o Huno, saiu de dentro de si e... — Sua mente foi se acalmando. — Eu estou bem. Perdi pouco sangue, já estancou. — Uma tristeza conhecida e ancestral deu o ar da graça, mas não o abateu.


Seus pais ficaram com uma impressão menos traumática do evento do que este merecia. Achavam que Gabriel tinha se cortado, talvez, de modo experimental, mas as marcas na mão não mentiam. Não se viam cicatrizes.


Apenas Gabriel ficou sem entender por que naquela noite fora visitado por Átila, um negro vestido de branco, saído da barriga de um branco vestido de negro. Seriam os dois avessos da mesma pessoa? Teriam vindo mesmo? Será que não fora tudo um delírio?


E como não havia cicatriz? Ele havia cravado fundo o punhal em ambos os pulsos...

 

Continua...



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A Arara Neon é um blog sobre artes, ideias, música clássica e muito mais. De Fortaleza, Ceará, Brasil.

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